Japão: de suas origens à restauração Meiji 1 – Introdução



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Japão: de suas origens à restauração Meiji

1 – Introdução:
Este é o meu terceiro trabalho para a revista Klepsidra. Meus dois trabalhos anteriores (Tawantinsuyu: O Império Inca) e (Vikings: Mais que um povo, um ideal) foram as reportagens de capa das edições número 1 e 2. Aqueles dois textos, bem como este, fazem parte de uma linha que considero ser a linha ideal da História: a História Factual. É interessante esclarecer aqui que, em minha opinião, Klepsidra como um todo deve se dedicar à História Factual, ou seja, a contar o que realmente aconteceu, sem complexidades, sem emaranhados de dissertações filosóficas e sociológicas, tais como muitos autores consagrados fazem.

A História tem se tornado cada vez mais um objeto das elites justamente porque, da forma como é feita, são muito poucos os que têm capacidade de compreendê-la. Além disso, menos ainda são aqueles que de fato gostam de História. Acredito que estilos literários ditos “eruditos” são na verdade uma máscara para esconder da maioria o que ela também poderia gostar (senão precisar) de saber.

Mas, voltando a este texto, nele pretendo expor ao leitor um pouco mais de conhecimento sobre um país (e porque não um mundo) razoavelmente conhecido e estudado por nós, moradores do mundo ocidental. Para muitos, é nebulosa qualquer coisa que se refira a História do Japão nos períodos anteriores à chamada Era Meiji, quando de fato o país adentrou no cenário internacional, com o final do Shogunato e a restauração do poder Imperial. Justamente por isso, é sobre estes períodos da História Nipônica que se refere meu texto.

Como já havia referido na introdução de meus outros trabalhos, minha área de interesse em História é justamente o desenvolver das diversas civilizações, com suas peculiaridades e relações internas e externas. Dentro deste campo de interesse, eu poderia escrever sobre diversas civilizações da humanidade (como ainda o farei), mas seria muito convencional se, a exemplo de tantos outros, me remetesse a escrever sobre os Ingleses, Portugueses, Espanhóis, Franceses, Gregos ou os batidíssimos Romanos. Por isso, prefiro descrever civilizações que, por serem de difícil acesso, são menos conhecidas e, sendo assim, ao descrevê-las terei a provável oportunidade de revelar novos conhecimentos para a maioria dos leitores.

Gostaria apenas de dizer que se você, leitor, estiver lendo meu texto à procura de informações sobre o Japão contemporâneo, não deve continuar, pois a narrativa se encerra com a restauração Meiji. Além disso, mesmo as informações sobre os períodos posteriores ao século XVII serão bem menos completas do que aquelas sobre os períodos entre os séculos VI e XVII, período central deste texto.

Aproveitem a leitura de mais um texto que tende a ser grande e esperem posteriormente textos sobre períodos históricos importantes, como a Expansão de Justiniano, o Império Árabe, a formação do Sacro Império, Carlos Magno, a Expansão Mongol, dentre outros. Para finalizar a introdução, gostaria de comentar a crítica que recebi de um leitor da revista a respeito de meu trabalho sobre os Vikings. A crítica se referia a uma referência que faço na introdução daquele texto, onde afirmo que ele é possivelmente um dos maiores textos sobre o assunto já produzidos no Brasil, ou mesmo disponíveis em língua portuguesa. Pois bem, como já havia dito nas introduções anteriores, nenhum deles (inclusive este sobre os Japoneses) espera ser completo, como seria uma obra escrita por um especialista no assunto, afinal sou apenas um estudante de graduação. Talvez o leitor não tenha entendido, ou mesmo lido a introdução inteira, pois ao me chamar de prepotente, ele não percebeu que minha afirmação era apenas um desabafo contra a falta de bibliografia em Português e também contra a má vontade que encontrei de uma professora em me indicar alguma bibliografia para o trabalho.

Sem mais, espero que meu texto seja útil e que não hajam mais leitores equivocados quanto às minhas afirmações.
2 – Arqueologia e Geomorfologia:

Nesta parte do trabalho darei um breve panorama sobre como se constitui o Japão, e sobre como os achados arqueológicos têm ajudado a resolver enigmas de um passado muito distante. Comecemos com o que diz respeito à parte mais difícil: a descrição física da região. O Japão está situado no chamado Círculo de fogo do Pacífico, região localizada na junção de duas placas tectônicas e que, portanto, está fortemente sujeita a tremores de terra e à atividade vulcânica. Com isso, os tremores de terra fazem parte do cotidiano dos Japoneses, tanto que lá, os prédios e estruturas altas são construídos com um sistema que lhes permite balançar sem ruir. Entretanto, muito piores do que os tremores de terra aos quais o país está sujeito são os tremores das terras submersas, os chamados maremotos ou Tsunamis. Tais tremores geram ondas tão altas que podem em questão de segundos destruir comunidades costeiras inteiras.

O vulcanismo também pode ser considerado como uma moeda de duas faces, pois ao mesmo tempo que tem um efeito extremamente devastador também torna o solo mais fértil. A atividade vulcânica, entretanto, tem sido não só um inimigo do homem no que diz respeito a sua devastação, mas também na destruição de possíveis achados arqueológicos, pois a lava torna o ph (percentual de hidrogênio) da terra muito ácido (baixo), favorecendo a degradação dos fósseis. O relevo da região também não é dos melhores para a ocupação humana. De fato, devido ao interior do país ser recoberto por cadeias montanhosas (frias e com escassez de água potável), a vida se torna muito mais simples no litoral, onde se está sujeito aos Tsunamis.

Mas, geograficamente, o que é entendido como Japão? Bem, o Japão é composto por diversas ilhas de tamanhos variados, dentre as quais quatro se destacam. São elas: Honshu (a maior ilha e também a mais importante), Hokkaido (a ilha mais ao Norte e, como veremos, a última a ser ocupada pelos Japoneses), Kyushu (a ilha mais ao Sul) e Shikoku (a menor dentre as quatro maiores ilhas). Além destas ilhas, merecem destaque os arquipélagos de Ryukyu e de Okinawa, localizados mais ao Sul (o arquipélago de Okinawa é inclusive, às vezes, considerado como parte do arquipélago de Ryukyu).

Os achados arqueológicos nos levam a fixar uma data para o início da ocupação humana na região que remontaria a cerca de 30000 a.C.. Há indícios de que, nessa época, o Japão era unido ao continente Asiático, tendo ao meio o chamado Mar do Japão. No entanto, não são hipóteses confirmadas. O fato é que na região existia uma gama de animais do continente muito grande para que ambos não tivessem sido unidos. É certo que se podia encontrar no Japão mamutes, elefantes, veados gigantes, cavalos, tigres, ursos pardos, antílopes, lobos e outros bichos. Por volta de 10000 a.C. houve um aumento universal das temperaturas que durou até cerca de 3000 a.C.. Com este efeito climático, os níveis das águas subiram, separaram as terras e o Japão se desligou lentamente do continente.

O país tem uma hidrografia razoável, o que significa dizer que não sofre com a falta de água doce e que, nos dias de hoje, até pode dispor de rios para a construção de usinas hidrelétricas. No entanto, no que se refere a minérios, o solo japonês é pobre. Não se pode afirmar que haja ausência de algum minério, mas a quantidade deles é muito pequena. E isso não se refere ao fato de no passado a extração mineral ter sido exacerbada, mas sim à natureza do solo em si, uma vez que, mesmo nos tempos mais longínquos, nunca houve no arquipélago uma abundância de metais preciosos (por exemplo), como a encontrada na América. Talvez esta escassez mineral indique que o arquipélago teve sua formação muito mais recentemente do que a América do Sul.

É possível que o Japão tenha tido a primeira cerâmica do mundo, pois de acordo com os testes de Carbono 14, chegou-se a uma data aproximada de 10750 a.C. para algumas peças encontradas no arquipélago.

3 – Tipos Étnicos Japoneses:
De acordo com o que se sabe nos dias de hoje, é extremamente incorreto, para não dizer preconceituoso, falar em raças para seres humanos, pois todos somos membros da mesma espécie, os homo sapiens. No entanto, existem biótipos diferentes, diferença esta que era muito mais clara em tempos passados, quando a mistura entre os povos não era tão acentuada. A grosso modo, podemos dizer que existem quatro biótipos básicos de seres humanos: negros, brancos, vermelhos e amarelos. Na realidade, até mesmo dentro desses biótipos principais existem pequenas variações que nós, historiadores, geógrafos, antropólogos, arqueólogos etc., classificamos como etnias. Uma etnia é normalmente caracterizada por um povo que se desenvolveu à partir de um mesmo grupo antigo; muitas vezes etnias vizinhas têm as mesmas características físicas, mas são denominadas diferentemente por causa de suas raízes históricas, arqueológicas e antropológicas.

Segundo o pensamento da maioria, a única etnia existente no Japão é a amarela. No entanto, isso não é uma verdade inteira. Tal como os vermelhos, os amarelos, de um modo geral, têm pouco ou nenhum pêlo no rosto e muito poucos pelo corpo. Além disso, existem algumas diferenças entre tonalidades de pele entre os amarelos do Japão e os do continente, por exemplo. Partindo-se desse princípio, poderemos constatar que parte da população japonesa (parte muito pequena, diga-se de passagem) tem características físicas diferentes dos demais. Esses indivíduos, que constituem hoje não mais do que 30000 pessoas, são descendentes de um povo que habitava, desde tempos muito remotos, a ilha de Hokkaido. Ao que parece, a etnia se assemelha muito aos naturais do Cáucaso, podendo ser oriunda dos montes Urais, na Rússia. Esta etnia é conhecida como Aino e, apesar de também ser Japonesa, não será mais referida neste trabalho, por não representar parte significativa na História do Japão. Os Aino foram incorporados à população Japonesa quando o Império, que se desenvolveu na região sudeste, começou a ocupar todo o arquipélago.


4 – Cultura e Sociedade:
A sociedade japonesa é vista pelo mundo como extremamente machista (as mulheres ainda hoje, mesmo realizando as mesmas funções de um homem, são pior remuneradas), além de cultuar a família, os ancestrais, seus deuses (do panteão xintoísta) e ter um caráter metódico de trabalho. Na realidade, a sociedade nipônica nem sempre foi assim. Já houve épocas em que mulheres foram Imperatrizes (ou tenno) e governaram a nação. Entretanto, uma série de transformações de cunho militar (as quais serão amplamente explicadas no decorrer do texto), seguidas de transformações religiosas, fizeram com que as mulheres fossem relegadas a um papel de coadjuvantes dos homens na sociedade. Este papel está, somente nos dias de hoje, sendo gradativamente anulado, com as mulheres conseguindo obter a igualdade em relação aos homens em muitos campos de atuação social. Entretanto, mesmo hoje não se pode dizer que a igualdade seja plena. Outros fatores que sempre nos chamam a atenção quando nos referimos ao Japão são a caligrafia diferente, a arquitetura peculiar, as artes e também os estilos de lutas marciais, em especial o Karatê e o Judô, mas também o Sumô, o Aikidô e outros.

A grande maioria das características japonesas foram profundamente influenciadas pelas relações dos nipônicos com a China e a Coréia, onde a civilização (como é entendida por nós, ou seja, com uma estrutura de governo central) era bem mais antiga. Existe inclusive uma teoria muito defendida e quase comprovada de que os primeiros reinos japoneses estavam sob o domínio ou da China ou da Coréia (à época dividida em dois Reinos: Silla e Paekche). Das relações com esses povos do continente vieram todos os principais preceitos da civilização japonesa, como a religião budista, a caligrafia, que ao longo dos séculos foi adaptada e transformada), mas que originalmente foi copiada da caligrafia chinesa por volta do século V da era Cristã, e muito do cerimonial da corte Chinesa.

A arquitetura Japonesa também teve inspiração na de seus vizinhos. É óbvio que os japoneses não copiaram única e exclusivamente a arquitetura da China (assim como também não copiaram, pura e simplesmente, nenhuma das influências recebidas), mas foram influenciados, assim como os Romanos foram influenciados pelos Gregos. Também as artes marciais japonesas, ao que tudo indica, têm inspiração em outras artes mais antigas praticadas no continente. Por exemplo, o Karatê (Karate-Do, ou seja, Caminho da mão vazia (sem armas)) é uma provável evolução do Kung-Fu, há muito praticado na China. Já o Judô (Ju-Do, ou seja, Caminho suave) é uma provável evolução do Jiu-Jitsu (ou seja, luta livre), arte marcial sobre a qual existem controvérsias se é originária do Japão ou da Índia, sendo porém a segunda hipótese mais aceita.

As Histórias de tais artes marciais se confundem com a mitologia, mas é provável que exista um fundo de verdade quando se diz que o Karatê foi criado por um monge budista que, impedido por sua doutrina de usar armas, precisava se defender de alguma forma dos bandidos que o atacavam em suas peregrinações e por isso, criou o Karatê.

É interessante e bonita a arte oriental - não só a Japonesa, mas também a de todo o oriente. É claro que também se trata de um assunto muito amplo, sobre o qual um especialista poderia até defender uma tese. Eu, ao contrário, vou me limitar a deixar algumas imagens falarem por si só. Devo apenas ressaltar uma coisa que me chamou deveras a atenção: os túmulos em forma de fechadura, sobre os quais falarei mais profundamente quando estudar a Pré-história Japonesa.
5 – As Religiões e Filosofias Nipônicas:
A respeito das religiões e filosofias do Japão, mais uma vez constatamos a impossibilidade de se dissociar o arquipélago do restante do oriente. Salvo a exceção do Xintoísmo, que, como veremos, foi realmente criado no Japão, as demais doutrinas (sendo religiões ou filosofias) instituídas no país vieram todas de fora. Veremos neste item algumas das principais religiões e filosofias nipônicas, sem querer dizer que outras além destas não tenham influenciado o Japão em determinadas épocas de sua História.
5.1 – Religião ou Filosofia? Qual é a diferença?
Esta é uma questão complexa, mas que pode ser simplificada em poucas palavras. Toda religião é por princípio uma filosofia, mas nem toda filosofia é uma religião. A palavra religião deriva do termo latino religare, que quer dizer reunir, religar; ou seja, uma religião pressupõe a crença em um deus ou deuses. Numa expressão, entidades superiores, que possivelmente são as responsáveis pela criação do homem. Assim, o homem teria sido criado pelos deuses e depois se separado deles: daí a religião buscar a reunião entre criador e criatura.

E o que é uma filosofia? O nome não nos diz nada, pois filosofia vem do grego philos, que quer dizer amizade, e sophia, que quer dizer sabedoria. A tradução seria “amigos da sabedoria” (ou também sabedoria amiga). Pois bem, uma filosofia seria uma forma de se viver, coerente com seus princípios; ou seja, você deve viver de acordo com o que acredita ser certo. Sendo assim, por dedução pode-se concluir que uma religião é necessariamente uma filosofia, mas a recíproca nem sempre é verdadeira.

No ocidente, não estamos muito habituados a conviver com filosofias puras e simples, apenas embutidas nas religiões. Nossa cultura é impregnada dos germes do Cristianismo e, portanto, não nos permite imaginar um mundo sem termos um Deus (ou pelo menos Deuses) em quem se acreditar. É notável que para os orientais isso não seja uma inteira verdade. Justamente por isso surgiram doutrinas como o Budismo e Confucionismo, que não se centram na existência ou inexistência de deuses, mas sim numa maneira de se viver melhor.

As religiões de um modo geral tendem a nascer alimentadas pela necessidade de conhecimento que o homem tem. O homem sempre quer todas as respostas e, como não as têm, procura acreditar que alguém as tenha. Esse alguém seria um ser superior, ao qual é atribuído tudo aquilo que não se pode provar. É justamente por isso que as religiões ao longo do tempo sempre se detiveram a impedir os avanços científicos, pois a cada coisa nova que se descobria um deus velho morria, ou então o único deus se enfraquecia. Diferentemente destas, as filosofias não servem como instrumento de dominação social (pelo menos na maioria dos casos, pois é claro que algumas filosofias, como o próprio Confucionismo, justificam formas de dominação), pois à medida que não se teme o desconhecido e apenas aceita-se os que, por ventura, controlam as fontes de contato com o desconhecido, elas perdem poder e não exercem dominação.

Não devemos, no entanto, nos enganarmos achando que as filosofias são todas boas, pois não se deve esquecer que o próprio Nazismo era uma filosofia que cultuava superioridade da raça ariana, o que estava totalmente equivocado, pelo simples fato (que já mencionei) da não-existência de raças humanas. Mas vejamos agora as principais religiões e filosofias que estavam presentes no contexto do Japão e de seus vizinhos.
5.2 – O Budismo:
O Budismo é talvez a filosofia oriental mais conhecida no ocidente de hoje em dia. Sua origem remonta à vida do príncipe Indiano Siddhartha Gautama, filho do Rei Suddhodana, do Reino de Sakyas, no norte da Índia, próximo à cordilheira do Himalaia. Por volta de 560 a.C., nasceu Siddhartha. Sua vida estava cercada de luxos, mas ele enclausurado dentro da capital do Reino, a belíssima e riquíssima cidade de Kapilavatthu. Certa vez, curioso por saber por que o pai não o deixava sair da cidade, o menino fugiu para ver como era a vida do povo do Reino. Ao passear pelos campos, o príncipe se entristeceu em ver coisas que nunca tinha visto: pessoas doentes, mortes, trabalho forçado; em suma, o sofrimento.

Siddhartha então resolveu nunca mais voltar para sua cidade, passando a compartilhar daquele sofrimento todo em busca de uma maneira de extingui-lo. Por muito tempo o jovem príncipe meditou e jejuou, mas depois de seis anos, abandonou tais práticas e passou a crer que a chave estava na ponderação: não era o sofrimento físico que trazia a purificação espiritual, mas sim o desapego das coisas mundanas. Tal descoberta o fez desenvolver sua forma de não sofrimento, que pode ser definida com a seguinte frase atribuída ao próprio Siddhartha: “Nada deve ser agarrado ou preso de qualquer forma”. Este ensinamento pode ser interpretado assim: jamais devemos nos apegar a coisa alguma, pois quando nos prendemos às coisas sofremos, pois inevitavelmente um dia nós perderemos aquilo a que somos apegados.

Se uma pessoa sofre, ela está em Dukkha, mas se é feliz está em Nibbana. Como se vê, o Budismo também possui conceitos semelhantes aos de inferno e paraíso, mas sem a conotação de lugar físico, e sim de estado de espírito. Depois de desenvolver sua teoria, Siddhartha pregou-a por 45 anos até sua morte. Neste tempo, adquiriu vários seguidores e passou a ser conhecido como: Buddha (O Iluminado).

O caminho para se desapegar das coisas e das pessoas é chamado de Caminho Óctuplo. E é da seguinte maneira dividido:

Bloco A: Sabedoria

1 – Visão Correta

2 – Intenção Correta

Bloco B: Ética

3 – Fala Correta

4 – Ação Correta

5 – Meio de Vida Correto

Bloco C: Concentração

6 – Esforço Correto

7 – Atenção Correta

8 – Concentração Correta

Após a morte de Siddhartha, seus seguidores saíram pelo mundo para levar seus ensinamentos adiante, atingindo o Japão em 538 d.C.. No país, o Budismo se tornou a doutrina dos ricos e da corte, e isso justifica o porquê de existirem tantos Pagodes (locais de culto, templos budistas) luxuosos e suntuosas por todo o território. Entretanto, o fato de uma religião ser elitista não a favorece a ser aceita por grande parte da população do país, como ocorreu posteriormente com o Budismo. Este fato se deve à esperteza dos monges budistas, que souberam sobrepor sua doutrina aos kami, deuses locais do Xintoísmo. Sendo assim, o Buddha ou Butsu, como ficou conhecido no Japão, passou a ser uma divindade também do panteão Xintoísta, sendo considerada sua principal divindade. Sendo assim, no Japão aos poucos o Budismo deixou de ser meramente uma filosofia para se tornar, de fato, uma religião.

A união entre o Budismo e o Xintoísmo no Japão só foi desfeita com a restauração Meiji, em 1868, quando, tentando legitimar sua autoridade Imperial, o Imperador Matsu-Hito determinou a separação entre as filosofias, além da substituição da figura do Butsu como principal divindade do panteão pela deusa do Sol, da qual a família Imperial Japonesa alegava descender.


5.3 – O Xintoísmo:
Diferentemente do Budismo, o Xintoísmo é uma religião, e não apenas uma filosofia de vida. É claro que se levarmos em conta o budismo como ele existiu no Japão até meados do século XIX, este de fato constituiria uma religião, mas não é esse o verdadeiro Budismo. Não teve um criador, tal como as demais doutrinas que tratarei neste item 5, e também foi a única doutrina criada no Japão. Pode-se caracterizá-lo até mesmo como não sendo uma única religião antes da chegada do Budismo ao arquipélago, no século VI d.C.. Vejamos, agora, o porquê.

Desde os primórdios da existência da civilização nipônica, quer sob o domínio chinês quer não, a sociedade era dividida internamente num sistema de clãs. Estes clãs se assemelhavam muito, no que diz respeito a sua estrutura interna, àquilo que foram os Genos da Grécia antiga, ou seja, um grupo relativamente grande de pessoas ligadas por laços de parentesco e vivendo juntas sob a autoridade de um patriarca (ou às vezes matriarca). É claro que, de acordo com a própria cultura oriental, muito diferente da cultura dita clássica, as semelhanças terminavam aí. Os clãs japoneses geralmente dominavam regiões que podiam ser maiores ou menores de acordo com a influência, poder militar e tamanho do clã. Dentro desta região, o patriarca do clã, geralmente o homem mais velho, era a autoridade maior. Os membros do clã cultuavam os seus kami, ou divindades, e estes poderiam ser virtualmente qualquer coisa ou pessoa (viva ou morta) a que fossem atribuídas qualidades divinas. O principal kami de cada clã era o (normalmente mítico) ancestral fundador do clã, e depois, os demais kami eram venerados sem uma ordem hierárquica fixa.

De acordo com tal descrição, podemos perceber que, salvo eventuais coincidências entre kami (pessoas famosas, ou algum lugar), não havia nenhuma relação entre os kami de um clã e de outro. Sendo assim, não se pode falar claramente em uma religião xintoísta antes da fusão com o Budismo. De qualquer maneira, por volta do século IV d.C., quando o clã Yamato começou a preponderar gradativamente mais sobre as demais organizações de Honshu, o clã desenvolveu uma política de ligar seu kami principal à deusa do Sol. Sendo assim, eles poderiam adquirir mais facilmente o respeito dos demais clãs.

É certo, no entanto, que uma hierarquização dos kami (ditos oito milhões no total, porém este número é apenas simbólico, já que podem haver infinitos) só começou a ocorrer quando, a partir do século VI, a figura do Butsu foi sendo sobreposta a todos os kami principais, de forma a se tornar a principal divindade Japonesa. À partir daí, começaram os cultos nacionais a determinadas divindades que eram por todos adoradas, tais como o Butsu (Buddha no Japão). A partir de então é que o Xintoísmo se tornou, de fato, uma só religião.


5.3.1 – Do, o Caminho das lutas:
Quando me referi anteriormente às artes marciais do Japão, em especial ao Karatê e ao Judô, citei, sem explicar, o “Do”, que quer dizer Caminho. Justamente por isso resolvi fazer este sub-item dentro do item sobre o Xintoísmo.

Conforme as lendas sobre a criação de tais artes marciais, sejam, ou não, elas inspiradas em outras pré-existentes, é provável que tenham sido ambas criadas por monges budistas (mas que também cultuavam o panteão xintoísta, como forma de mostrar ao povo que Butsu era de fato o principal kami). Sendo assim, as lutas não poderiam ser justificadas apenas como uma forma de defesa pessoal, muito menos como forma de ataque, pois isso era inadmissível numa doutrina tão rígida como a budista. Assim, para contornar o problema criado pela religião, os monges adaptaram para tais lutas uma rígida filosofia de vida, na qual as próprias artes marciais teriam seu kami. Ele seria Budo: o deus da guerra.

Para cultuar Budo, os monges e outros adeptos das artes marciais deveriam fazer uma série de orações e juramentos, tais como o de nunca portar armas e o de evitar o combate até o último instante, só optando por ele na falta de uma opção pacífica. Faziam parte dos treinamentos uma série de privações, tais como treinamentos em montanhas, onde o ar é rarefeito e a respiração torna-se difícil, ou mesmo treinos ao ar livre nos piores dias do inverno. Toda essa penitência visava não só cultuar Budo, como também, e talvez principalmente, trabalhar a mente dos praticantes no sentido de que eles aprendessem a controlar a dor, o frio e a respiração. Tanto que a principal filosofia das artes marciais japonesas (me refiro apenas ao Karatê e ao Judô) é o autocontrole. Com ele, acredita-se que é possível concentrar toda a energia do corpo em um só ponto e depois utilizá-la contra o adversário. O local de concentração energética se localizaria dois dedos abaixo do umbigo, e a energia é denominada ki.

Nos dias de hoje, o Karatê e o Judô se popularizaram também no ocidente. No entanto, na maioria das academias, toda a filosofia embutida nos ensinamentos físicos foi esquecida ou pura e simplesmente deixada de lado. Mesmo a utilização do ki não é muito difundida, pois muitos professores de artes marciais ensinam aos alunos apenas movimentos corporais, sem concentração e muito menos autocontrole. Mesmo assim, alguns poucos ensinamentos que sobreviveram foram suficientes para fazer com que a maioria dos praticantes dessas artes marciais sejam respeitados, ao contrário de praticantes de artes como o Jiu-Jitsu, que são temidos (luta livre), por não receberem nenhum tipo de ensinamento psicológico. Estes, como é sabido, desenvolvem apenas o físico e saem (muitas vezes) agredindo inocentes pelas ruas.

É importante notar que isto não é nenhuma crítica à beleza desportiva de qualquer arte marcial, pois eu mesmo já fui praticante delas. No entanto, espero que este item sirva como uma possível explicação para entender a raiz do problema da violência de jovens sem preparo que têm seus corpos transformados em verdadeiras armas.



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