Jardim do diabo



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CAPA, CONTRA-CAPA E ORELHAS DO LIVROS


Primeiro romance escrito por Luis Fernando Verissimo, O Jardim do Diabo foi publicado em 1988 e é obra cultuada por seus leitores. Inteiramente revisto pelo autor, este thriller bem-humorado e inteligente volta em nova edição, atendendo à expectativa dos seus muitos fãs. Uma mulher é encontrada esfaqueada em seu quarto - na parede, escritas com sangue da vítima, palavras em grego. É isso que o inspetor Macieira conta a Estevão, um escritor de histórias policiais, sempre assinadas com um pseudônimo americano. O inspetor Macieira vai atrás de Estevão por um detalhe — a cena do crime é exatamente igual à descrita por ele em seu último romance. O assassinato, no entanto, ocorreu antes de o livro ser lançado. A partir dessa visita, os dias monótonos de Estevão começam a ser invadidos por seus personagens. Vida e ficção passam então a disputar um jogo fascinante de que o leitor é a grande testemunha.

Estevão é o tipo de escritor de sucesso que ninguém conhece. Publica um livro por mês e, ainda assim, não freqüenta a lista dos best-sellers. Ele escreve livros de bolso — aquelas brochuras mal impressas em papel barato, vendidas em bancas de jornal. A cada nova história, um novo nome aparece na capa. É assim que funciona: um pseudônimo diferente a cada livro, todos nomes americanos. Suas histórias — uma mistura bem dosada de paixões avassaladoras, crimes misteriosos, paisagens exóticas — seguem uma fórmula: a grande trepada por volta da página 40, o encontro final com o vilão e o desenlace, a partir da 90. Seu herói é Conrad - isso não muda, ele sempre se chama Conrad.

Estevão é um homem de poucos anseios e nenhuma esperança. Sua vida segue uma insossa rotina, bem diferente daquela que cria para seus personagens. Passa os dias batendo na velha máquina e tentando não prestar atenção ao desfile de desgraças que o rádio da empregada lhe serve toda manhã. No seu diminuto mundo, há ainda Lília, uma moça que vem duas vezes por semana para a faxina, mas sempre acaba em sua cama. Essa é a vida de Estevão até o dia em que o inspetor Macieira bate à sua porta. Uma mulher foi assassinada e, estranhamente, a cena do crime repete exatamente algo descrito no último livro de Estevão. A partir de então, vida e obra de Estevão perdem os limites. Ele se torna personagem de seus próprios enredos.

Ele é um dos autores mais queridos e respeitados da atualidade. Com seu humor fino e inteligente, Verissimo está sempre conquistando novos leitores.

O Jardim do Diabo é o primeiro romance do autor e também a primeira narrativa longa de ficção publicada na Série Ver!ssimo.

Toda sua obra — revista e atualizada — está sendo reeditada pela Objetiva. Na série Ver!ssimo, já foram lançados: As Mentiras que os Homens Contam, Comédias para se Ler na Escola, A Mesa Voadora, Sexo na Cabeça, Todas as Histórias do Analista de Bagé, Banquete com os Deuses, O Melhor das Comédias da Vida Privada.

LUÍS FERNANDO
VER!SSIMO
O Jardim do Diabo
Romance

Embora vigies, a morte conspira nas entrelinhas.

Alcides Buss, Segunda Pessoa

1
Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pou­co significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça. Escrevo um livro por mês, com vários pseudônimos americanos, embora meu herói — não sei se você notou — sempre se chame Conrad. Conrad James. Herman Conrad. Um ex-marinheiro de poucas palavras. Um peixe pequeno, mas mais de uma cidade foi salva da catástrofe pela sua ação decisiva entre as páginas 90 e 95. Tenho uma fórmula: a grande trepada por volta da página 40, o encontro final com o vilão, e o desenlace, a partir da página 90. Sobrevivo. Nunca mais vi o mar. Pensando bem, não saí mais de casa desde o meu acidente. Perdi o pé. Não quero falar disso. Tem uma mulher, Maria, claro, que vem cozinhar pra mim e sempre chega com notícias da decomposição da sua família. "Minha mãe tá com a urina preta", justo quando eu estou tomando café. Tem uma moça que vem duas vezes por semana fazer a faxina mas sempre acaba na minha cama. Há dois anos que ela vem, Lília, Lília e ainda não espanou um livro. É assim que eu vivo. Exile and cunnilingus. Mas não era isso que eu queria contar.


O RÁDIO. O dia inteiro, o rádio.

— Abaixa o rádio, dona Maria!

Ela não ouve. Não pode ouvir, com o rádio nessa altura. É um programa de auditório que parece durar o dia inteiro. Um homem ouve histórias. Histórias de privação e desespero. Pais à procura de filhos per­didos. Barracos incendiados. Dramas conjugais. Membros amputados. O homem que conduz o programa dá conselhos e pede ajuda. Diz que Deus não abandona as suas criaturas. O auditório aplaude. Dona Maria não me ouve.

— Abaixa o rádio, dona Maria!

— Como é o seu nome? Diga o seu nome.

— Glória.

— E qual é o seu problema, dona Glória?

— É meu filho, o Zarolho.

— Ele não tem um olho. O seu filho precisa de um olho.

— Mas não era isso que eu queria contar.

— Fala, dona Glória. Atenção, auditório.

— Ele e o pai vivem brigando. Ele é maconheiro.

— O Zarolho ou o pai?

— O Zarolho.

— E o seu marido briga com o Zarolho porque ele é maconheiro, é isso, dona Glória?

— Meu marido, o Candó, quer matar o Zarolho. Disse que se ele aparecer em casa, mata ele com um facão. O Zarolho é bandido, mas é do nosso sangue.

— Seu marido está ouvindo o programa, dona Glória?

— Tá.


— E como é o nome dele?

— Candó.


— Olha aí, seu Candó. Filho é filho. Não mate o seu filho, seu Candó. Talvez ele seja assim porque não teve o amor que precisava na infância, não é, auditório? Tente ajudá-lo. O Zarolho já tem ficha na polícia, dona Maria?

— Tem.


— Manda ele vir aqui falar comigo.

— Obrigada.

— Abaixa o rádio, dona Maria!
A PRIMEIRA VEZ que vi o mar foi numa gravura, num livro da biblioteca do meu pai. Uma gravura escura, o mar negro e revolto, grandes nuvens cinzentas em cima, um veleiro indefeso sobre o dorso de uma onda gigantesca, condenado ao abismo. Eu ainda não sabia ler. Depois vi o mar, vejo-o em fotografias e filmes coloridos, mas sempre que penso no mar é nessa gravura sombria, e na minha imaginação o seu cheiro é o cheiro de livro velho. O livro ainda deve estar por aqui. Fiquei com todos. Moro num pequeno apartamento, sala, quarto e cozinha num prédio barulhento e úmido. Os livros estão empilhados pelo quarto e pela sala, cobertos de mofo e poeira. Ninguém limpa. A Lília levanta a poeira quando passa da porta para o quarto e do quarto para a porta, duas vezes por semana. A sujeira só migra. A dona Maria não entra na sala. Chega de manhã, dá a última notícia de casa ("Minha irmã tá com escarro verde", e eu desisto do iogurte) e vai direto para a cozinha ligar o rádio. Eu já tive a grande fome de entender tudo, entende? De olhar bem no olho injetado do mundo e me entender também, mas só o que ficou disso foi um certo enfado literário e um cérebro entulhado. Às vezes tenho a impressão de que quando sacudo a cabeça posso ouvir a quinquilharia solta Iá dentro. Evito sacudir a cabeça. Me movimento pouco. A editora manda buscar os livros quando ficam prontos. O últi­mo a sair tinha sido Ritual Macabro. Um ex-marinheiro, Conrad James, chega a uma cidade aterrorizada por um assassino que todos conhecem como "O Grego". Conrad alcança o Grego mas, pela primeira vez era meus livros, o vilão não morre. O Grego foge. Fica a sugestão de que ele voltará num próximo livro. Era este livro que eu estava escrevendo quando a campainha da porta tocou. Era isto que eu queria contar. Eu estava chegando à grande trepada da página 40 quando a campainha tocou.

Dona Maria, a porta!

Dona Maria não ouviu. Para sair da minha cadeira preciso colo­car a máquina de escrever que fica no meu colo sobre uma mesinha, pegar minha muleta, levantar da cadeira, a água salgada fazendo slosh-slosh Iá dentro — "Dona Maria, a porta!" —, atravessar a sala lentamen­te cuidando para não derrubar nenhuma pilha empoeirada de livros...

— Dona Maria, abaixa esse rádio!

Era um homem que se apresentou como inspetor Macieira, "como o conhaque". Mandei-o entrar. Ele mancava. Era ruim da outra perna, o que devia ter me advertido de alguma coisa. Pedi para ele sen­tar, mas ele preferiu esperar que eu sentasse primeiro. Disse:

— O senhor é Stephen Eliot!

Respondi que bem, hm, ahn, mas ele continuou, dizendo que era meu leitor constante e admirador. Uma mentira, já que eu só usara aquele pseudônimo no último livro. Disse que tinha grande prazer em me conhecer.

— Então sente — disse eu, como se só meus admiradores pu­dessem sentar, na minha casa.

— Desculpe a indiscrição... — começou ele, apontando para a minha perna.

— Não quero falar disso.

— Desculpe. É que eu também perdi um pé, mas fiz uma prótese e hoje me movimento normalmente. O senhor não...

— Dona Maria, abaixa esse rádio!

O grito o assustou e ele, prudentemente, aproveitou a interrup­ção para mudar de assunto. Era um homem da minha idade, pequeno, magro, bem-vestido e tinha os olhos saltados, como se o colarinho aper­tado os tivesse empurrado para fora das órbitas.

— Como disse — continuou —, sou seu leitor atento.

— Pensei que ninguém lesse meus livros — disse eu, mentindo também. Sabia que eles vendiam razoavelmente bem, e regularmente, nas bancas. Vivia deles. Perguntei de qual ele gostara mais. Ele hesitou, depois respondeu:

— Do último.

— Fúria Assassina? — perguntei, para testá-lo.

— Ritual Macabro.

O filho-da-puta me lia mesmo. Ele continuou:

— Aliás, é sobre esse livro que quero conversar com o senhor. Me deram seu endereço na editora.

— Pois não.

— Antes de mais nada, gostaria de perguntar... De onde o se­nhor tira suas idéias?

Pensei em sacudir a cabeça, para que ele ouvisse a quinquilharia solta. Respondi que tirava minhas idéias da minha cabeça. Ele fez "Hmm", como se a resposta o desagradasse. Talvez esperasse que eu dissesse que tinha um fornecedor. Um contrabandista de idéias. De confiança. Idéias legítimas. Se quiser, eu lhe apresento.

— A figura do Grego é pura imaginação? Hesitei. Era? Era.

— É.

— Não é baseado em ninguém? Alguém que o senhor conhe­ceu? Alguém de quem o senhor ouviu falar?



— Não.

— Tem certeza?

— Por quê?

— Porque, senhor Eliot, existem algumas, como direi, coinci­dências engraçadas. Perdão, engraçadas não. Trágicas, na verdade.

— Que coincidências?

— O senhor não leu no jornal sobre a morte daquela mulher, no Jardim Paraíso? Mês passado?

— Não leio jornais.

— Ela foi esfaqueada várias vezes. A cama ficou ensopada de sangue. Ainda não sabemos quem é o assassino. Ou a assassina. Ou os assassinos.

— E daí?

Olhei, ostensivamente, para a máquina de escrever, onde eu deixara Conrad, no meio de uma linha, introduzindo a sua mão bronzea­da pelo sol e o sal de muitos mares na blusa de Linda, seus dedos bus­cando o bico daquele seio que durante toda a tarde o desafiara através do tecido fino da blusa e que agora ia ver o que era bom. Eu preciso traba­lhar, inspetor!

— Tem uma coisa que a imprensa não deu porque os repórteres não ficaram sabendo. O assassino — ou a assassina, ou os assassinos — usou o sangue da vítima para escrever coisas na parede. Coisas... em grego, Sr. Eliot.

Ele ficou me olhando, esperando uma reação. Esperou em vão. Continuou:

— O assassino agiu exatamente como o assassino do seu livro. O Grego.

— E eu com isso?

— Bem, eu...

— Não me responsabilizo pelo que os meus leitores fazem!

— Não era um leitor imitando o livro.

— Por que não?

— Porque o livro saiu depois do crime.

Agora era a minha vez de perguntar se ele tinha certeza. Tinha.

— Na editora, muitas pessoas lêem o livro antes de ser publica­do — insisti. — Pode ter sido um revisor. Os revisores são capazes de tudo. Talvez uma vingança, pela minha colocação dos pronomes.

Ele sorriu tristemente. Eu o estava decepcionando. Abri os braços.

— Então é uma coincidência.

— Claro que é uma coincidência. Mas o senhor...

— Não me chame de senhor — disse eu. Era uma advertência.

— Você há de convir que eu precisava investigar esta coincidên­cia. Nós, da polícia, desconfiamos das coincidências.

— Nós, os escritores, não podemos viver sem elas.

— O fato de nós dois não termos um pé, por exemplo...

— Não quero falar disso.

— Claro, claro. Não há possibilidade de o senhor, de você, ter ouvido alguma conversa, algum comentário sobre o crime, e ter usado ele, inconscientemente, como inspiração para...

— Quando foi o crime?

— Mês passado. Dia 12.

— O livro já estava na editora.

Ele levantou as mãos na frente do peito antes de bater com elas levemente nas coxas, querendo dizer que isto encerrava a questão. Olhou em volta e comentou a quantidade de livros empilhados. Eu disse que a maioria era do meu pai. Ele disse que infelizmente não tinha tempo para ler.

— Só leio porcaria. Então se deu conta.

— Epa. Desculpe.

— O que é isso? Tudo bem.

— Eu não quis dizer porcaria. Quis dizer livros de leitura rápi­da. Que se vendem em banca.

— Porcaria. Tudo bem. Histórias de quinta categoria.

— Não. Os seus são muito bons.

— O que é isso? Eu uso pseudônimos diferentes. Como você sabe que são todos meus?

— Pelo estilo. E o herói. Sempre é um ex-marinheiro.

— E se chama Conrad.

— Isso eu não tinha notado. Por que Conrad?

— Dona Maria, o rádio!

— Curioso, autores diferentes, mas sempre o mesmo herói.

— E a mesma história.

— O senhor está escrevendo um agora? Você.

— A continuação do Ritual Macabro. Já estou na metade.

— Não me diga! O Grego também está nesse?

Deixa eu ver se me lembro. Já faz algum tempo, este primeiro encontro. Entardecia. Era primavera? Era primavera. Eu não gostava de interrupções no meu exílio, mas de alguma maneira aquele homem me interessava, com seus olhos saltados e suas coincidências e o seu pé pos­tiço, sob a luz esmaecida que entrava pela janela. Não sei se foi naquela primeira vez que ele me contou que seu pé era de cabrito. De cabrito! Ele perguntou se o Grego também estava no novo livro e eu respondi que estava.

— E o que ele anda aprontando?

— Bom. Depois da cena final de Ritual Macabro, Conrad passa alguns meses num hospital. Quando começa o novo livro, ele está pron­to para sair do hospital. Recebe a visita de uma mulher, linda, linda, chamada Linda. Ela traz um envelope com dinheiro, dez mil dólares, e um bilhete. O bilhete é do Grego e diz apenas: "Não desista. " Quando ele vai perguntar para a mulher o que significa aquilo, descobre que a mulher não está mais ali. Ninguém sabe quem é ela ou de onde ela veio. Ele sai do hospital. Sente uma grande nostalgia do mar. Usa parte dos dez mil dólares para pagar alguns estragos que andou fazendo na cidade na caça ao Grego.

— Eu me lembro.

— Procura o inspetor Hennessy, da Interpol. Seu melhor ami­go. Um irmão mais velho.

— Hennessy, claro. Como o conhaque.

— Diz a Hennessy que vai tirar umas férias. Que está enojado de tudo. Que se um monstro como o Grego pode escapar da justiça, então a justiça não significa mais nada. Diz que, face a face com o Grego, olhou no olho injetado do Mal e sentiu uma vertigem, sentiu que aquele monstro poderia carregá-lo para o fundo, e por isso recuou, e pela primeira vez na sua vida não confiou nas suas forças.

— Não parece o velho Conrad falando.

— Neste livro ele está mudado. Se sente velho, sujo, diz que quer voltar para o mar para se reencontrar. Sentir o sol e o sal na sua pele. O cheiro de livro velho. O mar de Ulisses, o mar de Sinbad e de Nemo...

— De Camões.

— Quem?

— Camões. Os portugueses. Grandes navegadores.



— Ah. É. Conrad compra passagem para um cruzeiro de luxo. Ele está profundamente abalado pela sua experiência em Ritual Macabro. A figura do Grego o perturba de uma maneira inexplicável. Não apenas porque foi o primeiro vilão que ele não justiçou antes da página 95, o primeiro que o fez recuar. Mas porque ele sentiu que, no Grego, tinha tocado em alguma coisa mais profunda e obscura do que uma vocação criminosa ou uma patologia ou apenas um tipo literário.

Senti um certo desconforto no inspetor, que obviamente tam­bém não queria ser carregado para o fundo. Preferia histórias simples. Crime e castigo. Nada que não fosse resolvido na última página, sem deixar fiapos ou dúvidas ou, acima de tudo, perturbações filosóficas. Porcaria. Mas eu há anos não falava tanto com alguém. Estava entusias­mado com a minha própria voz. Há quanto tempo!

— Entende? Aqueles crimes ritualizados. Sem motivos, mas ao mesmo tempo obedecendo a um padrão, a uma lógica terrível, a uma compulsão antiga e reincidente e... e... Entende?

O inspetor olhou o relógio antes de responder:

— Sim.

— Conrad sente que está envelhecendo, e pela primeira vez na vida pensa nos seus próprios motivos. Pensa na morte. Ele que já enfrentou a morte centenas de vezes só nos meus livros, pela primeira vez pensa seriamente no seu fim.



Está escurecendo. O inspetor coloca um pé sobre o joelho da outra perna. É o pé ruim. O sapato é menor do que o do outro pé. Não me lembro se eu já sabia que aquele pé era de cabrito. Não me lembro de detalhes. Não estou reproduzindo o diálogo daquele primeiro en­contro com exatidão, claro. Muita coisa é invenção. O inspetor estava claramente impaciente. Mas eu continuei.

— No mesmo navio viaja um traficante internacional de armas chamado Mabrik. Viaja com a sua mulher, uma dinamarquesa loira e esguia que, na primeira vez que olha para Conrad, estende a língua, como um réptil roxo, e toca com a ponta da língua na ponta do próprio nariz.

— Epa — comentou o inspetor, seu interesse reaceso.

— Pois é — concordei. — Sempre que os olhos de Conrad e da loira se encontram, ela o chama com o mesmo truque, usando a língua como um dedo. O jogo é livre no navio e Mabrik é um jogador obsessi­vo. Perde e ganha milhares de dólares a cada noite. A loira não o acom­panha na sala de jogos. Fica no bar, controlada pela mãe de Mabrik, uma velha de bigode que só usa preto e está sempre cochilando. Se fosse outra história, Conrad não perderia tempo em decidir entre os dois de­safios: tirar alguns dólares, ganhos com o sofrimento humano, de Mabrik, o mercador da morte, no jogo, ou aceitar o convite para experimentar a língua da loira quase descendo pela sua garganta ou enroscando-se, como uma serpente roxa, no seu pau. Mas Conrad não é mais o mesmo.

O inspetor desanimou de novo. Na hora eu pensei que ele tal­vez nem fosse um inspetor, que tivesse inventado toda aquela história para me descobrir, penetrar no meu exílio e cobrar o final inconclusivo de Ritual Macabro. Apenas um leitor insatisfeito. Agora era claramente um ouvinte insatisfeito.

— Conrad tinha voltado ao mar para se reencontrar, como al­guém que volta à sua fonte para se regenerar, mas tinha acontecido o contrário. O mar, o mar dos vikings e dos piratas, de Drake, de Sabatinni...

— De Vasco da Gama — sugeriu o inspetor, curvando-se para olhar o relógio, pois escurecia rapidamente.

— O mar tivera outro efeito era Conrad. Agora era outro mis­tério o que antes tinha a familiaridade reconfortadora de um berço. O mar era mais uma manifestação daquela angústia sem nome que ele sentia, daquele horror opressivo que nem ele nem o autor conseguem transformar em palavras. O mar não o consola mais, antes aumenta o seu horror, a sua impressão de um desígnio maligno por trás de tudo, dos homens e da natureza. Era isso que eu queria contar. O Grego fizera aquilo, desencadeara aquele horror no peito de Conrad, com seus cri­mes ritualizados. Em nenhuma das suas outras aventuras Conrad en­frentara um criminoso como o Grego, e no entanto o Grego só era dife­rente dos outros vilões porque seus crimes não eram injúrias para Conrad vingar, pústulas passageiras para Conrad cauterizar antes de seguir para outra cidade e outra história, mas uma linguagem, um subtexto. Todas as histórias de Conrad eram sempre a mesma história e agora ele e o autor descobrem que outra história estava sendo contada por baixo da história deles, uma história reincidente também, como num ritual. As palavras que o Grego escreve nas paredes, em grego, com o sangue das suas vítimas, são como trechos vislumbrados dessa outra história, frag­mentos de revelação. Conrad descobre que, todo este tempo, desde a sua primeira aventura, esteve participando do ritual sem saber. Entende?

O inspetor ergueu-se da cadeira. Ele não viera ali para ouvir aquilo. Subtextos não se compram em bancas. Disse que, infelizmente, precisava ir, que agradecia a minha gentileza mas... Eu o derive.

— Espere! Acontece uma coisa estranha. Uma noite Conrad sai para o convés. Talvez tentando, pela última vez, desesperado, uma reconciliação com o mar e com a sua antiga pureza. O convés está vazio. E então acontece uma coisa estranha. O navio entra numa zona absoluta­mente silenciosa. Não se ouve nada. Nem vento, nem o ruído do mar, nem o ruído surdo, mais pressentido do que sentido, como um subtexto, das máquinas do navio. Silêncio completo.

E então aconteceu uma coisa estranha. O inspetor e eu parecía­mos ter entrado também numa zona de silêncio absoluto. Olhamos um para o outro, espantados. Levamos algum tempo para nos darmos conta de que dona Maria havia desligado o rádio. Ela apareceu na porta da cozinha e levou um susto quando viu o inspetor. Não tinha ouvido ele entrar. Nem ouvira a nossa conversa, com o rádio naquele volume. E era a primeira vez em muitos anos que via alguém comigo na sala. Depois disse, do mesmo jeito soturno com que diz tudo:

— Rá. O gordo e o magro.

— O que é, dona Maria?

— Já vou indo. O jantar está na geladeira. A roupa passada está em cima da tábua.

— Muito obrigado, dona Maria.

Depois que ela saiu, o inspetor, que permanecia de pé, virou-se para mim, os olhos ainda mais saltados, e perguntou:

— E daí?

— O quê?


— Conrad. No convés.

— Silêncio absoluto. E então ele ouve uma voz feminina, can­tando. Chega a olhar pela amurada do navio, esperando ver uma sereia acenando para ele do dorso de uma onda. Mas o mar é uma planura cinzenta e espessa coberta por uma fosforescência irreal, sem sereias. E então ele vê, no convés, a poucos metros de distância, também debruça­da sobre a amurada, uma mulher. Ela está cantando. É Linda. A mulher que levou o envelope do Grego para ele no hospital.

— Outra coincidência.

— Em outra história, seria uma coincidência. Nesta, não é.

— Como?

— Está bem, é. Mas agora Conrad sabe que existe outro enredo, secreto, por trás deste, e não tem muita certeza de que quer ver como ele acaba. Em outra história ele não hesitaria em se aproximar de Linda, pois sabe que ela o levará ao Grego. Agora hesita.



— Não parece o velho Conrad.

— Não é o velho Conrad.

— Posso perguntar uma coisa?

— Por favor.

— O que era que o Grego escrevia, em grego, nas paredes, com o sangue das suas vítimas? No livro isso não fica claro.

— Claro que não fica claro. Eu nunca digo o que ele escreveu.

— Você não sabe?

— Dona Maria, abaixa o rádio!

O silêncio era absoluto. Ele sorriu. Depois ficou sério. Talvez estivesse tentando decidir se eu, além de perneta, era louco. Ou não. Disse:

— Posso fazer outra pergunta?

— Por favor.

— Por que você não me perguntou o que o assassino de verda­de escreveu com o sangue, na parede, no Jardim Paraíso?

Fiz um beiço e dei de ombros. Foi a única resposta que me ocor­reu. Depois perguntei o que o assassino de verdade tinha escrito com o sangue, na parede, no Jardim Paraíso.

— Estava quase tudo apagado. Sobraram só alguns traços, quase imperceptíveis. Foi por isso que os repórteres não viram.

— Apagado, como?

— Uma faxineira irresponsável. Foi ela que descobriu o corpo, e a primeira coisa que fez foi limpar tudo. Além de irresponsável, má faxi­neira, porque limpou mal.

— Ela não tem muita prática.

— Como é que você sabe?

— Eu conheço.

— Mas eu nem disse quem é.

— Ela não se chama Lília? Silêncio. Depois ele disse:

— Saiu o nome no jornal.

— Se saiu, eu não li. Nunca leio jornais.

— Então como é que você sabe?

— A coincidência era atraente demais para não acontecer.

O inspetor deu uma volta pela sala, lentamente, cuidando para não tocar nas pilhas de livros, pensativo. Perguntou se podia fumar, eu disse que sim, mas ele não pegou nenhum cigarro. Depois sentou de novo e me encarou. Sorriu, como que dizendo "O que é que nós vamos fazer com você?". Disse:

— Coincidências, coincidências. Eu não gosto de coincidências.

— Eu também estou começando a não gostar.

— Me diga uma coisa, Stephen.

— Estevão.

— Estevão. O Grego, nesse novo livro, pratica algum crime pa­recido com os do primeiro?

— Eu estou recém na metade. Conrad e Linda estão no cama­rote dela. Ele está introduzindo a sua mão queimada pelo sol e o sal de muitos mares sob a blusa de Linda.

— Então ele se aproximou dela, no convés.

— Sim, sim. Neste ponto já aconteceu muita coisa. Conrad decidiu enfrentar seu destino, apesar das premonições. E, mesmo, sou eu que decido o destino dele. Se ele não o enfrentasse não haveria livro, e eu já estou atrasado para terminar o livro. Conrad e Mabrik se encon­traram num jogo de pôquer que dura cinco ou seis páginas. Conrad limpou Mabrik. No fim Mabrik jogou o tesouro que lhe restava, a dina­marquesa loira e esguia, mas Conrad, que é um cavalheiro, recusou. Mesmo porque já tinha comido a loira dentro de um bote salva-vidas.

— Uma trepada de muitas páginas.

— Não. A grande trepada vem agora. A trepada com a loira eu cortei no momento em que sua grande língua se enrosca, como uma serpente roxa, no pau de Conrad.

— Como termina o jogo de pôquer?

— A mesa de jogo está rodeada por algumas das maiores figuras do mundo dos negócios, reunidas naquele cruzeiro milionário. Ameri­canos, donos de cadeias de lanchonetes que cobrem o globo como uma malha gordurosa. Nobres europeus arruinados escoltando viúvas ricas cujos rostos, misericordiosamente, mal são vistos por trás de camadas de maquiagem. Potentados árabes cora petróleo até no cabelo e suas imen­sas mulheres.

— Corruptos brasileiros.

— Nenhum brasileiro. Mabrik não pode ficar mal diante da comunidade internacional do dinheiro. Negocia armas de todos os cali­bres para todas as causas. Suspeita-se que consegue até armas químicas e tem fama de sempre cumprir seus compromissos. Em suma, é um patife honrado. Precisa de uma saída honrosa, senão perde o seu crédito. En­tão faz o seguinte. Abre uma carteira de couro marroquino e de dentro da sua última dobra pinça uma nota de dinheiro armênio que só uma tira suja de durex separa da ruína. Diz: "Esta nota não vale um peido. Nem a Armênia existe mais. Mas é a coisa mais valiosa que eu possuo. Foi o primeiro dinheiro ganho pelo meu pai, Mabul, que vendeu uma carabina aos turcos para usar contra o seu próprio povo, pois foi mais fiel a um negócio concreto do que a abstrações como pessoas e pátria, e até hoje é a luz que ilumina o meu caminho e o exemplo que guia os meus atos. Com esta nota eu pago a minha dívida. Se estivesse colocan­do o meu coração na mesa, não doeria tanto. " E Conrad fica num dile­ma. Não aceitar aquela nota malcheirosa significava menosprezar o ges­to generoso de Mabrik e afrontar as pessoas em volta, todas seguidoras da ética de Mabul. Aceitar a nota, e o valor que os outros dão à nota, significava aceitar uma cumplicidade com Mabrik e a sua linhagem assassina. Conrad então recusa a nota, dizendo que não poderia viver com a culpa de ter causado tanta dor a Mabrik, e diz que Mabrik fica lhe devendo um favor. "Um favor de que tamanho?", pergunta Mabrik. "Do tamanho do valor que você dá a essa nota malcheirosa", responde Conrad.

— Cacete!

— Obrigado.

— E o Grego ainda não apareceu na história.

— Ainda não.

— Mas vai aparecer.

— Claro.


— Você já tem alguma coisa planejada para ele? Algum crime?

— Tenho. Primeiro preciso escrever a cena da trepada. Sempre é a que dá mais trabalho. É difícil chegar a um equilíbrio certo entre a crueza que o leitor de porcaria espera e um certo, digamos assim, recato lírico. E pau, pau, mas não necessariamente boceta, boceta.

— Eu noto que você tem algum problema com vaginas.

— Pelo amor de Deus! Em O Homem Cinza eu descrevo a gran­de trepada do ponto de vista da boceta. É a boceta que conta a trepada, por assim dizer. O pessoal da editora até encrencou. Disse que o leitor comum não ia entender.

— Desse eu não me lembro.

— Depois da trepada, que sempre acaba com as mulheres per-didamente apaixonadas por Conrad, Linda resolve ceder e contar onde o Grego está. Mas Conrad não gosta do que ouve. O Grego está à pro­cura de Ann.

— Ann?

— E você ainda diz que é meu leitor atento.



— Ah. Ann. A namorada de Conrad.

— Sim, a doce Ann, a jovem médica que queria casar com Conrad, mas que ele rejeitou, porque não queria envolvê-la na sua vida perigosa e instável.

— O Grego alcança Ann?

— Alcança. Provavelmente Iá pela página 60.

— E mata?

Hesitei. Eu ainda não tinha decidido se Ann morria ou não. Mas não queria decepcionar o inspetor.

— Mata.

— Como?


— Ele se apresenta na casa de Ann. Diz que se chama Hennessy, como o conhaque. Ann já ouviu falar de Hennessy, Conrad lhe falou dele: "É como meu irmão mais velho. " Mas este Hennessy não é como Conrad o descreveu. "Desculpe, eu não quero ser indelicada", diz Ann, a doce Ann, "mas você tem uma identificação?" O Grego responde: "Não tenho, mas se você quiser posso descrever Conrad em detalhes. Somos grandes amigos, como você sabe. Ele tem uma cicatriz aqui, ou­tra aqui... " E o Grego passa a descrever todos os ferimentos que ele mesmo infligiu a Conrad, em Ritual Macabro. Ann recua, horrorizada. "Não, não, Conrad não tem essas cicatrizes. " "Tem agora", diz o Grego, sorrindo. "E eu também sei onde ele está, neste momento. Num navio de luxo, provavelmente na cama com uma mulher linda, linda, que ele pensa que seduziu, e que por isso lhe contará tudo sobre como me en­contrar, mas que na verdade tem ordens minhas para contar tudo. Em pouco tempo Conrad estará aqui, e outra mulher linda, linda lhe dirá onde me encontrar. " "Quem?", pergunta Ann, que agora está achatada contra a parede, pois o Grego segura uma faca contra o seu pescoço. "Você, minha querida", diz o Grego. "Não com suas próprias palavras. Com as minhas. Deixarei as direções para Conrad me encontrar grava­das no seu corpo. Ele precisará decifrá-las, claro, mas isso não será pro­blema para Conrad. " "Você é um louco!", grita Ann, a doce Ann, que nunca gritou com ninguém. "Não, não", diz o Grego. "Você não enten­deu. Eu não sou louco. Esta é outra história. Conrad entendeu isso, por isso eu o derrotei da última vez. O terrível é que eu não sou louco. " E com isso o Grego enfia a faca no pescoço de Ann, cuja última palavra, junto com uma golfada de sangue, é "Con... "...

O inspetor tinha feito uma careta quando o Grego enfiou a faca no pescoço de Ann. Perguntei:

— Você já matou alguém, inspetor?

— Já. Várias vezes. Quer dizer. Já matei várias pessoas. Você não sabe. Minha vida daria um livro...

— Dos meus?

— Não. — Ele sorriu. — Infelizmente, não.

— Matou... como policial?

Ele fez um gesto para rechaçar minha pergunta no ar e a substi­tuiu por outra.

— O que o Grego fez no corpo de Ann?

— Por enquanto, nada. Isso vem depois. Ainda estou na página 40. Conrad está introduzindo sua mão queimada pelo sol e o sal de muitos mares sob a blusa de Linda, que...

— Você não sabe o que ele vai fazer?

— Tenho uma idéia. Lá no fundo. Na parte do cérebro a que eu recorro para detalhes repugnantes. Não imagino como seja Iá atrás. Um jângal, não duvido. Cobras, areias movediças...

Eu estava sorrindo, se me lembro bem, mas o inspetor me olha­va como se eu tivesse dito alguma coisa incompreensível, grego para ele. Depois de um silêncio, perguntou:

— E o senhor? Você?

— Eu o quê?

— Já matou alguém?

— Várias pessoas. Nos meus livros. Na vida real, não.

— Você disse que conhece a faxineira.

— É a minha faxineira também. Vem aqui duas vezes por semana.

— Ela não lhe falou nada do crime do Jardim Paraíso?

— Nós mal nos falamos. Ela faz o trabalho dela e vai embora. O inspetor levantou-se.

— Ela é suspeita? — perguntei.

— Do crime? Não. Talvez cúmplice. Mas lavar a parede foi uma coisa tão estúpida que não é nem suspeita. Ela talvez quisesse proteger alguém. Não é uma moça burra.

— Nós mal nos falamos.

O inspetor despediu-se. Disse que eu não precisava acompa­nhá-lo até a porta. Tinha uma maneira estranhamente elegante de man­car, pisava no pé de cabrito com uma certa delicadeza, uma certa defe­rência. Que figura. Na porta, ele virou-se e disse:

— Ouvir você contar suas histórias é quase tão bom quanto ler seus livros!

— Venha quando quiser.

— Olhe que eu venho mesmo.

— Por favor.

Ele já estava saindo quando eu disse:

— Mais uma coisa.

— O quê?


— Você vai falar com a Lília de novo?

— Vou. Afinal, ela ser sua faxineira é um dado novo que pode significar alguma coisa. Não imagino o quê.

E arrematou:

— Odeio coincidências.

Ele ficou parado, sua figura recortada na porta pela luz do corre­dor, como que pressentindo que aquele diálogo ainda não terminara. Eu falei.

— Você também deve ter boas histórias para contar. A sua vida... E então ele disse uma coisa curiosa.

— É. Existe mais de uma maneira de perder o pé. E saiu.

2

À noite é pior. Comi meu jantar na mesa da cozinha, acompanha­do apenas dos cheiros e ruídos que sobem pelo poço do edifício, as emanações de um abismo de domesticidade. Pessoas falando ou cantan­do no banheiro. Televisões ligadas. Alguém batendo um bife. Mulheres e crianças trocando gritos entre áreas de serviço, a palavra "Riquinho!" reluzindo como uma moeda de prata no meio dos sons opacos que en­chem a minha cozinha, depois o choro de uma criança, possivelmente o riquinho. Não, era para um papagaio, que devolve o epíteto num tom irônico. Cheiro de alho frito. O garoto que passa o dia inteiro imitando a descarga aberta de um carro. Outro louco. Uma briga. Homem e mulher. "Pois experimenta! Quero só ver. Experimenta!" Uma gargalha­da, um pedaço de canção e — posso jurar — o cheiro evanescente de um tomate recém-cortado. Pago o apartamento com o que a editora me paga. Para o resto, meu irmão traz dinheiro uma vez por mês. O mais velho. Pergunta se está tudo bem, se preciso de alguma coisa, nem senta. Tenho que ir, tenho que ir, eu não paro quieto, até o mês que vem. Ele está mais gordo do que eu, está sempre com a camisa aberta na barriga, como se o umbigo fosse uma ferida sensível. Ele era o revolucionário, hoje administra as coisas da família, sua muito, não pára quieto. Foi ele que ficou com a mãe, depois do acidente. A influência da lua nos desti­nos humanos terá alguma coisa a ver com a água salgada nas nossas células? Às vezes tenho vontade de soltar o corpo nessa corrente de sons e cheiros que sobe do poço do edifício só para ver se subo com ela. Mas não era isso que eu queria contar.


Exoftálmico É quem tem os olhos saltados, como o inspetor. Como se chamará quem tem os olhos para dentro, como eu? São como duas ca­vernas, os olhos estão Iá no fundo, espiando tudo, nunca se expondo. Olho a cidade pela janela aberta da sala. Fico rodando pela sala, depois do jantar, slosh-slosh, apoiado na minha muleta, o rosto sempre virado para a janela, naquela noite como em todas as noites. Tinha uma nuvem sobre a cidade. Fumaça, poeira, uma nuvem que as luzes da cidade tor­navam fulgurante, de um amarelo acinzentado que parecia latejar. As luzes da sala estavam apagadas, como todas as noites. Não sei o que os vizinhos de baixo pensam deste animal que roda sobre suas cabeças de­pois do jantar, toc-toc, slosh-slosh, este estranho ser que não tem nem televisão. Toc-toc, como Ahab no convés do Pequod esperando que al­guma revelação assome à janela. Durmo na mesma cadeira em que es­crevo, só uso a cama quando a faxineira vem, e depois sou eu mesmo que arrumo a cama. Lília, Lília. O mais difícil é tomar banho, mas meu irmão mais velho mandou instalar ganchos nas paredes, fico sob o chu­veiro num pé só, agarrado nos ganchos, como no boxe de um navio que joga. Um ruído surdo, como um subtexto, entra pela janela da sala jun­to com um vento áspero que passa na pele como lixa. O tráfego da cidade, um borbulhar soturno no fundo da garganta que nunca pára. Por que Lília não me falou no crime do Jardim Paraíso? Nós mal nos falamos. Eu mal conheço o seu rosto. Conheço mais o topo da sua cabe­ça — ou então eu é que estou com a cara entre as suas pernas, o cheiro doce do perfume barato por cima do cheiro de livro velho. Não sei nem onde ela mora. O inspetor sabe. O inspetor conhece esta cidade conde­nada. Estas profundezas. Ele é uma das suas criaturas. Ele bate na porta da casa de Lília. Provavelmente um casebre numa vila. Meu Deus, Lília pode ter um marido, uma família. Não sei de nada. Preciso pesquisar melhor meus personagens. Uma vez li em algum lugar, ou inventei, que certa atriz, antes de fazer um papel, insistia em saber até o número do telefone da personagem. Quanto ela calça? Como foi a sua infância? Mas essa personagem só tem uma fala na peça, protestava o diretor. Ela só entra e diz que o café está servido. Ou é uma faxineira. Não interessa, diz a atriz, precisa saber a sua motivação. Qual é o seu signo? O pai, alguma vez, ameaçou matá-la com um facão? Gosta de miúdos? O ma­rido sabe que ela está na peça?

O inspetor bate na porta da casa de Lília.

— Lembra de mim? Inspetor Macieira, como o conhaque.
Nunca escrevo à noite. Leio, na cadeira, até dormir. Prefiro tomar banho de manhã, pois sempre acordo com a sensação de que estou emer­gindo de uma cloaca, com fiapos de sonho presos no corpo como dejetos. São sonhos confusos. Nunca lembro bem o que sonhei. Sei que nunca sonho com o acidente. Ou então esta é sempre a parte coerente dos sonhos, a que eu não lembro. Depois do banho fiz meu café. Chegou a dona Maria.

— Meu guri tá com remela dura.

Afastei o bacon. Estava muito seco mesmo. Fui para a sala e comecei a trabalhar. Dona Maria ligou o rádio.
Conrad introduziu sua mão bronzeada pelo sol e o sal de muitos ma­res sob a blusa de Linda. Seus dedos buscavam o bico daquele seio que durante todo o dia ele vislumbrara, como uma mancha escura, por bai­xo da blusa. Linda disse "Não!", mas ao mesmo tempo desfez mais um botão da blusa, facilitando o acesso. Conrad estava curioso para ver como eram os seios de Linda. Tinha uma teoria segundo a qual os mamilos diziam tudo sobre uma mulher. O tamanho dos mamilos, o formato, a cor. Os de Linda eram mais rosados do que ele esperava. As auréolas saltavam dos seios e os bicos enrijecidos saltavam das auréolas, como se as pontas fossem os seios dos seios. Sensualidade, altivez, e cedo ou tarde me cravará uma faca nas costas, diagnosticou Conrad. Enquanto sugava um dos mamilos, Conrad procurou com a mão o zíper do short. Linda disse "Não" outra vez, mais um gemido do que uma palavra, e levantou o corpo para que Conrad retirasse o short e depois a calcinha. Atenção, auditório. Na semana passada, vocês se lembram, esteve aqui a dona Valdecina, que fez um pedido realmente comovente. Ela queria cons­truir no matagal atrás da sua casa, no Jardim do Leste, uma capelinha, bem no local em que sua filhinha foi estuprada e assassinada há alguns anos. A Prefeitura não queria permitir. Pois bem. Oh, Conrad. Sim, sim! Linda estava soluçando de prazer. Conrad, enquanto trepava, man­tinha um distanciamento analítico. Isto não é fingimento, concluiu. Ela está gozando mesmo. O velho lobo-do-mar fisgou mais uma com seu anzol infalível. Sim, sim. Que importam a finitude humana e a perver­sidade do mundo se os justos comandam seus destinos? A questão não é se Deus existe ou não, a questão é se você vai brochar só por causa disso. A Prefeitura vai permitir que dona Valdecina construa a sua capela. E tem mais. Mais, mais, gemia Linda. Nós recebemos a primeira doação para a construção da capelinha e ouçam que coisa comovente, que coisa sensacional. Atenção, auditório. A primeira doação veio justamente do homem que estuprou e matou a filhinha da dona Valdecina! Dorival Marques, o Dori, hoje cumprindo pena na Penitenciária Estadual. Dona Valdecina, venha até aqui. Mais! Mais! Havia algo de desesperado no pedido de Linda, nas suas pernas entrelaçadas nas costas do velho lobo-do-mar, na sua voz.

— Onde está o Grego? — perguntou Conrad.

Ela parou. Sem descolar o rosto do rosto de Conrad, perguntou:

— O quê?


— O Grego. Onde ele está?

Ela deixou a cabeça cair no travesseiro. Olhou nos olhos de Conrad. Como nuvens passando num céu ventoso, o desejo deu lugar à surpresa e esta ao desapontamento nos seus grandes olhos azuis. Final­mente ficou apenas um azul triste e pálido, quatro horas de uma tarde de verão em Estocolmo.

— É por isto que nós estamos aqui?

— Não — disse Conrad. — Mas já que estamos tão íntimos, aproveitei para perguntar.

— Cachorro — disse Linda, tentando empurrá-lo de cima dela.

— Está feliz, dona Valdecina?

— Dona Maria, o rádio!

— Eu sei que você gostou — disse Conrad. — E quer mais. Pois estou propondo um negócio. O primeiro orgasmo foi de graça. Pelo segundo, você me dirá onde encontrar o Grego.

— Para ter outro orgasmo eu não preciso de você. Basta um vibrador.

— Mas um vibrador não tem o meu caráter.

— E a senhora vai perdoar o Dori, dona Valdecina?

— Isso nunca, né? Pode ser que algum dia. Mas por enquanto...

— Abaixa o rádio, dona Maria!

— Está bem — disse Linda. — Mas dois orgasmos é pouco. Quero quatro, um em cima do outro. Antes de irmos tomar um drinque no convés para ver o pôr do sol.

— Quatro orgasmos antes do pôr do sol... — suspirou Conrad. — Não sei. Preciso consultar as bases.

E Conrad soergueu o corpo para olhar seu pênis semi-enterrado entre as coxas de Linda. Linda sorriu. Mas seus olhos continuavam tristes.

— Pagamento adiantado — propôs Conrad.

— De jeito nenhum. Que garantia eu tenho que você vai conseguir?

— Que garantia eu tenho que você vai me dar a informação depois do quarto orgasmo?

— Nenhuma. E a minha informação pode ser falsa. Já um pau duro não pode ser falsificado.

— Nada feito — disse Conrad, e começou a levantar-se. Linda o prendeu dentro dela, recruzando as pernas nas suas costas.

— Espere. Proponho um meio-termo. Depois do terceiro or­gasmo, eu digo.

— A verdade?

— A verdade. Juro.

E Conrad começou a mexer lentamente, olhando nos olhos de Linda, vendo o azul dos seus olhos transformar-se gradualmente, tarde de verão em Estocolmo, manhã de primavera em Veneza, anoitecer de outono em Delfos, até os olhos se fecharem. Mais, mais.
Éramos sete irmãos. Como eu era o mais moço, sentava entre o pai e a mãe no nosso banco da igreja, os outros seis à direita da mãe. O perfume algo cítrico da mãe, o cheiro estranhamente metálico do pai. Nos almoços de domingo no casarão, ninguém saía da mesa depois de comer. Era "dia de conversar com o pai". Ele ficava fumando seu charuto, a cadeira posta num ângulo com a cabeceira da mesa, as pernas cruzadas. Quando estava irritado, só ele falava. Defendia alguma posição tomada durante a semana nas reuniões do laicado, ou criticava alguma posição da qual discordava, com veemência, mas sem perder o jeito magnífico de orde­nar as palavras para nós, seu público cativo. Fixávamos os olhos na pon­ta do charuto com que ele diagramava no ar a eloqüência bem arquite­tada das suas frases — linha, ponto, espiral, parábola, exclamação. Vez que outra ele pegava um guardanapo de cima da mesa e em seguida o jogava de volta, com o desdém que merecia um argumento rechaçado.

Ele vivia para a igreja. Nosso pai — disse uma vez meu irmão mais velho — não tinha fé, tinha febre. Ao meu lado no banco da igreja ele fechava os olhos e franzia a testa e, com a cabeça atirada para trás, parecia estar se esforçando para ouvir uma música longínqua, ou outra missa, só para ele. Fora da igreja a religião o agitava. Ficava vermelho, vociferava. Mas nunca a ponto de errar a colocação de uma oração subordinada. Não lembro o que dizia. Podia inventar, agora, mas mesmo agora, com esta máquina no colo, anos depois da sua morte, me pareceria uma afronta adaptar a sua eloqüência a estas pequenas ficções. Nem sei quem vai ler isto. Desconfio que, se acontecer o que temo, dona Maria ficará com tudo que é meu. E só levará o rádio. O rádio, dona Maria! Talvez algu­mas panelas e a muleta, para o caso de secar a perna de um parente. Mas fui eu que enfrentei o meu pai pela primeira vez. Fui o primeiro. Um erro meu numa conta elementar ficara famoso na família e sempre que se dirigia a mim ele dizia: "E o nosso gênio da matemática, o que tem a dizer?". Um dia, um domingo, tomado por não sei que demônio infan­til, respondi: "Gênio é a vó", e houve um arquejo coletivo na mesa, como se todos previssem o meu banimento da casa ou coisa pior. Mas ele deu uma gargalhada. Eu era o mais moço e era o favorito do meu pai. O único que freqüentava a sua biblioteca. Foi Iá que certa vez — anos depois da minha pequena rebeldia, eu nem sentava mais entre o pai e a mãe no banco da igreja, sentava numa ponta, já com um pé no exílio — ele arrancou um livro das minhas mãos e me disse para não perder tem­po com os gregos. "Os gregos só têm as perguntas, comece a ler as res­postas.” Tragédias inúteis e deuses familiares, esqueça-os. Catarse não resolve. "Epifania!", exclamou, pressupondo que eu soubesse mais do que sabia. "Epifania e revelações. A história humana precisa de revela­ções. Sem revelações tudo volta ao seu começo, tudo se repete, não há salvação.” Eu não queria ser salvo? Salvação. Eu não entendia. Como, salvação? Eu já estava salvo. Me confessava e comungava todas as semanas, e certamente havia um banco só para a nossa família no céu também.

"Os deuses da Grécia eram deuses do cotidiano, deuses para se encon­trar no bar. Seu irmão gostaria disso, hein?" Referia-se ao irmão do meio, Francisco, que bebia como o desesperado que era. "Talvez seja isso que ele procure nos bares, um deus irmão, com as suas mesmas fraquezas, e com um exemplo pessoal pronto para consolá-lo.” Ele ainda estava com o livro arrancado na mão, e o sacudiu na minha frente. "Esqueça isto. Não procure irmãos entre os deuses, nem deuses entre os irmãos", disse. Ou coisa parecida. Perguntei por que aqueles livros estavam na bibliote­ca, se eram para ser esquecidos. Ele riu. Disse: "Aos 18 anos tive o cuida­do de ler toda a obra de Nietzsche. Logo depois, tive o cuidado de es­quecer tudo que li. " Eu devia procurar epifanias e revelações. Para ser salvo, pelo menos na biblioteca do meu pai. Logo depois que ele saiu, pus-me a percorrer os títulos nas estantes freneticamente, procurando um nome. Nite. Nite. Quem seria aquele Nite?
O RÁDIO. O DIA INTEIRO, O rádio.

— Ele está aqui, auditório. Por uma deferência especial do ser­viço judiciário com este programa, trouxemos... Entrem, por favor... o apenado Dorival Marques, o Dori. Como vai, Dori?

— Bem, sim senhor.

— Dori, você ficou sabendo da campanha da dona Valdecina para construir um santuário para a sua filha, a Valdeluz, no terreno atrás da sua casa, por este programa, não foi assim?

— Sim, senhor.

— E assim que ficou sabendo, o que foi que você fez, Dori?

— Mandei, né? Pedi pra mandarem um dinheirinho.

— E você sabe que a sua contribuição foi a primeira a chegar, Dori?

— Pois é.

— O que foi que você pensou, quando ouviu a dona Valdecina falando aqui no programa sobre a Valdeluz, Dori?

— Bom. A gente fica, né?

— Você sentiu remorso, não é assim, Dori?

— Senti, senti. Eu não queria que acontecesse aquilo.

— Calma, auditório. Vamos deixar o Dori falar. Você sentiu remorso, Dori.

— Sabe como é. Tem horas que o cidadão não se controla. Pare­cia que não era eu. Até hoje eu penso assim: puxa, era eu fazendo aquilo?

— Você disse uma vez que estava tomado pelo demônio.

— É. Eu me senti que, assim... Que não era eu, entendeu?

— Você é religioso, Dori?

— Sou, sim senhor. Sou do Olho do Divino.

— Você reza, Dori?

— Seguido.

— Você reza pela alma da Valdeluz, Dori?

— Rezo. Pela dela e pela minha.

— Você acha que o demônio ainda está em você, Dori?

— De jeito nenhum. Aprendi minha lição.

— Dori, a dona Valdecina está aqui.

— Eu sei.

— Você gostaria de ver a dona Valdecina, Dori?

— É. Depende dela, né?

— A dona Valdecina está nos ouvindo Iá de trás. A senhora não é obrigada a vir até aqui, dona Valdecina. Este homem cometeu o mais terrível, o mais pavoroso crime que um homem pode cometer. Ele rou­bou a inocência de uma criaturinha, depois roubou a sua vida. Ele foi condenado pela lei dos homens e está cumprindo sua pena. Ele mesmo se condenou pelo que fez e está se punindo com o arrependimento. Agora nós estamos esperando o julgamento do seu coração, dona Valdecina. De onde estiver, a Valdeluz também está esperando para ver o que a senhora vai fazer. Eu sei que é uma decisão difícil. Atenção, auditório. Quantos acham que a dona Valdecina deve vir até aqui falar com o homem que estuprou e matou a sua filhinha?

Enquanto isto Conrad recorria à Rotação Contra-Equatorial, uma técnica que aprendera de um marinheiro holandês, para fazer Lin­da chegar ao segundo orgasmo e pedir mais, mais. A pena é o pai e o arado e o papel é a mãe e a terra neste velho ritual de profanação e semeadura, mas que possível significado podem ter os tipos metálicos de uma máquina golpeando um pobre papel? De certa maneira, escre­ver à máquina corresponde a mandar capangas fazer o nosso serviço sujo. Mantemos as mãos limpas. Os que cavavam as letras primitivas com cunhas em tabletes de barro, estes sabiam que crime estavam come­tendo. Foram os primeiros. Sempre que preciso trocar a fita da máqui­na, vou correndo depois lavar as mãos como se elas estivessem sujas de sangue. Os que escrevem com pena assumem os seus livros e seus dedos sujos. Nós temos um álibi. Somos apenas os autores intelectuais das nossas tramas.

— Muito bem. E os que acham que dona Valdecina não deve vir cumprimentar o Dori?

Linda chegou ao segundo orgasmo em pouco tempo, mas o terceiro levou três páginas cheias, durante as quais Conrad recorreu aos ensina­mentos que o velho Vishmaru lhe transmitiu em O Homem Cinza, o recolhimento a uma espécie de câmara interior, um ponto localizado no centro geométrico do corpo, atrás do umbigo, de onde o iniciado podia controlar todas as funções e sensações do seu corpo como se fosse um técnico atrás de um painel comandando um autômato. Quando eu era criança, inventei um personagem, um outro eu, igual a mim em tudo, com a diferença de que jogava futebol melhor e não era da família. Um menino estranho, de origem desconhecida, que freqüentava a nossa casa e a nossa mesa dos domingos mas morava num barco, e saía a navegar pelo mundo sempre que nossos problemas o aborreciam demais, e que tinha com relação a mim o mesmo sábio distanciamento que o Conrad interior, o Conrad iniciado nos ensinamentos de Vishmaru, tinha em relação ao Conrad que agora recorria a todas as suas técnicas — o Chi­cote de Ormuz, o Meneio Levantino, o Estacato Turco — para fazer Linda chegar ao terceiro orgasmo. Vishmaru vivia numa casa senhorial perto de Londres, acompanhado de Kabal, metade mulher, metade ca­chorro, e além de ser um mentor espiritual de Conrad também o aconse­lhava nas aplicações financeiras que o mantinham independente e incorruptível. Vishmaru dizia que o homem completo precisa de dois olhos para ver a realidade com perspectiva, um terceiro olho para enxer­gar a verdade cósmica e um quarto olho nas bolsas de Londres e Nova York, pois a peregrinação mística é favorecida por um bolso cheio. Certa vez coloquei na boca de Vishmaru uma condenação veemente dos edi­tores e do pouco que pagam aos autores, mas a editora cortou. Valendo-se da sabedoria de Vishmaru e do que aprendera em todos os portos do mundo sobre como atingir a segunda maior aspiração do homem justo — depois de combater o Mal em todas as suas formas —, que é fazer a mulher gozar, Conrad foi buscar no fundo de Linda o terceiro orgasmo. Convulsivo, ondas sobre ondas, a besta quebrando a superfície, o mar recuando e mostrando o seu chão, o lodo quente. É disto que nós somos feitos, foi neste sulco escancarado que nos semearam. Três páginas cheias de datilografia intensa, mas valeram a pena. Conrad rolou para um lado. Levantou a cabeça e olhou para Linda. Ela sorria levemente. O azul dos seus olhos era o de uma noite estrelada sobre o deserto, que é o mar finalmente saciado, ou coisa parecida.

— É uma cena emocionante. Eles estão se abraçando. Dona Valdecina está chorando. O Dori também está chorando. De onde esti­ver, Valdeluz está olhando para esta cena. O seu santuário será construído, ela nunca será esquecida! Deus não abandona as suas criaturas!

— Dona Maria, o rádio! Eu não posso trabalhar!
— E agora, A verdade. Onde está o Grego?

Conrad inclinou-se para fora da cama para pegar um cigarro no bolso do seu blazer. Não, não fez isto. Conrad não fumava. Insistiu:

— Quero a verdade.

O sorriso no rosto de Linda era agora apenas um resquício do outro, como um clarão que fica na retina depois que fechamos os olhos.

— Você tem certeza de que quer saber?

— Quero.


— Você não vai gostar.

Conrad soergueu-se na cama e examinou o rosto de Linda, apoia­do num cotovelo. O rubor estava deixando as faces dela. A superfície se recompunha.

— Fale — ordenou Conrad.

— Neste momento, ele deve estar com Ann.

Conrad sentiu como se de repente tivesse perdido todas as suas entranhas. Não encontrou nem os pulmões para tirar o ar e produzir a palavra amada. Ann? A sua Ann?

— Eu disse que você não ia gostar.

— O que ele quer com Ann?

— Você deve perguntar o que ele quer com você.

Conrad agarrou o rosto de Linda entre os dedos e virou sua cabeça violentamente na sua direção.

— Sem jogos! — disse, a cicatriz na sua testa pulsando como um sinal de perigo. — O que ele vai fazer com ela?

— Não sei. Ele só disse que iria procurá-la.

— Como descobriu onde encontrá-la?

— Não sei.

— Fale!


— Ele disse que Hennessy saberia.

— Hennessy? Hennessy jamais revelaria isso ao Grego.

— O Grego tem meios para arrancar informações das pessoas. Mais eficientes do que os seus.

— Como o Grego sabia que eu estaria neste navio? Agora havia incompreensão nos olhos de Linda.

— Ele não sabia.

— A verdade! Foi ele que colocou você neste navio, para me vigiar.

— Não!

— Foi pura coincidência, nós dois no mesmo navio?



— Juro.

— Não gosto de coincidências.

— Embarquei neste navio para esquecer o Grego. Passei os pri­meiros dias trancada neste camarote. A primeira noite em que saí foi a noite em que nos encontramos. Levei um susto quando vi você. Era muita coincidência.

— Coincidências assim só acontecem em histórias de quinta categoria.

— Então esta é uma história de quinta categoria.

— Você e o Grego eram amantes?

Linda libertou seu rosto dos dedos de Conrad com um movi­mento brusco.

— O Grego não precisa de amantes. O prazer dele é outro. Descobri isso muito tarde.

— Você não sabia o que ele fazia? Os assassinatos, o sangue nas paredes...

Linda ficou em silêncio.

— Sabia ou não sabia?

— Sabia!


— E mesmo assim ficou com ele? Com um animal como ele?

— E você?

— Eu, o quê?

— Por que você deixou ele escapar?

— Eu deixei ele escapar? Olhe esta cicatriz aqui. E esta. E esta! Linda não olhou. Conrad estava ajoelhado na cama, inclinado sobre ela.

— Lutamos três vezes. Nas três vezes ele me venceu, à traição.

— Duas vezes. Na última vez você venceu, mas não o matou.

— Como você sabe isso?

— Ele me contou.

— O Grego disse que eu podia ter matado ele na terceira luta, mas não matei?

— Ele disse que estava no chão, sem defesa, e que você tinha uma arma apontada para a cabeça dele.

Conrad virou o corpo e afastou-se. Sentou na borda da cama, de costas para Linda. Quando falou, sua voz tinha mudado.

— E o que foi que eu fiz?

— Você não sabe?

— Quero ouvir a versão do Grego.

— Ele disse que você ficou mais de um minuto com a arma apontada para a cabeça dele. E que uma sombra passou pelo seu rosto.

— Uma sombra? Ele disse uma sombra?

— Uma sombra. Como se de repente você tivesse percebido alguma coisa, ou se lembrado de alguma coisa...

— Qual é a opinião dele?

— Como?


— Percebido alguma coisa, ou me lembrado de alguma coisa?

— Ele só falou "uma sombra".

— E então?

— E então ele aproveitou a sua hesitação e derrubou você, e correu.

— Primeiro me deu um pontapé, aqui. Depois correu.

— Então foi isso.

Conrad virou-se para encarar Linda. Perguntou:

— Por que ele me mandou aquele dinheiro no hospital, com o bilhete?

— Não sei. Foi a última coisa que eu fiz para ele. Não nos vimos mais.

— O que ele vai fazer com Ann?

— Não sei. Juro.

Conrad levantou-se e começou a catar sua roupa.

— Ei! — disse Linda.

— O quê?


— Nós combinamos quatro orgasmos.
Veja que cena emocionante, auditório. Conrad James, com o pensa­mento em Ann, sua doce Ann, mas sempre um justo, embora tocado pelo horror e a dúvida, sentindo-se oco por dentro, de novo com o harpão em riste entre as pernas de Linda, tentando atrair do fundo ou­tro orgasmo. Não estará aí uma metáfora para o homem moderno, des­provido das velhas certezas, sem qualquer convicção nova para substi­tuir valores perdidos, e mesmo assim seguindo as moções do instinto, vivendo como se tudo ainda tivesse um sentido? Hein, leitor? Foram os piores dez minutos da vida de Conrad, incluindo as três lutas com o Grego. Ele só pensava em Ann, no Grego com a Ann, na pele branca de Ann e na faca do Grego, e na sombra, a maldita sombra que passara pela sua alma impedindo-o de estourar os miolos do vilão como faria em outras histórias, quando ainda não tinha dúvidas. Eu também senti difi­culdades em encher mais três páginas com a caça ao quarto orgasmo. O rádio me distraía — o rádio, dona Maria! —, e também uma certa in­quietação que eu não sabia definir, algo a ver com a visita do Macieira. O dia seguinte era dia de Lília, eu perguntaria se Macieira, o inspetor dos olhos saltados, a tinha procurado, e para saber o quê. Ela se surpre­enderia, eu falando com ela. Eu perguntaria sobre o crime do Jardim Paraíso. Quem era a mulher? Por que Lília apagara as palavras escritas em sangue na parede? Perguntaria quem era ela, qual era o seu papel naquela trama vagamente pressentida, e que até agora ainda é apenas isto, um pressentimento, um mau palpite. Escrevo isto sem qualquer intenção de evitar que o que tem que acontecer aconteça, ou de incriminar quem quer que seja. Escrevo apenas para que saibam que eu adivinhei a trama, que não fui um inocente até o fim. Será fácil me pegarem. Basta­rá me derrubarem, levarem minha muleta e barrarem a entrada da dona Maria no apartamento. Não conseguirei me levantar do chão. Meus gritos por socorro se perderão na cacofonia do prédio. Talvez empilhem os livros do meu pai sobre o meu corpo, mais uma garantia de que não me levantarei e morrerei de inanição. Um túmulo encadernado. Mas pelo menos meus irmãos saberão que eu sabia. Isto, claro, se não destruírem estes papéis.
EU E CONRAD NOS esforçamos e, finalmente, arrancamos o quarto or­gasmo de Linda, um orgasmo prolongado que acabou em soluços e emen­dou num choro. Ela se agarrou no pescoço de Conrad e não queria deixá-lo sair da cama. Conrad, o justo, teve que lhe dar alguns tabefes para acalmá-la.

— O que você vai fazer?

— Preciso salvar Ann.

— Estamos no meio do Mediterrâneo! Só chegaremos a um porto daqui a dois dias.

— Darei um jeito. E, antes disto, mandarei telegramas de bor­do. Tenho amigos. Contatarei Hennessy.

— Hennessy já deve estar morto. Se o Grego arrancou a infor­mação que queria dele, ele já deve estar morto.

— Duvido.

Conrad acabou de vestir-se. Abotoou o blazer na frente do espe­lho, examinando o próprio rosto. Pensando: Conrad, você, decidida­mente, não é mais o mesmo.

— Não vá! — gritou Linda.

Mas Conrad já estava no corredor.

Rumou para a sala de jogo. Mabrik estava na mesa de bacará.

— Arrá, Mr. Conrad. Um joguinho?

— Não. Preciso falar com você.

Mabrik arqueou uma sobrancelha. Tinha a pele morena e oleo­sa, e lisa. As rugas se concentravam em torno dos olhos, como formigas em torno de melado derramado. E os olhos tinham mesmo a cor de melado escuro. Eram profundos e cruéis.

— É o favor? Você vai cobrar o favor?

— Parte do favor — concedeu Conrad.

Mabrik olhou em volta. Não havia ninguém no bar. Puxou Conrad pelo braço na direção do balcão. O barman veio perguntar o que queriam.

— Que você desapareça — disse Mabrik. E, para Conrad: — E então?

— Você tem contatos em Chipre?

— Tenho.


— Preciso que um helicóptero de Chipre venha me buscar no navio.

— Depois de amanhã chegaremos a Chipre.

— Preciso estar Iá amanhã de manhã. E quero pegar um vôo para Nova York em seguida.

— Posso perguntar por quê?

— Não.

Mabrik consultou o relógio.



— Vou ver o que posso fazer.

Com um sinal da mão, Mabrik convocou um dos seus assisten­tes. Um moço muito branco cuja boca muito fina e vermelha parecia ter sido feita com um bisturi há dois minutos. Mabrik escreveu alguma coisa, rapidamente, num pedaço de papel, entregou-o ao assistente e deu ordens numa língua que Conrad não identificou. Quando o assis­tente se afastou, Mabrik chamou o barman com o mesmo sinal de mão.

— Ouzo — pediu. — E você?

Conrad examinou a prateleira. Ainda não tinha experimentado o bar da sala de jogos. Viu o Glenlivet. Mas isso não era tudo.

— O seu gelo é redondo?

— Não, senhor. Em cubos.

— Então esquece.

— Qual é o seu negócio, Sr. Conrad? — perguntou o mercador de armas.

— Nenhum. Vivo das minhas rendas.

— E do que ganha no jogo...

— Ganho pouco no jogo. Ganhar de você foi fácil.

— Por quê?

— Porque você queria me arrasar. Até hoje não sei por quê.

— Obviamente porque eu sabia que você estava comendo a minha mulher.

— Por que não me mandou matar?

— Por favor, Sr. Conrad. O senhor me toma por um gângster? Sou um homem íntegro, honesto e limpo. Os meus negócios é que são sujos. Não posso ver sangue.

— Conversa.

— Verdade. Nem sou eu que bato na minha mulher, é a minha mãe.

— Você é um assassino, Mabrik. Está nos seus olhos. Mabrik ficou sério e em silêncio por um instante. Depois sorriu.

— Então por que eu não mandei matá-lo? Conrad deu de ombros.

— Você preferiu me humilhar no pôquer. Se vingar e ainda lucrar com isso. Só que não deu certo.

— Conrad, você tem uma falha grave. E surpreendente, num homem com sua experiência.

— Qual é?

— Você não reconhece a ambigüidade humana. Meu povo tem um ditado...

Conrad suspirou. Não tinha paciência com conversas crípticas, e muito menos com ditados armênios. Mas Mabrik continuou.

— "Não me entenda muito depressa. "

— O que isso quer dizer?

— Você não pensou que eu podia estar perdendo para você, de propósito?

— Como, de propósito? Você jogou sua mulher!

— Exatamente. Estava lhe propondo um acerto. Mas você não entendeu.

E Mabrik fez um gesto que queria dizer "o que se há de fazer com os inocentes deste mundo?".

— Que acerto? — perguntou Conrad.

— Eu estava abençoando sua união com Nicole. Eu a estava dando a você, pelo menos até o fim do cruzeiro. Legitimizando a traição dela e a sua conquista clandestina. E, ao mesmo tempo, salvando a mi­nha cara. Eu a teria perdido no jogo. Não seria um corno, seria uma vítima da sorte, e um honrado pagador de dívidas. Era perfeito. Aplaca­ria a sua consciência e a minha raiva e salvaria a vida de Nicole. Pensei que você tivesse entendido. Mas você recusou. Domage.

— Nicole está morta?

— Ainda não. Minha mãe irá matá-la, e não tem tudo o que precisa a bordo.

Conrad ficou em silêncio. Não sentia nada. Sentia-se eviscerado. Estava pensando em Ann.

Que mundo, não é, Conrad?

— Não há nada de errado com o mundo. Ele só é muito mal freqüentado.

— Há tudo de errado com o mundo, Conrad. Ele nos merece.

— Eu ainda não entendo por que você não mandou me matar.

— Depois que você recusou Nicole, estava condenado.

— Eu sairia da mesa com a nota malcheirosa do seu pai mas não iria muito longe.

— Claro que não. Você só seria visto de novo numa praia. Ou o que sobrasse de você. Mas você também recusou a nota. Fiquei lhe de­vendo um favor, e isso salvou a sua vida.

— Depois que o favor estiver pago...

— Você morrerá.

O assistente de Mabrik chegou. Sua boca parecia estar supuran-do. Ele falou na mesma língua indecifrável para Mabrik, que sacudiu a cabeça afirmativamente e o dispensou com um gesto.

— Tudo acertado, Conrad. Um helicóptero virá buscá-lo no navio amanhã de manhã. Você deve chegar ao aeroporto de Nicossia a tempo de pegar um vôo para Londres e de Iá uma conexão para Nova York. As reservas já estão feitas.

— Ótimo.


— O meu favor está pago?

— Depende do valor que você dá àquela nota malcheirosa do seu pai.

Mabrik ficou sério. Virou-se de perfil para Conrad, dando a entender que a conversa estava encerrada.

— Não está pago — disse.


Eu não entendia por que meu pai tinha todos aqueles livros encader­nados, guardados com aquele carinho, e ao mesmo tempo me dizia para ter cuidado: "Cuidado com as leituras, cuidado com as leituras!". Havia uma edição ilustrada das Mil e Uma Noites, odaliscas carnudas em papel acetinado que eu não sabia se olhava ou se cheirava, a Ilíada — "Esque­ça os gregos!" — e até uma edição com capa de couro e letra gravada em ouro de O Capital, que eu olhei só uma vez, procurando as figuras. Um dia ele me encontrou sentado no chão da biblioteca, com um livro aber­to na frente, namorando uma gravura sombria do mar, e decidiu fazer umas das suas declarações em tom de oratória. Ele falava do mesmo jeito para um filho menor, um colega de congregação ou um jardineiro, e certa vez fora visto discursando animadamente para um pipoqueiro sobre o simbolismo das chagas de Cristo. Disse: "Todos estes livros, todas estas histórias, todas estas idéias, todas estas palavras não significa­ram nada — nada! — se não fosse uma coisa. Você sabe o quê?". Não adiantou eu fazer "não" com a cabeça, ele não estava me olhando. "Uma coisa que dá sentido a tudo, uma coisa sem a qual as palavras são apenas manchas no papel, todas as histórias não passam de encantações e todas as idéias nascem mortas. O que é? Me diga, o que é?" Eu disse que não sabia. Ele baixou a voz, dramaticamente, e respondeu a sua própria per­gunta. "O pecado. " "Certo", disse eu, como se tivesse entendido e con­cordava sem hesitação. "O pecado!", gritou ele. "O que nos condena é o que nos salva. Ou, pelo menos, salva a nossa literatura. " Ele sentou na sua poltrona preferida, que tinha o couro rachado. Estava, agora, falan­do sozinho. "Muitas vezes você vai ler um livro e sente que ali falta alguma coisa. Idéias, ótimas. Redação, perfeita. Erudição. Estilo. Tudo. Mas falta uma noção do pecado. Você sente que o autor reuniu todos os ingredientes mas esqueceu o principal. Quem não tem a convicção do pecado nunca fará a grande literatura. Você concorda?" "Certo", res­pondi, cem por cento de acordo. Ele pareceu se dar conta da minha idade e fez um adendo. "É possível fazer manjar branco sem a essência do coco?" "Impossível", concordei. Manjar branco era umas das paixões dele. Anos mais tarde concluí que ele mantinha a biblioteca como um ex-alcoóla­tra mantém uma adega bem estocada, para ter sempre à mão a magnitude da sua renúncia. Ou um vertiginoso que escolhe viver à beira do abismo, como um desafio. Depois descobri que aquela era a sua vida clandestina. Uma das suas vidas clandestinas. Eu o entendi depressa demais.
— Lembra de mim? Macieira, como o conhaque.

— Entre — diz Lília.

Como seria a casa de Lília? Um barraco. Como são os barracos? Nunca entrei num barraco. Minha mãe nos levava para distribuir roupa no Jardim do Leste, mas eu batia pé e me recusava a sair do carro. Não gosto do cheiro! Um barraco, mas bem-arrumado. Um quadro do São

Jorge na parede. Filhos? Não, Lília não tem filhos. Nem marido. Mora com a mãe. A mãe e uma irmã, isso. Entre. Aceita um cafezinho? O café é servido num copo. Não, num ex-pote de geléia.

— Você está sozinha?

— Minha mãe está no quarto dos fundos.

A mãe é doente. Elefantíase. Não. Fraca do pulmão.

— É sobre o crime do Jardim Paraíso...

— Sei.

— Você não disse à polícia que era faxineira de Estevão, o sem pé.



— Que importância tem isso?

— Você sabe que ele escreve livros?

— Sei.

— E que num dos seus livros ele descreve um crime igualzinho ao do Jardim Paraíso?



Surpresa nos olhos castanhos de Lília. Não são castanhos. Meu Deus, como são os olhos de Lília? Surpresa nos olhos (amanhã eu vejo) de Lília. Ela nunca leu um livro meu. Só lê fotonovelas.

— Que coincidência! Como é a voz de Lília?

— Não gosto de coincidências. Você, por acaso, não reconhe­ceu na parede riscada de sangue a marca da mente perversa, da mente criminosa, do escritor sem pé, e decidiu limpar a sua culpa...

— Eu?


— O que estava escrito na parede?

— Era grego.

— Como você sabe que era grego? Você só lê fotonovelas.

— O senhor disse que era grego!

— Confesse! Vocês são amantes. Vocês são cúmplices. Há um subtexto nesta história e não descansarei até descobri-lo. Você vem co­migo até a delegacia. Agora!

Ou então:

O inspetor Macieira entra no barraco sem dizer uma palavra. Examina a sala. Os móveis com forração de plástico. As flores artificiais. A cristaleira, que era da avó de Lília, uma parteira, chamada Valdecina, não, Lola, Lola Paixão, que fazia uma marca secreta em cada bebê que ajudava a nascer, como pesquisadores que marcam pássaros para seguir seus hábitos migratórios, e que a cada façanha de um dos seus bebês, um que chegasse a vereador, ou a bandido famoso, dizia "esse é um Bebê Paixão!" e ia visitá-lo para pedir dinheiro, pedir a sua parte no seu suces­so, mas isso é outra história. O macio Macieira espia o quarto dos fun­dos. A mãe de Lília dorme, ou entrou em coma. Quando Macieira volta para a sala já tem a faca na mão. Lília recua. Macieira, com o seu passo elegante, metade cabrito, metade inspetor, ou o que quer que ele seja, avança.

— Eis um recado para o seu São Estevão — diz.

E enfia a faca, primeiro a ponta, na garganta de Lília. Lília, Lília.

Ou então, ou então!

Lília recebe Macieira na porta com um beijo.

— Fui visitá-lo esta tarde — diz Macieira, tirando o casaco cui­dadosamente e colocando-o nas costas de uma das cadeiras esmaltadas.

— E aí?

— Deixei ele muito confuso. Ele não sabe quem eu sou. Ele não sabe quem você é. A esta altura ele não sabe mais nem que ele é. Pobre perneta. Nós vamos pegá-lo direitinho.



Lília traz o seu conhaque num ex-pote de geléia.

— Sabe como foi que eu me apresentei? Inspetor Macieira. Como o conhaque. Um bom toque, hein?

Preciso parar com esta mania de inventar histórias. Mas se parar de inventar histórias eu vou ao fundo.
A ligação do navio para Nova York estava ruim, a voz reverberava, parecia vir pelo fundo do mar, passada de câmara em câmara submarinas, uma voz aquosa. O mar agora só me traz más notícias, pensou Conrad. A voz era da empregada dominicana de Hennessy.

— Mr. Hennessy. He dead.

Hennessy, morto! O Grego chegara até ele. Arrancara dele o endereço de Ann e o matara. Como foi? Quem matou? Mas a voz cho­rosa só repetia o seu lamento marinho.

— Mr. Hennessy. He dead.

Naquela noite, Conrad não dormiu. Pensava em Hennessy mor­to. Pensava em Ann nas mãos do Grego. E era tudo culpa sua. Devia ter matado o Grego. Agora o Grego o atacava, matando seu melhor amigo e indo atrás da sua amada. Era no que dava ter amigos e amadas. Ficava-se vulnerável. Perdiam-se o sono e o raciocínio, pensava-se em vingança e não em justiça.

Quando, de madrugada, Conrad conseguiu dormir, sonhou que encontrava Hennessy despedaçado, com partes do seu corpo espalhadas por uma imensa área asfaltada, e que uma das mãos de Hennessy, a vários metros do antebraço correspondente, apontava na direção da car­caça calcinada de um carro, e dentro do carro, toda de branco a não ser pelo sangue que desenhara um colete vermelho sobre o seu peito, como um casulo num ninho preto, Ann, sua doce Ann, com uma segunda boca no pescoço. Era a primeira vez que Conrad sonhava numa das minhas histórias. Não sei se a editora vai gostar.


Eu cursava uma escola religiosa, ia à missa todos os domingos e tinha lições práticas de religião da mãe e das empregadas, além das disserta­ções do pai na mesa dominical, embora estas geralmente fossem sobre questões de política da igreja que eu mal compreendia e não precisava compreender. Mesmo assim, meu pai pediu a um primo, o padre José, que me desse aulas de catecismo, para me preparar para a primeira co­munhão, talvez adivinhando que aquela alma inquieta necessitava de cuidados dobrados. O padre José era magro e triste, mas entusiasmava-se com as imagens que escolhia para as suas lições.

— O coração é como São Paulo...

— Ele também não pode parar — adivinhei.

— Hein? Não, não. Ele propaga o sangue pelo organismo como São Paulo propagou a mensagem de Cristo pelo mundo. São Paulo le­vou o cristianismo até a última capilar, até a pontinha do dedinho...

E o padre José mostrava a pontinha de um dedinho magro, onde não parecia estar chegando muito sangue.

O cérebro é que não pode parar. O cérebro é um tubarão. Nós só morremos quando o cérebro pára. Mesmo quando o coração não propaga mais o sangue, como as lições de Cristo, pelo corpo, nós só morremos quando o cérebro morre. O tubarão, para tirar o oxigênio que o mantém vivo da água e para não ir ao fundo, tem que se manter em constante movimento. O cérebro, o coração e os pulmões são os únicos órgãos humanos que nunca têm folga. Mas o coração é uma bomba hidráulica, e os pulmões são foles. O cérebro é um predador. Quando não tem mais o que consumir para se manter em movimento, consome a si mesmo. Nós dormimos. O cérebro não dorme, sonha. O sonho é o cérebro se consumindo, indo e vindo cegamente entre os seus circuitos como um tubarão faminto. Quando o sonho faz sentido, mes­mo um sentido maluco, é porque o tubarão abocanhou alguma conexão e a está mastigando para ver se ali tem história. Esse tubarão gosta de histórias. O padre José, que jamais entenderia a comparação do cérebro, este maravilhoso receptor de revelações para o coração cristão, com um tubarão cego, mesmo assim entendia a sua fome, e me lembro das aulas de catecismo como uma interminável sucessão de histórias. Um incréu, um dia, encontrou uma criança na praia tirando água do mar com uma concha e a derramando num buraco na areia. "O que fazes?", perguntou o incréu. "Estou transferindo o mar para este buraco na areia", respon­deu a criança. "Isso é impossível", disse o incréu. "Pois é mais fácil eu transferir o mar, com esta pequena concha, para este buraco, do que encontrares uma resposta para o que procuras", respondeu a criança. "E o que eu procuro?", perguntou o incréu. "Uma explicação lógica da Santíssima Trindade", respondeu a criança, que era um enviado de Deus para salvar o incréu do ceticismo. A história do padre José terminava aí, mas no meu cérebro ela continuava, eu imaginava o homem, seria como o meu irmão mais velho? A criança podia ser eu, embora eu só conhe­cesse o mar dos livros do meu pai. E se... Mas o padre José notava a expressão do meu rosto e me chamava de volta à lição, eu precisava prestar atenção. A mente precisa de disciplina, não pode vagar. O padre José dizia:

— A mente ociosa é o Jardim do Diabo.
O HELICÓPTERO CHEGOU de manhã. Antes de partir, Conrad procurou Mabrik. Encontrou-o no salão de jogo. O salão só começava a funcio­nar à noitinha, não havia ninguém ali além de Mabrik. Ele tinha um baralho nas mãos. Tirava cartas do baralho, uma a uma, e as atirava sobre a mesa com a figura para cima. Quando Conrad se aproximou da mesa, Mabrik acabara de virar o valete de um olho só.

— Você, decididamente, me dá azar, Conrad.

— O helicóptero está aí.

— Eu sei.

Mabrik ainda não tinha levantado os olhos. Mantinha-os fixos no olho do valete.

— Eu também conheço um ditado armênio. Mabrik levantou os olhos. Conrad continuou:

— "Um homem é escravo dos seus devedores. "

— Esse eu nunca ouvi.

Conrad não disse que acabara de inventá-lo. Disse:

— Quero que você liquide a sua dívida comigo.

— Como?

— Não mate Nicole. Mabrik sorriu com desdém.



— Você está perdido, Conrad. É um sentimental.

— Poupe Nicole, e você não me deve mais nada.

— E estou livre para matá-lo...

— Exato. Um atrativo adicional.

— Minha mãe não vai gostar. Ela está fazendo os planos para a execução de Nicole há dias. Já telegrafou para Chipre, encomendando os instrumentos de que vai precisar.

— Poupe Nicole.

Mabrik voltou a olhar para o valete.

— Está bem — disse, com um suspiro.

— Então estamos quites — disse Conrad. Mabrik deu um soco na mesa, fazendo voar as cartas.

— Não! — gritou.

— Você pagou o seu favor. Não me deve mais nada!

— Não! Não! Não!

Mabrik ergueu-se. Estava possesso. Sua tez parecia ter escurecido.

— Você acha que aquela nota malcheirosa do meu pai vale só isto? Uma carona de helicóptero e a vida de uma cadela norueguesa? Isto é um insulto. Eu ainda não comecei a pagar você, Conrad! Suma da minha vista! Suma da minha vista!

Quando o helicóptero decolou do solário do navio, Conrad viu Nicole estendida à beira da piscina, só com uma calcinha de biquíni. Sentada ao seu lado, toda de preto, encurvada e com a cabeça pendendo sobre o peito, a mãe de Mabrik cochilava.
Naquele dia, como todos os dias, o silêncio me pegou desprevenido. Dona Maria desligara o rádio. Dali a pouco, já pronta para sair, apare-ceu na porta e avisou que a comida para o jantar estava na geladeira e a roupa lavada estendida na área de serviço.

— Dona Maria, me faça um favor.

Ela se assustou. Um favor? Eu andava muito estranho. Receben­do visitas e agora pedindo um favor. Que favor?

— Amanhã, quando vier, me traga um jornal.

Outra esquisitice. Eu não tenho televisão, nem telefone, só com­prara o rádio para ela ouvir e nunca lia jornais. Agora aquilo. Ela deu de ombros, querendo dizer que por ela tudo bem.
Milagre. A aeromoça do avião que decolou de Londres para Nova York há pouco mais de meia hora informa que tem, sim, o uísque Glenlivet para servir, e seu sorriso diz que Conrad também pode se surpreender se pedir mais alguma coisa além de malte puro, como um programa depois de desembarcarem. Mas Conrad nem sorri.

— E o seu gelo, é redondo?

— Redondo?! Não, é em cubos.

— Então esqueça.

Conrad fecha os olhos. Calcula o fuso horário. Chegará a Nova York no começo da noite. De Londres, telefonou para o escritório da Interpol em Nova York. Ficou sabendo que encontraram Hennessy morto no seu apartamento. Fora degolado, e o criminoso depois escrevera uma palavra, com o sangue de Hennessy, na parede. Que palavra? O chefe da Interpol em Nova York começara a soletrar.

— A, ene...

— Ann! — dissera Conrad, quase um soluço. Realmente, não era mais o mesmo Conrad. A editora não vai gostar.

— Não. Uma palavra estranha. A, ene, a, ene, gê, ka, e.

— Anangke?

— Isso. Estamos investigando o que quer dizer.

— Eu sei o que quer dizer.

Outra surpresa. Pela primeira vez numa das minhas aventuras, das suas aventuras, Conrad demonstra ter qualquer tipo de erudição além de tudo o que sabe sobre pistolas, carros, barcos e uísques e da sabedoria prática transmitida por Vishmaru. Conrad desligou o telefo­ne antes que o chefe da Interpol pudesse perguntar o significado da palavra.

Anangke. O que esse Grego quer de mim? Anangke. Necessida­de cega. Ele mata por necessidade cega. Ele mata porque precisa matar. Ou ele quer dizer que é preciso matar? Em Ritual Macabro, no primeiro encontro, numa praia, entre Conrad e o Grego, este lhe dissera uma coisa estranha. "Que bom que você veio, Conrad. Começa o catecis­mo. " Em seguida tinham lutado. Quando Conrad sentira que tinha o assassino sob controle, ele subitamente tirara uma faca, Conrad não sa­bia de onde, e o golpeara. Depois fugira. Aquela fora a primeira cicatriz. O terrível, pensou Conrad mais uma vez, é que ele não é louco. Anangke não é uma explicação. É uma mensagem. A história por baixo da histó­ria. A editora não vai gostar.

Conrad alugou um carro no aeroporto Kennedy e seguiu para a casa de Ann, em Long Island. Pela primeira vez, em qualquer uma das minhas histórias, das suas histórias, Conrad sentia o medo como uma presença física. Estava cheio de medo, o medo era como outro Conrad por dentro do velho Conrad.


Decidi não matar Ann, a doce Ann. O Grego batera na sua porta.

— Posso entrar? Meu nome é Hennessy. Como o conhaque.

— Sr. Hennessy! O Conrad já me falou muito no senhor.

— Somos grandes amigos.

— Mas ele me disse que Hennessy era um irlandês bonachão...

— Ah, sim?

— Eu não quero ser indelicada — disse Ann —, mas o senhor por acaso tem alguma identificação?

Mas, contou Ann, enquanto Conrad a segurava nos braços, e afagava sua cabeça, e beijava seus cabelos, o Grego já tinha entrado na casa, e já tinha a faca na mão. Ele a amarrara e amordaçara. E arrancara sua roupa. E depois, lentamente, com a ponta da faca... Ann não pôde continuar.

— Pronto, pronto... — disse Conrad.

Conrad, tomado de grande compaixão. Conrad, engasgado de ternura e horror. Conrad... Mas chega por hoje.


Quando pára o rádio da dona Maria, o silêncio parece oprimir os ou­vidos. Mas em seguida os ruídos do prédio começam a se infiltrar no silêncio, a fazer estrias no silêncio, e a morna exalação do poço comum ocupa a minha sala. Quando o prédio silencia, há o ruído surdo da cidade, como um trovão, como o de uma máquina invisível. Quando isto termina, há o barulho do meu coração que, como São Paulo, não cessa a sua catequese. No dia em que este também parar, ficará o som quase imperceptível do tubarão indo e vindo, indo e vindo, rodando e rodando. Até que isto também silencie, e eu me afogue.


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