Janaína Alexandra Capistrano da Costa (uft – to)



Baixar 2,07 Mb.
Página3/15
Encontro03.05.2017
Tamanho2,07 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15

E A BENEVOLÊNCIA DAS EUMÊNIDES25
Bruna Raquel dos Santos

Graduanda – Letras – UFMS 26




Resumo: Este artigo, que faz referência à tragédia de Ésquilo, As Eumênides, tem a finalidade de mostrar a dualidade existente na fala das Fúrias e no discurso das Eumênides. As Fúrias com suas alegações carregadas de maldade e ódio. As Eumênides com sua oratória serena e tranqüila. As análises das falas foram feitas através de um conjunto imagístico, da personagem do fantasma de Clitemnestra, de Apolo, do Coro e de Atena o que nos mostra a riqueza das palavras proferidas na peça.
Palavras-chave: Fúrias, Eumênides, Ésquilo.
Abstract: This article, which refers to the tragedy of Aeschylus, The Eumenides, aims to show the duality in the speech of the Furies and the Eumenides. The Furies with its allegations loaded of malice and hatred. The Eumenides with its serene and calm oratory. The analyses of speech were made through imagistic series, the character of the Ghost of Clytemnestra, Apollo, Athena and the Choral, which shows us the richness of the words uttered in the piece.
Key-Words: Furies, Eumenides, Aeschylus
Introdução
A segunda parte da trilogia A Orestéia, é dedicada a encenar a vingança do filho de Agamêmnon, Orestes contra a assassina de seu pai e seu amante. A peça inicia com Orestes diante do tumulo do rei de Argos, pedindo aos deuses por vingança. Ali, encontra sua irmã, que a pedido da rainha Clitemnestra, foi ao túmulo levar libações em homenagem ao antigo rei. Após o reencontro, o coro incita os irmãos à vingança contra a própria mãe dos príncipes. Orestes vai ao palácio e se apresenta como um mensageiro que traz a notícia da morte do filho de Agamêmnon. Diante de Egisto e Clitemnestra, Orestes é impiedoso. Após matar os atuais reis de Argos, Orestes escuta, de um lado, o Coro cantar a purificação do palácio e, de outro, a voz múltipla e insana das fúrias que vieram para lhe punir por ter derramado sangue familiar.
A peça que fecha a trilogia, As Eumênides, continua o drama exatamente onde as Coéforas terminaram. O drama abre com Orestes saindo de Argos (Micenas) sendo perseguido pelas Erínies e se dirigindo a Delfos. Apolo, seu protetor, adormece as Erínies e envia-o ao templo de Atena. No templo Orestes volta a encontrar-se com as Fúrias, a deusa Atena o defende delas e propõe que ele seja julgado pelos cidadãos atenienses. Durante o julgamento as Fúrias fazem as acusações e Apolo à defesa. Na contagem dos votos há empate e a deusa absolve-o com o voto minerva. As Fúrias revoltam-se com o resultado, mas seguem o conselho de Atena e abandonam seus antigos privilégios ficando em Atenas e tornando-se as Eumênides, isto é, seres "benfazejas".
Esta tragédia, de Ésquilo, mostra uma dualidade no discurso do Coro quando este tem voz pelo bramido das Fúrias e quando toma a forma de uma prece tenra das Eumênides. A peça apresenta um jogo de palavras magnífico, que nos faz perceber tanto o ódio, o rancor e o ressentimento das Fúrias, quanto a tranqüilidade, a serenidade e a pureza das Eumênides. Este artigo objetiva analisar o conjunto imagístico de algumas falas para mostrar essa oposição existente entre os dois lados das Erínies.
O sarcasmo no discurso das fúrias
As Fúrias apresentam um vocabulário que nos impressionam desde o inicio da peça, pois nos transmitem sempre uma sensação de vingança e terror. Quando o fantasma de Clitemnestra, dirigindo-se ao Corifeu, começa a acordar as Fúrias e incita-las a vingar sua morte, escuta gemidos e uivos do Coro que está ainda em sono inquietante, Clitemnestra profere suas palavras para que elas persigam Orestes numa importuna caçada por justiça. A linguagem é repulsivo, como percebe-se na citação abaixo:
FASTASMA DE CLITEMNESTRA
(Dirigindo-se ao CORIFEU.)
Agora persegues a fera em sonho e gritas

como esses cães que nunca deixam seu canil 180

para atacar a caça! Diz-me: que fazes?

Vamos! Levanta-te! Não te deixes vencer

pela fadiga a ponto de esquecer ofensas!

Incita o coração com justas reprimendas,

pois elas estimulam as pessoas sábias! 185

Exala sobre Orestes teu sangrento hálito!

Trata de ressecá-lo com o vapor de fogo

que sai insuportável de tuas entranhas!

Deve extenuá-lo até tirar-lhe o fôlego

numa perseguição feroz e implacável! 190

As palavras “fera”, “cães que nunca deixam seu canil para atacar a caça”, “fadiga”, “esquecer ofensas”, “reprimendas”, “sangrento hálito”, “vapor de fogo”, “insuportável de tuas entranhas”, “tirar-lhe o fôlego”, “perseguição feroz” remetem tanto às Erínies quanto a Orestes, para provocá-las a vingar a morte de Clitemnestra e punir Orestes. Estas elocuções repugnantes que são usadas servem para despertar as Fúrias com uma vontade imensa de vingança, para que elas abram os olhos e persigam-no até sua morte. Clitemnestra fala com as Fúrias com desprezo para mostrar que Orestes é realmente culpado pelo seu assassinato, devendo pagar por ele, sendo que quem deve procurá-lo para punir são elas, as Fúrias, seres asquerosos e responsáveis pela punição de ações violentas. Estas palavras de perseguição são usadas para excitar a sua ira.
Os seres sombrios que devem ir atrás de Orestes, são despertados com insultos, tornando a sua raiva cada vez maior. Ao ser acordada pelas exclamações do espectro, uma das Fúrias sente-se afrontada. Pronuncia palavras que remetem a lamentos provocados em instantes de cólera no seu despertar.
OUTRA FÚRIA
Do fundo dos meus sonhos uma afronta,

brutal como aguilhão que algum cocheiro

empunha firmemente, vem ferir-me

o coração e até minhas entranhas. 210

Sinto passar por mim um calafrio

mortificante, similar ao látego

do mais impiedoso dos verdugos.

As palavras: “afronta brutal”, “aguilhão”, “impunha firmemente”, “ferir-me o coração e até minhas entranhas”, “calafrio mortificante”, “látego”, “do mais impiedoso dos verdugos” mostra todo o desprezo que as Fúrias sofriam, até na hora de acordá-las usam-se palavras agressivas, e elas respondiam com a mesma hostilidade. Por serem tratadas como seres maléficos, queriam fazer com que as pessoas que fossem perseguidas e julgadas por elas, aprendessem a ser submissas pela angústia e pelas torturas. Acreditavam que só com o sofrimento o condenado as torturas poderia pagar pelos seus atos desprezíveis. Como desde o princípio, na hora do despertar, esses seres nocivos são mal tratados, a intenção deles é continuar com esse maltrato, para punir Orestes. Os seres impiedosos, não conhecem outra forma de julgar alguém que cometeu um assassinato, mesmo sem saber se esta criatura é inocente ou culpada.


O Coro demonstra sua repulsa no momento em que sente-se afrontado por Apolo, pois ele protege Orestes mesmo sabendo que é um matricida que deveria ser posse das Fúrias. Essas, então, prenunciam sua perseguição desenfreada pelo que deveria ser delas de direito: o castigo de Orestes.
OUTRA FÚRIA
Agindo assim ele ganhou meu ódio

sem conseguir salvar seu protegido.

Ainda que se oculte sob a terra

Orestes não se livrará de nós. 230

Culpado de assassínio, onde ele for

encontrará por certo um vingador

disposto a golpeá-lo na cabeça.
As palavras “ódio”, “sem salvar seu protegido”, “não se livrará”, “culpado”, “assassínio”, “vingador”, “golpeá-lo na cabeça” fazem alusão a Apolo, ao Orestes e o combate que as Erínies acabaram de anunciar. Notamos aqui, e em quase toda a peça, um forte sufocamento que Orestes estava sofrendo. Ele fala, mas não é escutado, pois as Fúrias não querem ouvir o que ele tem a dizer, a única intenção delas é torturá-lo e puni-lo. Elas são como o nosso pior pesadelo, aquele em que não conseguimos acordar.

Antes de sair de seu templo, Apolo ameaça as Fúrias ordenando que elas deixem o local, pois não merecem estar em um lugar tão claro e tão purificado como seu templo. Elas devem estar em um ambiente sombrio e onde as torturas são executadas. .


APOLO
(Saindo de seu templo com um arco nas mãos, pronto para ser usado.)

(...)


vos forçarão a vomitar entre estertores 240

a negra espuma que deveis a tantos homens

e a expelir sangue que sugastes deles!

Esta casa, de fato, não é adequada

à vossa companhia. Não! Vosso lugar

é lá onde há sentenças de degolamento 245

e olhos a ser arrancados, ou então

onde gargantas são abertas, ou ainda

onde, para extinguir toda a virilidade

meninos são castrados, onde se mutila,

onde seres humanos morrem lapidados, 250

onde vítimas empaladas, gemebundas,

esvaem-se numa agonia interminável!

Ouvistes, monstros odiados pelos deuses,

A relação de vossas festas proferidas?

E vosso aspecto é condizente com tal gosto! 255

Deveríeis viver em antros de leões

Sorvedores de sangue, em vez de poluir

Os muitos visitantes do tempo profético!
Essa fala é uma das mais violentas da tragédia, porque o conjunto imagístico está relacionado à ações/circunstâncias repugnantes, tais como “vomitar”, “negra espuma que deveis a tantos homens”, “expelir sangue” “sentenças de degolamento”, “olhos a ser arrancados”, “gargantas são abertas”, “meninos são castrados”, “mutila”, “seres humanos morem lapidados”, “vítimas empaladas”, “gemebundas”, “agonia interminável”, “monstros odiados pelos deuses”, “antros de leões”, “sorvedores de sangue”. Quando lemos esses versos podemos sentir o marasmo que é transmitido pelas Fúrias, experimentamos uma sensação de martírio e de estar entre ações que nos causam repulsas. Percebemos a aflição de um ser perseguido por elas, com suas garras presas em sua pele, sem ele conseguir respirar e pedir proteção.
Percebemos ainda que Apolo é o adverso das Fúrias, por isso notamos que enquanto ele quer defender Orestes, elas querem culpá-lo. Segundo Saint-Victor (p. 324-326) “Apolo é o inimigo nato das Erínias, esse Deus representa com relação a elas o antagonismo da luz contra as trevas, da harmonia contra a discórdia, do perdão contra o rancor.” Daí o ódio recíproco entre Apolo e as Erínies, por isso ele não permite a presença delas em seu templo.27 E as Fúrias quando descobrem que Apolo é o protetor de Orestes, tem mais cede de vingança pelo assassino.
O diálogo brando das Eumênides

Em contraste a essas palavras impetuosas, ao final da tragédia, encontramos a fala de Atena, muito coerente e cheia de benfeitorias. Mostrando-nos o oposto das falas das Fúrias. Com a decisão de absolver Orestes, a deusa dialoga com as Erínies para entronizá-las. A partir daí, as Erínies mudam seu discurso e passam a usar termos cada vez mais límpidos e mais benévolos, pois agora elas praticam o bem e a justiça.


CORO
Nós, deusas muito antigas, não queremos

ter esta sorte e residir aqui 1110

como seres impuros e malditos!

Não! Todas nós estamos respirando

a mais intensa cólera e vingança!

Ah! Terra e céu! Ah! Quanto sofrimento

invade agora nossos corações! 1115

Ouve-nos, Noite! Ouve-nos, nossa mãe!

Deuses maliciosos e perversos

despojam-nos de nossas honrarias,

nunca negadas e hoje suprimidas!

(...)
ATENA


Aquelas que trazem vitória sem tristeza.

Que soprem sobre essa cidade brisas calmas 1195

vindas da terra, do profundo mar, do céu,

sob os raios propícios do brilhante sol!

Que o solo rico e os rebanhos nunca deixem

de dar prosperidade ao povo ateniense!

Que a semente dos homens seja protegida! 1200

Que os descuidosos da veneração dos deuses

sejam ceifados sem nenhuma piedade,

pois como um jardineiro sempre cuidadoso

gosto de ver os mortais justos prosperarem

como uma plantação livre de ervas daninhas. 1205

Aí estão as bênçãos que vós nos trareis.

Quanto às líderes guerreiras cuidarei eu mesma

de que elas sempre glorifiquem a cidade

proporcionando-lhe vitórias de seus homens.


Percebemos em princípio que quando as Erínies estão renunciando seu passado de penas e condenações, ainda utilizam um vocabulário com uma feição violenta, como “seres impuros e malditos”, “intensa cólera e vingança”, “sofrimento”, “noite”, “maliciosos e perversos”. Palavras que continuam referindo-se a todo passado de perseguição que elas exerceram. Essa linguagem nos revela que elas vieram das trevas para perseguir Orestes e estão pagando por essa caça com muita dor e sofrimento.
Na fala de Atena, o conjunto de palavras nos remete a termos suaves, dignas da mudança de atitude e comportamento: “vitórias sem tristeza”, “brisas calmas”, “raios propícios do brilhante sol”, “solo rico e rebanhos”, “prosperidade”, “semente dos homens”, “veneração dos deuses”, “piedade”, “jardineiro sempre cuidadoso”, “mortais justos”, “plantação livre de ervas daninhas”, “bênçãos”, “líderes guerreiras”, “glorifiquem as cidades” e “vitórias de seus homens”. Esses vocábulos começam a caracterizar as novas Erínies que estão surgindo, seres cheios de virtudes e qualidade moral. As Eumênides não julgarão nenhum ser com a sede de vingança das Fúrias, farão com que esses seres sejam julgados com justiça e pelos próprios atenienses.
Atena confia nas Erínies e acredita também que elas possam ser absolvidas pelo mal já causado, e tenham a capacidade de se tornar seres melhores, convertendo-as em Eumênides, elas ao invés de perseguir e punir as pessoas, a partir de agora, irão anunciar e transmitir o bem. A fala desses seres virtuosos vai se tornando cada vez mais doce e mais suave, fazendo com que as criaturas que as cercam se tornem cada vez melhores e mais benéficos.
Considerações finais
O que ainda é possível ressaltar e reafirmar, nesta peça de Ésquilo, é que a diferença existente entre o discurso das Fúrias e o discurso das Eumênides, além de tornar o campo imagístico muito farto, nos provoca e nos coloca cada vez mais dentro da história. Com as falas de cada personagem, conseguimos ver suas características e o como cada uma delas julga os outros seres. Conseguimos sentir o sufocamento de Orestes quando está sendo perseguido, a sede de vingança das Fúrias partindo atrás do matricida, a inimizade que Apolo tem com as Erínies, a tranqüilidade que Atena demonstra para proceder ao julgamento e a serenidade das Fúrias quando se transformam em Eumênides.
Referências
ÉSQUILO. Oréstia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides, tradução do grego, introdução e notas; Mario da Gama Kury, Rio de Janeiro : J. Zahar,1996.

SAINT-VICTOR, Paul de. As Duas Máscaras. A cultura da Grécia em seu teatro. São Paulo: Editora Gemape, 2003.

TORRANO, JAA. Estudo introdutório as Eumênides. In: ESQUILO, Eumênides. São Paulo: Iluminuras FAPESP, 2004.

A FIDELIDADE DA TRADUÇÃO
Carina de Cássia Silva

Licenciada em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa)

Universidade Paulista - UNIP.

Larissa dos Santos Marques

Licenciada em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa)

Universidade Paulista - UNIP

Leonardo Moser Trevisan

Licenciado em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa)

Universidade Paulista - UNIP
Resumo: Este texto apresenta uma reflexão a respeito do tipo de relação que se estabelece entre culturas e línguas diferentes quando o texto traduzido é o veículo desse intercâmbio. Nossa proposta é descrever e discutir o conceito de fidelidade no panorama dos Estudos da Tradução e investigar a possibilidade de uma fidelidade inerente em textos traduzidos. Além disso, queremos analisar as possíveis abordagens e perspectivas para visitar a definição deste conteúdo dentro de sua aplicabilidade.

Palavras-chave: tradução, fidelidade, autoria.
Abstract: This paper present a reflexion about the kind of relation established between different cultures and languages that are confronted when a text is translated into another language. Our propose is to describe and discuss the concept of fidelity in the course of the Translation Studies. We are researching on the possibility of a inherent fidelity into translated texts. Furthermore, it is our aim to analyse the possible approaches and perspectives for a redefinition of this concept and of its applicability.

Keywords: translation, fidelity, authorship.
O verbo traduzir, de acordo com a etimologia, é originado do latim traducere, que significa “fazer passar de um lado para o outro”. Podemos dizer que, no contexto que nos envolve, traduzir tornou-se uma forma de passar uma língua para outra. Alguns podem pensar, à luz desta definição, que todas as palavras inclusas no vocabulário de uma determinada língua, possuem um representante lexical equivalente no acervo vocabular de outro idioma, que exprima a mesma idéia. Mas, como sabemos, toda língua funciona como um código, e o conjunto de signos de uma língua constitui o seu léxico com regras que regem sua gramática, assim, a tradução de texto ora pode ser trabalhada com seu foco sob a sintaxe, ora com a morfologia, ora com o léxico.
Algumas diferentes linhas de pesquisa que surgiram na área da tradução nas últimas décadas, visando relacionar as teorias da tradução e suas hipóteses com uma indagação teórica na qual é abordada através da lingüística e da literatura.
Traçaremos uma breve pesquisa destas principais teorias e seus pesquisadores, tendo por base a leitura que Cristina Carneiro Rodrigues (1999) privilegiou no trabalho “Tradução e diferença” (1999) no qual visa a contribuição que cada um destes teóricos trouxe para o âmbito dos estudos da tradução. A primeira proposta que vamos apresentar conceitua-se como Teoria Lingüística da Tradução, na qual destacam-se os seguintes teóricos: Catford (1965) e Nida (1964).

A teoria proposta por Catford (apud RODRIGUES, 1999) implica em considerar a tradução como uma atividade mecânica, de substituição de material textual, deixando de lado o contexto situacional dos textos, ou seja, a teoria se prende às construções descontextualizadas, com traduções hipotéticas e idealizadas. A teoria de Catford é falha neste aspecto devido à impossibilidade de buscar correspondentes lingüísticos idênticos em idiomas distintos, principalmente quando o contexto deve se manter invariável. Como cita Rodrigues (1999, p. 45) “(...) a tradução nada tem de mecânico, ou seja, que os tradutores não aplicam regras predeterminadas para a seleção dos itens que vão compor seus textos (...)”. Com isso, fica duvidosa a possibilidade de elaborar um texto que consiga seguir uma regra de equivalência como a teoria citada tenta estabelecer.


A partir das mesmas perspectivas de Catford pela teoria lingüística da tradução, as idéias de Eugene Nida (1964), o qual propôs um trabalho voltado para a “equivalência dinâmica”, ou seja, trata-se da reverbalização do texto original como o faria o leitor original. Sua teoria também prevê agir como forma instrumental para a análise e solução de problemas da tradução. O objetivo de Nida é descrever o processo de transferência de uma mensagem de uma língua para a outra, pois ele defende a idéia de que a língua é “um mecanismo dinâmico capaz de gerar uma série infinita de enunciados diversos” (apud BARBOSA, 1990).
De acordo com os conceitos de Nida (apud RODRIGUES, 1999) acreditamos que para o autor a tradução deveria ter um vínculo de identidade com o original. Gostaríamos de nos posicionar em relação à idéia, concordando de fato com a aproximação entre tradução e original, porém, refletindo que todo original depende do tradutor para a sua sobrevivência, logo, a tradução não ocorre somente em uma operação lingüística. Desta forma apoiamos a afirmação de Rodrigues referente a Nida:
Com essas palavras, o autor mostra que sua concepção de processo de tradução não é idealizada a ponto de supor etapas estanques e ordenadas. Ainda assim, o modelo teórico é tripartite e pressupõe que o tradutor proceda a uma operação lingüística para atingir os significados de um texto e para transpô-los para outra língua.

Apesar de não explicitado, parece que Nida pensa que seria na etapa de transferência que o tradutor escolheria a ‘orientação básica’ para a tradução. RODRIGUES (1999, p.74).


Para tentar dar conta de questões ainda não estudadas pela teoria lingüística da tradução, surge uma nova vertente, ainda que com princípios tradicionais, que irá focalizar suas pesquisas relacionando-as com as concepções de linguagem e leitura. Esta teoria se apóia na descrição de traduções literárias, consistindo na forma de pensamento tradicional da tradução. Dois de seus representantes são Gideon Toury (1981) e André Lefevere (1992), ambos buscam delimitar o que é e o que deixa de ser tradução, isto é, conforme afirma Rodrigues (1999, p.159) a tradução que é “(...) do poder exercido por aqueles que determinam deste a escolha do que vai ser traduzido até o direcionamento de sua produção”. Os trabalhos dos autores mencionados estabelecem relação com os fatores culturais e literários.
Apesar de fazer parte de uma nova perspectiva a respeito da tradução. Lefevere e Toury apontam e retomam algumas categorias já estabelecidas na teoria lingüística. Isto quer dizer que, apesar de aparente diversidade de concepções, ambas as teorias (lingüística e literária) se situam em um plano de estudo similar, ou seja, buscam a evidência através do pressuposto de que todos os textos analisados por seus teóricos fazem parte de uma fonte a qual surge um significado intencional que provoca efeito de poder ser reconhecido e recuperado quando submetido a uma tradução.
Surge uma nova proposta que possui como objetivo desafiar a igualdade de valores textuais entre dois idiomas, ou seja, trabalhar com estruturas que são consideradas indeterminadas em uma tradução. Os representantes desta linha de pesquisa conforme Rodrigues (1999) são Quine (1980), o qual acredita que o significado é decorrente de uma prática social; Fish (1980), defensor da idéia de contextualização e Derrida (1980), o qual apóia o pensamento da desconstrução textual que serve para descobrir partes do texto que estão dissimiladas e que interditam certas condutas. Esses autores esboçam suas teorias textuais expondo a impossibilidade de uma recuperação total de valores puros quando um texto passa por um processo tradutório. A visão deles parte de uma concepção “pós estruturalista” a qual enfatiza a elaboração de uma tradução atribuída à constituição de significados formados a partir de uma rede de diferenças, onde os valores se constituem como uma função produzida pelo sujeito em consonância com convenções de uma comunidade sociocultural.
Na medida em que tanto o texto de partida quanto a tradução se constituem de signos convencionais e arbitrários, ambos são produtos de leituras construídas contextual e socialmente e não podem ser opostos, nem equivalentes, estando em relação de suplementariedade. O pensamento pós-moderno aproxima a tradução dos processos de produção de significados que ocorrem em uma mesma língua e evidencia que a tradução é um caso particular de leitura. O tradutor, como o leitor, é sujeito social responsável pela produção de significados. Suas decisões relacionam-se diretamente às circunstâncias em que ocorre a leitura e às convenções das estruturas institucionais em que se inserem os textos. Assim, a reflexão pós-moderna desvincula o tradutor da imagem de responsável pelo transporte da carga semântica ou pela descoberta de correspondentes de igual valor em duas línguas e situa o tradutor no papel de uma agente transformador responsável pela reescritura de um texto. RODRIGUES (1999, p.221).
O movimento que ficou conhecido como “pós-estruturalista” estava comprometido em se opor ao conceito de significado estável, trazido pelos autores estruturalistas. Segundo nos informa Rodrigues (1999), desta forma, novas tendências de estudos começaram a surgir, tendo como marco inicial esta ruptura dos estudos tradutórios.
Atualmente, as vertentes no campo dos estudos da tradução nos mostram que algumas idéias defendidas pelas teorias tradicionais são consideradas ultrapassadas no ponto de vista dos pesquisadores que surgiram durante este percurso. Os estudos estão sendo realizados de maneira descritiva, sugerindo então que aquela visão do tradutor enquanto transportador de significados estáveis deixa de ser representativa nas mais recentes discussões.

A fidelidade deixa de ser entendida como a tentativa de reprodução do texto de partida e passa a ser relacionada à inevitável presença do tradutor em seu trabalho. A interferência por parte do tradutor no texto de chegada será questionada quanto à sua interpretação, isto é, o tradutor não será excluído do processo tradutório, tornando-se visível na tradução.


Segundo a afirmação da pesquisadora Rosemary Arrojo, em seu livro Oficina de Tradução (2005), “é impossível resgatar integralmente as intenções e o universo de um autor, exatamente porque essas intenções e esse universo serão sempre, inevitavelmente, nossa visão daquilo que possam ter dito”. Isso quer dizer que o autor passa a ser mais um elemento que o tradutor utiliza para construir sua interpretação coerente com o texto da língua-fonte.
O trabalho desenvolvido por Lawrence Venuti (2002), um reconhecido teórico bastante requisitado no que se refere à autoria na tradução, partindo também do mesmo pressuposto da visibilidade do tradutor, ou seja, sua aparição interpretativa no processo tradutório nos apresenta em sua perspectiva a tradução enquanto um processo de transformação. Uma transformação implica necessariamente em mudança, a partir do momento em que o tradutor incorpora sua visão de leitura, criando deste modo uma nova rede de significados. Assim, para Venuti, o significado é coletivo, sendo a subjetividade construída e determinada por elementos sociais, políticos, históricos e culturais.
Conforme sugere Venuti (2002), não existe uma fidelidade absoluta, principalmente na tradução literária. O tradutor deve realizar uma seleção consciente de quais elementos pretende recriar em sua tradução, tanto da forma quanto do conteúdo.
Destacam-se dois conceitos introduzidos por Venuti (2002) sobre a tradução: a tradução domesticadora e a tradução estrangeirizada. O primeiro termo consiste por um grau de invisibilidade do tradutor, isto é, o tradutor não se posiciona interpretativamente no texto, pois tende a priorizar as intenções do autor adaptando-as para a cultura local e desconsiderando pontos que venham a ser estranhos ao seu leitor. Já, o segundo conceito é denominado de tradução estrangeirizadora. Sua estratégia é incorporar valores textuais que estão à margem da cultura-meta, preservando-se os termos do original e colocando em prática uma espécie de manutenção lingüística das diferenças culturais.
Contudo, o autor acredita “que a tradução é estigmatizada como uma forma de escrita, desencorajada pela lei dos direitos autorais, depreciada pela academia, explorada pelas editoras e empresas, organizações governamentais e religiosas.” VENUTI (2002, p.10).
Assim, Venuti (opcit) redimensiona estes aspectos para o conceito de consumibilidade, que se refere à imposição do mercado exigida por revisores, críticos, editoras e leitores. Resumindo, segundo Venuti (opcit) o tradutor tem como limite a aceitação social do seu trabalho.

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal