Jared diamond



Baixar 26,6 Mb.
Página1/29
Encontro26.05.2017
Tamanho26,6 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   29



JARED DIAMOND
COLAPSO

COMO AS SOCIEDADES ESCOLHEM O FRACASSO OU O SUCESSO

TRADUÇÃO


Alexandre Raposo
REVISÃO TÉCNICA

Waldeck Dié Maia


5ª. EDIÇÃO
EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO - SÃO PAULO


2007

Para


Jack e Ann Hirschy,

Jill Hirschy Eliel e John Eliel,

Joyce Hirschy McDowell,

Dick (1929-2003) e Margy Hirschy,

e seus pares de Montana:

guardiões do grande céu daquele estado.

Conheci um viajante de uma terra antiga

Que disse: "Duas imensas pernas de pedra, sem tronco,

Jazem no deserto. Junto a elas,

Parcialmente afundado na areia, um rosto despedaçado, com o lábio Franzido e enrugado em um sorriso escarnecedor de frio poder, Demonstra que o escultor bem intuiu tais paixões,

Que ainda sobrevivem, estampadas naquelas coisas sem vida,

A mão que as forjou e o coração que as alimentou;

No pedestal há a seguinte inscrição:

'Meu nome é Ozimandias, rei dos reis:

Olhem para os meus feitos pujantes e desesperem-se!'

Nada resta, além disso. Ao redor daquela ruína

Colossal, ilimitada e desnuda

As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.


"Ozimandias”: por Percy Bysshe ShelIey (1817)

SUMÁRIO
Lista de mapas 13
Prólogo: Uma história de duas fazendas

Duas fazendas. Colapsos, passado e presente. Edens desaparecidos? . Uma estrutura de cinco pontos. Empresas e meio ambiente. O método comparativo. Plano do livro 15


PARTE 1: MONTANA CONTEMPORANEA
Capítulo 1: Sob o grande céu de Montana

A história de Stan Falkow . Montana e eu , Por que começar com Montana? . História econômica de Montana . Mineração. Florestas . Solo. Água. Espécies nativas e não nativas. Visões divergentes . Atitudes em relação à regulamentação. A história de Rick Laible . A história de Chip Pigman . A história de Tim Huls . A história de John Cook . Montana, modelo do mundo 45


PARTE 2: SOCIEDADES DO PASSADO
Capítulo 2: Crepúsculo em Páscoa

Os mistérios da pedreira. História e geografia de Páscoa. Gente e alimentação. Chefes, clãs e plebeus. Plataformas e estátuas . Esculpindo, transportando e erguendo. A floresta desaparecida . Conseqüências para a sociedade. Europeus e explicações . Por que Páscoa era frágil? . Páscoa como metáfora 105


Capítulo 3: As últimas pessoas vivas: ilhas de Pitcairn e Henderson

Pitcairn antes do Bounty . Três ilhas diferentes . Comércio. O fim do filme

153

Capítulo 4: Os antigos: os anasazis e seus vizinhos

Fazendeiros do deserto. Anéis de crescimento das árvores . Estratégias de agricultura. Problemas e ratos silvestres do Chaco . Integração regional. Declínio e morte do Chaco . A mensagem do Chaco 171


Capítulo 5: Os colapsos maias

Os mistérios das cidades perdidas. O ambiente maia . Agricultura maia . História maia . Copán . Complexidade de colapsos. Guerras e secas. Colapso nas terras baixas do sul . A mensagem maia 195


Capítulo 6: Prelúdio e fugas vikings

Experimentos no Atlântico. A explosão viking. Autocatálise . Agricultura viking. Ferro. Chefes vikings. Religião viking . Orkneys, Shetlands, Faroe . Meio ambiente da Islândia . História da Islândia. Islândia em contexto. Vinlândia 219


Capítulo 7: O florescer da Groenlândia Nórdica

Entreposto europeu. Clima atual da Groenlândia . Clima no passado. Plantas e animais nativos. Colonização nórdica. Agricultura. Caça e pesca. Uma economia integrada . Sociedade. Comércio com a Europa. Auto-imagem 259


Capítulo 8: O fim da Groenlândia Nórdica

O começo do fim . Desmatamento . Dano ao solo e às pastagens . Os antecessores dos inuits. Subsistência inuit. Relações entre inuits e nórdicos. O fim . Causas inéditas do fim 303


Capítulo 9: Caminhos opostos para o sucesso

De baixo para cima, de cima para baixo. Terras altas da Nova Guiné . Tikopia . Problemas da era Tokugawa . Soluções para a era Tokugawa . Por que o Japão foi bem-sucedido . Outros sucessos 337



PARTE 3: SOCIEDADES MODERNAS
Capítulo 10: Malthus na África: o genocídio em Ruanda

Um dilema. Eventos em Ruanda . Mais do que ódio racial . Preparação em Kanama . Explosão em Kanama . Por que aconteceu 377


Capítulo 11: Uma ilha, dois povos, duas histórias: A República Dominicana e o Haiti

Diferenças. Histórias. Causas de divergência. Impactos ambientais dominicanos . Balaguer . O meio ambiente dominicano hoje. O futuro 397


Capítulo 12: China: gigante cambaleante

Importância da China. Antecedentes. Ar, água e solo. Hábitat, espécies e megaprojetos . Conseqüências. Conexões. O futuro 429


Capítulo 13: "Minando" a Austrália

Importância da Austrália. Solos. Água. Distância. História antiga. Valores importados. Comércio e imigração. Degradação da terra. Outros problemas ambientais . Sinais de esperança e mudança 453


PARTE 4: LIÇÕES PRÁTICAS
Capítulo 14: Por que algumas sociedades tomam decisões desastrosas?

Mapa rodoviário do sucesso. Falta de previsão. Falta de percepção. Mau comportamento racional. Valores desastrosos . Outros fracassos irracionais. Soluções malsucedidas . Sinais de esperança 501


Capítulo 15: Grandes empresas e meio ambiente: Condições diferentes, resultados diferentes

Extração de recursos. Dois campos de petróleo. As questões das empresas de petróleo. Empresas de mineração de metais . As questões das empresas de mineração . Diferenças entre empresas de mineração . A indústria madeireira . Forest Stewardship Council . A indústria pesqueira . As empresas e o público 527



Capítulo 16: O mundo como um polder: o que isso representa para nós atualmente?

Introdução. Os problemas mais sérios . Se não os solucionarmos... . A vida em Los Angeles . Chavões simplistas . O passado e o presente . Razões para ter esperança


LISTA DE MAPAS

O mundo: pré-histórico, histórico e sociedades modernas 20-21

Montana contemporânea 48

Oceano Pacífico: ilhas Pitcairn e ilha de Páscoa 108-109

Ilhas Pitcairn 155

Sítios anasazis 178

Sítios maias 198

A expansão viking 224-225

Hispaniola contemporânea 398

China contemporânea 432

Austrália contemporânea 462

Focos de problemas políticos do mundo moderno;

Focos de problemas ambientais do mundo moderno 594

PRÓLOGO
UMA HISTÓRIA DE DUAS FAZENDAS
Duas fazendas. Colapsos, passado e presente. Edens desaparecidos? Uma estrutura de cinco pontos. Empresas e meio ambiente. O método comparativo. Plano do livro
Há alguns verões visitei duas fazendas de laticínios: a fazenda Huls e a fazenda Gardar, que apesar de estarem a milhares de quilômetros uma da outra ainda assim são muito similares em suas virtudes e vulnerabilidades. Ambas as fazendas eram, de longe, as maiores, mais prósperas e tecnologicamente mais desenvolvidas de suas respectivas regiões. Em particular, as duas giravam em torno de um magnífico e moderníssimo estábulo para abrigar e ordenhar suas vacas. Tais estruturas, divididas em fileiras opos­tas de cocheiras, superavam todos os outros estábulos de suas respectivas regiões. Em ambas as fazendas, as vacas pastavam ao ar livre em pastos viçosos durante o verão. Do mesmo modo, as duas fazendas produziam sua própria forragem, armazenada no fim do verão para alimentar o re­banho durante o inverno. A produção de pastagens de verão e forragens de inverno era garantida pela irrigação dos campos. As duas fazendas eram semelhantes em área (alguns quilômetros quadrados) e em tamanho de estábulo, sendo que o estábulo da fazenda Huls abrigava mais vacas do que o da fazenda Gardar (200 e 165 vacas, respectivamente). Os proprietários das duas fazendas eram líderes de suas respectivas comunidades. Eles eram profundamente religiosos. As duas fazendas localizavam-se em encantado­res cenários naturais que atraíam turistas de lugares distantes, com mon­tanhas cobertas de neve ao fundo, cortadas por rios repletos de peixes que corriam em direção a um famoso rio (no caso da fazenda Huls) ou fiorde (no caso da fazenda Gardar).

Estas eram as virtudes destas fazendas. Quanto às vulnerabilidades que compartilhavam, as duas estavam localizadas em regiões economi­camente inapropriadas para a produção de laticínios, devido ao fato de se localizarem muito ao norte, o que significava verões menores para produzir pastagens e forragem. Pelo fato de, mesmo em anos bons, o clima não ser ideal se comparado ao de fazendas de laticínios localizadas em latitudes mais baixas, as duas fazendas podiam ser afetadas por mudanças climáticas - secas, no caso da fazenda Huls, e frio, no caso da fazenda Gardar. As duas regiões ficavam longe de centros consumidores onde comercia­lizar os seus produtos, de forma que os custos com transporte e perdas impunham desvantagens competitivas em relação a regiões localizadas próximas dos grandes centros. As economias das fazendas eram reféns de forças fora do controle de seus proprietários, como a prosperidade e os gostos sazonais de seus clientes e vizinhos. Em uma escala maior, os países em que as duas fazendas estavam localizadas sofriam altos e baixos em suas economias devido ao alívio ou ao recrudescimento de ameaças de dis­tantes sociedades inimigas.

A maior diferença entre as fazendas Huls e Gardar está em sua situação atual. A fazenda Huls, localizada no vale Bitterroot, no estado de Montana, oeste dos EUA, um empreendimento familiar de propriedade de cinco ir­mãos e de suas respectivas esposas, é próspera, e o condado de Ravalli, no qual a fazenda Huls está instalada, orgulha-se de possuir o maior cresci­mento populacional entre os condados dos EUA. Tim, Trudy e Dan Huls, três dos proprietários da fazenda Huls, levaram-me em um passeio por seu estábulo high-tech, e pacientemente explicaram os prós e os contras da produção de laticínios em Montana. É inconcebível que os EUA em geral, e a fazenda Huls em particular, venham a entrar em colapso em um futuro previsível. Mas a fazenda Gardar, uma antiga fazenda arrendada pelo bispo nórdico no sudoeste da Groenlândia, foi abandonada há mais de 500 anos. A sociedade nórdica na Groenlândia ruiu completamente: seus milhares de habitantes morreram de fome, em guerras civis ou contra inimigos, ou emigraram, até não sobrar ninguém. Apesar de as sólidas pa­redes de pedra do estábulo e da catedral da fazenda Gardar ainda estarem de pé - de modo que me foi possível contar quantas cocheiras individuais possuía -, não havia qualquer proprietário ali para me falar dos prós e contras de Gardar. Contudo, quando a fazenda Gardar e a Groenlândia Nórdica estavam no auge, seu declínio parecia tão inconcebível quanto o declínio da fazenda Huls e dos EUA hoje.

Deixe-me esclarecer uma coisa: ao traçar tais paralelos entre as fazen­das Huls e Gardar, não pretendo dizer que a fazenda Huls e a sociedade americana estejam fadadas ao declínio. No momento, a verdade é bem diferente: a fazenda Huls está em processo de expansão, sua nova e avançada tecnologia vem sendo estudada para ser implantada em fazendas vizinhas, e os EUA são o país mais poderoso do mundo. Também não estou dizen­do que fazendas ou sociedades em geral tendam ao colapso. Embora algu­mas fazendas tenham de fato entrado em colapso, como a Gardar, outras sobreviveram ininterruptamente durante milhares de anos. Em vez disso, minhas viagens para as fazendas Huls e Gardar, localizadas a milhares de quilômetros uma da outra, mas visitadas no mesmo verão, fizeram-me chegar à conclusão de que até mesmo as sociedades mais ricas e tecnolo­gicamente mais avançadas de hoje em dia enfrentam problemas ambien­tais e econômicos crescentes que não devem ser subestimados. Muitos de nossos problemas são similares àqueles que minaram a fazenda Gardar e a Groenlândia Nórdica e que muitas outras sociedades do passado luta­ram para resolver. Algumas dessas sociedades do passado falharam (como a Groenlândia Nórdica), e outras foram bem-sucedidas (como os japo­neses e os insulares de Tikopia). O passado nos oferece um rico banco de dados com o qual podemos aprender, e continuar a ser bem-sucedidos.


A Groenlândia Nórdica é apenas uma de muitas sociedades do passa­do que entraram em colapso ou desapareceram, deixando para trás ruínas monumentais como as imaginadas por Shelley em seu poema "Ozimandias". Como colapso, refiro-me a uma drástica redução da população e/ou complexidade política, econômica e social, numa área considerável, duran­te um longo tempo. O fenômeno do colapso é, portanto, uma forma ex­trema de diversos tipos mais brandos de declínio, e torna-se arbitrário de­cidir quão drástico deve ser o declínio de uma sociedade antes que se possa qualificá-lo como colapso. Alguns desses tipos mais brandos de declínio incluem pequenos altos e baixos normais do acaso; pequenas reestrutura­ções políticas, econômicas e sociais características de qualquer sociedade; a conquista de uma sociedade por um vizinho ou o seu declínio ligado à ascensão de um vizinho, sem mudança no tamanho total da população ou na complexidade de toda a região; e a queda ou substituição de uma elite de governo por outra. De acordo com tais padrões, a maioria das pessoas concorda que as seguintes sociedades do passado foram vítimas ilus­tres de verdadeiros colapsos, mais do que de pequenos declínios: as socie­dades anasazi e cahokia, dentro das fronteiras dos EUA contemporâneos; as cidades maias na América Central; as sociedades mochica e Tiahuana­co, na América do Sul; a Grécia Miceniana e Creta Minóica, na Europa; o Grande Zimbábue, na África; as cidades asiáticas de Angkor Wat, da cultura harapa, no vale do Indo; e a ilha de Páscoa no oceano Pacífico (mapa, p. 20-21).

As ruínas monumentais deixadas por tais sociedades do passado ins­piram um fascínio romântico em todos nós. Quando crianças, nos ma­ravilhamos ao ver as primeiras fotografias de tais ruínas. Ao crescermos, planejamos viagens de férias para conhecê-las como turistas. Sentimo-nos atraídos por sua beleza espetacular e perturbadora, e também pelos mis­térios que propõem. A dimensão das ruínas fala em favor da antiga pros­peridade e do poder de seus construtores - como se gritassem: "Olhem para os meus feitos pujantes e desesperem-se!”, nas palavras de Shelley. Contudo, os construtores desapareceram, abandonando as grandes es­truturas que criaram com tanto esforço. Como pode uma sociedade ou­trora tão pujante acabar entrando em colapso? Qual foi o destino de seus indivíduos? Foram embora, e (neste caso) por quê? Ou será que morre­ram ali mesmo, de modo miserável? Por trás deste mistério romântico oculta-se um pensamento perturbador: será que nossa próspera sociedade acabará tendo o mesmo destino? Será que, algum dia, os turistas olharão fascinados para as torres enferrujadas dos arranha-céus de Nova York do mesmo modo que hoje olhamos para as ruínas das cidades maias cobertas pela vegetação?

Há muito se suspeita que a maior parte desses misteriosos abandonos tenha sido provocada por problemas ecológicos, pelo fato de as pessoas te­rem destruído inadvertidamente os recursos ambientais dos quais as suas sociedades dependiam. A suspeita de suicídio ecológico não intencional ­ecocídio - vem sendo confirmada por descobertas em décadas recentes feitas por arqueólogos, climatologistas, historiadores, paleontólogos e palinologistas (cientistas especialistas em pólen). Os processos através dos quais as sociedades do passado minaram a si mesmas danificando o meio ambiente dividem-se em oito categorias, cuja importância relativa difere de caso para caso: desmatamento e destruição do hábitat, problemas com o solo (erosão, salinização e perda de fertilidade), problemas com o controle da água, sobrecaça, sobrepesca, efeitos da introdução de outras es­pécies sobre as espécies nativas e aumento per capita do impacto do cres­cimento demográfico.

Tais colapsos do passado tendem a seguir cursos similares, verdadeiras variações sobre um mesmo tema. O crescimento populacional força as pessoas a adotarem meios de produção agrícola intensificados (como irrigação, safras duplas ou cultivo em terraços), e a expandir a agricultura das terras inicialmente escolhidas para áreas marginais, de modo a alimentar o número crescente de bocas famintas. Práticas não sustentáveis levam a um ou mais dos oito tipos de dano ambiental listados anteriormente, resultando em terras marginais de cultivo novamente abandonadas. Para a sociedade, as conseqüências incluem escassez de comida, fome, guerras onde muita gente luta por poucos recursos, e derrubada de elites governantes pelas massas desiludidas. Afinal, a população diminui por causa da fome, da guerra, ou das doenças, e a sociedade perde algo da complexidade política, econômica e cultural que desenvolveu em seu auge. Os escritores sentem-se tentados a fazer analogias entre as trajetórias dessas sociedades e as trajetórias de vidas individuais - para falar sobre o nascimento, o crescimento, o auge, o envelhecimento e a morte das sociedades - e para dizer que o longo período de envelhecimento que a maioria de nós atra­vessa entre nossos melhores anos e nossas mortes também se aplica às sociedades. Mas a metáfora se mostra errônea para diversas sociedades do passado (e para a moderna União Soviética) que declinaram rapidamente após atingirem o auge de prosperidade e poder. Esses rápidos declínios devem ter sido recebidos com choque e surpresa por seus cidadãos. Nos piores casos de colapso total, todos os membros de uma sociedade emi­gram ou morrem. Obviamente, porém, esta sombria trajetória não é inva­riável para todas as sociedades do passado: diferentes sociedades ruíram em diferentes graus e de modos diferentes, enquanto outras sociedades simplesmente não entraram em colapso.



Atualmente, o risco de tais colapsos é motivo de preocupação crescen­te. De fato, os colapsos já se materializaram para países como a Somália, Ruanda e outras nações do Terceiro Mundo. Muitos temem que o ecocídio tenha superado a guerra nuclear e as novas doenças como uma ameaça à população mundial. Os problemas ambientais que enfrentamos hoje em dia incluem as mesmas oito ameaças que minaram as sociedades do passado e quatro novas ameaças: mudanças climáticas provocadas pelo ho­mem, acúmulo de produtos químicos tóxicos no ambiente, carência de energia e utilização total da capacidade fotossintética do planeta. A maioria dessas 12 ameaças, acredita-se, se tornará crítica em âmbito mundial nas próximas décadas: ou resolvemos os problemas até lá, ou os problemas irão minar não apenas a Somália, como também as sociedades do Primeiro Mundo. Em vez de um cenário de Dia do Juízo Final envolvendo a extinção da humanidade, ou de um apocalíptico colapso da civilização industrial, é mais provável que tenhamos de enfrentar "apenas” um futuro com um padrão de vida consideravelmente inferior, riscos maiores e crô­nicos, e o declínio daqueles que consideramos alguns de nossos valores mais fundamentais. Tal colapso pode assumir diversas formas, como a disseminação mundial de doenças ou de guerras provocadas pela escassez de recursos naturais. Se tal raciocínio é correto, então os nossos esforços de hoje determinarão o estado em que estará o mundo quando nossas crianças e jovens chegarem à meia-idade e velhice.

Mas a seriedade de nossos problemas ambientais é vigorosamente debatida. Seriam os riscos exagerados ou, ao contrário, subestimados? É ra­zoável pensar que, com nossa potente tecnologia moderna, uma população mundial de quase sete bilhões de indivíduos está destruindo o meio ambiente mundial em um ritmo muito mais acelerado do que alguns mi­lhões de pessoas com instrumentos de pedra e madeira já o destruíram localmente no passado? Será que a tecnologia moderna irá resolver os nossos problemas, ou será que está criando novos mais rapidamente do que resolve os problemas antigos? Quando esgotamos um recurso (p.ex., madeira, petróleo ou peixes oceânicos), poderemos contar com a possibilidade de substituí-lo por algum novo recurso (p.ex., plásticos, energia eólica ou solar, ou piscicultura)? Será que o crescimento populacional mundial está diminuindo? Não estamos a caminho de equilibrar a po­pulação mundial em um patamar administrável de pessoas?

Tais perguntas ilustram por que os colapsos de famosas civilizações do passado têm mais importância do que um simples mistério românti­co. Talvez existam algumas lições práticas a serem aprendidas com os colapsos do passado. Sabemos que algumas sociedades do passado entraram em colapso e outras não. Então, o que torna certas sociedades especialmente vulneráveis? Quais, exatamente, foram os processos pelos quais as sociedades do passado cometeram ecocídio? Por que algumas sociedades do passado não conseguiram ver os erros que estavam cometendo, e que (pensando em retrospecto) deviam ser óbvios? Que soluções foram bem-­sucedidas no passado? Se formos capazes de responder a tais perguntas, talvez possamos identificar quais sociedades estão correndo mais risco atualmente, e que medidas poderiam ser tomadas para ajudá-las, sem es­perar por mais colapsos como o que ocorreu na Somália.

Contudo, também há diferenças entre o mundo moderno e seus problemas, e as sociedades do passado e seus problemas. Não devemos ser tão ingênuos a ponto de pensar que o estudo do passado permitirá soluções simples, diretamente transferíveis para as sociedades de hoje. Diferimos das sociedades do passado em alguns aspectos que nos põem em menor risco do que elas. Alguns desses aspectos, que são freqüentemente men­cionados, incluem nossa poderosa tecnologia (i.e., seus efeitos benéficos), globalização, medicina moderna e maior conhecimento de sociedades do passado e de sociedades modernas distantes. Também diferimos das so­ciedades do passado em alguns aspectos que nos colocam em maior ris­co: neste contexto, novamente, nossa potente tecnologia (i.e., seus efeitos destrutivos não intencionais), globalização (de modo que um colapso na remota Somália afeta também os EUA e a Europa) a dependência que mi­lhões (e, logo, bilhões) de nós têm da medicina moderna para a sua so­brevivência, e uma população mundial ainda maior. Talvez ainda possa­mos aprender com o passado, mas apenas se avaliarmos cuidadosamente as suas lições.
Os esforços para entender os colapsos do passado têm de se confron­tar com uma grande controvérsia e quatro complicações. A controvérsia envolve a resistência à idéia de que os povos do passado (alguns sabidamente ancestrais de gente ainda viva e que ainda fala a mesma língua) fizeram algo que contribuísse para o seu próprio declínio. Hoje, somos muito mais conscientes a respeito de dano ambiental do que há algumas décadas. Atualmente, até mesmo as placas nos quartos de hotel invocam o respeito ao meio ambiente para fazer com que nos sintamos culpados sempre que pedirmos toalhas novas ou deixarmos a torneira aberta. Da­nificar o meio ambiente é considerado algo moralmente condenável.
Não é de surpreender, portanto, que nativos havaianos e maoris não gostem que os paleontólogos digam que seus ancestrais exterminaram metade das espécies de aves nativas do Havaí e da Nova Zelândia, e nem os povos nativos americanos gostam que os arqueólogos digam que os anasazis desmataram partes do sudeste dos EUA. Para alguns, as supostas descobertas de paleontólogos e arqueólogos soam apenas como mais um pretexto racista dos brancos para espoliar os povos indígenas. É como se os cientistas lhes dissessem: "Seus ancestrais eram maus administradores das próprias terras, portanto mereciam ser espoliados." Atualmente, alguns brancos americanos e australianos, ressentidos com os pagamentos de pensões e com a distribuição de terras para os nativos americanos e para os aborígines australianos feitos pelo governo, se apegam a tais descober­tas para levantar tal argumento. Não apenas os povos indígenas, mas tam­bém alguns antropólogos e arqueólogos que estudaram e se identificaram com esses povos, vêem as recentes descobertas como mentiras racistas.

Alguns povos indígenas, bem como os antropólogos que com eles se identificam, alegam o oposto. Insistem que os povos indígenas do passado eram (e que os modernos ainda são) administradores capazes, ecologicamente cônscios de seu meio ambiente, que conheciam e respeitavam a natureza intimamente, que viviam em um Jardim do Éden virtual e jamais poderiam ter feito coisas tão ruins. Como me disse certa vez um caçador da Nova Guiné: "Se um dia eu conseguir abater um grande pombo de um lado de nossa aldeia, espero uma semana antes de voltar a caçar pombos. Mesmo assim, sigo na direção oposta. Os habitantes do Primeiro Mundo moderno são maus, ignorantes da natureza, não respeitam o meio am­biente e o destroem”.

Na verdade, os dois extremos desta controvérsia - os racistas e os defensores do Éden do passado - estão cometendo o erro de encarar os antigos povos indígenas como criaturas fundamentalmente diferentes (sejam inferiores ou superiores) dos povos modernos do Primeiro Mun­do. O manejo de recursos ambientais de modo sustentado sempre foi di­fícil, desde que o Homo sapiens desenvolveu a inventividade, a eficiência e as habilidades de caçador há uns 50 mil anos. Desde a primeira colo­nização humana do continente australiano, há cerca de 46 mil anos, e a rápida extinção posterior da maioria dos antigos marsupiais gigantes e de outros animais de grande porte da Austrália, cada colonização humana de uma grande extensão de terra virgem - seja a Austrália, América do Norte, América do Sul, Madagascar, ilhas do Mediterrâneo, Havaí, Nova Zelândia e dezenas de outras ilhas do Pacífico - sempre foi seguida de uma onda de extinções de grandes animais que evoluíram sem temer os seres humanos e foram facilmente abatidos, ou que sucumbiram a mudanças de hábitat, introdução de espécies daninhas e doenças trazidas pelo homem. Qualquer povo pode cair na armadilha de sobreexplorar recursos ambientais, devido a problemas universais que iremos considerar neste livro: que os recursos a princípio pareciam inesgotavelmente abundantes; que os sinais iniciais de sua extinção foram mascarados por variações normais nos níveis daquele recurso ao longo dos anos ou das décadas; que foi difícil fazer as pessoas concordarem em ser parcimoniosas na coleta de um recurso compartilhado (a chamada tragédia do bem comum, a ser discutida nos próximos capítulos); e que a complexidade dos ecossistemas freqüentemente torna as conseqüência de alguma perturbação causada pelo homem virtualmente impossíveis de serem previstas mesmo por um ecologista profissional. Os problemas ambientais que hoje são difíceis de administrar certamente eram ainda mais difíceis no passado. Para povos ágrafos do passado, que não podiam ler estudos sobre colapso social, o dano ecológico constituía uma tragédia inesperada e não intencional, uma conseqüência de seus melhores esforços, mais do que de culpa moral ou egoísmo consciente. As sociedades que acabaram entrando em colapso (como os maias) estavam entre as mais criativas (durante um período) e as mais avançadas de seus tempos, e nada tinham de estúpidas ou primitivas.

Os povos do passado não eram maus administradores ignorantes que merecessem ser exterminados ou espoliados, nem ambientalistas conscien­tes que resolviam problemas que não podemos resolver hoje em dia. Eram pessoas como nós, enfrentando problemas em muito semelhantes àqueles que encaramos hoje. Tendiam ao sucesso ou ao fracasso, dependendo de circunstâncias similares àquelas que atualmente nos fazem tender ao su­cesso ou ao fracasso. Sim, há diferenças entre a situação que enfrentamos hoje e a enfrentada pelos povos antigos, mas ainda há semelhanças bastantes para que possamos aprender com eles.

Acima de tudo, parece-me errôneo e perigoso invocar pressupostos históricos sobre práticas ambientais de povos nativos de modo a justificar tratá-los com justiça. Em muitos (ou na maioria) dos casos, os historiadores e arqueólogos vêm descobrindo provas cabais de que tal pressupos­to (o dos ambientalistas do Éden) é falso. Ao invocá-los para justificar tra­tamento justo aos povos nativos, deixamos implícito que seria correto maltratá-los caso tal pressuposto pudesse ser refutado. Na verdade, esta questão não se baseia em qualquer pressuposto histórico sobre práticas ambientais e, sim, em um princípio moral, ou seja: o de que é moralmen­te errado espoliar, subjugar ou exterminar o semelhante.
Esta é a controvérsia sobre colapsos ecológicos do passado. Quanto às complicações, é claro que não é verdade que todas as sociedades estão fadadas ao colapso devido a dano ambiental: no passado, algumas sociedades entraram em colapso, outras não; a verdadeira questão é por que algumas sociedades tornam-se frágeis, e o que distingue as que entram em colapso das que não entram. Algumas sociedades que irei discutir, como a dos islandeses e dos habitantes de Tikopia, conseguiram resolver pro­blemas ambientais muito complexos e puderam, assim, persistir durante um longo tempo, e ainda estão fortes atualmente. Por exemplo, quando os colonizadores noruegueses da Islândia encontraram um ambiente su­perficialmente semelhante ao da Noruega, mas que, em realidade, era mui­to diferente, inadvertidamente destruíram grande parte do solo da Islân­dia e a maioria de suas florestas. Durante um longo tempo a Islândia foi o país mais pobre e mais ecologicamente devastado da Europa. Contudo, os islandeses acabaram aprendendo com a experiência, adotaram medidas rigorosas de proteção ambiental, e agora desfrutam de uma das rendas nacionais per capita mais altas do mundo. Os habitantes de Tikopia vivem numa ilhota tão longe de seu vizinho mais próximo que foram forçados a se tornarem auto-suficientes em quase tudo. Porém, microadministraram os seus recursos e controlaram o seu crescimento populacional tão cui­dadosamente que a sua ilha ainda é produtiva após mais de três mil anos de ocupação humana. Portanto, este livro não é uma série ininterrupta de histórias deprimentes de fracassos, mas também inclui histórias de suces­so que inspiram otimismo e a vontade de serem imitadas.

Além disso, não conheço nenhum caso em que o colapso de uma sociedade possa ser atribuído integralmente a dano ambiental: sempre há outros fatores que contribuem. Quando comecei a planejar este livro, não gostei de tais complicações e ingenuamente pensei que o livro seria apenas sobre dano ambiental. Finalmente, cheguei a uma estrutura de cinco pontos de possíveis fatores que podem contribuir e que agora considero ao tentar entender qualquer suposto colapso ambiental. Quatro desses fa­tores - dano ambiental, mudança climática, vizinhança hostil e parceiros comerciais amistosos - podem ou não se mostrar significativos para uma sociedade em particular. O quinto fator - as respostas da sociedade aos seus problemas ambientais - sempre se mostrou significativo. Conside­remos estes cinco fatores um por um, em uma seqüência que não implica qualquer primazia de causa, apenas conveniência de apresentação.

O primeiro conjunto de fatores envolve os danos que as pessoas inadvertidamente infligem ao meio ambiente, como já foi discutido. A exten­são e a reversibilidade de tal dano dependem em parte de propriedades inerentes às pessoas (p.ex., quantas árvores cortam por hectare a cada ano) e, em parte, de propriedades inerentes ao meio ambiente (p.ex., quantas sementes germinam por hectare e quão rapidamente as árvores crescem por ano). Tais propriedades ambientais referem-se tanto à fragilidade (suscetibilidade a dano) quanto à resiliência (o potencial para se recuperar dos danos sofridos), de modo que é possível falar separadamente de fragilidade ou resiliência de uma área florestal, de seu solo, de suas populações de peixes, e daí por diante. Portanto, o porquê de apenas certas sociedades sofrerem colapsos ambientais pode em princípio envolver tanto a excepcional imprudência de seus povos, a fragilidade excepcional de alguns aspectos de seu meio ambiente, ou ambas as coisas ao mesmo tempo.

A próxima consideração em minha estrutura de cinco pontos é a mudança climática, um termo que hoje tendemos a associar com o aquecimento global provocado pelo homem. Na verdade, o clima pode ficar mais quente ou mais frio, mais úmido ou mais seco, ou mais ou menos variável entre meses ou anos devido a alterações de forças naturais que influenciam o clima e que nada têm a ver com os seres humanos. Exemplos de tais forças incluem mudanças de temperatura produzidas pelo sol, erupções vulcânicas que lançam poeira na atmosfera, mudanças na orientação do eixo da Terra em relação à sua órbita, e mudanças na distribuição de terra e do mar sobre o planeta. Os casos de mudança de clima natural freqüentemen­te incluem o avanço e o recuo das placas de gelo continentais durante as Idades do Gelo, que começaram há mais de dois milhões de anos, a chamada Pequena Idade do Gelo, que durou de 1.400 a 1.800 d.C., e o esfria­mento global posterior à enorme erupção do vulcão Tambora, na Indoné­sia, em 5 de abril de 1815. Tal erupção lançou tanta poeira na atmosfera superior, que a quantidade de luz do sol que chegava ao solo diminuiu até que a poeira voltasse a se acomodar, espalhando a fome até mesmo na América do Norte e na Europa devido às temperaturas muito frias e às co­lheitas reduzidas de 1816 ("o ano sem verão").

As mudanças climáticas eram um problema ainda maior para as sociedades ágrafas cujos membros tinham um tempo médio de vida menor do que o que temos atualmente, porque em muitas partes do mundo o clima tende a variar não apenas de ano a ano, como também em uma escala de tempo que envolve várias décadas; p.ex., diversas décadas úmidas seguidas de uma seca de meio século. Em muitas sociedades pré-históricas o tem­po médio de uma geração - o número médio de anos entre o nascimen­to dos pais e o de seus filhos - era de apenas poucas décadas. Assim, ao fim de uma série de décadas úmidas, a maioria das pessoas vivas não se lembrava de um período prévio de clima seco. Mesmo hoje em dia, há uma tendência humana de aumentar a produção e a população durante décadas boas, esquecendo-se (ou, no passado, jamais se dando conta) de que tais décadas não iriam durar para sempre. Quando as boas décadas acabam, a sociedade se vê com mais população do que pode suportar, ou hábitos arraigados inadequados às novas condições climáticas. (Basta pen­sar no oeste dos EUA, atualmente seco, e de suas políticas urbanas ou ru­rais de uso indiscriminado de água, freqüentem ente estabelecidas em dé­cadas úmidas, com o pressuposto tácito de que eram típicas.) Para agravar tais problemas de mudança climática, muitas sociedades do passado não tinham mecanismos de emergência para importar alimentos excedentes de áreas com um clima diferente para aquelas onde havia escassez de comi­da. Tudo isso expunha as sociedades do passado a um risco maior durante as mudanças climáticas.

As mudanças climáticas naturais tanto podem melhorar quanto piorar as condições de uma sociedade em particular, e podem beneficiar uma sociedade enquanto prejudica outra. (Por exemplo, vemos que a Pequena Idade do Gelo foi ruim para a Groenlândia Nórdica, mas foi boa para a Groenlândia inuit.) Em muitos casos históricos, uma sociedade que estava exaurindo os seus recursos ambientais podia absorver as perdas desde que o clima fosse benigno, mas seria levada ao limiar do colapso quando o clima se tornasse mais seco, mais frio, mais quente, mais úmido, ou mais va­riável. Podemos dizer, então, que o colapso foi causado pelo impacto am­biental humano ou por mudanças climáticas naturais? Nenhuma destas alternativas simples é correta. Na verdade, se a sociedade já não tivesse exaurido parte de seus recursos naturais, poderia ter sobrevivido à falta de recursos causada pela mudança climática. Em vez disso, só foi capaz de sobreviver à exaustão de recursos que se auto-infligiu até que as mudanças climáticas produzissem uma maior falta de recursos. O que demons­trou ser fatal não foi nenhum dos fatores isoladamente e, sim, a combina­ção de impacto ambiental com mudança climática.

Uma terceira combinação são vizinhos hostis. Apenas algumas sociedades históricas eram geograficamente próximas o bastante de outras so­ciedades para terem algum contato entre si. As relações com sociedades vizinhas podiam ser intermitentes ou cronicamente hostis. Uma socieda­de podia se proteger de seus inimigos desde que fosse forte, e sucumbir a eles quando enfraquecesse por qualquer motivo, incluindo dano am­biental. A causa imediata do colapso neste caso seria conquista militar, mas a causa definitiva - o fator cuja mudança levou ao colapso - teria sido o fator que provocou o enfraquecimento. Deste modo, colapsos causados por motivos ecológicos ou por outros motivos são mascarados por derro­tas militares.

O exemplo mais comum desta situação é o da queda do Império Ro­mano do Ocidente. Roma tornou-se cada vez mais assediada por invasões bárbaras, e a data convencional para a queda do império foi arbitrariamente estabelecida em 476 d.C., ano em que o último imperador do Oci­dente foi deposto. Contudo, antes mesmo da ascensão do Império Roma­no, havia tribos "bárbaras" do norte da Europa e da Ásia Central, além das fronteiras da Europa Mediterrânea "civilizada” que periodicamente atacavam a Europa civilizada (assim como a China e a Índia civilizadas). Du­rante mais de mil anos, Roma conseguiu manter os bárbaros à distância, como, por exemplo, em 101 a.C., na Batalha de Campi Raudii, quando ex­terminou uma grande força invasora de cimbros e teutões que pretendia conquistar o norte da Itália.

Contudo, foram os bárbaros que acabaram ganhando a batalha. Qual a fundamental razão para tal mudança? Teria sido porque os bárbaros mudaram, tornando-se mais numerosos ou mais bem organizados, adquirindo armas melhores, mais cavalos, ou se beneficiando de mudanças cli­máticas nas estepes da Ásia Central? Neste caso, poderíamos dizer que os bárbaros realmente podem ser identificados como a causa fundamental da queda de Roma? Ou será que, em vez disso, os mesmos bárbaros de sem­pre esperaram nas fronteiras do Império Romano, e não puderam preva­lecer até Roma começar a enfraquecer devido a alguma combinação de problemas econômicos, políticos e ambientais, entre outros? Neste caso poderíamos creditar a queda de Roma aos seus próprios problemas, com os bárbaros sendo responsáveis apenas pelo golpe de misericórdia. Tal questão ainda é debatida. Essencialmente, a mesma questão tem sido dis­cutida a respeito da queda do Império Khmer, centralizado em Angkor Wat, em relação às invasões dos vizinhos thai, do declínio da civilização harapa no vale do Indo em relação às invasões arianas, e da queda da Gré­cia Miceniana e outras sociedades mediterrâneas da Idade do Bronze em relação às invasões dos povos do mar.

O quarto conjunto de fatores opõe-se ao terceiro: diminuição do apoio de vizinhos amistosos e aumento de ataques de vizinhos hostis. Poucas sociedades históricas tiveram parceiros comerciais amistosos ou inimigos em sua vizinhança. Freqüentemente, o parceiro e o inimigo eram o mesmo vizinho, e seu comportamento variava entre amistoso e hostil. Muitas sociedades dependem até certo ponto de vizinhos amistosos, seja para importar bens essenciais (como as importações de petróleo feitas pelos EUA, e as importações de petróleo, madeira e frutos do mar, feitas pelo Japão), seja para manter laços culturais que emprestem coesão à sociedade (como a identidade cultural da Austrália, até recentemente importada da Ingla­terra). Daí o risco de que, caso o seu parceiro comercial venha a se enfra­quecer por algum motivo (incluindo dano ambiental) e não possa mais fornecer a importação essencial ou o laço cultural, a sua própria socieda­de possa acabar se enfraquecendo. Este é um problema comum hoje em dia, devido à dependência do Primeiro Mundo do petróleo importado de países do Terceiro Mundo, ecologicamente frágeis e com problemas polí­ticos, que impuseram o embargo do petróleo em 1973. Problemas seme­lhantes aconteceram na Groenlândia Nórdica, nas ilhas Pitcairn e em ou­tras sociedades do passado.


O último conjunto de fatores em minha estrutura de cinco pontos en­volve a ubíqua questão da resposta da sociedade aos seus problemas, sejam ambientais ou não. Sociedades diferentes respondem de modo diferente a problemas semelhantes. Por exemplo, muitas sociedades do passado tiveram problemas de desmatamento. Entre estas, as sociedades das terras altas da Nova Guiné, Japão, Tikopia e Tonga desenvolveram um manejo florestal bem-sucedido e continuaram a prosperar, enquanto a ilha de Páscoa, Man­gareva e a Groenlândia Nórdica não conseguiram um bom manejo flores­tal e, por isso, entraram em colapso. Como compreender resultados tão di­ferentes? A resposta da sociedade a um problema depende de instituições políticas, econômicas e sociais e de seus valores culturais. Tais instituições e valores afetam o modo como as sociedades resolvem (ou tentam resolver) seus problemas. Neste livro, aplicaremos esta estrutura de cinco pontos a cada sociedade do passado cujo colapso ou persistência for discutido.

Devo acrescentar, é claro, que assim como as mudanças climáticas, os vizinhos hostis e os sócios comerciais podem ou não contribuir para o colapso de uma sociedade em particular, o dano ambiental também po­de contribuir ou não. Seria absurdo alegar que o dano ambiental é um fator preponderante em todos os colapsos: o colapso da União Soviéti­ca é um contraponto moderno, e a destruição de Cartago por Roma em 146 a.C. é um antigo. Obviamente é verdade que fatores militares ou eco­nômicos são suficientes. Portanto, o título completo deste livro deveria ser: "Colapsos sociais envolvendo um componente ambiental e, em alguns ca­sos, as contribuições das mudanças climáticas, de vizinhos hostis, parcei­ros comerciais e também a questão das respostas da sociedade a tudo isso." Tal restrição ainda nos deixa um amplo material, moderno e antigo, a ser considerado.


As questões sobre impactos ambientais causados por seres humanos tendem a ser controvertidas, e as opiniões a esse respeito a cair em um espectro entre dois campos opostos. Um campo, geralmente mencionado como "ambientalista" ou "pró-ambiente': afirma que os problemas ambientais atuais são sérios e precisam ser urgentemente discutidos, e que as taxas atuais de crescimento econômico e populacional não podem ser sus­tentadas. O outro campo afirma que as preocupações dos ambientalistas são exageradas e não comprovadas, e que o crescimento econômico e populacional contínuo tanto é possível quanto desejável. O último campo não está associado a nenhum rótulo comum, de modo que vou me referir a ele simplesmente como "não-ambientalista”. Geralmente, seus adeptos são oriundos do mundo das grandes empresas e da economia, mas a equa­ção "não-ambientalista" = "voltado para os negócios" é imperfeita; muitos homens de negócios consideram-se ambientalistas, e muitas pessoas que se mostram céticas em relação às alegações ambientalistas não estão no mundo dos grandes negócios. Ao escrever este livro, onde me localizar em relação a estes dois lados?

Por um lado, sou observador de pássaros desde os sete anos de idade. Tenho treinamento profissional como biólogo, e venho fazendo pesquisas sobre os pássaros da Nova Guiné nos últimos 40 anos. Amo os pássaros, gosto de observá-los, e gosto de estar na floresta. Também gosto de plantas, animais, habitats, e os valorizo pelo que são. Participei de diversos es­forços de preservar espécies e habitats naturais na Nova Guiné e em ou­tros lugares do mundo.

Nos últimos 12 anos fui diretor da sucursal do World Wildlife Fund (WWF) nos EUA, uma das maiores organizações ambientalistas internacionais e a que tem os maiores interesses cosmopolitas. Essas atividades renderam-me críticas de não-ambientalistas, que usam expressões como: "alarmista”, "Diamond prega o fim do mundo”, "exagera riscos" e "preocu­pa-se mais com espécies de plantas ameaçadas como a 'piolheira roxa' do que com as necessidades das pessoas". Mas, embora eu adore os pássaros da Nova Guiné, amo muito mais meus filhos, minha mulher, meus ami­gos da Nova Guiné e de outros lugares do mundo. Estou interessado em assuntos ambientais mais por causa de suas conseqüências para as pessoas do que para os pássaros.

Por outro lado, tenho muita experiência, interesse e envolvimento continuado com o mundo dos grandes negócios e outras forças em nossa sociedade que exploram recursos naturais e são freqüentemente vistas como antiambientalistas. Quando adolescente, trabalhei em grandes fazendas de gado em Montana. Hoje, já adulto e pai de família, levo minha es­posa e filhos regularmente a estas fazendas nas férias. Trabalhei com uma equipe de mineradores de cobre em Montana durante um verão. Adoro Montana e meus amigos fazendeiros. Compreendo, admiro e simpatizo com seus negócios e seus estilos de vida, e dediquei este livro a eles. Nos últimos anos, também tive a oportunidade de observar e de me familia­rizar com outras grandes empresas nos setores de mineração, madeira, pesca, petróleo e gás natural. Há sete anos, venho monitorando impactos ,ambientais no maior campo de petróleo e gás natural de Papua -Nova Gui­né, onde as empresas de petróleo chamaram o World Wildlife Fund para fornecer pareceres independentes sobre as condições do meio ambiente. Freqüentemente sou convidado pelos donos de alguma empresa ligada à extração de recursos naturais para visitar suas propriedades. Nestas opor­tunidades, converso muito com seus diretores e empregados e acabo com­preendendo seus pontos de vista e seus problemas.

Embora minhas relações com o mundo dos grandes negócios tenham permitido que eu acompanhasse de perto o dano ambiental devastador que freqüentemente provocam, também pude acompanhar muitas situa­ções nas quais grandes empresas descobriram ser de seu interesse adotar salvaguardas ambientais mais severas e efetivas do que aquelas que encontrei em parques nacionais. Estou interessado no que motiva políticas ambientais tão diversas em diferentes empresas. Meu envolvimento com grandes empresas de petróleo é censurado por muitos ambientalistas, que usam frases como: "Diamond vendeu-se para as grandes empresas”. "Ele dorme com as grandes empresas" ou "Ele se prostituiu para as empresas de petróleo”.

Não sou contratado de nenhuma grande empresa e falo francamente sobre o que vejo acontecer em suas propriedades, mesmo quando ali es­tou como convidado.

Em algumas situações, vi empresas de petróleo e de madeira sendo destrutivas, e tive de dizer isso; em outras, vi que eram cuidadosas, e foi isso o que falei. Minha opinião é que, se os ambientalistas não quiserem se en­volver com as grandes empresas, que estão entre as forças mais poderosas do mundo moderno, não será possível resolver os problemas ambientais mundiais. Portanto, escrevo este livro de um ponto de vista intermediário, com experiência tanto dos problemas ambientais quanto da realidade das grandes empresas.
Como estudar "cientificamente" o colapso de sociedades? Freqüente­mente a ciência é mal definida como um "corpo de conhecimentos adqui­ridos através da reprodução de experimentos controlados em laboratório”. Na verdade, a ciência é algo muito mais amplo: a aquisição de conheci­mento confiável sobre o mundo. Em alguns campos, como o da química e o da biologia molecular, experimentos controlados reproduzidos em laboratório são viáveis e fornecem os meios mais confiáveis para se adquirir conhecimento. Tive treinamento formal nos dois campos da biologia de laboratório e da bioquímica, no bacharelado e no da fisiologia no Ph.D. De 1955 a 2002 desenvolvi pesquisas experimentais de laboratório no ra­mo da fisiologia, na Universidade de Harvard e, depois, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Quando comecei a estudar pássaros nas florestas da Nova Guiné em 1964, fui imediatamente confrontado com o problema de adquirir co­nhecimento confiável sem poder recorrer à reprodução de experimentos controlados, fosse em laboratório ou ao ar livre. Geralmente não é exeqüí­vel, legal ou ético adquirir conhecimento sobre pássaros exterminando ou manipulando experimentalmente as suas populações em um lugar e man­tendo-as intactas em outro. Tive de usar métodos diferentes. Problemas metodológicos semelhantes aparecem em muitas outras áreas da biologia populacional, assim como na astronomia, na epidemiologia, na geologia e na paleontologia.

Uma solução é aplicar aquilo que chamam de "método comparativo" ou "experimento natural" - i.e., comparar situações naturais que difiram no que diz respeito às variáveis que interessam. Por exemplo, quando eu era ornitologista, interessei-me pelo impacto de um pássaro da Nova Gui­né, o melidecto de sobrolho marrom, sobre populações de outras espécies comedoras de mel. Comparei comunidades de pássaros nas montanhas que são muito semelhantes, com a exceção de que umas suportam e ou­tras não a convivência com populações de melidecto de sobrolho marrom. Do mesmo modo, meus livros The Third Chimpanzee: The Evolution and Future of the Human Animal e Why Is Sex Fun? The Evolution of Human Sexuality comparavam diversas espécies animais, especialmente diferentes espécies de primatas, em um esforço para descobrir por que as mulheres (ao contrário das fêmeas da maioria das outras espécies animais) entram na menopausa e não dão sinais óbvios de estarem ovulando; porque o ho­mem tem um pênis relativamente grande em relação aos outros animais; e por que os humanos geralmente fazem sexo com privacidade (em vez de fazê-lo abertamente, como quase todas as outras espécies animais). Há uma extensa literatura científica a respeito das óbvias armadilhas do mé­todo comparativo, e como evitá-las. Especialmente nas ciências históricas (como biologia evolutiva e geologia histórica), onde é impossível manipu­lar o passado experimentalmente, não resta alternativa senão renunciar aos experimentos de laboratório em favor dos experimentos naturais.

Este livro emprega o método comparativo para compreender colapsos sociais que tiveram a contribuição de problemas ambientais. Meu livro anterior (Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas) utilizou o método comparativo para o problema oposto: a taxa desigual em que as sociedades humanas se desenvolveram em diferentes continentes nos últi­mos 13 mil anos. Neste livro, concentrado mais em colapsos do que na evolução de sociedades, comparo muitas sociedades do passado e do pre­sente que diferem em termos de fragilidade ambiental, relações com os vi­zinhos, instituições políticas e outras variáveis externas que influenciam a estabilidade de uma sociedade. As variáveis "internas" que examino são colapso ou sobrevivência, e a forma do colapso, caso este ocorra. Relacio­nando variáveis externas com variáveis internas, pretendo destacar a in­fluência de possíveis variáveis externas nos colapsos.

Uma aplicação rigorosa, abrangente e quantitativa deste método foi possível no problema dos colapsos induzidos pelo desmatamento de ilhas do Pacífico. Os povos pré-históricos do Pacífico desmataram suas ilhas em graus diferentes, indo desde o desmatamento superficial ao total, com conseqüências sociais que variaram desde a sobrevivência das sociedades até colapsos completos que mataram todos os seus membros. Eu e meu colega Barry Rolett graduamos em escala numérica a extensão do desmatamento de 81 ilhas do Pacífico, e também os valores de nove variáveis externas (como índice pluviométrico, isolamento e capacidade de restau­ração da fertilidade do solo) que, ao que se admite, influenciam o des­matamento. Através de uma análise estatística, pudemos calcular a força relativa com que cada variável externa predispõe o desmatamento. Outro experimento comparativo foi possível no Atlântico Norte, onde vikings medievais da Noruega colonizaram seis ilhas ou extensões de terra que diferiam em adequação para a agricultura, facilidade de contato comer­cial com a Noruega e outras variáveis externas, e também diferiam em resultado final (do rápido abandono à morte de todos os seus membros após 500 anos à sua sobrevivência ainda hoje, após 1.200 anos). Outras comparações também são possíveis entre sociedades de diferentes partes do mundo.

Todas essas comparações se apóiam em informações detalhadas sobre sociedades individuais, pacientemente acumuladas por arqueólogos, historiadores e outros eruditos. Ao fim do volume, forneço referências de excelentes livros e documentos sobre os antigos maias e anasazis, sobre Ruanda e a China moderna, e outras sociedades do passado e do presente que comparo. Tais estudos individuais constituem o banco de dados indispensável de meu livro. Mas há conclusões adicionais que podem ser ti­radas através das comparações entre essas tantas sociedades, e que não po­dem ser tiradas através de um estudo detalhado de uma única sociedade. Por exemplo, para compreender o famoso colapso maia é necessário não apenas conhecimento profundo da história maia e do seu meio ambiente; podemos posicionar os maias em um contexto mais amplo e compará-los com outras sociedades que entraram ou não em colapso, e que lembram os maias em certos aspectos e diferem deles em outros. Esta visão mais ampla requer o método comparativo.

Tenho ressaltado a necessidade tanto de bons estudos individuais quanto de boas comparações, porque os eruditos que praticam uma abor­dagem costumam subestimar as contribuições daqueles que praticam a outra. Especialistas na história de uma sociedade tendem a desprezar as comparações como superficiais, enquanto aqueles que fazem comparações tendem a desprezar estudo de sociedades individuais como abordagens míopes, de limitado valor para a compreensão de outras sociedades. Mas precisamos de ambos os tipos de estudos se quisermos adquirir conhecimento confiável. Seria perigoso generalizar sobre uma sociedade, ou con­fiar na interpretação de um único colapso. Apenas através do peso da evi­dência fornecido por um estudo comparativo de muitas sociedades com diferentes resultados é possível esperar chegar a conclusões convincentes.
Para que o leitor tenha uma idéia antecipada de para onde está indo, segue adiante uma descrição de como este livro é organizado. Seu plano lembra uma jibóia que engoliu duas grandes ovelhas. Ou seja, minhas dis­cussões sobre o mundo moderno e também do passado consistem em um relato desproporcionalmente longo a respeito de uma sociedade, seguido de relatos menores sobre quatro outras sociedades.

Começaremos com a primeira grande ovelha. A Parte 1 compreende um único e extenso capítulo (o capítulo 1) sobre os problemas ambientais do sudoeste de Montana, onde se localizam a fazenda Huls e os ranchos de meus amigos, os Hirschys (a quem este livro é dedicado). Montana tem a vantagem de ser uma sociedade moderna de Primeiro Mundo, cujos problemas ambientais e populacionais são reais, mas ainda relativamente brandos se comparados àqueles da maioria do restante do Primeiro Mundo. Acima de tudo, conheço muitos nativos de Montana, de modo que posso relacionar as políticas da sociedade de Montana às motivações fre­qüentemente conflitantes de seus indivíduos. Desta perspectiva familiar de Montana, podemos imaginar mais facilmente o que acontecia em sociedades do passado remoto, que a princípio nos parecem exóticas, e sobre as quais apenas podemos imaginar o que motivou seus indivíduos.

A Parte 2 começa com quatro capítulos mais breves sobre sociedades do passado que entraram em colapso, apresentados em uma seqüência de complexidade crescente de acordo com a minha estrutura de cinco pontos. A maioria das sociedades do passado que discutirei em detalhe eram pequenas e periféricas, e algumas eram geograficamente fechadas, ou socialmente isoladas, ou desenvolveram-se em meios ambientes frágeis. A fim de que o leitor não seja com isso enganosamente levado a concluir que são modelos pobres para as grandes sociedades modernas, devo explicar que os selecionei justamente porque, nestas pequenas sociedades, os processos se desenvolveram mais rapidamente e chegaram a resultados mais extremos, tornando-as ilustrações especialmente claras. Isso não quer dizer que grandes sociedades que negociavam com os seus vizinhos e se desenvolveram em ambientes saudáveis não tenham entrado em colapso no passado e não venham a entrar em colapso hoje em dia. Uma das so­ciedades do passado que discutirei em detalhes, a dos maias, tinha uma população de muitos milhões ou de dezenas de milhões de indivíduos, localizava-se em uma das duas áreas culturais mais avançadas do Novo Mundo antes da chegada dos Europeus (a Mesoamérica) e comerciava com e eram decisivamente influenciadas por outras sociedades avançadas daquela área. Na seção Leituras Complementares do capítulo 9 sumario rapidamente algumas das mais famosas sociedades do passado - as so­ciedades do Crescente Fértil, Angkor Wat, as sociedades harapa do vale do Indo e outras sociedades semelhantes aos maias nestes aspectos, para as quais os fatores ambientais em declínio contribuíram pesadamente.

Nosso primeiro objeto de estudo do passado, a história da ilha de Pás­coa (capítulo 2), é o mais próximo que podemos chegar de um colap­so ecológico “puro”, neste caso devido ao total desmatamento que levou à guerra, queda da elite e das famosas estátuas de pedra e mortandade maciça da população. Até onde sabemos, a sociedade polinésia de Páscoa permaneceu isolada após a sua descoberta inicial, de modo que sua trajetória não foi influenciada nem por inimigos nem por amigos externos. Também não temos prova de mudanças climáticas em Páscoa, embora isso ainda possa emergir de estudos futuros. As análises comparativas feitas por mim e por Barry Rolett nos ajudaram a compreender por que Páscoa, de todas as ilhas do Pacífico, sofreu um colapso tão grave.

As ilhas de Pitcairn e Henderson (capítulo 3), também povoadas por polinésios, oferecem exemplos do efeito do item quatro de minha estrutura de cinco pontos: perda do apoio de sociedades vizinhas amistosas. Tan­to as ilhas Pitcairn quando as ilhas Henderson sofreram dano ambiental local, mas o golpe fatal veio por causa do colapso de seu maior parceiro comercial. Não houve efeitos complicadores de vizinhos hostis ou de mu­danças climáticas.

Graças a um registro climático excepcionalmente detalhado tirado de anéis dos troncos de árvores, a sociedade nativa americana dos anasazis, no sudoeste dos EUA (capítulo 4) ilustra claramente a intersecção entre crescimento populacional, dano ambiental e mudança climática (neste caso, seca). Vizinhos, fossem hostis ou amistosos, e guerras (a não ser per­to do fim), parecem não ter pesado no colapso anasazi.

Nenhum livro sobre colapsos sociais poderia ser completo sem um re­lato (capítulo 5) sobre os maias, a sociedade nativa americana mais avan­çada e que encarna o mistério romântico quintessencial das cidades to­madas pela floresta. Assim como no caso dos anasazis, os maias ilustram efeitos combinados de dano ambiental, crescimento populacional e mu­danças climáticas, sem o papel essencial de vizinhos amistosos. Diferente­mente do caso do colapso anasazi, vizinhos hostis eram uma grande preo­cupação das cidades maias desde um estágio inicial. Entre as sociedades discutidas nos capítulos 2 a 5, apenas os maias nos oferecem a vantagem de um código de escrita decifrado.

A Groenlândia Nórdica (capítulos 6 a 8) oferece nosso mais complexo caso de um colapso pré-histórico, aquele que nos forneceu mais informação (porque era uma sociedade européia letrada e esclarecida), e que ga­rante a discussão mais extensa: é a segunda ovelha dentro da jibóia. Os itens de minha estrutura de cinco pontos estão bem documentados: dano ambiental, mudança climática, perda de contato amistoso com a Noruega, contatos hostis com os inuits e a estrutura política, econômica, social e cultural da Groenlândia Nórdica. A Groenlândia fornece a maior aproxi­mação de um experimento controlado sobre colapsos: duas sociedades (nórdica e inuit) compartilhando a mesma ilha, mas com culturas muito diferentes, de tal modo que uma dessas sociedades sobreviveu enquanto a outra morria. Assim, a história da Groenlândia nos transmite a mensagem de que, mesmo em ambiente hostil, o colapso não é inevitável, mas depen­de das escolhas da sociedade. É possível fazer comparações entre a Groen­lândia Nórdica e cinco outras sociedades do Atlântico Norte, fundadas por colonizadores escandinavos, para nos ajudar a compreender por que a so­ciedade nórdica de Orkney prosperou enquanto os seus primos da Groen­lândia sucumbiam.

Uma dessas cinco sociedades nórdicas, a Islândia, destaca-se como uma história de triunfo sobre um ambiente frágil para adquirir um alto nível de prosperidade moderna.

A Parte 2 termina (capítulo 9) com três outras sociedades (como a Islândia) que foram bem-sucedidas, um contraste para a compreensão das sociedades que fracassaram. Embora essas três sociedades tenham sofrido problemas ambientais menos graves que a Islândia ou da maioria das que fracassaram, devemos ver que há dois caminhos diferentes para o sucesso: uma abordagem de baixo para cima exemplificada por Tikopia e pelas terras altas da Nova Guiné, e uma abordagem de cima para baixo exemplificada pelo Japão da era Tokugawa.

A Parte 3 nos traz de volta ao mundo moderno. Já tendo falado da Montana atual no capítulo 2, escolhemos agora quatro países modernos notavelmente diferentes, os dois primeiros pequenos e os dois últimos grandes ou imensos: um desastre do Terceiro Mundo (Ruanda), e um sobrevivente (até agora) do Terceiro Mundo (a República Dominicana), um gigante do Terceiro Mundo correndo para alcançar o Primeiro Mun­do (China), e uma sociedade do Primeiro Mundo (Austrália). O capítulo 10, sobre Ruanda, trata de uma catástrofe malthusiana que aconteceu sob os nossos olhos, uma terra superpovoada que entrou em colapso através de uma terrível carnificina, como os maias no passado. Ruanda e o vi­zinho Burundi são países conhecidos por sua violência racial entre hutus e tutsis, mas veremos que o crescimento populacional, o dano ambiental e as mudanças climáticas forneceram a dinamite cujo pavio foi a violên­cia racial.

A República Dominicana e o Haiti (capítulo 11), que compartilham a mesma ilha de Hispaniola, nos oferecem um contraste abrupto, como as sociedades nórdica e inuit na Groenlândia. Após décadas de ditaduras nefastas, o Haiti emergiu como o mais triste cesto de roupa suja do Novo Mundo, enquanto há sinais de esperança na República Dominicana. Para que não se suponha que este livro prega o determinismo ambiental, este último país demonstra a grande diferença que uma pessoa pode fazer, especialmente se for dirigente do país.

A China (capítulo 12) sofre de doses pesadas de todos os 12 tipos de problemas ambientais modernos. Pelo fato de ter uma economia, população e área tão grandes, seu impacto ambiental é importante não apenas para o próprio povo chinês como também para o resto do mundo.

A Austrália (capítulo 13) está no extremo oposto de Montana, como sociedade do Primeiro Mundo que ocupa o ambiente mais frágil e experimenta os problemas ambientais mais graves. Como resultado disso, está também entre os países que agora consideram a mais radical reestruturação de sua sociedade, de modo a resolver tais problemas.

A última seção deste livro (Parte 4) traz lições práticas para nós hoje em dia. O capítulo 14 levanta a mesma pergunta perplexa que fazemos a respeito de toda sociedade do passado que acabou destruindo a si mesma, e que deixará perplexos os futuros habitantes do planeta Terra caso nós também acabemos nos destruindo: como uma sociedade não percebe perigos que, analisados em retrospecto, parecem tão evidentes? Podemos di­zer que acabaram por culpa de seus indivíduos, ou que, em vez disso, fo­ram vítimas trágicas de problemas insolúveis? Quanto do dano ambiental do passado foi não intencional e imperceptível, e quanto foi perversamen­te perpetrado por gente que agia com plena consciência das conseqüên­cias do que estava fazendo? Por exemplo, o que disseram os pascoenses ao derrubarem a última árvore de sua ilha? A tomada de decisão em grupo pode ser alterada por toda uma série de fatores, a começar pela incapaci­dade de prever um problema, e continuando com conflitos de interesse que permitem que alguns membros persigam objetivos bons para si mes­mos, mas ruins para o restante.

O capítulo 15 considera o papel das grandes empresas no mundo moderno, algumas incluídas entre as forças mais ambientalmente destrutivas da atualidade, enquanto outras fornecem algumas das mais efetivas prote­ções ambientais atualmente existentes. Devemos examinar por que alguns (mas apenas alguns) homens de negócio acham que é de seu interesse pro­teger o meio ambiente, e que mudanças seriam necessárias antes que ou­tros homens de negócio achem interessante imitá-los.

Finalmente, o capítulo 16 resume os tipos de perigos ambientais enfrentados pelo mundo moderno, as objeções mais comuns levantadas con­tra a sua seriedade, e diferenças entre os perigos ambientais de hoje em dia e aqueles enfrentados pelas sociedades do passado. Uma grande diferença tem a ver com a globalização, que tanto é motivo para pessimismo quanto para otimismo a respeito de nossa habilidade de solucionar os problemas ambientais atuais. A globalização torna impossível às sociedades modernas entrarem em colapso isoladamente, como a ilha de Páscoa ou a Groenlân­dia Nórdica do passado. Hoje, qualquer sociedade em crise, não importa quão remota - pensem na Somália e no Afeganistão como exemplos -, pode causar problemas para sociedades prósperas de outros continentes, e também estão sujeitas à sua influência (seja para ajudá-la ou para de­sestabilizá-la). Pela primeira vez na história, enfrentamos o risco de um colapso global. Mas também somos os primeiros a desfrutar da oportu­nidade de aprender com o que ocorre com sociedades em toda parte do mundo atual, bem como com o que ocorreu em sociedades do passado. Foi por isso que escrevi este livro.

PARTE 1

MONTANA CONTEMPORÂNEA
CAPÍTULO 1

SOB O GRANDE CÉU DE MONTANA
A história de Stan Falkow . Montana e eu . Por que começar com Montana? . História econômica de Montana . Mineração. Florestas . Solo . Água. Espécies nativas e não nativas. Visões divergentes . Atitudes em relação à regulamentação. A história de Rick Laible . A história de Chip Pigman . A história de Tim Huls . A história de John Cook . Montana, modelo do mundo
Quando perguntei ao meu amigo Stan Falkow, um professor de microbiologia de 70 anos de idade da Universidade de Stanford, perto de São Fran­cisco, por que ele havia comprado uma segunda casa no vale Bitterroot, em Montana, ele me contou como aquilo se encaixava na história de sua vida:

"Nasci no estado de Nova York e então me mudei para Rhode Island. Isso quer dizer que, quando criança, eu nada sabia sobre estas montanhas. Quando tinha vinte e poucos anos, logo após terminar a faculdade, sepa­rei alguns anos da minha formação para trabalhar na sala de autópsia de um hospital no turno da noite. Para um jovem como eu, sem experiência prévia da morte, foi muito estressante. Um amigo que acabara de voltar da guerra da Coréia e sofrera muito estresse olhou para mim e disse: 'Stan, você parece nervoso; tem de reduzir o seu nível de estresse. Por que não vai pescar?'

"Então, comecei a pescar percas. Aprendi a preparar minhas próprias iscas, realmente me envolvi, e passei a pescar todos os dias após o trabalho. Meu amigo estava certo: aquilo reduziu meu estresse. Mas então entrei em uma escola de graduação em Rhode Island e me meti em outra situação de trabalho estressante. Um colega me disse que as percas não eram os únicos peixes que se podia fisgar: também era possível pescar trutas perto de Massachusetts. Então, comecei a pescar trutas. Meu orientador de tese adorava comer peixe, e encorajou-me a pescar: eram as únicas ocasiões em que ele não fazia cara feia quando eu faltava ao trabalho no laboratório.

"Quando fiz 50 anos, passei por outro período estressante em minha vida, devido a um divórcio difícil e outras coisas. Àquela altura, eu só saía para pescar três vezes por ano. Aniversários de 50 anos nos fazem refletir sobre o que queremos fazer de nossas vidas. Pensei na de meu pai, e lem­brei-me que ele morrera com 58 anos. Subitamente dei-me conta de que, se fosse viver tanto quanto ele, só teria mais 24 viagens de pesca antes de morrer. Parecia pouco para fazer algo de que eu gostava tanto. Isso me fez começar a pensar em como poderia passar mais tempo fazendo aquilo que eu realmente gostava durante o tempo que me restava, incluindo a pesca.

"Nesse ponto, pediram que eu fizesse a avaliação de um laboratório de pesquisa no vale Bitterroot, no sudoeste de Montana. Nunca estivera em Montana; na verdade, nunca estivera a oeste do rio Mississippi antes dos meus 40 anos de idade. Desembarquei no aeroporto de Missoula, aluguei um carro, e dirigi para o sul, até a cidade de Hamilton, onde ficava o laboratório. A uns 20 quilômetros ao sul de Missoula há um trecho longo de estrada onde o terreno é plano e repleto de fazendas, e onde as montanhas Bitterroot cobertas de neve, a oeste, e as montanhas Sapphire, a leste, er­guem-se abruptamente do vale. Fiquei impressionado com a beleza e a grandeza da paisagem; nunca vira algo assim antes. Aquilo me deu uma sensação de paz e uma extraordinária sensação de que aquele era o meu lugar no mundo.

"Quando cheguei ao laboratório, encontrei um ex-aluno meu que trabalhava ali e que sabia do meu interesse pela pesca. Ele sugeriu que eu voltasse no ano seguinte para fazer algumas experiências no laboratório, e também pescar trutas, pelas quais o rio Bitterroot é famoso. Então, voltei no verão seguinte com a intenção de passar duas semanas, e acabei passando um mês. No outro verão, vim com a intenção de passar um mês e acabei ficando o verão inteiro, ao fim do qual eu e minha mulher acabamos comprando uma casa no vale. Desde então, voltamos freqüentemente e passamos uma grande parte do ano em Montana. Toda vez que volto a Bitterroot, ao passar por aquele trecho de estrada ao sul de Mis­soula, aquela primeira visão do vale me dá novamente a mesma sensação de tranqüilidade e grandeza, e a mesma perspectiva de minha relação com o universo. É mais fácil se sentir assim em Montana do que em qualquer outro lugar."

É isso que a beleza de Montana faz com as pessoas: tanto aqueles que cresceram em lugares completamente diferentes, como Stan Falkow e eu, quanto outros amigos, como John Cook, que cresceram em outras áreas montanhosas do oeste dos EUA, mas que ainda assim sentem-se atraídos por Montana; e para ainda outros amigos, como os da família Hirschy, que nasceram em Montana e escolheram ficar ali.

Como Stan Falkow, nasci no noroeste dos EUA (Boston) e nunca esti­vera a oeste do Mississippi até fazer 15 anos, quando meus pais me leva­ram para passar algumas semanas de verão na bacia do Big Hole, ao sul do vale Bitterroot (mapa, p. 48). Meu pai era pediatra e tinha como pa­ciente um dos filhos de um fazendeiro, Johnny Fliel, que sofria de uma doença rara, motivo pelo qual seu pediatra em Montana recomendou que ele fosse a Boston para tratamento especial. Johnny era bisneto de Fred Hirschy Sr., um imigrante suíço que se tornara um dos fazendeiros pio­neiros do Big Hole na década de 1890. Seu filho, Fred Jr., que tinha 69 anos à época de minha visita, ainda administrava a fazenda da família, com seus filhos Dick e Jack Hirschy e suas filhas Jill Hirschy Eliel (mãe de Johnny) e Joyce Hirschy McDowell. Johnny respondeu bem ao tratamento de meu pai, de modo que seus pais e avós nos convidaram para visitá-los.

Assim como Stan Falkow, fiquei imediatamente maravilhado com o Big Hole: um vale largo e plano coberto de prados e riachos sinuosos, mas cercado por um muro de montanhas sazonalmente cobertas de neve, que se erguem abruptamente ao redor. Montana é conhecido como o "Estado do Grande Céu”. E é verdade. Na maioria dos outros lugares onde vivi, ou

a minha visão das partes mais inferiores do céu estava obstruída por edifícios, como ocorre nas cidades; ou havia montanhas mas o terreno era aci­dentado e os vales estreitos, de modo que só se podia ver um pedaço de céu, como na Nova Guiné ou nos Alpes; ou então, havia uma grande extensão de céu mas não era tão bonita, porque não havia uma cadeia de montanhas no horizonte - como nas planícies de Iowa e Nebraska. Três anos depois, quando eu já estava na faculdade, voltei para passar o verão na fazenda de Dick Hirschy com minha irmã e dois colegas de faculdade, e todos trabalhamos na colheita de feno, eu dirigindo uma colheitadeira, minha irmã um trator, e meus dois amigos empilhando o feno.

Após aquele verão de 1956, demorou um bom tempo até eu voltar a Montana. Passei meus verões em outros lugares que eram belos ao seu modo, como a Nova Guiné e os Andes, mas não conseguia esquecer Montana ou os Hirschys. Finalmente, em 1998 recebi um convite de uma fundação particular sem fins lucrativos chamada Teller Wildlife Refuge, no vale de Bitterroot. Era uma oportunidade para levar meus filhos gêmeos, que então eram apenas alguns anos mais novos do que eu na época em que visitei pela primeira vez aquele estado, e para introduzi-los na pesca de trutas. Os meninos gostaram daquilo; um deles está estudando para se tor­nar instrutor de pesca. Eu me reencontrei com Montana e revisitei Dick Hirschye seus irmãos e irmãs, que agora estavam na faixa dos 70 a 80 anos de idade, ainda trabalhando duro o ano inteiro, exatamente como faziam havia 45 anos. Desde este reencontro, minha mulher, meus filhos e eu visi­tamos Montana todos os anos - atraídos pela mesma inesquecível beleza de seu céu que atraiu ou manteve meus outros amigos ali (fotos 1 a 3).

O amplo céu de Montana valorizou-se na minha apreciação. Após vi­ver tanto tempo em outros lugares, percebi que precisaria de várias visitas até me habituar ao panorama daquele céu e do anel de montanhas ao re­dor do vale - para compreender que desfrutaria daquilo como um pano­rama diário de minha vida - e para descobrir que poderia me afastar dali e ainda assim saber que voltaria. Los Angeles tem as suas vantagens práti­cas para mim e para minha família como uma base de trabalho, escola e residência, mas Montana é infinitamente mais bonito e (como disse Stan Falkow) tranqüilo. Para mim, a mais bela paisagem do mundo é o pano­rama dos prados do Big Hole e das montanhas cobertas de neve do Conti­nental Divide, vistos da varanda da casa da fazenda de Jill e John Eliel.



Montana em geral, e o vale Bitterroot em sua parte sudoeste, é uma terra de paradoxos. Dos 48 estados continentais, Montana é o terceiro maior em área, embora o sexto menor em população, portanto o segundo menor em densidade populacional. Hoje, o vale Bitterroot parece luxu­riante, ao contrário de sua vegetação natural original de simples artemísias. O condado de Ravalli, onde o vale está localizado, é tão belo e atrai tantos imigrantes de toda parte nos EUA (incluindo gente de outras partes de Montana), que é um dos condados que mais crescem no país, embora 70% de seus formandos de ensino médio deixem o vale, e a maioria des­ses formandos deixe o estado de Montana. Embora a população esteja crescendo no vale Bitterroot, está caindo no leste de Montana, de modo que, no geral, a tendência populacional de Montana é permanecer estável. Nas últimas décadas, o número de residentes do vale Ravalli na faixa dos 50 anos de idade aumentou, mas o número de residentes na faixa dos 30 diminuiu. Algumas das pessoas que estabeleceram residência no vale são extremamente prósperas, como o fundador da corretora Charles Schwab e o presidente da Intel, Craig Barrett, mas o condado de Ravalli é um dos mais pobres do estado que, por seu turno, é um dos mais pobres dos EUA. Muitos habitantes do condado precisam ter dois ou três empregos para obterem uma renda acima do nível de pobreza dos EUA.

Associamos Montana à beleza natural. De fato, ambientalmente, Mon­tana é talvez o menos prejudicado dos 48 estados continentais; e essa é a principal razão de tanta gente estar se mudando para o condado de Ravalli. O governo federal possui um quarto da terra do estado e três quar­tos da terra do condado, a maior parte desta classificada como floresta nacional. Contudo, o vale Bitterroot apresenta um microcosmo dos problemas ambientais que afetam o restante dos EUA: população crescente, imigração, escassez crescente e qualidade decrescente da água, baixa qualidade do ar local e sazonal, rejeitos tóxicos, risco aumentado de incêndios florestais, deterioração florestal, perda de solo ou de seus nutrientes, per­da de biodiversidade, dano causado por espécies daninhas introduzidas e efeitos de mudanças climáticas.

Montana é um objeto de estudo ideal para começar este livro sobre problemas ambientais do passado e do presente. No caso das sociedades do passado que discutirei - polinésios, anasazis, maias, Groenlândia Nórdica e outras - sabemos o resultado final das decisões de administração ambiental tomadas por seus habitantes, mas, na maioria das vezes, não sabemos seus nomes nem suas histórias pessoais, de modo que po­demos apenas intuir os motivos que os levaram a agir como agiram. Em contraste, na Montana moderna sabemos nomes, histórias de vida e motivos. Algumas das pessoas envolvidas foram meus amigos durante mais de 50 anos. Compreendendo os motivos dos habitantes de Montana, po­demos ter uma melhor idéia dos motivos de povos do passado. Este capí­tulo dará um sentido pessoal a um assunto que, de outro modo, pareceria abstrato.

Além disso, Montana fornece um saudável equilíbrio para as discussões dos próximos capítulos sobre sociedades pequenas, pobres, periféricas, em ambientes frágeis do passado. Escolhi intencionalmente discutir tais sociedades porque foram as que sofreram as maiores conseqüências de seu dano ambiental, e, portanto, ilustram claramente os processos que constituem o assunto deste livro. Mas estas não são o único tipo de sociedades expostas a sérios problemas ambientais, como ilustrado pelo caso contras­tante de Montana - um estado do país mais rico do mundo moderno, em uma das partes mais puras e menos populosas deste país, aparente­mente com menos problemas ambientais e populacionais do que o restan­te dos EUA. Certamente, os problemas de Montana são menos graves do que os que afligem os habitantes de Los Angeles, cidade onde moro, e de outras áreas urbanas onde vive a maioria dos norte-americanos: superpo­pulação, trânsito, poluição, qualidade e quantidade de água e rejeitos tóxi­cos. Se, apesar disso, até mesmo Montana tem problemas ambientais e po­pulacionais, torna-se mais fácil compreender quão mais sérios são esses problemas no restante dos EUA. Montana irá ilustrar os cinco temas prin­cipais deste livro: impacto ambiental causado por seres humanos; mudan­ça climática; relação social com sociedades vizinhas amistosas (no caso de Montana, sociedades em outros estados dos EUA); exposição dessa socie­dade aos atos de outras sociedades hostis (como os atuais terroristas e pro­dutores de petróleo de outros países); e a importância de uma resposta da sociedade aos seus problemas.


As mesmas desvantagens ambientais que afetam a produção de alimen­tos em todos os estados montanhosos do Oeste americano também limi­tam a capacidade de Montana para a agricultura e a pecuária. São elas: a relativamente baixa incidência de chuvas, resultando em baixas taxas de crescimento vegetal; sua alta latitude e altitude, ambas resultando em uma estação de crescimento mais breve, o que limita as colheitas a uma por ano em vez das duas colheitas anuais possíveis em áreas com um verão mais longo; e sua distância dos mercados nas áreas mais populosas dos EUA. Essas desvantagens significam que qualquer coisa plantada em Montana pode ser produzida a um custo menor, com maior produtividade, e trans­portada para qualquer lugar da América do Norte mais rapidamente, e a um custo menor. Portanto, a história de Montana consiste em tentativas de resposta à questão fundamental de como sobreviver nesta terra belíssi­ma, mas com uma agricultura e uma pecuária não-competitivas.

A ocupação humana em Montana teve diversas fases econômicas. A primeira fase foi a dos nativos americanos, que ali chegaram há pelo menos 13 mil anos. Em contraste com as sociedades agrárias que se desenvolveram no leste e no sul da América do Norte antes da chegada dos europeus, os nativos americanos de Montana continuaram caçadores-co­letores, até mesmo em áreas onde a agricultura e a pecuária são praticadas atualmente. Uma razão para isso é o fato de Montana ter poucas espécies de plantas e animais selvagens a serem domesticados, de modo que não houve uma origem independente para a agricultura, em contraste com a situação no leste da América do Norte e do México. Outra razão é que Montana fica longe dos dois centros de agricultura independentes da América Nativa, de modo que as plantas ali cultivadas ainda não haviam se espalhado até Montana quando da chegada dos europeus. Hoje, cerca de três quartos dos nativos americanos de Montana vivem em sete reser­vas, a maioria das quais é pobre em recursos naturais, com exceção das pastagens.

Os primeiros europeus a visitarem Montana entre 1804-1806 eram membros da expedição transcontinental de Lewis e Clark, que passaram mais tempo naquele território que viria a ser Montana do que em qual­quer outro estado que visitaram. Foram seguidos pela segunda fase eco­nômica de Montana, que envolveu os "homens das montanhas”, caçado­res de peles e comerciantes vindos do Canadá e, também, dos EUA. A fase seguinte teve início em 1860 e baseou-se em três pilares econômicos que vigoram até hoje em Montana, embora com importância reduzida: mineração, principalmente de cobre e ouro; exploração de madeira; e produ­ção de alimentos, envolvendo criação de gado bovino e ovino e o cultivo de grãos, frutas e vegetais. A afluência de mineiros para a grande mina de cobre de Butte estimulou outros setores da economia a atender as necessi­dades daquele mercado interno dentro do estado. Em particular, foi tira­da muita madeira do vale Bitterroot para fornecer energia, construir casas de mineiros e escorar os poços das minas; também foram cultivados mui­tos alimentos no vale, cuja localização meridional e clima ameno (para os padrões de Montana) garantiram-lhe o apelido de "Cinturão da Banana de Montana". Embora o índice de chuvas do vale seja baixo (330 mm por ano) e a vegetação natural seja de artemísia, os primeiros colonos europeus na década de 1860 já haviam começado a superar tal desvantagem construindo pequenas valas de irrigação alimentadas por rios que corriam das montanhas Bitterroot, no lado oeste do vale; posteriormente, através de dois grandes e dispendiosos conjuntos de sistemas de irrigação, um (chamado de Grande Canal) construído entre 1908-1910 para trazer água do lago Como, no lado oeste do vale, e o outro consistindo em diversos canais de irrigação que tiram água do próprio rio Bitterroot. Entre outras coisas, a irrigação permitiu o florescimento de pomares de maçã no vale Bitterroot nos anos 1880 e que atingiu o seu auge nas primeiras décadas do século XX. Hoje, porém, poucos desses pomares continuam comercial­mente produtivos.

Dessas antigas bases da economia de Montana, a caça e a pesca foram transformadas de uma atividade de subsistência em uma atividade de recreação; o comércio de peles foi extinto; e as minas, a atividade madeirei­ra e agricultura estão diminuindo de importância, devido a fatores econômicos e ambientais a serem discutidos adiante. Em vez disso, os setores da economia que crescem atualmente são o turismo, lazer, moradia de idosos e saúde. Um marco simbólico das recentes transformações econômicas do vale Bitterroot ocorreu em 1996, quando uma fazenda de 640 hectares chamada Bitterrot Stock Farm, antiga propriedade do barão do cobre de Montana, Marcus Daly, foi adquirida pela próspera corretora de Charles Schwab, que começou a adaptar a propriedade para gente rica de fora do estado que desejasse ter uma segunda (ou terceira ou quarta) casa no belo vale, onde poderia vir para visitar, pescar, caçar, andar a cavalo e jogar gol­fe algumas vezes por ano. A fazenda Stock inclui um campo de golfe de 18 buracos e cerca de 125 terrenos para as chamadas casas ou cabanas - ­"cabana" sendo um eufemismo para uma estrutura de até seis quartos e dois mil m2 - vendidas por 800 mil dólares ou mais cada uma. Os com­pradores de lotes na fazenda Stock precisam provar que têm patrimônio e renda suficientes, e pagar uma jóia de 125 mil dólares para entrar no clu­be, que é mais de sete vezes a renda média anual dos residentes de Ravalli. A fazenda é inteiramente cercada, e o portão de entrada tem uma placa, APENAS MEMBROS E CONVIDADOS. Muitos dos proprietários chegam ali com seus jatos particulares e raramente fazem compras ou põem os pés em Hamilton, preferindo comer no clube ou mandando empregados do clube fazerem suas compras na cidade. Como um morador de Hamilton me explicou com amargura: "Só vemos os aristocratas quando decidem vir visitar a cidade, reunidos em grupos compactos, como se fossem turistas estrangeiros."

O anúncio do plano de loteamento da fazenda chocou alguns antigos moradores de Bitterroot, que previram que ninguém pagaria tanto dinhei­ro por terras no vale, e que os lotes jamais seriam vendidos. Estavam errados, como foi comprovado. Embora gente rica de fora do estado já esti­vesse visitando e comprando propriedades particulares no vale, a abertura da fazenda foi um marco histórico por envolver uma grande quantidade de gente rica comprando propriedades em Bitterroot ao mesmo tempo. Acima de tudo, a fazenda comprovou quão mais valiosas eram as terras daquele vale quando usadas para recreação em vez da criação de vacas ou cultivo de maçãs.
Os problemas ambientais da Montana atual incluem quase todos os 12 tipos de problemas que minaram sociedades pré-industriais do passa­do e que agora ameaçam sociedades em toda parte do mundo. Particular­mente óbvios em Montana são os problemas de rejeitos tóxicos, florestas, solo, água (às vezes ar), mudanças climáticas, perdas de biodiversidade e introdução de pragas no meio ambiente. Comecemos com o problema aparentemente mais transparente, o dos rejeitos tóxicos.

Embora a preocupação com o excesso de fertilizantes, estrume, conteú­dos de fossas sépticas e herbicidas arrastados pelas águas esteja aumentan­do em Montana, o maior problema de rejeitos tóxicos do estado é, de lon­ge, o dos resíduos da mineração de metais, alguns originários do século passado, e alguns recentes ou ainda em curso. A mineração de metais ­especialmente de cobre, mas também de chumbo, molibdênio, paládio, platina, zinco, ouro e prata - é um dos pilares tradicionais da economia de Montana. Ninguém discorda que a mineração é essencial: a "civilização moderna e suas indústrias química, de construção, elétrica e eletrônica dependem de metais. A questão é onde e como extrair o minério.

Infelizmente, o concentrado de minério que é retirado de uma mina de Montana para a extração de metal representa apenas uma fração da terra que precisa ser escavada para isso. O restante é de pedras e escória que ainda contêm cobre, arsênico, cádmio e zinco, tóxicos para as pessoas (bem como para os peixes, a vida selvagem e o gado) e nocivos quando atingem lençóis de água subterrâneos, rios e solos. Além disso, os minerais de Montana são ricos em sulfeto de ferro, que produz ácido sulfúrico. Em Montana existem cerca de 20 mil minas abandonadas, algumas recen­tes, mas muitas delas com um século ou mais, que vazarão ácido e metais tóxicos para sempre. A grande maioria dessas minas não tem proprietá­rios vivos para assumir a responsabilidade financeira, ou os donos conhe­cidos não têm recursos para recuperar a mina e cuidar de sua perpétua vazão de ácido.

Problemas de toxicidade associados com a mineração foram identi­ficados, já há um século, na gigantesca mina de cobre de Butte e na fundição anexa, quando fazendeiros vizinhos viram suas vacas morrerem e processaram os proprietários da Anaconda Copper Mining Company. A Anaconda negou a responsabilidade e ganhou o processo, mas em 1907 acabou construindo o primeiro de diversos tanques de decantação para conter os rejeitos tóxicos. Portanto, sabemos há longo tempo que os rejeitos de minério podem ser isolados para minimizar a contaminação. Atual­mente, algumas minas no mundo fazem isso usando alta tecnologia, mas outras continuam a ignorar o problema. Hoje, nos EUA, uma empresa que abra uma nova mina é obrigada por lei a adquirir uma apólice através da qual uma empresa de seguros independente se compromete a pagar os custos de limpeza da mina caso a empresa de mineração venha a falir. Contudo, muitas minas têm custos de limpeza final maiores do que o valor do seguro, enquanto as minas mais antigas não foram obrigadas a fa­zer nenhum seguro.

Em Montana, e em toda parte, as empresas que adquiriram minas mais antigas respondem a exigências de pagamento da limpeza destas minas de ambas as maneiras. Geralmente, se a empresa é pequena, seus donos podem declarar falência, em alguns casos ocultar bens, e transferir os negó­cios para outras empresas ou para novas empresas que não tenham res­ponsabilidade pela limpeza da velha mina. Se a empresa é tão grande que não pode afirmar que irá à falência por causa dos custos de limpeza (como no caso da ARCO, que discutirei depois), esta nega responsabilidade ou procura minimizar os custos. Em ambos os casos, ou o lugar da mina e áreas rio abaixo continuam poluídas, ameaçando a vida das pessoas, ou o governo federal dos EUA e o governo estadual de Montana (ou seja, todos os contribuintes) pagam pela limpeza através do Superfundo Federal ou de um fundo estadual correspondente.

Estas duas respostas alternativas fornecidas pelas empresas de minera­ção levantam uma questão que será recorrente ao longo deste livro, en­quanto tentaremos compreender por que uma pessoa ou grupo em uma sociedade pratica conscientemente atos nocivos para a sociedade. Embora a negação ou a subestimação da responsabilidade possa estar dentro dos interesses financeiros de curto prazo da empresa de mineração, isso é ruim para a sociedade como um todo, e também pode ser ruim para os inte­resses de longo prazo da empresa, ou de toda a indústria de mineração. Apesar de os habitantes de Montana reconhecerem a mineração, como um valor tradicional que define a identidade de seu estado nos últimos tem­pos, têm ficado cada vez mais desiludidos com a mineração e contribuído para a quase extinção desta indústria no estado. Por exemplo, em 1998, para surpresa da indústria e dos políticos que apóiam e são apoiados por esta indústria, os eleitores de Montana conseguiram banir um método problemático de mineração de ouro chamado lixiviação em pilha com cianeto, que discutiremos mais adiante. Alguns de meus amigos de Montana dizem agora: "Em retrospecto, quando comparamos os muitos bilhões de dólares que nós, contribuintes, pagamos para a limpeza de minas com os escassos lucros que Montana obteve com as suas minas no passado ­a maioria dos quais reverteram para acionistas no leste dos EUA ou na Eu­ropa - percebemos que Montana estaria melhor a longo prazo caso nunca tivesse extraído cobre e, sim, importado do Chile, deixando os proble­mas resultantes para os chilenos!"

Para nós, que não somos mineradores, é fácil ficar indignados com as empresas de mineração e ver o seu comportamento como moralmente condenável. Não fizeram de modo consciente coisas que nos prejudica­ram e não estão agora fugindo de suas responsabilidades? Uma placa ins­talada no banheiro de um amigo meu de Montana diz: "Não dê a des­carga. Seja como as indústrias de mineração e deixe outra pessoa limpar a sua sujeira!"

De fato, a questão moral é mais complexa. Segue uma explicação que cito de um livro recentemente publicado: "(...) A ASARCO [American Smelting and Refining Company, uma gigantesca empresa de mineração e refino] não pode ser culpada [por não ter limpado uma mina particularmente tóxica que possuía]. Os negócios nos EUA existem para darem lu­cro aos seus donos; é o modus operandi do capitalismo americano. Um corolário do processo de fazer dinheiro é não gastá-lo sem necessidade (...) Tal filosofia avara não se limita à indústria de mineração. Os negócios bem-sucedidos fazem distinção entre os gastos necessários para a sua per­manência nos negócios daqueles mais caracteristicamente voltados para as obrigações morais. A dificuldade ou a relutância em compreender e aceitar tal distinção caracteriza muito da tensão entre os defensores de grandes programas ambientais e a comunidade empresarial. Os líderes empresa­riais costumam ser contadores ou advogados e não membros do clero. Tal explicação não vem do presidente da ASARCO, mas do consultor ambien­tal David Stiller que, em seu livro Wounding the West: Montana, Mining, and the Environment (Ferindo o Oeste: Montana, mineração e o meio am­biente), tenta compreender como surgiu o problema dos rejeitos tóxicos de Montana, e o que a sociedade realmente tem de fazer para resolvê-lo.

É cruel o fato de não haver um meio simples e barato de se fazer a limpeza de minas antigas. Os primeiros mineradores agiram como agiram porque o governo quase nada exigia deles, e porque eram homens de negócio operando de acordo com os princípios que David Stiller explicou. Só em 1971 o estado de Montana fez passar uma lei que obrigava as empresas mineradoras a limparem suas propriedades quando as minas fossem fechadas. Até mesmo empresas ricas (como a ARCO e a ASARCO) que estavam inclinadas a fazer a limpeza tornaram-se relutantes ao dar-se con­ta de que lhes pediam que fizessem o impossível - ou que o custo de tal limpeza seria excessivo, ou que os resultados alcançados seriam menores do que os esperados pelo público. Ao mesmo tempo que os donos não po­dem ou não querem pagar pela limpeza de suas minas, os contribuintes também não querem pagar bilhões de dólares com custos de limpeza. Afi­nal, o problema existiu durante um longo tempo sem ser notado e longe de seus quintais, de modo que deve ser tolerável. A maioria dos contri­buintes hesita em gastar dinheiro se não houver uma crise imediata; e não há contribuintes o suficiente que se queixem de rejeitos tóxicos ou apóiem impostos mais altos. Neste sentido, o público americano é tão responsável por tal inação quanto os mineradores e o governo; nós, o público, temos a responsabilidade final. As empresas de mineração só se comportarão de outro modo quando a pressão do público forçar os políticos a votarem leis exigindo um comportamento diferente das empresas de mineração: de outro modo, as empresas estariam operando como instituições beneficentes e violando suas responsabilidades com os acionistas. Três casos servem para ilustrar resultados diferentes desses dilemas: o do rio Clark Fork, o da represa Milltown e o da mina Pegasus Zortman-Landusky.

Em 1882 as empresas de mineração que posteriormente se tornaram a Anaconda Copper Mining Company começaram a operar em Butte, jun­to à cabeceira do Clark Fork, afluente do rio Colúmbia. Em 1900, Butte era responsável por metade da produção de cobre dos EUA. Até 1955, a maior parte da mineração em Butte envolvia túneis subterrâneos, mas, em 1955, a Anaconda começou a cavar uma mina a céu aberto, o poço Berkeley, agora um imenso buraco com quase dois quilômetros de diâmetro e 500 metros de profundidade. Grande quantidade de escória ácida com metais tóxicos acabou no rio Clark Fork. Mas a sorte da Anaconda co­meçou a mudar devido à competição estrangeira, à expropriação de suas minas no Chile e à crescente preocupação ambiental nos EUA. Em 1976, a Anaconda foi comprada por uma grande empresa de petróleo, a ARCO (mais recentemente comprada pela ainda maior BP - British Petroleum), que fechou a fundição em 1980 e a mina em 1983, eliminando, assim, mi­lhares de empregos e três quartos da base econômica da área de Butte.

O rio Clark Fork, incluindo o poço Berkeley, é agora o maior e mais caro lugar de limpeza financiada pelo Superfundo nos EUA. Na visão da ARCO, é injusto responsabilizar a empresa por danos provocados pelos antigos donos da mina, antes mesmo que a lei do Superfundo existisse. Na visão dos governos estadual e federal, a ARCO adquiriu os bens da Anaconda, incluindo suas obrigações financeiras. Pelo menos, a ARCO e a BP não estão declarando falência. Como me disse um amigo ambientalista, "estão tentando pagar o menos possível, mas há empresas piores de lidar do que a ARCO. “A água ácida do poço Berkeley será bombeada" para fora e tratada para sempre. A ARCO já pagou muitas centenas de milhões de dólares para o estado de Montana para recuperar o Clark Fork, e seu com­promisso financeiro final está avaliado em um bilhão de dólares, mas tal estimativa é incerta porque os tratamentos de limpeza consomem muita energia: quem sabe quanto a energia vai custar daqui a 40 anos?

O segundo caso envolve a represa Milltown, construída em 1907 no rio Clark Fork, abaixo da mina Butte, para gerar energia para uma serraria próxima. Desde então, cinco milhões de metros cúbicos de sedimentos contaminados com arsênico, cádmio, cobre, chumbo e zinco escoaram da mina Butte e se acumularam no reservatório da represa. Um "problema menor" da represa é o fato de ela impedir a migração de peixes entre os dos Clark Fork e o Blackfoot (o último um rio repleto de trutas que se celebrizou com a noveleta de Norman Maclean e pelo filme de Robert Red­ford Nada é para sempre). O maior problema foi descoberto em 1981, quando os moradores locais perceberam um gosto ruim na água de seus poços: um imenso volume de água subterrânea contaminada com níveis de arsênico, 42 vezes mais altos do que o padrão federal, estava vazando do reservatório. A represa, que está decrépita, precisando de reparos, mal ali­cerçada e localizada em uma região de terremotos, quase rompeu devido a um acúmulo de gelo em 1996, e está a ponto de romper mais cedo ou mais tarde. Ninguém pensaria em construir uma represa tão frágil hoje em dia. Se a represa se romper e liberar seus sedimentos tóxicos, o suprimen­to de água de Missoula, a maior cidade do sudoeste de Montana, localiza­da a apenas 11 quilômetros rio abaixo, ficaria intragável e a parte inferior do rio Clark Fork estaria arruinada para a pesca.

A ARCO assumiu a responsabilidade pelos sedimentos tóxicos da re­presa ao comprar a Anaconda Copper Mining Company, cujas atividades criaram os sedimentos. O quase desastroso acúmulo de gelo de 1996 e as mortandades de peixes na época e em 1998, resultantes da liberação de água da represa com níveis tóxicos de cobre, levaram ao reconhecimento de que algo deveria ser feito. Cientistas federais e estaduais recomendaram a remoção da represa e dos sedimentos tóxicos ali acumulados, a um cus­to de cerca de 100 milhões de dólares para a ARCO. Durante muito tem­po, a ARCO negou que os sedimentos tóxicos tivessem causado a mortan­dade de peixes, negou a sua responsabilidade pelo arsênico nos mananciais subterrâneos de Milltown ou por casos de câncer na área de Milltown, fundou um movimento popular na cidade de Bonner para se opor à re­moção da represa, e em vez disso propôs apenas o seu reforço, a um custo muito inferior de 20 milhões de dólares. Mas os políticos de Missoula, os homens de negócio e a opinião pública, que inicialmente consideraram a proposta de remoção da represa uma loucura, passaram a ser fortemente a favor desta solução. Em 2003, a Agência de Proteção Ambiental adotou a proposta, tornando quase certa a remoção da represa.

O último caso é o da mina Zortman-Landusky, de propriedade da Pe­gasus Gold, uma pequena empresa fundada por gente de outras empresas de mineração. Esta mina usava um processo chamado lixiviação em pilha com cianeto, desenvolvido para extrair ouro residual de minério, no qual é necessário processar 50 toneladas de minério para obter 30 gramas de ouro. O minério é escavado de uma mina a céu aberto e amontoado em uma pilha imensa (aproximadamente do tamanho de uma pequena montanha) dentro de um tanque de lixiviação. Em seguida, é regado com uma solução de cianeto, substância mais conhecida como o veneno utilizado para gerar o gás cianeto de hidrogênio, usado tanto nas câmaras de gás dos nazistas quanto nas prisões norte-americanas, mas que tem a propriedade de se combinar com o ouro. Portanto, quando a solução contendo cianeto atravessa a pilha de minério, recolhe o ouro ali contido e é recolhida em um tanque, de onde é bombeada para uma instalação de processamento para a extração do ouro. A solução de cianeto contendo metais tóxicos que sobra deste processo é espalhada sobre pastos ou florestas próximas, ou é enriquecida com mais cianeto e novamente espalhada sobre a pilha.

Obviamente, muitas coisas podem dar errado neste processo de lixi­viação em pilha, e todas essas coisas aconteceram na mina Zortman-Lan­dusky (foto 4). O revestimento do tanque de lixiviação é fino como uma moeda e inevitavelmente produz vazamentos sob o peso de milhões de to­neladas de minério sendo movimentadas sobre ele por máquinas pesadas. O tanque com a solução tóxica pode transbordar, e isso aconteceu na mina Zortman-Landusky durante uma tempestade. Irrevogavelmente, o ciane­to em si é perigoso: durante uma emergência de inundação na mina, os proprietários receberam permissão para se livrarem da solução excedente dispersando-a nas redondezas para evitar que os tanques se rompessem. O processo de dispersão foi mal conduzido e levou à formação de gás cianídrico, o que quase matou alguns operários. A Pegasus Gold acabou declarando falência e abandonou suas minas a céu aberto, pilhas de minério e tanques dos quais o ácido e o cianeto vazarão para sempre. O se­guro da Pegasus mostrou-se insuficiente para cobrir os custos de limpeza, deixando as contas remanescentes para os contribuintes, estimadas em 40 milhões de dólares, ou mais. Estes três estudos de caso sobre rejeitos tó­xicos de minas que descrevi, assim como milhares de outros, ilustram por que visitantes da Alemanha, África do Sul, Mongólia e outros países que estudam investimentos em minas têm vindo recentemente a Montana pa­ra se informarem em primeira mão sobre más práticas de mineração e suas conseqüências.
Um segundo grupo de problemas ambientais em Montana envolve a derrubada e o incêndio de florestas. Do mesmo modo que ninguém discute que a mineração de metais é essencial, ninguém pode contestar que derrubar árvores também é necessário para se obter madeira e fazer papel. A questão que meus amigos de Montana simpáticos à derrubada de árvores levantam é: se você é contra a derrubada de árvores em Montana, onde sugere que devamos buscar madeira? Rick Laible defendeu para mim uma recente e controvertida proposta sobre a questão madeireira em Montana observando: "É melhor do que cortar as florestas tropicais!" A defesa de Jack Ward Thomas era semelhante: ''Ao nos recusarmos a recolher as nossas árvores mortas e, em vez disso, importarmos árvores vivas do Canadá, exportamos tanto os efeitos ambientais quanto os benefícios econômicos desta atividade para o Canadá." Dick Hirschy sarcasticamente comentou: "Há um dito: 'Não avilte a terra desmatando-a'. Por isso, decidimos aviltar o Canadá”.

A exploração de madeira no vale Bitterroot começou em 1886, para fornecer toras de pinheiro ponderosa para a comunidade mineradora de Butte. A explosão imobiliária pós-Segunda Guerra Mundial, e a demanda de madeira resultante, fez com que, em 1972, as vendas de madeira extraída de florestas nacionais chegassem a ser seis vezes maior do que em 1945. Neste período, grandes quantidades de DDT foram jogadas de avião sobre a floresta para controlar insetos nocivos às árvores. Para que fosse possível restabelecer uniformemente populações de árvores da mesma idade de três espécies escolhidas e, assim, maximizar a produção de madeira e aumen­tar a eficiência da atividade madeireira, derrubaram-se todas as árvores de uma determinada região em vez de apenas árvores escolhidas individual­mente. Contra as grandes vantagens da derrubada generalizada, havia algumas desvantagens: a temperatura da água dos rios, que não mais con­tavam com a sombra das árvores, subiu acima dos níveis ótimos para a reprodução e sobrevivência dos peixes; a neve em terreno sem sombra e despojado derretia mais rapidamente na primavera, em vez de liberar gra­dualmente a água necessária para a irrigação das fazendas durante o ve­rão; em alguns casos, aumentou o transporte de sedimentos e piorou a qualidade da água. Mas o mal mais evidente da derrubada geral, para os cidadãos de um estado que consideram que o recurso mais valioso de sua terra é a beleza, era que as encostas das colinas desmatadas eram muito, muito feias.

O debate resultante tornou-se conhecido como a Controvérsia da Derrubada Geral. Fazendeiros ultrajados, proprietários de terras, e o público em geral lançaram seu protesto. Os administradores do Serviço Florestal dos EUA cometeram o erro de insistir que eram profissionais que sabiam tudo a respeito de exploração de madeira, e que o público era ignorante e devia ficar quieto. O Relatório Bolle de 1970, preparado por especialistas em silvicultura de fora do Serviço Florestal, criticou as políticas do Servi­ço Florestal e, estimulado por disputas semelhantes quanto à derrubada geral nas florestas da Virgínia Ocidental, levou a mudanças nacionais, que incluíam restrições à derrubada e uma volta à ênfase na manejo de flores­tas para múltiplos propósitos além da produção de madeira (como já ha­via sido concebido quando da instituição do Serviço Florestal em 1905).

Nas décadas desde a Controvérsia da Derrubada Geral, as vendas anuais do Serviço Florestal caíram mais de 80% - em parte devido à regulamentação ambiental imposta pela Lei das Espécies Ameaçadas, a Lei da Água Limpa, e a exigência de que as florestas nacionais deveriam manter habitats para todas as espécies, e em parte por causa da escassez de grandes árvores facilmente acessíveis devido à própria indústria madeireira. Atualmente, quando o Serviço Florestal propõe uma venda de madeira, as organizações ambientais protestam e impetram recursos que demoram mais de 10 anos para serem resolvidos e que tornam a atividade madeireira menos lucrativa mesmo quando os recursos são finalmente negados. Todos os meus amigos de Montana, até mesmo aqueles que se consideram ambientalistas dedica­dos, me disseram que acham que o pêndulo se afastou muito do lado das madeireiras. Sentem-se frustrados quando propostas de extração que lhes parecem bem justificáveis (como aquela para reduzir a matéria combustí­vel que causa incêndios florestais discutida mais adiante) são longamente atrasadas pelos tribunais. Mas as organizações ambientais que assinam os protestos concluíram que devem suspeitar da agenda pró-derrubada fre­qüentemente disfarçada por trás de qualquer proposta do governo aparen­temente razoável que envolva extração de madeira. Todas as antigas madeireiras do vale Bitterroot estão fechadas agora, devido à pouca madeira dis­ponível em reservas públicas de madeira e porque as propriedades privadas que possuem reservas de madeira já foram exploradas duas vezes. O fecha­mento das madeireiras representou a perda de muitos empregos bem pa­gos de trabalhadores sindicalizados, assim como da auto-imagem tradicio­nal de Montana.

Fora do vale Bitterroot, em todo o estado de Montana, ainda restam muitas reservas de madeira, a maioria em terras governamentais arrendadas nos anos 1860 para a Great Northern Railroad como estímulo para a construção de uma ferrovia transcontinental. Em 1989 esta terra foi trans­ferida da ferrovia para uma entidade baseada em Seattle chamada Plum Creek Timber Company que, por motivos fiscais, era organizada como um grupo de investimentos em propriedades (de modo que seus lucros fos­sem taxados como ganhos de capital), agora o maior proprietário privado de reservas de madeira em Montana e o segundo maior nos EUA. Já li publicações da Plum Creek e conversei com o seu diretor de assuntos cor­porativos, Bob Jirsa, que defende as políticas ambientais da Plum Creek e práticas de silvicultura sustentáveis. Também ouvi diversos amigos de Montana externarem opiniões desfavoráveis sobre a Plum Creek. As quei­xas mais comuns são: "A Plum Creek só se importa com os lucros"; "não estão interessados em práticas de silvicultura sustentáveis"; "têm uma cul­tura corporativa, e seu objetivo é: 'Cortem mais árvores!'" "A Plum Creek tira dinheiro da terra de toda maneira possível"; "só fazem controle de plantas daninhas se alguém reclamar."

Se tais visões polarizadas o fazem lembrar dos pontos de vista que já citei sobre as empresas de mineração, você está certo. A Plum Creek está organizada como um negócio para produzir lucros, não como uma instituição de caridade. Se os cidadãos de Montana querem que a Plum Creek faça algo que diminua os seus lucros, é sua responsabilidade fazer com que os políticos votem e apliquem leis exigindo tais coisas, ou comprem as ter­ras e as administrem de outro modo. Pairando sobre esta disputa há um fato básico: o clima seco e frio de Montana, bem como a sua altitude, faz com que a maior parte de seu território seja relativamente inadequada para a silvicultura. As árvores crescem três vezes mais rapidamente no su­doeste e no nordeste dos EUA do que em Montana. Embora as maiores propriedades da Plum Creek estejam em Montana, quatro outros estados (Arkansas, Geórgia, Maine e Mississippi) produzem cada um mais madeira para a Plum Creek usando apenas 60 a 64% da terra que a empresa possui em Montana. A Plum Creek não consegue obter uma alta taxa de lucro de suas operações madeireiras em Montana: a empresa tem de pa­gar impostos e prevenção de incêndio ao esperar 60 ou 80 anos antes de derrubar as árvores, considerando que estas atingem um tamanho ideal para serem derrubadas em 30 anos em suas terras no sudoeste dos EUA. Quando a Plum Creek enfrenta as realidades econômicas e vê que terá mais lucro se vender as suas terras em Montana, especialmente aquelas às margens de rios e lagos, para empreendimentos imobiliários em vez de extração de madeira, isso se deve aos futuros compradores que buscam belas propriedades de frente para a água têm a mesma opinião. Estes com­pradores são freqüentemente representantes de interesses conservacionis­tas, incluindo o governo. Por todos esses motivos, o futuro da indústria madeireira em Montana, mais do que em qualquer outra parte dos EUA, é incerto, assim como o da mineração.

Relacionado ao tema da atividade madeireira está o tema dos incên­dios florestais, que recentemente aumentaram de intensidade e extensão em alguns tipos de floresta em Montana e em todo o oeste dos EUA, com os verões de 1988, 1996, 2000, 2002 e 2003 tendo sido épocas de grandes incêndios anuais. No verão de 2000, um quinto das florestas do vale Bitterroot foi queimado. Hoje em dia, sempre que chego de avião ao vale Bitterroot; a primeira coisa que faço ao olhar pela janela é contar o número de incêndios ou medir a quantidade de fumaça naquele dia em particular. (Em 19 de agosto de 2003, prestes a aterrissar no aeroporto de Missoula, contei uma dúzia de incêndios cuja fumaça diminuía a visibilidade a alguns quilômetros.) Todas as vezes que John Cook levou meus filhos para pescar em 2000, a escolha do regato ao qual iriam dependia em parte de onde havia incêndios naquele dia. Alguns de meus amigos no vale Bitterroot tiveram de abandonar seus lares repetidas vezes devido à aproximação de incêndios.

Este aumento recente de incêndios é, em parte, resultado de mudanças climáticas (a tendência recente a verões quentes e secos) e, em parte, da atividade humana, por razões complicadas que os estudiosos das florestas vêm compreendendo cada vez mais nos últimos 30 anos, mas cuja importância relativa ainda é debatida. Um dos fatores são os efeitos diretos da atividade madeireira, que freqüentemente transformam a floresta em algo parecido com uma grande pilha de acendalha: o chão de uma floresta ex­plorada por uma madeireira fica coberto de galhos e copas de árvores, dei­xados para trás quando os valiosos troncos são retirados; brota uma nova e densa vegetação, aumentando a carga combustível da floresta; e as árvo­res derrubadas e removidas são, é claro, as mais resistentes ao fogo, dei­xando para trás árvores menores e mais inflamáveis. Outro fato é que, na primeira década do século XX, o Serviço Florestal dos EUA adotou uma política de extinção de incêndios (na tentativa de debelar incêndios flores­tais) pela razão óbvia de não querer que madeira valiosa virasse fumaça, e evitar que casas e vidas humanas fossem ameaçadas. O objetivo anun­ciado pelo Serviço Florestal era: "Apagar todos os incêndios até as 10 da manhã seguinte ao dia em que o incêndio foi identificado”. Os bombeiros se tornaram muito mais bem-sucedidos, na busca deste objetivo após a Se­gunda Guerra Mundial, graças à disponibilidade de aviões de combate a incêndios, e um sistema de estradas expandido para os caminhões de bombeiro, e tecnologia de combate a incêndios mais desenvolvida. Duran­te algumas décadas após a Segunda Guerra Mundial, a área incendiada anual diminuiu 80%.

Esta situação feliz começou a mudar em 1980, devido à freqüência crescente de grandes incêndios florestais que eram virtualmente impossíveis de serem debelados a não ser que chuva e ventos moderados se com­binassem para ajudar. As pessoas começaram a se dar conta de que a polí­tica federal de prevenção de incêndios estava contribuindo para aqueles grandes incêndios, e que os incêndios naturais provocados por raios ti­nham um importante papel na manutenção da estrutura das florestas. Este papel natural dos incêndios varia em altitude, espécies de árvores e tipo de floresta. Tomando como exemplo a floresta de pinheiros da espécie ponderosa, no vale Bitterroot, que é uma floresta de baixa altitude, e ana­lisando os anéis anuais dos troncos e as cicatrizes de incêndios datáveis ali impressas, bem como registros históricos, vemos que, sob condições na­turais, a floresta de ponderosa experimenta um incêndio provocado por raios a cada década (i.e., antes que a política de extinção de incêndios flo­restais começasse, por volta de 1910, e se tornasse efetiva após 1945). As árvores maduras de pinheiro ponderosa têm cascas com cinco centímetros de espessura e são relativamente resistentes aos incêndios, que em vez disso queimam o sub-bosque de árvores jovens de abeto Douglas, crescidas desde o incêndio anterior. Após uma década de crescimento até o incên­dio seguinte, estas árvores jovens ainda estão muito baixas para que o fogo se espalhe a partir delas até a copa da floresta. Assim, o fogo permanece confinado ao chão e ao sub-bosque. Como resultado disso, muitas flores­tas naturais de ponderosa parecem um parque, com pouca quantidade de material combustível, árvores grandes e bem espaçadas, e um sub-bosque relativamente limpo.

É claro, porém, que os madeireiros se concentram em derrubar estes grandes, velhos e valiosos pinheiros ponderosa resistentes ao fogo, enquanto a extinção de incêndios durante décadas permitiu que o sub-bosque se enchesse de árvores jovens de abeto Douglas que, ao seu turno, se tornam valiosos quando inteiramente crescidos. A densidade das florestas aumentou de 75 para 500 árvores por hectare, o material combustível aumentou em um fator de 6, e o Congresso falhou repetidas vezes em suas tentativas de destinar dinheiro para diminuir a quantidade de árvores jovens. Outro fator humano, a criação de ovelhas em florestas na­cionais, também tem um papel importante na redução da relva no sub-bosque que, de outro modo, serviria de combustível para incêndios freqüentes de baixa intensidade. Quando um grande incêndio finalmente irrompe em uma floresta repleta de árvores jovens, seja devido a raios, descuido humano ou (infelizmente freqüentes) incêndios criminosos, as árvores jovens densas e crescidas tornam-se uma escada para que o fogo chegue à copa das árvores. O resultado é, às vezes, um inferno incontível no qual as chamas erguem-se a até 120 metros no ar, e pulam de copa pa­ra copa atravessando grandes espaços vazios, atingindo temperaturas de 1.100ºC, matando o banco de sementes de árvores no solo, e que pode ser seguido de deslizamentos de terra e erosão maciça.

Atualmente, os especialistas em silvicultura acreditam que o maior problema da administração de florestas do oeste dos EUA seja a quantidade de material combustível acumulada durantes os últimos 50 anos de ex­tinção efetiva de incêndios. No Leste dos EUA, região mais úmida, as árvores mortas apodrecem mais rapidamente do que no seco Oeste, onde há cada vez mais árvores mortas como gigantescos palitos de fósforo. Numa situação ideal, o Serviço Florestal administraria e restauraria as florestas, as desbastaria, e removeria os sub-bosques densos através da poda ou de pequenos incêndios controlados. Mas isso custaria mais de mil dólares por acre. Considerando os 100 milhões de acres de florestas do Oeste dos EUA, o custo total chegaria a 100 bilhões de dólares. Nenhum político ou elei­tor quer gastar tanto dinheiro. Mesmo que os custos fossem mais baixos, a maioria do público suspeitaria da proposta como apenas uma desculpa para a volta da atividade madeireira em sua bela floresta. Em vez de um programa regular de gastos para a manutenção de nossas florestas em con­dições menos suscetíveis a incêndios, o governo federal tolera florestas in­flamáveis e é forçado a gastar dinheiro inesperadamente sempre que acon­tece uma emergência de incêndio - p.ex., cerca de 1,6 bilhão de dólares para debelar os incêndios que queimaram 16 mil km2 de florestas no verão de 2000.

Os habitantes de Montana têm opiniões diversas e freqüentemente contraditórias sobre administração e incêndios florestais. Por um lado, o público teme e instintivamente repudia a política do "deixe queimar" que o Serviço Florestal é forçado a manter em relação a grandes incêndios que seriam perigosos ou impossíveis de serem extintos. Durante os incêndios que se espalharam pela maior parte do parque Yellowstone em 1988, o pú­blico protestou veementemente, sem compreender que nada podia ser fei­to a não ser rezar por chuva ou neve. Por outro lado, o público também não gosta da política de programas de poda florestal que possam tornar a floresta menos inflamável. As pessoas preferem as belas paisagens de florestas densas, opõem-se à interferência "não natural" na natureza, querem deixar a floresta em condições "naturais", e certamente não querem pagar a poda com o aumento dos impostos. O público (assim como muitos es­pecialistas em florestas o fizeram até recentemente) não compreende que as florestas do Oeste já estão enfrentando condições altamente não natu­rais, como resultado de um século de extinção de incêndios, atividade ma­deireira e criação de ovelhas.



Em Bitterroot, as pessoas constroem casas junto a ou cercadas de flo­restas inflamáveis na periferia entre a cidade e a floresta e então esperam que o governo proteja os seus lares do fogo. Em julho de 2001, quando eu e minha esposa fomos caminhar a oeste da cidade de Hamilton através do que fora a floresta Blodgett, vimo-nos em uma paisagem de árvores carbonizadas, mortas em um dos grandes incêndios cuja fumaça tomou conta do vale durante nossa visita no verão de 2000. Os moradores da área de Blodgett, que anteriormente barraram as propostas do Serviço Florestal de desbastar a floresta, exigiram então que o Serviço contratasse 12 grandes helicópteros a um custo de dois mil dólares a hora, para salvar suas casas jogando água sobre elas, enquanto o Serviço Florestal, obedecendo a uma ordem governamental de proteger vidas, propriedade, e depois a floresta, nesta ordem, deixava queimar grandes extensões de florestas públicas mui­to mais valiosas do que as casas que salvava. Posteriormente, o Serviço Flo­restal anunciou que não gastaria mais tanto dinheiro nem arriscaria a vida de bombeiros para proteger propriedades privadas. Muitos proprietários processam o Serviço caso os seus lares sejam queimados em um incêndio, ou se queimarem em um contra-fogo aceso pelo Serviço Florestal para controlar um incêndio muito maior, ou se suas casas não forem queima­das, mas se uma floresta que lhes fornecia uma bela vista da varanda de suas casas vier a queimar. Alguns proprietários em Montana estão tão en­volvidos com sua atitude radical anti-governo que não querem pagar os custos do combate aos incêndios, nem que o governo entre em suas terras para tomar medidas preventivas.
A próxima série de problemas ambientais em Montana envolve o solo. Um problema "menor" e específico é que o boom de pomares de maçã no vale Bitterroot, que a princípio foi muito lucrativo, entrou em colapso, em parte devido à exaustão do nitrogênio do solo provocada pelas macieiras. Um dos problemas do solo mais disseminado é o da erosão, resultado de sérias mudanças que removem a cobertura de plantas que normalmente protege o solo: sobrepastejo, infestação de ervas daninhas, atividade madeireira ou incêndios florestais excessivamente quentes esterilizam a cama­da superior do solo. Famílias de fazendeiros que estão no lugar há muito tempo sabem que não devem praticar o sobrepastejo. Como Dick e Jack Hirschy me disseram: "Devemos cuidar de nossa terra, ou falimos”. Con­tudo, um dos vizinhos dos Hirschys, uma pessoa de fora, pagou por sua propriedade mais do que esta poderia render de modo sustentável através da pecuária, e agora está superlotando seus pastos na esperança equivo­cada de recuperar o investimento. Outros vizinhos cometeram o erro de alugar direitos de pastagem de suas terras para inquilinos, que sobrepastejavam para conseguir lucro rápido durante o arrendamento de três anos, e que não se importavam com o dano de longo prazo resultante. O resultado final destas várias causas de erosão do solo é que cerca de um ter­ço da bacia hidrográfica de Bitterroot está em boa forma, não erodida, um terço está sob risco de erosão e um terço já está erodido e necessitando de restauração.

Outro problema do solo em Montana, afora a exaustão de nitrogênio e a erosão, é a salinização, um processo que envolve acúmulo de sal no solo e nos mananciais subterrâneos. Embora tal acúmulo sempre tenha ocorrido de modo natural em algumas áreas, uma preocupação mais recente é a ruína de grandes áreas de cultivo pela salinização resultante de algu­mas práticas agrícolas que explicarei nos próximos parágrafos e no capítulo 13 - particularmente devido à retirada da vegetação natural e da irrigação. Em algumas partes de Montana, os níveis de concentração de sal na água do solo chegaram a ser duas vezes maiores que o da água do mar.

Além do fato de certos sais terem efeitos tóxicos específicos sobre as plantações, altas taxas de concentração de sal exercem um efeito nocivo, semelhantes aos efeitos de uma seca, aumentando a pressão osmótica do solo e dificultando, assim, que as raízes absorvam água por osmose. A água salgada de mananciais subterrâneos também pode acabar em poços e regatos, e pode evaporar na superfície, deixando uma crosta de sal. Se você bebesse um copo de "água" com mais concentração de sal do que a água do mar, descobriria que esta água não apenas tem um gosto horrível e impede que os fazendeiros cultivem suas plantações, como também que o boro, o selênio e outros ingredientes tóxicos ali contidos podem fazer mal à sua saúde (e à saúde da vida selvagem e do seu gado). A salinização é hoje um problema em muitas partes do mundo além dos EUA, incluindo a Índia, Turquia e, especialmente, a Austrália (veja o capítulo 13). No passado, contribuiu para o declínio da mais antiga das civilizações, a da Mesopotâmia: a salinização explica em parte por que aplicar o termo "Crescente Fértil" ao Iraque e à Síria de hoje, anteriormente centros da agricultura mundial, seria uma brincadeira de mau gosto.

A forma principal de salinização em Montana é a mesma que arruinou diversos milhões de acres de plantações ao norte das Grandes Planícies, incluindo diversas centenas de milhares de acres no norte, leste e no centro de Montana. Esta forma é chamada de "infiltração salina" porque a água salgada acumulada no solo de um terreno em uma área elevada vaza através do solo para emergir como uma infiltração em uma área mais baixa a até quase um quilômetro de distância. A infiltração salina freqüentemente é nociva para as relações entre fazendeiros vizinhos, quando as práticas agrícolas de um fazendeiro cujas terras estão em uma região mais elevada causam a infiltração na propriedade de um vizinho que vive mais abaixo.

A infiltração salina ocorre da seguinte maneira: o leste de Montana possui diversos tipos de sais solúveis em água (especialmente os sulfatos de sódio, cálcio e magnésio) presentes como componentes das rochas e do próprio solo, e também armazenados em depósitos marinhos (porque muito desta região já foi um mar no passado). Abaixo do solo existe uma camada de pedra (xisto, arenito ou carvão) que possui pouca permeabilidade à água. Nos ambientes secos do leste de Montana cobertos com vegetação nativa, quase toda a água que cai é prontamente absorvida pelas raízes e volta a ser transpirada na atmosfera, deixando seco o solo abaixo das raízes. Contudo, quando um fazendeiro limpa a vegetação nativa para praticar agricultura de alqueive - na qual um produto com colheita anual como o trigo é plantado durante um ano e, então, a terra é deixada des­cansando durante o ano seguinte - não há raízes para absorver a água da chuva durante o ano de pousio. A água da chuva se acumula no solo, en­charcando-o abaixo da camada de raízes, e dissolve os sais ali armazena­dos, que então afloram à região das raízes à medida que sobe o nível da água. Como o leito de pedras é impermeável, a água salgada não penetra profundamente no subsolo, mas emerge em algum lugar mais abaixo como uma infiltração salina. O resultado é que as plantações crescem menos, ou não crescem, tanto na terra alta onde surgiu o problema quanto na área mais abaixo onde emergiu a infiltração.

As infiltrações salinas se espalharam pela maior parte de Montana após 1940, como conseqüência de mudanças nas práticas de cultivo - especialmente o aumento do uso de tratores e dispositivos mais eficientes para arar a terra, herbicidas para matar a cobertura vegetal durante o período de pousio, e mais terras em pousio a cada ano. O problema tem de ser combatido com vários tipos intensivos de administração agrícola, como a introdução de plantas tolerantes aos sais em terrenos baixos com infiltra­ção salina para começar a recuperá-los, diminuição do tempo de descanso nas áreas mais elevadas através de um planejamento de plantio conhecido como plantio flexível, e plantação de alfafa e outras culturas perenes que consumam bastante água e tenham raízes profundas para extrair o exces­so de água do solo.

Nas áreas de Montana onde a agricultura depende diretamente da chu­va, a infiltração salina é a principal forma de dano ao solo provocado pelo sal. Mas não é a única. Milhões de hectares de terras de cultivo que dependem da água de irrigação mais do que da água da chuva estão distribuídas por todo o estado, incluindo as áreas no vale Bitterroot e na bacia do Big Hole que freqüento nos verões. A salinização está começando a aparecer em algumas dessas áreas onde a água de irrigação contém sal. Outra for­ma é originária de um método industrial de extrair meta no para obter gás natural de jazidas de carvão, fazendo buracos no carvão e bombeando água para trazer o metano à superfície. Infelizmente, a água não apenas expulsa o metano como também dissolve o sal. Desde 1988, o estado vizinho de Wyoming, que é quase tão pobre quanto Montana, vem tentando estimular a sua economia dando início a um grande programa de extração de metano usando este método. Durante o processo, libera água salgada que vaza na bacia do rio Powder, no sudoeste de Montana.

Para começar a compreender os aparentemente incontornáveis pro­blemas de água que assolam Montana e outras áreas secas do Oeste americano, imagine que o vale Bitterroot só tem duas fontes de água abundantemente independentes: os canais de irrigação alimentados por cursos de água das montanhas, lagos ou pelo próprio rio Bitterroot, que fornecem água para a agricultura; e poços escavados para extrair água de mananciais subterrâneos, que fornecem água para uso doméstico. As cidades maiores do vale têm fornecimento público de água, mas todas as casas fora dessas pequenas cidades possuem poços particulares. Tanto o suprimento de água para a irrigação quanto o de poços particulares enfrentam o mesmo dilema fundamental: um número crescente de usuários para uma quantidade decrescente de água. Como sucintamente me explicou o comissário de águas de Bitterroot, Vern Woolsey: "Sempre que você tiver uma fonte de água que é usada por mais de duas pessoas, terá problemas. Mas para que brigar pela água? Brigar não produzirá mais água!"

A razão determinante para a diminuição da quantidade de água é a mudança climática: Montana está se tornando mais quente e mais seca. Embora o aquecimento global venha a produzir vencedores e perdedores em diferentes partes do mundo, Montana estará entre os que mais perde­rão porque as suas chuvas já são inadequadas à agricultura. A seca forçou os agricultores ao abandono de grandes áreas de fazendas no leste de Montana, assim como em áreas adjacentes de Alberta e Saskatchewan. Um efei­to visível do aquecimento global em minha área de veraneio no oeste de Montana são as neves das montanhas, que agora estão se restringindo às maiores altitudes e durante o verão não mais permanecem nas montanhas que cercam a bacia do Big Hole, como quando estive aqui pela primeira vez em 1953.

O efeito mais visível do aquecimento global em Montana e, talvez, em toda parte do mundo, está no Glacier National Park. Embora as geleiras em toda parte do mundo estejam recuando - no monte Kilimanjaro, nos Andes, nos Alpes, nas montanhas da Nova Guiné e ao redor do Everest -, o fenômeno foi especialmente bem estudado em Montana porque suas geleiras são mais acessíveis aos climatologistas e aos turistas. Quando a área do Glacier National Park foi visitada por naturalistas pela primeira vez, em fins do século XIX, continha cerca de 150 geleiras; agora, só restam 35, a maioria com uma fração do tamanho original. A continuarem as taxas atuais de derretimento, o Glacier National Park não terá mais geleiras em 2030. Tais declínios na cobertura de neve das montanhas são ruins para os sistemas de irrigação, cuja água vem do derretimento das neves das mon­tanhas no verão. Também é ruim para o sistema de poços que exploram o aqüífero do rio Bitterroot e cujo volume diminuiu devido à seca recente.

Assim como em outras áreas secas do oeste dos EUA, a agricultura sem irrigação seria impossível no vale Bitterroot, devido à precipitação anual no fundo do vale ser de apenas 330 mm por ano. Sem irrigação, a vegetação do vale seria de artemísias, que é o que Lewis e Clark registraram em sua visita de 1805-1806, e que ainda se vê hoje em dia assim que se cruza o último canal de irrigação no lado leste do vale. A construção de sistemas de irrigação alimentados pela neve das montanhas mais altas que formam o lado oeste do vale começou em fins do século XIX, e atingiu o seu auge entre 1908-1910. Dentro de cada sistema de irrigação ou distrito, cada dono ou cada grupo de donos de terra tem o direito de retirar para a sua terra uma determinada quantidade de água do sistema.

Infelizmente, na maioria dos distritos de irrigação de Bitterroot a água é "sobrealocada". Para um sujeito de fora, ingênuo como eu, isso parece incrível, mas o fato é que, na maioria dos anos, a soma dos direitos de uso de água de todos os proprietários de terra excede a água disponível, ao menos no fim do verão, quando diminui o fluxo. Em parte, isso se deve ao fato de a quantidade de água alocada ser calculada na suposição de uma reserva fixa. Porém, os suprimentos de água variam ano a ano devido ao clima, e o utilizado para o cálculo foi o de um ano relativamente úmido. A solução é determinar prioridades entre os donos de terra de acordo com a data em que os direitos à água foram reclamados para aquela propriedade, reduzir a distribuição para os proprietários mais recentes e, então, para proprietários mais antigos à medida que a água que corre nos canais diminuir. Isso é um prato feito para conflitos, porque os proprietários mais antigos têm fazendas que freqüentemente estão abaixo das fazendas dos proprietários mais recentes e é difícil para estes fazendeiros a montante verem a água de que tão desesperadamente precisam correr através de suas propriedades tendo de conter a vontade de recolhê-la para si. Contudo, se eles recolherem esta água, os fazendeiros a jusante podem processá-los.

Outro problema resulta da subdivisão da terra: originalmente, as propriedades consistiam em grandes blocos cujo único proprietário obviamente tomava a água do canal para as suas diferentes plantações em seqüência, e que não era tolo a ponto de tentar irrigar todas as suas plantações ao mesmo tempo e então ficar sem água por causa disso. Contudo, quando esses blocos de 64 hectares foram subdivididos em 40 lotes domésticos de 1,6 hectare, não havia mais água para que cada um desses 40 proprietários regasse e mantivesse os seus jardins verdejantes, sem perceber que os outros 39 vizinhos também faziam o mesmo. Outro problema é que os direitos de irrigação se aplicam apenas ao chamado uso "benéfico" da água na terra que tem direito a ela. Deixar água nos rios para os peixes e para os turistas que tentam descer o rio em balsas não é considerado um direito "benéfico". Trechos do rio Big Hole já ficaram sem água em alguns verões secos recentes. Durante várias décadas, muitos desses conflitos potenciais do vale Bitterroot foram resolvidos amigavelmente por Vern Woolsey, o comissário do departamento de águas de 82 anos a quem todos respeitavam. Mas meus amigos de Bitterroot estão aterrorizados com o potencial de conflito a partir de 2003, ano em que Vern finalmente se aposentou.

O sistema de irrigação de Bitterroot inclui 28 pequenas represas particulares construídas em regatos nas montanhas, de modo a armazenar a água da neve derretida na primavera e liberá-la nos campos no verão. Estas represas constituem verdadeiras bombas-relógios. Todas foram construí­das há um século, com projetos hoje considerados primitivos e perigosos. Muitas foram mal-conservadas ou não tiveram qualquer manutenção. Mui­tas correm o risco de romper, o que inundaria casas e propriedades mais abaixo. As inundações devastadoras causadas pelo rompimento de duas dessas represas há algumas décadas convenceram o Serviço Florestal a es­tipular que os donos das represas, e também qualquer empreiteira que te­nha trabalhado na represa, são responsáveis pelos danos causados por al­gum acidente. Os donos são também responsáveis tanto pelo conserto quanto pela remoção de suas represas. Embora este princípio pareça ra­zoável, três fatos o tornam financeiramente oneroso: a maioria dos donos atuais recebe pouco benefício financeiro por suas represas e não mais se ocupam em mantê-las (p.ex., porque a terra foi dividida em lotes domés­ticos e agora as pessoas usam a água da represa apenas para regar seus gra­mados em vez de ganhar a vida com ela, como faziam os fazendeiros); os governos federal e estadual oferecem dinheiro em regime de divisão de despesas para consertar represas, mas não para removê-las; e metade das empresas estão em terras agora designadas como áreas selvagens, onde as estradas são proibidas e as máquinas têm de chegar por via aérea, trazidas por dispendiosos helicópteros de carga.

Exemplo de uma dessas bombas-relógios é a represa Tin Cup, cujo colapso inundaria Darby, a maior cidade do sul do vale Bitterroot. Os freqüentes vazamentos e as péssimas condições de conservação da represa deram início a longas discussões e ações judiciais entre os seus proprietários, o Serviço Florestal e grupos ambientais sobre como e quando con­sertar a represa, culminando em uma emergência quando um vazamento sério foi identificado em 1998. Infelizmente, o empreiteiro contratado pe­los donos para drenar o reservatório acabou encontrando rochas muito pesadas cuja remoção exigiria grandes equipamentos de escavação que de­veriam ser trazidos até ali por helicópteros. Neste ponto, os donos decla­raram-se insolventes, e tanto o estado de Montana quanto o condado de Ravalli também se mostraram contrários à idéia de gastar dinheiro na re­presa, mas a situação continuou configurada como uma emergência de risco de vida para a população de Darby. Portanto, o Serviço Florestal con­tratou os helicópteros e equipamentos para trabalhar na represa e cobrou a despesa dos proprietários, que não pagaram; o Departamento de Justiça dos EUA agora vai processá-los para receber o dinheiro de volta.

A outra fonte de água de Bitterroot, afora a neve das montanhas usada para a irrigação, consiste em poços de uso doméstico, perfurados em mananciais subterrâneos. Estes também enfrentam o problema da demanda crescente e da oferta decrescente de água. Embora a neve nas montanhas e os mananciais subterrâneos possam parecer coisas distintas, na verdade estão ligadas: um pouco da água usada para a irrigação sempre se infiltra no solo, chegando aos mananciais, e alguma água desses mananciais vem dos derretimentos de neve. Assim, a diminuição da camada de neve nos picos de Montana também pressagia uma diminuição dos mananciais sub­terrâneos.

Não há a menor dúvida quanto à demanda crescente de água dos mananciais: a contínua explosão populacional em Bitterroot representa mais gente bebendo mais água e dando mais descargas nas privadas. Roxa

French, coordenadora do Bitter Root Water Forum, aconselha aqueles que estão construindo novas casas a cavarem os seus poços bem fundo, porque haverá "mais canudos no milkshake", i.e., mais poços furados no mes­mo manancial, e baixando o seu nível. Em Montana, as legislações esta­dual e do condado sobre a questão da água são fracas. Um poço furado por um novo proprietário pode baixar o nível do poço de um vizinho, mas é difícil para este último conseguir ser ressarcido. Para calcular quanta água para uso doméstico um manancial pode fornecer seria preciso ma­pear este manancial e medir quão rapidamente a água flui para dentro dele, mas - incrivelmente - esses dois passos elementares não foram fei­tos nos mananciais do vale Bitterroot. O próprio condado não tem re­cursos para monitorar os seus mananciais e não faz uma avaliação inde­pendente da disponibilidade de água quando se considera a proposta de construção de uma nova casa. Em vez disso, o condado confia na promes­sa do construtor de que haverá água suficiente para abastecer a casa.

Tudo o que eu disse sobre água até agora tem a ver com quantidade. Contudo, também há a questão da qualidade da água, que rivaliza com a paisagem do oeste de Montana como sendo o seu recurso natural mais valioso, pois os seus rios e os sistemas de irrigação se originam de neve der­ retida relativamente pura. Apesar desta vantagem, o rio Bitterroot já está na lista dos "rios ameaçados" de Montana por diversos motivos. Os mais importantes são o acúmulo de sedimentos liberados pela erosão, a cons­trução de estradas, os incêndios florestais, a atividade madeireira e o nível de água diminuído em canais e cursos de água devido ao seu uso para a irrigação. A maior parte da bacia hidrográfica de Bitterroot já foi erodida ou corre o risco de ser. Um segundo problema é o vazamento de fertilizantes: todo fazendeiro que planta forragem para feno acrescenta ao me­nos 100 quilos de fertilizantes para cada hectare de terra, mas não se sabe quanto deste fertilizante acaba no rio. Resíduos de nutrientes de fossas sépticas são outro mal crescente para a qualidade da água. Finalmente, como já expliquei, os minerais tóxicos que vazam das minas são o proble­ma mais sério de qualidade da água em outras partes de Montana, embo­ra não o seja no vale Bitterroot.

A qualidade do ar também merece uma breve menção. Pode parecer petulante da minha parte, como residente da cidade americana com a pior qualidade do ar (Los Angeles), dizer algo negativo sobre Montana a este respeito. Algumas áreas de Montana sofrem sazonalmente com a baixa qualidade do ar, mais notadamente Missoula, cujo ar (apesar da melhora que vem sendo verificada desde a década de 1980) às vezes é tão ruim quanto o de Los Angeles. Os problemas do ar em Missoula, exacerbados pelas inversões de temperatura no inverno e pelo fato de a cidade estar localizada em um vale que aprisiona o ar, derivam de uma combinação de emissões de veículos durante todo o ano, fogões a lenha no inverno, e incêndios florestais e atividade madeireira no verão.


O maior grupo de problemas ambientais que ainda resta mencionar são aqueles ligados à introdução de espécies nocivas não nativas, e a perda de espécies nativas valiosas. Tais problemas envolvem peixes, veados e al­ces e ervas daninhas.

Originalmente, Montana tinha uma pesca muito rica, baseada nas seguintes espécies nativas: a truta conhecida como garganta-cortada (cutth­roat, em inglês), peixe-símbolo do estado de Montana, a truta-boi, o timalo do ártico c a savelha do lago. Todas essas espécies, com exceção da últi­ma, agora são raras em Montana devido a uma combinação de causas cujos impactos relativos variam entre as espécies: menos água nos córregos das montanhas onde estas espécies se reproduzem e crescem devido à re­moção de água para irrigação; temperaturas mais altas e mais sedimentos nesses cursos de água devido à atividade madeireira; sobrepesca; competi­ção de, e em alguns casos, hibridação com espécies introduzidas, como as trutas das espécies arco-íris, do córrego e marrom; predação por espécies como o lúcio e a truta do lago; e infecção por um parasita introduzido que ataca o sistema nervoso dos peixes (a chamada "doença do rodopio"). Por exemplo: o lúcio, um voraz comedor de peixes, foi introduzido ilegalmen­te em alguns rios e lagos de Montana por pescadores que gostavam de pes­car este tipo de peixe, e praticamente eliminaram desses lagos e rios as po­pulações de trutas das espécies boi e garganta-cortada. Do mesmo modo, a pesca no lago Flathead, outrora farta e baseada em diversas espécies de peixes nativos, foi destruída pela introdução da truta do lago.

A doença do rodopio foi introduzida acidentalmente nos EUA, vinda da Europa em 1958, quando um piscicultor da Pensilvânia importou al­guns peixes dinamarqueses infectados com esta doença que agora já se espalhou por quase todo o Oeste dos EUA, em parte transportada por aves, mas especialmente como resultado de indivíduos (incluindo agências do governo e criadores de peixe particulares) que introduziram peixes infec­tados em lagos e rios norte-americanos. Uma vez que o parasita seja in­troduzido em uma amostra de água, é impossível erradicá-lo. Por volta de 1994, a doença do rodopio reduziu em 90% a população de trutas arco-­íris do rio Madison, o mais famoso rio de trutas de Montana.

Pelo menos, a doença do rodopio não é transmissível para os seres humanos; só é ruim para o turismo baseado na pesca. Já uma outra doença introduzida, a doença da atrofia crônica (DAC) de veados e alces, é mais preocupante porque pode provocar uma doença fatal e incurável em seres humanos. A DAC de alces e veados é semelhante a outras doenças provocadas por príons em outras espécies animais, das quais as mais conheci­das são a doença de Creutzfeldt-Jakob, que afeta seres humanos, a doença da vaca louca, ou encefalopatia espongiforme bovina (EEB), que afeta os bovinos e é transmissível para os seres humanos, e a paraplexia enzoótica dos ovinos. Estas infecções causam uma degeneração incurável do sistema nervoso. Nenhum ser humano infectado com a doença de Creutzfeld-Jakob jamais se recuperou. A DAC foi detectada inicialmente em veados e alces do Oeste da América do Norte nos anos 1970, possivelmente (sugerem alguns) devido a veados mantidos em cativeiro para estudos em uma universidade do Oeste, em um cercado próximo a ovelhas infectadas com paraplexia enzoótica, e que foram liberados após o fim dos estudos. (Hoje em dia, tal liberação seria considerada um ato criminoso.) A posterior disseminação de estado para estado foi acelerada pelas transferências de veados e alces expostos à doença de uma fazenda de carne de caça para outra. Ainda não sabemos se a DAC pode ser transmitida de veados e alces para os seres humanos, assim como a doença da vaca louca, mas as recen­tes mortes de alguns caçadores de alce com a doença de Creutzfeldt-Jakob causaram alarme em alguns lugares. O estado de Wisconsin, preocupado com a possibilidade de o medo de contaminação prejudicar a indústria de caça ao veado, que rende um bilhão de dólares por ano, está em processo de sacrificar 25 mil veados (uma solução desesperada que desgosta todos os envolvidos) em uma área infectada, na esperança de controlar a epi­demia de DAC.

Apesar de a DAC ser o problema mais assustador causado por uma praga introduzida em Montana, as plantas daninhas introduzidas já são o problema mais caro do estado. Cerca de 30 espécies, a maioria, de origem eurasiana, estabeleceram-se em Montana após chegarem acidentalmente no feno ou em sementes trazidas pelo vento ou, em um dos casos, introduzidas intencionalmente como planta ornamental cujos perigos não foram previstos. Provocam dano de diversas formas: não são comestíveis para o gado nem para os animais selvagens, mas ocupam o lugar de espécies de plantas comestíveis, de modo que reduzem a quantidade de for­ragem em até 90%. Algumas são tóxicas para os animais e triplicam as taxas de erosão porque suas raízes fixam menos o solo do que as raízes da relva nativa.

As duas ervas daninhas mais importantes economicamente são a Centaurea maculosa e a Euphorbia esula, ambas disseminadas por todo o esta­do de Montana. A Centaurea maculosa prevalece sobre as plantas nativas secretando substâncias químicas que as matam rapidamente, e produzin­do uma grande quantidade de sementes. Embora possa ser arrancada com as mãos em campos pequenos, a Centaurea maculosa agora infesta 226 mil hectares só no vale Bitterroot e dois milhões de hectares em todo o estado de Montana, uma área grande demais para que se possa arrancá-las ma­nualmente. A Centaurea maculosa também pode ser controlada com her­bicidas, mas os herbicidas mais baratos capazes de matá-la também ma­tam outras espécies de plantas, e o herbicida específico é muito caro (800 dólares o galão). Além disso, não se sabe se os subprodutos desses herbici­das vão acabar no rio Bitterroot ou em mananciais de água potável, e se esses subprodutos têm efeitos nocivos. Uma vez que se estabelece tanto em floresta quanto em pastos, a Centaurea maculosa reduz a produção de for­ragem não apenas para os animais domésticos como também para os her­bívoros da floresta, de modo que podem ter o efeito de expulsar os veados e alces da floresta para os pastos pela redução da quantidade de comida disponível na floresta. Atualmente, a Euphorbia esula está menos dissemi­nada do que a Centaurea maculosa, mas é mais difícil de controlar e im­possível de ser arrancada com a mão, pois tem raízes de até seis metros de comprimento.

As estimativas do dano econômico direto causado por essas e outras plantas daninhas em Montana ultrapassam os 100 milhões de dólares por ano. Sua presença também reduz o valor de propriedades e a produtividade das fazendas. Acima de tudo, são uma tremenda dor de cabeça para os fazendeiros, que não podem controlá-las com uma única medida e, sim, através de complexos sistemas de administração integrados. As plantas daninhas forçam os fazendeiros a alternar diversas práticas: arrancar es­pécimes, aplicar herbicidas, mudar o uso de fertilizantes, liberar insetos e fungos inimigos delas, provocar pequenos incêndios controlados, mudar a época da ceifa e alterar a rotação das culturas e as práticas de paste­jo. Tudo isso devido a algumas pequenas plantas cujos perigos eram des­conhecidos na época e cujas sementes chegaram até aqui sem o nosso conhecimento!
Assim, a aparentemente imaculada Montana na verdade sofre de sérios problemas ambientais envolvendo rejeitos tóxicos, florestas, solos, água, mudanças climáticas, perdas de biodiversidade e introdução de pragas. Todos esses problemas se traduzem em problemas econômicos e explicam por que a economia de Montana vem declinando nas últimas décadas a um ponto em que aquele que outrora foi um dos estados mais ricos dos EUA é agora um dos mais pobres.

Se ou como tais problemas serão resolvidos dependerá das atitudes e valores dos seus moradores. Mas a população de Montana está se tornando cada vez mais heterogênea e não consegue chegar a um acordo sobre o meio ambiente e o futuro de seu estado. Muitos de meus amigos falam da crescente polarização de opiniões. Por exemplo, o banqueiro Emil Erhardt me explicou: "Há muito debate por aqui. A situação econômica dos anos 1950 era que todos éramos pobres então, ou nos sentíamos pobres. Não havia extremos de riqueza; ao menos, a riqueza não era visível. Agora, te­mos uma sociedade biestratificada, com famílias com menor renda lutan­do para sobreviver embaixo, e os recém-chegados mais prósperos no topo, capazes de adquirir propriedades onde se isolarem. Em essência, estamos fazendo um zoneamento baseado em dinheiro e não no uso da terra!"

A polarização que meus amigos mencionam se localiza ao longo de diversos eixos: ricos versus pobres, moradores antigos versus recém-chega­dos, aqueles que se apegam a valores tradicionais versus gente que recebe bem as novidades, vozes pró-crescimento versus vozes anti-crescimento, aqueles contra e a favor de planejamento governamental, e aqueles com ou sem filhos em idade escolar. Alimentando tais desavenças estão os parado­xos que mencionei no início deste capítulo: um estado com moradores pobres, mas que atrai recém-chegados ricos, mesmo quando os próprios jovens estão abandonando Montana após se graduarem no ensino médio.

Inicialmente ponderei se os problemas ambientais e as disputas polarizadas de Montana envolvem comportamento egoísta da parte de indiví­duos que perseguem interesses particulares sabendo que estão prejudican­do o resto da sociedade. Esta pode ser a verdade em alguns casos, como as propostas de alguns executivos do setor de mineração de prosseguirem com a extração de ouro através de lixiviação em pilha com cianeto apesar de haver provas abundantes dos problemas de toxicidade resultantes deste processo; a transferência de veados e alces entre fazendas de caça apesar de os fazendeiros saberem o risco resultante de disseminação da atrofia crôni­ca; e a introdução ilegal de lúcios em rios e lagos por alguns pescadores para o seu prazer exclusivo, apesar de saberem que tais transferências já destruíram a pesca em muitos outros lugares. Nestes casos, porém, não en­trevistei os indivíduos envolvidos e não sei se podem alegar honestamente terem pensado estar agindo corretamente. Mas sempre que pude falar com habitantes de Montana, verifiquei que as suas ações são condizentes com os seus valores, mesmo que esses valores se choquem com os meus ou com os de outros habitantes daquele estado. Ou seja, em sua maior parte, as di­ficuldades de Montana não podem ser simplesmente atribuídas a gente má e egoísta lucrando sabidamente à custa dos vizinhos. Em vez disso, envol­vem conflitos entre pessoas cujos antecedentes e valores particulares os fa­zem apoiar políticas diversas daquelas apoiadas por gente com diferentes antecedentes e valores. A seguir, enumerarei alguns pontos de vista que atualmente competem para moldar o futuro de Montana.

Um desses conflitos se dá entre "moradores antigos" e "recém-chega­dos": i.e., gente nascida em Montana, oriunda de famílias que vivem no estado há muitas gerações, e que respeitam um estilo de vida e uma eco­nomia tradicionalmente construída sobre três pilares: mineração, ativi­dade madeireira e agricultura, versus as chegadas de moradores recentes ou visitantes sazonais. Esses três pilares econômicos estão agora em rápi­do declínio em Montana. A maioria das minas já está fechada, devido a problemas com rejeitos químicos e a competição com minas do exterior que produzem a um custo menor. As vendas de madeira estão agora mais de 80% abaixo dos antigos níveis, e muitas serrarias e empresas madeireiras, com exceção de algumas empresas especializadas (notavelmente, cons­trutores de casas de madeira) fecharam devido a uma combinação de fa­tores: aumento do desejo público de manter as florestas intactas, altos custos de administração florestal e combate a incêndios, e a competição de madeireiras de regiões mais quentes e úmidas com vantagens inerentes sobre as madeireiras no frio e seco estado de Montana. A agricultura, o ter­ceiro pilar, também está minguando: por exemplo, das 400 fazendas de la­ticínio em operação no vale Bitterroot em 1964, só restaram nove. As ra­zões por trás do declínio da agricultura em Montana são mais complexas do que as que estão por trás do declínio da mineração e da atividade ma­deireira, embora no fundo paire a fundamental desvantagem competitiva do clima frio e seco de Montana para a agricultura, a pecuária ou o cres­cimento de árvores.

Os fazendeiros de Montana de hoje, que continuam a administrar fa­zendas na velhice, fazem-no em parte devido ao fato de amarem aquele es­tilo de vida e terem muito orgulho dele. Como Tim Huls me disse: "É um belo estilo de vida levantar-se da cama antes do amanhecer e ver o sol nas­cer, ver falcões voando acima de sua cabeça e veados pulando através dos campos de feno fugindo de sua colheitadeira”. Jack Hirschy, um fazendeiro que conheci em 1950, quando ele tinha 29 anos de idade, ainda trabalha em sua fazenda, aos 83 anos. Já seu pai, Fred, comemorou o 91° aniversá­rio andando a cavalo. Mas, nas palavras de Jill, irmã de Jack, "a pecuária e a agricultura são trabalho duro e perigoso”. Quando tinha 77 anos, Jack sofreu hemorragia interna e fraturou algumas costelas em um acidente de trator, enquanto Fred quase foi morto pela queda de uma árvore quando tinha 58 anos de idade. Tim Huls acrescentou um comentário orgulhoso sobre seu maravilhoso estilo de vida: "Às vezes, acordo às 3 da madrugada e trabalho até as 10 da noite. Este não é um trabalho de 9 da manhã às 5 da tarde. Mas nenhum de nossos filhos desejará ser fazendeiro se tiver de tra­balhar das 3 da madrugada às 10 da noite todos os dias”.

A observação de Tim ilustra um dos motivos da ascensão e queda da agropecuária em Montana: este estilo de vida era altamente valorizado pelas antigas gerações, mas muitos filhos de fazendeiros de hoje têm valores diferentes. Querem empregos para ficar sentados dentro de casa, diante do computador, em vez de carregando pesados fardos de feno. Querem ter folga à noite e nos fins de semana em vez de colher feno e tirar leite de va­cas que não dão folga à noite nem nos fins de semana. Não querem uma vida que os force a trabalhar duro até os 80 anos de idade, como os três irmãos Hirschy sobreviventes ainda o fazem hoje em dia.

Steve Powell me explicou: "As pessoas não costumavam esperar de uma fazenda algo além de comida bastante para todos; hoje, querem mais da vida além de se alimentar; querem ganhar o bastante para poderem mandar os filhos para a faculdade." Quando John Cook era pequeno e vivia na casa dos pais "minha mãe se satisfazia em ir à horta e colher aspargos para o jantar, e eu me satisfazia em caçar e pescar como diversão. Agora, as crianças querem fast-food e HBO; se os pais não lhes derem isso, sentem-­se diminuídos em relação aos colegas. Em meus tempos, um jovem adulto sabia que seria pobre durante os 20 anos seguintes e somente então, se des­se sorte, poderia esperar ter mais conforto. Agora, os jovens adultos que­rem ter conforto mais cedo; as primeiras perguntas de um jovem a respei­to de um trabalho são: 'Quanto paga, quantas horas se trabalha, e como são as férias’. Todo fazendeiro de Montana que conheço e que adora ser fazendeiro, ou está muito preocupado se os seus filhos assumirão a fazen­da da família, ou já sabe que nenhum deles o fará.

A realidade econômica atual faz com que os fazendeiros tenham dificuldade de viver de sua atividade porque os custos têm subido muito mais rapidamente do que o rendimento das fazendas. Hoje, aquilo que um fazendeiro ganha pelo leite ou pela carne que produz é praticamente o mesmo de há 20 anos, mas os custos de combustível, maquinário, fertilizantes e outras necessidades das fazendas aumentaram. Rick Laible me deu um exemplo: "Há 50 anos, um fazendeiro que quisesse comprar um caminhão novo pagava pelo veículo o preço de duas vacas. Hoje, um ca­minhão novo custa cerca de 15 mil dólares, embora uma vaca continue a ser vendida a 600 dólares, de modo que o fazendeiro teria de vender 25 va­cas para pagar o caminhão." Esta é a lógica implícita na seguinte piada que me contou um fazendeiro de Montana. Pergunta: "O que você faria se ga­nhasse um milhão de dólares?" Resposta: "Adoro ser fazendeiro, de modo que ficaria aqui em minha fazenda deficitária até acabar com esse milhão de dólares!"

As margens de lucro em queda e a competição crescente transforma­ram as centenas de pequenas fazendas auto-suficientes do vale Bitterroot em negócios não lucrativos. Primeiro, os fazendeiros descobriram que precisavam da renda adicional de trabalhos externos para sobreviverem, e que teriam de abdicar de suas fazendas porque requeriam muito trabalho à noite e nos finais de semana, depois do trabalho externo. Por exemplo, há 60 anos, os avós de KathyVaughn viviam em uma fazenda de 16 hectares, de modo que Kathy e Pat Vaughn compraram a sua própria fazenda de 16 hectares em 1977. Com seis vacas, seis carneiros, alguns porcos, feno, Kathy trabalhando como professora e Pat como construtor de sistemas de irrigação, alimentaram e educaram três filhos na fazenda, mas isso não lhes permitiu fazer qualquer tipo de poupança ou aposentadoria. Após oito anos, venderam a fazenda, mudaram-se para a cidade, e todos os seus filhos já deixaram Montana.

Em todos os EUA, as pequenas fazendas estão sendo espremidas pelas grandes, as únicas capazes de sobreviver com margens de lucro cada vez menores através de economias de escala. Mas no sudoeste de Montana é impossível os fazendeiros se tornarem grandes fazendeiros com a com­pra de mais terra, por motivos sucintamente explicados por Allen Bjergo: "A agricultura nos EUA está se mudando para áreas como Iowa e Nebras­ka, onde ninguém faz aquilo por prazer, porque lá não é tão bonito quan­to aqui! Em Montana, as pessoas querem viver pelo prazer da coisa, de modo que estão dispostas a pagar muito mais pela terra do que a agricultura nesta mesma terra poderia render. O Bitterroot está se tornando um vale de cavalos. Cavalos são econômicos porque, enquanto os preços dos produtos agrícolas dependem do valor da comida em si, e não são ilimitados, muita gente está disposta a gastar qualquer coisa por cavalos que não geram qualquer benefício econômico”.

Os preços da terra no vale Bitterroot estão 10 ou 20 vezes mais altos do que há algumas décadas. Com esses preços, o custo dos encargos de uma hipoteca são muito mais altos do que é possível pagar usando a terra como fazenda. Esta é a razão básica para o fato de pequenos fazendeiros do vale Bitterroot não poderem se expandir, e por que as fazendas acabam sendo vendidas para outros fins. Se os velhos fazendeiros ainda vivem em suas fazendas ao morrerem, seus herdeiros são forçados a vender a terra para um especulador por muito mais do que ganhariam caso vendessem a outro fazendeiro, de modo a poderem pagar os impostos de propriedade relativos ao aumento do preço da terra durante o tempo de vida do fazendeiro falecido. Mais freqüentemente, a fazenda é vendida pelo próprio fazendeiro. Embora sofram ao verem a terra que trataram e amaram du­rante 60 anos ser subdividida em lotes de dois hectares para a expansão suburbana, o aumento no preço da terra permite que vendam até mesmo uma pequena e outrora auto-suficiente fazenda para um especulador por um milhão de dólares. Não têm outra escolha para obterem o dinheiro necessário para sustentá-los após a aposentadoria, porque não puderam economizar como fazendeiros, e porque os seus filhos não querem conti­nuar a cuidar da fazenda. Nas palavras de Rick Laible, "a terra é o único fundo de pensão de um fazendeiro”.

Qual o motivo desse enorme salto no preço de terra? Basicamente, é porque o maravilhoso ambiente de Bitterroot atrai prósperos recém-chegados. Os compradores das antigas fazendas ou são os próprios recém-chegados, ou especuladores que subdividirão a fazenda em lotes e os venderão para os recém-chegados ou para gente rica que já more no vale. Os 4% anuais de crescimento populacional em Bitterrot devem-se quase que inteiramente aos recém-chegados, e não a um excesso de nascimentos em relação aos falecimentos no vale. O turismo recreativo sazonal também colabora para este aumento, graças a gente de fora do estado (como Stan Falkow, Lucy Tompkins e meus filhos) que vão até lá para pescar, jogar golfe ou caçar. Como explica uma recente análise econômica feita pelo condado de Ravalli: "Não deve haver mistério quanto ao motivo de tanta gente estar se mudando para o vale Bitterroot. Simplesmente é um lugar muito atraente para se morar devido às suas montanhas, florestas, rios, vida selvagem, paisagens e clima relativamente ameno”.

O maior grupo de imigrantes consiste em "meio-aposentados" ou recém-aposentados na faixa dos 45-59 anos, que vivem do que sobrou da venda de seus lares fora do estado, e freqüentemente do dinheiro que continuam a ganhar dos negócios que mantêm fora do estado, ou através da Internet. Ou seja, a sua fonte de renda é imune aos problemas econômicos associados ao meio ambiente de Montana. Por exemplo, um californiano que vender uma pequena casa na Califórnia por 500 mil dólares pode usar o dinheiro em Montana para comprar dois hectares de terra com uma casa-grande e cavalos. Então, pode ir pescar e sustentar-se em sua aposentadoria precoce com as suas economias ou com o que sobrou da venda da casa na Califórnia. Daí que quase 50% dos imigrantes recen­tes do vale Bitterroot sejam californianos. Por estarem comprando a terra por sua beleza e não pelo valor das vacas ou das maçãs que esta pode produzir, o preço que oferecem pelas terras no vale Bitterroot nada tem a ver com o seu valor para uso agrícola.

Mas este salto no preço das casas criou um problema de moradia para os residentes do vale Bitterroot que têm de trabalhar para viver. Muitos acabam sem poder comprar casas, tendo de viver em trailers, veículos recreativos, ou com os pais, e tendo de ter dois ou três empregos simultâneos para sustentar até mesmo aquele estilo de vida espartano.

Naturalmente, estes cruéis fatos econômicos criam antagonismos entre os antigos moradores e os recém-chegados, especialmente gente rica de fora do estado que tem um segundo, terceiro, ou mesmo um quarto lar em Montana (além de suas casas em São Francisco, Palm Springs e Flórida), e que vêm a Montana durante pequenos períodos a cada ano para pescar, caçar, jogar golfe ou esquiar. Os antigos moradores reclamam do barulho dos jatinhos particulares que os ricos visitantes trazem ao aeroporto de Hamilton e que os levam embora ao fim do dia, de volta para as suas casas em São Francisco, apenas para que possam passar algumas horas jogando golfe em seu quarto lar na fazenda Stock. Os antigos moradores se ressentem das pessoas de fora comprarem grandes fazendas que os moradores locais também gostariam de ter comprado, mas que já não podem pagar, lugares onde outrora os moradores locais conseguiam permissão para caçar ou pescar mas onde agora são impedidos de entrar pelos novos donos, que desejam caçar e pescar em companhia de seus amigos ricos, mantendo os habitantes locais do lado de fora. Os mal-entendidos surgem do conflito de valores e expectativas: por exemplo, os recém-chegados que­rem que os alces desçam das montanhas até as áreas das fazendas mais por achá-los bonitos do que para caçá-los, mas os antigos moradores não que­rem que os alces desçam da montanha para comer o seu feno.

Ricos proprietários de imóveis fora do estado têm o cuidado de ficar em Montana menos de 180 dias por ano, para não pagar imposto de ren­da estadual e, assim, contribuir para o governo e para as escolas locais. Um morador me disse: "Aquele pessoal de fora tem prioridades diferentes de nós. O que eles querem é pagar caro por privacidade e isolamento, não querem se envolver localmente, exceto quando trazem os amigos de fora até o bar local para mostrar o estilo de vida rural e as estranhas pessoas do lugar. Gostam da vida selvagem, de pescar, de caçar, da paisagem, mas não são partes da comunidade." Ou, como Emil Erhardt afirmou, "a atitude deles é a de: 'estou aqui para montar o meu cavalo, apreciar as mon­tanhas e pescar: não me aborreça com assuntos que vim aqui para me esquecer”.

Mas há um outro lado a ser considerado a respeito dos ricos visitan­tes de fora do estado. Emil Erhardt acrescentou: "A fazenda Stock fornece empregos com bons salários, paga uma grande parte dos impostos territoriais do vale Bitterroot, paga por sua própria segurança e não faz mui­tas exigências à comunidade ou aos serviços governamentais locais. Nosso xerife não é chamado à fazenda Stock para resolver brigas de bar, e os pro­prietários da fazenda Stock não mandam os filhos para as escolas daqui." John Cook reconhece que "o lado bom desses ricos proprietários é que se Charles Schwab não tivesse comprado toda aquela terra, o lugar hoje não seria hábitat para a vida selvagem e nem teria tanto espaço verde, porque de outro modo a terra teria sido subdividida em lotes por algum especulador”.


Pelo fato de gente rica de outros estados ter sido atraída a Montana por seu maravilhoso meio ambiente, algumas dessas pessoas cuidam de suas propriedades e tornam-se líderes na defesa do meio ambiente e na instituição de planejamento da terra. Por exemplo, a casa de verão que eu alugava no rio Bitterroot ao sul de Hamilton nos últimos sete anos pertencia a uma entidade particular chamada Teller Wildlife Refuge. Otto Teller era um rico californiano que gostava de vir a Montana para pescar trutas. Certo dia, ficou furioso ao encontrar grandes máquinas de construção jogando entulho em um de seus pontos de pesca favoritos no rio Gallatin. Ficou ainda mais furioso ao ver que as grandes derrubadas de árvores promovidas por empresas madeireiras nos anos 1950 estavam devastando os seus queridos rios de trutas e estragando a qualidade de suas águas. Em 1984 Otto começou a comprar terras à margem dos rios ao longo do Bitterroot e a incorporá-las a um refúgio de vida selvagem particular, embora continue a deixar as pessoas do local visitarem para caçar e pescar. Recentemente doou o direito de uso de sua terra a uma orga­nização não lucrativa chamada Montana Land Reliance, de modo a ga­rantir que a terra seria administrada perpetuamente e preservaria as suas qualidades ambientais. Não tivesse Otto Teller, aquele próspero californiano, comprado aqueles 640 hectares de terra, estes já teriam sido subdi­vididos em pequenos lotes.

O influxo de recém-chegados, o resultante aumento dos preços de ter­ras e impostos de propriedade, a pobreza dos antigos residentes de Mon­tana e sua atitude conservadora em relação ao governo e aos impostos (veja adiante), tudo contribuiu para a difícil situação das escolas de Mon­tana, que são sustentadas em sua grande parte pelos impostos sobre a propriedade. Devido ao condado de Ravalli ter tão poucas propriedades in­dustriais ou comerciais, as propriedades residenciais são a principal fonte de impostos, que têm subido com o aumento do valor das terras. Para os antigos e recém-chegados menos afluentes, que vivem com um orçamen­to apertado, todo aumento nos impostos de propriedades é coisa séria. Não é de se surpreender que freqüentemente reajam votando contra títu­los e impostos extras para arrecadar verbas para as suas escolas.

Por isso, embora as escolas públicas respondam por dois terços dos gastos do governo no condado de Ravalli, tais gastos, medidos como um percentual de renda pessoal, ficam em último lugar em uma lista de 24 condados rurais do Oeste dos EUA comparáveis a Ravalli, e a renda pessoal em si já é baixa no condado de Ravalli. Mesmo de acordo com os bai­xos padrões dos fundos escolares do estado de Montana, os fundos esco­lares de Ravalli destacam-se como baixos. Muitos distritos escolares de Ravalli mantêm os seus gastos dentro do mínimo absoluto exigido pela lei estadual. Os salários médios dos professores de Montana estão entre os mais baixos dos EUA. Especialmente no condado de Ravalli, estes baixos salários, somados aos preços crescentes dos imóveis, dificultam aos professores pagarem por sua moradia.

Os jovens nascidos em Montana estão deixando o estado porque mui­tos deles aspiram a um outro estilo de vida, e não encontram emprego no estado. Por exemplo, desde que Steve Powell se formou na Hamilton High School, 70% de seus colegas de classe deixaram o vale Bitterroot. Sem ex­ceção, todos os meus amigos que decidiram morar em Montana discutem, como um assunto desagradável, se os seus filhos devem ficar ou se de­vem voltar para as suas cidades de origem. Os oito filhos de Allen e Jackie Bjergo e seis dos oito filhos de Jill e John Eliel vivem fora de Montana.

Voltando a citar Emil Erhardt: "Nós do vale Bitterroot exportamos crianças. Influências externas, como a tevê, fizeram nossos filhos ver o que há fora do vale, e o que não há aqui. As pessoas trazem os filhos para cá por causa da vida ao ar livre, e porque é um belo lugar para educar uma criança, mas então descobrem que os filhos não querem a vida ao ar livre”. Lembro de meus dois filhos - que adoram vir a Montana para pescar du­rante duas semanas no verão, mas que estão acostumados à vida urbana de Los Angeles no resto do ano - externando a sua surpresa ao saírem de uma lanchonete em Hamilton e darem-se conta de quão poucas diversões urbanas havia à disposição dos adolescentes locais. Hamilton possui um total de dois cinemas, e o shopping-center mais perto fica a 80 quilômetros em Missoula. Choque semelhante ocorre com os adolescentes de Ha­milton ao saírem de Montana e darem-se conta do que estão perdendo.
Assim como a maioria dos americanos do Oeste rural, os habitantes de Montana tendem a ser conservadores e desconfiados da regulamentação governamental. Historicamente, tal atitude ocorre porque os antigos colonizadores que viviam com baixa densidade populacional em uma fronteira longe dos centros de governo tinham de ser auto-suficientes e não podiam recorrer ao governo para resolver seus problemas. Os habitantes de Montana são particularmente avessos a um governo federal geográfica e psicologicamente remoto, estabelecido em Washington D.C., a lhes dizer o que fazer. (Mas não são avessos ao dinheiro do governo federal, do qual Montana recebe e aceita cerca de um dólar e meio para cada dólar envia­do para Washington.) Na visão do povo de Montana, a maioria urbana dos EUA que administra o governo federal não conhece as condições do esta­do. Na visão dos administradores federais, o meio ambiente de Montana é um tesouro que pertence a todos os americanos e não está lá apenas para o benefício particular dos seus habitantes.

Mesmo para os padrões de Montana, o vale Bitterroot é especialmente conservador e anti-governista. Isso pode acontecer porque muitos dos primeiros colonizadores do vale eram de estados confederados e, em um in­fluxo posterior, de amargos conservadores direitistas de Los Angeles após os conflitos raciais naquela cidade. Como disse Chris Miller: "Os liberais e democratas que vivem aqui choram ao lerem os resultados das eleições, porque estas refletem muito conservadorismo." Expoentes extremos de conservadorismo de direita em Bitterroot são os membros das chamadas milícias, grupos de proprietários de terra que armazenam armas, recusam-­se a pagar impostos, mantêm todo mundo afastado de suas propriedades, e são tolerados de maneiras diferentes ou vistos como paranóicos por ou­tros moradores do vale.

Uma conseqüência destas atitudes políticas em Bitterroot é a oposição ao zoneamento e ao planejamento governamental, e a sensação de que os proprietários de terras deviam ter o direito de fazer o que quisessem com sua propriedade. Ravalli não tem um código de construção nem um zoneamento que abranja todo o condado. Afora duas cidades e alguns distritos voluntários formados por eleitores locais em algumas áreas rurais, não há nem mesmo restrições ao uso que se deve dar à terra. Por exemplo, certa tarde eu visitava Bitterroot com meu filho adolescente Joshua, e ele disse ter lido em um jornal que um filme a que ele queria assistir estava passando em um dos dois cinemas de Hamilton. Informei-me onde era o lugar, levei-o de carro até lá e, para a minha surpresa, descobri que o cinema fora recentemente construído em uma área quase exclusivamente ocupada por fazendas, com exceção de um grande laboratório de biotecnologia adjacente. Não havia nenhuma regulamentação quanto a este uso alterado de terras rurais. Por outro lado, em muitas outras partes dos EUA, há suficiente preocupação do público quanto à perda de terrenos rurais, e a regulamentação de zoneamento restringe ou proíbe a conversão destas áreas em propriedades comerciais, e os contribuintes ficariam especial­mente horrorizados com a perspectiva de um cinema com muito movimento junto a um laboratório de biotecnologia potencialmente perigoso.

O povo de Montana está começando a perceber que duas de suas ati­tudes mais preciosas são antagônicas: a atitude pró-direitos individuais e anti-regulamentação governamental, e o orgulho que têm de sua qualida­de de vida. A frase "qualidade de vida" surgiu em todas as conversas que tive com habitantes de Montana a respeito de seu futuro. A frase diz res­peito à capacidade que têm de desfrutar, a cada dia de suas vidas, daquele meio ambiente maravilhoso que os turistas como eu consideram um pri­vilégio poder visitar durante uma ou duas semanas por ano. A frase tam­bém se refere ao orgulho que têm de seu estilo de vida tradicional, como uma população rural, de baixa densidade, igualitária e descendente de an­tigos colonizadores. Emil Erhardt me disse: "No vale Bitterroot, as pessoas desejam manter a essência de uma pequena e tranqüila comunidade na qual todos estão na mesma condição, pobres e orgulhosos de o serem." Ou, como disse Stan Falkow: ''Antigamente, quando dirigíamos em Bitterroot, acenávamos para todo carro por que passávamos, porque conhecíamos todo mundo."

Infelizmente, ao permitir o uso irrestrito da terra e, assim, o influxo de novos moradores, a antiga e continuada oposição dos habitantes de Montana à regulamentação governamental é responsável pela degradação de seu belo meio ambiente e da qualidade de vida que tanto prezam. Isso me foi melhor explicado por Steve Powell: "Digo aos meus amigos corretores e especuladores de imóveis: 'Vocês têm de proteger a beleza da paisagem, a vida selvagem e as terras de cultivo: são essas coisas que agregam valor à propriedade. Quanto mais esperarmos para fazer o planejamento, me­nos beleza natural vai haver. A terra não ocupada é valiosa para a comuni­dade como um todo: é uma parte importante dessa qualidade de vida que atrai as pessoas até aqui. Com o aumento do crescimento, as mesmas pes­soas que antes eram contra o governo hoje estão preocupadas. Dizem que a sua área de recreação favorita está ficando cheia de gente, e agora admitem que deve haver regras." Quando era comissário do condado de Ravalli, em 1993, Steve patrocinou encontros públicos apenas para começar a dis­cussão do planejamento de uso da terra e para estimular o público a pen­sar no assunto. Milicianos empedernidos vieram a esses encontros para dissolvê-los, portando armas ostensivamente para intimidar as pessoas. Posteriormente, Steve perdeu a sua candidatura à reeleição.

Ainda não está claro como será resolvido este conflito entre a resis­tência ao planejamento governamental e a necessidade deste planejamen­to. Novamente citando Steve Powell, "as pessoas estão tentando preser­var o vale Bitterroot como uma comunidade rural, mas não sabem como preservá-lo de modo que sobreviva economicamente”. Land Lindbergh e Hank Goetz dizem essencialmente o mesmo: "O problema fundamental aqui é como preservar as atrações que nos trouxeram a Montana, enquanto ainda lidamos com as mudanças que não podem ser evitadas."


Para concluir este capítulo sobre Montana, deixarei que quatro de meus amigos da região relatem com as suas próprias palavras como se tornaram habitantes de Montana, e suas preocupações com o futuro do estado. Rick Laible, um recém-chegado, hoje senador estadual; Chip Pigman, morador antigo e especulador imobiliário; Tim Huls, morador antigo e fazendeiro de laticínios; e John Cook, um instrutor de pesca recém-chegado.

Eis a história de Rick Laible: "Nasci e fui criado nos arredores de Berkeley, Califórnia, onde tinha uma fábrica de estantes de madeira. Minha esposa, Frankie, e eu trabalhávamos pesado. Um dia, Frankie olhou para mim e disse: 'Você está trabalhando de 10 a 12 horas por dia, sete dias por semana.' Decidimos nos aposentar parcialmente e dirigimos sete mil qui­lômetros pelo Oeste para encontrarmos um lugar onde nos estabelecer. Compramos nossa primeira casa em uma parte remota de Bitterroot em 1993, e, no ano seguinte, nos mudamos para uma fazenda que compra­mos perto do povoado de Victor. Minha mulher cria cavalos árabes egíp­cios, e eu volto à Califórnia uma vez por mês para dar uma olhada no ne­gócio que ainda mantenho lá. Temos cinco filhos. Nosso filho mais velho sempre quis se mudar para Montana e ele administra nossa fazenda. Nos­sos outros quatro filhos não compreendem a qualidade de vida de Monta­na, nem que o povo da região é gente das mais simpáticas e nem por que seus pais se mudaram para cá.

"Atualmente, após cada uma de minhas visitas de quatro dias à Ca­lifórnia, desejo cair fora dali: sinto as pessoas de lá como 'ratos em uma gaiola'. Frankie vai à Califórnia apenas duas vezes por ano, para ver os ne­tos, e isso é o suficiente de Califórnia para ela. Como um exemplo daquilo que eu não gosto da Califórnia, há pouco tempo estava lá para uma reu­nião, e tinha algum tempo livre, de modo que fui passear na rua. Percebi que as pessoas que vinham na direção oposta baixavam os olhos e evita­vam contato visual comigo. Quando digo 'bom dia' para gente que não conheço na Califórnia, eles se espantam. Aqui em Bitterroot, ao passar por alguém que você não conhece, a regra é: faça contato visual.

"Quanto ao modo como me envolvi com política, sempre tive muitas opiniões políticas. O legislador da assembléia estadual de meu distrito aqui em Bitterroot decidiu não se candidatar e sugeriu que eu me candidatasse no lugar dele. Ele tentou me convencer, Frankie também. Por que decidi me candidatar? Foi para 'devolver alguma coisa'. A vida foi boa comigo, e eu queria melhorar a vida das pessoas daqui.

"A questão legislativa na qual estou particularmente interessado é administração de florestas, porque o meu distrito é florestal e muitos de meus eleitores são madeireiros. A cidade de Darby, que fica no meu distri­to, era uma rica cidade madeireira, e a administração de florestas criaria empregos no vale. Antes havia cinco madeireiras no vale, agora não há ne­nhuma, de modo que o vale perdeu esses empregos e sua infra-estrutura. As decisões quanto à administração florestal são feitas atualmente por gru­pos ambientais e o governo federal, sem participação do condado ou do estado. Estou trabalhando em uma legislação de administração florestal que envolva a colaboração das três maiores entidades dentro do estado: as agências federais, estaduais e municipais.

"Há muitas décadas, Montana estava entre os 10 maiores estados dos EUA em renda per capita; agora, é o 49° entre 50, devido ao declínio das indústrias de extração (madeira, carvão, metais, petróleo e gás). Estes empregos perdidos eram empregos sindicalizados de altos salários. É claro, não devemos voltar a praticar extração excessiva, como ocorreu no passa­do. Aqui no vale Bitterroot, tanto o marido quanto a mulher precisam tra­balhar e, freqüentemente, ambos mantêm dois empregos para sobreviver, embora estejamos cercados de florestas repletas de material combustível. Todos aqui, ambientalistas ou não, concordam que precisamos reduzir esse material combustível de nossas florestas. A restauração florestal eliminaria o excesso de material combustível, especialmente as árvores pequenas e baixas. Hoje, esse excesso de material combustível é eliminado pelas quei­madas. O Plano Nacional de Incêndios do governo federal o faria através da extração mecânica de troncos, com o propósito de reduzir a biomassa combustível. A maior parte da madeira usada nos EUA vem do Canadá! No entanto, a missão original de nossas florestas nacionais era a de forne­cer um fluxo contínuo de madeira e a proteção das bacias hidrográficas. Da receita destinada às florestas nacionais, 25% vão para as escolas, mas, recentemente, esta receita diminuiu muito. Mais atividade madeireira re­presentaria mais dinheiro para nossas escolas.

"No momento, não há política de crescimento em todo o condado de Ravalli! A população do vale cresceu 40% nos últimos 10 anos, e pode crescer 40% na próxima década: para onde irão esses outros 40%? Podemos impedir que mais gente se mude para cá? Temos o direito de impe­dir? Será justo proibir um fazendeiro de subdividir e lotear a sua proprie­dade, condenando-o, assim, a ser fazendeiro o resto da vida? O dinheiro da aposentadoria de um fazendeiro está em sua terra. Se o fazendeiro for proibido de vendê-la para um especulador ou para construir uma casa, o que estaremos fazendo com ele?

"Quanto aos efeitos do crescimento em longo prazo, sei que no futuro haverá ciclos, como houve no passado. Em um desses ciclos, os recém-che­gados voltarão para as suas casas. Montana nunca vai ser um estado su­per-desenvolvido, mas o condado de Ravalli continuará a se desenvolver. Há uma enorme quantidade de terras públicas neste condado. O preço da terra vai aumentar até ficar muito alto, até um ponto em que os poten­ciais compradores começarão a procurar terras mais baratas em outro lu­gar. No fim, todas as terras de fazenda do vale serão loteadas”.


Agora, a história de Chip Pigman: "O avô de minha mãe mudou-se para cá por volta de 1925, vindo do estado de Oklahoma. Tinha um po­mar de macieiras. Minha mãe cresceu aqui em uma fazenda de laticínios e ovelhas, e agora tem uma imobiliária na cidade. Meu pai mudou-se para cá quando era criança, trabalhou com mineração e beterraba açucareira, e tinha um segundo emprego no setor de construção. Foi assim que me meti em construção. Nasci e fui para a escola aqui, e tenho bacharelado em con­tabilidade pela Universidade de Montana, perto de Missoula.

"Morei três anos em Denver, mas não gostei da vida na cidade e estava determinado a voltar para cá, em parte porque o vale Bitterroot é um ótimo lugar para se ter filhos. Minha bicicleta foi roubada em minha segun­da semana em Denver. Não gostava do trânsito nem das multidões da ci­dade. Minhas necessidades são satisfeitas aqui. Fui criado sem 'cultura' e não preciso dela. Esperei apenas que minhas ações da empresa de Denver que me empregou fossem adquiridas e, então, voltei para cá. Isso repre­sentou abandonar um emprego em Denver que pagava 35 mil dólares por ano, mais benefícios, e voltei aqui para ganhar 17 mil por ano sem qualquer benefício suplementar. Estava louco para abandonar o emprego em Denver para poder morar no vale, onde posso fazer caminhadas. Minha mulher nunca experimentou tal insegurança, mas sempre vivi com essa insegurança no vale Bitterroot. Aqui, você tem de ter dois empregos para sobreviver, e meus pais sempre tiveram de fazer vários trabalhos avulsos. Se fosse necessário, estava disposto a arranjar um trabalho noturno esto­cando alimentos para ganhar dinheiro para a minha família. Depois que voltamos para cá, levei cinco anos até ter uma renda igual à que tinha em Denver, e mais um ano ou dois para poder pagar um seguro de saúde.

"Meu negócio é construção de casas e loteamento de terrenos mais modestos, uma vez que não posso comprar e lotear porções de terra mais nobres. Originalmente, as terras que loteei pertenciam a fazendeiros, mas a maioria não cuidava mais de suas fazendas quando eu as comprei; já haviam sido vendidas, revendidas e, possivelmente, subdivididas diversas ve­zes. Tornaram-se improdutivas e estavam tomadas de Centaurea maculosa em vez de pastagem.

"Uma exceção é meu projeto atual em Hamilton Heights, uma antiga fazenda de 16 hectares que adquiri e que agora estou tentando subdividir pela primeira vez. Submeti ao condado um plano de loteamento detalha­do, requisitando três aprovações diferentes, das quais consegui as duas primeiras. Mas o terceiro e último passo seria uma audiência pública, na qual 80 pessoas que viviam nas redondezas apareceram para protestar com base no argumento de que a subdivisão representaria perda de terras para cul­tivo. Sim, o terreno tem um bom solo e já foi bom para a agricultura, mas não era mais produtivo quando eu o comprei. Paguei 225 mil dólares por estes 16 hectares; seria impossível sustentar seu alto custo com a agricul­tura. Mas a opinião pública não quer saber de economia. Em vez disso, os vizinhos dizem: 'Gostamos de ver terreno aberto cultivado ou florestas ao nosso redor.' Mas como manter o espaço aberto se o vendedor do terreno é um homem de 60 anos de idade que precisa desse dinheiro para se apo­sentar? Se os vizinhos quisessem preservar aquele lugar como espaço aber­to, deveriam tê-lo comprado. Poderiam tê-lo comprado, mas não o com­praram. Ainda querem controlá-la, mesmo sem possuí-lo.

"Perdi na audiência pública porque os administradores do condado não queriam se indispor com 80 eleitores pouco antes das eleições. Não negociei com os vizinhos antes de submeter o meu plano porque sou cabeça-dura, quero fazer o que acho que tenho o direito de fazer, e não gos­to que me digam o que devo fazer. As pessoas também não se dão conta de que, em um projeto pequeno como esse, as negociações são muito caras para meu tempo e dinheiro. Da próxima vez que fizer um projeto as­sim, primeiro falarei com os vizinhos, mas também trarei 50 de meus trabalhadores para a audiência, de modo que os comissários do condado vejam que há também uma vontade política a favor do projeto. Estou às voltas com os custos de manutenção da terra durante esta luta. Os vizinhos querem que a terra fique ali sem que ninguém faça nada com ela!

"As pessoas falam de loteamento excessivo e têm medo que o vale aca­be ficando super-povoado. E tentam me culpar por isso. Minha resposta é: há demanda para o meu produto, não sou eu quem a cria. A cada ano há mais prédios e mais trânsito no vale. Mas eu gosto de caminhar, e quando você caminha ou voa sobre o vale, vê um bocado de espaço aberto por aí. A imprensa diz que houve um crescimento de 44% no vale nos últimos 10 anos, mas isso quer dizer apenas que houve um aumento populacional de 25 mil para 35 mil pessoas. Os jovens estão abandonando o vale. Tenho 30 funcionários que, além do emprego, têm plano de pensão, seguro saúde, férias remuneradas e um plano de participação nos lucros. Como ne­nhum concorrente oferece este pacote, tenho baixa rotatividade em minha força de trabalho. Os ambientalistas me vêem como uma das causas dos problemas do vale, mas não posso criar a demanda; se eu não construir, outros o farão.

"Pretendo ficar aqui no vale o resto de minha vida. Pertenço a esta comunidade, e patrocino muitos projetos comunitários: por exemplo, apoio os times locais de beisebol, natação e futebol. Por ser daqui e querer ficar aqui, não tenho uma mentalidade do tipo enriquecer-e-cair-fora. Ainda espero estar aqui daqui a 20 anos, dirigindo meu carro e passando por lu­gares que projetei. Não quero olhar para o que fiz e ter de admitir: 'Esse projeto é ruim!'"
Tim Huls é um produtor de laticínios de uma família de antigos habi­tantes de Montana: "Meus bisavós foram os primeiros de nossa família a chegarem aqui, em 1912. Compraram 16 hectares quando a terra ainda era muito barata, e tinham 12 vacas leiteiras que ordenhavam à mão duas horas todas as manhãs, e novamente durante duas horas no fim da tarde. Meus avós compraram mais 44 hectares por alguns centavos o hectare. Vendiam o creme do leite de suas vacas para a fabricação de queijo e produziam maçãs e feno. Contudo, era uma luta. Havia tempos difíceis, e eles se agüentavam como podiam, enquanto outros fazendeiros não conseguiam. Meu pai pensava em ir para a faculdade mas decidiu ficar na fa­zenda. Ele foi o visionário inovador que tomou a decisão crucial de se es­pecializar em produção de leite e na construção de um estábulo para 150 vacas leiteiras de modo a aumentar o valor da terra.

"Meus irmãos e eu compramos a fazenda de nossos pais. Eles não a de­ram para nós. Eles nos venderam porque queriam que decidíssemos se realmente queríamos cuidar de fazendas a ponto de pagarmos por isso. Cada irmão e esposa possui a sua própria terra e a arrenda para a empresa familiar. A maior parte do trabalho de administrar uma fazenda é feita por nós, nossas mulheres e nossos filhos; só temos um pequeno grupo de empregados que não são da família. Há pouquíssimas fazendas familiares como a nossa. Uma coisa que nos fez sermos bem-sucedidos é que todos temos a mesma fé; a maioria de nós freqüenta a mesma igreja comunitá­ria em Corvallis. Claro que temos brigas familiares. Mas podemos ter uma tremenda briga à tarde e ainda sermos nossos melhores amigos à noite; nossos pais também brigavam, mas sempre resolveram tudo antes do pôr-do-sol. Sabemos onde podemos insistir e onde devemos ceder.

"De algum modo, este espírito familiar passou para meus dois filhos. Ambos aprenderam cooperação quando crianças: quando o menor tinha apenas sete anos de idade, começaram a instalar seções de canos de alumínio para sprinklers com 12 metros de comprimento, 16 seções por fila, um menino em cada extremidade de uma seção de 12 metros. Depois que saíram de casa, foram colegas de quarto, e agora são os melhores amigos e vizinhos um do outro. Outras famílias tentaram fazer com que os seus fi­lhos mantivessem laços familiares, assim como fizemos com os nossos, mas eles não são unidos, embora pareçam fazer exatamente o que fizemos.

"A economia de uma fazenda é difícil porque o maior valor que se pode tirar da terra aqui em Bitterroot é vendendo-a para a construção de casas e loteamentos. Os fazendeiros de nossa região são obrigados a decidir: devemos continuar com as nossas fazendas ou vender a terra para moradia e retiro? Não existe nenhum produto legal que possamos plantar que nos permita competir com o valor imobiliário de nossa terra, de modo que não podemos comprar mais terra. Em vez disso, o que determina a nossa sobrevivência é sermos o mais eficiente possível nos 300 hectares que já temos ou arrendamos. Nossos custos, assim como o custo das caminhonetes, aumentaram, mas ainda recebemos por um galão de leite o mesmo que recebíamos há 20 anos. Como lucrar com uma margem de lucro ain­da mais estreita? Temos de adotar novas tecnologias, o que exige capital, e temos de continuar nos educando para aplicar esta tecnologia às nossas circunstâncias. Precisamos abandonar os velhos métodos.

"Por exemplo, este ano gastamos um capital considerável para cons­truir um salão de ordenha computadorizado para 200 vacas. Com coleta automática de estrume e uma cerca móvel para empurrar as vacas para uma máquina de ordenhar, através da qual são movidas automaticamen­te. Cada vaca é reconhecida pelo computador, ordenhada por um compu­tador em sua baia, e a condutividade de seu leite é medida imediatamente para detectar previamente qualquer contaminação. A vaca é pesada após cada ordenha para acompanhar a sua saúde e necessidades nutricionais, e o critério de escolha do computador permite que agrupemos vacas em diferentes cercados. Atualmente, nossa fazenda serve como modelo para o resto do estado de Montana. Outros fazendeiros estão de olho em nós para saber se isso vai funcionar.

"Nós mesmos temos dúvidas se isso de fato vai funcionar, devido a dois fatores de risco que fogem ao nosso controle. Mas se temos alguma esperança de continuarmos com a fazenda, temos de fazer essa modernização, ou não teremos alternativa além de nos tornarmos especuladores imobi­liários: aqui, ou se cria gado ou se constroem casas. Um dos dois riscos so­bre os quais não temos controle são as flutuações do preço de serviços e equipamento agrícola que temos de comprar, e do preço de nosso leite. Os produtores não têm controle sobre o preço do leite. Nosso leite é perecí­vel; uma vez que a vaca é ordenhada, só temos dois dias para levar esse lei­te ao mercado, de modo que não temos poder de barganha. Vendemos o leite e os compradores nos dizem o preço que vão pagar.

"Outro risco além de nosso controle são as preocupações ambientais do público, que inclui o modo como tratamos os animais, seus dejetos e o odor associado. Tentamos controlar estes impactos o melhor que podemos, mas nossos esforços não agradam a todos. Os que vêm de fora, vêm para Bitterroot por causa da paisagem. A princípio, gostam de ver as vacas e campos de feno à distância, mas às vezes não compreendem tudo o que as operações de uma fazenda acarretam, especialmente uma fazenda de produção de leite. Em outras áreas onde coexistem a atividade leiteira e o loteamento, as objeções do público estão associadas ao odor, ao som do equipamento funcionando muito tarde da noite e tráfego de caminhões em 'nossa tranqüila estrada rural', entre outras coisas. Chegamos a ouvir uma queixa de uma vizinha que sujou os tênis brancos de corrida com es­terco de vaca. Uma de nossas preocupações é a de que gente pouco simpá­tica à criação de animais possa propor iniciativas para banir ou restringir a produção de leite em nossa área. Há dois anos, uma iniciativa para banir a caça de animais selvagens em fazendas levou uma fazenda de alces de Bitterroot à falência. Nunca pensamos que isso fosse acontecer, e só nos resta pensar que há uma possibilidade disso ocorrer conosco se não tomarmos cuidado. Em uma sociedade baseada na tolerância, é incrível quão in­tolerantes são algumas pessoas em relação à criação de animais e no que implica a produção de alimentos”.
A última dessas quatro histórias de vida que citarei é a de John Cook, o instrutor de pesca de paciência infinita que iniciou os meus filhos, en­tão com 10 anos de idade, à pesca e os tem guiado pelo rio Bitterroot nos últimos sete verões: "Cresci em um pomar de maçãs no vale Wenatchee, em Washington. Quando terminei o ensino médio, passei por uma fase hippie e decidi ir de motocicleta até a Índia. Só consegui chegar à Costa Leste dos EUA, mas àquela altura havia viajado por todo o país. Após conhecer minha esposa, Pat, nos mudamos para a península Olympic, em Washington, e então para a ilha Kodiak, no Alasca, onde trabalhei durante 16 anos como guarda encarregado da vida selvagem e da pesca. Então nos mudamos para Portland, para que Pat pudesse cuidar de seus avós adoentados. A avó morreu logo e, uma semana depois da morte do avô, saímos de Portland e viemos para Montana.

"Visitei Montana pela primeira vez nos anos 1970, quando o pai de Pat trabalhava em Idaho, junto à fronteira de Montana, organizando expedições à região selvagem de Selway-Bitterroot. Pat e eu costumávamos trabalhar para ele em regime de meio expediente, com Pat cozinhando e eu servindo de guia. Já então, Pat adorava o rio Bitterroot e queria viver ali, mas a terra lá já custava mil dólares o acre, muito caro para pagar o custo de uma hipoteca com uma fazenda. Então, em 1994, quando es­távamos querendo ir embora de Portland, surgiu a oportunidade de com­prar uma fazenda de 10 acres junto ao rio Bitterroot a um preço que po­díamos pagar. A casa precisava de reparos, de modo que passamos alguns anos consertando-a, e eu tirei licença para organizar expedições e ser ins­trutor de pesca.

"Só existem dois lugares no mundo com os quais sinto um profundo vínculo espiritual: um deles é na costa do Oregon, o outro é aqui, no vale Bitterroot. Quando compramos esta fazenda, pensamos nela como uma 'propriedade onde morrer', ou seja, a casa onde pretendíamos viver o resto de nossas vidas. Bem aqui, em nossa propriedade, temos corujas, faisões, codornas, patos selvagens e um pasto grande o bastante para nossos dois cavalos.

"As pessoas podem nascer em um certo tempo com o qual se identi­ficam, e podem não desejar viver em outro tempo. Adoramos este vale como era há 30 anos. Desde então, o lugar foi se enchendo de gente. Não vou querer viver aqui se o vale se tornar um shopping-center, com um milhão de pessoas morando entre Missoula e Darby. A vista de espaço aberto é importante para mim. A terra diante de minha casa, do outro lado da estrada, é uma velha fazenda de três quilômetros de comprimento e 800 metros de largura, que consiste inteiramente em pastos, com um par de estábulos como únicas edificações. Pertence a um cantor de rock e ator de outro estado, chamado Huey Lewis, que vem aqui apenas um mês por ano para caçar e pescar, e durante o resto do ano tem um encarregado para cuidar das vacas, dos pastos, e alugar um pouco da terra aos fazendeiros. Se a terra de Huey Lewis do outro lado da estrada for dividida em lotes, não conseguirei olhar para aquilo todos os dias e me mudarei daqui.

"Sempre pensei em como gostaria de morrer. Meu pai morreu recentemente, uma morte lenta de doença pulmonar. Perdeu o controle de sua vida, e seu último ano foi muito doloroso. Não quero morrer assim. Pode parecer muita frieza, mas eis a minha fantasia de como gostaria de mor­rer, se pudesse. Pat morreria antes de mim. Isso porque, quando nos casa­mos, prometi amá-la, honrá-la e tomar conta dela, e se ela morresse pri­meiro, saberia ter cumprido a promessa. Também não tenho seguro de vida para que ela pudesse se sustentar, portanto seria difícil se ela sobrevivesse a mim. Após a morte de Pat - continua minha fantasia - faria uma casa para meu filho Cody, e iria pescar todos os dias até não ter condições físicas de fazê-lo. Quando não mais pudesse pescar, pegaria uma grande quantidade de morfina e entraria na floresta. Escolheria algum lugar re­moto onde ninguém encontrasse o meu corpo, e no qual tivesse uma bela vista. Me deitaria voltado para essa vista... e tomaria a minha morfina. Se­ria o melhor jeito de morrer: do modo que escolhi, com a última visão sendo uma vista de Montana como quero me lembrar daqui."
Em resumo, a história de vida desses quatro habitantes de Montana, e meus próprios comentários que as precederam, ilustram que o povo deste estado difere entre si em valores e objetivos. Querem mais ou menos crescimento populacional, mais ou menos regulamentação governamental, mais ou menos loteamentos e subdivisão de terras de cultivo, mais ou menos retenção de uso de terra para a agricultura, mais ou menos mineração, e mais ou menos turismo ao ar livre. Alguns desses objetivos obvia­mente são incompatíveis com os outros.

Já vimos anteriormente como Montana está experimentando proble­mas ambientais que se traduzem em problemas econômicos. A aplicação desses diferentes valores e objetivos que acabamos de ver, ilustrados resul­taria em diferentes abordagens a esses problemas ambientais, supostamente associadas com diferentes probabilidades de serem bem ou mal suce­didas na tentativa de solucioná-los. No momento, há amplas e honestas di­ferenças de opinião quanto às melhores abordagens. Não sabemos qual destas abordagens os habitantes de Montana acabarão escolhendo, e não sabemos se os problemas ambientais e econômicos de Montana vão me­lhorar ou piorar.

Inicialmente pode ter parecido absurdo escolher Montana como objeto deste primeiro capítulo de um livro sobre colapsos sociais. Nem Montana em particular, nem os EUA em geral, correm risco iminente de colapso. Mas, por favor, reflitam que mais da metade da renda dos moradores de Montana não vem de seu trabalho em Montana. Em vez disso consiste em dinheiro que flui para Montana vindo de outros estados dos EUA: transferências do governo federal (previdência social, saúde e programas contra a pobreza) e fundos particulares de fora do estado (pensões de outros es­tados, ganhos com a venda de imóveis e renda comercial). Ou seja, a pró­pria economia de Montana já não consegue sustentar o modo de vida de Montana, que é sustentado por e dependente do resto dos EUA. Se Mon­tana fosse uma ilha isolada, como a ilha de Páscoa, no oceano Pacífico em tempos polinésios, antes da chegada dos europeus, sua atual economia de Primeiro Mundo já teria entrado em colapso, na verdade o estado nem te­ria desenvolvido esta economia.

Então, pense que os problemas ambientais de Montana que viemos discutindo, embora sejam sérios, são muito menos graves do que aqueles que encontramos nos demais estados dos EUA, que possuem populações mui­to mais densas e com muito maior impacto humano, e em sua maior par­te são ambientalmente mais frágeis que Montana. Por sua vez, os EUA de­pendem de recursos essenciais e estão econômica, política e militarmente envolvidos com outras partes do mundo, algumas das quais têm proble­mas ambientais ainda mais graves e estão em declínio muito mais acen­tuado do que os EUA.

No restante deste livro, consideraremos problemas ambientais semelhantes aos de Montana, em várias sociedades, antigas e modernas. Das sociedades do passado que discutirei, a metade não tem escrita e conhece­mos bem menos sobre os valores e objetivos de seus indivíduos do que sa­bemos sobre Montana. Quanto às sociedades modernas, há informações sobre seus valores e objetivos, mas tenho mais experiência deles em Mon­tana do que em qualquer outra parte do mundo moderno. Portanto, ao ler este livro e considerar problemas ambientais expostos em termos tão impessoais, por favor, pense nos problemas dessas outras sociedades como vistos por indivíduos como Stan Falkow, Rick Laible, Chip Pigman, Tim Huls, John Cook e os irmãos e irmãs Hirschy. Ao discutirmos a sociedade aparentemente homogênea da ilha de Páscoa no próximo capítulo, imagi­ne um chefe, um agricultor, um entalhado r de pedras e um caçador de gol­finhos, cada um contando a sua história de vida particular, seus valores e objetivos, exatamente como meus amigos de Montana fizeram comigo.



  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   29


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal