Janaína Alexandra Capistrano da Costa (uft – to)



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Figura 1. John Gilbert. Ilustração para 1 Henrique VI.2.2. Joana em sua glória militar.

Figura 2. John Gilbert. Ilustração para 1 Henrique VI.4.6. Joana ora em vão aos seus demônios.

Figura 3. John Gilbert. Ilustração para 1 Henrique VI.5.1. Joana diante do pai antes de ser queimada.

50 Honan, p. 183.

51 Essa recente / briga dos pares arde sob as cinzas / fingidas de uma falsa cortesia, / mas vai logo explodir em chama ardente. / Como os membros aos poucos apodrecem / até caírem nervos, carnes e ossos: assim vai dar-se com essa vil discórdia.

52 Enéias Farias Tavares é crítico literário e tradutor. Professor de Literatura Greco-Latina na Universidade Federal de Santa Maria e mestre em Letras pela mesma instituição. E-mail: eneiastavares@yahoo.com.br.

53 Vergonha e confusão! Debandam todos! / Nasce a desordem do pavor, ferindo / quem amparar devera. Ó guerra, filha / do inferno, transformada em instrumento / da cólera dos céus, lança nos frios / peitos dos nossos homens os carvões / ardentes da vingança! (...) Vê o corpo do pai. / Acabe o mundo / desprezível! As chamas prometidas / do último dia a terra e o céu confundam! / Abafe a universal trombeta os ruídos / particulares e as mesquinhas vozes. (Todas as traduções são de Carlos Alberto Nunes).

54 Em Otelo, o domínio do ciúme sob a protagonista é o caos vindo novamente. Em Lear ele representa esse governo que está sendo destrocado pelas duas filhas do rei. Em Macbeth, o caos se fez presente em imagens naturais apocalípticas que marcam a usurpação do reinado de Duncan.

55 Sobre essa figuração da desintegração real e estatal, Park Honan escreve: “No começo da peça, os nobres da corte já discutem a sucessão de Henrique, e Shakespeare explora, de forma ampla a panorâmica, as relações de causa e efeito. Para o dramaturgo, o reinado de Henrique VI foi um vazio que possibilitou explorar o início do caos e da desordem. Esses temas seriam duradouros, ainda presentes em suas tragédias mais maduras – assim como a humanidade que ele confere ao infeliz monarca, cada vez mais eloqüente à medida que seu destino se torna trágico. (...) A obra de Shakespeare está prestes a mostrar prodígios temáticos ainda maiores – como, por exemplo, o fim da ordem civil refletida nas famílias guerreando entre si, irmão tramando matar irmão, e a humanidade reduzida à anarquia amoral dos animais e dos quatro elementos formadores da natureza (terra, água, fogo e ar).” P. 99.

56 De Levítico, capítulo 20, versículo 21.

57 Catarina de Aragão, Ana Bolena, Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina de Howard e Catarina Parr.

58 Burns, p. 392.

59 Ver e citar.

60 Foi-se o orgulho; a ambição lhe vai no encalço. / Enquanto eles só tratam de si próprios, / a nós cumpre cuidar do bem da pátria. Nunca vi comportar-se o Duque de Humphrey / a não ser como um nobre gentil-homem; / mas, ao contrário, vi bastantes vezes / este altivo cardeal – que mais parece / soldado do que padre, sempre cheio / de si mesmo e insolente – sem propósito / jurar como um rifião e fazer coisas / de todo em todo indignas do alto nome / de um regente do império.

61 Vou dizer-te, / Pole, uma coisa: quando na cidade / de Tours correste lança em homenagem / do meu amor, e os corações roubaste / às senhoras francesas, fiz idéia / de como era o Rei Henrique, / em coragem, maneiras e elegância. / Mas ele só aspira à santidade, / rezar ave-marias no rosário; / os apóstolos e profetas o amparam; / por armas tem sentenças da Escritura; / seu gabinete é a liça de exercícios; / seus amores, apenas as imagens / dos santos eu já estão canonizados.

62 Honan, p. 97.

63 Com o próprio Shakespeare demonstrará mais tarde, na peça que encerra sua segunda tetralogia, Henrique V foi o maior monarca que a Inglaterra já havia visto até então. Considerado por alguns como o Alexandre Inglês, devido as suas conquistas e aos relatos de batalhar no meio de seus homens, não apenas no comando (detalhe que Shakespeare usa brilhantemente no grande discurso da festa de São Crispin, antes da batalha de Agincourt, em Henrique V.4.3), a figura do monarca destoa enormemente de seu filho, Henrique VI. Nessa primeira tetralogia, Shakespeare começa mostrando o funeral do antigo e grande rei. Sobre as figurações dessa imagem de glória e poder régio em contraste com o frágil e infantil Henrique VI, Spurgeon escreve: “Assim, na primeira cena – o funeral de Henrique V na Abadia de Westminster – somos imediatamente tocados pelo efeito produzido pelo contraste entre a chama da luz ofuscante – cometas, planetas, sol e estrelas – e um pano de fundo de negror e luto, caracterizando o brilho e a glória do rei morto e a pesada tristeza de sua perda. (...) E a última imagem que ele nos dá do grande rei está de acordo com toda a cena: ‘Tua alma formará uma remota estrela mais esplendorosa / Que a de Julio Cesar ou a brilhante...’ um grito rudemente interrompido, e os pranteadores trazidos com golpe arrasador do céu para a terra, por uma sucessão de mensageiros que entram correndo com as más novas da perda, com ‘matança e derrota’, da maior parte das vitórias brilhantes e duramente conquistadas por Henrique na França.” (p. 212-213)

64 Oh, gracioso senhor, é perigosa / a época em que vivemos. A virtude / pela negra ambição fica abalada, / sendo expulso pelo ódio o amor ao próximo. / Domina a corrupção; de vossas terras / é banida a equidade. Não me é estranho / que eles conspiram contra a minha vida.

65 Assim o Rei Henrique / joga fora a muleta, antes que as pernas / o possam sustentar. Assim te privam / do pastor, quando lobos já disputam, / rosnando, a primazia de comer-te. / Ah! Se fosse infundado o meu receio! / Temo a tua queda, meu bondoso Henrique.

66 Park Honan, p. 99.

67 Refletindo sobre a caracterização do rebelde da plebe, Nunes o relaciona com os revoltosos presentes em sua última tragédia. “A plebe londrina, representada por John Cade e seus sequazes, é em tudo igual à plebe de Roma, na tragédia Coriolano, que o poeta viria a escrever na época de sua pujança literária: inconstantes, venais e, sobretudo, ridículos, os representantes do povo se distinguem sempre, para Shakespeare, pelo cheiro que exalam, indicio de franco desasseio. ‘Quando eu for rei’, grita Cade para a turba boquiaberta, ‘não haverá necessidade de dinheiro. Todo o mundo há de comer à minha custa. Farei que todos usem uniforme, para que se comportem como irmãos e me honrem como o seu senhor.’ Nem falta, nesse quadro fiel de sublevação das massas, o ódio inato à inteligência, que caracteriza os movimentos dessa natureza. (...) E de acordo com esses princípios, logo adiante foi agarrado e enforcado o escrivão de Chatham, com a pena e o tinteiro pendurados ao pescoço, por haver ‘confessado’ que sabia ler e escrever. A partir da chamada Revolução Francesa a atualidade de Shakespeare se faz sentir principalmente por cenas dessa natureza. Não nos esqueçamos de que Lavouisier foi guilhotinado porque ‘a Revolução não precisava de sábios’.” (Nunes, p. 154) Ilustrando muito bem o horror dessa revolução da plebe contra os magistrados, Shakespeare coloca, em 4.7 de 2 Henrique VI, a seguinte marcação: “Voltam os rebeldes, com a cabeça de Lorde Say e a de seu genro”. Após, Cade ordena que as cabeças se beijem, para “morbidamente” mostrarem que ainda se amam como parentes. Abaixo duas interpretações do absurdo da cena.



Figura 01. John Gilbert. Ilustração para 2 Henrique VI.4.7.

Figura 02. Cena do filme BBC Television Shakespeare – 2 Henry VI, de 1981I. Dirigido por Jane Howell e tendo Trevor Peacock como Jack Cadê.

68 Más notícias, / Milorde Somerset; mas Deus é grande.

69 Não julgueis; somos todos pecadores. / Fechai-lhe os olhos; deixai bem cerradas / as cortinas e vamos meditar.

70 Nessa passagem, o tradutor Carlos Alberto Nunes chama a atenção para o modo como o poeta demonstra poeticamente uma prática que nem mesmo havia nascido: a medicina legal. Nunes escreve: “O exame que faz Warwick do cadáver do Gloster, para concluir por crime, é uma verdadeira aula de medicina legal, numa época em que esse ramo da medicina ainda não se constituíra. Depois de mostrar como ficam as pessoas que falecem de morte natural: cor de cinza, rosto exangue, continua Waswick com segurança magistral: ‘Agora vede / como o rosto ele tem congesto e negro. / Os olhos se apresentam mais saltados / do que em vida e nos fixam por maneira / pavorosa, tal como de pessoa / que tivesse morrido estrangulado. / Os cabelos ficaram levantados / abertas as nariculas com a luta, / distendidas as mãos como no gesto / de quem lutado houvesse, em desespero, / vindo a ser dominado pela força. / Contemplai o lençol; vede cabelos / neste ponto. Ele tinha sempre a barba / bem tratada; ora se acha em desalinho, / como trigo no estio, derrubado / por grande tempestade. Não se pode / concluir de outra maneira: houve violência. / O menor destes dados o comprova.

71 Essa menção se faz presente em Hamlet, na oração de Claudius. Também na atitude de fraqueza de Ricardo II e de Malcolm em Macbeth. Ao que parece, era um problema sério um rei ser fraco e inábil para governar como se vê nessa última, em que o filho primogênito de Duncan, julga-se inapto a governar, o que parece também numa ironia de Shakespeare em relação às atitudes do tirano. Sobre isso em Hamlet, Lawrence Flores Pereira afirma: “Escrúpulos de consciência agudos surgem na mente de Cláudio somente após este assistir à representação da peça. Ao longo do discurso, contudo, ficará ciente de que, a despeito de sua vontade (frágil) de rezar, qualquer resgate lhe está vedado. Seu caso, porém, é problemático. Ele não apenas cometeu um dos crimes mais graves (o fratricídio) e mais ‘primeiros’ (primal), mas é um regicida. Suas ligeiras dores de consciência não são suficientes a ponto de levá-lo a renunciar àqueles privilégios que seu crime lhe garantiu: o trono e ‘sua’ rainha” (nota 70).

72 Já houve soberano que em seu trono / terreno haja reinado com tão poucas / alegrias como eu? Não tinha o berço / de todo abandonado, aos nove meses / de idade, quando fui coroado rei. / Súdito algum mostrou tanto desejo / de ser rei como eu tenho de ser súdito.

73 Honan, p. 96.

74 Enéias Farias Tavares é crítico literário e tradutor. Professor de Literatura Greco-Latina na Universidade Federal de Santa Maria e mestre em Letras pela mesma instituição. E-mail: eneiastavares@yahoo.com.br.

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Figura 01. Cena do filme BBC Television Shakespeare – 3 Henry VI, de 1983. Dirigido por Jane Howell.

76 Forçaram-te? És rei e te forçaram? / Envergonha-me ouvir-te. Ó desgraçado, / sem coragem! Causaste a nossa ruína, / a tua, a minha, a de teu filho, e à casa / de York deste tal força, que só podes / doravante reinar se o consentirem. / (...) e, ainda assim, te julgas firme? / Sim, estás muito firme, como o trêmulo / cordeirinho entre lobos. Se eu me achasse / presente, embora eu seja mulher fraca, / deixar-me-ia ferir pelos soldados, / antes de consentir nesse contrato / Mas preferiste a vida com a desonra. / Por isso, Henrique, a decisão eu tomo / de abandonar teu leito e a tua mesa, / até ver anulado esse ato absurdo / do parlamento, que privou meu filho / suas esperanças. (...) E assim, te deixo. Vamos, / meu filho; nosso exército está a postos; / vamos ao seu encontro. (Todas as traduções são de Carlos Alberto Nunes).

77 Clifford diante dos York, reflete sobre o principal responsável pela decadência do reino: “And, Henry, hadst thou sway'd as kings should do, / Or as thy father and his father did, / Giving no ground unto the house of York, / They never then had sprung like summer flies; / I and ten thousand in this luckless realm / Had left no mourning widows for our death; / And thou this day hadst kept thy chair in peace. / For what doth cherish weeds but gentle air? / And what makes robbers bold but too much lenity? II.vi. (E tu, Henrique, / se houvesse sido rei, como cumpria, / o pai e o avô seguindo neste ponto, / sem terreno ceder à casa de York, / jamais a gente dela enxamearia / como as moscas do estio; eu e milhares / de outras pessoas deste infeliz reino / viúvas não deixáramos de luto / por nossa morte, e tu ainda estarias / governando, pacífico, o teu povo. Que é que faz pupular a erva daninha, / afora o ar generoso? Que é que torna / mais audaciosos os ladrões de estrada, / senão muita bondade?).

78 Diante da opressão dos York, em II.2, o monarca ainda acredita que a mera diplomacia ainda poderá resolver o conflito. “KING HENRY VI: Have done with words, my lords, /and hear me speak. / QUEEN MARGARET: Defy them then, or else hold close thy lips. / KING HENRY VI: I prithee, give no limits to my tongue: / I am a king, and privileged to speak. / CLIFFORD: My liege, the wound that bred this meeting here / Cannot be cured by words; therefore be still.” (Rei Henrique: Parai, senhores, e escutai-me agora. / Rainha Margarida: Desafia-os de vez ou cala a boca. / Rei Henrique: Por favor, não me ponhas freio à língua; / sou rei; tenho direito de falar. / Clifford: A ferida, milorde, que deu azo / a essa assembléia não se cura à custa / de conversas; por isso, ficai quieto.)

79 Desejara / que Vossa Alteza abandonasse o campo; / vós ausente, a rainha tem mais sorte.

80 Diante da visão medonha da guerra, da imagem do pai trazendo o filho morto por sua própria mão e do filho trazendo o pai morto, lutando em lado oposto na guerra civil pelo trono inglês, as conjecturas de Henrique resumem-se não a reflexões políticas ou humanas, e sim, meramente ao desejo egoísta de tranqüilidade que a vida campestre apregoa. Diz Henrique: “Here on this molehill will I sit me down. / To whom God will, there be the victory! / For Margaret my queen, and Clifford too, / Have chid me from the battle; swearing both / They prosper best of all when I am thence. / Would I were dead! if God's good will were so; / For what is in this world but grief and woe? / O God! methinks it were a happy life, / To be no better than a homely swain; / To sit upon a hill, as I do now, / To carve out dials quaintly, point by point, / Thereby to see the minutes how they run, / How many make the hour full complete; / How many hours bring about the day; / How many days will finish up the year; / How many years a mortal man may live. / When this is known, then to divide the times: / So many hours must I tend my flock; / So many hours must I take my rest; / So many hours must I contemplate; / So many hours must I sport myself; / So many days my ewes have been with young; / So many weeks ere the poor fools will ean: / So many years ere I shall shear the fleece: / So minutes, hours, days, months, and years, / Pass'd over to the end they were created, / Would bring white hairs unto a quiet grave. / Ah, what a life were this! how sweet! how lovely!” (Vou sentar-me / neste monte de terra de toupeiras. / Seja a vitória de quem Deus quiser. / Do campo de batalha me tiraram / minha consorte Margarida e Glifford, / jurando ambos que sempre lhes corria / tudo pelo melhor estando eu longe. / Quem me dera que morto eu já me achasse! / Assim Deus o quisesse. Neste mundo / tudo é aflição, tudo pesar profundo. / Oh Senhor, quero crer que fora a vida / muito para invejar, se eu mais não fosse / do que um simples pastor e me sentasse, / em cômoros, tal como o faço agora, / a observar o relógio atentamente / e ver como os minutos se sucedem, / quanto são necessários para um hora, / quantas horas se somam num só dia, / quanto dias um ano inteiro fazem, / quantos anos a vida humana alcança. / Sabido isso, partir desta arte o tempo: / tantos horas dedico ao meu rebanho, / tantas horas ao sono são votadas, / tantas horas são dadas à oração, / tantas horas ocupo-me em desporto; / tantos dias gravidam-se as ovelhas, / tantas semanas mais, e darão cria, / tantos anos, até que a lã lhes tose. / Minutos, horas, meses, dais, anos, / assim, sendo empregados como devem / de ser, conduziriam para quieta sepultura os cabelos descorados. / Oh, que vida fora essa! Que inefável doçura!). Como Frank Kermode afirma, mesmo nas formas esquemáticas, Shakespeare consegue inovar ao expressar essa inaptidão real por meio de um lirismo bucólico surpreendente. Segundo o crítico: “O desespero do rei, em um momento de calma na batalha de Towton, medita sobre a vida do camponês, que excede em muito a sua própria, em termos de paz e conforto. É um tema pastoral consagrado, e a fala é um exercício artístico no gênero pastoral” (p. 39). Já Heliodora é bem mais crítica a essa forte poesia que revela o fraco poeta: “Antes mesmo da apreensão intelectual do significado deste set speech harmônico e bucólico, tanto a suavidade de seus ritmos, a solidão do rei, o equilíbrio das imagens e a repetição de palavras simples da mais pura tradição bíblica, quanto sua justaposição às cenas de batalha constituem impecável enfoque crítico autoral: Henrique demonstra que é o anti-rei, a negação das virtudes peculiares a essa posição na hierarquia do Estado, bem como na hierarquia do universo” (p. 229).

81 Heliodora, p. 215.

82 Ibiden.

83 Ó coração de tigre envolto em pele / de mulher! Como foi que tu pudeste, / sem de mulher haver perdido a forma, / fazer o pai de uma criança os olhos / enxugar com o lenço que tu mesma / embeberas, feroz, no sangue dela? / As mulheres são brancas, delicadas, / sensíveis e piedosas; tu, insensível, / sem remorsos, de pedra, sem piedade. / Querias que eu ficasse enfurecido? / Agora estás contente. Que eu chorasse? / Conseguiste o almejado. (Nunes, p. 172)

84 Honan, p. 184.

85 Sobre o episódio, Cristiane Busato Smith escreve: A primeira informação que temos sobre Shakespeare nos teatros londrino vem da pena do escritor Robert Greene, em seu amargo panfleto de 1592 Groatsworth of Wit, Bought with a Million of Repentance (Um tostão de sabedoria comprado com um milhão de arrependimento). Greene era um escritor relativamente bem-sucedido, membro do grupo de dramaturgos chamado de ‘University Wits’ (grupo de escritores formados em universidades). Pouco antes de morrer, escreve: ‘(...) porque há uma gralha emergente, embelezada com nossa plumagem, que, com seu coração de tigre envolto em pele de ator, pressupõe-se que seja bem capaz de escrever um verso branco de forma bombástica, como o melhor de vocês: e sendo um absoluto Johannes factotun é, em sua própria opinião, o único Sacode-cenas [Shake-scene] do país.’ As invejosas palavras do planfleto auxiliam a estabelecer a reputação e o sucesso de Shakespeare como um ator poeta, que rivaliza com escritores de educação superior a ele. Por meio desse panfleto, Greene registra o sucesso dos ‘versos bombásticos’ do escritor que ‘sacode’ (shake) o teatro (scene), um claro trocadilho com o nome de Shakespeare. Greene, de sobra, faz uma menção direta à popular peça Henrique VI, parte 3 na citação ‘Ó coração de tigre, envolto em pele de mulher’.” (p. 28)

86 Grandes lordes, os sábios nunca param / para chorar as perdas, mas procuram / repará-las com ânimo disposto. / O mastro se quebrou? Partiu-se a amarra? / Perdeu-se a âncora e as ondas já tragaram / metade dos marujos? Mas inda / vive o piloto. É crível que ele possa soltar o leme e, como um rapazinho / cheio de medo, com as próprias lágrimas / dos olhos marejados, a água aumente / do mar e de mais força ao que já mostra força excessiva, ao tempo em que o navio / vai de encontro ao rochedo e se espedaça, / mau grado seus gemidos, quando fora / fácil, com decisão, salvar o barco? (...) Por tudo isso, / direi somente: o vosso soberano / se encontra prisioneiro do inimigo; / o trono está ocupado; em matadouro / se encontra transformado todo o reino; / seu povo, massacrado; os estatutos, / violados; esbanjado todo o erário. / Eis o lobo fautor de toda a ruína. / Em nome, pois, de Deus sede valentes. / Tocai logo o sinal para o combate. (Nunes, p. 260)

87 Para mais detalhes, veja Spurgeon, p. 217.

88 Sobre a possível acepção do público diante da imagem da personagem Margarida, Heliodora afirma: “É preciso não esquecer que, a olhos elisabetanos, a anomalia de um homem – e ainda mais um rei – obedecer a uma mulher – e, ainda mais, uma mulher sobejamente apresentada como indigna de ser rainha – seria clamorosa, seria imagem de comunicação imediata, carregada de implicações obvias em relação à quebra da ordem permanentemente ensinada como único caminho para a felicidade e o bem-estar comum.” (P. 229)

89 Num determinado momento do drama, quando os inimigos Eduardo e Margarida se encontram, o primeiro afirma: Since when, his oath is broke; for, as I hear, / You, that are king, though he do wear the crown, / Have caused him, (…) II.ii (Depois disso, (Henrique) quebrou o juramento, / sim, porque me disseram que (tu, Margarida) o obrigaste – uma vez que és o rei, de fato, embora dele seja a coroa.) Nunes, p. 186. Essa caracterização da rainha como sendo a própria força autoritária do reino está presente na interpretação que John Gilbert faz do drama. Nas ilustrações em que a rainha aparece, em 3 Henrique VI, é sempre ela que tem a posição elevada e o braço em riste como símbolo de autoridade, ao passo que o rei representa o oposto disso, sempre em posição inclinada e reticente.




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