Jacqueline Baird



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Encontro12.04.2018
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Phoebe deixou escapar um suspiro trêmulo. O fato de Jed ter negado que lhe sugerira um aborto fazia algum sentido. Poderia ter estado enganada por todos aqueles anos?

De qualquer forma, não importava. O comentário sobre a mente distorcida lhe embotava todos os outros pensamentos. Jed tinha a capacidade de transtorná-la. Porém, não havia dúvidas de que ele acabara a abandonando e qualquer desculpa que inventasse, não mudaria tal fato. Lutara para recuperar sua autoestima após a traição de Jed, construir uma vida, uma carreira para sustentar o filho e se orgulhava do que conseguira. Não permitiria que a personalidade forte de Jed

Phoebe o fitou com olhar desafiador e, evitando se referir à questão do aborto concentrou-se no último comentário de Jed.

— Não conseguirá ser mais que isso — zombou ela. — Sempre foi um viciado em trabalho que voava entre os continentes em viagens de negócios com uma frequência impressionante. Durante nosso relacionamento de um ano, conseguimos ficar juntos menos de seis meses. A não ser que tenha havido uma mudança radical em seu estilo de vida, sempre será um pai esporádico, casado ou não. E como disse, prefiro não me casar.

O corpo de Jed se enrijeceu. Deixando cair as mãos e cerrando os punhos, fitou-a por um longo instante com olhar severo. Em seguida, os cílios espessos baixaram, mascarando-lhe a expressão.

— Eu não mudei — respondeu por fim. — Mas você, sim. Quase nunca discutia comigo antes. Recordo-me de uma menina linda, brilhante e sensual, disposta a explorar tudo que a vida podia lhe oferecer. Não uma mulher de língua afiada...

— Quer dizer uma menina tola e crente — interrompeu Phoebe. — Disposta a fazer tudo que você quisesse. Bem, esse tempo acabou. Sou mãe. Amo meu filho e a vida que levo. Não preciso de você. Quero que vá embora agora. — De repente, Phoebe se sentia confusa, cansada e queria ficar sozinha.

— Não se preocupe. Eu irei. Mas antes de partir, precisa ouvir algumas verdades. Algo em que pensar até meu retorno, amanhã — retrucou ele, conciso. — O que quer que pense, Ben precisa de mim. Por mais que tente negar, o menino é, em parte, grego. Será herdeiro de uma grande empresa grega um dia e de muito mais. Precisa aprender o idioma e como lidar com tal responsabilidade. Não é algo que vá aprender entocado em uma cidadezinha rural da Inglaterra com apenas a mãe e a tia como família.

Phoebe o escutava cada vez mais alarmada. — Recordo-me que me contou que seus pais morreram em um acidente de carro quando tinha dezessete anos. Porém, Ben tem um avô, uma tia, um tio, primos e uma dúzia de outros parentes na Grécia. Sem mencionar um pai — prosseguiu, erguendo uma das sobrancelhas em uma expressão arrogante. — Acha que um dia ele lhe agradecerá por tê-lo privado da maior parte de sua família? — indagou Jed. — Ou ao contrário, ficará ressentido por ter lhe negado o que era dele por direito?

Com o coração apertado, Phoebe percebeu que o que ele dizia podia ser verdade. Tinha mesmo o direito de privar o filho de conviver com seus familiares gregos? Em seu íntimo sabia que não e a conclusão a levou à exaustão. Tudo que desejava era ir para a cama, enterrar a cabeça no travesseiro e esquecer aquele dia.

— Talvez tenha razão — disse por fim com voz cansada.

— Sabe que tenho — retrucou Jed. Os olhos negros não mais frios ao fitá-la. — Não é certo criar um filho sem um pai. Mesmo um esporádico como julga que serei. — Ergueu a mão e traçou o contorno da face delicada com um dedo. — Porém, se me der a chance, poderei surpreendê-la.

E assim o fez. Enlaçando-a pela cintura, fitando-a com um calor inegável, roçou os lábios aos dela. O beijo foi terno e gentil. Quando ele o interrompeu, exibiu um sorriso oblíquo.

— Por que fez isso? — perguntou Phoebe, mais tocada pela ternura com que ele a beijara do que gostaria de estar.

— Por Ben, pelo que tivemos no passado e pelo que acabamos de compartilhar naquele confortável sofá. Sente-se e termine sua bebida. Encontrarei a saída.

Só quando ouviu a porta bater, foi que Phoebe se deixou afundar na poltrona outra vez e esvaziou a taça de vinho, voltando o olhar ao sofá. Surpreendentemente, apesar do medo que sentia e da humilhação diante da própria fraqueza, um sorriso lhe curvou os cantos dos lábios ainda intumescidos pelos beijos ardentes ao lembrar o corpo avantajado de Jed esparramado no chão e o olhar de surpresa com que a fitara. Idêntico ao de Ben quando caía.

Porém, em vez de sentir raiva, Jed se mostrara divertido. Também a surpreendera quando negara com tanta veemência ter lhe sugerido um aborto. Durante anos, agarrara-se àquele fato para odiá-lo. Porém, agora era forçada a admitir que talvez estivesse errada. Jed nunca mencionara a palavra. Tudo que ouvira fora que o Dr. Marcus cuidaria de sua gravidez e que ele arcaria com as despesas. No estado emocional em que se encontrava, podia ter distorcido o sentido daquele comentário.

Não que aquilo fizesse alguma diferença no presente.

Jed voltara, queria o filho e ela teria de lidar com ele.


CAPÍTULO SETE

Quando Phoebe conseguiu adormecer, um homem alto e moreno veio assombrar seus sonhos. Despertou, sobressaltada, para deparar com Ben parado ao lado da cama. Consultou o relógio: 6h30 da manhã. Observando o menino saltar para cima da cama e pedir para que acordasse, sorriu e o abraçou. Porém, em seu íntimo estava preocupada com a mudança que a chegada de Jed Sabbides talvez causasse na vida da criança.

Quanto a sua própria vida, o simples pensamento de ter Jed de volta a ela a apavorava. Ter de encontrá-lo durante as visitas regulares a Ben era algo que não a agradava, mas, após uma noite agitada, chegara à conclusão de que um dia teria de permitir a Jed mais do que visitas supervisionadas ao filho. Submeter Ben a uma batalha pela custódia seria um esforço inútil. Como mãe, sabia que conseguiria a custódia total, mas dariam a Jed direitos paternos de qualquer forma. A única alternativa que lhe fora oferecida — casar-se com ele — estava fora de questão. No passado, acreditara em Jed com a alma e o coração e ele destruíra sua confiança, o que era essencial para um casamento dar certo.

Nunca mais confiaria nele e não conseguia imaginar inferno pior do que estar casada com um homem ao qual, tinha de admitir, não conseguia resistir sexualmente e não confiava.

Durante anos, a falta de sexo não a incomodara, mas em instantes Jed a reduzira a uma fêmea faminta com uma facilidade que a assustara. De forma alguma colocaria seu coração em risco outra vez.

Naquele momento, Phoebe se decidiu. Diria a Jed que estava disposta a fazer concessões nas condições do direito à visita e permitir que ele visse Ben. A princípio, seria apenas em sua presença, mas tão logo o filho se sentisse à vontade com ele, poderia vê-lo, sozinho, mas não lhe diria nada aquele dia.

Levaria Ben para um trailer que possuíam em um camping à margem de Weymouth Bay. Passavam todos os feriados lá e Ben adorava aquele lugar. Poderiam buscar o papel de parede do quarto dele em uma loja de decoração de Weymouth, procurar fósseis em Lyme Regis, antes de fechar o trailer para a temporada de inverno. Não estava exatamente fugindo...

Talvez fosse covardia, admitiu Phoebe, mas não estava disposta a encarar Jed tão cedo. Não após ter se desintegrado em seus braços na noite anterior.


O carro de Phoebe estava estacionado ao final do caminho que levava ao chalé, a bagagem se encontrava no porta-malas e estavam quase prontos para partir. Era uma bela manhã de outono. O sol brilhava e Phoebe inspirou profundamente, recobrando o ânimo. Estava protegida do frio, com um suéter de lã azul com forro e calça comprida cinza.

— Muito bem, pegou tudo que queria? A mochila e as botas de borracha de cano alto para a praia? — Phoebe perguntou ao filho, sorrindo quando a criança ergueu a sacola vermelho vivo com as botas. — Ótimo. Coloque-as no carro e depois podemos ir.

De repente, o barulho do motor de um carro quebrou o silêncio e a fez congelar. Porém, relanceando o olhar à estrada, reconheceu a Ferrari vermelha de Julian e deixou escapar um suspiro de alívio. O carro estacou com um solavanco e Julian saiu, caminhando em direção a ela. Sustentava um sorriso largo estampado no rosto atraente.

— Olá Phoebe. Ben, meu afilhado preferido. Vejo que vai procurar fósseis. — Fora Julian que introduzira o menino naquela atividade e lhe dera a mochila com os apetrechos.

— Sim — respondeu o menino, sorrindo, animado, antes de colocar as coisas no assoalho do carro.

— Como está, Phoebe? — perguntou Julian com os olhos cinza fixos nos dela.

— Bem — respondeu ela, sorrindo quando Julian lhe envolveu os ombros com o braço.

— Pois não parece. Olheiras profundas... o que esteve fazendo? — brincou ele.

— Nada de... — Porém, o barulho do motor de outro carro a impediu de responder.

Inacreditável. Phoebe gemeu, quando o Bentley preto vindo da direção oposta estacou a alguns centímetros da Ferrari, bloqueando o caminho da casa.

Jed Sabbides não estava de muito bom humor. O primeiro telefonema que dera no dia anterior, após descobrir que Ben era de fato seu filho, fora para Leo, o chefe da firma de segurança que trabalhava para a família Sabbides para providenciar que seu guarda-costas, Sid, se encarregasse da segurança de Phoebe e Ben na Inglaterra, com algumas precauções extras. Uma delas era informá-lo caso eles deixassem a casa. Não tinha intenção de deixar que Phoebe fugisse dele mais uma vez. Por aquele motivo, quando recebera o telefonema, enquanto fazia o desjejum, partira imediatamente. E pelo que podia ver, chegara bem a tempo.

Phoebe, com os cabelos longos presos em um rabo de cavalo, trajada com as roupas de frio, estava estonteante e o corpo de Jed reagiu com instantâneo entusiasmo mesmo enquanto ele franzia o cenho para o homem que a acompanhava.

Que diabos fazia Julian Gladstone ali tão cedo? E com o braço sobre os ombros de Phoebe. Não queria saber o que tiveram no passado, mas como na noite anterior Phoebe fora sua outra vez, o quanto antes Julian entendesse a situação, melhor. Não deixou que a raiva que sentia transparecesse, enquanto estacionava o carro e saía. Phoebe sentiu a tensão de imediato. Os olhos azuis se arregalando. Com o rosto impecavelmente escanhoado, trajava o mesmo casaco de couro preto do dia anterior e por baixo um suéter branco de gola role. As pernas longas e musculosas ocultas sob o tecido da calça jeans. Parecia mais pecaminoso do que nunca. Julian inclinou a cabeça para lhe murmurar ao ouvido.

— Ah, agora entendo os círculos escuros em volta de seus olhos. — Em seguida, se empertigou, falando com seu sotaque inglês. — Presumo que seja Jed Sabbides. Está muito longe de casa, meu velho.

Phoebe esperava faíscas elétricas, quando Jed se aproximou, porém não poderia estar mais enganada.

— Olá, Phoebe — cumprimentou, com um breve franzir de cenho, antes de se agachar, dirigindo-se ao filho. — Olá, Ben. — A expressão se suavizando ao fitar a criança.

Phoebe observou a resposta eufórica do filho, antes de pousar o olhar nas coxas musculosas sob o tecido do jeans e mais acima, no contorno do sexo. Apressou-se em desviar o rosto, surpresa com o rumo que seus pensamentos tomavam e aliviada quando Jed se ergueu para saudar Julian.

— Bom dia, Julian Gladstone, certo?

Por um longo instante, Phoebe se limitou a observar a cena que se descortinava diante dela. — Belo carro. É o último modelo da Ferrari. — Atônita, ela viu os dois homens girarem para admirar o potente veículo. — Encomendei um desse mesmo modelo há duas semanas, mas ainda não tive chance de dirigi-lo. Como ele se comporta?

Nos próximos cinco minutos Phoebe sentiu-se invisível, o que não deixava de ser um alívio. O breve olhar que Jed lhe lançara ao cumprimentá-la deixara claro que fazer amor — fazer sexo — na noite anterior não significara nada para ele. Enquanto ela, após anos de deliberado celibato, bastava olhar para Jed para ser invadida por anseios eróticos.

Sacudiu a cabeça para dispersar os pensamentos inconvenientes, enquanto observava, sem palavras, Julian, Jed e Ben se encaminharem ao veículo de luxo. A criança se sentou no banco do carona, enquanto os dois homens discutiam seriamente sobre o que ela presumia serem os méritos relativos ao veículo importado.

Quando retomaram, Jed e Julian pareciam amigos de longa data.

— Mãe, Jed tem uma Ferrari nova em sua casa, na Grécia, igual à do tio Julian. Acha que podemos comprar um carro novo em breve? — indagou o filho, lançando um olhar desdenhoso, que em muito se assemelhava ao do pai, ao Mini Cooper que possuíam.

— Sim, claro. Vou lhe comprar um novo — respondeu Jed, antes que Phoebe pudesse se manifestar. — Dei este carro de presente de Natal para sua mãe, muito antes de você nascer. Estou surpreso que ela ainda o tenha. — Dirigiu um sorriso zombeteiro a Phoebe, que lhe fez a pressão sanguínea aumentar de imediato.

— Bem, divirtam-se — disse Julian, fitando Phoebe nos olhos. — Tenha um bom dia. Entrarei em contato — concluiu antes de partir.

Ainda chocada pelo fato de Ben e Julian terem sido envolvidos no charme inato de Jed, Phoebe se ressentiu por ele ter revelado que lhe dera o carro e pela audácia de afirmar que lhe compraria outro.

— O que disse a Julian? — indagou à figura alta e imponente a seu lado.

— A verdade. Que passei uma noite muito agradável com você e lhe agradeci por ter sido um bom padrinho para Ben — respondeu ele, sacudindo os ombros largos.

Não via necessidade de informar a Phoebe todo o teor da conversa que tiveram. A princípio, Julian se mostrara hostil e mencionara o fato de ele ter desejado que Phoebe interrompesse a gravidez. Jed lhe explicara veementemente o que dissera a ela na época. Também afirmara de homem para homem, que a mente de uma mulher era terra desconhecida para a lógica masculina e que a interpretação que as mulheres podiam dar a um punhado de palavras podia ser completamente oposta àquilo que os homens queriam dizer. Julian concordara, porém relatar aquela conversa a Phoebe só iria fazê-la chamá-lo de chauvinista e não estava disposto a discutir.

Tinha problemas suficientes em persuadi-la a seguir sua linha de pensamento. Percebia que Phoebe não lhe dedicava sequer um pingo de confiança e, enquanto não a persuadisse, não poderia ficar com Ben.

Na noite anterior, contatara seu advogado britânico e lhe contara toda a história. Na opinião dele, Jed tinha poucas chances de conseguir a custódia do filho nos tribunais ingleses, a não ser que pudesse provar que Phoebe era uma mãe incapaz, o que estava longe de ser verdade. Era uma professora respeitada, financeiramente viável, proprietária de seu imóvel e possuía uma tia que a ajudava, tomando conta da criança quando estava ausente. O advogado orientou-o para que chegasse a um acordo amigável com Phoebe ou tentasse levar os dois para a Grécia, onde teria mais chances nos tribunais.

Com o conselho do advogado em mente, Jed engendrara um plano para passar o máximo de tempo possível com Phoebe, fazendo o papel de velho amigo em vez de amante, enquanto conhecia melhor o filho. Sabia que ela o desejava e uma vez que conseguisse fazê-la confiar nele um pouco mais, poderia persuadi-la a visitar a Grécia e se casar com ele. Caso contrário, iria para os tribunais.

Com aquele plano estruturado, não daria a Phoebe a chance de discutir.

— Tire a bagagem do seu carro e a transfira para o meu, enquanto coloco Ben na cadeirinha. Ele me disse que vão passear o dia todo fora e meu carro é bem mais confortável para todos nós — disse Jed, dirigindo-lhe um breve sorriso e percebendo a fúria estampada nos olhos azuis. Baixando o olhar a Ben, acrescentou: — Não é verdade? — perguntou, tomando a mão do filho e se dirigindo ao carro.

Com a face rubra de vergonha e raiva, Phoebe observou, boquiaberta, a mudança de planos. Porém, com Ben caminhando, animado, ao lado do pai e lhe segurando a mão com total confiança seria difícil argumentar.

Discutir com Jed na presença do filho serviria apenas para que Ben se ressentisse por sua interferência. Talvez fosse exatamente aquilo que Jed esperasse. Mordendo o lábio inferior, recolheu os apetrechos do menino e, ignorando propositalmente a mala dentro do carro, trancou-o e escorregou para o branco traseiro do conversível sem dizer uma palavra. Porém, para seu horror, Ben se lembrou.

— Mamãe, você esqueceu a mala com nossa bagagem para o final de semana.

Jed lançou-lhe um olhar por sobre o ombro.

— Pensei que havia planejado passar apenas um dia fora. Ben me contou que iriam caçar dinossauros... algo que nunca fiz antes. Mas desfrutar todo o fim de semana me parece bem melhor. Onde exatamente estavam planejando ficar? — perguntou ele em tom suave.

— Em nosso trailer, próximo ao mar. Pode ficar conosco se quiser, não é, mamãe? — perguntou Ben e, pela primeira vez na vida, Phoebe teve ímpetos de estrangular o próprio filho.

— Não, passaremos apenas um dia agora — disse ela, entre dentes. — Jed é um homem muito importante e não podemos gastar seu precioso tempo conosco — explicou em tom sarcástico. — Estamos perdendo tempo. Vamos. — Porém, Jed não obedeceu.

— Não, Phoebe. Não os privaria de um final de semana inteiro. Estou com tempo disponível e adoraria desfrutá-lo com vocês.

— Isso não é ótimo, mamãe? — perguntou Ben. Em seguida, o brilhante filho informou a Jed que o trailer era grande, com dois quartos e um sofá que se transformava em cama. Não lhe deixou ao menos a desculpa de que não haveria acomodação para aquele demônio manipulador. Mencionar que Jed não trouxera bagagem seria perda de tempo. Como aquele patife ardiloso dissera, podia comprar qualquer coisa de que necessitasse.

E então, com um sorriso cínico, Jed insistiu em pegar a chave do carro e transferir a bagagem para o porta-malas do Bentley. Sem argumentos, Phoebe limitou-se a observar em um silêncio horrorizado. Como, em nome de Deus, iria imaginar que o plano de escapar de Jed acabaria com ele os acompanhando no programa de final de semana e se hospedando no trailer, entre todos os lugares do mundo? Certamente seria um choque cultural para o presunçoso milionário grego. Duvidava que ele sequer soubesse o que era um trailer.

Jed a fitou através do espelho retrovisor. Os olhos negros falseando, divertidos.

— Muito bem, Phoebe, que caminho iremos tomar? — indagou com um sorriso largo.

Por um instante, ela se recordou da primeira vez em que o viu. O brilho do sorriso que a cativou de imediato. Sentiu os cantos dos lábios se curvarem em um esboço de sorriso, mas trincou os dentes ao perceber que ele tinha uma boa razão para sorrir, ao contrário dela.

— Weymouth — disse Phoebe de modo abrupto. — Seu GPS irá guiá-lo — acrescentou, virando o rosto para fitar a janela, tentando ignorá-lo.

Algum tempo depois, o carro finalmente estacou em frente à guarita na entrada do estacionamento dos trailers. Após se identificar na guarita de segurança, Phoebe entregou, irritada, o bilhete de entrada a Jed pela janela aberta do carro. A irritação não abrandou quando chegaram ao trailer e Jed estacionou o carro com maestria ao lado dele. Em questão de segundos, ele erguera Ben nos braços e esperava, impaciente, para que Phoebe abrisse a porta.

Instruindo Ben a colocar seus apetrechos no quarto que costumava ocupar, Phoebe tentou persuadir Jed a partir, dizendo-lhe de maneira direta que não queria que ele permanecesse ali e que um homem acostumado ao luxo, odiaria aquele lugar. Mas seus esforços foram em vão. Jed a surpreendeu, informando-a de que atravessara a América dirigindo um trailer bem menor do que aquele em sua juventude.

Quando Ben interferiu na discussão, segurando a mão de Jed e insistindo em lhe mostrar as acomodações do trailer, ela desistiu. Ao contrário das expectativas de Phoebe, o dia não foi um completo desastre. Após almoçarem em um restaurante especializado em frutos do mar localizado no porto, a tarde foi divertida. Foram de carro até Portland Bill para ver o farol e fazer um tour pelo Castelo Portland. Jed tirou várias fotos com o telefone celular. A mais bela, mostrava Ben esparramado sobre um canhão. Porém, isso fora após Phoebe se recuperar do choque que tomara ao fazerem compras pela manhã.

Ben não se decidira por apenas um papel de parede. Escolheu um com desenhos de carros e outro, de dinossauros. Phoebe concordou, apesar de saber que em termos de decoração dois motivos não seria o ideal. O que acontecera a seguir, a fez perceber de uma vez por todas até onde se estendia a riqueza e o poder daquele homem.

Quando Jed questionou o dono da loja, sobre o horário ideal para fazerem o trabalho, Phoebe lhe explicou que eles não faziam a decoração e que ela mesma aplicaria os papéis de parede.

— Não seja ridícula — dissera ele. Após alguns telefonemas, pediu a chave da casa de Phoebe e a entregara a um homem rechonchudo chamado Sid, juntamente com as sacolas. Ao que parecia Sid era o filho do guarda-costas de Jed e ficaria em sua casa tomando conta de tudo enquanto os decoradores faziam o trabalho durante o final de semana. Um planejamento perfeito.

No momento, após tomar banho e vestir um macacão de tecido aveludado e com decote em "V", Phoebe sentou-se na cama, observando o filho adormecido e foi forçada a admitir que, não importava o quanto protestasse contra a idéia de um guarda-costas, a vida de Ben mudara para sempre. Jed simplesmente afirmara que sendo Ben seu filho, a ameaça de seqüestro seria uma constante na vida do menino e aquilo a deixara sem argumentos.

Inclinando-se para frente, afastou alguns cachos de cabelos da testa do filho e lhe depositou um beijo suave na face. Erguendo-se, tomou coragem e deixou o quarto.


CAPÍTULO OITO

Suspirando profundamente, Phoebe atravessou o pequeno corredor que se abria para a copa, cozinha e a área de estar. Um amplo e acolchoado sofá nas cores creme e marrom tomava toda a extensão de uma das laterais do trailer e se estendia em curva alguns centímetros para cada lado. A parte central podia se converter em uma cama de casal se necessário. Uma mesa de centro de tampo de vidro se encontrava em frente ao sofá e na parede oposta ficava uma lareira elétrica. Confortável e prático, mas não o tipo de ambiente luxuoso a que Jed estava acostumado, pensou ela, cética. Porém, ao vê-lo esparramado em um dos cantos do sofá, conversando em grego ao celular, percebeu que ele parecia muito à vontade.

Como se pressentisse a aproximação de Phoebe, ele interrompeu a ligação e ergueu a cabeça, fixando os olhos negros nela.

— Ben adormeceu? — perguntou.

— Sim. Por favor, não interrompa seus telefonemas por minha causa. Farei um chá e depois vou para a cama.

— São apenas 20h e evitar discutir a questão relativa a Ben não irá fazê-la. desaparecer. Venha até aqui e, enquanto me acompanha em uma taça de champanhe, tente se comportar como a mulher inteligente que é em vez de continuar fugindo.

Só então, Phoebe percebeu a garrafa da bebida espumante e duas taças sobre a mesa.

— De onde tirou isso?

— Do refrigerador do carro. Temos assuntos mais importantes a tratar. Ben é seu filho e o educou muito bem. É um menino esperto, inteligente e adorável e isso se deve a você, mas ele também precisa de um pai. E necessitará cada vez mais à medida que crescer. Não há melhor momento como agora para discutir o futuro do nosso filho. — Erguendo-se, Jed arrancou a rolha da garrafa de champanhe com um movimento rápido, evitando o baralho da explosão e encheu duas taças. — Sabe que estou certo. — Estendeu-lhe uma das taças e ela a aceitou. — Não tenho intenção de saltar em cima de você — disse em tom pausado e sardônico. — Bem, a menos que me peça. — Os lábios sensuais se curvaram no mais breve dos sorrisos. — Sente-se aqui e relaxe — ordenou, voltando a se acomodar no sofá.

Jed tinha razão... como sempre... não havia motivo para evitar a conversa crucial por mais tempo. Quanto a relaxar... para seu dissabor, sabia que não conseguiria com Jed por perto. O confinamento do trailer não ajudava em nada, mas não teve escolha senão se sentar ao lado dele, embora mantivesse certa distância.

— Saúde! — brindou Jed, encostando a taça à dela.

— Saúde! — murmurou Phoebe, relutante, aceitando o brinde e tomando um gole do champanhe.

— Assim não está melhor? Um brinde aos velhos tempos entre dois amigos.

— Acho que sim. — Embora Jed nunca a tivesse visto realmente como amiga e sim como amante. Uma parceira sexual conveniente, mas não boa o suficiente para dividir sua vida. Sempre tomara cuidado para que ela não conhecesse sua família ou tivesse contato com seus seletos e sofisticados amigos, tais como o embaixador e Sophia. Tinha de ter em mente que ele estava ali por causa do filho, nada mais.

Jed percebeu a hesitação que enevoava os olhos azuis. Percebia que algo do que ele dissera lhe suscitara uma lembrança amarga do passado, embora honestamente não soubesse qual era.

— É um belo trailer. Há quanto tempo o comprou? — perguntou Jed, decidindo por amenidades, antes de citar as leis.

— Bem distante de seus padrões luxuosos — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha ao fitá-lo. Não se enganava com aquela mudança súbita de assunto. — Mas é perfeito para nós — acrescentou, decidindo por tomar parte de qualquer diálogo que protelasse o assunto referente a Ben. — Na verdade, alugamos um trailer aqui por oito semanas no verão em que transformamos os dois chalés em um. Ben tinha apenas oito meses, mas gostava tanto do mar que tia Jemma decidiu que compraríamos nosso próprio trailer. Passamos todos os feriados aqui e também alguns finais de semana — explicou Phoebe, sorvendo outro gole do champanhe.

— Percebi que Ben adora o mar. — Jed a fitou com os olhos castanho-escuros sorridentes. — Tive um ótimo dia com vocês. Gostei muito.

— Sim, eu notei — murmurou Phoebe, aquecida por aquele sorriso estonteante, tomando outro gole da bebida espumante. — Ben ama aquele restaurante no porto e também a pizzaria, embora haja outro bom restaurante onde poderíamos ter almoçado. — Sentia que estava começando a divagar e se apressou em esvaziar a taça de champanhe. Jed tomou a enchê-la, sabendo por experiência pregressa, que Phoebe não possuía muita resistência ao álcool. Dentro em breve, relaxaria e se tomaria mais maleável a seu plano para o futuro de Ben. Ardiloso, talvez, mas não menos ardiloso do que os esforços de Phoebe em privá-lo do filho. — Você o exauriu, o que é um grande feito. — Phoebe se recostou ao sofá e o fitou de soslaio. — Na verdade você me surpreendeu. Tem muito jeito com ele e Ben parece gostar de você.

Jed a observou em silêncio por um longo instante. Phoebe não tinha idéia do quanto soava condescendente.

Desde o primeiro instante em que vira Ben, sentira uma conexão tão intensa que o surpreendeu. Ouvi-la dizer que a criança parecia ter gostado dele, fora como uma ferroada, embora devesse ficar satisfeito pela pequena concessão que ela fizera, depois de ter tentado lhe negar a paternidade.

— Obrigado, Phoebe. — Se ela percebeu o sarcasmo em seu tom de voz, não demonstrou. — Mas adquiri muita prática com meus sobrinhos. Minha irmã tem quatro filhos. Duas meninas e dois meninos. Quando Ben for para a Grécia, os primos ficarão eufóricos e a tia Cora e o tio Theo o adorarão. Quanto ao meu pai, que acabou de se divorciar de sua quarta e, espero, última esposa, conhecer Ben tomará sua vida completa.

Jed percebeu o lampejo de dúvida e confusão nos olhos azuis, antes de ela baixá-los rapidamente e tomar mais um gole de champanhe. Em seguida, voltou a fitá-lo por sob os longos cílios e ele identificou algo mais. Por um instante, desejou cortar a conversa e beijá-la. Porém, o sexo era algo que podia ter e deixar se necessário. O filho era algo completamente diferente. Agora que encontrara Ben estava determinado a ficar com ele. De preferência com Phoebe, mas se não fosse possível, teria Ben de qualquer maneira.

— Sim, bem... — murmurou ela. Ouvir Jed comentar sobre a família tinha um sabor doce e amargo. Quando se relacionaram no passado, ele comentara que a irmã tinha duas filhas e que a mãe falecera quando era adolescente, porém não tinha idéia de que o pai havia casado quatro vezes. Na verdade, sabia muito pouco sobre Jed, além de ele ser um ótimo amante. — talvez um dia — disse, observando enquanto Jed tomava a lhe encher a taça e pousava a dele sobre a mesa.

— Talvez, não é suficiente — afirmou ele, enquanto Phoebe sorvia um grande gole de champanhe para estabilizar a pulsação. — Quero que ele conheça a família grega que possui. Isso não é justo comigo nem com Ben. Ele precisa saber que sou o pai dele e amanhã vou lhe contar, goste você ou não. Seria bem melhor que concordássemos.

Phoebe fitou o brilho determinado nos olhos castanhos faiscantes e um arrepio de medo lhe percorreu a espinha. Tomou mais um gole de champanhe e aquilo lhe deu segurança necessária para se opor a ele.

— Não. Acho que está sendo um pouco prematuro. Ben precisa de tempo para conhecê-lo e se adaptar a você.

Tentar argumentar de forma racional não o estava levando a lugar algum.

— Prematuro — repetiu ele. — Estranho, vindo de você — prosseguiu em tom de sarcasmo. — Uma mulher que estava disposta a deixá-lo crescer acreditando que sua paternidade era desconhecida. Como acha que me sinto? — perguntou. — Nosso reencontro foi pura coincidência e foi apenas a sua falta de habilidade em esconder o pânico que sentia que me fez suspeitar de alguma coisa. Posso ver que foi muito bem cuidado, mas era eu quem deveria o estar sustentando. Phoebe torceu os lábios.

— Não se martirize com isso. De certa forma, você está — disse ela, dando uma risadinha.

— Acha que isso tem graça? O que quis dizer? — indagou de modo brusco.

— Simples. As jóias que me deu serviram para custear meu curso de professora e aquele ostentoso colar de diamantes permitiu que eu comprasse o chalé ao lado do da minha tia. O restante pagou este trailer. Como vê, não tem por que se sentir culpado quanto ao aspecto financeiro. Phoebe deixou escapar um soluço, antes de prosseguir. — Embora no aspecto moral, acho que pagar por sexo com jóias é uma atitude dissoluta. Mas, bem... de acordo com você, eu as mereci, portanto fiquei com elas e as utilizei.

Jed nunca a vira daquela forma, portanto ignorou o comentário e olhou ao redor do trailer.

— Vendeu mesmo os presentes que lhe dei? — indagou, relembrando o chalé reformado, perplexo com o fato de aqueles valores que para ele significavam uma gota no oceano, a terem ajudado financeiramente por cinco anos.

— Sim. A maior parte deles.

Incapaz de se conter, Jed a envolveu pela cintura, erguendo-lhe o queixo entre os dedos. Os olhos azuis falsearam, enquanto ela exibia um sorriso luminoso.

O champanhe havia certamente lhe soltado a língua, pensou Jed. Provavelmente, nunca lhe teria contado a verdade se estivesse sóbria. O fato de ter provido algo para Ben o fazia se sentir bem melhor.

— Não precisava me contar isso, mas fico feliz que tenha me informado. — Incapaz de resistir à tentação, Jed roçou os lábios levemente contra os dela.

— O prazer foi todo meu — murmurou Phoebe, ocultando o azul dos olhos sob os cílios longos.

A cabeça de Phoebe pendeu sobre a curva do ombro largo, expondo-lhe o pescoço esguio e a mão macia pousou na coxa musculosa. Jed sentiu o corpo se contrair pela tensão. Ergueu a cabeça e deixou o olhar escorregar pelas feições delicadas e mais abaixo, no sulco dos seios firmes expostos pelo decote em "V". A pressão na virilha, com a qual lutara o dia inteiro, se intensificou.

Phoebe ergueu o olhar para fitá-lo, entreabrindo os lábios e se tomou impossível para ele resistir a baixar a cabeça e traçar com a língua o contorno da boca apetitosa, antes de lhe explorar o interior. Em seguida, depositou uma trilha ardente de beijos ao longo do pescoço esguio.

— Jurei não mais fazer isso.

Phoebe se encontrava embriagada pela delicadeza dos beijos que lhe faziam queimar a pele, mas o comentário lhe penetrou a mente. De repente, percebeu que se encontrava comprimida contra o corpo avantajado, acariciando-lhe a coxa musculosa.

Não conseguia entender como se colocara mais uma vez naquela posição com o homem que desprezara e temera durante os últimos cinco anos. Por certo fora a quantidade de champanhe...

— Não estamos fazendo nada — disse ela, tentando se afastar e retirando imediatamente a mão da coxa de Jed. — Na verdade, seria melhor que fosse para um hotel — prosseguiu, distanciando-se o máximo que pôde no sofá, temendo se levantar, pois se sentia tonta. Esperava que fosse pelo efeito do champanhe e não pelos beijos.

— Não confia em si mesma e eu não vou a lugar nenhum. Não se preocupe. Serei forte por nós dois.

O tom sarcástico irritou Phoebe.

— A parte central do sofá se transforma em cama. Há lençóis sob a mesa. Vou para minha cama e não quero vê-lo ou ouvi-lo até amanhã de manhã, seu patife arrogante e convencido.

Jed a deixou ir. Pegou o telefone celular e repassou as fotos que tirara durante o dia. Seu filho: Benjamim. Independente da vontade de Phoebe, aquela criança era sua família e faria tudo para que Ben fosse com ele. Verificou suas ligações e, em seguida, conectou o laptop a uma rede sem fio segura e trabalhou pelas próximas três horas. Alguns problemas haviam surgido e teria de resolvê-los pessoalmente em Londres, concluiu, quando desligou o computador. Agora que sabia da inacreditável verdade, sentia-se energizado e louco para voltar ao trabalho.

Não perderia mais tempo tentando sensibilizar Phoebe. No dia seguinte, contaria a Ben que era o pai dele. A menina sexy e maleável de 21 anos se metamorfoseara em uma mulher sofisticada, teimosa e ainda mais sensual. Poderia esperar. Por fim, ela concordaria com sua forma de pensar.

Não era um homem presunçoso, mas tinha ciência de sua boa aparência, seu cérebro brilhante e sua riqueza. Especialmente a fortuna. Nunca conhecera uma mulher que não ansiasse pela chance de se casar com ele. Phoebe não seria diferente. A tentação de uma vida luxuosa superaria quaisquer escrúpulos que talvez possuísse. Porém, não esperaria para ter o filho junto dele.

Phoebe acordou e gemeu. Por instantes, não sabia ao certo onde se encontrava. Forçou-se a abrir os olhos e percebeu que estava no trailer e, à medida que as lembranças da noite anterior afloravam, gemeu outra vez. Outro dia com Jed era algo que não estava disposta a passar. Esforçara-se ao máximo para resistir a ele, embora seu corpo parecesse se divertir fazendo dela uma mentirosa.

Sentou-se na cama e consultou o relógio de pulso: 9h da manhã. Não podia ser... Ben costumava acordar com o raiar do dia. Seu primeiro pensamento fora a possibilidade de o filho estar doente. Atirando as pernas para fora da cama, estava quase se levantando quando o menino adentrou o quarto correndo.

— Que bom! Está acordada. Jed disse que a deixasse dormir, mas você não acordava mais. Fomos à cafeteria a beira-mar e tomamos café da manhã.

— Deveria ter me chamado. Sabe que não deve ir a lugar nenhum sem eu saber. — Phoebe estava aterrorizada com o pensamento de Jed ter levado Ben. Poderia ter partido com ele. Aquele era seu pior pesadelo.

— Jed disse que não tinha problema, porque você estava cansada e precisava dormir.

Phoebe baixou o olhar ao filho e percebeu a preocupação estampada nos olhos da criança.

— Sim, não havia problema — disse, forçando um sorriso. — Mas não faça isso outra vez sem me avisar, está bem? — Depositando-lhe um beijo na testa, empertigou-se, amaldiçoando Jed em silêncio. Apenas para encontrá-lo parado ao pé da cama.

— Bom dia, Phoebe. Espero que tenha dormido bem — disse ele em tom de voz rouco. Os olhos escuros vagando por seu corpo, com explícita admiração masculina.

Phoebe engoliu em seco e sentiu os seios se enrijecerem sob o tecido da blusa. Jed estava tão deslumbrantemente másculo, trajando calça jeans e um suéter azul, que a fez consciente do pijama curto que vestia.

— Sim — resmungou ela, ruborizada pela vergonha. Tentou esticar a blusa de algodão colada, mas conseguiu apenas realçar ainda mais os mamilos intumescidos.

— Mamãe, não vai acreditar!

Phoebe ficou feliz por poder voltar a atenção ao filho.

— No quê? — perguntou ela.

— Durante o café da manhã, Jed me contou que tenho um pai e que sabe onde ele está.

No mesmo instante, o traje exíguo deixou de preocupá-la. Por um segundo, ela fechou os olhos. As faces ruborizadas adotando uma palidez fantasmagórica ao mesmo tempo em que desejava que o chão se abrisse e a engolisse ou, de preferência, engolisse Jed Sabbides. Tinha ciência de que um dia teria de conversar seriamente com Ben sobre o pai, mas não daquela forma, sendo forçada a fazê-lo. Descerrou as pálpebras para descobrir Ben com os olhos fixos nela, vibrando de empolgação. Erguendo a cabeça lentamente, fitou Jed.

— O assunto surgiu no meio da conversa e não iria mentir para o menino — explicou ele. — Mas disse-lhe que tinha de pedir sua permissão, primeiro.

Phoebe sustentou o olhar nada inocente de Jed, faiscando de raiva.

— Que maravilhoso de sua parte. Agora, se importa em sair para que eu possa me vestir?

— Mas quero saber onde está meu pai, agora.

Ben estava irredutível e, embora aquela não fosse a forma que escolhera para lhe contar, não permitiria de maneira alguma que Jed o fizesse por ela.

O orgulho e a raiva lhe estreitaram a espinha. Erguendo Ben e o colocando em seu colo, afastou alguns cachos de cabelos da fronte do menino.

— Você sabe que lhe expliquei que não tinha um pai porque nós nos separamos muito antes de você nascer, certo? Muito bem, Jed sabe onde está seu pai porque ele é o seu pai e agora ele nos encontrou.

Ben dirigiu um olhar solene a Jed.

— Você é mesmo meu pai?

— Sim. Sua mãe e eu perdemos o contato e eu não sabia de sua existência até sexta-feira passada, quando nos reencontramos. Para a minha felicidade, soube que você era meu filho. Prometo-lhe que nunca mais nos separaremos.

— Posso chamá-lo de papai? — perguntou o menino, inseguro, fazendo o coração de Phoebe sangrar por ela e pelo filho.

— Claro que sim. Não há nada que deseje mais do que ouvi-lo me chamar de papai — replicou Jed, abraçando o menino.

CAPÍTULO NOVE

Phoebe tomou uma ducha e se vestiu, enquanto Ben foi com o pai à piscina coberta do camping. Concordara apenas porque caminhariam até o centro de recreações e porque Jed, com uma expressão cínica, deixou as chaves do Bentley com ela.

Sozinha com seus pensamentos, Phoebe temia o futuro. Jed podia proporcionar ao filho tudo que o dinheiro podia comprar e tudo que ela podia dar ao filho era muito amor e trabalhar duro para sustentá-lo. Com um suspiro desanimado, terminou de limpar o trailer.

Tentou não deixar suas dúvidas transparecerem quando Jed e Ben retornaram.

Passaram o restante do dia dirigindo de Weymouth a Chesil Beach e depois ao patrimônio mundial, Jurassic Coast. A praia terminava na cidade de Lyme Regis, um lugar conhecido pelos fósseis que lá haviam sido encontrados.

Após algumas breves e tímidas perguntas, Ben, em sua inocência infantil, aceitara Jed como pai com um entusiasmo que fez Phoebe se sentir culpada por mantê-los afastados por anos, além de experimentar uma pontada de ciúmes. Ben era seu filho e era difícil aceitar que dali em diante, ela não seria mais o centro do universo dele. Pai e filho pareciam fascinados um pelo o outro, enquanto procuravam por fósseis. De fato, acabaram por encontrar o que Ben descreveu ser o dente de um dinossauro. Quando retomaram a Peartree Cottage, Sid os encontrou à porta e, após entregar as chaves a Phoebe, partiu. Ben se mostrou eufórico com a nova decoração do quarto e meia hora mais tarde, havia tomado banho e dormia profundamente.

— Parece um anjo dormindo — murmurou Jed.

— Sim.


Observar Jed admirar o filho com expressão tema no olhar, suavizou o coração de Phoebe.

— Mas às vezes é bastante genioso... como o pai — retrucou Phoebe em tom amargo, antes de girar e se retirar do quarto.

Necessitava de um café e se dirigiu à cozinha. Não reconhecia a criatura na qual Jed a estava transformando: língua afiada, ciumenta e temerosa do futuro. Desde quando se tomara tão insegura?

— Gostaria de tomar um café, por favor — A voz grave de Jed lhe cortou os pensamentos.

— Está bem — disse ela, preparando outra xícara. Jed se encontrava muito próximo e aquilo tinha um efeito devastador sobre seus nervos.

— Controle-se, Phoebe. — Jed lhe tomou uma das canecas da mão e exibiu um sorriso de tirar o fôlego. — Foi um dia maravilhoso, não o estrague me dando um banho de café — brincou, afastando uma cadeira e se acomodando à mesa. — Sente-se — sugeriu ele. — Temos muito que conversar.

Phoebe desejou ignorá-lo bem como o que ele tinha a dizer. Jed era demasiado perigoso para sua vida e bem-estar emocional, mas não tinha escolha. Iria escutá-lo e convidá-lo a se retirar, decidiu, puxando uma cadeira e se sentando do lado oposto da mesa.

— Então fale, mas seja breve. Foi um longo dia — disse em tom sincero. — Estou cansada.

— Sim, está com aparência cansada — concordou Jed, esticando a mão e lhe afastando uma mecha de cabelos para trás dos ombros. O contato dos dedos longos no pescoço lhe fez o corpo formigar.

— Desculpe-me por não me encaixar em seus padrões de elegância feminina, mas nunca aspirei possuí-los — retrucou, sarcástica.

Danação! Os lábios de Jed se contraíram em uma linha fina. Gestos temos e comentários preocupados não o estavam levando a lugar algum. Era hora de fazê-la aceitar a realidade daquela situação.

— Não por muito tempo — afirmou Jed de modo abrupto. — Em breve encarnará o tipo de dama elegante que tanto abomina. Não por mim. Não dou a mínima importância para o que veste, prefiro-a nua, mas por Ben. Ele necessitará de uma mãe adequada, à sociedade a qual pertencerá, inevitavelmente, goste você ou não Amanhã terei de viajar para Londres, mas estarei de volta na manhã de terça-feira para buscar você e Ben. Terá um dia para fazer as malas. Devemos chegar à Grécia ao anoitecer.

Phoebe se ergueu. Ouvira com crescente ressentimento o plano de Jed, mas agora se encontrava furiosa pela arrogância com que ele se achava no direito de lhe dar ordens.

— Não — respondeu Phoebe, fitando-o, furiosa. Nem eu nem Ben vamos para a Grécia até eu decidir que é o momento certo. Já foi longe demais. Ben sabe que você é o pai dele e, por ora, terá de se contentar com isso. Já terminou de tomar seu café e está na hora de ir embora. — Cruzando a cozinha, disparou pelo corredor, trêmula de raiva.

Jed se ergueu em um impulso e a seguiu. Segurando-a pelo braço, girou-a para que o encarasse.

— Não aceitarei um "não" como resposta. E seu hábito de fugir acaba agora. Entendeu?

— Não estou fugindo e fique sabendo que eu e não vamos a nenhum lugar com você na terça-feira ou tão cedo. Em sua vida profissional, pode dar ordens a seus subordinados, mas não permitirei que faça o mesmo comigo e com meu filho.

— Está sendo totalmente insensata. Tem uma semana de férias. Nada a impede de ir para a Grécia com Ben. Sabe que ele ama o mar e tem de admitir que passar as férias em um trailer exíguo não se compara com desfrutá-las na Grécia, com um clima ameno, vista para o mar e cercado de todos os luxos — argumentou Jed em tom sarcástico. — Droga, Phoebe! Lembro-me de um tempo em que não perderia tal oportunidade. Tinha planos de viajar e conhecer o mundo. O que aconteceu com você?

Por um longo instante ela o fitou, sentindo os dedos longos lhe apertarem o braço e o calor que emanava do corpo forte. Desejou que ele fosse embora e nunca mais voltasse, mas sabia que aquilo não iria acontecer. Jurara que nunca mais o deixaria feri-la e a raiva que suprimira durante anos aflorou.

— Você aconteceu em minha vida. Devastou-a uma vez e não permitirei que o faça de novo.

Um sorriso gélido curvou os lábios de Jed.

— E quanto a Ben? Pretende devastar a vida dele por causa de sua covardia em encarar os fatos? É uma excelente mãe, garanto-lhe, mas Ben necessita de um homem em sua vida, porque é muito permissiva com ele. — Phoebe recuou como se tivesse sido esbofeteada. As palavras de Jed tocaram em um ponto nevrálgico. Tia Jemma lhe dissera o mesmo. — Responda-me. Por que permitiu que levasse Ben para passear de carro na noite de sexta-feira? Porque deixou que eu passasse não apenas um dia, mas todo o final de semana com vocês?

— Porque é um dominador que refuta qualquer objeção que eu faça — disparou ela, detestando pensar que Jed talvez estivesse certo.

— Apesar de me sentir lisonjeado por ter tal influência sobre você, a verdade é que Ben é quem a domina. Observei seu comportamento e reparei que teme tanto desapontar o menino que se torna permissiva. E ele sabe disso, Phoebe, acredite-me. Sou o pai dele. Eu me comportava exatamente dessa maneira com minha mãe, até meu pai me impor limites. — Jed lhe voltou um sorriso seco. — Por enquanto, isso pode não ser um problema, mas será no futuro, sem a influência decisiva de um homem para orientá-lo. Esta manhã, deixou que ele a pressionasse a lhe contar quem era o pai, antes mesmo de se levantar e ontem deixou que ele escolhesse dois tipos de papel de parede, em vez de fazê-lo tomar uma decisão. Isso será algo de que ele necessitará para ter sucesso na vida.

— Quando se formou em psicologia infantil? — provocou Phoebe. — Para um homem que não queria ter filhos e soube que era pai há apenas três dias, tem muita coragem em questionar minhas qualidades maternais. Se pensa que manipular Ben o fará me persuadir em ir para a Grécia, pode esquecer. Isso seria típico de um tipo desprezível como você.

O sorriso de Jed esmoreceu, enquanto a fitava com uma fúria que fez o corpo de Phoebe estremecer.

— Sua pequena... — começou ele, porém se calou e a enlaçou pela cintura puxando-a contra o calor do corpo forte. Quando Jed lhe envolveu a nuca com a outra mão e aproximou os rostos de ambos, sentiu-a fraquejar e estremecer. Aquilo fez com que uma parte da raiva que sentia se abrandasse. — Não seja presunçosa. Persuadi-la a ir para a Grécia não é meu objetivo principal, mas sim o meu filho — afirmou em tom áspero. — Ambos sabemos que se dissolveu em meus braços, louca de desejo e faria o mesmo neste exato momento.

Os olhos azuis se encontravam dilatados e escurecidos e deliberadamente ele a apertou com mais força ainda, escorregando a perna entre as coxas macias e lhe tocando o contorno dos seios sobre o suéter de lã. — Pode continuar me impingindo a velha acusação de que eu não desejava um filho — murmurou contra a orelha delicada, mordendo de leve o lóbulo e lhe arrancando um suspiro. — E desejava que interrompesse a gravidez. Continue repetindo para si mesma até acreditar nessa idéia estapafúrdia, mas a única pessoa a quem está enganando é a si mesma.

— Essa é sua opinião — murmurou Phoebe. Porém, Jed percebeu o rubor da excitação estampado no rosto delicado. Deus! Ela era tão linda, sensual e estupidamente teimosa! A pulsação da ereção quase o fez gemer. Irritava-se pelo fato de tê-la desejado desde o primeiro instante em que a vira, com uma ânsia que desafiava qualquer lógica. A passagem dos anos em nada alterara tal desejo. Suprimindo a crescente libido, Jed a soltou.

— Não vou mais discutir com você. Tampouco a levarei para a cama para saciar o desejo que claramente demonstra. Perdi muito tempo nas últimas semanas a seguindo. Não posso forçá-la a vir comigo, mas voltarei na terça-feira, por volta do meio-dia, para buscá-los e você passará ao menos o resto da semana na Grécia.

— Espera que eu concorde com tanta facilidade? — indagou Phoebe. Sabia que tudo que ele precisava era tomá-la nos braços e todos os pensamentos lógicos lhe fugiriam da mente, mas agora, distante do calor do corpo de Jed, recobrara o raciocínio. — Muito bem, pode desistir, porque não vou. — Percebeu-o estreitar o olhar e acrescentou: — Pelo menos, ainda não. — O bom senso lhe dizia que não podia se opor completamente a Jed.

— Os acordos de uma custódia levam tempo para serem costurados de modo que agradem ambas as partes. Não pode sair por aí distribuindo ordens para todo mundo a sua volta.

— Como quiser — retrucou Jed em tom baixo e letal. — Então eu a vejo no tribunal.

A cor se esvaiu do rosto de Phoebe. — Tribunal? Quer ir aos tribunais?

— Se não é capaz de chegar a um acordo comigo, não vejo outra opção. — Os olhos azuis se arregalaram, temerosos, quando Jed lhe ergueu o queixo com um dedo.

— A decisão é sua. Tem um dia para pensar.

Jed inclinou a cabeça e antes que ela pudesse lhe perceber a intenção, os lábios quentes tomaram os dela em um beijo profundo e firme que a deixou tonta. Como se tivessem vontade própria, os braços delicados envolveram os ombros largos. As batidas aceleradas do coração de Phoebe insensibilizando-a para qualquer coisa que não fosse o gosto e o toque de Jed.

De repente, ele interrompeu o beijo e, empertigando-se, retirou-lhe as mãos dos ombros e a afastou gentilmente.

— E melhor eu ir embora. — Com um gesto extremamente gentil, ele lhe afastou uma mecha de cabelos da face. Phoebe ainda se encontrava hipnotizada no transe daquele beijo. Porém, quando ergueu o olhar para fitá-lo percebeu a expressão zombeteira. — Caso contrário, posso ficar tentando a ficar outra vez. — Retirou a mão. — Você me deseja, Phoebe. Não consegue se controlar. Mas a próxima vez que eu fizer amor com você será depois de decidirmos o futuro de Ben e não antes. — Girou para partir, mas estacou e se voltou. — Por falar nisso, esqueci de usar proteção na outra noite. Acredito que saiba como tomar contraceptivos melhor do que no passado. — Os olhos escuros encontraram os dela. —Acho que não haverá problemas, certo?

— Claro que não — respondeu Phoebe, antes de ele anuir e partir.

Porém, as últimas frases de Jed quase a mataram.

Permaneceu no corredor por um longo tempo, com o olhar perdido, antes de se dirigir à sala de estar e afundar no sofá. Não tomava pílula anticoncepcional desde que ela e Jed se afastaram, mas jamais admitiria. Desesperada, fez os cálculos e suspirou. Acontecera uma semana antes de seu período fértil. Não havia tanto perigo.

Além disso, fora apenas uma vez, naquele sofá, pensou ela socando o móvel como se ele tivesse culpa. Porém, se havia um culpado era Jed. Ele nunca esquecia a proteção. No início do relacionamento de ambos era meticuloso no uso dos preservativos até se certificar de que passara tempo suficiente para a pílula fazer efeito. Na verdade, não poderia acusá-lo de ter deliberadamente "esquecido" de usar proteção na outra noite.

Se estivesse grávida, não teria mais ninguém a quem culpar a não ser a si mesma. Para ser justa, era natural que Jed esperasse que ela estivesse tomando pílula. Fora ela a deixar que ele pensasse que era mais do que amiga de Julian. Abriu os olhos e se ergueu. De nada adiantava ficar sentada ali, temendo o pior. A melhor coisa que tinha a fazer era ir dormir. Mas estar grávida seria a pior coisa do mundo, indagou-se Phoebe deitada na cama, meia hora mais tarde. Ben ficaria eufórico com um irmão ou uma irmã. O desejo que sentia por Jed não a cegava para o tipo de homem que era. Ele não a amava, como lhe dissera em uma inesquecível ocasião.

Durante o desjejum na manhã seguinte, mencionou a Ben a possibilidade de viajarem para a Grécia durante as férias e o menino ficou eufórico. Porém, Phoebe ainda não se decidira. O dia se tomou pior, quando ela e Ben foram passear no vilarejo e ele contou a todos que encontraram que tinha um pai.

CAPÍTULO DEZ

Por fim, Phoebe não precisou optar, pois os acontecimentos decidiram por ela. Desistindo de tentar dormir, levantou-se às 6h da manhã e foi até o quarto do filho que dormia profundamente. Talvez por que o tivesse deixado ficar acordado até tarde na noite anterior. Não quisera ficar sozinha com seus pensamentos.

Estava longe de tomar uma decisão, enquanto se ensaboava debaixo da ducha quente. Ao fechar a torneira, ouviu o som distante do telefone. Enrolando o corpo trêmulo de frio em uma toalha que pegou no armário, disparou pelos degraus da escada, imaginando quem estaria ligando tão cedo. Ergueu o fone e antes que pudesse dizer qualquer coisa, a voz transtornada de Jed soou do outro lado da linha.

— Onde diabos se meteu? Estou tentando falar com você há vinte minutos.

— Estava tomando banho e agora estou tremendo de frio no corredor com apenas uma toalha enrolada no corpo, portanto...

— Droga, Phoebe! — cortou ele. — A última coisa de que preciso agora é de sua imagem quase nua — disse em tom pausado, fazendo com que o efeito calmante da água gelada desaparecesse. — Fique calada e escute. Meu pai teve um ataque cardíaco ontem à noite. Está no Centro de Tratamento Intensivo do hospital. Cheguei à Grécia às 3h da manhã.

— Sinto muito — disse Phoebe, emocionada. Até mesmo um homem duro como Jed devia estar abalado com o estado de saúde do pai.

— Não quero sua compaixão, mas apenas que faça o que eu disser. Falei com o médico que está cuidando dele e as próximas 48 horas são cruciais. Tem momentos em que está consciente e outros não, mas lhe contei sobre Ben e ele quer conhecê-lo. Não permitirei que meu pai morra sem ver o neto. Um carro estará em sua porta às 9h da manhã para levá-los ao aeroporto. Providenciei para que Sid os acompanhe e os traga até o hospital, entendeu?

— Sim... não. Espere — gaguejou Phoebe com o coração disparado pelo pânico.

— Não tenho tempo para discussões. Faça o que eu disse. — E com isso, ele desligou.
Phoebe segurou a mão de Ben lhe dirigindo um sorriso confiante, enquanto cruzavam o corredor do Centro de Tratamento Intensivo.

— Verá seu pai em breve e conhecerá seu avô, que não está muito bem. Mas não se preocupe que ele logo se recuperará.

— Sid disse que sou um menino crescido e não tenho medo de nada — retrucou Ben. — Não é mesmo? — indagou o garoto ao guarda-costas.

— Claro. — Sid indicou-lhes os acentos recostados à parede. — Direi ao Sr. Sabbides que estão aqui — acrescentou, desaparecendo pela porta do lado oposto.

Phoebe estava assustada. Tudo estava acontecendo tão rápido que se sentia perdendo o controle da situação.

Após o telefonema de Jed, acordara Ben e lhe comunicara que iriam para a Grécia ver o pai, o que deixou o menino eufórico. Relutante, fez as malas, sabendo que não podia negar o último desejo de um homem à beira da morte. Caso estivesse mesmo moribundo! Não a surpreenderia que Jed usasse a doença do pai para atingir seus objetivos. Porém, quando um preocupado Sid aparecera em sua porta, fechara a casa e entrara no carro, resignada. De repente, a porta do outro lado do corredor se abiu e Sid veio ao encontro dos dois.

— O Sr. Sabbides estará aqui dentro de instantes, portanto os deixarei agora — disse ele, se retirando.

Atenta, Phoebe observou a porta oscilando. Os nervos à flor da pele, quando Jed apareceu.

— Phoebe... você veio — disse ele com um tom estranhamente rouco.

— Sim — retrucou ela, fitando o rosto tenso. Os olhares de ambos se encontraram por intermináveis segundos. As sombras da intimidade do passado mesclando-se ao presente para compor um raro momento de compreensão mútua.

— Não tinha certeza se concordaria em vir — admitiu ele. — Mas estou feliz que tenha vindo.

O olhar de Phoebe escorregou pela figura alta e imponente. O paletó havia manchado em algum lugar e a calça estava amarrotada. Os cabelos negros revoltos lhe caíam sobre a testa, como se tivesse passado as mãos pelos fios incontáveis vezes. O rosto se encontrava estranhamente pálido e os olhos, fundos.

Uma profunda preocupação tomou conta de Phoebe, fazendo-a desejar se erguer em um impulso e abraçá-lo. Porém, lutou para controlar tal impulso.

— Não me deixou outra opção — retrucou em tom suave com um esboço de sorriso. Aquele não era o momento de discutir. — Ben ficou totalmente fascinado com seu primeiro vôo.

— Serei piloto quando crescer, papai — disse o menino. O esboço de um sorriso curvou os lábios contraídos de Jed, ao se abaixar e erguer o filho nos braços.

— Poderá ser qualquer coisa que quiser quando crescer, mas agora quero que conheça seu avô. — E voltando o olhar a Phoebe. — Meu pai quer conhecê-la também.

O médico lhe deu uma medicação e embora esteja acordado no momento, dormirá em breve. Venha. — Phoebe se ergueu e seguiu Jed e o filho.

Uma mulher de cabelos negros e estatura baixa veio ao encontro deles.

— Sou a irmã de Jed, Cora — apresentou-se, sorrindo para Ben. — Você deve ser Phoebe. Ouvi falar muito sobre você e é um prazer finalmente conhecê-la, embora não nestas circunstâncias. Quero que venha jantar conosco esta noite para conhecer o restante da família.

— Esta noite não será possível — interrompeu Jed, colocando Ben no chão. — Vá tomar um café. Nós não demoraremos e é melhor que fique aqui por algumas horas, enquanto levo Phoebe e Ben para a casa.

Revirando os olhos grandes e escuros a irmã murmurou: — O oráculo falou. — E colocando a mão sobre o braço de Phoebe. — Amo meu irmão, mas eu o conheço. Não permita que ele a intimide. Levarei as crianças para lá amanhã de manhã. Elas farão companhia a Ben. Independente do que Jed pense, um quarto de hospital não é local apropriado para crianças — concluiu com um sorriso triste. — Vejo-a mais tarde.

Phoebe lhe devolveu o sorriso. Cora era simpática, embora o comentário de ter ouvido falar muito dela lhe parecesse estranho. Inspirou profundamente e, em seguida, congelou com o cenário a sua frente: um homem de cabelos brancos estava deitado no leito, com a cabeça apoiada nos travesseiros, uma máscara de oxigênio descartada sobre o pescoço e equipamentos de soro conectados ao seu pulso e peito. Uma gama de aparelhos lhe monitorava as funções vitais. O rosto do homem estava vincado pelas rugas e pela dor.

Ben fitava curiosamente o avô, enquanto Jed dizia algo em grego ao pai e, em seguida, alterou para o idioma inglês para apresentá-lo a Ben.

Phoebe percebeu os olhos entorpecidos do homem se iluminarem e aquilo a fez sentir um nó na garganta. Ben estendeu a mão para avô e ele a segurou. Ali estavam representadas as três gerações da família. Todos essencialmente masculinos, com os mesmos olhos castanho-escuros e cabelos espessos e levemente cacheados. Eram incrivelmente parecidos. De repente, a percepção a atingiu como um soco na boca do estômago. Aquela era a família de Ben e, embora não quisesse, não tinha o direito de lhe negar os benefícios da família paterna.

— Você é muito velho — ouviu Ben dizer.

— Meu filho... não é educado fazer esse tipo de comentário — disse Phoebe, porém a repreensão foi diluída na risada de Jed e do avô.

— A verdade não dói — disse o pai de Jed em tom fraco e rouco. — Aproxime-se para que possa vê-la.

Phoebe se moveu e se postou ao lado de Ben e Jed, sem saber ao certo o que esperar.

— É mãe do meu lindo neto — disse ele, com os olhos rasos d'água. — Agradeço-lhe do fundo do meu coração por trazê-lo até a mim.

— O prazer foi meu — murmurou Phoebe. — Fico feliz em conhecê-lo — continuou em tom menos formal.

— E espero que se recupere em breve. — Sem conseguir prosseguir, engoliu com dificuldade a emoção que lhe apertava a garganta. O homem deitado no leito se esforçava para respirar, mas não havia como negar a satisfação genuína e a emoção em seu tom de voz.

O olhar do pai de Jed se moveu vagaroso sobre ela. Em seguida, comunicando-se em grego, dirigiu-se ao filho por alguns minutos. Phoebe se surpreendeu com o rubor que se espalhou pela face de Jed e percebeu que estava envergonhado quando respondeu.

— É muito bonita, Phoebe — disse o senhor, voltando-se outra vez para ela e lhe segurando a mão com força surpreendente para a condição em que se encontrava.

— Meu filho é um idiota. Deve desculpá-lo. Essa não foi a educação que eu e a mãe dele lhe demos. Jed se casará com você imediatamente e...

— Basta, pai! Esse não é o momento — ordenou Jed.

— Tem de descansar para se recuperar.

— Já esperou tempo demais — suspirou o pai, soltando a mão de Phoebe e enterrando a cabeça nos travesseiros, enquanto fechava os olhos. — Não tenho muito tempo e não pode negar o último desejo de um velho doente de vê-lo casado.

Aquele homem parecia o mestre da chantagem emocional, pensou Phoebe. Porém, ao observar Jed se inclinar para frente e posicionar a máscara de oxigênio sobre o rosto do pai, dizendo-lhe palavras de conforto em sua língua natal e lhe depositando um beijo na fronte, sentiu-se culpada por tal avaliação. Aquele homem estava lutando pela vida. Porém, o que mais lhe tocou a alma foi ver o frio Jed que tentara odiar durante tanto tempo, mostrando-se tão cuidadoso com o pai.

— Ele adormeceu — disse Jed, sorrindo e segurando a mão do filho. Em seguida, relanceou o olhar a Phoebe. — Cora ficará com papai, podemos ir agora.

Envolvendo-lhe os ombros com o braço, ele os guiou ao longo do corredor. Para todos os efeitos, pareciam formar uma família. E seria tão ruim se fossem? Phoebe sentiu-se tensa diante do pensamento e do roçar da perna musculosa contra sua coxa, enquanto caminhavam. O desgosto de ser tão facilmente afetada por aquele homem se misturou ao ressentimento que alimentava em relação a ele. Jed conhecia muitos aspectos de sua personalidade. No passado, frequentemente afirmava que ela tinha um coração muito mole em relação a todos a sua volta. Era culpa dele o fato de estar naquela posição de impotência em um país estranho.

Retirando a mão que lhe envolvia os ombros, Phoebe se voltou para encará-lo.

— Agora não — disse ele como se lhe estivesse lendo a mente. — Recriminações podem esperar Tive uma noite péssima e o dia não está sendo melhor. Quanto a meu pai... que se dane o homem! Ele é inacreditável.



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