Janaína Alexandra Capistrano da Costa (uft – to)



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A Cabanagem na Vila do Tapajós (atual Santarém)


Estrutura colonial na hiléia.

As condições socioeconômicas e políticas na região da vila de Santarém, no Oeste da província paraense, não divergem das dominantes de outras zonas da Amazônia brasileira, no decurso do século XIX. Em primeiro plano encontra-se uma aristocracia rural ativa, proprietária de latifúndios e escravos, dona dos sítios de cacau e das fazendas de gado bovino, principalmente no Lago Grande da Franca. Deste grupo emerge uma elite administrativa da política e da burocracia. Outra facção do grupo dominante, contudo inferior, é composta pelos comerciantes, que utilizam o sistema de regatão. Completa este primeiro setor a Igreja de Santarém, sob a direção do vigário cônego Raimundo Antônio Fernandes, também vigário do Baixo Amazonas. O cônego Fernandes, além de político, cumpre relevante função intelectual de liderança da classe dirigente. É, ainda, proprietário de terras e escravos. Em setor antagônico, situa-se a maioria do povo, formada por índios, caboclos e os chamados “escravos de ganho”, todos sem nenhuma participação política na vila. São inelegíveis e não podem votar, além de cumprirem apenas atividades servis à sociedade dirigente. Uns desenvolvem incipiente agricultura de subsistência; outros são pescadores e, por fim, outros exercem profissões na construção civil, naval ou são sapateiros, alfaiates, barbeiros, remeiros, etc.


Antecedentes locais

O quadro socioeconômico e político da região de Santarém se configura semelhante ao da capital da província. Domina a cena política o grupo dos caramurus (‘reinós’), incentivado pelo Comandante das Armas, Major João Batista da Silva, e os filantrópicos, com perfil liberal. A notícia do vintismo português chega à vila tapajoara em 31 de janeiro de 1821, sendo comunicado em solenidade especial pela câmara da vila. Os vereadores santarenos são solidários aos portugueses em demonstração de subserviência às cortes de Lisboa. A resistência popular estabelece ‘núcleos’. Vale destacar, como agente dos ideais de independência, João Pedro de Andrade, mais tarde denunciado e preso sob acusação de ação subversiva. A vila de Santarém faz sua adesão à independência brasileira do reino luso no dia 19 de outubro de 1823. Em sinal de protesto pelo acontecido, o vigário português Pe. Manuel Fernandes Leal renuncia às funções e deixa a vila, sendo substituído pelo cônego conservador Raimundo Antônio Fernandes. Os liberais continuam descontentes, pois os ‘reinós’ permanecem no poder. A inquietação política no Baixo Amazonas conduz a vários episódios de confrontos bélicos, como a expedição que parte de Óbidos, Rio Negro e Santarém para retirar a vila de Alenquer do controle de revoltosos compostos por negros, índios e mestiços.

A 17 de abril de 1833, o presidente da Província, Brigadeiro José Machado de Oliveira, decreta reorganização administrativa. As vilas paraenses recuperam seus antigos nomes. A Vila de Santarém volta a ser chamada de Vila do Tapajós – até 30 de abril de 1841, quando outro presidente da Província, Souza Franco, restitui o nome de Santarém à vila, logo após desfecho da Cabanagem. A reforma eleva o vilarejo à condição de Comarca. Nesta condição, administra todo o Baixo Amazonas, detendo o Comando Militar e a Vigararia-Geral. A Comarca aglomera as vilas e povoados do Baixo Amazonas até a fronteira com a Comarca do Alto Amazonas – Faro, Pauxis (Óbidos), Vila Franca, Monte Alegre, Macapá, Porto de Mós, Gurupá. Por lei, a comarca se constitui gerida por um magistrado formado, nomeado pelo Imperador, com o título de Juiz de Direito. Assim, o Dr. Joaquim Rodrigues de Souza assume o cargo, além de combinar esta função com a de Chefe de Polícia do Baixo Amazonas. Por concentrar na vila o poder temporal e espiritual da região, a vila do Tapajós, como era então chamada na época da Cabanagem, é a “‘mais poderosa do sertão’, contando com 5.261 habitantes livres e 1895 escravos”.111 Pela sua relevância geográfica, econômica, política e religiosa, as atenções se voltavam para seu destino na conjuntura revolucionária paraense.

As mortes do presidente Bernardo Lobo de Sousa e do comandante das Armas, Coronel Santiago, ao tempo da conquista de Belém pelos revolucionários (07/01/1835), assustam as Câmaras do Baixo Amazonas. Elas coligam-se para manter a ordem em uma espécie de liga defensiva, sob comando e apoio de Santarém e Óbidos. As câmaras de vereadores das Comarcas do Baixo e Alto Amazonas manifestam protesto contra o levante cabano e declararam ilegal o governo que então se instalara na capital da província.
A importância de Santarém no contexto da revolução popular

A Vila do Tapajós, pela sua condição de sede da Comarca e por sua posição geográfica, é o centro político mediador do embate entre as legiões revolucionárias e as forças legalistas. Também é o ponto de intermédio entre Belém e o sertão amazônico. Na vila tapajônica se reproduz, em menor escala, a mesma complexidade sociopolítica da capital.


Cenas de uma guerra anunciada
Os cabanos, pertencentes à classe de maior contingente na sociedade amazônica, deixam fluir seus sentimentos de contrariedade contra o branco detentor dos segmentos econômico e político na região nortista. Promovem sobressaltos às elites por demonstrar, anteriormente à revolução, uma humanidade subserviente e tolerante, em quietude de escravização. Depois de anos de submissão, cobram, com o braço armado, o direito de exercitar livremente a cidadania. Após a invasão de Belém, as autoridades santarenas prepararam-se para preservar a legalidade na vila e para uma possível invasão dela pelos revoltosos. O movimento cabano se irradia por toda a Amazônia, articulado pela estratégia de posicionar os cabanos em pontos específicos. Por onde passam, os insurgentes deixam notícias alarmantes.
O Dr. Joaquim Rodrigues de Sousa lidera comandos com a finalidade de manter a ordem e a legalidade. constitui uma Junta de Salvação Pública, encarregada de promover a defesa. Para tanto, convoca a Guarda Nacional e transforma a vila em fortaleza. Instala um quartel no sobrado do fazendeiro Luiz Vicente de Miranda, o “Quartel do Sol”. As forças legais esperam uma invasão do exército cabano pela praia. Embarcações com militares ficam de vigília em frente à vila, mas, em vão, o ataque imaginado não acontece.

Preparação da tropa

Os militantes revolucionários possuem reduzias armas e munições. A despeito deste ponto desfavorável, arquitetam a tática de guerrilha para compensar a carência do armamento bélico – emboscadas, assaltos surpresas de pequenos grupos, etc. A arma principal dos cabanos é o facão. Também não dispõem de fardamento; vestem calças de algodão tingidas com casca de murici112. Possuem hábil serviço de informação, pois, ao investirem contra “determinado local, já sabiam com quem poderiam contar e a capacidade de resistência do adversário.”113 Antônio Maciel Branches, mestiço e pequeno sitiante, é um dos líderes cabanos na vila tapajoara. Além da massa desvalida, a revolução em Santarém recebe apoio de pessoas importantes da vila. Antônio Corrêa Picanço, de tradicional família, e Manoel de Oliveira da Paz, muito estimado na vila, se incorporaram à revolução pela substância nacionalista da causa, em face da tirania portuguesa.114



Ecuipiranga: fortaleza dos cabanos

Em Ecuipiranga (atual Cuipiranga), situada à margem direita do Amazonas e acima da foz do rio Tapajós, as milícias cabanas se concentram para organizar investidas pelo Baixo Amazonas, sobretudo à Vila do Tapajós. Ali constroem uma “fortaleza” sob comando de Miguel Apolinário Maparajuba, que acrescenta “Firmeza”115 ao nome para identificar seu ânimo indomável e convicção na peleja revolucionária. Do mesmo modo, o último presidente cabano, Eduardo Nogueira, recebe o codinome “Angelim”, metonimizando a retidão e têmpera do seu caráter. O chefe cabano santareno não corresponde à imagem do rebelde desalmado e inescrupuloso – segundo os boatos correntes em tempos de cabanagem. Ao contrário, é reconhecido como homem lúcido e atinado ao bem de todos. De Ecuipiranga, Maparajuba Firmeza emite proclamações aos cabanos e ao povo para permanecerem unidos e convencidos de suas convicções.

Em que pese a vigilância da guarda santarena sobre o rio, os cabanos se aproximam a partir de Ecuipiranga, dirigindo-se pelos flancos, em vez de se aportarem pela praia fronteira. Contrariamente aos batalhões legais, que dependem de soldados de outras regiões e até do exterior, o contingente cabano em Santarém forma-se com grupos provenientes das plantações de cacau, das fazendas e das cabanas margeantes dos rios e lagos da região – vaqueiros, pescadores, agricultores e escravos fugidos, em grande parte, do Lago Grande da Franca.

Cerco de Ecuipiranga.

Os militares forjam uma estratégia para demolir a fortificação de Ecuipiranga. Entendem que o fortim é o lugar estratégico de ataque e resistência cabana. Desse modo, deveriam expulsá-los de lá. Com este objetivo, o Tenente-Coronel da Guarda Nacional, José Joaquim pereira macambira, comanda uma ação militar (64 soldados) contra o reduto revolucionário, mas sem sucesso. Muitos soldados são feridos, e, do peito de um deles, retiram um projétil com marcas feitas dentro do quartel. À semelhança do que aconteceu em Belém e em outras cidades e vilas, soldados legalistas recusam a farda oficial e contribuem com a causa revolucionária. O próprio líder cabano Angelim fora membro da Guarda Municipal Permanente, em Belém. O projétil dos legalistas no colo de um soldado do reino confirma repasse abstruso de munições aos cabanos. A zona da Aldeia (sítio margeador do lago Mapirí, desaguante no rio Tapajós) é o lugar onde os cabanos de Ecuipiranga e os da vila transacionam sem provocar desconfiança. A este lugar, os cabanos chegam de canoa à remo disfarçados de pescadores ou pessoas insuspeitas.



Contrapartida da revolução.

No dia 27 de fevereiro de 1836, a Câmara tapajônica se reúne extraordinariamente e apela para que o Juiz de Direito, o Juiz de Paz e as forças navais ancoradas no porto lhes venham ao auxílio, mas não encontra guarida. Agindo por si mesma, envia uma embaixada aos cabanos. A resposta é um ultimato, pois entendem que os poderes jurídico, militar e político da vila não representam embargo insuperável para os sucessos da jornada revolucionária. O conteúdo do ultimato à Câmara da vila é um imperativo para que ela promova a adesão ao governo provincial cabano de Eduardo Angelim, instalado na capital, Belém. De outro modo, invadiriam a vila e puniriam os vereadores.

Forças revoltosas, lideradas por Antônio Maciel Branches, aceleraram os acontecimentos. O provo oprimido, ávido por ultimar com séculos de despotismo, parte da Aldeia e adentra na Câmara, com o escopo de exigir urgentemente o cumprimento do ultimato proferido.

Vitória cabana em Santarém. A Câmara de Vereadores da vila do Tapajós, pressionada pelas contingências, se reúne em sessão no dia 9 de março de 1836 para anunciar a adesão da vila ao governo Angelim e divulgar que outras câmaras do Baixo Amazonas lhes sigam o exemplo.116 O livro-ata acusa a assinatura dos seguintes vereadores: Raimundo Dias Leão, substituindo o presidente João de Deus Ferreira Canuman; João de Deus Leão, secretário da sessão; Pedro Alexandrino de Lira; Lourenço Antônio da Silva; Bento José Rebelo; Lizardo Antônio Loureiro e João Caetano de Souza Barreto. Segundo o Historiador João Santos, o governo cabano na Vila de Santarém fica ao comando dos revolucionários Braz Antônio Correa, nomeado Comandante geral das forças, e Francisco Antônio Batista, alferes comandante117. O historiador Arthur C. F. Reis informa que o comando militar é entregue a Bonifácio Nunes de Arruda118. Pasquale Di Paolo registra que, também, Hermenegildo Fernando Valente assume funções de comando119. O novo governo toma medidas extremadas, ordenando várias mortes, entre elas a do comerciante português Miguel Pinto Guimarães.

Autoridades fogem de Santarém

As autoridades legais de Santarém decidem abandonar a vila, vergadas ao fracasso perante o forte cabano, pois, se depusessem as armas, poderiam ser mortos. Os cabanos contabilizam apoio da maioria da população santarena. Assim, as forças legalistas, representadas pelo juiz da Comarca, dr. Joaquim Rodrigues de Sousa, e comandadas pelo capitão peruano Ambrosio Aires, além do vigário da paróquia e de pessoas representativas e comprometidas com a situação dominante, procuram abrigo fora da vila, sobretudo em Macapá.

Os cabanos, dotados de impulso pela vitória na vila do Tapajós, passam ao Alto Amazonas e ocupam inúmeras localidades, pois não encontram nenhuma reação contrária, alcançando as fronteiras com o Peru, no Rio Solimões. Portanto, dominam incomensurável território da Província paraense.120 Após a recuperação do governo da província em Belém pelas forças do Império (13/05/1836), Santarém passa a constituir um centro político autônomo.

Volta do poder legal: declínio do governo cabano

Embora de posse do governo na vila do Tapajós, os cabanos se sentem incomodados por dois problemas. Por um lado, os escravos da freguesia de Bararuá organizam-se em um grupo armado independente, comandados por Manoel Pedro dos Anjos, com a pretensão de tomar a vila tapajoara segundo estratégias anti-revolucionárias. Por outro, a formar um triângulo de reivindicações, estão os ‘legalistas’ ricos, interessados em retomar o poder, capitaneados pelo padre Antônio Manuel Sanches de Brito. Fica a dúvida se o grupo de Manoel dos Anjos e os legalistas de Ambrósio Pedro Aires, por não guerrearem entre si, tinham um acordo ao combate dos cabanos.

A reação à resistência cabana começa pela Comarca paraense do Alto Amazonas, sediada em Manaus. Destacamentos militares fiéis às forças imperiais se apoderam de Manaus. No Baixo Amazonas, tropas militares da vila de Pauxis (Óbidos) expulsam os revoltosos desta vila – episódio referenciado no conto “O donativo do Capitão Silvestre”, de Contos amazônicos (1893), do escritor Inglês de Sousa, nascido em Óbidos (28/12/1853) e falecido no Rio de Janeiro (06/09/ 1918).

Depois de cercar Belém e recuperá-la para o Império brasileiro, as esquadras que servem ao novo Presidente da Província paraense, General Andréia, ficam livres para combater as resistências cabanas no interior. Deste modo, ao amanhecer do dia 4 de outubro de 1836, aporta às margens do rio Tapajós uma força naval para restaurar a legalidade imperial. A campanha militar apresenta três escunas e 105 homens armados. Em terra, os cabanos não dispõem de armamento adequado para resistir ao ataque dos agentes marinheiros (portugueses). Após breve oposição, sucumbem. Reintegrado o poder da vila à corte do Rio de Janeiro, o contra-ataque das milícias legais não manifesta misericórdia aos cabanos. A ordem é para matar os insurrectos: “Centenas de corpos cabanos ficaram jogados nas poucas ruas da vila. Estava imposta a “ordem e a legalidade”.121 É o momento da restauração.

Entretanto, o fortim de Ecuipiranga resiste às investidas da força legal. O capitão Ambrosio Aires articula a tomada do último reduto cabano com auxílio do padre Antônio Manuel Sanches de Brito,122 então vigário de Juruti, e responsável por aliciar em seu favor a nação Munduruku. Por fim, a afamada fortaleza de Ecuipiranga sucumbe a 12 de julho de 1837. O cerco revela a já conhecida valentia dos guerrilheiros paraenses e sua argúcia para sobrevivência. Os entrincheirados não possuíam canhões. Enganavam a todos com o ardil de prepararem troncos de palmeiras pintadas de preto de modo a sugerir que fossem canhões, se avistados de longe.

Os combatentes cabanos na vila do Tapajós foram, sobremaneira, o índio e o caboclo. Em outros lugares da Província, o negro escravo teve destacada participação, como ilustra o contexto da guerra na capital Belém. Os escravos se misturaram às tropas cabanas tapajônicas, mas com um contingente acanhado. De outra maneira, ficaram fiéis aos seus senhores ou formaram grupos independentes com objetivos particulares, conforme explicitado anteriormente.



Resistência e colapso

O presidente cabano Eduardo Angelim abandona Belém a 13 de maio de 1836. Ele organiza uma retirada estratégica da capital, bloqueada pela esquadra comandada pelo General Andréia. Ao final do mesmo dia, Andréia ancora em Belém. Dessa data para diante, os cabanos iniciam a luta de resistência no interior da província, sabe-se já. A queda do governo cabano em Santarém também viabiliza esta qualidade popular marcial. A guerra civil até o momento ainda não apresenta sinais de trégua. Os cabanos possuem em seu favor o conhecimento da região, da floresta e da rede hídrica da bacia amazônica, além da cooperação dos camponeses. Levam vantagem sobre as forças legais, ainda, tendo em vista seus procedimentos de guerrilha. Entrementes, segue vagarosamente a perseguição aos cabanos. Neste sentido, se estabelece em Santarém a sede de comando da Expedição do Amazonas, tendo como chefe Tenente-Coronel Joaquim Luís de Sousa. Frotas navais e tropas terrestres, formadas por unidades com componentes do Nordeste e do Sul do Império, integram armada governamental. Ecuipiranga resiste ao cerco dos soldados do reino até julho de 1837.

As guerrilhas, incansáveis, não permitem a vitória fácil e rápida das forças imperiais. Mas com o tempo aparece o desgaste das milícias populares. Os próprios cabanos vislumbram o aniquilamento próximo das suas resistências bélicas. Aos poucos, os grupos de guerrilheiros diminuem.

Anistia

O General português Andréia é exonerado da presidência do comando das armas no dia 08 de abril de 1839. Acaba a Lei Marcial na Amazônia e inicia a Ordem Jurídica com o 14o. presidente, Bernardo de Sousa Franco. O militar português sai vitorioso das funções,

mas sua vitória foi alcançada com alto preço, a mancha histórica do genocídio: os cabanos mortos nos campos de batalha [...], as numerosas levas de presos – que diariamente chegava à capital e que em sua maioria ia morrendo nas prisões e nos hospitais – e as incalculáveis vítimas das expedições de mortes carregavam de triste lembrança as medalhas recebidas por uma questionável vitória. (DI PAOLO, 1990: 346)

Sousa Franco, ao lidar com inúmeros processos advindos da guerra civil e ao reconhecer as injustiças empreendidas pelas forças legais, embora não solidário à causa cabana, entende que o procedimento para restabelecer a ordem jurídica e a paz na Amazônia seria por intermédio da anistia. Assim, discursa na abertura da Assembléia Provincial de 15 de agosto de 1839: “Pedi ao governo imperial anistia excepcional, com exclusão dos assassinos, chefes, comandantes de pontos, oficiais a serviço do rebelde Eduardo Angelim [...].”123. A Anistia Excepcional é divulgada em 4 de novembro de 1839. Vários grupos cabanos depõem as armas, como fazem 980 índios, em 25 de março de 1840, às autoridades de Luzéia (Maués) e 200 guardas policiais, das vilas do Tapajós e de Pauxis. O decreto da Anistia Geral data do dia 22 de agosto de 1840. É assinalado o prazo de sessenta dias para os últimos cabanos se apresentarem às autoridades civis ou militares. Entretanto, o presidente da província podia condicionar a anistia ao desterro, nomeadamente se o insurgente integrasse alguma liderança cabana – foi o que aconteceu com os ex-presidentes cabanos Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, desterrados para a ilha de Fernando de Noronha, onde permaneceram por dez anos.

BIBLIOGRAFIA

Di Paolo, pasquale. Cabanagem – a revolução popular da Amazônia. Belém: Cejup, 1990.

FONTES, Edilza. (Org.) Contando a história do Pará – da conquista à sociedade da borracha (séc. xvi-xix). Belém: E. Emotion, 2002.

RAIOL, Domingos Antônio. Motins políticos. Belém: UFPA, 1970. v. 3.

REIS, Arthur Cezar Ferreira. Santarém: seu desenvolvimento histórico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

SANTOS, João. Cabanagem em Santarém. Santarém: Livraria Ática, 1986.

SOUSA, Inglês de. Contos amazônicos. Belém, EDUFPA, 2005.

VERÍSSIMO, José. Estudos brasileiros – segunda série (1889-1893). Rio de Janeiro/São Paulo: Laemmert & C., Editores, 1894.

­______. Estudos amazônicos. Belém: Universidade Federal do Pará, 1970.



A MULHER EM GENÉRICOS DISCURSIVOS DE REVISTAS FEMININAS NO BRASIL NA PRIMEIRA METADE DO SÉC. XX
Leda Verdiani Tfouni

Paula Chiaretti
RESUMO: É na primeira metade do século XX, marcada uma tentativa de manutenção de moldes sociais, que surgem as primeiras revistas femininas. Objetivo deste artigo foi investigar como essas revistas falavam sobre a mulher no Brasil neste período através dos genéricos discursivos. Foi utilizado como referencial teórico-metodológico a Análise do Discurso Pêcheutiana, que visa investigar o processo histórico de produção dos sentidos. A análise dos recortes mostra que essas revistas construíam sentidos sobre o que era ser uma mulher, sentidos esses que procuravam criar um modelo de feminilidade ligado à reclusão ao lar e à fragilidade feminina.
PALAVRAS-CHAVE: revistas femininas, genéricos discursivos, Análise do Discurso Pêcheutiana.

ABSTRACT: It was in the first half of the XXth century, marked as an attempt to the maintenance of the social molds that the first Female magazines emerged. This article aimed to examine how these magazines dealt with women in Brazil through generic-discourse, discursive formations similar to formulas characterized by the meaning naturalization. It was used the theoretical-method reference of the Pêcheux Discourse Analysis, which objectives to investigate the historical process of meaning production. The analysis shows that these magazines built meanings about being a woman and these meanings tried to create a femininity model connected to the reclusion to home and to the feminine fragility.

KEY-WORDS: Female magazines, generic-discourse, Pêcheux Discourse Analysis.
No século XIX, a imprensa era exclusivamente voltada aos interesses da Corte Portuguesa e dos portugueses, que viam no território brasileiro apenas uma moradia provisória (MARIANI, 2001). Já no século seguinte, a cultura brasileira era marcada por uma produção altamente nacionalista, contra o elitismo e o europeísmo. Co-existia, no Brasil desse período, uma cultura ainda conservadora, advinda de costumes do século XIX, principalmente no que se refere ao tratamento da questão do feminino, e uma outra modalidade cultural, que procurava arejar os costumes e trazer algum progresso para a sociedade e a intelectualidade do país, apesar de estes últimos continuarem ditando regras de comportamento e de moral em muitos setores.

Grossi (2000) postula que os movimentos sociais do inicio do século XX tinham como função contextualizar ao novo tempo o que havia sido conquistado com o Iluminismo e a Revolução Francesa; a industrialização, urbanização e o novo modelo político acabaram por separar claramente os espaços público e privado. Nessa separação, foi concedido à mulher um papel de gênero circunscrito quase que exclusivamente ao âmbito privado.



As revistas femininas

As grandes cidades, nesse período, eram as sedes da produção cultural, graças a sua formação heterogênea e ao convívio de classes e grupos sociais distintos o que possibilitava que estes grandes centros urbanos fossem lugares de questionamentos. A mídia cumpria um duplo papel de manutenção e questionamento. Nas três primeiras décadas muito foi discutido pela imprensa escrita sobre como deveriam ser as mulheres, os maridos, os casamentos, a educação dos filhos etc. Toda essa discussão “acabou por desumanizá-las (as mulheres) como sujeitos históricos, ao mesmo tempo em que cristalizava determinados tipos de comportamento convertendo-os em rígidos papéis sociais” (MALUF; MOTT, 1998, p. 373).

Os diferentes e excludentes papéis atribuídos ao homem e à mulher eram ditos “complementares. Ainda nesse contexto, a imprensa começa a trazer pistas de uma emancipação da mulher, ao mesmo tempo em que encerra as funções do homem e da mulher em determinados padrões normativos.

A Revista Feminina, que foi publicada entre 1914 e 1936, trazia em suas edições colunas sobre moda, culinária, crônicas, novelas e etc. Nestas edições a temática era a mulher e não necessariamente traziam textos que tinha mulheres como autoras, caracterizando-se muito mais como um discurso sobre a mulher. A mulher não fala, ela é falada. É dito como ela deve se comportar, vestir-se, cozinhar, tratar os familiares amigos etc., sendo que o fato dos textos serem escritos por jornalistas, especialistas no assunto produz um efeito de verdade sobre o que é falado, legitimando a idéia de mulher.


Estas revistas surgem no período anterior ao surgimento da segunda onda do movimento feminista que viria revolucionar a visão de mulher, dando a ela um maior espaço nas práticas públicas, maior participação política e no mundo do trabalho.
Muitas vezes, essas formações discursiva/enunciados se apresentam de forma autoritária, contendo a polissemia, já que o jornalista, escritor está muito mais autorizado a falar sobre o que é certo ou errado e o que ele diz se converte em conhecimento/norma. Tanto que além das revistas datam da época, manuais e enciclopédias que ensinavam como ser mulher, trazendo assuntos como: amor, namoro, noivado, casamento, culinária, cuidados com o bebê, boas maneiras, ioga etc.
Este artigo tem como objetivo, então, investigar como era construído um imaginário sobre a mulher nas chamadas revistas femininas. Como essas revistas criavam e/ou modificavam os papéis, desejos, comportamentos etc., da mulher na metade do século XX, através dos ditos genéricos – uma “fórmula”, caracterizada pela evidência, por um sentido dominante. Para tal análise qualitativa, será utilizado como referencial teórico a Análise do Discurso de “linha” francesa (AD).
A Análise do Discurso Pêcheutiana (AD)
Neste trabalho, tomou-se como referência teórico-metodológica a Análise do Discurso de filiação francesa (AD), cujo objetivo seria mostrar a sua opacidade. Para tanto, a AD parte de três referencias: o materialismo histórico, como teoria das formações sociais, com a análise das ideologias; a lingüística, que afirma a não-transparência da linguagem, como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação; e a teoria do discurso, como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. Tudo isso atravessado por uma teoria psicanalítica, que levaria em conta as formações inconscientes que interpelam o sujeito (cf. PÊCHEUX, 1988).

A repetição de enunciados faz com que as frases fiquem equivalentes a mandamentos, produzindo um efeito de evidência de sentido. Esse efeito é causado pela ideologia, que acaba naturalizando esses sentidos através da identificação do sujeito com a formação ideológica que o domina. A identificação com uma determinada formação ideológica produz um efeito de unidade imaginária, de forma que o discurso do sujeito remete ao interdiscurso, ou seja, ao já-dito, pré-construído, produzindo um efeito de identificação.


O sujeito para a AD, não é entendido como um sujeito universal (sujeito da língua, do objetivismo abstrato) e nem individual (do subjetivismo idealista), ele é entendido como uma posição discursiva; nesse sentido ele se constituiria em um processo dialético na alteridade. Estes aspectos nos dão pistas como sobre o analista do discurso deve proceder, pois seu papel é estranhar aqueles sentidos que parecem “naturais” naquela situação, sendo que para executar esse movimento, o analista precisa remeter o que foi dito às suas condições de produção históricas.
É preciso considerar também a noção de sujeito do discurso, produto de um processo levado a efeito pelas formações ideológicas (inconscientes), que atuam sobre as formações discursivas, e produzem o processo de identificação com um determinado dizer. Ë através desta interpelação ideológica e inconsciente que o indivíduo é assujeitado, de tal modo que acredita estar falando a partir de si (de que é a fonte do seu dizer) e que o seu discurso corresponde exatamente ao que pensa. Essas duas ilusões correspondem respectivamente às ilusões 1 e 2, sendo que o primeiro é de natureza inconsciente, enquanto que o segundo é de natureza pré-consciente na medida em que o sujeito pode se corrigir para se explicar melhor, e reformular o seu discurso. (ORLANDI, 2001).
Ë importante ressaltar, em função da relevância para esta pesquisa, que a AD produz um deslocamento da importância dada à informação, na medida em que tenta trabalhar com as condições de produção do discurso, já que as palavras só adquirem um sentido quando inscritas na história. As condições de produção são entendidas como “as circunstâncias de sua realização: os seus protagonistas e seu objeto” (ORLANDI, 1978, p. 34).
Assim, procuraremos efetuar recortes nas revistas pesquisadas, de tal modo que aqueles sentidos sobre a mulher que circulavam nesse tipo de imprensa, na época, possam ser investigados à luz de sua constituição histórica (ideológica). Deste modo, chegaremos a uma topologia da representação da mulher em revistas femininas da primeira metade do século XX no Brasil. Remetendo as formações discursivas detectadas através dos indícios lingüísticos às formações ideológicas que as determinaram (interdiscurso, história), poderemos atingir o processo discursivo sobre a mulher nesse período.



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