Joana d'Arc Léon Denis Índice Introdução Vida e mediunidade de Joana d'Arc. I domremy. II a situarão em 1429 III infância de Joana d'Arc IV a mediunidade de Joana d'Arc; o que eram suas vozes



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Joana d'Arc Léon Denis Índice Introdução Vida e mediunidade de Joana d'Arc. I - Domremy. II - A situarão em 1429 III - Infância de Joana d'Arc IV - A mediunidade de Joana d'Arc; o que eram suas vozes; fenômenos análogos, antigos e recentes V - Vaucouleurs VI - Chinon, Poitiers, Tours VII - Orleães VIII - Remos IX - Compienha X - Ruão; a prisão XI - Ruão; o processo XII - Ruão; o suplício As missões de Joana d'Arc XIII - Joana d'Arc e a idéia de pátria XIV - Joana d'Arc e a idéia de humanidade XV - Joana d'Arc e a idéia de religião XVI - Joana d'Arc e o ideal céltico XVII - Joana d'Arc e o Espiritualismo moderno XVIII - Retrato e caráter de Joana d'Arc XIX - Gênio militar de Joana d'Arc XX - Joana d'Arc e o século XX; seus admiradores é seus detratores XXI - Joana d'Arc no estrangeiro Conclusões Notas de Rodapé Introdução Nunca a memória de Joana d'Arc foi objeto de controvérsias tão ardentes, tão apaixonadas, como a que, desole alguns anos, se vêm levantando em torno desta grande figura do passado. Enquanto de um lado, exaltando-a sobremaneira, procuram monopolizá-la e encerrou-lhe a personalidade no paraíso católico, de outro, por ora brutal com Thalamas e Henri Bérenger, ora hábil e erudita, servida por um talento sem par, com Anatole France, esforçam-se por lhe amesquinhar o prestígio e reduzir-lhe a missão às proporções de um simples fato episódico. Onde encontraremos a verdade sobre o papel de Joana d'Arc na história? A nosso ver, nem nos devaneios místicos dos crentes, nem tão pouco nos argumentos terra-a-terra dos críticos positivistas. Nem estes, nem aqueles parecem possuir o fio condutor, capaz de guiar-nos por entre os fatos que compõem a trama de Mo extraordinária existência. Para penetrar o mistério de Joana d'Arc, afigura-se-nos preciso estudar, praticar longamente as ciências psíquicas, haver sondado as profundezas do mundo invisível, oceano de vida que nos envolve, onde emergimos todos ao nascer e onde mergulharemos pela morte. Como poderiam compreender Joana escritores cujo pensamento jamais se elevou acima do âmbito das contingências terrenas, do horizonte estreito do mundo inferior e material, e que jamais consideraram as perspectivas do Além? De há cinqüenta anos, um conjunto de fatos, de manifestações, de descobertas, projeta luz nova sobre os amplos aspectos da vida, pressentidos desde todos os tempos, mas sobre os quais só tínhamos até aqui dados vagos e incertos. Graças a uma observação atenta, a uma experimentação metódica dos fenômenos psíquicos, vastos e poderosa ciência pauto a pouco se constitui. O Universo nos aparece como um reservatório de forças desconhecidas, de energias incalculáveis. Um infinito vertiginoso se nos abre ao pensamento, infinito de realidades, de formas, de potências vitais, que nos escapavam aos sentidos, algumas de cujas manifestações já puderam ser medidas com grande precisão, por meio de aparelhos registradores (1). A noção do sobrenatural se esboroa; mas, a Natureza imensa vê os limites de seus domínios recuarem sem cessar, e a possibilidade de uma vida orgânica invisível, mais rica, mais intensa do que a dos humanos, se revela, regida por majestosas leis, vida que, em muitos casos, se mistura com a nossa e a influencia para o bem ou para o mal. A maior parte dos fenômenos do passado, afirmados em nome da fé, negados em nome da razão, podem, doravante receber explicação lógica, cientifica. São dessa ordem os fatos extraordinários que matizam a existência da Virgem de Orleões. Só o estudo de tais fatos, facilitado pelo conhecimento de fenômenos idênticos, observados, classificados, registados em nossos dias, pode explicar-nos a natureza e a intervenção das forças que nela e em torno dela atuavam, orientando-lhe a vida para um nobre objetivo. * Os historiadores do século XIX - Michelet, Wallon, Quicherat, Henri Martin, Siméon, Luce, Joseph Fabre, Vallet de Viriville, Lanéry d'Arc, foram acordes em exaltar Joana, em, considerá-la uma heroína de ,gênio, uma espécie de messias nacional. Somente no século XX a nota crítica se fez ouvir e por vezes violenta. Thalamas, professor substituto da Universidade, teria chegado a ponto de qualificar de “ribalda” a heroína, conforme a acusação que lhe atiram certas folhas católicas? Ele se defende. Em sua obra Jeanne d'Arc; l'histoire et Ia légende” (Paclotc E C. editores) jamais sai dos limites de uma crítica honesta e cortês. Seu ponto de vista é o dos materialistas: “Não nos cabe a nós, diz (pág. 41), que consideramos o gênio uma neurose, reprovar a Joana o ter objetivado em santas as vozes de sua própria consciência.” Todavia, nas conferências que fez através da França, foi geralmente mais incisivo. Em tírones (Tours), a 29 de Abril de 1905, falando sob os auspícios da Liga do Ensino, recordava a opinião do professor Robin, de Cempuis, um de seus mestres, segundo quem Joana d'Arc nunca existira, não passando de mito a sua história. Thalamas, talvez um tanto constrangido, reconhece a realidade da vida de Joana, mas acomete as fontes em que seus panegiristas beberam. Engendra amesquinhar-lhe o papel, sem descer a injuriá-la. Nada, ou muito pouco teria ela feito de si mesma. Aos Orleaneses, por exemplo, cabe todo o mérito de se haverem libertado. Henri Bérenger e outros escritores abundaram em apreciações análogas, e o próprio ensino oficial como que se impregnou, até certo ponto, dessas opiniões. Nos manuais das escolas primarias, eliminaram da história de Joana tudo que trazia cor espiritualista. Neles não mais se amole às suas vozes; é sempre “a voz de sua consciência.” que a guia. Sensível a diferença. Anatole, em seus dois volumes, obra de arte e de inteligência, não vai tão longe. Não tenta deixar de reconhecer-lhe as visões e as vozes. Aluno da Escola de Chartes, não ousa negar a evidência, ante a documentação que lhe sobeja. Sua obra é uma reconstituição fiel da época. A fisionomia das cidades, das paisagens e dos homens do tempo, ele a pinta com mão de mestre, com uma habilidade, urna finura de toque, que lembram Renas. Entretanto, a leitura de seu escrito nos deixa frios e desapontados. As opiniões que emite são às vezes falsas, por efeito do espírito de partido, e, coisa mais grave, sente-se, varando-lhe a página, unia ironia sutil e penetrante, que já não é história. Em verdade, o juiz imparcial deve dar testemunho de que Joana, exaltada pelos católicos, é deprimida pelos livres pensadores, menos por ódio do que por espírito de contradição e de oposição aos primeiros. A heroína, disputada por uns e outros, se torna assim urna espécie de joguete nas mãos dos partidos. Há excessos nas apreciações de ambos os lados e a verdade, como quase sempre, eqüidista dos extremos. O ponto capital da questão é a existência de forças ocultas que os materialistas ignoram, de potencias invisíveis, não sobrenaturais e miraculosas, como pretendera, mas pertencentes a domínios da natureza, que ainda não exploraram. Daí, a impossibilidade de compreenderem a obra de Joana e os meios pelos quais lhe foi possível realizá-la. Não souberam medir a enormidade dos obstáculos que avultavam diante da heroína. Pobre menina de dezoito anos, filha de humildes camponeses, sem instrução, não sabendo o A-B-C, diz a crônica, ela vê contra si a própria família, a opinião pública, toda a gente! Que teria feito sem a inspiração e sem a visão do Além, que a sustentavam? Figurai essa camponesa na presença dos nobres do reino, das grandes damas e dos prelados. Na corte, nos acampamentos, por toda parte, simples vilã, vinda do fundo dos campos, ignorante das coisas da guerra, com seu sotaque defeituoso, cumprem-lhe afrontar os preconceitos de hierarquia e de nascimento, o orgulho de casta; depois, mais tarde, os chascos, as brutalidades dos guerreiros, habituados a desprezar a mulher, não podendo admitir que uma os comandasse e dirigisse. Juntai a isto a desconfiança dos homens da Igreja, que, nessa época, viam em tudo que é anormal a intervenção do demônio; esses não lhe perdoarão obrar com exclusão deles, mau grado à autoridade que se arrogavam, e aí estará, para ela, a causa principal de sua perda. Imaginai a curiosidade malsã de todos e particularmente dos soldados, no meio dos quais, virgem sem mácula, tem que viver constantemente, suportando as fadigas, as penosas cavalgadas, o peso esmagador de uma armadura de ferro, dormindo no chão, sob a tenda, pelas longas noites do acampamento, presa dos acabrunhadores cuidados e preocupações de tão árdua tarefa. Todavia, durante sua curta carreira, vencerá todos os obstáculos e, de um povo dividido, fragmentado em mil facções, desmoralizado, extenuado pela fome, pela peste e por todas as misérias de uma guerra que dura há perto de cem anos, fará uma nação vitoriosa. Eis aí o que escritores de talento, mas cegos, flagelados por uma cegueira psíquicas e morais, que é a piar das enfermidades intelectuais, procuram explicar por meios puramente materiais e terrenos. Pobres explicações, pobres claudicastes, que não resistem ao exame dos fatos! Pobres almas míopes, almas de trevas, que as luzes do Além deslumbram e tonteiam! E a elas que se aplica esta sentença de um pensador: o que sabem não passa de um nada e, com o que ignoram, se criaria o Universo! Coisa deplorável: certos críticos da atualidade como que experimentam a necessidade de rebaixar, de diminuir, de nulificar com frenesi tudo que é grande, tudo que paira acima de sua incapacidade moral. Onde quer que brilhe um luzeiro, ou uma chama se acenda, haveis de vê-los acorrer e derramar um dilúvio d'água sobre o foco luminoso. Ah! Como Joana, na ignorância das coisas humanas, mas com a sua profunda visão psíquica, lhes dá uma lição magnífica por estas palavras que dirigia aos examinadores de Poitiers e que tão bem quadram aos cépticos modernos, aos pretensiosos espíritos superiores de nosso tempo: “Leio num livro em que há mais coisas do que nos vossos!” Aprendei a ler nele também, senhores contraditores, e a conhecer os problemas a que aquelas palavras aludem; em seguida, podereis, com um pouco mais de autoridade, falar de Joana e de sua obra. Através das grandes cenas da História, cumpre vejais passar as almas das nações e dos heróis. Se as souberdes amar, elas virão a vós e vos inspirarão. E' esse o arcano do gênio da História. É isso o que produz os escritores pujantes como Michelet, Henri Martin e outros. Esses compreenderam o gênio das raças e dos tempos e o sopro do Além lhes perpassa nas páginas Os outros, Anatole France, Lavísse e seus colaboradores são áridos e frios, mau grado ao talento, porque não sabem, nem percebem a comunhão eterna que fecunda a alma pela alma, comunhão que constitui o segredo dos artistas de escol, dos pensadores e dos poetas. Sem ela, não há obra imperecível. * Fonte abundante de inspiração jorra do mundo invisível por sobre a Humanidade. Liames estreitos subsistem entre os homens e os desaparecidos. Misteriosos fios ligam todas as almas e, mesmo neste mundo, as mais sensíveis vibram ao ritmo da vida universal. Tal o caso da nossa heroína. Pode a crítica atacar-lhe a memória: inúteis serão seus esforços. A existência da Virgem da Lorena, como as de todos os grandes predestinados, está burilada no granito eterno da História, nada poderia esmaecer-lhe os traços. E' daquelas que mostram com a evidência máxima, por entre a onda tumultuosa dos eventos, a mão soberana que conduz o mundo. Para lhe surpreendermos o sentido, para compreendermos a potestade que a dirige, é mister nos elevemos até à lei superior, imanente, que preside ao destino das nações. Mais alto do que as contingências terrenas, acima da confusão dos feitos oriundos das liberdades humanas, precisas são se perceba a ação de uma vontade infalível, que domina as resistências das vontades particulares, dos atos individuais, e sabe rematar a obra que empreende. Em vez de nos perdermos na balbúrdia dos fatos, necessários é lhes apreendamos o conjunto e descubramos o laço oculto que os prende. Aparece então a trama, o encadeamento deles; sua harmonia se desvenda, enquanto que suas contradições se apagam e fundem num vasto plano. Compreende-se para logo que existe umas energias latentes, invisíveis, que irradia sobre os seres e que, a cada um deixando certa soma de iniciativa, os envolve e arrasta para um mesmo fim. Pelo justo equilíbrio da liberdade individual e da autoridade da lei suprema é que se explicam e conciliam as incoerências aparentes da vida e da História, do mesmo passo que o sentido profundo e a finalidade de dela e outra se revelam àquele que sabe penetrar a natureza íntima das coisas. Fora desta ação soberana, não haveria mais do que desordem e caos na variedade infinita dos esforços, dos impulsos individuais, numa palavra - em toda a obra humana. De Domremy e Remas (Remas) esta ação se evidencia na epopéia da Pucela. E' que até aí à vontade dos homens se associa, em larga medida, aos fins visados lá do Alto. A partir da sagração, porém, predominam a ingratidão, a maldade, as intrigas dos cortesãos e dos eclesiásticos, a má vontade do rei. Segundo a expressão de Joana, aos homens se recusam a Deus”. O egoísmo, o desregramento, a rapacidade criarão obstáculo à ação divina servida por Joana e seus invisíveis auxiliares. A obra de libertação se tornará mais incerta, inçada de vicissitudes, de recuos e de reveses. Contudo, não deixará de prosseguir, mas reclamará, para seu acabamento, maior número de anos e mais penosos labores. * É, já o dissemos, unicamente do ponto de vista de uma ciência nova, que empreendemos este trabalho. Insistimos em repeti-lo, a fim de que não haja equívoco sobre nossas intenções. Procurando lançar alguma luz sobre a vida de Joana d'Arc, a nenhum móvel de interesse obedecemos, a nenhum preconceito político, ou religioso; colocamo-nos tão longe dos anarquistas, quanto dos reacionários, a igual distância dos fanáticos cegos e dos incrédulos. E' em nome da verdade e também por amor à pátria francesa que procuramos destacar a nobre figura da inspirada virgem, das sombras que tantos trabalham por lhe acumular em torno. Sob o pretexto de análise e de livre crítica, há, ponderamos, em nossa época, uma tendência profundamente lamentável a denegrir tudo o que provoca a admiração dos séculos, a alterar, a conspurcar tudo o que se mostra isento de taras e de nódoas. Consideramos como um dever, que incumbe a todo homem capaz de exercer, por meio da pena ou da palavra, alguma influência 'à volta de si, manter, defender, realçar o que constitui a grandeza do nosso país, todos os nobres exemplos por ele oferecidos ao mundo, todas as belas cenas que lhe enriquecem o passado e cintilam na sua história. Ação má, quase crime, é tentar empobrecer o patrimônio moral, a tradição histórica de um povo. Com efeito, não é isso que lhe dá a força nos momentos difíceis? Não é aí que ele vai buscar os mais viris sentimentos nas horas do perigo? A tradição de um povo e sua história são a poesia de sua vida, seu consolo nas provações, sua esperança no futuro. É pelas ligações que ela cria entre todos, que nos sentimos verdadeiramente filhos de uma mesma mãe, membros de uma pátria comum. Assim, convém lembrar freqüentemente as grandes cenas da nossa história nacional e pô-la em relevo. Ela se mostra cheia de lições brilhantes, ricas de ensinos fecundos e, por este lado, é talvez superior às de outras nações. Desde que exploramos os antecedentes de nossa raça, por toda parte, em todos os tempos, vemos erguerem-se vultosas sombras, que nas falam e exortam. Do fundo dos séculos se elevam vozes que nos avivam notáveis recordações, lembranças tais que, se estivessem presentes sempre ao nosso espírito, bastariam para nos inspirar, para clarear-nos a vida. Mas, o vento do cepticismo sopra e o olvido e a indiferença se fazem; as preocupações da vida material nos absorvem e acabamos por perder de vista o que há de mais grandioso, de mais eloqüente nos testemunhos do passado. Nenhuma, dentre essas lembranças, mais tocante, mais gloriosa do que a da donzela, que iluminou a noite da Idade Média com a sua aparição radiosa, da qual pôde Henri. Martim dizer: “Nada de semelhante ainda se produziu na História, do mundo.” Em nome, pois, do passado, como do futuro de nossa raça, em nome da obra que lhe resta completar, esforcemo-nos por lhe conservar integra a herança e não hesitemos em retificar as opiniões falsas que certos escritores formularam em publicações recentes. Trabalhemos por exaurir da alma do povo o veneno intelectual que se lhe procura inocular, a fim de guardarmos para a França a beleza e a força que ainda a farão grande nas horas de perigo, a fim de restituirmos ao gênio nacional todo o seu, prestígio, todo o seu esplendor, ofuscados por tantas teorias malfazejas e tantos sofismas. * Forçoso é reconhecer que no mundo católico, melhor que algures, têm sabido render a Joana homenagens solenes. Nos meios crentes, louvam-na e a glorificam, erigem-lhe estábias e basílicas. De seu lado, os republicanos livres-pensadores imaginaram, recentemente, criar em sua honra uma festa nacional, que seria ao mesmo tempo a do patriotismo. Porém, num campo como noutro, nunca lograram compreender o verdadeiro caráter da heroína, entender o sentido de sua vida. Poucos hão sabido analisar essa admirável figura que se alça acima dos tempos e domina as mais elevadas concepções da epopéia essa figura que nos parece mais imponente à proporção que dela nos afastamos. A história de Joana é inesgotável mina de ensinamentos, cuja extensão total ainda se não mediu e da qual se não tirou ainda todo o partido desejável para a elevação das inteligências, para a penetração das leis superiores da Alma e do Universo. Há, em sua vida, profundezas capazes de causar vertigem aos espíritos mal preparados; nela se deparam fatos suscetíveis de lançar a incerteza, a confusão, no pensamento carecem dos dados necessários para resolver tão majestoso problema. Daí, tantas discussões estéreis, tantas polêmicas inúteis. Mas, para aquele, que levantou o véu do mundo invisível, a vida de Joana se aclara e ilumina. Tudo que essa vida contém se explica, se torna compreensível. Falo de discussões. Vede, com efeito, entre os que enaltecem a heroína, quantos pontos de vista diversos, quantas apreciações contraditórias! Uns buscam, antes de tudo, na sua memória, uma ilustração para o partido a que pertencem; outros, mediante uma glorificação tardia, sonham aliviar certa instituição secular das responsabilidades que lhe pesam. Contam-se ainda os que não querem ver nos sucessos de Joana mais do que a exaltação do sentimento popular e patriótico. Parece lícito duvidar-se de que, aos elogios que sobem de todos os pontos da França à grande inspirada, não se mesclem muitas intenções egoísticas, muitos propósitos interesseiros. Pensa-se em Joana, é fora de dúvida; uma Joana; porém, os que dizem querer-lhe - não pensarão ao mesmo tempo em si próprios, ou no partido a. que se filiaram? Não se procurará também nessa vida augusta o que pode lisonjear os sentimentos pessoais, as opiniões políticas, as ambições inconfessáveis? Bem poucos homens, infelizmente, sabe colocar-se acima de seus preconceitos, acima dos interesses de classe ou de casta. Ben, poucos se esforçar por descobrir o segredo daquela existência e, entre os que o penetraram, nenhum até hoje, salvo casos restritos, ousou altear a voz e dizer o que sabia, o que via e percebia. Quanto a mim, se meus títulos são modestos para falar em Joana d'Arc, pelo menos um há que reivindico ativamente: o de estar liberto de qualquer preocupação de partido, de todo cuidado de agradar ou desagradar. E' na liberdade plena de meu pensamento, com a minha consciência independente, isento de qualquer ligação, não procurando, não querendo em tudo senão a verdade, é neste estado de espírito que entro em tão elevado assunto e vou buscar a chave do mistério que envolve tão incomparável destino. PRIMEIRA PARTE Vida e mediunidade de Joana d'Arc I – DOMREMY Encantador o vale; deslumbrante, Ao vivo cintilar da luz esplendorosa, Desliza e brinca uma torrente: o Mosa. SAINT-YVES D'ALVEYDRE Filho da Lorena, nascido como Joana no vale do Mosa, tive a acalentar-me a infância as recordações que ela deixou no país. Durante a minha mocidade, visitei amiúde os lugares onde ela vivera. Aprazia-me vagar por sob as grandes abóbadas das nossas florestas lorenas, outros tantos destroços da antiga floresta das Gália. Como Joana, muitíssimas vezes prestei ouvido às harmonias dos campos e dos bosques. Posso dizer que também conheço as vozes misteriosas do espaço, as vozes que, na solidão, inspiram o pensador e lhe revelam as verdades eternas. Homem feito, quis seguir-lhe as pegadas através da França. Refiz, quase que etapa a etapa, a dolorosa viagem. Vi o castelo de Chinon, onde Carlos VII a recebeu,reduzido hoje a ruínas. Vi, ao fundo da Touraine, a pequenina igreja de Fierbois, donde fez que retirassem a espada de Carlos Martel; vi as grutas de Courtineau, onde buscou refúgio durante uma tempestade; em seguida, Orleães e Reims, Compiègne, onde a prenderam. Em nenhum só lugar por onde a virgem tenha passado deixei de ir meditar, orar, chorar em silêncio. Mais tarde, na cidade de Ruão (Rouen), por sobre a qual adeja a sua sombra imensa, terminei a minha peregrinação. Como os cristãos que percorrem passo a passo o caminho que leva ao Calvário, assim perlustrei a via dolorosa que conduzia a grande mártir ao suplício. Voltei depois a Domremy. Tornei a contemplar a humilde casinha que a viu nascer; o aposento, arejado por estreito respiradouro, cujas paredes seu corpo virginal, destinado à fogueira, roçou; o armário rústico, onde guardava as roupas e o sítio onde, transportada, em êxtase, ouvia as suas vozes; finalmente, a igreja onde tantas vezes orou. Daí, pelo caminho que trepa a colina, cheguei ao lugar sagrado, onde ela gostava de cismar; vi de novo a vinha de que foi dono seu pai, a árvore das fadas e a fonte de suaves murmúrios. Cantava o cuco no bosque pardacento; embalsamavam o ar os perfumes do espinheiro; a brisa agitava a folhagem e sussurrava um como lamento, ao fundo da balsa. A meus pés se desdobravam as campinas risonhas, esmaltadas de flores, irrigadas pelos meandros do Mosa. Defronte, ergue-se abrupta a costa de Juliano, recordação da era romana e do César apóstata. Ao longe, outeiros cobertos de matas, grotas profundas se sucedem, até ao horizonte fugidio; penetrante doçura e serena paz dominam toda a região. E' bem esse o lugar abençoado, propício às meditações; o lugar onde as vagas harmonias do céu se misturam com os longínquos e brandos rumores da terra. Oh! alma sonhadora de Joana! busco aqui as impressões que te envolviam e as encontro vívidas, empolgantes. Elas me enlaçam o espírito e o enchem de pungente embriaguez. E tua vida inteira, epopéia resplandecente, se desenrola ante o meu pensamento, como grandioso panorama, rematado por uma apoteose de chamas. Um instante viveu essa vida e o que meu coração sentiu nenhuma pena humana poderia descrever! . Por trás de mim, como forasteiro monumento, nota discordante nesta sinfonia das impressões e das lembranças, se ostentam a basílica e a escultura teatral onde Joana figura ajoelhada aos pés de um S. Miguel e de duas imagens de santas, opulentas e douradas. Só a estátua da virgem, rica de expressão, toca, interessa, prende o olhar. Um nome se lê gravado no soco, o de Allar. E' obra, essa, de um espírita. A alguma distância de Domremy, sobre um morro escarpado, em meio dos bosques, se oculta a modesta capela de Bermont. Joana aí vinha todas as semanas; seguia a vereda que, de Greux, se estira por sobre o planalto, se some por baixo das copas do arvoredo e passa perto da fonte de São Thiébault. Galgava a colina para se ajoelhar diante da antiga madona, cuja imagem, do século VIII, ainda se venera em nossos dias. Caminhei pensativo, recolhido, por essa pitoresca vereda e atravessei os copados bosques onde-os pássaros gorjeiam. Toda a região está prenhe de lembranças célticas ; lá erigiram nossos pais um altar de pedra. Aquelas fontes sagradas, aquelas austeras sombras da folhagem oram testemunhas das cerimônias do culto druídico. A alma da Gália vive e palpita em tais lugares. Sem dúvida essa alma falava ao coração de Joana d'Arc, como fala ainda hoje ao coração dos patriotas e dos crentes esclarecidos. Levei meus passos mais longe; quis ver, nos arredores, tudo o que participara da vida de Joana, tudo o que no-la traz à memória: Vouthon, onde nascera sua mãe, e a pequena aldeia de Burey-la-Côte, que ainda guarda a casa onde morava seu tio Durant Laxart, que lhe facilitou o cumprimento da missão, levando-a a presença do Senhor de Baudricourt, em Vaucouleurs. A humilde habitação se mantém de pé, com os escudos de flores de lis, que lhe decoram o limiar, porém, transformada em estábulo. Uma simples corrente lhe segura a porta; abro-a e, a meus olhos, um cabrito, encolhido à sombra, faz ouvir sua voz fanhosa e plangente. Errei em todos os sentidos por aquelas redondezas, embriagando-me com a contemplação dos sítios que serviram de quadro à infância de Joana. Percorri os apertados vales que ladeiam o Mosa, cavados por entre matas sombrias. Meditei na solidão, à noitinha, à hora em que canta o rouxinol, quando as estrelas se acendem na amplidão dos céus. Dava atenção a todos os ruídos, a todas as vozes misteriosas da Natureza. Sentia-me, em tais sítios, longe do homem; um mundo invisível me rodeava. A prece, então, irrompeu das profundezas de meu ser; depois, evoquei o Espírito de Joana e logo percebi o amparo e a doçura de sua presença. O ar tremia; tudo à volta de mim parecia iluminar-se; imperceptíveis asas rufiavam na escuridão; desconhecida melodia, baixada dos espaços, embalava-me os sentidos e me fazia correr o pranto. E o Anjo da França ditou-me palavras que, conforme a sua ordem, reproduzo aqui piedosamente: Mensagem de Joana Tua alma se eleva e sente neste instante a proteção que Deus lança sobre ti. Comigo, que a tua coragem aumente, e, patriota sincera, ames e desejes ser útil a esta França tão querida, que, do Alto, como Protetora, como Mãe, contemplo sempre com felicidade. Não sentes em ti nascerem pensamentos de suave indulgência? Junto de Deus aprendi a perdoar mas, esses pensamentos não devem fazer com que, em mim, nasça à fraqueza, e, divino dom! encontro em meu coração força bastante para procurar esclarecer, às vezes, aqueles que, por orgulho, me querem monopolizar a memória. E quando, cheia de indulgência, peço para eles as luzes do Criador, do Pai, sinto que Deus me diz: Protege, inspira, porém jamais faças fusão com os teus algozes. Os padres, recordando teu devotamento à pátria, não devem pedir senão perdão para aqueles cuja sucessão tomaram. Cristã piedosa e sincera na Terra, sinto no Espaço os mesmos arroubos, o mesmo desejo de oração, mas quero minha memória livre e desprendida de todo cálculo; não dou meu coração, em lembrança, senão aos que em mim não vêem mais do que a humilde e devota filha de Deus, amando a todos os que vivem nessa terra de França, aos quais procuro inspirar sentimentos de amor, de retidão e de energia. II - A SITUAÇÃO EM 1429 Jazia a França como em túmulo encerrada! Do seu grande esplendor restava quase nada; Chorosa urna - o Loire, a serpear no Oeste; E o Dauphiné, qual sombra, a Leste. SAINT-YVES D'ALVEYDRE Qual a situação da França no século XV, no momento em que Joana d'Arc vai aparecer na cena da História? A luta contra a Inglaterra dura há perto de cem anos. Em quatro derrotas sucessivas, a nobreza francesa fora esmagada, quase aniquilada. De Crécy a Poitiers e dos Campos de Azincourt aos de Verneuil, nossa cavalaria juncou de mortos o solo. O que dela resta está dividido em partidos rivais, cujas querelas intestinas enfraquecem e acabrunham a França. O duque d'Orleães é assassinado pelos lacaios do duque de Bourgogne, que, pouco mais tarde, é morto pelos Armagnacs. Tudo isto ocorre às vistas do inimigo, que avança passo a passo e invade as províncias do Norte, sendo que já, de muito tempo, ocupa a Guiena. Depois de encarniçada resistência, no curso de um cerco que excede em horror a tudo quanto à imaginação possa engendrar de lúgubre, Rouen teve que capitular. Paris, cuja população é dizimada pelas epidemias e pela fome, está nas mãos dos Ingleses. O Loire os vê nas suas margens. Orleães, cuja ocupação entregaria ao estrangeiro o coração da França, resiste ainda; mas, por quanto tempo o fará? Vastas superfícies do país se encontram mudadas em desertos; as aldeias abandonadas. Só se vêem sarças e cardos brotando livremente das ruínas enegrecidas pelo incêndio; por toda à parte os sinais das devastações da guerra, a desolação e a morte. Os camponeses, desesperados, se ocultam em subterrâneos, outros se refugiam nas ilhas do Líger (Loire), ou procuram abrigo nas cidades, onde morrem famintos. Muitas vezes, tentando escapar à soldadesca, os desgraçados emigram para os bosques, se agrupam em hordas e logo se tornam tão cruéis como os bandidos, a cuja sanha fugiram. Os lobos rondam as cercanias das cidades, nelas penetram à noite e devoram os cadáveres deixados insepultos. Tal “a grande lástima em que se encontra a terra de França”, como à Joana dizem suas vozes. O pobre Carlos VI, em sua demência, assinou o tratado de Troyes, que lhe deserda o filho e constitui Henrique de Inglaterra herdeiro de sua coroa. Enquanto, na Basílica de Saint-Denis, junto ao esquife do rei louco, um arauto proclama Henrique de Lencastre rei da França e da Inglaterra, os restos dos nossos monarcas, sob as pesadas lápides de seus túmulos, certo fremiram de vergonha e de dor. O delfim Carlos, despojado e chamado por irrisão “o rei de Burges (Bourges) “, se entrega ao desânimo e à inércia. Faltam-lhe engenho e valor. Cuida de ganhar a Escócia ou Castela, renunciando ao trono, ao qual pensa não ter talvez direito, pois que o assaltam dúvidas sobre a legitimidade do seu nascimento. E não se ouve senão a queixa lamentosa, o grito de agonia de um povo, cujos vencedores se aprestam para enterrá-lo num sepulcro. A França se sente perdida, ferida no coração. Ainda alguns reveses, e mergulhará no grande silêncio da morte. Que socorro se poderia, com efeito, esperar? Nenhum poder da Terra é capaz de realizar este prodígio: a ressurreição de um povo que se abandona. Há, porém, outro poder, invisível, que vela pelo destino das nações. No momento em que tudo parece abismar-se, ele fará surgir do seio das multidões a assistência redentora. Certos presságios parecem anunciar-lhe a vinda. Já, entre outros sinais, uma visionária, Maria d'Avignon, se apresentara ao rei; vira em seus êxtases, dizia, uma armadura que o céu reservava para uma jovem destinada a salvar o reino (2). Por toda a parte se falava da antiga profecia de Merlin, anunciando uma virgem libertadora, que sairia de Bois Chesnu (3). E como um raio de luz, vindo do alto, em meio dessa noite de luto e de miséria, apareceu Joana. Escutai, escutai! Do extremo dos campos e das florestas da Lorena ressoou o galope de seu cavalo. Ela acorre; vai reanimar este povo desesperado, reerguer-lhe a coragem abatida, dirigir a resistência, salvar da morte a França. III - INFANCIA DE JOANA D'ARC Ao som plangente do Ave-Maria, Vibra a memória sua e do Céu irradia! SAINT-YVES D'ALVEYDRE Ao pé das colinas que bordam o Mosa, algumas choupanas se grupam em volta de modesta igreja; para cima e para baixo, verdes campinas se estendem, que o riozinho de límpidas águas rega. Ao longo das vertentes, sucedem-se plantações e vinhedos, até à floresta profunda, que se eleva qual muralha em frente dos outeiros, floresta cheia de murmúrios misteriosos e de gorjeios de pássaros, donde surgem por vezes, de improviso, os lobos, terror dos rebanhos, ou os homens de guerra, saqueando e devastando, mais perigosos que as feras. E' Domremy, aldeia ignorada até então, mas que, pela criança a cujo nascimento assistiu em 1412, se vai tornar célebre no mundo inteiro. Lembrar a história dessa criança, dessa donzela, constitui ainda o melhor meio de refutar os argumentos de seus detratores. E' o que, antes de tudo, faremos, apegando-nos de preferência às circunstâncias, aos fatos que hão permanecido na obscuridade, alguns dos quais nos foram revelados por via mediúnica. Numerosas obras, primores da ciência e de erudição, se têm escrito sobre a virgem de Lorena. Longe de mim a pretensão de igualá-las. Este livro se distingue de tais obras por um traço característico; ilumina-o, aqui e ali, o pensamento da heroína. Graças às mensagens obtidas dela, em condições satisfatórias de autenticidade, mensagens que se encontram sobretudo na segunda parte do volume, ele se torna como que um eco de sua própria voz e das vozes do Espaço. É por semelhante título que se recomenda a atenção do leitor. * Joana não descendia de alta linhagem; filha de pobres lavradores, fiava a lã junto de sua mãe, ou guardava o seu rebanho nas veigas do Mosa, quando não acompanhava o pai na charrua (4). Não sabia ler nem escrever (5); ignorava todas as coisas da guerra. Era uma boa e meiga criança, amada por todos, especialmente pelos pobres, pelos desgraçados, aos quais nunca deixava de socorrer e consolar. Contam-se, a este respeito, anedotas tocantes. Cedia de boamente a cama a qualquer peregrino fatigado e passava a noite sobre um feixe de palha, a fim de proporcionar descanso a anciães extenuados por longas caminhadas. Cuidava dos enfermos, como por exemplo, do pequeno Simon Musnier, seu vizinho, que ardia em febre; instalando-se-lhe à cabeceira, velava-lhe o sono. Cismadora, gostava, à noite, de contemplar o céu rutilante de estrelas, ou, então, de acompanhar, de dia, as gradações da luz e das sombras. O sussurrar do vento nas ramagens ou nos arbustos, o rumorejo das fontes, todas as harmonias da Natureza a encantavam. Mas, a tudo isso, preferia o toque dos sinos. Era-lhe como que uma saudação do Céu a Terra. E qualquer que fosse o acidente do terreno onde seu rebanho se abrigasse, lá lhes ela ouvia as notas argentinas, as vibrações calmas e lentas, anunciando o momento do regresso, e mergulhava numa espécie de êxtase, numa longa prece, em que punha toda a sua alma, ávida das coisas divinas. Mau grado à pobreza, achava meio de dar ao sineiro da aldeia alguma gratificação para que prolongasse, além dos limites habituais, a canção de seus sinos (6). Penetrada da intuição de que sua vinda ao mundo tivera um fim elevado, afundava-se, pelo pensamento, nas profundezas do Invisível, para discernir o caminho por onde deveria enveredar. “Ela se buscava a si mesma”, diz Henri Martin (7). Ao passo que, entre seus companheiros de existência, tantas almas se mantêm fechadas e, por assim dizer, extintas na prisão carnal, todo o seu ser se abre às altas influências. Durante o sono, seu Espírito, liberto dos laços materiais, se libra no espaço etéreo; percebe-lhe as intensas claridades, retempera-se nas possantes correntes de vida e de amor que aí reinam, e, ao despertar, conserva a intuição das coisas entrevistas. Assim, pouco a pouco, por meio desses exercícios, suas faculdades psíquicas despertam e crescem. Bem cedo vão entrar em ação. No entanto, estas impressões, estes cismares não lhe alteravam o amor ao trabalho. Assídua em sua tarefa, nada desprezava para satisfazer aos pais e a todos aqueles com quem lidava. “Viva o trabalho!” dirá mais tarde, afirmando assim que o trabalho é o melhor amigo do homem, seu amparo, seu conselheiro na vida, seu consolador na provação e que não há verdadeira felicidade sem ele. “Viva o trabalho!” é a divisa que sua família adotará e mandará inscrever-lhe no brasão, quando o rei a houver feito nobre. Até nas insignificantes minúcias da existência de Joana se manifestam um sentimento muito vivo do dever, um juízo seguro, uma clara visão das coisas, qualidades que a tornam superior aos que a cercam. Já se reconhece ali uma alma extraordinária, uma dessas almas apaixonadas e profundas, que descem a Terra para desempenhar elevada missão. Misteriosa influência a envolve. Vozes lhe falam aos ouvidos e ao coração; seres invisíveis a inspiram, dirigem-lhe todos os atos, todos os passos. E eis que essas vozes comandam. Ordens superiores se fazem ouvir. E lhe preciso renunciar à vida tranqüila. Pobre menina de dezessete anos, deverá afrontar o tumulto dos acampamentos! E em que época! Numa época bárbara em que, quase sempre, os soldados são bandidos. Deixará tudo: sua aldeia, seus pais, seu rebanho, tudo o que amava, para correr em socorro da França que agoniza. A boa gente de Vaucouleurs que se apiada de sua morte, que responderá? A Foi para isto que nasci! * A primeira visão se lhe produziu num dia de verão, ao meio-dia. O céu era sem nuvens e o Sol derramava sobre a Terra modorrenta todos os encantos de sua luz. Joana orava no jardim contíguo à casa de seu pai, perto da igreja. Escutou uma voz que lhe dizia: “Joana, filha de Deus, sê boa e cordata, freqüenta a igreja (8), põe tua confiança no Senhor” (9). Ficou atônita; mas, levantando o olhar, viu, dentro de ofuscante claridade, uma figura Angélica, que exprimia ao mesmo tempo a força e a doçura e se mostrava cercada de outras formas radiantes. Doutra vez, o Espírito, o arcanjo S. Miguel, e as santas que o acompanhavam, falam da situação do país e lhe revelam a missão. “E' preciso que vás a socorro do delfim, para que, por teu intermédio, ele recobre o seu reino” (10). Joana a princípio se escusa: “Sou uma pobre rapariga, que não sabe cavalgar, nem guerrear!“ “Filha de Deus, vai, serei teu amparo”, responde a voz. Pouco a pouco seus colóquios com os Espíritos se tornavam mais freqüentes; não eram, porém, de longa duração. Os conselhos do Alto são sempre breves, concisos, luminosos. É o que ressalta de suas respostas nos interrogatórios de Rouen. “Que doutrina te revelou São Miguel?“ perguntam-lhe. “Sobre todas as coisas, dizia-me: “Sê dócil e Deus te ajudará ...“ (11) Isto é simples e sublime ao mesmo tempo e resume toda a lei da vida. Os Espíritos elevados não se comprazem nos longos discursos. Ainda hoje, os que podem comunicar com os planos superiores do Além não recebem mais do que instruções curtas, profundas e marcadas com o cunho de alta sabedoria. E Joana acrescenta: “S. Miguel me ensinou a bem proceder e a freqüentar a Igreja.“ Com efeito, para toda alma que aspira ao bem, a inteireza nos atos, o reconhecimento e a prece são as condições primeiras de uma existência reta e pura. Um dia S. Miguel lhe diz: “Filha de Deus, tu conduzirás o delfim a Reims, a fim de que receba aí sua digna sagração” (12). Santa Catarina e Santa Margarida lhe repetiam sem cessar: “Vai, vai, nós te ajudaremos!“ Estabelecem-se, então, entre a virgem e seus guias, estreitas relações. No seio de seus “irmãos do paraíso”, vai ela cobrar o ânimo necessário para levar a termo sua obra, da qual está inteiramente compenetrada. A França a espera, é preciso partir! Aos primeiros albores de um dia de Inverno Joana se levanta e, já tendo preparado a ligeira bagagem, um embrulhozinho e o bastão de viagem, vem ajoelhar-se ao pé do leito em que ainda repousam seu pai e sua mãe e, silenciosa, murmura em prantos um adeus. Recorda, nesse momento doloroso, as inquietações, as carícias, os desvelos da mãe, os cuidados do pai, cuja fronte a idade já curva. Pensa, no vácuo que a sua partida abrirá, na amargura de todos aqueles com quem até ali partilhara vida, alegrias e dores. Mas, o dever ordena: não faltará à sua tarefa. Adeus, pobres pais! adeus, tu que te encheste de tantos desassossegos por teres visto, em sonho, tua filha na companhia de gentes de guerra! (13) Ela não procederá conforme as tuas apreensões, pois que é pura, pura como o lírio sem mácula; seu coração só conhece um amor: o de seu país. “Adeus, vou a Vaucouleurs”, diz ao passar pela casa do lavrador Gerard, cuja família era ligada à sua. “Adeus, Mengette”, disse a uma de suas companheiras. “Adeus, vós todos com quem convivi até hoje.” Houve, entretanto, uma amiga, de quem evitou despedir-se: a sua querida Hauviette. Os adeuses, por demasiado comoventes, a abalariam talvez e ela precisava de toda a coragem (14). Joana partiu em direção a Burei, onde habitava um de seus tios, para lá ganhar Vaucouleurs e a França. Aos dezessete anos, partiu sozinha debaixo do céu imenso, por uma estrada semeada de perigos. E Domremy nunca mais tornou a vê-la. IV - A MEDIUNIDADE DE JOANA D'ARC; O QUE ERAM SUAS VOZES; FENÕMENOS ANALOGOS, ANTIGOS E RECENTES De pé, banhada em pranto, escuta atentamente Alguma voz do céu, dolente. PAUL ALLARD Os fenômenos de visão, de audição, de premonição, que pontilham a vida de Joana d'Arc, deram lugar às mais diversas interpretações. Entre os historiadores, uns não viram neles mais do que casos de alucinação; outros chegaram a falar de histeria ou neurose. Alguns lhe atribuíram caráter sobrenatural e miraculoso. O fim capital desta obra é analisar tais fenômenos, demonstrar que são reais, que obedecem a leis por muito tempo ignoradas, mas cuja existência se revela cada dia de modo mais imponente e mais preciso. À medida que se dilata o conhecimento do Universo e do ser, a noção do sobrenatural recua e se apaga. Sabe-se hoje que a Natureza é una; porém, que na sua imensidade encerra domínios, formas de vida, que durante largo tempo nos escaparam aos sentidos. Sendo estes, como são, extremamente limitados, não nos deixam perceber senão as faces mais grosseiras e elementares do Universo e da vida. Sua pobreza e insuficiência se manifestaram sobretudo quando foi do invento dos poderosos instrumentos de ótica, o telescópio e o microscópio, que alargaram em todas as direções o campo de nossas percepções visuais. Que sabíamos dos infinitamente pequenos, antes da construção dos aparelhos de aumento? Que sabíamos das inúmeras existências, que pululam e se agitam em derredor de nós e em nós mesmos? Entretanto, isso constitui apenas os baixos da Natureza e, por assim dizer, o substrato da vida. Para o alto se sucedem e escalonam planos sobre os quais se graduam existências cada vez mais sutis, etéreas, inteligentes, com um caráter ainda humano; depois, em certas alturas, angélico, pertencentes sempre, pelo exterior, senão pela essência, aos estados imponderáveis da matéria, estados que, sob muitos aspectos, a Ciência hoje reconhece, como, por exemplo, na radioatividade dos corpos, nos raios de Roentgen, em todo o conjunto das experiências realizadas sobre a matéria radiante. Além dos que, visíveis e tangíveis, nos são familiares, sabemos agora que a matéria também comporta múltiplos e vários estados invisíveis e impalpáveis, que ela. Pouco a pouco se apura, se transforma em força e luz, para tornar-se o éter cósmico dos físicos. Em todos esses estados, sob todos esses aspectos, continua sendo a substância em que se tecem inúmeros organismos, formas de viver de uma inimaginável tenuidade. Num largo oceano de matéria sutil, intensa vida palpita por sobre e em torno de nós. Para lá do circulo apertado das nossas sensações, cavam-se abismos, desdobra-se um vasto mundo desconhecido, povoado de forças e de seres que não percebemos, porém que, todavia, participam de nossa existência, de nossas alegrias e sofrimentos e que, dentro de determinados limites, nos podem influenciar e socorrer. Nesse mundo incomensurável é que uma nova ciência se esforça por penetrar. Numa conferência que fez, há anos, no Instituto Geral Politécnico, o Doutor Duclaux, diretor do Instituto Pasteur, se exprimia nos seguintes termos: “Esse mundo, povoado de influências que experimentamos sem as conhecer, penetrado de um quiri divinum que adivinhamos sem lhe percebermos as minúcias, é mais interessante do que este em que até agora se confinou o nosso pensamento. Tratemos de abri-lo às nossas pesquisas: há nele, por fazerem-se, infindáveis descobertas, que aproveitarão à Humanidade.” Oh! maravilha! nós mesmos pertencemos, por uma parte do nosso ser, a mais importante, a esse mundo invisível que dia a dia se desvenda aos observadores atentos. Existe em todo ser humano uma forma fluídica, um corpo imperceptível, indestrutível, imagem fiel do corpo físico, do qual este último é apenas o revestimento transitório, ó estojo grosseiro, dispondo de sentidos próprios, mais poderosos do que os do invólucro material, que não passam de enfraquecido prolongamento dos primeiros (15). No corpo fluídico está a verdadeira sede das nossas faculdades, da nossa consciência, do que os crentes de todas as eras chamaram alma. A alma não é uma entidade metafísica, mas, sim, um centro imperecível de força e de vida, inseparável de sua forma sutilíssimo. Preexistia ao nosso nascimento e a morte carece de ação sobre ela. Vem a encontrar-se, além-túmulo, na plenitude das suas aquisições intelectuais e morais. Tem por destino continuar, através do tempo e do espaço, a evolver para estados sempre melhores, sempre mais iluminados pela luz da justiça, da verdade, da beleza eterna. O ser, indefinidamente perfectível, colhe aumentado, quando no estado psíquico, o fruto dos trabalhos, dos sacrifícios, e das provações de todas as suas existências Os que viveram entre nós e continuam sua evolução no Espaço não se desinteressam dos nossos sofrimentos e das nossas lágrimas. Dos paramos superiores da vida universal manam de contínuo sobre a Terra correntes de força e de inspiração. Vêm daí as centelhas inesperadas do gênio, os fortes sopros que passam sobre as multidões, nos momentos decisivos; daí também o amparo e o conforto para os que vergam ao peso do fardo da existência. Misterioso laço une o visível ao invisível. Relações de diversas ordens se podem estabelecer com o Além, mediante o auxílio de certas pessoas especialmente dotadas, nas quais os sentidos profundos, que jazem adormecidos em todo ser humano, são capazes de despertar e entrar em ação desde a vida terrena. A esses auxiliares é que damos o nome de - médiuns (16). * No tempo de Joana d'Arc estas coisas não eram compreensíveis. As noções sobre o Universo e sobre a verdadeira natureza do ser permaneciam ainda confusas e, em muitos pontos, incompletas, ou errôneas. Entretanto, marchando, há séculos, de conquista em conquista, mau grado às suas hesitações e incertezas, o espírito humano já hoje começa a levantar o vôo. O pensamento do homem se eleva, acabamos de vê-lo, acima do mundo físico, e mergulha nas vastas regiões do mundo psíquico, onde principia a entrever o segredo das coisas, a chave de todos os mistérios, a solução dos grandes problemas da vida, da morte e do destino. Não esquecemos ainda os motejos de que estes estudos foram, a princípio, objeto, nem as críticas acerbas que ferem os que, corajosamente, perseveram em semelhantes pesquisas, em manter relações com o invisível. Mas, não chasquearam também, até no seio das sociedades sábias, de muitas descobertas que, mais tarde, se impuseram como outras tantas refulgentes verdades? O mesmo se dará com a existência dos Espíritos. Um após outro, os homens de ciência são obrigados a admiti-la e, freqüentemente, por efeito de experiências destinadas a demonstrar o seu nenhum fundamento. Sir W. Crookes, o célebre químico inglês, que pelos seus compatriotas é igualado a Newton, pertence a esse número. Citemos também Russell Wallace e O. Lodge; Lombroso, na Itália; os doutores Paul Gibier e Dariex, na França; na Rússia, o Conselheiro de Estado Aksakof; na Alemanha, o barão du Prel e o astrônomo Zõllner (17). Todo homem sério, que se conserva à igual distância de uma credulidade cega e de uma não menos cega incredulidade, é forçado a reconhecer que as manifestações de que aqui se trata ocorreram em todos os tempos. Encontra-las-eis em todas as páginas da História, nos livros sagrados de todos os povos, assim entre os videntes da índia, do Egito, da Grécia e de Roma, como entre os médiuns de nossos dias. Os profetas da Judéia, os apóstolos cristãos, as druidisas da Gália, os inspirados das Cívicas, na época dos Camisardos, tiram suas revelações da mesma fonte que a nossa boa lorena. A mediunidade sempre existiu, pois que o homem sempre foi espírito e, como espírito, manteve em todas as épocas uma brecha aberta sobre o mundo inacessível aos nossos sentidos ordinários. Constantes, permanentes, tais manifestações em todos os meios se dão e sob todas as formas, das mais comuns às mais grosseiras, como as das mesas falantes, dos transportes de objetos sem contacto, das casas assombradas, até as mais delicadas e sublimes, com o êxtase ou as altas inspirações, tudo conforme a elevação das inteligências que intervêm. Entremos agora no estudo dos fenômenos que, em avultado número, a vida de Joana d'Arc nos depara. Convém primeiramente notar: graças às suas faculdades psíquicas extraordinárias é que ela pôde conquistar rápido ascendente sobre o exército e o povo. Consideravam-na um ser dotado de poderes sobrenaturais. O exército não passava de um agregado de aventureiros, de vagabundos movidos pela gana da pilhagem. Todos os vícios reinavam naquelas tropas sem disciplina e prontas sempre a debandar. No meio de soldados assim, sem continência, sem vergonha, é que cumpria a uma jovem de dezoito anos viver. De tais brutos, que não respeitavam sequer o nome de Deus (18), tinha ela que fazer crentes, homens dispostos a sacrificar tudo por uma nobre e santa causa. Joana soube praticar esse milagre. Acolheram-na a principio como intrigante, como uma dessas mulheres que os exércitos levam na cauda. Mas, sua linguagem inspirada, seus costumes austeros, sua sobriedade e os prodígios que se operaram logo em torno dela, a impuseram bem depressa àquelas imaginações gastas. O exército e o povo se viam, assim, tentados a encará-la como uma espécie de fada, de feiticeira e lhe davam os nomes dessas formas fantásticas a que atribuem o assombramento das fontes e dos bosques. O desempenho de sua tarefa não se tornava com isso senão mais difícil. Era-lhe preciso fazer-se ao mesmo tempo respeitada e amada como chefe; obrigar, pelo ascendente, aqueles mercenários a verem na sua pessoa uma imagem da França, da pátria que ela queria constituir. Pelas predições realizadas, pelos acontecimentos verificados, conseguiu inspirar-lhes absoluta confiança. Chegaram quase a divinizá-la. Sua presença era tida como garantia de bom êxito, símbolo da intervenção celeste. Admirando-a, devotando-se-lhe, mais fiéis se lhe tornaram do que o rei e os nobres. Ao divisarem-na, sopitavam os pensamentos e sentimentos malévolos e nos seus corações se acendiam os da veneração. Todos a consideravam um ser sobre-humano, segundo o testemunho de seu intendente, Jean d'Aulon, no processo (19). O conde Guy de Laval escrevia à sua mãe, em 8 de junho de 1429, depois de tê-la visto em Salles-sur-Cher, na companhia do rei: “É coisa toda divina vê-la e ouvi-la” (20). Sem assistência alguma oculta, como é que uma simples rapariga dos campos houvera podido adquirir tal prestígio, alcançar tais resultados? O que soubera a respeito da guerra na sua meninice: os constantes sobressaltos dos campônios, a destruição das aldeias, os lamentos dos feridos e dos moribundos, o rubro crepitar dos incêndios, tudo isso fora antes de molde a afastá-la da profissão das armas. Era, porém, a escolhida do Alto para levantar a França de sua queda e incutir a noção de pátria em todas as almas. Para atingir esse escopo, maravilhosas faculdades e socorros poderosos lhe foram outorgados. * Examinemos de mais perto a natureza e o alcance das faculdades mediúnicas de Joana. Há, em primeiro lugar, as vozes misteriosas que ouvia, tanto no silêncio dos bosques, como no tumulto dos combates, no fundo da masmorra e até diante dos juízes, vozes freqüentemente acompanhadas de aparições, conforme ela própria o diz, no curso do processo, em doze interrogatórios diferentes. Depois, há os numerosos casos de premonição, isto é, as profecias realizadas, anúncio dos acontecimentos vindouros. Antes de tudo: são autênticos estes fatos? Nenhuma dúvida é possível. Os textos, os depoimentos aí estão copiosos; as cartas, as crônicas abundam (21). Existe, sobretudo, o processo de Rouen, cujas peças, redigidas pelos inimigos da acusada, dão a seu favor testemunhos ainda mais fortes do que os do processo de reabilitação. Neste último, os mesmos fatos são atestados sob juramento pelos conhecedores de sua vida, depondo perante os inquisidores, ou em presença do tribunal (22). Acima, porém, dos testemunhos, colocaremos a opinião de um contemporâneo, que os resume todos e cuja autoridade é grande. Queremos falar de Quicherat, diretor da Escola de Chartes. Não era um místico, um iluminado; mas, homem grave e frio, eminente crítico de História, que se entregou a uma pesquisa aprofundada, toda de erudição, a um exame escrupuloso da vida de Joana d'Arc. Eis aqui a sua apreciação (23): “Aproveita ou não à Ciência, impossível é deixar de admitir-lhe as visões.” Acrescentarei: à ciência nova aproveitará, pois todos esses fenômenos, considerados outrora miraculosos, se explicam hoje pelas leis da mediunidade. Joana era ignorante: por únicos livros tivera a Natureza e o firmamento estrelado. A Pedro de Versailles, que a interroga em Poitiers sobre o grau de sua instrução, responde: “Não sei o ABC.” Muitos o afirmam no processo de reabilitação (24). Entretanto, realizou maravilhosa obra, como igual mulher alguma jamais empreendeu. Para levá-la a bom termo, porá em jogo aptidões e qualidades raras. Iletrada, confundirá e convencerá os doutores de Poitiers. Por seu gênio militar e pela habilidade dos seus planos, adquirirá pronta influência sobre os chefes do exército e os soldados. Em Ruão, fará frente a sessenta eruditos, casuístas destros em sutilezas jurídicas e teológicas; frustrar-lhes-á as ciladas e lhes responderá a todas as objeções. Mais de uma vez os deixará embaraçados pelo poder de suas réplicas, rápidas como relâmpagos, penetrantes quais pontas de espadas. Como conciliar tão esmagadora superioridade com a falta de instrução? Ah! é que existe outro manancial de ensinamentos que não a ciência da escola! Pela comunhão constante com o mundo invisível, desde a idade de treze anos, quando teve a sua primeira visão, é que Joana alcança as luzes indispensáveis ao desempenho de sua missão espinhosa. As lições dos nossos guias do espaço são mais eficazes do que as de um professor, mais abundantes, sobretudo, em revelações morais. Essas vias de instrução, que se chamam as Universidades e as Igrejas, quase não as praticam; seus representantes pouco lêem nesse “livro de Deus” de que fala Joana, nesse imenso livro do Universo invisível, onde ela haurira sabedoria e luzes! “Há nos livros de Nosso Senhor muito mais do que nos vossos. - O Senhor tem um livro no qual nenhum clérigo jamais leu, por mais perfeito que seja no clericato!” afirma em Poitiers (25). Por estas palavras, faz sentir que os mundos ocultam e divino possuem fontes de verdades, infinitamente mais ricas e profundas do que as nascentes em que bebem os humanos, fontes que se abrem por vezes aos simples, aos humildes, aos ignorantes, àqueles que Deus marcou com seu selo, os quais encontram nelas elementos de saber, que excedem quanto o estudo nos pode proporcionar. A ciência humana nunca é isenta de um certo orgulho. Seus ensinos cheiram quase sempre a convenção, a afetação, a pedantismo. Falta-lhe, de continuo, clareza, simplicidade. Algumas obras de psicologia, por exemplo, são de tal modo obscuras, complexas, eriçadas de expressões barrocas, que chegam ao ridículo. E' divertido apreciar a que esforços de imaginação, a que ginástica intelectual, homens, como o professor Th. Flournoy e o Doutor Grasset, se dão para edificar teorias tão burlescas, quanto eruditas. As verdades que promanam das altas revelações aparecem, ao contrário, em traços de luz e, com poucas palavras, pela boca dos humildes, resolvem os mais escabrosos problemas. “Eu te bendigo, ó meu Pai, exclama o Cristo, por teres revelado aos pequeninos o que ocultaste aos sábios” (26). Bernardino de Saint-Pierre exprime o mesmo pensamento, dizendo: “Para achar a verdade, é preciso procurá-la com um coração simples”. Era com um coração simples que Joana escutava suas vozes, que as interrogava nos casos importantes e que, sempre confiante na sábia direção delas, se constitui, sob o impulso das potências superiores, um instrumento admirável, rico de preciosas faculdades psíquicas. Não só vê e ouve maravilhosamente, como também sente pelo tato e pelo olfato as aparições que se apresentam: “Toquei em Santa Catarina, que me apareceu visivelmente”, diz. “Beijaste ou abraçaste Santa Catarina ou Santa Margarida“ perguntam-lhe. - “Abracei-as ambas” - A Rescendiam perfumes!”- bom se saiba que reascendiam perfumes” (27). Noutro interrogatório, exprime-se assim: “Vi S. Miguel e os anjos, com os olhos do meu corpo, tão perfeitamente como vos vejo. E, quando se afastavam de mim, eu chorava e bem quisera que me levassem consigo” (28). É essa a impressão de todos os médiuns que entrevêem os esplendores do Espaço e os seres radiosos que lá vivem. Experimentam um enlevo que lhes torna mais tristes e duras às realidades deste mundo. Haver partilhado, por um instante, da vida celeste e cair de novo, pesadamente, nas trevas do nosso planeta: que pungente contraste? Mais ainda o era para Joana, cuja alma seleta, depois de se achar, por alguns momentos, no meio que lhe era familiar, donde viera, e de receber dele “grande conforto”, se via novamente em face dos rudes e penosos deveres que lhe corriam. Poucos homens compreendem estas coisas. As vulgaridades da Terra lhes encobrem as belezas do mundo invisível que os cerca e no qual penetram como cegos na luz. Há, porém, almas delicadas, seres dotados de sutilíssimo sentidos, para as quais o espesso véu da matéria se rasga por segundos e que, através desses rasgos, lobrigam um recanto do mundo divino, do mundo das verdadeiras alegrias, das felicidades reais, onde nos encontraremos todos depois da morte, tanto mais livres e venturosos, quanto melhor tivermos vivido pelo pensamento e pelo coração, quanto mais houvermos amado e sofrido. Todavia, não era unicamente sobre esses fatos extraordinárias, sobre suas visões e vozes, que Joana acentuava a confiança que punha em seus amigos do Espaço. A razão lhe demonstrava também quão pura e elevada era a fonte de suas inspirações, porquanto aquelas vozes a guiavam sempre para a prática de ações úteis, no sentido do devotamento e do sacrifício. Ao passo que certos visionários se extraviam por entre devaneios estéreis, em Joana os fenômenos psíquicos concorrem- todos para a realização de uma grande obra. Daí sua fé inabalável: e Creio tão firmemente, responde aos juízes, nos ditos e feitos de S. Miguel que me apareceu, como creio que Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu morte e paixão por nós. E o que me move a crê-lo são os bons conselhos, o conforto e os ensinamentos que me deu” (29). Tudo ponderando com seguro critério, é principalmente o lado moral das manifestações que constitui, a seus olhos, uma prova da autenticidade delas. Pelos avisos eficazes, pelo amparo que lhe concediam, pelas sãs instruções que lhe prodigalizavam, reconhece que seus guias são enviados do Alto. No decurso do processo, como no de sua ação militar, as vozes lhe aconselham o que deve dizer e fazer. Recorre a elas em todos os casos difíceis: “Pedi conselho à voz acerca do que devia responder, dizendo-lhe que, por sua vez, pedisse conselho a Nosso Senhor. E a voz me disse: Responde ousadamente; Deus te ajudarᔠ(30). Os juízes a interrogam sobre esse ponto: “Como explicas que as santas te respondam?” - “Quando faço apelo a Santa Catarina, diz Joana, ela e Santa Margarida apelam para Deus e, depois, por ordem de Deus, me dão a resposta” (31). Assim, para os que sabem interrogar o invisível por meio da concentração e da prece, o pensamento divino desce, degrau a degrau, das maiores alturas do espaço até às profundezas da Humanidade. Mas, nem todos o discernem como Joana. Quando suas vozes emudecem, ela se recusa a responder sobre qualquer questão importante: “Por enquanto, nada obtereis de mim; ainda não tenho a permissão de Deus.” Creio que não vos digo tudo o que sei. Porém, muito mais temo cair em falta dizendo qualquer coisa que desagrade às minhas vozes, do que receio vos responder” (32). Admirável discrição que muitos homens bem andariam imitando, quando as vozes da consciência e do bom senso não lhes ordenam que falem. Até ao fim de sua vida trágica, Joana mostrará grande amor aos seus guias, inteira confiança na proteção que lhe dispensavam. Mesmo quando pareceu que a abandonavam depois de lhe terem prometido a salvação, nenhuma queixa, nenhuma blasfêmia proferiu. Na prisão, confessa-o ela própria, eles lhe haviam dito: “Serás libertada por uma grande vitória” (33) e, em lugar da libertação, era a morte o que lhe vinha. Seus inquiridores, que nenhum meio de a desesperar desprezavam, insistiam nesse abandono aparente e Joana respondia sem se perturbar: “Nunca praguejei nem de santo, nem de santa.” A história da boa Lorena apresentava casos de clarividência e de premonição em número bastante elevado para lhe emprestarem, aos olhos de toda gente, um misterioso poder divinatório. Às vezes parece ler no futuro; por exemplo, quando diz ao soldado de Chinon que a injuriara, ao vê-Ia entrar no castelo: “Ah! tu renegas de Deus e, no entanto, estás tão perto da morte!” Efetivamente, nessa mesma tarde o soldado, por um acidente, morre afogado (34). Fato idêntico sucede com relação ao inglês Glasdale, no ataque à bastilha da Ponte, diante de Orleães. Ela o intima a se render ao rei dos céus, acrescentando: “Tenho grande compaixão de tua alma!” No mesmo instante, Glasdale cai, armado, no Líger, onde se afoga (35). Mais tarde, em Jargeau, prevê o perigo que ameaça o duque d'Alençon, cuja vida prometera proteger: “Gentil duque, exclama, retire-se daí, senão aquela boca de fogo que lá vê lhe dará a morte.” A previsão era justa, pois o Senhor du Lude, indo ocupar o lugar deixado pelo duque, foi morto pouco depois (36). Doutras vezes e com muita freqüência, atesta-o a própria Joana, suas vozes a previnem. Em Vaucouleurs, sem jamais o ter visto, vai direito ao senhor de Baudricourt: “Reconheci-o, refere, graças à minha voz. Foi ela que me disse: “Está ali ele!”(37). Conforme as revelações que tivera, Joana lhe prediz a libertação de Orleães, a sagração do rei em Reims e lhe anuncia a derrota dos Franceses na jornada dos Arenques, no instante mesmo em que acabava de verificar-se (38). Em Chinon, levada à presença do rei, não hesitou em descobri-lo entre os trezentos cortesãos no meio dos quais se dissimulara: Quando fui introduzida no aposento do rei, diz, logo o reconheci entre os outros, porque a minha voz mo indicou” (39). Numa entrevista íntima, lembra-lhe ela os termos da prece muda que, sozinho no seu oratório, ele dirigira a Deus. Suas vozes lhe comunicam que a espada de Carlos Martel está enterrada na Igreja de Santa Catarina de Fierbois e mostrá-la (40). E' ainda a voz que a desperta em Orleães, quando, extenuada de fadiga, se atira no leito, ignorando o ataque à bastilha de Sannt-Loup: “Meu conselho me disse que vá contra os ingleses, exclama de repente. E não me dizíeis que o sangue da França estava sendo derramado.” (41) Porque seus guias lho predisseram, sabe que será ferida por um dardo no ataque as Tourelles, a 7 de maio de 1429. Uma carta do encarregado de negócios de Brabante, conservada nos arquivos de Bruxelas e datada de 22 de abril do mesmo ano, escrita, por conseqüência, quinze dias antes do fato, relata essa predição e a maneira por que havia de realizar-se. Na véspera do combate, Joana ainda declara: “Amanhã sairá sangue de meu corpo” (42). Nessa mesma jornada, prediz, contra toda a verossimilhança, que o exército vitorioso reentraria em Orleães pela ponte, que se achava então destruída. E foi o que se deu. Libertada a cidade, Joana insiste com o rei para que não defira a partida para Reims, repetindo: “Não durarei mais que um ano, Sire; é preciso, pois, que me aproveitem bem!” (43) Que presciência da curteza de sua carreira! Por suas vozes foi avisada de que Troyes, em breve, se renderia, assim como, mais tarde, o foi também do seu próprio cativeiro. “Na semana da Páscoa, achando-me junto ao fosso de Melun, minhas vozes me disseram que seria presa antes do dia de S. João - refere à acusada aos juízes de Rouen - e como eu lhes pedisse que, quando fosse presa, morresse logo, sem o prolongado tormento da prisão, elas me disseram: “Recebe tudo com resignação. E' preciso que assim se faça. Mas, não me disseram a hora” (44). A propósito, citemos, de passagem, esta bela resposta aos seus inquiridores: “Se eu soubera a hora, não me teria ido entregar voluntariamente. Entretanto, teria feito segundo me ordenassem minhas vozes, quaisquer que fossem para mim as conseqüências“ (45). Conta-se também uma cena tocante passada na igreja de Compienha (Compiègne). Diz ela, chorando, aos que a cercavam: “Bons amigos e queridos filhos, sabei que me venderam e traíram. Dentro em breve, dar-me-ão a morte. Orai por mim! “ (46). Na prisão, seus guias lhe predizem a libertação de Compienha (47), o que lhe causa grande alegria. Teve também a revelação do seu fim trágico, sob uma forma que ela não compreendeu, mas cujo sentido seus juízes apreenderam: “O que minhas vozes mais me dizem é que serei salva... Acrescentam: Recebe tudo com resignação, não te aflijas por causa do teu martírio. Virás, enfim, para o reino do paraíso“ (48). De contínuo suas vozes a advertem dos conciliábulos secretos dos capitães, ciosos da sua glória, e que dela se ocultam para deliberarem sobre os feitos da guerra. Mas, de súbito, Joana aparece e, conhecendo-lhes de antemão as resoluções, as frustra: “Estivestes no vosso conselho e eu estive no meu. O conselho de Deus se cumprirá, o vosso perecerᓠ(49). Não é, igualmente, às inspirações de seus guias que Joana deve a posse das eminentes qualidades que formam os grandes generais: o conhecimento da estratégia, da balística, a habilidade no emprego da artilharia, coisa inteiramente nova naquela época? Como teria podido saber que os Franceses gostam mais de avançar do que de combater por trás das trincheiras? E como explicar de maneira diversa que uma simples camponesa se tenha tornado, de um dia para outro e aos dezoito anos, incomparável comandante de exército, consumado tático? Sua mediunidade, vê-se, revestia formas variadas. Estas faculdades, disseminadas, fragmentadas, na maior parte dos indivíduos do nosso tempo, nela se acham reunidas, grupadas em possante unidade. Além disso, seu grande valor moral as reforçava. A heroína era a intérprete, o agente desse mundo invisível, sutil, etéreo, que se estende para além do nosso e cujas harmonias e vozes alguns seres humanos percebem. Os fenômenos que enchem a vida de Joana se encadeiam e concorrem para o mesmo fim. E' nítida e precisa a missão que recebeu das altas Entidades e cuja natureza e caráter mais longe procuraremos determinar. Foi anunciada previamente e se cumpriu segundo as linhas principais. Toda a sua história o atesta. Aos juízes de Ruão, dizia: “Vim da parte de Deus; nada tenho que fazer aqui; mandai-me de novo a Deus, de quem vim” (50). E quando, na fogueira, as chamas a envolvem e lhe mordem as carnes, ainda exclama: “Sim, minhas vozes eram de Deus! Minhas vozes não me enganaram” (51). Poderia Joana mentir? Por ela respondem a sinceridade, a retidão que manifestou em todas as circunstâncias. Uma alma tão leal, que preferiu todos os sacrifícios a renegar da França e de seu rei, uma alma assim não podia degradar-se até à mentira. Há nas suas palavras tal acento de verdade, de convicção, que ninguém, mesmo entre os seus detratores mais ardentes, ousou acusá-la de impostura. Anatole France, que, certo, não a poupa, escreve: “O que, sobretudo, ressalta dos textos é que ela foi uma santa. Foi uma santa, com todos os atributos da santidade no século XV. Teve visões e estas visões não foram nem fingidas, nem forçadas.” E, mais adiante: “Não pode ser suspeitada de mentira” (52). Sua lealdade era absoluta; para apoiar o que dizia, não se servia, como tanta gente, de termos excessivos, de expressões descomedidas. “Nunca jurara, diz uma testemunha no processo de reabilitação, e, para afirmar, contentava-se com acrescentar: “Sem dúvida” (53). Estas palavras se encontram também nos interrogatórios do processo de Ruão. Revestiam uma significação particular na sua boca, pronunciadas no tom de franqueza e com aquela fisionomia aberta, que lhe eram peculiares. Outro ponto de vista: ter-se-ia ela enganado? Seu bom senso, sua lucidez de espírito, seu critério firme, os relâmpagos de gênio que lhe iluminam, aqui e ali, a vida, não permitem que em tal se creia. Joana não era uma alucinada! Certos críticos, entretanto, o acreditaram. A maior parte dos fisiologistas, por exemplo, Pierre Janet, Tr. Ribot, o Doutor Grasset, aos quais convém juntar alguns alienistas, como os Drs. Lélut, Calmeil, etc., não vêem na mediunidade senão uma das formas da histeria ou da neurose. Para eles, os videntes são enfermos e a própria Joana d'Arc não lhes escapa às apreciações sob este critério. Ainda recentemente, o professor Morselli, no seu estudo “Psicologia e Espiritismo”, não considerou os médiuns como espíritos fracos ou desequilibrados? E' sempre fácil qualificar de quimeras, de alucinações, ou de loucuras os fatos que nos desagradam, ou que não podemos explicar. Nisto, muitos cépticos se consideram pessoas bastante criteriosas, quando não passam de vítimas dos seus preconceitos. Joana não era neurótica, nem histérica. Robusta, gozava de saúde perfeita. Era de costumes castos e, ainda que de uma beleza plena de atrativos, sua presença impunha respeito, veneração, mesmo aos soldados que lhe partilham da vida (54). Três vezes: em Chinon, no principio de sua carreira, em Poitiers e em Ruão, sofreu exame feito por matronas, que lhe atestaram a virgindade. Suportava sem fraquear as maiores fadigas. “Sucede-lhe passar até seis dias em armas”, escreve, a 21 de junho de 1429, Perceval de Boulainvilliers, conselheiro camarista de Carlos VII. E, quando a cavalo, excitava a admiração de seus companheiros de armas, pelo tempo que podia permanecer assim, sem ter necessidade de apear-se (55). Muitos depoimentos lhe atestam a resistência física. “Ela se comportava de tal maneira, diz o cavaleiro Thibault d'Armagnac, que não seria possível a qualquer homem melhor atitude no que respeita à guerra. Todos os capitães se maravilhavam das fadigas e trabalhos que suportava” (56). O mesmo ocorre com a sua sobriedade: há, sobre esse ponto, numerosos testemunhos, desde o de pessoas que a viram por pouco tempo, como à senhora Colette, até os de homens de seu séquito habitual. Citemos as palavras do pajem, Luís de Contes: “Joana era extremamente sóbria. Muitas vezes, durante um dia inteiro, não comeu mais do que um pedaço de pão. Admirava-me que comesse tão pouco. Quando ficava em casa, só comia duas vezes por dia” (57). A rapidez maravilhosa com que a nossa heroína se curava dos próprios ferimentos mostra a sua poderosa vitalidade: alguns instantes, alguns dias de repouso lhe bastam e volta para o campo de batalha. Ferida gravemente, por haver saltado da torre de Beaurevoir, recobra a saúde assim consegue tomar algum alimento. Denotarão todos estes fatos uma natureza fraca e neurótica? E se, das qualidades físicas, passamos às do espírito, a mesma conclusão se impõe. Os numerosos fenômenos de que Joana foi o agente, longe de lhe turbarem a razão, como sucede com os histéricos, parece, ao contrário, terem-na robustecido, a julgar pelas respostas lúcidas, claras, decisivas, inesperadas, que dá aos seus interrogadores de Ruão. A memória se lhe conservou fiel, o juízo são; manteve a plenitude de suas faculdades e foi sempre senhora de si. O Dr. G. Dumas, professor da Sorbona, em comentário publicado por Anatole France no fim do seu segundo volume, declara não ter conseguido, pelos testemunhos, descobrir em Joana qualquer dos estigmas clássicos da histeria. Insiste demoradamente sobre a exterioridade dos fenômenos, sobre a clareza objetiva deles, sobre a “independência e autoridade relativas” da inspirada em presença das “santas”. Não lhe parece que suas visões possam ser filiadas a qualquer tipo patológico verificado experimentalmente. “Nenhum indício, diz por sua vez Andrew Lang (58), permite supor que Joana, enquanto em comunhão com suas santas, se houvesse achado em estado de “dissociação”, ou inconsciente do que a cercava. Pelo contrário, vemos que, na cena terrível da abjuração, ela ouve ao mesmo tempo, com igual nitidez, as vozes das santas e o sermão do pregador, cujos erros não teme criticar.” Acrescentemos que nunca foi vítima de obsessão, pois que seus Espíritos não intervêm senão em certos momentos e sobretudo quando os chama, ao passo que a obsessão se caracteriza pela presença constante, inevitável, de seres invisíveis. Todas as vozes de Joana tratam da sua grande missão; jamais se ocupam com puerilidades; sempre tem razão de ser o que fazem ouvir, não se contradizem, nem se mostram eivadas das crenças errôneas do tempo, o que teria cabimento, se Joana fosse predisposta a sofrer de alucinações. Longe de acreditar em fadas, nas virtudes da mandrágora e em mil outras idéias falsas da época, a donzela demonstra, nos interrogatórios, ignorância a esse respeito, ou exprime o desprezo que vota a tudo isso (59). Nada, nela, de sentimentos egoístas, nenhum orgulho, como se nota nos alucinados que, atribuindo grande importância às suas insignificantes pessoas, só vêem à roda de si inimigos e perseguidores. E' à França, e ao rei que se dirigem seus pensamentos, sob a inspiração divina. O grande alienista Brierre de Boismont, que se consagrou a um estudo atento da questão (60), reconhece em Joana uma inteligência superior. Entretanto, qualifica de alucinações os fenômenos de que ela é objeto, mas emprestando-lhes caráter fisiológico e não patológico. Quer com isso dizer que tais alucinações não a impediram de conservar a integridade da razão; seriam fruto de uma exaltação mental, o que todavia nada tem de mórbido. Para ele, a concepção da idéia diretriz, “estimulante poderoso”, se fez imagem no cérebro de Joana, em quem admira uma alma de escol, um desses “(mensageiros que nos são enviados do fundo do misterioso infinito). Sem ser da mesma opinião do célebre prático da Salpêtrière, quanto às causas determinantes dos fenômenos, o Doutor Dupouy, que os atribui à influência de Entidades celestes, conclui no mesmo sentido. Somente, no seu entender, as alucinações de Joana teriam tido o dom de objetivar as personalidades angélicas que lhe serviam de guias. Poderíamos adotar este modo de ver, pois sabemos que ela considerava suas santas como sendo aquelas cujas imagens adornavam a igreja de Domremy. Mas, diremos ainda: pode-se atribuir caráter alucinatório à vozes que nos despertam em pleno sono, para prevenir-nos de acontecimentos presentes ou futuros, como foi o caso de Orleães e durante o processo de Joana, em Ruão? a vozes que nos aconselham proceder por forma diversa da que preferimos? Por ocasião de seu cativeiro na torre de Beaurevoir, recebeu bastante recomendações de seus guias, desejosos de lhe evitarem um erro; no entanto, não puderam impedi-Ia de saltar do alto da torre, do que teve que se arrepender. Dizer com Lavisse, A. France e outros, que a voz ouvida por Joana era a da sua consciência, afigura-se-nos igualmente em contradição com os fatos. Tudo prova que as vozes eram exteriores. O fenômeno nada tinha de subjetivo, pois que ela é despertada, como vimos, aos chamados de seus guias e muitas vezes não apanha mais do que as últimas palavras do que dizem (61). Não as escuta bem, senão nas horas de silêncio, conforme o reconhece o próprio Anatole France (62). “A agitação das prisões e as disputas entre os guardas (63) obstam a que compreenda claramente o que seus guias lhe comunicam.” É, pois, de toda evidência que as palavras vêm de fora; o ruído não embaraça a voz interior, que se percebe no segredo da alma, até nos momentos de tumulto. Concluamos, pois, de nossa parte, reconhecendo, mais uma vez, em Joana, um grande médium. Em que pese ao Doutor Morselli (64) e a tantos outros, a mediunidade não se manifesta exclusivamente nos indivíduos de espírito fraco ou de almas inclinadas à loucura. Há talentos de amplas envergaduras, tais como Petrarca, Pascal, Lafontaine, Goethe, Sardou, Flammarion e quantos mais, pensadores profundos, como Sócrates, homens penetrados do espírito divino, santos ou profetas, que tiveram suas horas de mediunidade, nas quais essa faculdade, latente em todos, se revelou, sendo que, nalguns, repetidas vezes. Nem a altura da inteligência, nem a elevação da alma servem de empecilho a esta espécie de manifestações. Se há muitas produções mediúnicas, cuja forma ou substância deixam a desejar, é que são raras as altas inteligências e os grandes caracteres, qualidades que se achavam reunidas em Joana d'Arc, razão pela qual suas faculdades psíquicas atingiram tão elevado grau de pujança. Da virgem de Orleães se “pode dizer que realizava o ideal da mediunidade”. Agora uma outra questão se apresenta e da mais alta importância: Quais eram as personalidades invisíveis que a inspiravam e dirigiam? Por que santas, anjos, arcanjos? Que devemos pensar dessa intervenção constante de S. Miguel, Santa Catarina, Santa Margarida? Para resolver o problema, seria necessário primeiramente analisar a psicologia dos videntes e dos sensitivos e compreender a necessidade, em que eles se vêem, de emprestar às manifestações do Além as formas, os nomes, as aparências que a educação recebida, as influências experimentadas, as crenças do meio e da época em que vivem lhes sugeriram. Joana d'Arc não escapava a esta lei. Servia-se, para traduzir suas percepções psíquicas, dos termos, das expressões, das imagens que lhe eram familiares. E' o que fazem os médiuns de todos os tempos. Conforme aos meios, os habitantes do mundo oculto receberão os nomes de deuses, de gênios, de anjos ou demônios, de espíritos, etc. As próprias inteligências invisíveis, que intervêm ostensivamente na obra humana, se sentem obrigadas a entrar na mentalidade daqueles a quem se manifestam, de adotar as formas e os nomes de entes ilustres, conhecidos deles, a fim de os impressionar, de lhes inspirar confiança, de melhor prepará-los para o papel a que estão destinados. Em geral, no Além, não se liga tanta importância, como entre nós, aos nomes e às personalidades. Lá, se empreendem obras grandiosas e as Potências prepostas à sua realização recorrem aos expedientes reclamados pelo estado de espírito, poder-se-ia dizer de inferioridade e de ignorância, das sociedades e dos tempos em que desejam intervir. Objetar-me-ão, talvez, que à virgem de Domremy essas Potências sobre-humanas teriam podido revelar sua verdadeira natureza, iniciando-a num conhecimento mais alto, mais largo do mundo invisível e de suas leis. Mas, além de muito demorado e difícil iniciar um ser humano, por melhor dotado que seja, nas leis da vida superior e infinita, que nenhum ainda apreende no conjunto, o mesmo fora que contrariar o fim visado; que tornar, no caso de Joana, irrealizável a obra concebida, obra toda de ação, com o criar, na heroína, um estado de espírito e divergências de vista, que a houveram colocado em oposição à ordem social e religiosa sob que era chamada a operar. Examinando-se com atenção o que diz Joana, respeito às suas vozes, um fato significativo ressalta logo é que o Espírito, a quem ela dá o nome de S. Miguel, nunca declarou chamar-se assim (65). As duas outras Entidades teriam sido designadas pelo próprio S. Miguel, sob os nomes de Santa Catarina e de Santa Margarida (66). Lembremos que as estátuas destas santas ornavam a igreja de Domremy onde Joana ia orar diariamente. Nas suas longas meditações e nos seus êxtases, tinha quase sempre diante de si as imagens de pedra daquelas duas virgens mártires. Ora, a existência destas duas personagens é mais do que duvidosa. O que sabemos de ambas consiste em lendas muito contestadas. Cerca do ano 1600, um censor da Universidade, Edmond Richer, que acreditava nos anjos, mas não em Santa Catarina, nem em Santa Margarida, aventa a idéia de que as aparições percebidas pela donzela se fizeram passar, a seus olhos, como sendo as santas que ela venerava desde a infância. “O Espírito de Deus, que governa a Igreja, se amolda à nossa imperfeição”, dizia ele (67). Mais tarde, outro doutor da Sorbona, Jean de Launoy, escrevia: “A vida de Santa Catarina, virgem e mártir, é inteiramente fabulosa, do começo ao fim. Não se lhe deve dar crédito algum” (68). Bossuet, na sua “Histoire de France pour 1'instruction du Dauphin”, não menciona as duas santas. Em nossos dias, Marius Sepet, aluno da Escola de Chartes e membro do Instituto, prefaciando a “Vie de Sainte Catherine”, de Jean Miélot (69), se manifesta com patentes reservas acerca dos documentos que serviram de base à obra: “A vida de Santa Catarina, diz ele, sob a forma que tomou no manuscrito 6449 do cabedal francês da Biblioteca Nacional, não poderia aspirar a nenhum valor canônico” (70). Notemos ainda que o caso mais moderno do cura d'Ars apresenta muita analogia com o de Joana d'Arc. Como a donzela, o célebre taumaturgo era vidente e se entretinha com Espíritos, especialmente com o de Santa Filomena, sua protetora habitual. Sofria também as importunações de um Espírito inferior chamado Grapin. Ora, do mesmo modo que Catarina e Margarida, Filomena é simplesmente um nome simbólico, significando que ama a Humanidade” (71). * Se é certo que os nomes atribuídos às Potências invisíveis que influenciaram a vida de Joana d'Arc só têm importância relativa e são, em si, muito contestáveis, outro tanto não se dá, já o vimos, com a realidade objetiva das mesmas Potências e com a ação constante que exerceram sobre a heroína. Parecendo-nos insuficiente a explicação católica, somos levados a nelas ver Entidades superiores, que resumem, concentram, acionam as forças divinas, nas ocasiões em que o mal se alastra sobre a Terra, quando os homens, por suas obras, entravam ou ameaçam o desenvolvimento do plano eterno. Essas Potências se nos deparam, sob as mais diversas denominações, em épocas bem diferentes. Mas, qualquer que seja o nome que se lhes dê, é fora de dúvida a intervenção que têm tido na História. No século XV, são os gênios protetores da França, as grandes almas que mais particularmente velam pelo nosso país. Dir-se-á talvez: tudo isso é sobrenatural. Não! por esta palavra o que se designa são as regiões elevadas, as alturas sublimes e, por assim dizer, o coroamento da Natureza. Pela inspiração dos videntes e dos profetas, pelos mediadores, pelos Espíritos mensageiros, a Humanidade esteve sempre em relação com os planos superiores do Universo. Os estudos experimentais, que vêm sendo feitos há meio século (72), já lançaram alguma claridade sobre a vida do Além. Assim é que sabemos ser o mundo dos Espíritos povoado de seres em número incalculável, ocupando todos os degraus da escala da evolução. A morte não nos transforma, sob o ponto de vista moral. No espaço, achar-nos-emos de novo com todas as qualidades que houvermos adquirido, mas também com todos os nossos erros e defeitos. Daí resulta que na atmosfera terrestre formigam almas inferiores, sôfregas por se manifestarem aos humanos, o que às vezes torna perigosas as comunicações e exige, da parte dos experimentadores, um preparo laborioso e muito discernimento. Esses estudos também demonstram que, acima de nós, há legiões de almas benfazejas e protetoras, as almas dos que sofreram pelo bem, pela verdade e pela justiça e que, esvoaçando sobre a pobre Humanidade, procuram guiá-la pela senda de seu destino. Mais para além dos acanhados horizontes da Terra, uma completa hierarquia de seres invisíveis se distende na luz. É a lendária escada de Jacob, a escada das Inteligências e das Consciências superiores, cujos degraus chegam até aos Espíritos radiosos, até às poderosas Entidades, depositárias das forças divinas. Estas Entidades invisíveis, temo-lo dito, intervêm de quando em quando na vida dos povos, de modo esplendente, como nos tempos de Joana d'Arc. As mais das vezes, porém, a ação que exercem permanece obscura, primeiro para salvaguarda da liberdade humana, e, sobretudo, porque, se é indubitável que elas desejam ser conhecidas, não menos certo é quererem que o homem se esforce e se faça apto a conhecê-las. Os grandes fatos da História, devidos à intervenção delas, são comparáveis às aberturas que se produzem de súbito entre as nuvens, quando o tempo está sombrio, para nos mostrarem o céu profundo, luminoso, infinito, claros esses que, entretanto, logo se cerram, porque o homem ainda não se acha bastante maduro para apanhar e compreender os mistérios da vida superior. Quanto à escolha das forças e dos meios que os grandes Seres empregam para intervir no campo terrestre, cumpre reconheçamos que o nosso saber é bem fraco para os apreciar e julgar, que nossas faculdades são impotentes para medir os vastos planos do invisível. O que sabemos é que os fatos aí estão, incontestáveis, inegáveis. De longe em longe, através da obscuridade que nos envolve, por entre o fluxo e refluxo dos acontecimentos, nas horas decisivas, quando a Humanidade se desencaminha, então, uma emanação, uma personificação da Potência suprema desce, para lembrar aos homens que acima do mundo em que se debatem, recursos infinitos existem, que eles podem atrair a si por seus pensamentos e apelos, e se grupam sociedades de almas, que eles alcançarão um dia por seus merecimentos e esforços. A intervenção, na obra humana, das altas Entidades, a que chamaremos os anônimos do espaço, constitui uma lei profunda, sobre a qual cremos dever insistir ainda, procurando torná-la mais compreensível. Em geral, já por mais de uma vez o dissemos, os Espíritos superiores que se manifestam aos homens não se nomeiam, ou, se o fazem, tomam de empréstimo nomes simbólicos, que lhes caracterizam a natureza, ou o gênero da missão em que foram investidos. Mas, porque, ao passo que o homem neste mundo se mostra tão cioso de seus menores méritos, tão apressurado em ligar seu nome às obras mais efêmeras, os excelsos missionários do Além, os gloriosos mensageiros do invisível se obstinam em guardar o incógnito, ou em usar de nomes alegóricos? É que bem diferentes são as regras do mundo terrestre e as dos mundos superiores, onde se movem os Espíritos de redenção. Aqui, a personalidade prima e absorve tudo. O eu tirânico se impõe: é sinal da nossa inferioridade a fórmula inconsciente do nosso egoísmo. Sendo imperfeita e provisória a presente condição humana, é lógico que todos os atos do homem gravitem ao redor de sua individualidade, isto é, do céu, que mantém e assegura a identidade do ser, no estádio inferior de sua evolução, através das flutuações do espaço e das vicissitudes do tempo. Nas altas esferas espirituais, dá-se o contrário. A evolução se opera sob formas mais etéreas, formas que, em certa altura, se combinam, associam e realizam o que se poderia chamar a compenetração dos seres. Quanto mais o Espírito sobe e progride na hierarquia infinita, mais se desbastam os ângulos de sua personalidade, mais o seu “eu” se dilata e expande na vida universal, sob a lei da harmonia e do amor. Sem dúvida, a identidade do ser permanece, porém sua ação se confunde cada vez mais com a atividade geral, isto é, com Deus, que, em realidade, é o ato puro. Consistem o progresso infinito e a vida eterna em nos aproximarmos continuamente do Ser absoluto, sem jamais o alcançarmos, em confundirmos cada vez mais plenamente a obra que nos é própria com a obra eterna. Chegado a tão elevados cumes, o Espírito não mais é designado por meio de tal ou tal nome; já não é um indivíduo, uma pessoa, e sim uma das formas da Atividade infinita. Chama-se: Legião. Pertence a uma escala de forças e de luzes, tal como uma parcela da chama pertence ao foco que a engendra e alimenta. E' parte integrante de imensa associação de Espíritos harmonizados entre si por leis de afinidade luminosa, de sinfonia intelectual e moral, pelo Amor que os identifica. Fraternidade sublime, ante a qual a Terra não passa de pálido e fugidio reflexo! Por vezes, desses grupos harmoniosos, dessas plêiades rutilantes, um raio vivo se destaca, uma forma radiosa se separa e vem, qual projeção de luz celeste, explorar, iluminar os recônditos de nosso escuro mundo. Ajudar a ascensão das almas, fortalecer uma criatura em hora de grande sacrifício, amparar a fronte de um Cristo na agonia, salvar um povo, resgatar uma nação prestes a perecer: tais as missões incomparáveis que esses mensageiros do Além descem a cumprir. A lei da solidariedade exige que os entes superiores atraiam a si os Espíritos jovens ou retardados. Assim, uma imensa cadeia magnética se desenrola pelo incomensurável Universo e ata as almas e os mundos. E, como a sublimidade da grandeza moral consiste em fazer o bem por amor do bem, sem propósito egoísta, os Espíritos benfeitores obram sob o duplo véu do silêncio e do incógnito, a fim de que a glória e o mérito de seus atos se reportem só a Deus e nele se reintegrem... Desta maneira se explicam as visões de Joana, suas vozes, as aparições do arcanjo e das santas, que nunca existiram como personalidades individuais, batizadas com aqueles nomes, mas que, entretanto, são realidades vivas, seres luminosos, destacados dos centros divinos e que fizeram dela a libertadora de seu país. Miguel, Micaël, a força de Deus; Margarida, Margarita, a pérola preciosa; Catarina, Katarina, a virgem pura: todos nomes simbólicos, que caracterizam uma beleza moral, uma força superior e refletem uma cintilação de Deus. * Joana d'Arc era, pois, um intermediário de dois mundos, um médium poderoso. Por isso, foi martirizada, queimada. Tal, em regra, a sorte dos enviados do Alto; expõem-se às perseguições dos homens, porque estes não querem ou não podem compreendê-los. Os exemplos que dão e as verdades que espalham são um óbice aos interesses terrenos, uma condenação das paixões ou dos erros humanos. O mesmo ocorre em nossos dias. Conquanto menos bárbara do que a Idade Média, que os lançava em massa às fogueiras, nossa época ainda persegue os agentes do Além. Eles se vêem quase sempre repudiados, desprezados, escarnecidos. Falo dos médiuns sinceros e não dos simuladores, que são numerosos e se insinuam por toda a parte. Esses que tais prostituem uma das coisas mais respeitáveis que há no mundo; mas, por isso mesmo, assumem pesadas responsabilidades para o futuro. Pois que tudo se paga, cedo ou tarde, todos os nossos atos, bons ou maus, recaem sobre nós com as suas conseqüências. E' a lei do destino (73). As manifestações do mundo invisível são constantes, dizíamos; porém, não são iguais. O embuste, o charlatanismo, às vezes, se misturam com a inspiração;, ao lado de Joana d'Arc encontrareis Catarina de La ftochelle e Guilherme, o pastor, impostores ambos. Há também médiuns reais, que se enganam a si mesmos e obram, em dadas ocasiões, sob o império da auto-sugestão. A fonte nem sempre é pura; a visão é algumas vezes confusa. Há, todavia, fenômenos tão brilhantes, que não permitem a dúvida, quais os fatos mediunicos que ilustram a vida de Joana d'Arc. A mediunidade, como todas as coisas, apresenta uma diversidade infinita, uma gradação, uma espécie de hierarquia. Quase todos os grandes predestinados, os profetas, os fundadores de religião, os mensageiros da verdade, todos os que proclamaram os princípios superiores de que se tem nutrido o pensamento humano, foram médiuns, pois que suas vidas estiveram em contínuas relações com os altos círculos espirituais. Demonstrei algures (74), apoiando-me em testemunhos abundantes e precisos, que o gênio, sob diversos pontos de vista e em muitos casos, pode ser considerado um dos aspectos da mediunidade. Os homens geniais, na maior parte, são inspirados, na mais elevada acepção desta palavra. Suas obras são como luzeiros que Deus acende na noite dos séculos, para clarear a marcha da Humanidade. Depois da publicação do livro que acima citei, colhi novos documentos em apoio desta tese. Mais adiante mencionarei alguns. Toda a filosofia da História se resume em duas palavras: a comunhão do visível e do invisível, que se exprime pela alta inspiração. Os homens de gênio, os grandes poetas, os sábios, os artistas, os inventores célebres, todos são, no mundo, executores do plano divino, desse plano majestoso de evolução, que carrega a alma para os pináculos da vida universal. De algumas vezes, as nobres Inteligências que presidem a essa evolução se humanizam para poderem exercer ação mais eficaz e mais direta. Tendes então Zoroastro, o Buda e, acima de todos, o Cristo. De outras, inspiram e sustentam os missionários encarregados de dar mais viva impulsão aos vôos do pensamento. Moisés, S. Paulo, Maomé e Lutero foram deste número. Mas, em todos os casos, a liberdade humana é respeitada. Daí os múltiplos entraves com que os grandes Espíritos topam no caminho. O fato mais saliente, entre os sucessos que assinalam a vida desses mensageiros do Alto, é a idéia religiosa sobre que se apóiam, idéia que basta para lhes exaltar a coragem e para congregar em torno deles, humildes quase todos e não dispondo de nenhuma força material, imensas multidões, prontas a disseminar os ensinamentos cuja grandeza sentiram. Todos hão falado de suas comunicações com o invisível; todos tiveram visões, ouviram vozes e se reconheceram simples instrumentos da Providência, para o desempenho de uma missão. Sós, entregues a si mesmos, nenhum êxito teriam conseguido; a influência do Alto era necessária, indispensável ao triunfo completo da idéia que defendiam e contra a qual se encarniçavam tantos inimigos. Também a filosofia conta gloriosos inspirados: Sócrates, como Joana d'Arc, percebia vozes, ou, antes, uma voz, a de um Espírito familiar, a que ele chamava seu demônio (75), voz que se fazia ouvir em todas as circunstâncias. No “Théagès” de Platão se lê que Timarco houvera evitado a morte, se escutara a voz desse Espírito: “Não vás - aconselha-lhe Sócrates, ao levantar-se ele do banquete com Filêmon, seu cúmplice e o único sabedor de suas intenções de matar Nicias - não vás: a voz me diz que te retenha.“ Se bem que advertido mais duas vezes, Timarco partiu, porém, saiu-se mal da empresa e foi condenado à morte. Na hora do suplício, reconheceu, embora demasiado tarde, que devera ter obedecido à voz: “Oh! Clitômaco! diz ele ao irmão, vou morrer por não haver dado ouvidos ao que me aconselhava Sócrates.“ Um dia, a voz recomenda ao filósofo que não vá mais longe pela estrada por onde passeava com alguns amigos. Estes se recusam a atendê-lo; continuam a caminhar e encontram um rebanho que os derruba e pisa. Depois de reconhecer bastas vezes o acerto dos conselhos que se lhe eram ditados pela voz, inteira razão tinha Sócrates para acreditar nela e fazer sentir a seus amigos que, “tendo-lhes comunicado as predições que recebia, jamais verificara a inexatidão de alguma.“ Recordemos ainda a sua declaração solene diante do tribunal dos Efeitos, quando para ele se agita a questão de vida ou de morte: “Esta voz profética do demônio, que nunca deixou de fazer-se ouvir durante todo o curso de minha existência, que jamais deixou, até nas circunstâncias mais comezinhas, de me desviar do que me pudera causar dano, eis que esse deus se cala, agora que me sucedem coisas, que poderiam ser encaradas como o pior dos males. Porque isto? E' que, muito verossimilmente, o que ora acontece é um bem para mim. Sem dúvida, nos enganamos, supondo ser a morte uma desgraça!” Na França, também os filósofos foram visitados pelo Espírito: Pascal passava horas em êxtase; a “Recherche de Ia Vérité”, de Malebranche, foi escrita em plena escuridão; e Descartes nos conta como, por súbita intuição, rápida qual relâmpago, concebeu a idéia da “Doute méthodique”, sistema filosófico a que devemos a libertação do pensamento moderno. Nos seus “Annales Médico-psychologiques” (76), diz Brierre de Boismont: “Descartes, ao cabo de longo repouso, era instado por invisível pessoa para continuar as pesquisas da verdade.” Schopenhauer, na Alemanha, igualmente reconhece haver sofrido a influência do Além: “Meus postulados filosóficos, diz ele, se produziram em mim sem que eu nisso interviesse, nos momentos em que tinha a vontade como que adormecida... Minha pessoa era também por assim dizer estranha à obra”. Quase todos os poetas de renome gozaram de uma assistência invisível. Dentre eles, citemos unicamente (77) Dante e Tasso, Schiller e Goethe, Pope (78), Shakespeare, Shelley, Camões, Victor Hugo, Lamartine, Alfred de Musset (79), etc. Entre os pintores e os músicos, Rafael, Mozart, Beethoven e outros encontrariam lugar aqui, pois que, sem cessar, a inspiração se derrama em abundantes jorros sobre a Humanidade. Diz-se constantemente: “Estas idéias andam no ar”. Andam, com efeito, porque as almas do espaço as sugerem aos homens. E' lá que se devem procurar as origens dos fortes movimentos de opinião em todos os domínios. Cumpre, pois, reconhecê-lo: o fenômeno da mediunidade enche todas as eras. Toda a História se aclara pela luz. Aqui se concentra numa personalidade eminente e brilha com vivo fulgor: é o caso de Joana d'Arc. Ali se dissemina, repartida por grande número de intérpretes, como na época atual. A mediunidade há sido repetidamente a inspiradora do gênio, o meio que Deus emprega para elevar e transformar as sociedades. No século XV, serviu para tirar a França do abismo de males em que se precipitara. Hoje, é como um sopro novo que passa por sobre o mundo, para restituir a vida a tantas almas adormecidas na matéria, a tantas verdades que jazem na sombra e no esquecimento! Os fenômenos de visão, de audição, as aparições de defuntos, as manifestações dos invisíveis pela incorporação, a escrita, a tiptologia, etc. vão sendo inúmeros; multiplicam-se cada dia em torno de nós. As pesquisas de muitas sociedades de estudos, as experiências e os testemunhos de sábios eminentes, de publicistas de primeira ordem, cujos nomes temos declinado, não deixam dúvida sobre a realidade desses fatos. Eles foram observados em condições que desafiam qualquer mistificação. Mencionaremos apenas alguns dos mais recentes, entre os que apresentam analogias com os da vida de Joana d'Arc. Há primeiramente as vozes. Em “Human Personality”, F. Myers trata da que Lady Caidly ouviu, numa circunstância em que sua existência perigava. François Coppée fala igualmente de uma voz misteriosa que o chamava pelo nome em certos momentos bastante graves de sua vida, quando, deitado, suas preocupações não lhe permitiam adormecer: “Seguramente não durmo nesse momento, afirma ele; e a prova é que, mau grado à forte emoção que então experimento, sempre respondi logo: “Quem é ? Quem me fala?”Porém, nunca a voz acrescentou coisa alguma ao seu simples chamado” (80). No mês de Maio de 1897, o Senhor Wiltshire foi despertado alta madrugada, ouvindo seu nome pronunciado por uma pessoa invisível. Como a voz insistisse, ele teve a impressão de um perigo imediato na vizinhança. Acabou por se levantar e sair; chegou precisamente a tempo de salvar a vida a uma jovem que tentara afogar-se. (81). Na “Revue Scientifique et Morale du Spiritisme” (82), o Dr. Breton, médico da Marinha e presidente da Sociedade de Estudos Psíquicos de Nice, refere o seguinte fato “A Srta. Lola, jovem russa, habitando uma casa de campo, pertencente à sua família, na Rússia, vê em sonho entrar-lhe a mãe no quarto e gritar: “Lola, não tenhas medo, a granja está incendiada!”Na noite seguinte, a Srta. Lola é bruscamente acordada por sua mãe, que, penetrando-lhe em pessoa no quarto, grita: “Lula, não tenhas medo, a granja está incendiada!”exatamente as mesmas palavras que ouvira sonhando. A Srta. Lola se casa, torna-se esposa do Senhor de R., oficial russo. Morre-lhe o sogro. Algum tempo depois, a jovem Sra. de R. acompanha a sogra ao cemitério, pára, numa capela de família, orar sobre o túmulo do defunto. Ajoelhada e orando, ouve distintamente uma voz dizer-lhe: “Tu também ficarás viúva, mas não terás a consolação de orar sobre o túmulo de meu filho”. Ouvindo isso, a moça desmaiou; acode-lhe a sogra e, logo voltando a si, ela refere a causa de sua emoção. “Estala a guerra russo-japonesa, o coronel de R. recebe ordem de seguir. Parte e sucumbe na Manchúria. Seu corpo, numa ambulância, é transportado com outros para Mukden, a fim de ser enviado para a Rússia. Mas, o destacamento que os conduzira teve que abandona durante a retirada geral do exército russo. Não obstante as inúmeras investigações efetuadas, nunca se pôde saber o que fora feito daqueles corpos. “A profecia do Espírito, pai do coronel de R., se cumprira: a jovem viúva não poderá jamais orar sobre o túmulo do marido”. Falemos agora das aparições, que não são raras na época presente e cuja autenticidade, nalguns casos, se tem podido firmar por meio da fotografia. A “Revue”de 15 de janeiro de 1909 traz a narrativa de um fato deste gênero, feito por W. Stead, o grande publicistas inglês, tão conhecido pela sua lealdade, como pelo seu desinteresse e ainda pela sua coragem. Exigisse-o a verdade e vê-lo-íamos em qualquer ocasião enfrentar toda a Inglaterra. E' sabido que, com grave dano para seus interesses pessoais, esquecendo os muitos milhões que herdaria de Cecil Rhodes, ousou apontar publicamente o poderoso milionário como um dos principais responsáveis pela guerra sul-africana, chegando a reclamar que lhe fosse aplicada a pena de trabalhos forçados (hard labour). No decurso dessa mesma guerra, W. Stead se dirigiu ao gabinete de um fotógrafo muito ignorante, mas dotado de dupla vista, para experimentar o que poderia obter, pois que o estudo do mundo oculto o atraía vivamente. Diante do fotógrafo e de Stead surgiu uma aparição, que já dias antes se mostrara ao primeiro. Convencionaram fotografá-la com o escritor. Durante a operação, respondendo a uma pergunta, a personagem invisível aos olhos humanos disse chamar-se Piet Botha. Entre todos os Botha conhecidos de Stead, nenhum havia com aquele prenome. Efetivamente, a seu lado se via muito nítida, na fotografia, a figura de um boer. Quando, concluída a paz, o General Botha veio a Londres, W. Stead lhe enviou a imagem obtida. No dia seguinte recebeu a visita de um dos delegados da África do Sul, o Sr. Wessels, que, muito admirado, lhe disse “Este homem nunca o conheceu! Jamais pôs pé na Inglaterra. E' meu parente e tenho dele um retrato em minha casa!” “Morreu?” perguntou-lhe Stead. “Foi o primeiro comandante boer morto no cerco de Kimberley, respondeu-lhe o interlocutor; chamava-se Petrus Botha, mas nós o tratávamos abreviadamente por Piet”. Os outros delegados dos Estados livres também reconheceram na fotografia o guerreiro boer. Não raro as aparições se apresentam a crianças, incapazes de qualquer enredo, de qualquer fraude, e essa circunstância milita fortemente a favor da autenticidade desejada em tais casos. Os “Annales des Sciences Psychiques”, de 1 a 16 de fevereiro de 1909, citam muitos desses fatos. Num deles, é protagonista uma menina de dois anos e meio que, por diversas vezes e em diferentes lugares, vê uma irmãzinha que lhe morrera havia algum tempo e estende-lhe a mão. Noutro, figura uma criança de três anos que, por ocasião da morte de um irmão, vê uma de suas tias já falecida e corre para ela, acompanhando-a para onde quer que se dirija o vulto. Brierre de Boismont, nos “Annales Médico-Psychologiques”, 1851 (83), narra o seguinte: “Um rapaz de dezoito anos, sem nenhuma tendência para a exaltação, para o romanesco, ou para as superstições, fora habitar em Ramsgate por causa da saúde. Indo passear a uma das aldeias próximas, entrou, ao cair da tarde, numa igreja, e ficou transido de pavor ao dar com o espectro de sua mãe, que falecera meses antes, em conseqüência de uma enfermidade muito dolorosa, que infundia compaixão a quantos lhe rodeavam o leito. A aparição se conservou imóvel durante um tempo considerável entre a parede e o rapaz, que, afinal, fugiu para casa, aonde chegou quase desfalecido. Acontecendo repetir-se o fenômeno por muitas noites consecutivas, no seu próprio aposento, ele se sentiu doente e cuidou sem demora de regressar a Paris, onde residia seu pai, ao qual resolveu nada dizer da visão, com receio de aumentar a dor que o acabrunhava desde que perdera a esposa adorada”. “Obrigado a dormir no quarto do pai, causou-lhe surpresa haver aí uma luz acesa durante toda a noite, o que não era dos hábitos nem do gosto de qualquer dos dois. Ao cabo de muitas horas de insônia produzida pela claridade, o rapaz levantou-se para apagar a luz. Imediatamente o pai despertou em grande agitação e lhe ordenou que tornasse a acendê-la, o que o moço fez, muito admirado da irritação do velho e do terror que lhe alterava a fisionomia. Inquirindo do motivo de tanto pavor, obteve apenas uma resposta vaga e a promessa de que a explicação do fato lhe seria revelada mais tarde”. “Passada uma semana, quando muito, depois dessa ocorrência, o rapaz, não podendo dormir pelo incômodo que lhe causava a luz, aventurou segunda vez apagá-la. Mal o fizera, eis que o pai salta do leito, agitado, a tremer convulso, censura-lhe a desobediência e novamente acende a lâmpada. Confessou então que, estando no escuro, o fantasma da mulher lhe aparecia e se conservava imóvel, para só desaparecer quando o quarto se iluminava”. “Profundamente impressionado com o que ouvira e temendo aumentar a aflição ao pai, se lhe contasse a aventura de Ramsgate, o mancebo pouco tempo depois deixou Paris e foi para uma cidade do interior, a sessenta milhas de distância, visitar um irmão que aí se achava num internato e ao qual nada comunicara do que lhe sucedera, receando o ridículo”. Apenas entrara e trocara os cumprimentos de uso, o filho do diretor do internato o interroga: “Seu irmão já alguma vez manifestou sintomas de loucura? A noite passada ele desceu em camisa, fora de si, declarando ter visto o Espírito da mãe, acrescentando que não ousava mais voltar para o quarto e desmaiou de medo”. Poderíamos enumerar muitos outros fatos da mesma natureza. Os habitantes do espaço não desdenham um só dos meios de nos indicarem e demonstrarem que a sobrevivência é uma realidade. Os Espíritos superiores dão acentuada preferência ao fenômeno da incorporação, por ser o que lhes permite obrar mais conscientemente nas manifestações, o que lhes faculta mais amplos recursos intelectuais. Na incorporação, o médium, imerso em profundo sono, por efeito de uma ação magnética invisível, abandona o organismo às Entidades que se querem manifestar, as quais, apoderando-se dele, entram em relação conosco, mediante o emprego da voz, dos gestos e das atitudes. Tão sugestiva e imponente é às vezes a linguagem do que, por ela, sem sombra de dúvida, se lhes reconhecem o caráter, a natureza, a identidade. Tanto tem de fácil a imitação dos fenômenos físicos, tais como as mesas falantes, a escrita automática, o aparecimento de fantasmas, quão difícil, se não impossível, se mostra a simulação das coisas de elevada ordem intelectual, pois que o talento não é imitável e ainda menos o gênio. Muitas ocasiões temos tido de assistir a cenas deste gênero e sempre nos deixaram funda impressão. Viver, um momento que seja, na intimidade dos grandes Seres, vale por uma das raras felicidades concedidas ao homem neste mundo. Graças à mediunidade de incorporação é que temos podido comunicar com os Espíritos guias, com a própria Joana, e receber deles os ensinos e as revelações que consignamos em nossas obras. Todavia, esta faculdade mediúnica, constituindo para os experimentadores uma fonte de gozo, não dá motivo de satisfação ao médium, que, ao despertar, nenhuma lembrança conserva do que se passou, enquanto seu Espírito esteve ausente do corpo cedido a outro. Uma imensidade de pessoas tem o dom da mediunidade em estado latente. Por toda a parte, nas moças, nos rapazes, nas meninas, se encontram em gérmen faculdades sutis e, em elaboração, poderosos fluidos, capazes de servirem de ligação entre o cérebro humano e as inteligências do espaço. Ainda nos faltam, porém, escolas e métodos para desenvolver cientificamente e com perseverança tão inestimáveis elementos e assim valorizá-los, tornando-os capazes de produzir todos os frutos que poderiam dar e que colheríamos, se não fora a carência, ainda reinante, de preparo metódico e de paciente estudo. Infelizmente, em vez de frutos, o que com desconsoladora freqüência se observa é que, à míngua de saber e de um trabalho regular, os promissores embriões secam e só flores envenenadas dão. Pouco a pouco, entretanto, uma ciência nova e uma nova crença despontam e se propagam, levando a todos os homens o conhecimento das leis que regem o universo invisível e os meios de bem cultivarem as preciosas faculdades mediúnicas, transformando-as em instrumento das grandes Almas depositárias dos segredos do Além. Os experimentadores, em conseqüência, terão que renunciar aos acanhados pontos de vista em que se colocam, aos processos rotineiros de uma ciência que já envelheceu, para se consagrarem à utilização dos poderes do espírito, mediante a elevação do pensamento, que é o motor supremo, o traço de união entre os mundos divinos e as esferas inferiores. E desde logo verão que um raio de luz desce do Alto para lhes fecundar as pesquisas e verificarão que o estudo dos grandes problemas filosóficos, a prática do dever, a dignidade e a retidão da vida são as condições essenciais de bom êxito. Em matéria de experimentação psíquica, além da ciência e do método, elementos indispensáveis, prodigiosa é a importância dos surtos generosos da Alma por meio da prece. Eles constituem o ímã, a corrente fluídica que atraem as potências benfazejas e afastam as influências funestas, como o demonstra sobejamente a vida inteira de Joana. No dia em que estiverem preenchidas todas essas condições, o Novo Espiritualismo terá entrado plenamente no caminho de seus destinos e, para tantas crenças que oscilam ao embate das paixões, como para a alma humana que se chafurda na materialidade, por entre o rebaixamento geral dos caracteres e das consciências, será um meio de salvação, uma força, uma fé vivaz e ativa, que unirá o Céu à Terra e enlaçará as almas e os mundos numa comunhão eterna e infinita. V - VAUCOULEURS Eis, vou partir! Adeus, vós todos a quem eu amava. PAUL ALLARD Retomemos o curso da história de Joana. Vimo-la sair de Domremy. A partir desse dia, as provações vão surgir sob cada um de seus passos e serão tanto mais cruéis, quanto lhe virão daqueles cuja simpatia, afeição e amparo devia esperar. São-lhe aplicáveis estas palavras: “Ela veio para o meio dos seus e os seus não a conheceram” (84). Desde os primórdios de sua missão, Joana sentiu as penosas alternativas que, depois, freqüentemente, a assaltaram. Tão devotada a seus deveres, tão submissa à autoridade de seus genitores, ela se vê, mau grado ao amor que a ambos consagra, na contingência de lhes infringir as ordens e de abandonar clandestinamente a casa onde nascera. Seu pai tivera em sonho a revelação dos desígnios que ela acariciava. Sonhou, uma noite, que a filha deixava a terra natal, a família, e partia, acompanhada de homens de guerra. Vivamente preocupado, falou disso aos filhos, ordenando-lhes que, de preferência a consentirem que se ausentasse assim, “a afogassem no Mosa”. E acrescentava: “Se o não fizerdes, fa-lo-ei eu próprio!” Joana fora obrigada a dissimular, resolvida, como estava, “a obedecer antes a Deus do que aos homens”. Em Ruão, os juízes lhe fazem carga dessa circunstância: “Acreditavas proceder bem, perguntam-lhe, partindo sem permissão de teu pai e de tua mãe?” - “Sempre obedeci a meu pai e a minha mãe em tudo, exceto no que respeitava à minha partida. Mas, depois lhes escrevi e eles me perdoaram”. Mostra-se assim cheia de deferência e submissão para com aqueles que a criaram. No entanto, os juízes insistem: “Quando deixaste pai e mãe, não consideraste estar cometendo um pecado?!” Joana então exprime todo o seu pensamento, nesta bela resposta: “Pois que Deus ordenava, era preciso fazer. Mesmo que eu tivesse cem pais e cem mães e que fosse filha de rei, ainda assim teria partido! “ (85) Acompanhada por um de seus tios, Durand Laxart, a quem, passando por Burey, se reunira, o único parente que lhe acreditou na vocação, o único que a animou a executar seus projetos, apresenta-se a Roberto de Baudricourt, comandante de Vaucouleurs, em nome do delfim. O primeiro acolhimento foi brutal: Joana, porém, não desanima, prevenida que fora por sua vozes. Escudada numa resolução inabalável, nada é capaz de desviá-la de seu objetivo. Afirma-o em termos enérgicos à boa gente de Vaucouleurs: “Antes que a quaresma vá a meio, hei de estar na presença do rei, ainda que tenha de gastar minhas pernas até aos joelhos!” E, pouco a pouco, à força de insistência, o vide comandante lhe presta mais atenção aos propósitos. Como todos os que dela se aproximavam, Roberto de Baudricourt experimentou o ascendente daquela criança. Depois de mandá-la exorcizar por Jean Tournier, cura de Vaucouleurs, e de convencer-se de que nenhuma tenção má a guiava, não mais ousa negar-lhe crédito à missão, de obstáculos o caminho. Manda lhe dêem um cavalo e escolta. Já o cavaleiro Jean de Metz, dominado pela ardente convicção de Joana, lhe prometera conduzi-Ia à presença do rei. E, como lhe perguntasse: “Mas, quando?” prontamente ela respondeu “Antes já do que amanhã, antes amanhã do que mais tarde!” Finalmente, partiu, ouvindo do comandante da praça, por despedida, estas palavras de uma frieza pouco animadora: “Vai e suceda o que haja de suceder!” Que importam, entretanto, a Joana tais palavras! Não é às vozes da Terra que dá ouvidos, mas às do Alto, que a estimulam e alentam. As incertezas e perigos do futuro lhe revigoram a força da alma e a confiança, tanto que de contínuo repetirá o ditado de sua província: “Ajuda-te a ti mesmo, que Deus te ajudará!” O porvir é de infundir terror. Ela, porém, de posse das forças divinas, nenhuma coisa teme! Dá, por esta forma, um exemplo a todos os peregrinos da vida. Emboscadas tremendas se multiplicam na estrada que cumpre ao homem percorrer: por todos os lados atoleiros, angulosas pedras, sarças, espinhos. Todavia, para transpormos tão perigosos óbices, temos em nós, dados por Deus, os recursos de uma energia oculta, de que podemos usar com eficácia, atraindo, pela mediação das potências invisíveis, os misteriosos socorros do Alto, que nos centuplicam as forças pessoais, assegurando-nos o bom êxito na luta. Ajuda-te a ti mesmo e Deus te ajudará! Joana parte, levando por companhia unicamente alguns homens de coragem. Viaja dia e noite por províncias inimigas, para vencer as cento e cinqüenta léguas que a distanciavam de Chinon, onde reside o delfim Carlos, cognominado, por escárnio, o rei de Burges, porque, sob o cetro, somente conserva uns farrapos de reino, vivendo despreocupado de seu infortúnio, absorvido pelos prazeres, cercado de cortesãos, que o traem e secretamente pactuam com o inimigo. Para chegar até lá, tem que atravessar a terra dos borgonheses, aliados da Inglaterra, caminhar à chuva por atalhos escondidos, vadear rios transbordados, dormir sobre o solo encharcado. Não hesita um só instante. Suas vozes lhe repetem sem cessar: Vai, filha de Deus, vai, nós iremos a teu auxílio!”E ela vai, vai, a despeito dos obstáculos, por entre todos os perigos. Voa em socorro de um príncipe desesperançado e sem coragem. E vede que mistério admirável! Uma criança é quem vem tirar a França do abismo. Que traz consigo? Algum socorro militar? Algum exército? Não, nada disso. Traz apenas a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé que exalta os corações e desloca as montanhas. Que diz a quantos se apinham para vê-Ia passar? “Venho da parte do Rei do céu e vos trago o socorro do céu! “ VI - CHINON, POITIERS, TOURS Vai, avança ousadamente Que do triunfo irás à frente. PAUL ALLARD Para a maior parte dos autores, Joana entrou na Touraine por Amboise, seguindo a estrada romana que se alonga pela margem esquerda do Loire. Teria então vindo primeiramente de Gien a Blois, pelo Sologne. Saindo de Amboise, teria atravessado o Cher, em Saint-Martin-le-Beau, o Indre, em Cormery, e parado em Sainte-Catherine-de-Fierbois, onde havia uma capela consagrada a uma de suas santas. Segundo antiga tradição, Carlos Martel, vencedor dos Sarracenos, tendo-os exterminado nos bosques bravios (ferus boscus, Fierbois), depusera a espada na ermida, que se erguia em meio desses bosques. Reconstruída em 1375, ela era freqüentada pelos cavaleiros e homens d'armas que, para obterem a cura de ferimentos, faziam voto de lá ir a peregrinação depositar seus gládios. A certa altura da estrada, fora posto de alcatéia, provavelmente pelo pérfido La Trémoille, um troço de soldados pagos para se apoderarem de Joana. Ao enfrentarem, porém, com a enviada de Deus, os bandidos ficaram como que pregados ao solo (86). Conforme aos depoimentos, idênticos, de Poulengy e de Novelonpont, a viagem de Vaucouleurs a Chinon se efetuou em onze dias. Segue-se daí, diz o padre Bosseboeuf, que Joana chegou a Chinon a 23 de fevereiro, numa quarta-feira (87). Wallon, Quicherat e outros dizem ter sido a 6 de marco. Eis aqui a cidade e seus três castelos, cujos contornos se confundem numa extensa massa cinzenta de muros ameados, de torres e torreões. Ao entrar em Chinon, a pequena caravana desfilou pelas ruas ladeirentas, margeadas de edificações góticas, com os frontispícios chapeados de ardósias e as quinas ornadas de estatuetas de madeira. Desde logo, às portas das casas, ou nos serões à noite, junto à lareira crepitante, começam a circular de boca em boca maravilhosos contos, em que figura como protagonista a donzela que viera dos confins da Lorena, para cumprir as profecias e pôr termo à insolente fortuna dos Ingleses. Joana e sua escolta pousaram “em casa de uma boa mulher, perto do castelo” (88), sem dúvida a do gentil-homem Reignier de Ia Barre, cuja viúva, ou filha, recebeu a Pucela com muita alegria (89). Passou ai dois dias, sem conseguir a audiência que pedira (90). Mais tarde, alojou-se no próprio castelo, na torre de Coudray. Afinal, a tão desejada entrevista lhe foi concedida. Era noite. O flamejar das tochas, o estridular das fanfarras, o aparato da recepção, tudo isso não irá causar-lhe assombro e intimidá-la? Não, que ela vem de um mundo mais brilhante do que o nosso. Desde tempos remotos, conheceu magnificências ao lado das quais toda aquela encenação é por demais descolorada. Muito para lá de Domremy, muito para além da Terra, em épocas que lhe precederam o nascimento, freqüentou moradas mais gloriosas do que a corte de França e disso guardou a intuição. Mais vibrante do que o tilintar das armas e o ressoar das trombetas é a voz que lhe fala no íntimo, repetindo: “Vai, filha de Deus, estou contigo!“ Entre meus leitores, alguns hão-de estranhar estes dizeres. É, pois, chegada à ocasião de afirmar, de recordar que o Espírito existe anteriormente ao corpo; que, antes de seu último nascimento na Terra, já ele percorreu dilatados períodos de tempo, habitou muitos lugares, e que, revoltando a este mundo a cada nova encarnação, traz consigo volumosa bagagem de qualidades, faculdades e aptidões, reunidas durante o passado obscuro que atravessou. Há em todos nós, nas profundezas da consciência, um amontoado de impressões e de lembranças, constituído no decurso de nossas vidas antecedentes, seja na Terra, seja no Espaço. Essas lembranças e impressões jazem adormecidas: o espesso manto da carne as abafa e apaga. Mas, às vezes, e sob a ação de algum agente exterior, despertam repentinamente. Chispam então as intuições, ignoradas faculdades reaparecem e nos tornamos, por instantes, um ser diferente do que éramos aos olhos de nossos semelhantes (91). Já sem dúvida haveis de ter observado certas plantas que se balouçam na superfície das águas dormentes dos lagos. Aí tendes uma imagem da alma humana, a flutuar sobre as profunduras sombrias de seu passado, mergulhando as raízes em regiões desconhecidas e longínquas, donde haure a vivificante seiva, necessária à formação da flor esplendente que vai desabrochar, crescer, desdobrar-se no campo da vida terrena. Joana foi introduzida num imenso salão do castelo, onde se achavam reunidos trezentos fidalgos, cavaleiros e damas da nobreza, ricamente trajados. Que impressão não devera produzir na humilde camponesa aquele espetáculo! De que coragem não precisou para afrontar tantos olhares licenciosos ou inquisitoriais, tão numerosa assembléia de cortesãos, que ela percebia lhe ser hostil? Lá estavam Regnault de Chartres, chanceler de França, arcebispo de Reims, sacerdote de alma empedernida, pérfido e cúpido; La Trémoille, o grande camarista, homem invejoso e dissimulado, que dominava o monarca e, em segredo, urdia traições com os ingleses; o duro e orgulhoso Raul de Gaucourt, mordomo-mor do rei, o marechal Gilles de Retz, infame feiticeiro, mais conhecido pela alcunha de “Barba Azul”; e uma infinidade de outros cortesãos titulares, de padres astuciosos e ávidos. Joana sentia em torno de si uma atmosfera de incredulidade e animadversão. Tal o meio em que vivia Carlos VII, amolentado pelo abuso dos prazeres, longe do teatro da guerra, entre os favoritos e as amantes. Suspeitoso e tímido, o rei, para experimentá-la, pusera no trono um cortesão e se ocultara na multidão de fidalgos. A donzela , porém, vai direto à sua presença, ajoelha-se e lhe fala por longo tempo em voz baixa. Revela-lhe pensamentos que ele guardava em segredo, as dúvidas que nutria sobre seu próprio nascimento, suas hesitações ocultas, e um raio de confiança e de fé ilumina, diz a Crônica, o semblante do monarca (92). Os que presenciavam a cena compreenderam, tomados de espanto, que um fenômeno extraordinário acabava de operar-se. Entretanto, “ninguém houve que pudesse crer achar-se a sorte do mais altivo reino da cristandade confiada a tais mãos, nem que ao braço débil de uma pobre aldeã estivesse reservado o desempenho de uma tarefa que malograra os conselhos dos mais avisados e a coragem dos mais fortes” (93). Contudo, Joana ainda teve que suportar muitas humilhações e sofrer exame feito por matronas, para verificação de sua pureza. Em Poitiers, onde a mandaram, comparece diante de uma comissão de inquérito, composta de uma vintena de teólogos, dois dos quais bispos, os de Poitiers e de Maguelonne. “Era um belo espetáculo, diz Alain Chartier, escrevendo sob a impressão da cena, vê-Ia disputar, ela, mulher, contra os homens; ignorante, contra os doutores, só, contra tantos adversários”. Todas as suas réplicas denotam grande vivacidade de espírito e são sempre de surpreendente oportunidade. A cada momento lhe irrompem dos lábios ditos chistosos, tão imprevistos quanto originais, que arrasam as lastimosas objeções de seus examinadores. Os autos dos interrogatórios de Poitiers foram destruídos. Alguns historiadores responsabilizam por essa destruição os agentes da coroa da França, que se mostraram tão ingratos e indiferentes para com a Pucela durante seu longo cativeiro. Não nos resta mais do que um resumo das conclusões a que chegaram os doutores chamados a emitir opinião acerca de Joana (94). “Nela não se encontra maldade alguma, dizem eles, e sim tudo o que é bom; humildade, virgindade, devoção, honestidade e simples” (95). Possuímos, além disso, os testemunhos do processo de reabilitação. Frei Seguin, da Ordem dos Dominicanos, exprimia-se assim, com muita bonomia e simplicidade. Eu que vos falo perguntei a Joana de que idioma se servia à voz que lhe falava. - “De um melhor do que o vosso”, respondeu-me. E, com efeito, eu falo. Interrogando-a de novo, disse-lhe: “Crês em Deus?“ “Sim, melhor do que vós”, “foi a resposta que me deu” (96). Outro dos juízes de Poitiers, Guilherme Aimery, lhe objetava: “Dizes que Deus te prometeu a vitória e pedes soldados. Para que soldados, se a vitória está garantida? - “Os soldados batalharão em nome de Deus, replicou Joana, e Deus dará a vitória” (97). Quando lhe pedem que mostre os sinais de ser verdade o que diz, isto é, quando lhe pedem milagres, ela observa: “Não vim a Poitiers para dar sinais de coisa alguma. Levai-me, porém, a Orleães e vos mostrarei os sinais de que sou enviada” (98). Pela segunda vez, obrigam-na a sujeitar-se a ser examinada por um conselho de matronas, a que a rainha da Sicília preside; para lhe verificarem a virgindade. Depois de sair triunfante de todas essas provações, ainda foi forçada a esperar mais de um mês, para marchar contra os Ingleses. Só quando a situação de Orleães se torna desesperadora é que Dunois consegue que a enviem, como último recurso, à frente de um comboio de víveres. * Joana veio primeiramente a Tours, para mandar fazer sua armadura e seu estandarte. Reinava ai viva agitação, entregues os habitantes a ativos trabalhos de defesa. A 14 de outubro de 1428, o Marechal de Gaucourt, bailio de Orleães e mordomo-mor do rei, os avisara de que os Ingleses haviam posto cerco a Orleães e que tencionavam em seguida marchar sobre Túrones (99). A cidade se aprestava para resistir. Por toda à parte pedreiros, obreiros de toda espécie, trabalhadores braçais, porfiavam numa atividade febril. Trabalhava-se com ardor em levantar baluartes, cavar e alargar fossos, reparar e aparelhar as pontes. Nas torres e trincheiras, construíam-se guaritas de madeira para as atalaias. Abriam-se canhoneiras nas muralhas de circunvalação. Bombardas e colubrinas, balas de pedra, pólvora, tudo o que compunha a artilharia da época estava sendo armazenado. O inimigo podia vir: saberiam responder-lhe. A antiga cidade dos Túrones gozava então de grande importância. Chamavam-lhe as segundas Roma, por causa de seu numeroso igrejário, de seus mosteiros e, sobre tudo, por causa da romaria a S. Martinho, para a qual vinham peregrinos de todos os pontos da cristandade. A fim de fazermos idéia de sua situação ao tempo de Joana d'Arc, subamos pelo pensamento a uma das torres da colegiada de S. Martinho, à de Carlos Magno, por exemplo, conservada até hoje e que encerra o túmulo de Luitgarde, esposa daquele rei, circunstância que lhe deu o nome. Vista de relance, ela nos apresentará, mais ou menos, aspecto idêntico ao que ofereciam todas as grandes cidades francesas da Idade Média, razão por que convém demoremos um pouco a inspeção. Cintavam-na quatro linhas contínuas de muralhas e de torres. No interior desse perímetro, um labirinto de ruas estreitas e praças apertadas, ao longo das quais se enfileiravam casas de frontões ogivais e coberturas, denticuladas, com os pavimentos inclinados uns sobre os outros, as portas guarnecidas de estatuetas, vigas esculpidas, altas trapeiras e vidros de cores variadas. Completando tão pitoresco conjunto, grandes divisas de ferro, recortadas pelas mais extravagantes formas, substituem os números das casas, balançando ao vento. Umas têm sentido histórico ou heráldico, o de outras é emblemático, comemorativo ou religioso. Eis aqui, por exemplo, algumas das da Grand' Rue : “Ao Unicórnio”; “A Pega”; “Aos Padre nossos de Ouro”; “Ao Asno Vigilante”; da praça S. Martinho: “Ao Macaco Pregador”, “A Coruja”; da rua de Ia Rôtisserie: “As Três Tartarugas”, etc. (100). Do ponto elevado em que nos achamos, observai a floresta de lanternins agudos, de campanários, de muros donde emergem os três corpos da catedral, que já tem a nave principal mais ou menos acabada, porém, cujas torres são altas apenas de dez ou vinte metros, a abadia de S. Juliano e a mole imponente da colegiada de S. Martinho, da qual hoje duas torres somente restam. A nossos pés, a cidade inteira, com suas cinqüenta igrejas ou capelas, seus oito grandes claustros, cercados de muros, suas numerosas hospedarias e habitações nobres; verdadeira brenha de flechas, de agulhas, de pontas de minaretes, de torrinhas em forma de fusos, de compridas chaminés góticas. Em baixo, o Dédalo das ruas que se cortam e entrecruzam e as encruzilhadas atravancadas de gente e de cavalos. Prestai atenção ao sussurro e ao rumor que sobem até onde estamos. Escute o retinir de todos os sinos a darem as horas. Imaginai, luzindo sobre este panorama, um límpido raio de Sol; contemplai os reflexos cambiantes do rio; ao longe, as colinas cobertas de vinhedos, as florestas que ocupam os dois planaltos, especialmente ao Sul, e cujos maciços profundos formam grandioso quadro à cidade, que se estende pelo recôncavo do vale. Considerai tudo isso e fareis idéia do que era Túrones no dia em que Joana d'Arc lá chegou acompanhada de sua casa militar (101). Conforme ao depoimento de seu pajem Luís de Contes, no processo, ela se hospedou na casa de uma senhora chamada Lapau (102). Segundo o testemunho de seu capelão, João Pasquerel, foi o burguês João du Puy (103) quem lhe deu agasalho. Essas contradições são apenas aparentes. Com efeito, o nobre turonense Jehan du Puy era casado com Eleonora de Paul e o povo, sempre avezado às corruptelas, deformou este último nome. Yolanda, rainha de Aragão e da Sicília, dera Eleonora, por dama de honra, à sua filha Maria d'Anjou, rainha da França. “Ela era enjovina, diz de Beaucourt em sua “Histoire de Charles VII” (104), e provavelmente fora educada com a jovem princesa”. Tendo-lhes a rainha Yolanda pedido hospedagem para a estrangeira, que tomara sob sua proteção, João du Puy, conselheiro do rei e almotacés, e sua esposa a acolheram. O prédio em que habitavam ficava perto da igreja de Saint-Pierre-le-Puellier e muitos arqueólogos julgam reconhecê-la na casa chamada de Tristão (105). Foi em Túrones que, na qualidade de capelão,.entrou para o serviço de Joana frei Pasquerel, então leitor do convento dos Agostinho daquela cidade (106), o qual a acompanhará fielmente até ser presa em Compienha, um ano depois. Também foi em Túrones que a intrépida menina recebeu seu equipamento militar, a espada e a bandeira. Seguindo suas indicações, um armeiro da cidade foi procurar a espada que Carlos Martel depositara em Santa Catarina de Fierbois. Estava enterrada atrás do altar e ninguém no mundo sabia que se achava ali. Para a heroína, essa espada sairá da poeira dos séculos e novamente expulsará o estrangeiro. Outro armeiro de Túrones lhe fabricou um arnês de rutilante alvura (107). Obedecendo às instruções de suas vozes, Joana mandou fazer, por um artista turonense, uma bandeira branca, que serviria de estandarte e seria o emblema em torno do qual se reuniriam às tropas dispersas. Ornavam-na franjas de seda e continha, além da imagem de Deus abençoando as flores de lis, a divisa: “Jésus Maria! “(108). A heroína jamais separava a causa da França dessa outra, mais alta, a inspiração divina, donde lhe decorria a missão. A 25 de abril de 1429 partiu de Túrones para Blois, onde a esperavam os chefes militares e o grosso do exército. Doze dias depois, data de imperecível memória, ganhava a batalha das Tourelles e forçava o inimigo a levantar o cerco de Orleães. Quando deixou Túrones, a população inteira se premia nas ruas para vê-Ia passar e aclamá-la. Envergando a armadura todas brancas, que cintilava ao Sol da manhã, ela, garbosa, fazia caracolar o belo cavalo de guerra que montava. Empunhando a bandeira, trazendo à cinta a espada de Fierbois, avançava radiante de esperança e de fé. Dir-se-ia o anjo dos combates, como celeste mensageiro. VII – ORLEÃES Entrando em Orleães, quanto era grande e bela! Premindo-se, os soldados fremem em torno Beta. Para os abençoar, mães os filhos lhe mostram, E, à medida que avança, eis que todos se prostram! PAUL ALLARD De Túrones a Orleães a viagem foi uma continua ovação. Por onde passava, ia Joana semeando a alegria. Se os cortesãos a olham com suspeita e desdém, o povo esse ao menos acredita nela e na sua missão libertadora. Os próprios ingleses, tomados de estupor, permanecem imóveis nas trincheiras, vendo desfilar, sob o comando da Pucela, o exército de salvação. Os habitantes de Orleães, loucos de entusiasmo, esquecendo o perigo, transpõem os muros da cidade e correm ao encontro da heroína. No dizer de uma testemunha ocular, “eles já se sentiam reconfortados e desassediados pela divina virtude que lhes tinham dito haver naquela simples pucela, que todos consideravam muito afetuosamente, tanto os homens como as mulheres e as crianças” (109). As campanhas de Joana d'Arc no Loire oferecem um espetáculo único na História: o dos capitães de Carlos VII, os Dunois, os La Hire, os Gaucourt, os Xaintrailles, marchando contra o inimigo sob as ordens de uma rapariga de dezoito anos! Inúmeras dificuldades se lhe atulham. Os Ingleses haviam feito um círculo de formidáveis fortificações em torno de Orleães. Dentro em pouco, na cidade reinará a miséria e será fatais a rendição de uma das maiores e mais fortes praças do reino. Lá se acham as melhores tropas da Inglaterra, comandadas pelos seus mais hábeis generais, as mesmas que vêm de alcançar sobre a francesa longa série de vitórias. Eis o imenso e principal obstáculo que cumpre à donzela vencer. São bravos os que ela comanda, mas estão desmoralizados por tantas derrotas sucessivas e pessimamente organizados para evitarem novos desastres. Um primeiro ataque às trincheiras de Saint-Loup, tentado em sua ausência, é repelido. Avisada, a heroína se arroja a toda brida, com a bandeira desfraldada. Eletriza os soldados e, num ímpeto fascinador, arrasta-os ao assalto. “Era a primeira vez” - diz Anatole France, numa das raras passagens de sua obra, em que lhe faz justiça - era a primeira vez que Joana via combater e logo, entrando na batalha, se tornou o chefe, porque era melhor que todos. Fez mais do que os outros. Não que fosse mais versada do que eles em coisas de guerra; era-o muito menos; mas, por ter o coração mais abnegado. Quando cada um pensava em si, ela pensava em todos; quando cada um tratava de se resguardar, ela a tudo se expunha, pois de antemão se votara sem reserva ao sacrifício. Assim, aquela criança que, como qualquer criatura humana, temia os sofrimentos e a morte, a quem suas vozes, seus pressentimentos haviam anunciado que seria ferida, tomou lugar à frente dos guerreiros e, sob uma chuva de projéteis arremessados pelas bestas e colubrinas, permaneceu de pé à borda do fosso, empunhando o estandarte, para manter unidos os combatentes”(110). Com esse vigoroso ataque, conseguiu romper as linhas inglesas. Uma a uma, as fortificações foram tomadas e em três dias Orleães estava livre do cerco. Depois, os combates se sucedem, como relâmpagos num céu de fogo. Cada assalto é uma vitória. E' Jargeau, é Meung, é Beaugency! Finalmente, em Patay, os ingleses são batidos em campo raso e o General Talbot, que os comandava, cai prisioneiro. Em seguida, as tropas libertadoras marcham sobre Remos e Carlos VII é sagrado rei da França. Em dois meses Joana reparara todos os desastres; reconstituíra, moralizara, disciplinara, transfigurara o exército e reerguera todas as coragens. “Antes dela, dizia Dunois, duzentos ingleses punham em fuga mil franceses; com ela, algumas centenas de franceses forçam um exército inteiro a recuar” (111). ”No Mistério do Cerco”, drama popular, representado pela primeira vez no ano de 1456, em Orleães, um dos atores exclama: Um só de nós vale por cem sob o estandarte da Pucela (112). Alguns autores, como Thalamas (113), julgaram poder afirmar que a situação de Orleães em 1429 não chegara a ser tão grave, quanto geralmente se diz. Os ingleses eram pouco numerosos e os borgonheses se haviam retirado. A cidade, bem abastecida, se achava em estado de resistir longo tempo e os orleaneses podiam libertar-se unicamente por seus próprios esforços. Não só todos os historiadores, Micheles, Henri Martin, Wallon, Lavisse, etc., são unânimes em atestar a situação precária dos sitiados, como também o afirma um outro escritor, nada suspeito de parcialidade em favor de Joana: Anatole France, que escreveu os seguintes “Perturbados pelas dúvidas e temores, ardendo de inquietações, sem sono, sem repouso, não avançando um passo em qualquer sentido, os orleaneses começavam a desesperar” (114). Enquanto isso, os ingleses aguardavam novos reforços prometidos pelo Regente. Cinco mil combatentes se reuniram em Paris sob as ordens de Sir John Falstolf, com abundantes víveres, para marchar em auxilio dos sitiantes (115). Lembremos ainda mais o depoimento do duque d'Alençon no processo de reabilitação. Falando das temíveis fortificações construídas pelos ingleses, diz: “Se me achara em qualquer delas com um punhado de homens armados, ousara desafiar o poder de um exército e creio bem que os atacantes não lograriam tomá-las. E, de fato, os capitães que tiveram parte nas operações me declararam que algo de miraculoso houve no que se fez em Orleães!” (116). A estes testemunhos convém aditar a afirmação de um dos sitiados, João Luillier, notável comerciante da cidade, o qual assim se exprimia: “Todos os meus concidadãos e eu estamos certos de que, se a Pucela não viera socorrer-nos, em pouco teríamos caído nas mãos dos sitiantes”. Fora impossível aos orleaneses conseguirem resistir por muito tempo às forças inimigas, cuja superioridade era enormes (117). O entusiasmo dos habitantes dá a medida dos perigos por que passaram: “após a libertação da praça, os orleaneses se ofereciam a Joana para que a heroína dispusesse deles e de seus bens à vontade”, diz-nos o “Journal du Siège” (118). Não menos probante é o testemunho que um modesto tabelião da cidade, Guilherme Girault, deixou consignado numa página de um de seus livros de assentamentos. Em meio das aclamações de toda a França, Girault escrevia que o livramento de Orleães fora o “milagre mais evidente que já houvera depois da Paixão” (119). Esta parte da vida de Joana é rica de fenômenos de premonição, que devemos acrescentar aos já assinalados. Suas vozes lhe haviam dito que, quando ela entrasse em Orleães, os ingleses não se mexeriam. O fato se verificou. As chalanas que tinham de atravessar o rio para embarcar os víveres não podiam fazê-lo, por ser contrário o vento que soprava. Joana diz: “Esperem um pouco. Tudo entrará na cidade”. Com efeito o vento mudou e enfunou as velas (120). Nenhuma inquietação lhe produziu a partida do Marechal de Boussac, à frente do segundo comboio de víveres. Dizia: “Sei que não lhe acontecerá mal algum.“ E assim foi. Pouco a pouco, a alegria dos orleaneses ganha toda a França. À medida que as vitórias de Joana se sucedem, o rei as comunica às suas “boas cidades”, convidando as populações a “louvarem a Deus e renderem homenagem a Pucela, que sempre estivera presente à execução de todas estas coisas” (121). Por toda à parte as notícias são recebidas com júbilo delirante e o povo consagra à heroína um culto cada dia mais elevado. * Há 480 anos, Orleães festeja o aniversário de tão prodigiosos acontecimentos. Graciosamente convidado pelo Maire, tive ocasião de assistir a muitas dessas solenidades (122). Transcrevo aqui as notas que então escrevi, sob a impressão do momento: O grande sino de alarma, velha testemunha do assédio, o mesmo que assinalava os movimentos dos ingleses, toca de quarto em quarto de hora. Suas vibrações sonoras se propagam por sobre a cidade, se instilam pelas ruas estreitas e tortuosas da antiga Orleães, penetram até ao fundo das casas, despertam nos corações a lembrança do levantamento do cerco. Acudindo-lhe ao chamado, logo todos os sinos das paróquias entram a bimbalhar. Suas aéreas vozes se elevam no espaço e formam um concerto portentoso, em que predominam as notas graves do grande sino, sons que impressionam as almas sonhadoras. A cidade inteira se apresenta enfeitada e empavesada. Por cima dos edifícios flutuam bandeiras; nas sacadas e janelas, misturam-se os pavilhões nacionais e os estandartes com as cores e as armas da Pucela. A multidão enche as ruas e praças. Abundam forasteiros, vindos uns dos arredores, outros de pontos longínquos da França e até do estrangeiro. Significativa particularidade! todos os anos, grande número de ingleses vêm participar das festas da virgem Lorena. Entre os prelados franceses, via-se o cardeal Vaughan, arcebispo de Westminster. Um povo que procede assim não é um povo sem grandeza. Em parte alguma a lembrança de Joana d'Arc se conservou tão viva. Em Orleães, tudo nos fala da Pucela. Cada esquina de rua, cada monumento nos recorda um episódio do cerco. Durante quatro séculos, a França desconheceu sua heroína. O silêncio e a obscuridade lhe envolveram a memória. Só Orleães nunca a esqueceu. A partir de 1430, um ano depois de levantado o sítio, foram instituídas a cerimônia e as procissões comemorativas e, desde então, a municipalidade e o clero, numa digna emulação, se esforçam por dar à solenidade novos atrativos, sempre que ela se repete. Espetáculo raro e tocante: todos os poderes se unem para tornar a manifestação cada vez mais brilhante. Só a memória de Joana é hoje capaz de restabelecer a união dos pensamentos e dos corações, do mesmo modo que ela em pessoa restabeleceu a unidade da França, no momento dos supremos desastres e do esboroamento. Na noite de 7 de maio, por volta das 8 horas, Joana, vitoriosa nas Tourelles, entrava na cidade assediada. Comovedora e inolvidável cerimônia consagra anualmente a lembrança desse fato. O Maire, levando à frente a bandeira da heroína, uma bandeira branca com as flores de lis bordadas a ouro, seguido pelos conselheiros municipais, sai da Municipalidade e vem até ao adro da catedral, onde passa o estandarte sagrado às mãos do bispo, que ali o aguarda cercado do clero e dos prelados estrangeiros. Sob uns céus escuros, carregados de nimbos, avulta as torres maciças da basílica da Santa Cruz. As tropas formam quadradas; troa o canhão; o sino grande, o bordão da catedral, e os das outras igrejas repicam vibrantemente. Abrem-se as portas do vasto templo; a passos lentos, o cortejo dos bispos e dos padres as transpõe e se estende ao longo dos pórticos escancarados, diante dos quais se vêem desfraldadas as bandeiras de Santo Aignan e Santo Euverte, padroeiros da cidade. Ao clarão das tochas, que os cavaleiros empunham, rutilam as mitras e os báculos. Lâmpadas, que subitamente se acendem no interior das torres, as iluminam, emprestando-lhes cores fantásticas. Uma luz purpúrea se derrama por sobre os florões, as ogivas, o rendilhado de pedra da fachada, as bandeiras ondulantes, as estolas e as sobrepelizes. Etendard de Ia délivrance A ia victoire tu menaa nas aietax. Fils de ces preux, disons comine eus: Vive Jeanne! Vive Ia France! Um frêmito, um alento forte passa pela multidão atenta e concentrada. As frontes se inclinam diante da bandeira branca, ornada de flores de lis, que lentamente sobe os degraus e desaparece em baixo das abóbadas, semelhando o fantasma da virgem Lorena a mostrar-se no seu aniversário. As grades tornam a fechar-se; apagam-se as luzes; as harmonias emudecem; a multidão se retira e a basílica torna à escuridão e ao silêncio nas trevas da noite. * 8 de maio, 10 horas. Batida pelos raios do Sol, a catedral se ostenta ornamentada de auriflamas e pavilhões. E' sóbria, mas de muito efeito a decoração interna. Longas bandeiras vermelhas e ouro, as cores de Orleães, enfeitam o coro. Suspensos aos pilares, vêem-se os brasões do Bastardo e dos outros companheiros da Pucela. Na altura do órgão, dominando todo o conjunto, as armas de Joana (123), num quadro virginal de alvíssimos estofos. Nenhum lugar vazio na vasta nave. A França inteira: exército, magistratura, clero, poderes municipais, burgueses, artistas, está representada naquela reunião. Aos uniformes agaloados, às togas encarnadas dos juízes e aos trajes pretos dos funcionários, mesclam-se os garridos vestuários e os chapéus floridos das senhoras. O ofício começa pela “Missa em memória de Joana d'Arc”, de Gounod. As harmonias do órgão, juntam-se as fanfarras de guerra e em seguida um coro de donzelas entoa as “Vozes de Joana”, do mesmo autor. As notas puras do canto descem da elevada tribuna, como se foram melodias celestes. Dir-se-ia um eco das esferas angélicas, uma como evocação da virgem mártir que, Espírito radioso, todos sentem pairando sob aquelas abóbadas. Por um instante, esquecem-se as tristezas e as dores terrenas. A impressão é grandiosa e profunda; de muitos olhos marejam lágrimas. Elevo então a Joana o pensamento, dirijo-lhe ardente prece e um raio do Sol, coando-se através das vidraças brasonadas, me banha de luz, enquanto que, ao meu derredor, larga sombra cobre a multidão comprimida dos ouvintes. Depois, o bispo de Orleães faz o panegírico da Pucela. Reconduz-nos à Terra e, em frases calorosas, expõe a situação da cidade durante o cerco. Diz: Certamente ela se defende bem, a nobre cidade! Paris é inglesa, seja; Orleães se conservará francesa. Paris é apenas a cabeça do reino; Orleães é o coração. Enquanto o coração bate, restam esperanças. Almotacés, povo, burgueses, clero, guerreiros, resolvem morrer de preferência a se renderem. Queimarão os arrabaldes, desmantelarão as igrejas, estarão dia e noite de atalaia; os negociantes bater-se-ão como se tal fora sua profissão habitual; e assim darão tempo ao rei de mandar reforços. E, viva Deus! ver-se-á para que lado pende a sorte das batalhas. “Mas, aí o rei, nem dinheiro, nem soldados enviava; os sitiantes apertavam o cerco; erguiam fortificações de semana a semana; os viveres se esgotavam e a fome, a horrível fome, devastava (124). Mais meio mês, e Orleães sucumbirão e o reizito de Bourges nem sequer continuará a ser o simples reizito de Burges e a França baixará ao túmulo em que jazem as nações mortas...“ Pouco adiante, pinta o delírio dos habitantes, após as vitórias de Joana: “Ah! os oito dias que se seguiram à jornada de Patay, quanto devera ser bom vivê-los! Quão mais suave deve ter parecido a Primavera! quão mais luminosa a superfície do nosso Líger e embalsamado o nosso Vale de ouro! Podeis imaginar as visitas em ação de graças a todas as vossas igrejas; os cantares que não mais cessavam; os entusiasmos de que eram objeto os heróis da maravilhosa epopéia; o povo respirando pela primeira vez, depois das opressões da guerra de Cem Anos; numa palavra, esta cidade aclamando-se a si mesma, na vitória da Pucela, e a ressurreição da Pátria?” Desce do púlpito o orador. A turba imensa se precipita para o adro, baralha-se com as forças do exército, ziguezagueia por entre os bispos, as bandeiras, as relíquias, e a tradicional procissão desfila, comprida de dois quilômetros, sob um céu escampo, através das ruas empavesadas. Vai percorrer as estações marcadas pelas vitórias de Joana, em Orleães sitiada. No local do forte das Tourelles uma cruz modesta guarda a memória daquela, diz a inscrição, que, “por seu valor, salvou a cidade, a França e seu rei”. Aí a última parada. Troa de novo o canhão e as bandas militares saúdam o estandarte; o cortejo regressa ao ponto donde partira e se dispersa. Contente, a multidão vai entregar-se a seus folgares, enquanto os verdadeiros amigos de Joana irão orar e meditar na solidão. VIII – REMOS Da França o reino, ao delfim, Restituir aqui vim. SAINT-YVES D'ALVEYDRE Cumprira-se a profecia de Joana com relação a Orleães. Restava o segundo ponto: a marcha sobre Remos e a sagração de Carlos VII. Sem perda de um instante, a Pucela se pôs em campo para realizá-la até ao fim. Deixou o Orleães e foi em busca do delfim no interior da Touraine. Encontrou-o em Túrones e dai o acompanhou a Loches, insistindo continuamente para que ele preparasse tudo que era necessário ao êxito da audaciosa empresa. Mas, indolente, sem vontade própria, o príncipe hesitava entre as solicitações da heroína e as observações de seus conselheiros, que julgavam temerário arriscar-se a uma viagem de sessenta léguas, atravessando um país eriçado de fortalezas e de praças ocupadas pelo inimigo. A essas objeções, Joana respondia invariavelmente : “Bem sei; mas, nada disso merece consideração. Seremos bem sucedidos! “ O entusiasmo do povo e do exército se alastrava progressivamente. De todos os lados se ouvia que era preciso aproveitar o aturdimento dos ingleses, que haviam evacuado o Líger e se retiravam para Paris, abandonando bagagens e artilharia. Até aí, jamais tinham recebido tão violento golpe. Aterrorizados, criam ver nos ares exércitos de fantasmas, avançando para combatê-los. Por toda a França ecoava o rumor dos acontecimentos. Com o renascer da confiança, despertavam as energias. Tão forte se fez a corrente da opinião, que Carlos VII não pôde permanecer indiferente. Cumulou de honras a libertadora e sua família, continuando, entretanto, indeciso, sem coragem. Nem sequer foi visitar os orleaneses. Seus influentes conselheiros, La Trémoille e Regnault de Chartres, viviam inquietos, intimamente irritados com o bom êxito da obra de Joana, que os punha na sombra, ciosos do prestígio que a constituía objeto da atenção e das esperanças de todos. Assustava-os a possibilidade de verem submergir na poderosa e irresistível caudal do sentimento popular, que fizera recuar a invasão inglesa, o crédito e a fortuna de que se orgulhavam. Afinal, a voz pública se tornou clamor e não houve remédio senão ceder. Reuniu-se em Gien um exército de 12.000 combatentes. De todas as partes acorriam os gentis-homens. Os que, por muito pobres, não podiam equipar-se, pediam para servir como infantes. A 29 de junho, partiu a expedição, com pouco dinheiro, escassos viveres e insuficiente artilharia. A 5 de julho chegou a Troyes. A cidade, muito forte, bem provida e defendida por uma guarnição anglo-borgonhesa, recusou abrir as portas. Os exércitos franceses, carentes de recursos, não podia empreender um longo assédio. Ao cabo de alguns dias, os soldados já estavam reduzidos a se alimentarem de favas e das espigas de trigo que encontravam nos campos. O rei convocou um conselho para deliberar sobre as resoluções que deviam ser tomadas. Quanto à Pucela, nem ao menos a convidaram. O chanceler expôs a triste questão: deve o exército retroceder, ou continuar a marcha para Remos? A cada um dos presentes cumpria responder por sua vez. Roberto le Masson, senhor de Trèves-sur-Loire, fez ver que, não tendo o rei empreendido aquela operação, nem por considerá-la fácil, nem por ter às suas ordens um exército poderoso e o dinheiro preciso para mantê-lo, mas porque Joana afirmava que tal era a vontade de Deus e que nenhuma resistência haviam de encontrar, convinha antes de tudo consultar a heroína. Esta proposta logrou geral aprovação. Ora, no momento mesmo em que isso se dava, Joana, prevenida por suas vozes, batia fortemente à porta. Entrou e, dirigindo-se ao rei, disse: “Gentil rei da França, se consentirdes em ficar mais dois dias apenas diante da vossa boa cidade de Troyes, ela, por força ou por amor, vos prestará obediência, não tenhais a menor dúvida!“ - Replicou o chanceler: “Se tivéssemos a certeza de que isso se verificaria em seis dias, esperaríamos de boamente!“ - “Não duvideis!” replicou Joana. E, sem tardança, pôs-se a percorrer os acampamentos, a fim de organizar o ataque, infundindo em cada um o ardor de que se sentia possuída. A noite passou-se em preparativos. De cima das muralhas e das Tôrres, os sitiados observavam os campos franceses, presos de febril atividade. A luz de archotes, cavaleiros, escudeiros, soldados trabalhavam à porfia, entupindo os fossos, preparando a faxina e as escadas, construindo abrigos para a artilharia. Era um espetáculo fantástico e de impressionar. Aos primeiros arrebóis da madrugada, os habitantes de Troyes viram, terrificados, que tudo estava disposto para um furioso assalto: as colunas de ataque colocadas, com suas reservas, nos pontos mais favoráveis; as poucas peças de artilharia bem abrigadas e prontas a abrir fogo; os arqueiros e besteiros em seus postos de combate. 0 exército inteiro, formado em silêncio, esperava o sinal. De pé, junto ao fosso, com o estandarte na mão, a Pucela ia ordenar às trombetas que tocassem a avançar, quando os sitiados, transidos de pavor, pediram lhes permitisse capitular. Fácil foi o acordo sobre as condições da rendição. Interesse máximo tinha o rei em poupar as cidades que se quisessem entregar. No dia seguinte, 10 de julho, a guarnição inglesa se retirava, levando como prisioneiros de guerra alguns franceses, cuja sorte os negociadores esqueceram de regular. Esses desgraçados, ao passarem por Joana, lançaram-se-lhe aos pés, implorando-lhe que interviesse a favor deles. A heroína se opôs energicamente a que fossem levados e o rei teve que os resgatar a dinheiro. Seguindo o exemplo de Troyes, Châlons e Remos abriram as portas a Carlos VII. Em Châlons, foi dada a Joana a satisfação de encontrar muitos habitantes de Domremy, que ali tinham vindo para vê-Ia, entre eles o lavrador Gérardin, de cujo filho Nicolau era ela madrinha. A esses amigos confiou tudo o que lhe ia ao pensamento e no coração, expondo as esperanças que nutria e os temores que a afligiam, narrando as lutas que sustentara, as vitórias que obtivera, falando do esplendor da sagração próxima e da ressurreição da França, até então aviltada e espezinhada. Sentia-se à vontade e se expandia sem reservas no meio dessa gente humilde, porém boa, que lhe trazia vivíssima recordação da infância. Fazia-lhes compreender que aquelas glórias a deixavam impassível e quão grande lhe seria o prazer de voltar para sua aldeia, de retomar, com a vida tranqüila de outrora, as ocupações campestres, no seio da família. Sua missão, entretanto, a retinha perto do rei e forçoso lhe era submeter-se à vontade do Alto. Menos a inquietava a guerra contra os ingleses, do que as intrigas da corte e a perfídia dos poderosos. “Nada receio, senão a traição”, dizia-lhes (125). E, com efeito, pela traição é que viria a perecer. Contra todo grande missionário, tramando-lhe a perda, haverá sempre, agachado na sombra, um traidor. * No profundo azul do céu se recortam as altas torres da catedral de Remos, já velha de muitos séculos, na época de Joana d'Arc. Pelas três largas portas, abertas de par em par, se lobrigam as vastas naves resplandecentes à luz de milhares de círios e nas quais se comprime uma multidão policromia de padres, fidalgos, homens d'armas e burgueses em trajos de festa. As vibrações dos cânticos sacros enchem as abóbadas e, por instantes, ressoam as notas estridentes das fanfarras de guerra. Apinham-se no adro as confrarias, as corporações com seus estandartes, todos os que não conseguiram lugar na basílica. Cerca o edifício imensa turba de populares, cidadãos e camponeses dos arredores, contida a custo por cavaleiros barbados de ferro e por arqueiros que ostentam nos uniformes as armas da França. Pajens e escudeiros seguram pelas rédeas as magníficas cavalgaduras do rei, dos pares e dos chefes militares. E' objeto da curiosidade geral os cavalos pretos da Pucela, que um soldado de seu séqüito mantém preso. Penetremos na alta nave gótica e avancemos até à capela-mor. O rei, cercado dos doze pares do reino, leigos e eclesiásticos, ou de seus suplentes, e do condestável Carlos d'Albert, que conduzia a espada da França, acaba de ser armado cavaleiro. Perto, encostada ao pilar da direita, no sítio que ainda hoje se aponta, está Joana, armada em guerra, empunhando seu estandarte branco, aquele estandarte, que “depois de ser lábaro de tantos trabalhos, viria a ser objeto de subidas honras” (126). A unção, o monarca recebeu-a do arcebispo de Remos, Reinaldo de Chartres, que, tomando a coroa de sobre o altar, a entregou aos dozes pares, os quais, com os braços erguidos, a sustêm por cima da cabeça do rei. Depois de havê-la cingido, Carlos de Valois revestiu os mantos reais, azuis, ornados de lírios douro. Nesse momento, a Pucela, num ímpeto de emoção, lançando-se-lhe aos pés, se lhe abraçou aos joelhos e disse: “Gentil sire, está feito assim o que foi do agrado de Deus, cuja vontade era que eu levantasse o cerco de Orleães e vos trouxesse a esta cidade de Remos, a fim de receberdes aí a vossa digna sagração e provardes por essa forma que sois verdadeiramente rei e herdeiro da coroa da França.” Clangorejam de novo as trombetas e o cortejo se move. Quando, no limiar da porta principal, aparece o rei, uma oscilação imensa se produz na multidão e as aclamações reboam. As eminentes abóbadas vibram ao som das fanfarras. Pelo espaço, elevam-se os cânticos, os gritos de alegria e milhares de vozes lhes respondem do invisível. Eles lá estão, todos os grandes Espíritos da Gália, festejando o renascimento do país natal, todos os que amaram e serviram até à morte à nobre terra da França. Pairam por, sobre o povo em delírio. Eis aqui Vercingétorix, acompanhado dos heróis de Gergóvia e de Alésia! Eis Clóvis e seus Francos! Ali, Carlos Martel e seus companheiros! E Carlos Magno, o grande imperador de crescida barba! Com sua espada, a Joyeuse, ele saúda Joana e o rei Carlos. Além, Rolando e os valorosos! E a coorte inumerável dos cavaleiros, dos sacerdotes, dos monges, dos populares, cujos corpos repousam sob as pesadas lápides das tumbas, ou sob o pó dos séculos, todos os que deram a vida pela França! Lá estão e também gritam: Natal! festejando a ressurreição da pátria, o acordar da Gália! ... O cortejo se distende pelas ruas estreitas e pelas augustas praças. Ladeando o rei, vê-se Joana em seu garboso ginete, com a bandeira desfraldada; vêm a seguir os príncipes, os marechais e os capitães, ricamente trajados e cavalgando magníficos corcéis. Pendões, flâmulas e estandartes flutuam ao vento. Mas, entre os fidalgos de suntuosas vestes e os guerreiros de rebrilhantes armaduras, o alvo dos olhares curiosos era a donzela, que os conduzira à cidade da sagração, conforme predissera em sua aldeia, quando não passava de simples camponesa, de pastorinha desconhecida. Intensa alegria dominava a cidade inteira. De muito longe viera gente para assistir à coroação. Jaques d'Arc, pai de Joana, chegara de Domremy dois dias antes, com Durand Laxart. Hospedaram-se no albergue da Zebra, rua do Adro. Emocionante cena se desenrola quando a heroína, em companhia de seu irmão Pedro, se encontra com o velho pai. Prostrando-se de joelhos, ela lhe pede perdão de haver partido sem o seu consentimento, acrescentando que essa era a vontade de Deus. Cedendo a instâncias suas, o rei os recebeu e outorgou aos habitantes das aldeias de Greux e Domremy isenção de todos os tributos e impostos. As despesas de Jaques d'Arc foram pagas pelos cofres públicos e em nome da cidade lhe ofereceram um cavalo para regressar à sua aldeia. Joana percorreu as ruas, acolhendo com modéstia os humildes e os mendigos. O povo se apertava ao redor dela; todos queriam tocar-lhe as mãos e o anel. Ninguém havia que não estivesse convencido de que fora enviada por Deus, para fazer cessar as calamidades que pesavam sobre o reino. Tudo isso ocorria num domingo, a 17 de julho de 1429, data que assinala o ponto culminante da epopéia de Joana d'Arc. Todavia, Michelet se equivocou, quando disse que a missão de Joana devia terminar em Remos e que ela desobedeceu às suas vozes, continuando a luta. As próprias palavras da heroína, suas declarações aos examinadores de Poitiers e aos juízes de Ruão desmentem semelhante asserção. Mais positivo é ainda o desmentido, na intimação que dirigiu aos capitães ingleses diante de Orleães, em documento datado de 22 de março De onde quer que encontre vossos homens na França, fa-los-ei sair, queiram ou não queiram... “Vim da parte de Deus para vos pôr fora de toda a França” (127). Nenhuma dúvida, portanto, é possível. A versão, segundo a qual o papel de Joana findava em Remos, começou a ter curso por ocasião do processo de reabilitação, colimando esconder dos postemos a deslealdade, poder-se-ia dizer o crime, de Carlos VII e de seus conselheiros e livrá-los das tremendas responsabilidades que pesam sobre um e outros. Tiveram o cuidado, obedecendo a esse intuito, de fazer com que a História fosse falsificada, mutilada, os depoimentos alterados, destruído o registro dos interrogatórios de Poitiers, que, em suma, se praticasse um ato odioso, uma obra de mentira e de iniqüidade! (128). Contudo, não foi sem apreensão, sem pesar, já o vimos, que Joana prosseguiu na sua árdua tarefa. Alguns dias depois, indo a cavalo entre Dunois e Reinaldo de Chartres, dizia: “Quanto eu estimara que a Deus prouvesse permitir-me regressar agora, abandonando as armas, voltar ao serviço de meu pai e de minha mãe e à guarda de seus rebanhos, na companhia de minha irmã e de meus irmãos, que se sentiriam muito felizes por me tornarem a ver” (129). Estas palavras demonstram que o fulgor dos triunfos e os esplendores da corte não a deslumbraram. Atingira o fastígio da glória, constituíra-se o ídolo de um povo, era na realidade a primeira do reino e seu prestígio eclipsara o de Carlos VII. Entretanto, tinha por única aspiração tornar à paz dos campos, às doçuras do lar paterno. Nem as vitórias, nem o poderio que adquirira a haviam transmudado. Conservava-se simples e modesta, em meio das grandezas. Que lição para aqueles que se embriagam e enchem de orgulho com o bom êxito no mais insignificante empreendimento, para aqueles a quem os favores da fortuna causam vertigem! IX – COMPIENHA Nada receio, sendo a traição. JEHANNE A Paris! clamava a Pucela no dia seguinte ao da sagração. A Paris! repetia o exército inteiro (130). Se houvessem marchado logo sobre a capital, como Joana queria, teriam tido ensanchas de penetrar facilmente na cidade, graças à confusão que reinava entre os ingleses. Mas, Carlos VII perdeu uns tempos preciosos, que o duque de Bedford aproveitou para reforçar a defesa daquela praça, requisitando da Inglaterra o auxílio de um exército, que o cardeal de Winchester, tio do rei Henrique, levantara com o objetivo de combater os Hussitas. Aí começa a estrela de Joana a empalidecer. Aos triunfos, às brilhantes vitórias, vão seguir-se às horas trevosas, as horas de provação, que precederão o encarceramento e o suplício. À medida que a fama da heroína se dilata, que sua glória sobrepuja todas as glórias, o ódio se lhe avoluma em torno e as intrigas se tecem entre os grandes fidalgos, cujos planos e tenebrosas maquinações ela viera frustrar. Todos aqueles cortesãos pérfidos, que se sentem eclipsados, aqueles ministros da Igreja, cujas almas destilam fel, que lhe não perdoam o dizer-se, menosprezando-lhes a autoridade, enviada do céu e o preferir-lhes aos conselhos as inspirações das vozes que escutava; muitos até dos chefes militares vencidos em centenas de combates e que se vêem desbancados no que respeita à ciência da guerra, todos esses homens, feridos no orgulho, juraram perdê-la e só esperam o momento propício. Vem próximo esse momento. Os ingleses, a seu turno, estão aterrados com os reveses sofridos. Fora destroçado o principal exército de que dispunham. Morreram ou caíram prisioneiros os melhores capitães com que contavam. Seus soldados desertam de medo da Pucela, a “feiticeira da França”, como lhe chamam e de cujo sobre-humano poder não duvidam. Assim, é inquestionável que, se Carlos VII, logo após a sagração, tivesse avançado sobre Paris, a grande cidade se teria rendido sem combate. Em vez disso, seis semanas se gastam em hesitações e quando, por fim, defrontam com a capital, nenhuma precaução tomam. As ordens de Joana não são cumpridas; deixam de entupir os fossos e de sustentar o ataque. Deram-lhe por ajudantes os dois comandantes que mais a hostilizavam, “os homens mais ferozes que já existiram”, diz Michelet: Raul de Gaucour e o Marechal de Retz, o odioso bruxo, que mais tarde subirá ao cadafalso para expiar o crime de feitiçaria (131). O rei não quis mostrar-se às tropas. Em vão mandavam-lhe mensagens sobre mensagem; não vinha. O duque d'Alençon correu a buscá-lo em Senlis. Prometeu ir e faltou à palavra. No ataque à porta Saint-Honoré, Joana, como sempre, se portou heroicamente. Durante um dia todo permaneceu junto ao fosso, sob uma saraivada de projeteis, incitando os soldados ao assalto. Ao cair da tarde, recebeu um tiro de besta, que a feriu profundamente na coxa, obrigando-a a deitar-se no talude. Ainda assim, não cessava de exortar os franceses, exclamando continuamente: “O rei! o rei! o rei que apareça!“ O rei, porém, nunca apareceu. Por volta das onze horas da noite, vieram retirá-la dali e a levaram contra a vontade. As forças recuaram para Saint-Denis, onde já o monarca se encontrava, tomando providências a fim de regressar aos castelos do Líger. Joana não podia resignar-se a perder de vista os campanários de Paris acera como se estivesse presa à grande cidade por uma força extra-humana” (132). No dia seguinte, quis recomeçar o ataque. Porém, que aconteceu? Não puderam mais passar. O rei havia mandado destruir as pontes e impusera a retirada. Cometeu-se assim uma das maiores infâmias que a História registra. Coligaram-se contra a divindade aqueles mesmos a quem Ela enviara um messias salvador. Lograram desta forma entravar a missão de Joana d'Arc e, segundo a forte expressão de Henri Martin, “obrigaram Deus a mentir”. Revelaram tal egoísmo e tão grande cegueira que, por sua própria indignidade, sustaram a ação da Providência. Com o desastre diante dos muros de Paris, abre-se para Joana extenso período de incertezas, de inquietações, de intimas angústias. Durante oito meses, experimentará as alternativas das vitórias e dos reveses vence em Saint-Pierre-le-Moútier, é derrotada em Charité. Sente que a boa fortuna a abandona. A borda dos fossos de Melun, suas vozes lhe dirão: Joana, serás capturada antes do dia de São João! “. A uma causa única é licito atribuir esta reviravolta da sorte: - à má vontade dos homens, à ingratidão do rei e de seus conselheiros, que criaram mil obstáculos à heroína e ocasionaram o malogro de seus empreendimentos. Apoucaram-na com isso? De maneira alguma. A partir desse momento é que ela se torna verdadeiramente grande, maior do que era por efeito de suas vitórias. As provações, o cativeiro, o martírio suportado com tanta nobreza, a elevarão acima dos mais ilustres conquistadores e a sublimarão aos olhos da posteridade. No cárcere, diante do tribunal de Ruão, sobre a fogueira, será mais imponente do que no tumultuar dos combates, ou na embriaguez do triunfo. Sua atitude, seus sofrimentos, suas palavras inspiradas, suas lágrimas, sua dolorosa agonia, farão dela uma das mais puras glórias da França, um alvo da admiração dos séculos, um motivo dos zelos de todos os povos! A adversidade lhe adornará a fronte com uma auréola sagrada. Pelo heroísmo com que recebe a dor, pela grandeza d’alma nos reveses e em presença da morte, virá a ser justa causa de orgulho para todos aqueles em quem vibram e palpitam o sentimento da beleza moral e o amor a seu país. E' bela a glória das armas; porém, só o gênio, a santidade e o martírio têm direito às apoteoses da História! * Fracassado o cerco da Charité, Joana foi chamada à corte. Bem depressa, porém, a inação começa a pesar-lhe e ei-la novamente deixando-se arrebatar por seu ardor. Abandona o rei aos prazeres e festas em que se comprazia e à frente de uma tropa que lhe era dedicada voa para Compienha, então assediada. E' aí que lhe sucede cair prisioneira do conde de Luxemburgo, do partido da Borgonha. Durante uma das sortidas, que ela constantemente fazia, o governador da cidade, Guilherme de Flavy, mandou arriar o rastilho e a heroína, não tendo podido mais entrar na praça, foi capturada. Que responsabilidade cabe ao senhor de Flavy em tal sucesso? Muitos o consideraram resultado de premeditada traição. Fazia pouco que o chanceler Regnault de Chartres passara por Compienha, onde tivera entrevistas com o duque de Borgonha. Não obstante, a maioria dos historiadores: H. Martin, Quicherat, Wallon e Anatole France crêem na lealdade daquele capitão (133). Mau grado a essas opiniões, seu papel no tocante à captura de Joana permaneceu equívoco e mal definido. E' verdade que o moderno historiógrafo do comandante Flavy, Pierre Champion, não conseguiu, pelo exame dos textos existentes, chegar a uma conclusão formal e, por seu lado, não descobriu documento algum probante (134). De conformidade com indicações recebidas do Além, somos levados a acreditar que não houve premeditação; mas, que souberam aproveitar a ocasião que se oferecia, para livrarem-se de uma personalidade que se constituíra empecilho a certas ambições. Embora, porém, nenhuma conspiração tenham tramado previamente contra Joana, nem por isso deixou de haver traição, uma vez que G. de Flavy não tentou sequer salvá-la. Encurralada pelos borgonheses no ângulo da estrada de Margny com o baluarte que defendia a ponte, a alguns metros da entrada, a heroína podia ser facilmente socorrida. No momento crítico, o comandante de Compienha ocupava o baluarte com muitas centenas de homens. Observando tudo o que se passava, nenhuma tentativa de socorro fez e abandonou a donzela à sua sorte. Nisto é que a traição parece flagrante. Joana foi primeiramente encarcerada no castelo de Beaulieu, a pequena distância de Compienha, sendo depois transferida para a torre de Beaurevoir, de propriedade do conde de Luxemburgo. Durante seis meses, andou de prisão em prisão, por Arrás, Drugy, Crotoy, até que a 21 de novembro, em obediência às intimações prementes e cominatórias da Universidade de Paris, foi vendida aos ingleses, seus inimigos cruéis, por dez mil libras tornesas, além de uma renda consignada ao soldado que a prendera. João de Luxemburgo descendia de alta linhagem; era, porém, mesquinho de coração e falto de fortuna. (Inscrevera no brasão uma divisa de desalentado: Contra o impossível nada se consegue. Quão mais vibrante a de seu contemporâneo Jaques Caeur: “Para um coração valoroso, nada é impossível.)” “Muito endividado, arruinado quase, o conde não queria resignar-se a viver pobre”. Não pôde, conseqüentemente, recusar as dez mil libras em ouro que o rei da Inglaterra oferecia. Por esse preço, vendeu Joana e a entregou. Dez mil libras em ouro! Era uma soma enorme para a época. Os ingleses, entretanto, estavam baldo de recursos; assim é que já não podiam mais pagar os seus funcionários. A falta de dinheiro, suspendeu em Paris, durante semanas, o funcionamento da justiça. O notário que redigia os atos do parlamento teve que interromper o trabalho, por não haver mais pergaminho (135). Desde, porém, que se tratava de comprar Joana, os ingleses acharam meio de obter tão grossa quantia. Que fizeram para isso? Uma coisa que lhes era familiar: lançaram pesado imposto sobre toda a Normandia. E eis um fato que merece assinalado: com dinheiro francês é que o sangue de Joana d'Arc foi pago! No recesso do cárcere, não era a sua própria sorte o que mais atribulava Joana. Acima de tudo, afligia-a o pensamento, que assim, tristemente, exprimiu: “Não mais poderei servir ao nobre país de Franca!“ Ao ter notícia de que sobre a boa gente de Compienha pesa a ameaça de ser passada a fio de espada, se a cidade cair em poder dos inimigos, precipita-se do alto da torre de Beaurevoir, para ir compartilhar-lhes da sorte. “Eu ouvira falar, dirá ela aos juízes, que todos os de Compienha, até à idade de sete anos, seriam tratados a ferro e fogo. Achei, então, que mais valia correr o risco de morrer, (do que sobreviver à destruição das boas criaturas)“ (136). De etapa em etapa, de prisão em prisão, chega finalmente a Crotoy, nos confins da Normandia, que os ingleses ocupavam. Metem-na numa torre de defesa, que guarda a embocadura do Soma. Da janela gradeada de ferro, descortina ela um panorama de praias e mais longe a amplidão do mar. Pela primeira vez, dado lhe é contemplar o imenso lençol líquido e o espetáculo a impressiona fortemente. O mar! com suas vagas espumantes, seus horizontes ilimitados, seus reflexos multicores! Ela, tão sensível às harmonias do céu e da terra, às belezas dos dias luminosos e do firmamento estrelado, se extasia na contemplação da vasta superfície, que ora apresenta a coloração cinzenta da prata, ora a de um azul intenso, e reflete à noite as cintilações dos astros; escuta, maravilhada, o sussurro misterioso do vento e das ondas. Quando, à hora de preamar, lhe chegam aos ouvidos o queixume das vagas, o soluçar do Oceano, profunda sensação de tristeza a invade. Os ingleses vão chegar, os ingleses que a compraram tão caro! Até então fora, desde Compienha, prisioneira dos borgonheses, seus adversários, sem dúvida, mas homens da mesma língua, da mesma raça e que a tratavam com atenções. Dali por diante, que é o que pode esperar dos bárbaros estrangeiros a quem tantas vezes vencera e que, votando-lhe ódio feroz, jamais perderam ocasião de injuriá-la? Sentindo horrível angústia a lhe despedaçar a alma, põe-se a orar. Ouve, então, a voz que lhe diz e repete: recebe tudo de bom grado! Passou assim em Crotoy três semanas. Um dia, as senhoras de Abbeville foram visitá-la, consolá-la e, por Instantes, misturaram suas lágrimas com as da virgem (137). X - RUÃO; A PRISÃO O escolhido por Deus para qualquer missão, Mártir, soldado seja, apóstolo ou salvador, D'alto valor precisa e muda submissão; Que belo é o combater, nobre sofrer a dor. PAUL ALLARD Joana está nas mãos dos ingleses. Amordaçada, para que não possa falar às populações, conduzem-na bem escoltadas ao castelo do Ruão. Aí, lançaram-na num calabouço, encerrada numa gaiola de ferro: “Mandaram forjar para mim, diz-nos ela, uma espécie de gaiola em que me meteram e na qual fiquei extremamente comprimida; puseram-me ao pescoço umas grossas correntes, uma na cintura e outras nos pés e nas mãos. Teria sucumbido a tão horrível aflição, se Deus e meus Espíritos não me houvessem prodigalizado consolações. Nada é capaz de pintar a tocante solicitude deles para comigo e os inefáveis confortos que me deram. “Morrendo de fome, seminua, cercada de imundícias, machucada pelos ferros, tirei de minha fé a coragem de perdoar a meus algozes.” Procedimento atroz! Joana é prisioneira de guerra, é mulher e a enjaulam, como se fosse uma fera! Pouco mais tarde, é certo, o inglês se contentaram com o prendê-la pelos pés a uma pesada trave por duas fortes correntes. Assim começa uma paixão de seis meses, paixão sem exemplo na História, paixão mais dolorosa mesmo do que a do Cristo, pois que o Cristo era homem, ao passo que aqui se trata de uma moça de dezenove anos, posta à mercê de soldados brutos, estúpidos e lúbricos. Cinco deles, malfeitores, a escória do exército inglês, dizem todos os historiadores, vigiam-na dia e noite dentro do cárcere. Imaginai o que pode uma donzela acorrentada esperar de homens vis e grosseiros, bêbedos de furor contra aquela que consideram a causadora de todos os reveses que sofreram. Os miseráveis a atormentavam com os maus tratos. Muitas vezes procuravam violentá-la e, como não o conseguissem, batiam-lhe brutalmente. Ela se queixava disso aos juízes no curso do processo e, freqüentemente, quando estes lhe entravam na prisão para interrogá-la, a encontravam banhada em lágrimas, com o rosto inchado e pisado pelas pancadas recebidas (138). Imaginai os horrores de semelhante situação, os pensamentos da mulher, os temores da virgem exposta a todas as surpresas, a todos os ultrajes, à privação contínua do repouso, do sono, o que lhe alquebrava o corpo e aniquilava as forças, em meio das ansiedades, das incessantes agonias. Sozinha entre aqueles infames, não consentia em abandonar as vestes masculinas e este ato de pudor lhe era profligado como um crime! Os visitantes não se revelam menos abomináveis do que os guardas. O conde de Luxemburgo, que a vendera, lembrou-se um dia de ir escarnecê-la no cárcere. Acompanhavam-no os condes de Warwick e de Stafford e o bispo de Thérouanne, chanceler do rei da Inglaterra. “Vim aqui para te resgatar - diz-lhe ele -, porém sob a condição de prometeres que nunca mais pegarás em armas contra nós.” - “Escarneceis de mim - exclamou a donzela. Sei perfeitamente que não tendes nem o desejo, nem o poder de fazê-lo.” E, como o conde insistisse, acrescentou: “Sei perfeitamente que estes ingleses me farão morrer, acreditando que depois da minha morte se apoderarão do reino da França. Sejam eles, porém, cem mil vezes mais numerosos do que são e ainda assim não terão o reino.” Estas palavras os põem furiosos, chegando o conde de Stafford a desembainhar a adaga para feri-Ia. Warwiak obstou a que o fizesse (139). Depois, são os juízes que confiam a um padre indigno, traidor e espião, Loyseleur, a incumbência de penetrar na prisão em trajes de leigo e, dizendo-se loreno e prisioneiro dos ingleses, captar a confiança de Joana e decidi-Ia a tomá-lo por confidente. Durante seus colóquios com a virgem, escrivães postados à espreita ouviam, por uma abertura feita de propósito, e registravam todas as confidências da heroína. Acreditavam os ingleses que um “encantamento” havia na virgindade de Joana e que, se esta a perdesse, eles nada mais tinham que recear dela. Um exame prático pela duquesa de Bedford, em companhia de iady Ana Bavon e de muitas matronas, demonstrara que aquela virgindade era real. Particularidade que revela a baixeza de um caráter: o duque de Bedford, regente da Inglaterra, assistia, oculto, ao exame. Foi pouco depois desses fatos que o lorde condestável, conde de Stafford, levado tanto pela superstição, quanto por uma paixão hedionda, entrou no cárcere de Joana e tentou violentá-la (140). Quem poderia dizer o que ela sofreu nas trevas de sua enxovia! Abandonada de todos, traída e vendida a peso de ouro, experimentou os requintes da dor! Conheceu as horas de angústia, de tortura moral, em que tudo se nos escurece ao derredor, em que as vozes do céu parecem que se calam (141), em que o invisível se conserva mudo, quando os furores, os ódios da Terra se desencadeiam e arremessam contra nós. Todos os missionários hão provado as amarguras dessas horas cruciantes e ela as amargou mais do que todos, ela, pobre menina, entregue indefesa às mais vis ofensas. Porque permitem Deus tais coisas? Para sondar a alma e o coração de seus fiéis, para tirar a prova da fé que depositam n’Eles; para que os méritos dos que assim são feridos aumentem e para que a coroa que lhes reserva ganhe mais brilho e beleza. Mas, dir-se-á, como é que Joana, extenuada, carregada de ferros, pôde escapar às tentativas ignóbeis de seus visitantes e guardas? Como pôde manter incólume a flor da pureza, que era sua salvaguarda, pois que, de acordo com a opinião corrente naquela época, a uma virgem não se podia imputar o crime de sortilégio? Ora bem, eis aqui! Nessas horas terríveis, que lhe causavam mais horror do que a própria morte, o invisível intervém. Uma legião radiosa se introduz na gélida e sombria prisão. Seres que só ela vê e aos quais chama “seus irmãos do paraíso”, vêm cercá-la, ampará-la, dar-lhe as forças necessárias para resistir ao que teria sido um sacrilégio abominável. Esses Espíritos a reconfortam e lhe dizem: “Sofrer é engrandecer-se, é elevar-se!” Em meio das trevas que a envolvem, uma claridade se produz; suaves cânticos lhe chegam aos ouvidos, como eco das harmonias do espaço. As vozes a consolam e lhe repetem: “Tem coragem! serás libertada por uma grande vitória!” Na ingenuidade da sua fé, julga que essa libertação é a soltura. Ah! conforme o ensinavam nossos antepassados, os druidas, “(era a libertação da morte)”, a morte pelo martírio. O martírio era indispensável, para dar àquela santa figura toda a sublime radiosidade. Não é privilégio das almas superiores ter por destino sofrer pelas causas nobres? Não é imprescindível que passem pelo cadinho das provações, para mostrarem todas as virtudes, todos os tesouros, todos os esplendores que encerram? Uma grande morte é o coroamento necessário de uma grande vida, de uma vida de devotamento, de sacrifícios; é a iniciação numa existência mais elevada. Porém, nas horas dolorosas, durante a suprema purificação, sobre-humana força sustenta essas almas, força que lhes permite tudo afrontar, tudo vencer! XI - RUÃO; O PROCESSO Entro todo a tremer nesta árdua escuridade! Seja feita, o meu Deus, tua santa vontade! PAUL ALLARD Chegamos agora ao processo. Com efeito, ao mesmo tempo em que padecia tão duro e horrível cativeiro, Joana ainda tinha que sofrer as longas e tortuosas fases de um processo, tal como nunca houve igual no mundo. De um lado, tudo quanto de hipócrita perversidade, de astúcia, de perfídia, de ambição servil ressumar pode o espírito do mal: setenta e um clérigos, padres e doutores, fariseus de corações petrificados, todos homens da Igreja, mas que fazem da religião uma máscara destinada a dissimular ardentes paixões - a cupidez, o espírito de intriga, o fanatismo tacanho. De outro lado, só, sem amparo, sem conselheiro, sem defensor, uma criança de dezenove anos, a encarnação da pureza e da inocência, uma alma heróica num corpo de virgem, uns corações sublimes e ternos, prontos aos maiores sacrifícios para salvar seu pais, para cumprir fielmente sua missão e dar o exemplo da virtude no dever. Jamais se viu a natureza humana subir tão alto de uma parte e, de outra, cair tão baixo. A História já definiu as responsabilidades. Nada quero dizer que possa acirrar os ódios políticos, ou religiosos. Pois o nome de Joana d'Arc não é, entre todos os nomes gloriosos, aquele em torno do qual se devem coligar os sentimentos de admiração, partam de onde partirem? A Igreja procurou desculpar-se da acusação que lhe pesava, havia séculos, e para isso se empenhou na tarefa de lançar o odioso da condenação de Joana exclusivamente sobre Pedro Cauchon, bispo de Beauvais. Renegou-o, coberto de maldições. Mas, Pedro Cauchon é o único grande culpado? Lembremos um fato. A 26 de maio de 1430, três dias depois da captura de Joana às portas de Compiègne, o vigário geral do inquisidor-mor da França, residente em Paris, escrevia ao duque de Borgonha, suplicando e “ordenando que, sob as penas de direito, lhe enviasse presa uma certa mulher chamada Jehanne a Pucela, veementemente suspeitada de crimes cheirando à heresia, a fim de comparecer perante o promotor da Santa Inquisição” (142). Assim, o temível tribunal do Santo Ofício, que na época já não era mais do que um fantasma, reaparecia, saía da sombra, para reclamar a maior vítima de quantas lhe compareceram à barra. E a Universidade de Paris, a principal corporação eclesiástica da França, lhe apoiava as reivindicações. Anatole France, bem informado sobre este ponto, diz (143) “No caso da Pucela, não era unicamente um bispo quem punha a Santíssima Inquisição em movimento, era a filha dos reis, a mãe dos estudos, o belo e refulgente sol da França e da cristandade, a Universidade de Paris. Atribuindo-se o privilégio de conhecer das causas relativas às heresias, seus pareceres, reclamados de todas as partes, faziam fé por toda a face do mundo em que a cruz fora plantada.” Havia um ano que ela pedia a apresentação da Pucela ao inquisidor, como suspeita de sortilégio. O mesmo autor acima citado ainda diz: (144): “Depois de se entender com os doutores e mestres da Universidade de Paris, o bispo de Beauvais surgiu, a 14 de julho, no acampamento de Compienha e reclamou a Pucela como pertencente à sua justiça. Apresentava em apoio da reclamação as cartas que a Alma Mater endereçara ao duque de Borgonha e ao senhor de Luxemburgo.” Era a segunda vez que a Universidade reclamava Joana ao duque; temia que outros a libertassem “por vias oblíquas” e lha pusessem fora da alçada. O emissário levava também autorização para oferecer dinheiro. Pedro Cauchon, bispo de Beauvais, que, por se ter aliado aos ingleses, o povo expulsara de seu sólido, instruiu em pessoa e dirigiu o processo. Coube-lhe o papel mais importante, é incontestável; mas, o vice-inquisidor João Lemaitre aprovou todas as escolhas que o mesmo bispo fez para a composição do tribunal, em que os dois muitas vezes se sentaram lado a lado. E quando Cauchon estava impedido, João Lemaitre presidia às sessões. Todos os documentos comprovam este fato (145). O vice-inquisidor assinou e autenticou os autos das audiências, que os escrivães do tribunal redigiam em três vias. Um desses exemplares ainda existe na Biblioteca da Câmara dos Deputados, trazendo aposto o selo da Inquisição. Era de direito que nos processos de heresia as decisões e julgamentos fossem tomados e pronunciados pelos dois juízes: o bispo e o inquisidor. Foi o que se verificou em Ruão, como algures. Impossível, portanto, deixar-se de reconhecer que a- jurisprudência inquisitorial acobertava Cauchon. Mas, não é tudo. Os bispos de Coutances e Lisieux, consultados no curso do processo, aprovaram a acusação. Há mesmo a este respeito uma particularidade, que convém seja posta em relevo: o bispo de Lisieux, Zanon de Castiglione, ao manifestar-se pela condenação, fundamentou seu voto, dizendo que Joana era de muito baixa condição para ser inspirada por Deus. Realmente! Que teriam pensado de semelhante resposta os apóstolos do Cristo, aqueles humildes artífices e pescadores da Galileia, e o próprio Cristo, filho de um carpinteiro? Também figuram no processo os bispos de Thérouanne, de No,yon, de Norwich. Todos três tomaram parte nas admoestações à Pucela. Cauchon cercou-se de personagens consideradas e de teólogos de fama. Deu assento no tribunal a homens como Tomás de Courcelles, apelidado mais tarde “a luz do concílio de Basiléia e o segundo Gerson”, Pedro Maurício e João Beaupère, que foram reitores da Universidade de Paris; a doutores e mestres em Teologia, tais como Guilherme Érard Nicole, Midi, Jacques de Touraine e o grande número de abades mitrados das grandes abadias normandas. Ora, nenhum, dentre tantos clérigos eminentes, se mostrou imparcial. Todos eram partidários dos ingleses e inimigos de Joana. O promotor João d'Estivet, a alma danada de Cauchon, homem sem fé nem escrúpulos, se tornou particularmente notável pelo ódio e pelas violências contra a acusada. Nenhum direito lhe reconheceu a pretender, conforme pediu, que do tribunal fizessem parte, em número eqüitativo, alguns eclesiásticos amigos da França. Dessa decisão ela apelou para o papa e para o concílio. Tudo em vão. Os juízes, sem exceção, assessores, cônegos, doutores em Teologia, recebiam dos ingleses, por sessão, uma paga equivalente a 40 francos, moeda atual. Os recibos estão juntos ao processo. Os assessores chegaram a ser quase cem, mas não funcionavam todos ao mesmo tempo. Os que se mostravam mais hostis a Joana, além da paga, também recebiam presentes. O rei da Inglaterra deu aos membros do tribunal cartas de garantia para o caso que “aqueles que tivessem tido por agradáveis os erros de Joana tentassem pleiteá-los perante o papa, o concílio, ou noutra parte” (146). Houve muitos pareceres da Sorbona, entre outros o de 19 de abril, confirmado pelas quatro Faculdades a 14 de maio. Todos concluíam contra a Pucela. Cumpre acrescentar que o inquisidor geral João Graverend, num sermão que pregou na igreja de São Martinho dos Campos, em Paris, após o suplício de Joana, repetiu todos os termos da acusação e aplaudiu a sentença. Pouco tempo depois, o papa nomeava Pedro Cauchon bispo titular de Lisieux. É exato que mais tarde a pena de excomunhão o fulminou, porém não como castigo de seu crime; simplesmente porque recusou satisfazer a um pagamento que o Vaticano exigia. Assim, foi por uma questão de dinheiro que esse prelado se viu atingido pelos raios pontifícios, ao abrigo dos quais esteve, enquanto só carregava a culpa de haver levado à condenação a libertadora de seu país (147). De fato, nenhuma voz se elevou em toda a cristandade, para protestar contra o iníquo julgamento de Joana, quer do lado do clero que se conservara francês, quer do lado do clero que se passara para os ingleses. Ao contrário, uma circular que a seus diocesanos dirigiu Regnault de Chartres, arcebispo de Remos, nos revela o vergonhoso estado de espírito de Carlos VII e de seus conselheiros. Num relatório escrito de acordo com os documentos da municipalidade e almotacelado de Reims, encontrou-se a análise de uma missiva do chanceler aos habitantes de sua cidade arquiepiscopal, concebida nos termos que se vão ler. Dá notícia da prisão de Joana diante de Compiègne e diz que tal sucedera “por ela não ter querido aceitar conselho; mas, fazer tudo a seu bel-prazer... Deus consentira em que fosse presa, por se haver enchido de orgulho, por causa das ricas vestes que trajava e por não ter feito o que Deus lhe ordenara, mas só o que era da sua vontade, dela Joana” (148). Entretanto, Carlos VII, embora pessimamente aconselhado, recebera altas e instantes solicitações em favor da heroína. Jaques Gélu, fidalgo, arcebispo d'Embrun, que fora preceptor do delfim Carlos, escreveu a seu real discípulo, depois da captura de Joana, lembrando-lhe o que a Pucela fizera pela coroa da França. Rogava-lhe que perscrutasse a própria consciência e visse se não

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