Janaína Alexandra Capistrano da Costa (uft – to)



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Referências
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FURTADO, Filipe. A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.

MENESES, Adélia Bezerra de. Eros x Tânatos. In: ALENCAR, José de. Encarnação. São Paulo: Ática, 1996. p. 3-7.

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QUINTANA, Mário. A rua dos cataventos. In: ________. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

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A GUERRA DAS ROSAS E A INCOMPETÊNCIA POLÍTICA: UM ESTUDO DAS TRÊS PARTES DE HENRIQUE VI, DE SHAKESPEARE28

(Trilogia)
1 – Henrique VI, de Shakespeare: as ambivalências da guerra
Enéias Farias Tavares29

Professor de Literatura Greco-Latina da UFSM


O espectador contemporâneo, ao reencontrar nas tragédias de Shakespeare sua própria época, aproxima-se com freqüência, de forma inesperada, da época shakespeariana. Em todo caso, ele a compreende bem. Isso vale antes de tudo para as crônicas históricas.

Jan Kott
Resumo: O objetivo deste artigo, dedicado à primeira parte de Henrique VI, de Shakespeare, foi examinar como o poeta inglês, apesar de representar positivamente a Inglaterra em oposição à França, retrata as desgraças advindas do conflito bélico para as duas nações. Tal análise privilegiará as duas personagens protagonistas: o guerreiro Talbot e a arguciosa Joana D’Arc.
Palavras-Chave: Shakespeare, 1 Henrique VI, Crítica Literária
Abstract: The aim of this paper, in which the first part of Shakespeare’s Henry VI is analyzed, was examine how the English poet, although represent positively England in opposition to France, portrays the tragedies stemming from war in the representation of the two nations. This analysis focuses the main protagonists of the drama: the warrior Talbot and astute Joan D'Arc.
Palavras-Chave: Shakespeare, 1 Henry VI, Literary Criticism

1. A Guerra das Rosas como tema dos primeiro dramas históricos de Shakespeare
Das dez peças históricas compostas por Shakespeare, oito formam duas tetralogias nas quais o poeta dramatizará a vida dos antepassados de Elizabeth e seu pai, Henrique VIII. Na primeira tetralogia30, encenada entre 1592 e 1594, composta pelas três partes de Henrique VI e por Ricardo III, o principal mote da trama é a famosa Guerra das Rosa. Ocorrido entre 1455 e 1485, esse conflito civil foi motivado pelo desentendimento das famílias Lancaster e York – representados pelas rosas vermelha e branca, respectivamente -, que brigaram pelo direito ao trono inglês. O monarca então vigente, Henrique VI, não foi capaz de evitar a própria queda nas mãos da família vitoriosa, os York. Nessa primeira tetralogia, vê-se, mesmo nesse Shakespeare dos primeiros anos, um respeitável conhecimento histórico, fruto de suas leituras dos historiadores Raphael Holinshed e Edward Hall31. Sobre o trabalho de composição de Shakespeare, tendo por base esses historiadores ingleses, Honan afirma:
Ele havia estabelecido para si a mais desafiadora das tarefas, já que agora tinha de responder com criatividade ao caos da história. Nada do que existe em Hall ou Holinshed tem um vestígio que seja da atraente ordem dramática de uma novela italiana ou francesa; e, no entanto, Shakespeare precisava dar à história de Henrique VI a ordem mais arrebatadora possível. O palco pedia clareza, intensidade e uma trama hábil, enquanto ele ressuscitava os mortos ingleses. As crônicas lhe davam a possibilidade de desenvolver detalhes, mas ele estava trabalhando dentro de limites terrivelmente restritivos e, portanto, forçando sua imaginação e capacidade analítica a trabalharem dobrado para produzir uma estrutura convincente, sem nunca perder de vista os fatos que teria de excluir. (p.181)
Percebe-se essa “estrutura convincente” na trama da primeira parte de Henrique VI, que encerra um período de mais de trinta anos de história ao relatar as discussões entre a nobreza da Inglaterra em sua luta por poder e a decadência da imagem inglesa de heroísmo. A peça inicia com o funeral do popular Henrique V e com notícias sobre a eminente guerra contra a França, disposta a recuperar os territórios conquistados pelo rei inglês. Em solo francês, Joana é saudada como salvadora pelo delfim Carlos, enquanto o principal general inglês, Talbot, é capturado. Na Inglaterra, há desavença entre o protetor do jovem Henrique VI, o conde de Gloster, e a principal autoridade religiosa, o bispo Winchester, pelo poder do trono. Talbot é libertado e acusa John Fallstoffe de traição. No segundo ato, há o embate entre Talbot e Joana, juntos de seus exércitos, pela região de Orleans. Talbot vence e escapa da cilada planejada por uma nobre francesa, a condessa de Auvergne. Na Inglaterra, a briga entre as facções Lancaster e York chega ao ápice no jardim do palácio em que são escolhidas rosas para representar cada uma das casas, representação cênica da origem da Guerra das Rosas. No ato três, Henrique VI aparece, pela primeira vez, gentilmente tentando apaziguar a discórdia entre Gloster e Winchester e designando Ricardo Plantageneta a Duque de York, posição que lhe é de direito sendo ele filho de Ricardo II. Joana tenta conquistar Ruão, mas é rechaçada por Talbot com a ajuda do duque da Borgonha. Logo depois, esse é convencido por Joana a abandonar o apoio à Inglaterra e a voltar seu favor para seus compatriotas franceses. Em Paris, Talbot dedica a Henrique VI suas vitórias. No quarto ato, Henrique VI é finalmente coroado e o covarde Fallstoffe é exilado pelo rei em face às acusações de Talbot. Este é enviado para punir o traidor conde de Borgonha. Enquanto isso, as discórdias entre os ingleses Lancasters e York continuam. Três cenas são dedicadas a Talbot, que reencontra seu filho para juntos lutarem por Bórdeus. Após se reencontrarem na batalha, os dois morrem. No último ato, o jovem rei, influenciado por Gloster, aceita casar-se com a sobrinha do rei francês. Na França, as duas casas finalmente deixam suas desavenças de lado, motivo de nenhuma delas ter ajudado Talbot, e atacam os franceses. Joana, abandonada por seus demônios, é capturada por York. Suffolk prende a nobre francesa Margarida e, apaixonado por ela, trama casá-la com Henrique VI. Joana, renegada pelo próprio pai após desprezá-lo, é queimada no acampamento de York sob a chacota de todos como a prostituta que jurava ser virgem, mesmo estando nitidamente grávida de um de seus amantes. York recebe notícias da paz entre Inglaterra e França e fica enfurecido pelo acordo estatal, após tantas mortes. Henrique VI, encantando pelo relato que Suffolk faz de Margarida, decide casar com a nobre francesa, apesar do desagrado de Gloster que afirma que a dama não tem realeza para o casamento. A peça termina com Suffolk dizendo que governará o rei, a rainha e o reino.
Como visto, a própria estrutura cênica de I Henrique VI apresenta uma peça - possivelmente uma das primeiras de Shakespeare – em que o principal intento do dramaturgo é encenar uma interessante discussão sobre os percalços da guerra. E mesmo sendo Shakespeare acusado de ser patriótico em seus dramas históricos, o que vemos é um aprofundamento das peripécias da guerra, sejam elas do lado inglês ou francês. nta uma intee Shakespeare - pelo antigo rei, que relato dos territorios de Henrique V e os resultantes discussoes Num dos diálogos que serve para expressar o poder persuasivo que as palavras de Joana D’Arc têm sob seus ouvintes, a guerreira argumenta com o francês duque de Borgonha, que então apoiava Talbot e seu exército, sobre a devastação provocada pelo conflito em sua nação:

Look on thy country, look on fertile France,

And see the cities and the towns defaced

By wasting ruin of the cruel foe.

As looks the mother on her lowly babe

When death doth close his tender dying eyes,

See, see the pining malady of France;

Behold the wounds, the most unnatural wounds,



Which thou thyself hast given her woful breast.32 (III.3)
Como veremos, nessa primeira parte da tetralogia, o autor mostra os dois lados do conflito – o inglês e o francês – e suas ambíguas vitórias, sempre ao custo de muitas mortes. No caso de Joana, o sofrimento expresso na fala pela visão desolada de seu país serve também para trazer relativa simpatia a uma personagem que será mostrada, ora como bruxa, ora como guerreira, ora como adúltera. Mas o importante dessa narrativa é que se trata do relato de um inimigo francês. Desse modo, o horror apresentado por Shakespeare em sua primeira tetralogia é o horror provocado pela calamidade da guerra civil, pela disputa violenta por poder e pelos excessos de homens nobres que, ao se esquecer do bem comum, almejam unicamente seu próprio bem-estar. Levando essa visão em conta, seria então a peça uma crítica social ao governo de seu tempo? De forma alguma, pois Shakespeare escreve sua tetralogia no auge do governo da rainha Elizabeth. Assim, levando-se em conta que a distância entre a produção desses primeiros dramas históricos e a vitória inglesa contra os espanhóis ser ínfima33, a pergunta que se faz é: Por que Shakespeare produziu uma série de peças políticas nem um pouco patrióticas num momento em que o patriotismo inglês estava no seu auge? Talvez para intensificar as virtudes de um governo relativamente coeso e politicamente bem sucedido como o de Elizabeth. Ou talvez para expressar, bem ao gosto do poeta, como fica evidente em futuras composições como O Mercador de Veneza e Otelo, que todo conflito possui visões e apelos bem mais complexos do que o preconceito popular apregoa34. Na primeira parte de Henrique VI, já temos essa possibilidade ambivalente na dramatização da guerra como um conflito que traz, indiferente da vitória, prejuízos aos dois lados. Visão que é reforçada pela caracterização de um monarca covarde na companhia de ambiciosos conselheiros. Neste artigo, dedicado à primeira parte de Henrique VI, estudarei a forma como o poeta inglês, apesar de representar positivamente a Inglaterra em oposição à França, retrata as desgraças advindas do conflito bélico para as duas nações. Tal análise privilegiará as duas personagens protagonistas, o valoroso Talbot e a arguciosa Joana D’Arc.
2. Talbot: a ascensão e queda da imagem da honra na Inglaterra de Henrique VI
Em 1 Henrique VI, o monarca é deixado um tanto de lado – só aparece no terceiro ato, visto que nos dois primeiros ainda é uma criança – em detrimento da personagem que representa a glória e a soberania da Inglaterra, Lorde Talbot. Comentando a peça, Caroline Spurgeon contrasta a honra de Talbot e seus homens com as figuras posteriores de caça, prisão, sufocamento e destruição que esses encontrarão no ardor da batalha.35 Tal honra, é primeiramente apresentada no terceiro ato quando Talbot, deixando momentaneamente a batalha para honrar seu monarca, proclama ao jovem rei:
My gracious prince, and honourable peers,

Hearing of your arrival in this realm,

I have awhile given truce unto my wars,

To do my duty to my sovereign:

In sign, whereof, this arm, that hath reclaim'd

To your obedience fifty fortresses,

Twelve cities and seven walled towns of strength,

Beside five hundred prisoners of esteem,

Lets fall his sword before your highness' feet,

And with submissive loyalty of heart

Ascribes the glory of his conquest got

First to my God and next unto your grace.36 (III.4)


As palavras de Talbot revelam uma honra militar e uma nobreza extremada ao revelar ao rei seu histórico de sacrifícios, lutas e conquistas dedicadas à glória da Inglaterra. Sua dignidade não está apenas na enumeração das vilas, cidades e terras conquistadas para o jovem rei. Antes, está na imagem do maior general inglês que abandona o ardor da batalha para postar-se como humilde súdito aos pés de seu superior. No entanto, tais palavras de Talbot destoam numa corte em que o desertor Fastolffe está presente. Essa noção de honradez, dignidade e cavaleirismo medieval são expressas na fala de Talbot, em que esse acusa o desertor de ser o responsável pela derrota diante dos franceses.
When first this order was ordain'd, my lords,

Knights of the garter were of noble birth,

Valiant and virtuous, full of haughty courage,

Such as were grown to credit by the wars;

Not fearing death, nor shrinking for distress,

But always resolute in most extremes.

He then that is not furnish'd in this sort

Doth but usurp the sacred name of knight,

Profaning this most honourable order,

And should, if I were worthy to be judge,

Be quite degraded, like a hedge-born swain

That doth presume to boast of gentle blood.37 (IV.1)


Relembrando a ordem dos lordes ingleses, dos cavaleiros honrados com um título que significava dignificar e honrar seu monarca, Talbot usa em sua fala termos como “valiant”, “virtuous”, “courage” e “credit”, ao mencionar que um verdadeiro “knight” não teme a morte, nem os desastres, mas mantém-se firme ao seu título sagrado e honrado. Segundo ele, ser covarde ou egoísta seria profanar a sagrada ordem ao qual pertence. Entretanto, diante da infantilidade do rei38, da ambição dos nobres, e da covardia dos soldados o que presenciamos, no decorrer de quatro atos, é o grande Talbot, ideal de honra bélica até o momento na arte shakespeariana, decair a uma morte inglória nos braços do filho, recém falecido. Antes disso, Shakespeare cria um clima de reencontro familiar quando Lucy, em 4.3, afirma que Talbot e seu filho não se vêem há sete anos. A partir dessa cena, o dramaturgo mostrará, em três cenas, como acontece esse reencontro entre o guerreiro e seu filho. No primeiro diálogo (4.5), vemos Talbot relatar ao filho o conflito que se anuncia:
O young John Talbot! I did send for thee

To tutor thee in stratagems of war,

That Talbot's name might be in thee revived

When sapless age and weak unable limbs

Should bring thy father to his drooping chair.

But, O malignant and ill-boding stars!

Now thou art come unto a feast of death,

A terrible and unavoided danger:

Therefore, dear boy, mount on my swiftest horse;

And I'll direct thee how thou shalt escape

By sudden flight: come, dally not, be gone.39 (IV.5)
Se de um lado temos um pai que suplica ao filho que salve sua vida, pois apenas ele, o jovem Talbot, poderia continuar a dinastia do velho soldado, de outro, temos a resposta desse filho, resposta tão honrada e digna quanto às palavras de seu pai, ao afirmar sua determinação de continuar lutando ao lado do patriarca de sua família. Sua visão, novamente a visão de glória em armas, pertencente a um período anterior à fase em que as discussões políticas e os desejos de ambição dominam a Inglaterra de Henrique VI, é a visão de um jovem que teme não a morte, mas covardia. “Here on my knee I beg mortality, / Rather than life preserved with infamy.”40 Após esse diálogo, ambos marcham para a guerra. Na cena seguinte (4.6), Shakespeare apresenta os dois defensores da Inglaterra em meio à batalha contra os franceses. Após salvar a vida do filho, Talbot implora novamente que ele abandone a luta, pois sua morte significaria, numa primeira instância, a morte de sua própria linhagem e, numa acepção metafórica mais ampla, a decadência e a morte da própria honra inglesa. O jovem responde, no mesmo tom de seu pai.
JOHN TALBOT
The sword of Orleans hath not made me smart;

These words of yours draw life-blood from my heart:

On that advantage, bought with such a shame,

To save a paltry life and slay bright fame,

Before young Talbot from old Talbot fly,

The coward horse that bears me fail and die!

And like me to the peasant boys of France,

To be shame's scorn and subject of mischance!

Surely, by all the glory you have won,

An if I fly, I am not Talbot's son:

Then talk no more of flight, it is no boot;

If son to Talbot, die at Talbot's foot.




TALBOT
Then follow thou thy desperate sire of Crete,

Thou Icarus; thy life to me is sweet:

If thou wilt fight, fight by thy father's side;

And, commendable proved, let's die in pride.41


Na fala do jovem, percebe-se o mesmo ideal de devoção e zelo por um honra, que nos parece – pelo menos pelo modo como o poeta a apresenta – já ultrapassada. A disposição de morrer lealmente por uma causa, por uma noção de valentia cavaleiresca que não mais existe. A resposta de Talbot, fazendo menção ao mito de Ícaro e Dédalo, revela não apenas a noção de um pai e de um filho numa terra estrangeira, numa francesa Minos, mas também a desmedida do filho ao desejar tamanha honra sendo ainda tão jovem. Finalizando esse crescendo dramático que encena a queda da família Talbot, Shakespeare encerra, em 4.7, com Talbot ferido mortalmente, recebendo em seus braços o corpo do filho. A fala do pai, novamente retomando o mito grego ao receber o filho, revela a expressão poética de Shakespeare ao caracterizar o sofrimento máximo de um pai ao receber o corpo de seu filho. Também é a caracterização cênica dessa honra extrema da família Talbot, que morre bravamente defendendo os interesses de sua nação, enquanto seus generais e monarcas, dialogam sobre política e glória individual - cena retratada em 4.3, na qual York e Somerset, na intenção de prejudicarem um ao outro, recusam-se a enviar tropas para ajudar Talbot. Por fim, as últimas palavras de Talbot revelam, em seu lirismo e expressividade dramática, um dos extremos do conflito bélico: o sofrimento familiar.
And in that sea of blood my boy did drench

His over-mounting spirit, and there died,

My Icarus, my blossom, in his pride.

Enter Soldiers, with the body of

JOHN TALBOT

(…)Come, come and lay him in his father's arms:

My spirit can no longer bear these harms.

Soldiers, adieu! I have what I would have,



Now my old arms are young John Talbot's grave.

Dies42
Aqui vale um comentário estilístico sobre estas últimas três cenas. Primeiramente, percebe-se que o estilo do diálogo entre Talbot e seu filho é diferente do resto do drama por ser em verso rimado, sendo que em sua maioria a peça apresenta versos brancos. Em Shakespeare o contraste de entre verso e prosa serve para diferenciar personagens nobres de personagens comuns. Entre nobres, falas com verso branco e rimado têm dois efeitos: ou apresentar excessos argumentativos de linguagem43 ou elevar a linguagem para uma capacidade lingüística pertencente a um período remoto, denotando assim grandeza e nobreza. Esse é o teor das falas da família Talbot nessas três cenas. O que Shakespeare apresenta aqui não é meramente um diálogo verborrágico, já ultrapassado, mas uma representação estilizada de uma arte retórica que já está em declínio no seu tempo, intensificando ainda mais a honra de Talbot, honra também prestes a desaparecer. Enquanto as discussões políticas na peça são em verso branco, Shakespeare impressiona seus espectadores, nessas três cenas, com uma caracterização poética da bravura honrosa e da dignidade familiar dos Talbot diante de sua destruição. Após a morte do general inglês, entra em cena Joana D’Arc e seus compatriotas franceses para regozijarem-se diante do corpo de seu maior inimigo. Tal regozijo parece ressaltar o desprezo pela figura de Joana, apresentando-a como uma mulher fria e desrespeitosa diante do corpo do honrado inimigo. No entanto, como se percebe a seguir, destino bem menos glorioso espera a “santa” guerreira francesa.
3. Joana: a ascensão e a queda da França de Carlos
O historiador Edward M. Burns chama a Guerra das Rosas e o conflito entre a Inglaterra e a França de “o período mais sombrio” do desenvolvimento das duas nações. Entretanto, é nessas décadas de desalento e desesperança, que Joana D’Arc surge como uma figura marcantemente religiosa numa França politicamente acuada. No ano de 1429, afirma Burns, essa “jovem camponesa, analfabeta, mas extremamente devota, procurou o soberano francês, não coroado, Carlos VII, para anunciar que havia sido incumbida por Deus para expulsar os ingleses da França44. O que de fato ela parcialmente conseguiu, inspirando as tropas e reavivando um já fracassado espírito nacionalista e de confiança religiosa na França ao fazer Carlos ser coroado ainda no mesmo ano. No entanto, um ano depois Joana foi capturada por franceses traidores de Borgonha, distrito que desejava a independência, e entregue aos ingleses, por quem foi presa, julgada e condenada à morte na fogueira como herege.
Neste trabalho, interessa perceber como o dramaturgo trabalhou a personagem na primeira parte de Henrique VI. Primeiramente, é correto afirmar que seria impossível para Shakespeare dar a personagem de Joana uma caracterização que não fosse negativa. Se na França, ela era vista como mártir sagrada, na Inglaterra, devido às vitórias das tropas comandadas por ela contra os ingleses, era vista sob uma ótica completamente deturpada. Shakespeare faz jus a essa visão mostrando-a forte e poderosa num primeiro momento, tanto no aspecto militar quanto argumentativo, para depois mostrá-la insana sob o julgo da Inglaterra. Essa visão antitética entre altura e baixeza, é a mais comum na crítica dedicada ao drama, na qual os comentadores sempre desvalorizam a caracterização que o autor fez da heroína francesa45. Mas num segundo plano, ela também pode ser vista meramente como uma contraparte francesa para a representação de patriotismo inglês, representado por Talbot. Ainda numa terceira interpretação, mais pertinente para minha análise neste texto, Joana pode ser lida como um prenúncio do interesse do poeta em aprofundar suas personagens em caracteres humanos e psicológicos. Se o público lamenta a queda de Talbot, numa certa instância, também é possível que tenham se sensibilizado com a figura dessa jovem que é abandonada por sua família, por seus compatriotas e até pelos seus próprios demônios, que antes a haviam ajudado.
Contrasto aqui duas falas que demonstram o desenvolvimento descendente da personagem, do alto bélico e argumentativo ao decadente em face da morte. Primeiramente, ainda no primeiro ato, Shakespeare mostra o momento em que o príncipe Carlos é convencido, pela eloqüência e também pela pujança de Joana ao combater o futuro monarca, de que a jovem possui a benção divina para liderar as tropas francesas. Joana, digna, firme e exultante, dirige-se a Carlos, após identificá-lo entre outros homens, nos seguintes termos:
Dauphin, I am by birth a shepherd's daughter,

My wit untrain'd in any kind of art.

Heaven and our Lady gracious hath it pleased

To shine on my contemptible estate:

Lo, whilst I waited on my tender lambs,

And to sun's parching heat display'd my cheeks,

God's mother deigned to appear to me

And in a vision full of majesty

Will'd me to leave my base vocation

And free my country from calamity:

Her aid she promised and assured success:

In complete glory she reveal'd herself;

And, whereas I was black and swart before,

With those clear rays which she infused on me

That beauty am I bless'd with which you see.

Ask me what question thou canst possible,

And I will answer unpremeditated:

My courage try by combat, if thou darest,

And thou shalt find that I exceed my sex.

Resolve on this, thou shalt be fortunate,

If thou receive me for thy warlike mate.46 I.ii
Após o discurso de Joana, que apresenta uma série de características bucólicas para depois reforçar a visão do divino que a abençoou e ungiu, Carlos decide por a capacidade militar de Joana a prova, enfrentando-a corpo a corpo. A jovem vence e recebe o comando das forças francesas. No decorrer da peça ao enfrentar Talbot tanto em discursos quanto no campo de batalha, ao dissuadir o Duque de Borgonha para voltar ao lado francês e ao levar Carlos a várias vitórias, vemos Shakespeare elevando a personagem até as alturas de sua representação, culminando com a cena em que a Débora francesa encontra o corpo do Dédalo inglês, Talbot. Depois disso, a queda que aguarda Joana é representada por Shakespeare – em toda a sua ambivalência – ao mostrar a jovem dialogando com seus demônios, que não sabemos se tratam de fato de espíritos ou da consciência doentia da mártir.
The regent conquers, and the Frenchmen fly.

Now help, ye charming spells and periapts;

And ye choice spirits that admonish me

And give me signs of future accidents.



Thunder

You speedy helpers, that are substitutes

Under the lordly monarch of the north,

Appear and aid me in this enterprise.



Enter Fiends

This speedy and quick appearance argues proof

Of your accustom'd diligence to me

.Now, ye familiar spirits, that are cull'd

Out of the powerful regions under earth,

Help me this once, that France may get the field.



They walk, and speak not

O, hold me not with silence over-long!

Where I was wont to feed you with my blood,

I'll lop a member off and give it you

In earnest of further benefit,

So you do condescend to help me now.



They hang their heads

No hope to have redress? My body shall

Pay recompense, if you will grant my suit.

They shake their heads

Cannot my body nor blood-sacrifice

Entreat you to your wonted furtherance?

Then take my soul, my body, soul and all,

Before that England give the French the foil.

They depart

See, they forsake me! Now the time is come

That France must vail her lofty-plumed crest

And let her head fall into England's lap.

My ancient incantations are too weak,

And hell too strong for me to buckle with:

Now, France, thy glory droopeth to the dust.47 V.iii
Nesse momento, Joana perde a sua capacidade de negociação e argumentação. Aqui, diante do fracasso que a captura representa, a jovem oferece aos demônios seu corpo, seu sangue e sua alma. Mas em nenhuma dessas ofertas, tem sucesso. A maior crítica se faz a figuração de Joana, por Shakespeare, diz respeito ao último ato, no qual a guerreira francesa é queimada. Ali, não mais a investindo de caracteres gloriosos ou de decadência trágica ao suplicar a demônios mudos, Joana se mostra covardemente indigna ao rejeitar seu próprio pai, um pastor ali presente, e imoral ao jurar virgindade para depois se mostrar em dúvida sobre a identidade paterna do filho que diz carregar. Apesar de ainda manter firme um relativo poder retórico – mais perto da prevaricação pura do que da argumentação lógica – são as palavras do pastor, pai rejeitado pela filha que diz descender de reis, que marca a crueza da cena:

Now cursed be the time

Of thy nativity! I would the milk

Thy mother gave thee when thou suck'dst her breast,

Had been a little ratsbane for thy sake!

Or else, when thou didst keep my lambs a-field,

I wish some ravenous wolf had eaten thee!

Dost thou deny thy father, cursed drab?

O, burn her, burn her! hanging is too good.48 V.ii
Assim, Shakespeare finaliza a primeira parte de Henrique VI despedaçando a imagem coesa do estado inglês por meio da ruptura das próprias relações familiares. Se no quarto ato vemos pai e filho morrerem juntos, abandonados na crueza da guerra, o quinto ato finaliza com um pai amaldiçoado a filha após esta o ter renegado. Se numa instância, tem-se uma representação tipificada da jovem inimiga da Inglaterra, em outra, se percebe no drama de Shakespeare a representação precisa da desgraça geral de dois povos cujos governantes não estão a altura de seus súditos, aspecto que será ainda mais trabalhado nas próximas três peças da tetralogia49. No fim da peça, Suffolk facilmente convence Henrique a casar-se com uma francesa, o que indica o fim da guerra, fazendo com que os esforços individuais, de Talbot lutando pela Inglaterra e de Joana pela França, foram em vão.



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