Janete dias batista um paralelo entre o mito de narciso



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JANETE DIAS BATISTA

UM PARALELO ENTRE O MITO DE NARCISO

E A DEPENDÊNCIA QUÍMICA DENTRO DE UMA ABORDAGEM JUNGUIANA

Monografia apresentada ao Facis/IBEHE,

como exigência parcial para obtenção do título de

especialista em Psicologia Junguiana.

São Paulo/2002
RESUMO DO TRABALHO
O crescente aumento do consumo de drogas nos tempos atuais, somado a um acentuado número de pessoas que se tornam dependentes dela, traz uma intensa preocupação por parte de profissionais da área de saúde, entre outros, na busca de uma maior compreensão quanto a este fenômeno. É necessário encontrar soluções para o problema, podendo assim atuar de forma preventiva, bem como intervir clinicamente nos casos em que a dependência já está instalada .

O objetivo deste trabalho é compreender a conduta do dependente químico, dentro abordagem analítica do desenvolvimento psíquico.

O mito, como expressão do arquétipo e conseqüentemente do inconsciente coletivo, nos possibilita entender o processo de desenvolvimento da psique e os problemas inerentes ao mesmo.

Sendo assim, este estudo aborda o desenvolvimento psíquico dentro de uma visão arquetípica, desenvolvida por Erich Neumann, da interpretação do mito de Narciso como uma expressão do desenvolvimento arquetípico e conseqüentemente, das possíveis falhas ocorridas neste processo. e que justifiquem a dependência química.


Dedico este trabalho a todos que me acompanharam neste caminho, da concepção à execução, e que me ajudaram a acreditar ser possível sua concretização. Em especial ao meu marido, pela força e companheirismo e ao meu irmão pelo carinho e atenção.

ÍNDICE

Introdução ............ ........................................................................................... 05

Capítulo I – Dependência Química .... ............................................................... 06 1. A conduta do Dependente Químico ............................................... 13


Capítulo II – O Pensamento Junguiano ............................................................. 17

Capítulo III – O Desenvolvimento Psíquico ..................................................... 30

Capítulo IV – O Mito de Narciso ...................................................................... 41


  1. A História de Narciso .................................................................... 44

  2. A Interpretação do Mito de Narciso .............................................. 52

Capítulo V – O Mito de Narciso e a Dependência Química ............................. 62

Conclusão .......................................................................................................... 76

Bibliografia ........................................................................................................ 81

INTRODUÇÃO


Ao longo de minha vida tive oportunidade de acompanhar em várias situações pessoas dependentes de alguma droga, fosse ela álcool, maconha, cocaína, anti-depressivos, entre outros.

Muitas vezes me vi totalmente envolvida pela questão da dependência química. Confusão, desestruturação, medo, desespero e vontade de “pular a página”, o que, entretanto, é sempre impossível: o confronto com o dependente químico faz a “poeira levantar” e nos faz acordar de um sono profundo, onde nos deparamos com nossas “fraquezas” e “limitações”.

Num âmbito maior ele faz o mesmo com a sociedade: escancarando seu desajuste, negando-se a se adaptar às regras sociais, tornando-se improdutivo para o mundo capitalista, ele obriga a sociedade a repensar seus conceitos, a preocupar-se com o futuro dos jovens e consequentemente com o futuro dessa mesma sociedade.

A preocupação com a questão das drogas é, ainda que insuficiente, cada vez mais constante em nossa sociedade seja entre as famílias que vivem o drama no seu dia-a-dia, seja entre os profissionais de saúde e as autoridades, uma vez que, de uma forma mais ampla, envolve o tráfico e a criminalidade e cria problemas político-sócio-econômicos que fogem ao controle dos Estados. Além disso, a questão das drogas envolve muito preconceito, até mesmo nos meios profissionais e governamentais.

A mídia tem cada vez mais trazido esta questão à tona, tanto por meio de reportagens como, por exemplo, da exploração do tema em telenovelas, na tentativa de alertar a população em relação à questão, ainda que nem sempre de forma séria e profissional, procurando fornecer-lhes formas alternativas de lidar com uma situação que cada vez mais invade nossas casas.

Os traficantes estão dentro das escolas abordando adolescentes que, curiosos quanto às possibilidades do prazer imediato advindo do uso das drogas e desencantados com o mundo sem perspectivas por nós criado, se sentem cada vez mais atraídos por elas. Muitos conseguem experimentá-las e sair ilesos, outros se afundam cada vez mais, buscando reviver a sensação inicial que esta lhes proporcionou.

O objetivo deste trabalho é fazer um paralelo entre a conduta do dependente químico e o mito greco/romano Narciso, entendendo como dependente químico aquele sujeito para quem a droga e sua utilização são parte do aspecto central de sua vida. Segundo Silveira Filho: “[...] o dependente de drogas é um indivíduo para quem a droga passou a desempenhar um papel central na sua organização, na medida em que, através do prazer, ocupa lacunas importantes, tornando-se assim indispensável ao funcionamento psíquico daquele indivíduo (ou seja, um dependente, ao contrário do usuário, não pode prescindir da sua droga).”1

Neste estudo nos limitaremos a análise do tipo de dependência em que se utilizam drogas que causam alteração da percepção da realidade e, dentre estas, as ilícitas, ou seja, dependência de cocaína e crack, entre outras.

Ao estudar o mito greco/romano Narciso pude perceber algumas semelhanças entre a conduta do dependente químico e o referido mito, surgindo o interesse por traçar um paralelo entre o mito e o fenômeno da dependência química, um pensamento à princípio puramente intuitivo. Entretanto, ao longo de minhas pesquisas pude perceber que este paralelo já havia sido feito por alguns autores, dentro de uma perspectiva psicanalítica, fato que reforçou minha hipótese e contribuiu para que buscasse fazê-lo dentro de uma abordagem junguiana.

Segundo a psicóloga Raïssa Cavalcanti, em seu livro O Mito de Narciso, a chave do tema narcisismo é a aceitação e o relacionamento com o outro. “Nos vários estágios do desenvolvimento, o outro está presente, contribuindo para a formação da identidade, desde as primeiras e mais primitivas relações objetais até o nível mais elevado de relacionamento com o outro transcendente, que é o Self. As falhas deste processo constituem os distúrbios narcísicos de personalidade nas suas várias expressões.”2

Narciso é aquele que se apaixona pela própria imagem, fica fixado em uma imagem virtual com dificuldade de afastar-se e perceber que a imagem a qual ele se fixou era ele mesmo. O mito mostra, portanto, a dificuldade de Narciso em se relacionar com o outro, a dificuldade em projetar seu amor no diferente, em se relacionar com coisas que não são suas; pessoas que não são ele; sentimentos que não são dele. E aos poucos Narciso vai definhando em sua fixação até à morte.

Quando pensamos em Narciso automaticamente nos vem a associação a uma atitude de inflação de Ego e egocentrismo, segundo o compositor Caetano Veloso: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Narciso se apaixona pela própria imagem por medo de enfrentar a realidade. Enfrentar a realidade é enfrentar o outro com todas as suas diferenças. O outro nos coloca em “xeque”, faz com que nos voltemos para nós mesmos e reflitamos a respeito de nossas “verdades”. Olhar o outro é abandonar nossa onipotência, é olhar para nossas fraquezas e limitações e nos colocar à prova.

Podemos perceber que o mesmo parece ocorrer com o dependente químico, existe uma falha na formação de sua identidade que está diretamente ligada às suas primeiras relações com o mundo, as relações objetais, as relações com pai e mãe, relações responsáveis por sua formação, por sua capacidade de adaptação ou não à sociedade. Parece faltar no dependente químico a força necessária para enfrentar o mundo e suportar as adversidades sem se desintegrar, para interagir, sentir prazer e desprazer, lidar com os conflitos e poder crescer com eles.

Sendo assim, aqui serão desenvolvidos os seguintes tópicos: dependência química, o pensamento junguiano, desenvolvimento psíquico dentro da abordagem junguiana, o mito de Narciso e sua interpretação, um paralelo entre o Mito de Narciso e a dependência química e conclusão.


I. DEPENDÊNCIA QUÍMICA
O homem sempre se utilizou de drogas, quer como forma de entrar em contato com o Nirvana, com os deuses, buscando assim uma transcendência do mundo concreto, quer como forma de buscar o prazer e um certo distanciamento da realidade, muitas vezes bastante “dura”, que enfrentamos no nosso dia-a-dia.

O uso de drogas é cada vez mais crescente em nossa sociedade, segundo dados da ONU, há hoje cerca de 180 milhões de usuários de drogas no mundo, tendo sido observado, segundo os dados divulgados pela organização em dezembro de 2002, que o consumo de maconha, cocaína, heroína e anfetamina aumentou em 60% entre o período de 1996 e 2001, em 112 países3.

É portanto mais do que justificável que exista uma crescente necessidade de entender o que leva o indivíduo a experimentar drogas e passar a consumi-las compulsivamente. Muitos jovens fazem uso da droga e não se tornam necessariamente dependentes delas. Entretanto, a maior dificuldade dos pais, dos especialistas em saúde e dos órgãos governamentais é que não podemos prever qual destes jovens se tornará um dependente químico.

Esta é uma questão de extrema complexidade, devido ao fato de não podermos falar a respeito de uma “personalidade do dependente”, dada a grande diversidade de fatores que podem favorecer o surgimento da dependência, o que inviabiliza o diagnóstico preventivo. Segundo Dartiu Xavier da Silveira Filho: “A especificidade da farmacodependência consiste na inexistência de uma especificidade estrutural do dependente de fármacos. Por mais que a nosografia psiquiátrica insista em categorizá-la como uma entidade nosológica autônoma, a clínica da farmacodependência não consegue reconhecer nada mais sistematizável do que uma conduta toxicomaníaca. Assim, em princípio, não podemos falar em ‘doença’, mas apenas em ‘conduta’”.4

Ao analisarmos o fenômeno da dependência química necessitamos fazê-lo a partir de três elementos, o chamado tripé: a droga, o homem e a sociedade. É importante compreender as drogas e seus efeitos no organismo, seus mecanismos de ação e qual o poder gerador de dependência física. Associado a este fator devemos entender o que leva o indivíduo ao contato com a droga e o que o leva a consumí-la de forma compulsiva. Esta análise só poderá ser realizada dentro das características do grupo social no qual este indivíduo está inserido, já que os aspectos culturais determinam o comportamento da sociedade e, conseqüentemente sua postura diante da utilização das drogas. Um exemplo disto é o que nos diz Jandira Mansur: “Em Atenas, na Grécia, é comum os portuários se reunirem em pequenos grupos, no fim da tarde, após o trabalho. Conversam entre si, fumam maconha em um cachimbo feito de batata sem que o comportamento anormal ou anti-social seja observado; apenas à medida que vão fumando diminuem gradativamente a conversação.”5 Observamos diferenças significativas quanto à proibição ou liberação ao uso de drogas em diferentes países, o que em alguns é socialmente aceito em outro pode ser ilícito e vice-versa.

Neste trabalho iremos buscar uma compreensão da conduta do dependente químico, analisando a dinâmica de sua personalidade, dentro de uma compreensão simbólica, tendo como base a teoria de desenvolvimento da personalidade de acordo com a abordagem junguiana. Tal abordagem nos possibilitará a compreensão do fenômeno da dependência química sob o ponto de vista da psicologia do indivíduo, de seu desenvolvimento psíquico, sem nos atermos diretamente às especificações da droga e de seus efeitos diretos, mas sempre pensando este indivíduo dentro de um contexto social.

A diversidade de terminologias utilizadas por profissionais da área de saúde para se referir ao dependente químico é muito grande, sendo que encontramos na literatura especializada os termos: farmacodependente, toxicômano, drogadicto, narcodependente e dependente químico. Estas diferenciações parecem estar relacionadas à origem da palavra, sendo que encontramos na literatura francesa com maior freqüência a utilização do termo toxicômano, na literatura de origem argentina e mexicana o termo drogadicção. Na maioria das vezes, o mesmo autor utilizando duas ou mais terminologias na mesma obra, sugerindo não haver uma determinação de escolha do termo. Utilizaremos neste estudo o termo dependência química por julgarmos ser este o mais utilizado, carregando uma menor carga de valor negativo e portanto mais adequado ao nosso propósito.
1. A conduta do Dependente Químico

A utilização da droga e uma conseqüente dependência química é um sintoma da problemática do indivíduo e não a problemática em si. Na verdade a droga surge no caminho deste indivíduo como uma possibilidade de resgate de algo que ele julga ter perdido ou não possuir e, neste caminho por ele percorrido, ao invés de conseguir uma solução acentuam-se suas angústias, e cada vez mais se afunda ao repetir o caminhar pelo mesmo caminho, potencializando a problemática e buscando na droga uma possibilidade de solução, gerando um círculo vicioso que tende a levá-lo à uma crescente ruptura com a realidade que o cerca. Distancia-se da família, do círculo de amigos, de tudo o que remete à realidade, às regras e exigências sociais marginalizando-se gradativamente, limitando-se a freqüentar ambientes e a se relacionar com grupos onde as leis são regidas pelas drogas.

Segundo Silveira Filho6, o dependente químico, em geral, é uma pessoa que não consegue conviver com a realidade objetiva e/ou subjetiva e ao mesmo tempo não consegue modificá-la, ou seja, vive tomado de uma angústia e de uma insatisfação que não consegue solucionar e busca nas drogas alterar a percepção desta realidade. Sendo assim, esta, aos olhos do dependente químico, acaba sendo sua única possibilidade viável, passando a estabelecer com a droga uma relação indissociável, que impossibilita a vida sem ela uma vez que esta passa a ser responsável pela manutenção de seu equilíbrio.

A relação que estabelece com a droga torna-se então o fator principal em sua vida e tudo o mais é mantido em segundo plano. Seu mundo é regido por suas próprias leis e estas estão relacionadas com o mundo das drogas, adotando uma conduta de transgressão das leis vigentes na sociedade a qual está “inserido”. Tal atitude faz com que estabeleça comportamentos permissivos também com o próprio corpo. Como nos diz Silveira Filho: “A especificidade desta relação com a lei vai, entre outras coisas, contribuir para o estabelecimento de relações muito particulares do dependente com o seu corpo, que passa a ser o terreno de eleição para a inscrição de sua identidade. Assim, auto-erotismo, ambivalência sexual, androginia, vão constituir formas peculiares de expressão erótica desta personalidade.”7

O indivíduo perde a noção da realidade e dos valores morais, marginaliza-se, embarca numa viagem da qual o retorno é muito difícil e as vezes quase que impossível. Arrisca sua própria vida e a dos demais, arrisca sua liberdade, perde a possibilidade de escolha, a noção do perigo e o instinto de sobrevivência passando a ser controlado por uma constante necessidade de consumo.

Surgem sentimentos ambivalentes, onde por um lado o dependente possui dificuldade de aceitar e de se adaptar a uma realidade, denotando fragilidade e aspectos de insegurança e, por outro lado adota uma conduta onipotente, como se fosse imune às conseqüências de seus atos, testando os próprios limites em todos os aspectos de sua vida, tais como os limites corporais, afetivos e sociais.

Segundo Lescher: “A farmacodependência é um buraco negro que suga violentamente a criatividade, que escorraça a subjetividade em direção à intensos conflitos de natureza ontológica (constituição do Ser), ética e moral. Conflitos que estão em alguma região próxima daquilo que em mim deseja o prazer e daquilo que em mim teme o remorso. Desconexões sucessivas que restringem centripetamente, em relação ao ponto-eu, os limites da ação. O corpo perde potência e superfície, vai se ‘encasulando’ dentro dos limites da própria pele. Um corpo oprimido e fissurado.”8

Compreender a dinâmica da conduta do dependente químico nos remete a avaliar todo o percurso e todas as possibilidades de desenvolvimento psicológico deste indivíduo. Se nos lembrarmos que o dependente químico tem dificuldade em lidar com a realidade, seja ela a realidade objetiva ou subjetiva, teremos que retomar a questão do desenvolvimento psíquico uma vez que é no decorrer deste desenvolvimento que aprendemos a nos relacionar com os aspectos internos e externos da nossa realidade, adquirindo força e criatividade para lidar com as adversidades e modificá-la quando possível.


II. O PENSAMENTO JUNGUIANO
Uma vez que todo o tema do presente trabalho será abordado sob a perspectiva da Psicologia Analítica desenvolvida por Carl Gustav Jung, é necessário inicialmente que façamos uma explanação sobre o sistema teórico por ele postulado.

Jung realizou seus estudos a partir de suas própria vivência interna, bem como da experiência adquirida no trato com seus pacientes e das pesquisas profundas por ele empreendidas nas áreas de Filosofia, Religião, História, Alquimia, entre outras. De acordo com Byington,9 Jung centralizou todo seu trabalho no desenvolvimento psíquico da segunda metade da vida, a metanóia. Para ele, é a partir da segunda metade da vida que o indivíduo sente necessidade de se salientar em relação ao coletivo, de buscar sua singularidade, processo então denominado por Jung processo de individuação.

Segundo Fordham,10 Jung considera a psique como um sistema dinâmico, em constante movimento, sempre em busca de auto-regulação, este movimento acontece por meio da energia psíquica (a libido) resultante da tensão entre os opostos, ou seja, quanto maior a tensão entre eles, maior a energia psíquica liberada. Esta energia tem um movimento natural de progressão e de regressão, estando o movimento de progressão a serviço da consciência — e conseqüentemente da adaptação ao ambiente externo — , e o de regressão a serviço do inconsciente, relacionado às necessidades mais íntimas do indivíduo.

Jung, conforme nos conta Jacobi,11 iniciou suas pesquisas a partir do inconsciente, interessando-se pelo trabalho já desenvolvido por Freud. Entretanto, em seus estudos sobre os complexos, percebeu que além do inconsciente pessoal, haviam imagens que surgiam nos sonhos, nas produções artísticas, nos delírios e alucinações dos pacientes que iam além da vivência pessoal. Muitos destes elementos remetiam a componentes históricos e símbolos universais que fazem parte da história da humanidade. Conclui, então, que além dos conteúdos de nossa história pessoal, de nossas vivências desde a mais tenra idade, e que fazem parte de nosso inconsciente pessoal, estavam também guardadas em nosso inconsciente lembranças relacionadas à herança da humanidade.

O inconsciente pessoal guarda tudo o que envolveu nossas vivências e foi esquecido, reprimido, bem como guarda as percepções que não ultrapassaram o limiar da consciência. Representa a nossa história de vida pessoal e tudo que apreendemos do nosso contato com o mundo. O inconsciente coletivo, entretanto, é uma camada mais profunda, resultado da memória de nossa história coletiva, contendo o material hereditário legado pela humanidade. É constituído de arquétipos ou imagens primordiais. Diz Jung: “Dei o nome de arquétipos a esse padrões, valendo-me de uma expressão de Santo Agostinho: Arquétipo significa um “Typos” (impressão, marca-impressão), um agrupamento definido de caracteres arcaicos, que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore”.12

Os conteúdos do inconsciente somente podem ser constatados por meio de sua manifestação uma vez que são intangíveis e, como nos diz Jung, somente se revelam a nós por meio de seus produtos. Nosso acesso indireto às imagens arquetípicas ocorre por meio dos sonhos, dos atos falhos, das produções artísticas, dos contos de fadas, dos mitos e das lendas. Para Jung, portanto, quando nascemos já temos depositada em nós toda a história da humanidade, sendo por meio dessa matriz herdada que se desenvolve nossa psique.

O inconsciente coletivo é formado por arquétipos e estes são a base de toda a vivência humana. Os arquétipos são, como nos diz Jung: “sistemas vivos de reação e prontidão que, por via invisível e, por isso, mais eficiente ainda, determinam a vida individual.”.13 Complementa ainda seu pensamento dizendo ser o inconsciente coletivo a “fonte dos instintos” e os arquétipos as “formas de manifestação destes”. Os arquétipos são “possibilidades latentes” que recebem forma através do inconsciente pessoal e, portanto, das vivências pessoais, surgindo na consciência como uma imagem arquetípica. Sendo assim, toda imagem arquetípica tem sua raiz no inconsciente coletivo, no arquétipo, porém, surge carregada de significado pessoal. O arquétipo é universal e imutável, diz Byington,14 sendo que é a sua forma de expressão ou manifestação consciente que evolui de acordo com o desenvolvimento da humanidade.

Uma outra característica importante do arquétipo, segundo nos diz Jung, é a sua bipolaridade: “Assim como todos os arquétipos têm um caráter positivo, favorável, claro e orientado para cima, do mesmo modo eles têm também um aspecto orientado para baixo, em parte negativo e desfavorável e, em parte, apenas terrestre.”15

É por meio dos arquétipos, ou a partir, deles que surgem os complexos, sendo que estes são formados por um grupo de idéias ou imagens carregadas emocionalmente na psique inconsciente. Segundo Jacobi, Jung introduziu a noção de complexo, a princípio, partindo da teoria psicanalítica, definindo então o complexo como sendo um “agrupamento de idéias de acento emocional no inconsciente”. O complexo teria, segundo ele, um elemento nuclear, arquetípico e, portanto, fora do alcance da consciência, entendendo por consciência a superfície que cobre a vasta área do inconsciente e que se caracteriza por certa estreiteza, uma vez que ela só consegue apreender poucos dados simultâneos num dado momento, sendo que todas as percepções restantes são inconscientes, de acordo com Jung: “É impossível estabelecermos continuamente uma imagem de totalidade devido à própria limitação da consciência. A nossa possibilidade restringe-se à percepção de instantes de existência”.16 Outra característica do complexo é ser constituído por uma série de associações que ocorrem ao longo da vida do indivíduo e que estão ligadas a este núcleo inicial de acordo com as disposições naturais somadas às vivências externas. São justamente estas associações que fortalecem o complexo, tornando-o carregado de energia psíquica e fazendo com que adquira, caso não se torne consciente, cada vez mais autonomia, podendo surgir como uma personalidade própria e opor-se à vontade consciente. A dissolução do complexo é um dos pontos básicos da psicoterapia junguiana, pois ela tem como principal objetivo a ampliação da consciência e conseqüente liberação da energia psíquica que pode ser redistribuída, proporcionando assim maior equilíbrio psicológico.

Contudo, os complexos não podem ser entendidos apenas como um atributo neurótico. Mais do que apenas uma “doença”, eles formam a estrutura da psique, sendo o seu núcleo central o arquétipo e, como nos diz Jacobi: “o que provêm do inconsciente coletivo jamais é material ‘doente’, doentio só pode ser o que vem do inconsciente pessoal e nele sofre uma transformação e recebe uma coloração específica, resultante da sua inclusão numa esfera de conflito individual”.17

Jung considerava a capacidade de desenvolvimento da psique como um evento arquetípico, uma vez que este processo é comum à todos os seres humanos.

O inconsciente é a matriz de nossa consciência, ou seja, a psique se estrutura a partir do inconsciente. No início do desenvolvimento psíquico, o indivíduo gradativamente passa a se perceber como um “eu” separado do todo, desenvolvendo o que Jung chamou de



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