Janaína Alexandra Capistrano da Costa (uft – to)



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Michaell Victor Grillo186


Acadêmico do curso Comunicação Social - UFRJ
Pode-se afirmar que o livro Lutar com palavras-coesão e coerência, de Irandé Antunes, tem por objetivo esclarecer os mistérios que ainda envolvem a construção de um texto coeso e coerente, sem utilizar teorias complexas e pouco inteligíveis.
A autora tem a preocupação de permear toda a sua obra com um assunto de extrema relevância para os estudos lingüísticos atuais: a elaboração de textos. Numa crítica às escolas, Antunes se mostra indignada com as instituições de ensino que insistem em abordar apenas gramática durante as aulas de Português.
Nota-se que Irandé Antunes é perpiscaz em seus comentários. Mesmo sabendo que nenhuma pessoa sai às ruas dizendo absurdos e frases sem sentido, as escolas têm por obrigação ampliar as competências lingüísticas de cada um. Mas não é isso que pode ser observado na atualidade. Há uma preocupação única e exclusiva em ensinar o que é certo e o que é errado dentro da Língua tida como padrão pela sociedade. Porém, a Língua é muito mais do que um simples “tirar ou pôr” de unidades gramaticais e lexicais. É saber escolher qual recurso gramatical ou lexical deve ser utilizado no decorrer da produção de um texto; é entender que nunca há elaboração de um texto fora de uma situação cultural.
Percebe-se que, ao obrigar os alunos a exercitarem a gramática, mediante a elaboração de frases soltas, as escolas em nada estão contribuindo para formar cidadãos aptos a escrever qualquer tipo de texto. Devido à falta de prática, as pessoas sentem muita dificuldade em produzir textos coesos, com propósitos claros. Um texto vai muito além do aspecto superficial, ou seja, do gramatical. Ele deve ser entendido, acima de tudo, pelo contexto em que está inserido e pelos efeitos que seus produtores desejam obter.
Segundo Antunes, entende-se por um texto coeso aquele que apresenta continuidade semântica obtida pelo encadeamento de suas subpartes, ou seja, aquele que não apresenta partes soltas e sim, unidas. Esse “laço” é conseguido pela retomada de elementos que aparecem em algum momento anterior do texto (reiteração), pela escolha do vocabulário a ser utilizado (associação), ou então pelo emprego de conectores (conexão).
Observa-se que, no campo da reiteração, incluem-se os procedimentos da repetição e da substituição. A repetição engloba os seguintes recursos: paráfrase, paralelismo e repetição propriamente dita de uma palavra ou de uma expressão, enquanto a substituição pode ser da ordem gramatical ou lexical, ou ainda, ser estabelecida pela utilização da elipse.
É importante ressaltar que a autora, ao abordar a repetição, principalmente a repetição propriamente dita, tem a preocupação de esclarecer que não se trata de um recurso exclusivo da oralidade, muitas vezes marcada pela “despreocupação” e pela informalidade. É um recurso muito significativo na escrita, exercendo inúmeras funções distintas. Observa-se ainda que, se a repetição for mal empregada, fará com que o enunciado caia na mesmice, que não progrida no desenrolar dos fatos. Antes de mencionar que a repetição é utilizada sem nenhum propósito claro, deve-se analisar o contexto em que ela está inserida.
Nota-se que Antunes, ao citar a substituição como uma das maneiras de se obter o nexo coesivo, tem a preocupação de alertar para os perigos que correm as pessoas ao substituírem um termo por um pronome em frases soltas; de elucidar o que fazer quando se está em dúvida, por exemplo, entre usar um pronome ou um sinônimo e de mostrar a importância do contexto na hora dessa escolha.
É preciso ter consciência de que, ao substituir uma palavra mencionada anteriormente por um pronome, deve ser levado em conta o contexto em que ocorre tal substituição (o contexto tem muita importância nas retomadas por elipse, pois é ele o responsável por identificar os termos omitidos, a fim de que não se perca o “fio” que amarra o texto). Se tal procedimento for realizado em frases soltas, a substituição estará correta, mas quando levadas para o texto, pode gerar uma ambigüidade, acabando por acarretar um problema de interpretação. Percebe-se, então, que o melhor a ser feito, não é substituir a palavra por um pronome, mas, por um sinônimo, hiperônimo, caracterizador situacional ou simplesmente repetir a palavra.
Observa-se, ainda, que a substituição leva uma vantagem sobre a repetição, já que pode acrescentar informações ou dados a uma referência já introduzida, ou seja, pode deixar o texto mais informativo. Dependendo do tipo de substituição, possuir apenas o conhecimento da Língua é insuficiente, sendo necessário levar o conhecimento de mundo do leitor para a interpretação, o que acaba por confirmar ser a substituição muito mais da ordem sociocognitiva do que da ordem lingüística.
Observa-se que, no campo da associação, se faz presente o procedimento da seleção lexical, ou seja, da seleção de palavras semanticamente próximas com o intuito de provocar a unidade temática do texto e conseqüentemente, sua progressão. É importante ressaltar que o responsável por essa seleção é o próprio tema, o tópico do texto e a intenção pretendida na interação. Porém, pouca gente parece perceber que a escolha de palavras pertencentes a um mesmo campo semântico, além de ocasionar a ligação de diferentes segmentos, torna o texto relevante, interessante, e não algo monótono, comum. Em contrapartida, pode-se observar que o simples fato de aparecer um grupo de palavras associadas não garante que o texto seja coeso, que tenha unidade e que progrida tematicamente.
Quando Irandé Antunes fala da conexão, destaca as funções dos conectores: ligar as subpartes de um texto (não só orações, mas também períodos, parágrafos ou blocos maiores do texto) e indicar as relações de sentido e de orientações argumentativas. A autora não demonstra preocupação em fornecer nomenclaturas a essas relações de sentido proporcionadas pelos diversos tipos de conectores. O que realmente importa é orientar o interlocutor a cerca da direção pretendida, até porque muitos desses conectores assumem mais de um valor semântico.
Nota-se que a coerência só começa a ser abordada por Antunes no penúltimo capítulo do livro. Na verdade, essa distribuição não causa nenhum espanto, até porque é impossível realizar um estudo textual, separando artificialmente os conceitos de coesão e coerência. Por isso, limita-se a fazer pequenas considerações sobre incoerências pontuais e globais e a respeito das Meta-Regras formuladas por Charolles, que simplesmente retomam aspectos abordados por autores que trabalham com coesão. O que fica da sua análise sobre a coerência é que ela depende, e muito, de aspectos extralingüísticos.
Portanto, assim como insistiu Irandé Antunes em toda sua obra, é de extrema importância continuar lutando para que as instituições de ensino do nosso país despertem a tempo, a fim de entender o que é ensinar a verdadeira Língua Portuguesa. Muito mais do que trabalhar com os conceitos de certo e errado, é preciso que se faça compreender a Língua como uma representação da realidade, constituída a partir de relações sócio-culturais e não só de aspectos lingüísticos. De uma vez por todas, é preciso que muitos “formadores de intelecto” entendam que um texto não se faz apenas com gramática.
        

ALMEIDA FILHO, José Carlos Paes de. Lingüística aplicada: ensino de línguas e comunicação. 2ª ed. Campinas, SP: Pontes Editores e Arte Língua, 2007. 112 p.
Silvia Perobelli

Mestranda em Lingüística Aplicada – UPF – Passo Fundo – RS



Docente do Curso de Letras da URCAMP – São Borja – RS
O livro Lingüística aplicada: ensino de línguas e comunicação, de José Carlos Paes de Almeida Filho é uma obra que representa um trabalho de pesquisa, análise e reflexão do autor, apresentando noções de vários assuntos referentes à Lingüística Aplicada (LA), ciência irmã da Lingüística e da Estética da Linguagem. O livro proporciona ao leitor uma noção do que é lingüística, lingüística aplicada e ensino de línguas.
Lingüista brasileiro, Almeida Filho possui um currículo admirável. Graduou-se em Letras pela Universidade Católica de São Paulo (1971), especializou-se em Lingüística Aplicada pela Universidade de Edimburgo, na Escócia (1975), obteve o grau de mestre em Educação em Língua Estrangeira, na Inglaterra (1976), e o grau de doutor nos Estados Unidos (1984). Atualmente é professor adjunto do Instituto de Letras da Universidade de Brasília. Possui experiência na área de Pesquisa Aplicada no que se refere à linguagem, com ênfase em Teoria do Ensino e Aprendizagem de Línguas.
No livro, o autor aborda o assunto de forma clara e precisa de tal maneira que torna o texto in totum acessível a acadêmicos iniciantes na área e até mesmo a leigos, situados fora do mundo acadêmico. Com maestria e experiência no assunto, Almeida Filho conseguiu escrever sobre o interessante e complexo processo de aprender e ensinar línguas, regando com observações feitas ao longo de seu trabalho como pesquisador.
O livro está equibradamente dividido em oito capítulos e cada um, por sua vez, apresenta subdivisões. No primeiro, Língüística aplicada, aplicação de lingüística e ensino de línguas, Almeida Filho expõe sobre o desenvolvimento da Lingüística Aplicada como área de conhecimento objetivo e sistemático e como esta ciência foi, durante décadas, sinônimo de ensino de línguas, principalmente de língua estrangeira. Neste capítulo, é proporcionado um panorama do percurso da LA durante o século XX e do cenário de aprendizagem de línguas. Além disso, discute sobre o processo de ensino e aprendizagem de línguas e apresenta os fatores externos e internos influentes deste processo.
No segundo capítulo, Maneiras de compreender lingüística aplicada, o autor discorre sobre a Língüística Aplicada como ciência ligada à pesquisa científica, cujo objeto de estudo é o problema ou o uso real da linguagem na prática social. Ainda, sustenta que há maneiras de entender a LA e mostra o percurso de cada uma delas e situa esta ciência como descendente das Ciências Humanas e Ciências da Linguagem.
O terceiro capítulo, A questão das línguas estrangeiras no currículo das escolas fundamental e média, trata das repercursões do modelo de oferta da disciplina língua estrangeira no currículo escolar público, depois da reforma introduzida pela Lei 5692, em 1971. Também, trada da questão de quais línguas estrangeiras devem ser ensinadas nas escolas e da questão de não haver no país uma política de ensino de línguas nas escolas públicas. Além disso, é exposto sobre o papel da disciplina língua estrangeira na rede de ensino que, segundo o autor, é basicamente educacional-cultural-comunicacional.
No quarto capítulo, Pela diversidade de oferta de línguas estrangeiras na escola, é exposto sobre a inclusão das línguas estrangeiras como disciplina nas escolas e são apresentados critérios que fazem com que determinada língua estrangeira seja introduzida como disciplina no currículo escolar. A seguir, é discultido sobre o termo “plurilingüismo”, mostrando que dentro da área educacional esta palavra adquiriu concepção diferente da que considrea a lingüística e a lingüística aplicada.

No quinto capítulo, A formação do professor de LE em nível de pós-graduação: o ensino e a pesquisa, o autor trata da formação do professor de língua estrangeira em nível lato sensu e stricto sensu. Comenta sobre os cursos de pós-graduação específicos de ensino de LE no Brasil e sobre os perigos do processo de formação pós-graduada. O lingüista aborda algumas possíveis opções para a implementação de uma política de formação de pesquisadores e especialistas na área de ensino e aprendizagem de língua estrangeira no país.


No sexto capítulo, A trajetória de mudanças no ensino e aprendizagem de línguas: ênfase ou natureza?, Almeida Filho proporciona uma visão dos métodos utilizados no ensino de línguas, nas décadas de 70, 80 e 90. Define o que é metodologia de ensino de línguas em contextos específicos de L1, L2 e LE. Faz um diagnóstico do que ocorre dentro e fora da sala de aula e do ensino de línguas na atualidade, expondo as condições para uma aprendizagem bem sucedida. A seguir, discute sobre a formação continuada do professor de línguas, propondo uma auto-análise da prática profissional.
O sétimo capítulo, A abordagem comunicativa do ensino de línguas: promessa ou renovação na década de 1980?, trata mais especificamente da abordagem comunicativa, apresentando alguns significados sobre ela, e trata da competência comunicativa, cujo conceito tem estreita relação com a abordagem. Também, comenta sobre a prática comunicativa, citando e analisando exemplos de amostras de linguagem que são ofereceidas aos aprendizes em sala de aula.

No oitavo capítulo, O ensino de línguas no Brasil desde 1978. E agora?, Almeida Filho discorre sobre fatos passados, ocorridos desde 1978 até 2006, fazendo um percurso do ensino de línguas no Brasil, e comenta as conseqüências dos modelos aplicados durante este período. A seguir, fala sobre a abordagem comunicativa do ensino de línguas, tanto como paradigma para a formação de professores quanto para a pesquisa aplicada, e apresenta traços que distinguem os sentidos errôneos dos sentidos centrais no que se refere a constituição desta abordagem. Ademais, o autor expõe sobre os motivos pelos quais o ensino comunicativo não se tornou ainda uma prática renovadora no país. Conclui o seu trabalho, dizendo que o corpo profissional de ensino de línguas está com ações limitadas e endêmicas, e possuído por uma confusão teórica, porém está preocupado com a sua reconstrução.


Após a leitura e estudo desta obra, pode-se afirmar que se trata de um livro fundamental para qualquer indivíduo que se interessa por questões lingüísticas, mais especificamente para aqueles envolvidos com estudos sobre o ensino e aprendizagem de línguas. Além dessa área de interesse, este livro é também indicado para aqueles envolvidos com a pesquisa aplicada. Entretanto, o seu conteúdo não se restringe a apenas a estudos e pesquisa, ele vai além, ou seja, serve para uma reflexão do que é o ensino de línguas e como ele é realizado nas escolas atualmente. Enfim, é uma obra que serve de base para acadêmicos, professores e pesquisadores que desejam percorrer os caminhos do ensino de línguas e da pesquisa aplicada.

A UTOPIA DA SIMPLICIDADE: UM ESTUDO SOBRE A INFLUÊNCIA LUCRECIANA NA POESIA DE ALBERTO CAEIRO
Ana Patrícia Silva de Sousa187

Mestre em Estudos Clássicos – Universidade de Aveiro – Portugal


Resumo: Este trabalho apresenta algumas reflexões sobre a simplicidade poética, usada pelos poetas-filósofos Lucrécio, discípulo epicurista, e Alberto Caeiro, heterónimo pessoano, demonstrando a influência do primeiro no segundo.

Palavras-chave: simplicidade, poesia, filosofia.


Abstract: This paper shows some reflections about the poetic simplicity, used by both poets-philosophers Lucretius, Epicure’s disciple, and Alberto Caeiro, Pessoa’s heteronym, demonstrating the influence of the first in the second.

Keywords: simplicity, poetry, philosophy.



“Há poesia em tudo - na terra e no mar, nos lagos e nas margens do rio”188.
“Le sage [...] ne compose pas de poèmes, il les vit”189.
Se tudo é poesia — determina Pessoa; logo não escrevas poemas, vive-os — ensina Epicuro. O gracejo silogístico, com as palavras dos autores, tenta preludiar o tema da utopia da simplicidade que se estende pela comparação de dois poetas, Lucrécio, discípulo de Epicuro, e Alberto Caeiro, heterónimo pessoano: neles, a poesia parece natural às coisas e aos seres. Nada se estranha na asserção de Fernando Pessoa, conhecido poeta das letras portuguesas, porém Epicuro sempre escreveu a prosa da filosofia. ­
Na Grécia do século IV a.C., Epicuro estabelece os fundamentos de um sistema filosófico — o epicurismo —, secundado nos conhecimentos dos antigos pensadores gregos, Leucipo e Demócrito, que defendiam uma visão atomista do mundo. Funda, então, a escola do Jardim, cujo nome reflecte a forte ligação com a Natureza, e, nesse local, professa a Verdade e o caminho epicuristas. Partindo do princípio de que o mundo é formado por átomos, micro-partículas inúmeras e indivisíveis, desmistifica os fenómenos da Natureza e cientifica o conhecimento humano sobre as coisas. É, portanto, uma filosofia materialista, naturalista e, ao basear o conhecimento na informação obtida pelos órgãos de sentido, sensualista. Contra o peso da tradição religiosa, Epicuro revela que o mundo é material, retirando a intervenção divina, quer na criação do mundo, quer nos afazeres humanos, e, assim, vence o medo da morte. Sem o temor aos deuses, com a simplicidade dos sentidos, os homens compreendem o que os rodeia e acercam-se de um modo de vida mais natural, como que regressando à pureza primitiva de outrora. A vida humana torna-se mais certa, — aquém das incertezas da providência divina, longe da ignorância sobre a mecânica do mundo. Lamentavelmente, da sua obra, resistem apenas, no presente, poucas cartas e algumas máximas: Carta a Heródoto, Carta a Pítocles, Carta a Meneceu, Máximas Capitais e alguns fragmentos; sendo, sobretudo, através do seu discípulo latino, Lucrécio, e da sua obra, De Rerum Natura, que os pensamentos de Epicuro foram aprofundados e esclarecidos para os seus procedentes.
Lucrécio: poeta ou filósofo?
Na Itália do século I a.C., Tito Lucrécio Caro viveu dias de loucura, escrevendo, nos intervalos de sanidade que lhe eram cedidos, a obra da sua vida —o De Rerum Natura190. Trata-se de um poema longo, dividido em seis livros e escrito em verso hexâmetro, cujo tema consiste na exposição da filosofia epicurista. Ao que consta faleceu antes de proceder à sua revisão, tendo sido executada pelo famoso advogado e homem das letras, Cícero, que elogiou191 o engenho do poema lucreciano.
Desconhece-se como contactou com o epicurismo. Mas, a obscuridade sobre a sua vida opõe-se à clareza da sua obra. Assume-se, em versos panegíricos, como um fiel discípulo de Epicuro e tal submissão marca a sua poesia. É tocante o modo apaixonado com que Lucrécio escreve sobre o seu Mestre e sobre as suas áureas palavras: Epicuro é o “Graius homo” que trouxe a Verdade aos homens, o “rerum inuentor”192 que subjugou os terrores da religião. Já, Lucrécio é o apóstolo fervoroso, o poeta que canta a Natureza.
Porém, ao mesmo tempo que Lucrécio se inferioriza, se reverencia humildemente perante o seu Mestre, como um apóstolo perante o seu Deus, há, nele, algo de superior que o eleva sobre os demais. É que o discípulo se orgulha dos seus versos. A opção pela poesia revela uma certa rebeldia, uma vez que o Mestre não a apreciava por estar ligada às fábulas mitológicas e, dessa forma, à religião, preferindo a prosa. Aliás, e segundo o Grego, a prosa— mais clara e objectiva do que a poesia — ajusta-se ao objectivo de comunicar a mensagem epicurista por todos, desde do mais rico ao mais pobre, do mais culto ao mais iletrado.
Só que Lucrécio escreve “candida carmina”193 que procuram elucidar a complexidade da matéria filosófica:
“Nec me animi fallit Graiorum obscura reperta 
difficile inlustrare Latinis uersibus esse,
multa nouis uerbis praesertim cum sit agendum
propter egestatem linguae et rerum nouitatem;”194

Eis a dificuldade da empresa a que Lucrécio aspira: as descobertas gregas são obscuras e torna-se árduo clarificá-las nos seus versos, devido à pobreza da língua latina e à novidade do tema, tendo de inventar novos vocábulos. Ora, a vaidade do discípulo subordina-se ao propósito de universalidade epicurista: a educação para todos195. Esta função comunicativa da sua poesia leva-o a preocupar-se com a precisão vocabular e a clareza das suas palavras. Contudo, “we expect from poetry that its language should be rich, ambiguous, and evocative; Lucretius on the contrary seems to have believe that poetry could achieve the clarity and precision which we normally associate with prose.”196 Em Lucrécio, não há a poesia de expressão de sentimentos, há, sim, a poesia sobre a Natureza. É poesia do exterior, não do interior. Contornando as expectativas, a prosa do Grego é considerada ambígua, enquanto a poesia do Latino é esclarecedora. Invertidas as características do modo prosaico e poético, Lucrécio cumpre a ambição didáctica epicurista — “magnis doceo de rebus”197e escreve o De Rerum Natura numa linguagem clara, rigorosa, coerente e coesa, procurando facilitar a compreensão da mensagem. Com uma voz autoritária e dogmática, própria da poesia didáctica, explica a Verdade suprema e inculca a moral epicurista, sem hesitações, nem refutações, nem dúvidas. Compõe versos sobre a simplicidade do ser e do estar, com a simplicidade das palavras.


Não esconde que se envaidece dos seus versos, primum por se submeter, sinceramente, à filosofia do Mestre, deinde por simplificar a matéria complexa de Epicuro. Desta forma, humildade e orgulho fundem-se, não se contrariam: “as ideias são de Epicuro, mas as palavras são de Lucrécio”. Assim sendo, o Latino é um “estudante de filosofia”, um “comunicador de uma doutrina”198. Tal dá-lhe a liberdade necessária para escolher e se centrar no modo de expressão, e não na criação dos argumentos da mensagem — o De Rerum Natura não é um tratado filosófico original, mas uma visão poética original sobre o epicurismo. Lucrécio: poeta ou filósofo? Poeta199, simplesmente.
Alberto Caeiro: a poesia natural.

Alberto Caeiro é o poeta da Natureza, o Mestre de todos. Também ele se insere na tradição de poetas-filósofos que cantam a Natureza. Difere de Lucrécio, por ser o Mestre de uma filosofia — o sensacionismo —, e não um discípulo. Embora ignore, intencionalmente, toda a tradição — que contempla Lucrécio como um grande poeta da Natureza e Epicuro como o “rerum inuentor” —, auto-intitula-se de “descobridor da Natureza” que traz “o Universo ao Universo”200, antonomásia que decalca201 do epíteto panegírico lucreciano ao Mestre. Aliás, “não posso deixar de assinalar que o seu ateísmo, o materialismo sensualista que também marca sua formulação do problema do conhecimento, o papel que os sentidos nele desempenham, sua alienação relativamente aos problemas sociais e políticos, seu fatalismo e até mesmo sua linguagem clara e despida, inserem-se na tradição fundada pelo poeta latino”202. Por mais que esconda, Caeiro não se encontra no grau zero, nem do conhecimento, nem da poesia, nem da linguagem.


Simplicidade é, ilusoriamente, a palavra que melhor o define. Confirma o seu discípulo, Ricardo Reis, que “como todos os poetas universais Caeiro é de uma simplicidade absoluta”. É que, e segundo o mesmo, se as palavras do Mestre são de complicada compreensão — aliás, como é a sua índole203 —, deve-se ao facto dessa simplicidade se fundamentar em “princípios novos”, numa “noção nova das coisas, e essa, por nova, que não por confusa, salta fora dos hábitos mentais que condicionam a compreensão”204. Caeiro é, pois, o poeta de uma nova simplicidade — uma simplicidade absoluta. Já, Álvaro de Campos, outro dos seus discípulos, adscreve, numa carta ao Mestre:
“O que eu adoro nos seus [de Caeiro] versos não é o sistema filosófico que me dizem que se pode tirar de lá: é o sistema filosófico que não se pode tirar de lá. É a frescura, a limpidez, a primitividade de sensações. É a falta de sistema, precisamente”205.
“A falta de sistema” da filosofia caeiriana é transmitida pela “frescura, limpidez e primitividade de sensações”, que caracterizam a sua poesia. Ora, desde logo, estas afirmações confundem o pensamento e adivinham uma poesia bem mais complexa do que aparenta. Estamos, pois, perante uma metafísica anti‑metafísica, uma poesia anti‑poesia.
Ao lê-lo, acompanhamos o Mestre na contemplação da Natureza, que a sente com a simplicidade dos sentidos, sem pensamento, nem memória, nem cultura, e escreve versos como quem vê. Transmite a impressão a quem lê de que assiste, instantaneamente, à percepção sensorial, como que, com ele, descobrisse a realidade, sempre pela primeira vez — afinal, nem “há duas árvores iguais”, nem há duas sensações iguais. Objectivismo este que transparece no modo de se expressar:
“Não me importo com as rimas. Raras as vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior.


Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado



E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento…” 206
Uma poesia sobre a Natureza, do exterior, tal como a de Lucrécio, mas radicalizada em Caeiro. Ser e escrever apenas com o exterior dos sentidos, das palavras, como se o processo de escrita fosse tão natural como a cor das flores, ou o soprar do vento. Aliás, opta pelo texto poético por ser o modo de expressão mais natural, tão natural quanto falar. Segundo o próprio, a prosa é “artificial” e o verso é “natural” — quando o ser humano fala, fá-lo “em verso sem rima nem ritmo, com as pausas do nosso fôlego e sentimento”207. Mais uma vez, e à semelhança do Latino, intervertem-se os conceitos tradicionais de poesia e de prosa, não se esperando que um texto — ambíguo, pensado e, fortemente, retórico‑estilístico — como o poético, expresse a simplicidade da fala. O Português sabe que desconcerta a maneira de pensar e, num dos seus paradoxos, chega mesmo a afirmar: “por mim, escrevo a prosa dos meus versos/e fico contente”208. Ele conhece os significados tradicionais de prosa e poesia — aliás, para um iletrado e isolado, o Mestre parece saber tudo — e, como que parodiando o conteúdo e forma de conhecer humanos, consubstancia os dois modos de expressão e consegue um outro, original, no vazio das preconcepções: a prosa em verso.
E, quando diz: “não há duas árvores iguais”, sintoniza-se com a visão atomizada de Epicuro, que transporta não só para a maneira de ver, mas também para a maneira de poetizar. Encontra-se, em Caeiro, uma obra fragmentária e desconexa, que pretende sugerir que escreve conforme calha, conforme vai sentindo a realidade. Perto do Grego, mas longe do Latino, que prefere um texto delineado e coeso para divulgar a todos a doutrina de Epicuro, Caeiro, no seu papel de Mestre, não profere, apenas, palavras sobre a realidade, mas, sim, traz (ou pretende trazer) a realidade às suas palavras.
Porém, Caeiro tem consciência — um absurdo tendo em conta a sua filosofia dos sentidos em que “pensar é estar doente dos olhos”209 — de que nem sempre escreve com perfeição por lhe faltar a simplicidade, própria e restrita ao Divino. E, num outro poema, justifica a falha do seu discurso: ele tem a função desprezível de ser o “intérprete da Natureza” e, para isso, usa a linguagem humana — idiossincraticamente, simbólica e abstracta — “porque há homens que não percebem a sua linguagem,/ por ela não ser linguagem nenhuma…”210. Há, nele, a utopia de uma simplicidade linguística absoluta, que (im)possivelmente se tornaria real — tão real quanto a realidade — pela criação de um idioma sem significado, nem simbolismo, nem interior, que se consubstanciasse com as coisas que define e abdicasse da abstracção, do nominalismo — talvez o tal idioma divino, o idioma do exterior, o idioma do não-idioma. Só que esta empresa caeiriana se revela tão dificultosa quanto a lucreciana:
“Procuro dizer o que sinto

Sem pensar em que o sinto.

Procuro encostar as palavras à ideia

E não precisar de um corredor

Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado

Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram.

E raspar a tinta com que pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,

Mas um animal humano que a Natureza produziu.


E, assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como

um homem,



Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.”211
Na sua função de tradutor das (não)palavras da Natureza, como se fosse discípulo directo dela, procura escrever, ou melhor, perpassar as sensações para a sua poesia, sem recorrer ao pensamento. Pretende, pois, “encostar as palavras às ideias”, sobrepor significante ao significado e, assim, anular a ligação íntima entre linguagem e raciocínio. Em Caeiro, não há a poesia do exterior, mas a poesia é exterior.
Conquanto, nem sempre sente, ou escreve — uma vez que a sua poesia são (ou pretendem ser) as suas sensações —, conforme deve sentir: o peso do que lhe ensinaram pesa-lhe os sentidos. Tal Epicuro, Caeiro é o herói que luta contra toda uma tradição religiosa e racionalista que contagiou e adoeceu a humanidade ao longo dos séculos; tal Epicuro, Caeiro é o “desatador de vínculos”212 que revoluciona a maneira de conhecer o mundo. É, pois, preciso rasgar as vestes da sociedade e reencontrar-se com o seu ser primitivo. Esvaziar-se de ser humano e ser um animal, ser uma coisa, ou, simplesmente, ser. Desta forma, o homem torna-se natural, funde-se com a Natureza e obtém a realidade das coisas. Caeiro é, pois, o Mestre que ensina o nada —“bendito seja eu por tudo quanto não sei” — a ninguém — “quem sabe quem os [versos] lerá?/ quem sabe a que mãos irão?”213, aplicando, dogmaticamente, a pedagogia do aprender a desaprender.
E, então, com o decorrer dos seus versos, Caeiro evidencia uma obcecação nominalista que o leva a compor a poesia da anti‑estética, diferenciando-se de Lucrécio: “a beleza é um nome de qualquer coisa que não existe/ que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão./ Não significa nada.”214 A poesia, como trabalho artístico, é, duramente, satirizada por o Mestre pessoano. Ora, e ao contrário do Latino, que compõe versos com cadência certa e com vocábulos precisos, embelezando-os para os tornar mais atractivos para o leitor, o Português vive, exclusivamente, na espontaneidade dos sentidos e os seus versos traduzem as suas sensações, sem o “corredor do pensamento”. Usa, então, um vocabulário simples, preferencialmente substantivos, desnudado de significado, comunicando numa linguagem denotativa e referencial, que, aliás, é própria da prosa. Mas, constrói, propositadamente, essa linguagem da simplicidade e essa intenção prévia torna-o aquele artista que lima a poesia, só que lhe dá uma forma natural, ao invés de mística e figurativa. Ler Caeiro é olhar a Natureza, simplesmente.
Considerações finais:
Cantar a Natureza, com a simplicidade da poesia, acontece em Lucrécio e em Caeiro. É, então, ao subverter os conceitos de prosa e poesia, que escrevem versos de trabalhosa naturalidade. Só assim o Latino consegue manter um texto longo sempre num nível superior e o Português ensina o nada, ou melhor, o Indefinido, o Absoluto, o Todo.
Caeiro sublima Lucrécio, porque funde o poeta e o filósofo e realiza, assim, o “milagre da poesia” 215. Daí, e para Pessoa, Caeiro ser o poeta e Lucrécio, o filósofo. É, de facto, o Mestre pessoano que aplica a máxima de Epicuro: a poesia de Caeiro é a sua vida.
Só que, embrulhada em conceitos, a poesia caeiriana não escapa ao pensamento e cada verso, que escreve, substancia uma ideia sobre a sensação, e não a sensação. Lucrécio é o simples que Caeiro não é.
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GOZO FABULOSO NÃO É O SONETO DE HOJE
Mauro Marcelo Berté

Mestrando em Letras – Estudos Literários

Universidade Federal do Paraná

Membro do Comitê de Publicações da Embrapa Florestas

Editoração e Revisão Gramatical

Resumo

Este artigo expõe considerações preliminares a cerca das narrativas de Gozo fabuloso, de Paulo Leminski. Como foco de apreciação, leva-se em conta parcela da obra e da produção crítica do autor, em paralelo a alguns teóricos da pós-modernidade, procurando-se evidenciar, nas temáticas e no tratamento estético empregado nos contos e crônicas do livro, uma preocupação pós-moderna por excelência.


Palavras-chave: Conto; Paulo Leminski; Pós-modernidade
Abstract

This paper presents preliminary considerations about the narratives of Gozo fabuloso, by Paulo Leminski. As focus of assessment, it takes into account share of the work and production criticism of the author, along with some of the theoretical post-modernity, looking up evidence, in the thematic and aesthetic employed in the treatment short stories in the book, a concern post-modern par excellence.


Key-words: Tale; Paulo Leminski; post-modernity
Por convenção, o Pós-modernismo representa as mudanças ocorridas nas artes em geral, nas ciências e na sociedade desde os anos 50. Da arquitetura, o pós-moderno “contaminou” as artes plásticas e na seqüência a literatura, com tom algo satírico, niilista, desesperançoso e de pastiche, ao mesmo tempo querendo levianamente achar graça de tudo.
Essa tendência tem expressividade na obra de Paulo Leminski. O autor se encaixa nessa condição pós-moderna216 e dá provas, evidenciando essa influência em prosas experimentais como a do Catatau e Agora é que são elas, romances cujos processos questionam princípios, regras e valores do fazer literário, alteram práticas e fundam realidades em sua prosa ficcional.
Subversões como as descritas também são verificadas nas narrativas de Gozo fabuloso, reunião de textos que foram sendo desenvolvidos paralelamente a outros, destinados ao próprio consumo, exercício, ou para uma eventual coluna de jornal ou revista.
Gozo fabuloso é publicação relativamente recente. É o último livro que Leminski deixou para publicação. Os originais ficaram mais de uma década a espera de uma revisão e edição. Ficaram esquecidos em meio aos conturbados processos de sucessão editorial. É também o único volume de narrativas curtas. Provavelmente, mais um daqueles casos em que o conto é considerado um tipo de texto incapaz de garantir ao escritor imediata atenção das editoras.
A relevância desse artigo repousa na inexistência de trabalhos científicos sobre esta obra específica de Paulo Leminski. Em levantamento preliminar, não se achou trabalho acadêmico, dissertação ou tese sobre os textos de Gozo fabuloso. Crê-se que a primeira inserção do título na bibliografia de Paulo Leminski seja em A linha que nunca termina: pensando Paulo Leminski (p. 402), reunião de ensaios dos mais variados gêneros e autores, lançada em comemoração aos 60 anos de nascimento do poeta, mesma ocasião da primeira edição de Gozo fabuloso. Nesse mesmo livro, os contos “Wanka, o dia em que as pedras pensaram”, “El dia em que me quieras”, “Isso não é meu”, “Céu em baixo” e “Osíris” estão referenciados em suas publicações originais (Bibliografia de Paulo Leminski/Ficção/p. 406), assim como “Solange e seus eletrodomésticos”, versão da Revista Playboy de abril de 1985 de “Solange tudo bem e seus eletrodmésticos”.
Portanto, pretende-se dar o primeiro passo nos estudos do conto leminskiano. Para tal, será demonstrado como Leminski, também chamado poeta multimídia e conhecido por hostilizar a academia, se não teórico, também estava em consonância com a chamada condição pós-moderna, teoria que, segundo Terry Eagleton:
(...) é parte do mercado pós-moderno, e não apenas uma reflexão sobre o mesmo. Entre outras coisas, representa uma maneira de acumular um “capital cultural” valioso sob condições intelectuais cada vez mais competitivas. Em parte devido a sua grande vitalidade, seu esoterismo, sua sintonia com os modismos, sua singularidade e sua relativa novidade, a teoria vem obtendo um alto prestígio no mercado acadêmico, mesmo que ainda provoque a virulenta hostilidade de um humanismo liberal que teme ser por ela desalojado. (p. 325-326)
Nesse contexto, torna-se plausível relacionar as narrativas breves de Leminski com a teoria pós-moderna, e indispensável cobrir essa lacuna nos estudos de sua obra, ainda mais quando se pretende debruçar-se sobre um gênero inicialmente renegado pelo autor.
Sim, o poeta repudiava o conto, considerava-o um texto menor, “O conto é o soneto de hoje”, de excessiva valorização, “Essa nossa emergente prosa de ficção apresenta nível de redundância e banalidade estrutural só comparável ao soneto do passado” – sinal dos tempos em que havia grandes concursos literários, de contos, na capital paranaense e no restante do País. Logo, essa política anticonto eram idéias pertencentes ao final dos anos 60 e início dos 70, como consta no Prefácio de Gozo fabuloso, assinado por Alice Ruiz:
Mas isso foi ontem. Com o tempo, o Paulo foi desenvolvendo crônicas, pequenas ficções, para uma coluna assinada em jornal, para revistas ou para seu próprio prazer. E foi pegando gosto pelo conto. Surgiam como surgem os poemas, pululando entre uma obra e outra, como as traduções ou prosas de maior fôlego, como as biografias ou romances. (LEMINSKI, 1994)

Os tempos são outros, e em 2004 veio a público uma faceta pouco conhecida e estudada de Paulo Leminski, o contista, contrariando antigas afirmações e ideologias e provando que seu Gozo Fabuloso não é o soneto de hoje.


Trabalhar os contos sob o viés pós-moderno sustenta-se quando se recupera os narradores de Catatau e Agora é que são Elas. Ficções que se encaixam nos conceitos do autor quando pensa a pós-modernidade, nos anos 80.

Em Anseios Crípticos217, considera que:


(...) ninguém pode prever o novo homem que está nascendo (...) no pós-moderno, passado e futuro se confundem num círculo irreversível, dançou todo um conceito romântico de “originalidade”. Tudo já foi feito, tudo já foi dito. Entramos na era da citação, da tradução. (...). No “pós-moderno” a humanidade começa a girar em círculos, em torno de sua própria história (...). O homem está vivendo num mundo totalmente humano. Quando precisa de alguma coisa nova, saqueia o passado (...) O projeto pós-moderno é transformar a vida em arte (...) (LEMINSKI, 1986)
Em Os cinco paradoxos da modernidade218, Antoine Compagnon cita Vattimo, este afirma que a pós-modernidade “propõe simplesmente uma maneira diferente de pensar as relações entre a tradição e a inovação, a imitação e a originalidade, não privilegiando, em princípio, o segundo termo.”(p. 124).
Os contos de Leminski são expressões da vida, promovendo uma desmistificação do nosso cotidiano repleto de processos de estruturação do caos e de atribuição de sentido a esse caos. Em Gozo fabuloso, encontra-se um narrador com reflexões sobre o processo de construção de seus textos. A arte de Leminski está nas narrativas impregnadas de erotismo, violência, ao mesmo tempo repletas de sensibilidade e metafísica, uma transgressão do tempo e do espaço como no conto “O segundo futuro” – um Atlas do século 19 aponta a localidade de Kurytyba, uma aldeia, algo entre Lwow e Praga. O narrador a procura, a encontra, caminha por suas ruas e, inusitadamente, passeia pela Comendador Araújo, na Curitiba brasileira, e uma mulher o chama para comer.
Fenômenos como esse são explicados, por exemplo, por David Harvey. Em Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural, o autor documenta mudanças em vários campos distintos, entre eles a ficção pós-moderna, em que caracteriza uma passagem do “epistemológico” ao “ontológico”, ou seja, no pós-modernismo, realidades diferentes podem coexistir, colidir e se interpenetrar, em conseqüência, ficção e ficção científica se dissolvem e personagens encontram-se confusos acerca do mundo em que estão e de como agir em relação a ele.
Dentre as temáticas consideradas pós-modernas, tem-se a tecnologia, como em “MKWD (Diálogo entre dois computadores de gerações diferentes)”, a cultura oriental – quando pensamos uma identidade cultural múltipla – como em “O imperador no aquário” e “Daruma arigatô”, em que o narrador deseja uma boa história a uma cabeça de Daruma comprada na Feira da Liberdade. Também no encalço de uma história, mas voltado à problematização do fazer literário, encontra-se em “O resto imortal” o narrador que almejava poder lidar com o seu processo de pensamento, transformá-lo em máquina, um livro: “Tinha que ser um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto pensado. Eu precisava de um texto pensante. Um texto que tivesse memória, produzisse imagens, raciocinasse” (pg 136). Em “Já era uma vez” tem-se a história de uma história que mendigava um enredo, e em “Sintomas”, o paciente reclama: “- Doutor, estou sentindo uma rima terrível.” e o médico, ao término da consulta: “- Toma duas estrofes e me telefone amanhã cedo, sem falta.” Esse último conto remete a Catatau:
Cultivei meu ser, fiz-me pouco a pouco: constituí-me. Letras me nutriram desde a infância, mamei nos compêndios (...) Compulsei índices, e consultei episódios (...) tropecei nas vírgulas, caí no abismo das reticências, jazi no cárcere dos parênteses, rolei a mó das maiúsculas, emagreci o nó górdio das interrogações, o florete das exclamações me transpassou, enchi de calos a mão fidalga torcendo páginas. (p. 28)
Há ainda a morte e o efêmero: em “Céu em baixo”, 17 parágrafos, 17 andares de queda livre, um suicida conjeturando sobre os andares e seus respectivos números, o passado, a vida. Dentre as práticas pós-modernas há a intertextualidade literária e o jogo lúdico da paródia histórica, as mesmas realizadas nas antinarrativas Agora é que são elas219, com Propp, e em Catatau, com Descarte: o passado é recuperado em “Gente do conselheiro”, um jagunço ameaça Euclides da Cunha, fazendo com que o jornalista jure que vai contar a história daquele povo “direitinho”, do contrário, o mataria.
Outros textos trabalham o suspense e a metafísica e lembram os contos de Julio Cortázar220, classificados por um de seus estudiosos como neofantásticos, conceito em que o espaço e o agente do perigo e do medo transgridem o paradigma dos contos de terror e suspense – a rua e o assassino, a casa mal-assombrada, o cemitério e o fantasma – promovendo uma proximidade com a casa do indivíduo, seu próprio ambiente e o mundo cotidiano.
Nos contos, Leminski desafia a forma de narrativa tradicional por meio de experimentações com a linguagem, do mesmo modo que praticava na poesia e no romance, já que a maneira, muitas vezes irônica, às vezes hermética, com que constrói o discurso cria um relato de ausências, incertezas e de trechos inconclusivos e indeterminados. Nesse sentido, investigam-se como esses textos apresentam elementos abordados em teorias do pós-modernismo, apontando, desse modo, para um outro tipo de produção literária do escritor: a narrativa curta pós-moderna.
Ainda em Anseios Crípticos, Leminski define mais sobre a pós-modernidade:
Os gestos “pós-modernos” correspondem a um mundo: a) totalmente urbano; b) onde prevalece o setor terciário (serviços); c) onde a empresa adquiriu um caráter abstrato, impessoal, “sociedade anônima”, e d) “last but not the least”, onde a indústria e a tecnologia eletrônica adquirem uma importância tão grande na vida das pessoas que se pode dizer, com McLuhan, que o próprio sistema nervoso do homem começa, por fim, a ser exteriorizado, sob forma de tecnologia. Como todas as revoluções e inovações, a era “hightec” eletrocomputadorizada apanhou todas as pessoas desprevenidas. Hábitos tradicionais e objetivos de vida “clássicos” entram, bruscamente, em cheque, substituídos por gestos cujo destinos desconhecemos. (LEMINSKI, 1986)
Dentro desses “gestos”, Joca Reiners Terron, em posfácio de Gozo fabuloso, intitulado “A prosa é uma prosa é uma prosa”, afirma que “Em algumas dessas histórias, o zapping veloz é determinante e a mudança de chave e tom de texto é tão rápida como a de um controle remoto”. Completa ainda: “O amor à cultura oriental, aliado às experiências poliglotas e polissêmicas típicas do Catatau, também comparecem em diversos textos (...)”.
Faria então sentido abordar contos pós-modernos em Leminski? Tudo leva a crer que sim, se avaliado seu histórico de ficções longas como Catatau e Agora é que são Elas, romances que não se encaixam simplesmente na categoria “narrativas modernas”, pois sustentam uma pluralidade de perspectivas, interpretações e intertextualidades que “balançam” o chão do significado junto ao leitor.
Vale resgatar um gênero ainda pouco difundido do autor, narrativas curtas e intensas que preservam um “eu” do verso e da prosa longa leminskiana. Textos que instigam, da variação temática até o modo praticamente unânime de narrar, em primeira pessoa, o que envolve um grau de subjetividade grande, mas que, enquanto narrativa, pode provar-se “inconfiável”, pois parte de um eu que escreve ou fala e dirige-se a alguém, conforme a condição do discurso, no qual a possibilidade de dizer a verdade cria a possibilidade de se entender ou perceber algo de modo equivocado.
A dúvida gera o desconforto que, por sua vez, tira o público da posição passiva e não-questionadora. São conflitos com o leitor que as obras literárias da chamada pós-modernidade procuram tematizar. Linda Hutcheon, em Poética da pós-modernidade221, afirma que o objetivo é liberar o leitor das convenções, como é próprio da ficção pós-moderna, histórica e meta-ficcional, auto-reflexiva e contextual.


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