Jeane de Cássia Nascimento Santos



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O ESPAÇO INVADIDO: O DOMÍNIO
IMPERIAL PORTUGUÊS EM ANGOLA

Jeane de Cássia Nascimento Santos




Universidade de São Paulo

Dos diversos períodos literários que formam as literaturas de língua portuguesa, a literatura colonial produzida nos primeiros quarenta anos do século XX, revela-se merecedora de atenção, uma vez que podemos observar a produção desse período sob duas vertentes: uma produzida em Portugal ou nas colônias, que tinha o intuito principal de propagar a dominação portuguesa em África e outra originada nas colônias, escrita em sua maior parte por colonizados, preocupados em descrever sua terra, costumes e indignação com a situação colonial. Sobre esse momento, Manuel Ferreira escreve:


(...) a produção literária vinda de África ou nascida em Portugal, mas sobre o Ultramar, caminhava em dois sentidos paralelos, ou melhor, divergentes, cada um de per si formando círculos concêntricos separados; de um lado, a literatura subsidiária de perspectiva colonial ou colonizante; de outro a literatura que irrompia das vitais raízes africanas.” (FERREIRA, 1989: 232)
Conseqüentemente, encontramos também diferentes formas discursivas, que Manuel Ferreira chama de discurso literário colonial e em discurso literário africano. Partindo desses pressupostos, optamos por estudar a literatura de perspectiva colonial e seu discurso literário colonial, tendo como objeto o espaço no romance colonial O sol dos trópicos de Henrique Galvão, publicado em 1936.

Henrique Carlos Malta Galvão, nascido em 04/03/1895, foi um militar que fez carreira no exército português, no período denominado Estado Novo, ocupando sempre altos cargos em Angola. Profundo conhecedor da sociedade angolana, escreveu vários textos entre teatro, contos, aventuras de caça, crônicas, romances, literaturas de viagem entre outros. Seus livros fizeram grande sucesso na metrópole, devido ao tom glorioso e heróico que dava às suas personagens, constituídas a maioria delas de colonos portugueses e suas aventuras em terras africanas.

O panorama histórico em que ocorre a literatura colonial é o período denominado Estado Novo que durou mais de quarenta anos (1933-1974) e teve como marca principal o extremo enfoque ditatorial baseado no modelo corporativista do fascismo. Durante grande parte desse período, Portugal esteve sob o governo de Antonio de Oliveira Salazar, que centralizou completamente o poder, promulgando a Constituição Política do Estado, publicada em 11/04/1933 que dava plenos poderes a ele, tornando-o independente do Parlamento.

Outro fato importante foi a inserção do Acto Colonial de 1930 na Constituição, pelo qual os territórios ultramarinos eram considerados parte complementar da Nação, financeiramente autônomos, e economicamente solidários com a Metrópole.

De acordo com Omar Ribeiro Thomas: “Os anos 30 e o advento do Estado Novo representam, de certa forma, uma resposta a uma geração que via nas colônias a possibilidade de retomada dos anos de glória de uma nação e de um império colonial há muito decadente” (THOMAS, 1997:63).

Uma das formas de perpetuar o regime, é a literatura, uma vez que o povo português fazia desses textos objetos de curiosidade, ou ainda, tinham-nos como a representação do poder de Portugal. Através da literatura, o povo português via novamente, como em Os Lusíadas, a superioridade da nação lusitana.

Inserido nesse panorama, Henrique Galvão escreve o romance O sol dos trópicos, no qual descreve diferentes espaços, desde a metrópole até a Serra da Chela, em Angola, local onde se passa maior parte do romance e que será abordado com maior acuidade em nosso trabalho.

Também abordaremos os diferentes olhares que a personagem faz do espaço, aliado aos seus sentimentos que também vão mudando no desenrolar da narrativa. Essas percepções ocorrem num grau ascendente. O tom glorioso é uma das bases desse romance colonial que coloca o colonizador português como detentor do poder em qualquer espaço. Até mesmo na selva angolana.

O romance O sol dos trópicos é uma narrativa homodiegética, extremamente detalhista, bem ao gosto do leitor/colonizador português, que forma um público ávido de poder desfrutar de aventuras em lugares considerados exóticos.

Após algumas páginas estritamente descritivas o narrador passa a relatar o porquê de sua vinda à África. O leitor fica sabendo que o narrador-personagem fora um estudante medíocre, sustentado pelos pais, lavradores da Beira, que enviavam a seu filho suas parcas economias. Após sua formatura, busca a fama através de um livro de poesias “Vôo de Águias”. Por sinal o livro não fez sucesso e os gastos de uma publicação de luxo ficaram a cargo de seus pais: “Meus pais desembolsaram o necessário para que a obra de publicasse – e eu lancei em edição de luxo, seis meses após o bacharelado (...)” p.19 . Com morte do pai e da mãe , a personagem passa a sentir ódio da terra natal: “(...) Mas ganhei tal ódio à casa aldeã onde tinha nascido, que logo fiz propósito de vender terras e moradia, para não ter mais, pelos anos afora, pretextos ou motivos para lá voltar.”p.22. Diante dessa situação, só lhe resta a fuga, não somente de dívidas, como também de uma vida sem nenhuma perspectiva de melhora, “– Afinal, era o que esperava. Foi para isto que vim – para estoirar...” (p. 14).

A saga inicia-se na Serra da Chela, onde a personagem é deixada, após uma discussão com os “funantes”, comerciantes do mato que praticavam o comércio de permuta, através da exploração dos nativos e contrabando de marfim. É nessa descrição inicial, misturada aos sentimentos da personagem que seguiremos nossa análise.

Como fora deixado em plena selva, sem nenhum tipo de mantimento, a primeira visão da Serra da Chela é de um lugar inóspito, apavorante, perigoso e dominador. “Lembro-me que só após algumas horas depois tive noção menos confusa sobre a desgraçada situação em que me encontrava; (...) Uma verdura negra e agreste, apenas aberta num ou noutro ponto, onde penhascos nus espreitavam abismos, vestia, até perder de vista, o apavorante cenário” p. 8-9. Essa descrição demonstra o estado emocional da personagem aliado à descrição espacial. Apesar do cenário desanimador, a personagem repete insistentemente a ausência de medo ou qualquer outro sentimento diante da selva desconhecida. Ao contrário, não tinha nada a perder, mesmo na presença da morte:


“Realmente, não valia a pena lutar.

Invadia-me os membros uma grande lassitude.



E porque viera à África para morrer e porque me sentia em presença da morte – decerto por isso – não senti o menor pavor!”

Tanta fadiga de viver, tanto desinteresse e desapego pela vida, tantos meses levados a magicar num acontecimento que me matasse, quási me deixavam calmo, repousado, tranqüilo, como se fora aquêle passo, difícil e dolorosíssimo para tantos outros, a solução prevista e esperada da minha vida (p.11).
Ao optarmos pelo estudo do espaço em “O sol dos trópicos”, não podemos deixar de citar Osman Lins: “Ou, irresponsabilidade mais grave e talvez imperdoável, como ocupar-se alguém do espaço dissociando-o do tempo? (...) são indissociáveis” (LINS, 1976: 63). Pensando na impossível dissociação de espaço e tempo, tomaremos as primeiras impressões da personagem a respeito de sua situação: “ Quando me encontrei, só e abandonado, no interior da Serra da Chela, sem bispar caminho para onde conduzir os passos nem refúgio para abrigar o corpo, não senti o menor pavor.” p.7. Naquele momento e na Serra do Chela, indícios temporal e espacial, que logo a seguir traduzem os sentimentos da personagem, ou a falta deles: “É certo que estava vazio de qualquer outro sentimento. Nem pavor, nem coragem, nem prazer – nada” (p. 7).

Nessa situação, retornaremos a Osman Lins: “Onde,, por exemplo, acaba a personagem e começa seu espaço? A separação começa a apresentar dificuldades quando nos ocorre que mesmo a personagem é espaço (p. 69). A personagem em O sol dos trópicos é o espaço – Serra do Chela. No início da narrativa uma personagem vazia de sentimentos, apenas à procura de um final para sua história. Esse esvaziamento também é verificado no espaço: “Tive a sensação de estar no fim do Mundo. No fim do Mundo, não porquê – talvez porque tudo o que via, o que sentia, lembrava idéias que fizera do Caos, que era dado a lucubrações literárias” (p.113).

No decorrer da narrativa, os espaço passa por mudanças e aos poucos deixa de ser tão inóspito. A personagem infere a esse espaço seu estado de alma. Agora já o domina e consegue ficar até alegre com acontecimentos “insignificantes” na sua visão de colonizador.

Rompi na direcção que me tentava e, quási de repente, dei com uma velha árvore, varada pelo raio, ainda a arder. Tinha sido esgalhada por um lado e lambiam-na ainda línguas esguias de lume. Em baixo, no chão, arrumadas ao tronco, vermelhavam, por entre cinzas leves e quási brancas, tições afogueados em ninho cinzento de brasas.

Senti uma alegria viva e transbordante.

Eu, ou homem que trouxera em mim, obcecadamente, a idéia de morrer e a quem a desgraça tinha varado como punhal implacável – homem que se despenhara de altas ambições não alcançadas e que era infeliz porque muito desejara – senti-me alagado de ventura por encontrar meia dúzia de tições incandescentes, donde podia tirar lume e calor” (p.119-20).
Passamos a ter uma personagem que luta e passa a dar valor a sua existência. Paralelamente o espaço também é valorizado, agora como o espaço grandioso e heróico do homem português, que sem nenhuma ferramenta ou qualquer outro tipo de ajuda, consegue vencer o espaço inóspito, habitando, construindo, vivendo.
Ao cabo de oito dias tinha reforçado a minha barraca, amanhado cama geitosa de capim, descoberto novos frutos e água mais clara – e andava imaginando forma de pilhar as lebres que, ao luar, vinham retouçar em terras próximas dos meus domínios. (...)

Noutro ambiente, noutro mundo, perante outras circunstâncias – o instinto de viver, mais natural e rijo que a vontade de morrer, faziam de mim, pura e simplesmente, sem transições laboriosas, um outro homem” (p. 122-23).


Além da adequação ao espaço, observamos que em nenhum momento a admiração à natureza é pura e simples, ao contrário, a descrição está sempre aliada às necessidades do colonizador. Sobre adequação do colonizador, Alfredo Bosi ressalta: “A ordem do cultivo em primeiro lugar. As migrações e povoamento reforçam o princípio básico do domínio sobre a natureza, peculiar a todas as sociedades humanas. Novas terras, novos bens abrem-se à cobiça dos invasores”(BOSI, 1992, 19/20). Paralela à adequação, existe também o heroísmo da personagem que ajuda aos colonizados, demonstrando assim a “bondade” do homem civilizado que acaba transformando-se em chefe, dirigente, guia e, conseqüentemente, ao redor de sua cabana, nasce uma aldeia chefiada por ele.
“E no dia seguinte toda a família de N’Tuba, construía a poucos metros de minha cabana, três cubatas de ramos e – um pouco mais desviado – um “sampo” para as vacas.

O sítio era de feição. As águas corriam mansas garantindo o bebedoiro. O capim alto e ainda esverdeado assegurava o pasto dos animais.

Estava fundada a aldeia.

E eu era o chefe, tacitamente eleito, do novo povoado.

A melhoria que a família selvagem trouxe ao meu viver foi portentosa.

Melhoria moral, porque, decididamente o homem é anima de manada; melhoria material porque as suas artes e recursos, em solidariedade com as minhas luzes de civilizado, realizavam o interesse de ambas as partes. (p.174/175)

(...)

E repeti o apelo em voz de comando, num tom que me surpreendeu, apesar das circunstâncias especiais em que me encontrava. Parecia que subia em mim o sentimento de autoridade inerente à superioridade da minha raça.



E os pretos me obedeceram (p.187).
A citação acima, confirma o discurso colonial, ou seja, o colonizador é aquele que vence as dificuldades, domina o colonizado, explora sua terra, enfim mostra superioridade a qualquer força interna ou externa. Pode-se assim traçar um paralelo entre o poder da Metrópole e a força do colonizador.

Outro ponto que evidencia a dominação é a visão que temos da cabana do colonizador, num primeiro plano, e as cubatas de ramos do colonizado que vêm logo depois. Tem-se nessa imagem um prolongamento do poder português , que nos faz lembrar a posição da casa grande e da senzala, tão próximas e ao mesmo tempo distantes, diferentes, realçando dessa maneira o distanciamento de duas realidades.


Em O sol dos trópicos, espaço e personagem se unem, demonstrando, a conquista, o sucesso do homem português. Sucesso atribuído não só à personagem, como também ao povo português, que mesmo diante dos mais variados problemas, consegue vencer as dificuldades, aqui representadas pelo espaço. Expressa-se assim, a superioridade do colonizador.


BIBLIOGRAFIA
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

FERREIRA, Manuel. Uma perspectiva do romance colonial vs. Literaturas africanas. In:



O discurso no percurso africano I. Lisboa: Plátano Editora, 1989.

----. Literaturas africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.

GALVÃO, Henrique. O sol dos trópicos. Lisboa: Tipografia da Empresa do Anuário

Comercial, 1936.

LINS, Osman. Espaço romanesco in: Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo:

Ática, 1976.

ROSAS, Fernando. História de Portugal: O Estado Novo. Lisboa: Estampa, 1994. v. 7.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Ecos do Atlântico Sul: Representações sobre o terceiro império



português (tese de doutoramento). São Paulo: Universidade de São Paulo, 1997.

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