J. R. Ward Amante Liberado



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Merda.


V colocou o braço sobre os olhos e se perguntou exatamente quando tinha sofrido um transplante de personalidade. Teoricamente Jane lhe tinha operado o coração, não a cabeça, mas não tinha estado bem desde que tinha estado em sua mesa. O problema era, que simplesmente não podia evitar querer que o visse como um companheiro… embora isso fosse impossível por um sem-fim de motivos. Era um vampiro que era um inseto estranho… e ia se transformar no Primale em questão de dias.

Pensou no que lhe esperava do Outro Lado, e mesmo não querendo remontar ao passado, não pôde deter-se. Retornou ao que lhe tinham feito, lembrando o que tinha posto as coisas em marcha para o mau trato que o tinha deixado como meio macho.

Foi possivelmente uma semana depois que seu pai queimasse os livros que Vishous foi pilhado saindo de trás da divisão que escondia as pinturas rupestres. Sua perdição foi o diário do guerreiro Darius. Tinha evitado sua preciosa posse durante dias e dias, mas finalmente se rendeu. Suas mãos tinham desejado o peso da encadernação, seus olhos a vista das palavras, sua mente as imagens que lhe dava, seu coração a conexão que sentia com o escritor.

Estava muito só para resistir.

Foi uma puta da cozinha que o viu, e os dois congelaram quando o fez. Não sabia seu nome, mas tinha o mesmo rosto que todas as fêmeas apresentavam no acampamento: olhos duros, pele enrugada, e um talho por boca. Havia marcas de mordidas cobrindo seu pescoço, dos machos que se alimentavam dela, e sua roupa estava suja e desfiada na prega. Em uma mão usava uma rústica pá, e atrás dela arrastava um carrinho de mão com uma roda rota. Obviamente tinha tirado o palito curto e tinha sido obrigada a atender os fossas particulares.

Seus olhos desceram para a mão de V como se medisse uma arma.

V fez deliberadamente um punho com a coisa.

—Seria uma lástima que dissesse algo, não é verdade?

Ela empalideceu e escapuliu, deixando cair a pá ao correr.

As notícias do que tinha acontecido entre ele e o outro pretrans tinham percorrido todo o acampamento, e se isso fez com que o temessem, tudo tinha sido para o bem. Para proteger seu único livro não estava por cima de ameaçar a ninguém, mesmo a fêmeas, e não se envergonhava disso. A lei de seu pai sustentava que ninguém estava a salvo no acampamento. V estava bastante seguro que essa fêmea utilizaria o que tinha visto em seu próprio benefício se pudesse. Assim eram as coisas.

Vishous deixou a cova através de um dos túneis que tinham sido escavados na montanha, e emergiu em um matagal de sarças. O inverno os estava alcançando rapidamente, o frio fazia o ar tão denso como os ossos. Acima mais adiante, escutou a rápida corrente de água e quis beber, mas permaneceu escondido enquanto subia pela costa coberta de pinheiros. Sempre se afastava da água durante um lance depois de sair, não simplesmente porque era o que o tinham ensinado a fazer sob pena de castigo, mas sim porque em seu estado de pretrans não era oponente para o que possivelmente caísse sobre ele, fosse vampiro, humano, ou animal.

No início de cada noite, os pretrans tentavam encher seus ventres vazios na corrente, e seus ouvidos recolheram os sons dos outros pretrans que estavam pescando. Os meninos se congregaram na parte funda do arroio, onde a água formava uma profunda poça a um lado. V os evitou, escolhendo um lugar mais afastado rio acima.

De uma bolsa de couro tirou com supremo cuidado um longo fio que tinha um primitivo anzol e um peso brilhante de prata ao final. Lançou seu exíguo arranjo na rápida correnteza e sentiu a corda esticar-se. Quando se sentou em uma pedra, enroscou a corda ao redor de uma parte de madeira e sustentou a coisa entre suas mãos.

A espera o trazia sem cuidado, não era uma carga nem um prazer, e quando ouviu uma discussão rio abaixo, não mostrou interesse. As brigas também eram habituais no acampamento, e sabia sobre o que tratava a briga entre os outros pretrans. Simplesmente porque tirasse um peixe da água não significava que pudesse ficar com ele.

Estava olhando fixamente a rápida corrente quando a mais estranha sensação lhe percorreu a parte de atrás do pescoço, como se o houvessem batido na nuca com os dedos.

Levantou-se, deixando cair a linha ao chão, mas não havia ninguém atrás dele. Cheirou o ar, revisou as árvores com o olhar. Nada.

Quando se agachou para recuperar o linha, o pau saltou pelo ar longe de seu alcance e do banco, um peixe tinha mordido a ceva. V se lançou para ele, mas só pôde ver como a rudimentar manga saltava na corrente. Equilibrando-se, correu atrás dele, saltando de rocha em rocha, rastreando-o cada vez mais longe rio abaixo.

Depois do qual se encontrou com outro.

O pretrans que tinha golpeado com o livro subia pelo rio com uma truta na mão, uma que, dada sua satisfação , estava seguro que tinha roubado de outro. Quando viu V se deteve, o pau com o linha com a pesca de V presa passou a seu lado. Com um grito de triunfo, guardou o peixe que se agitava no bolso e foi depois do que era de V… ainda que isso o levasse em direção a seus perseguidores.

Talvez devido à reputação de V, os outros meninos se afastaram de seu caminho quando perseguiu o pretrans, e o grupo abandonou a perseguição e se converteu em espectador ao meio galope.

O pretrans era mais rápido que V, movia-se descuidadamente de pedra em pedra, enquanto que V era mais cuidadoso. Revestidas de couro suas toscas botas estavam molhadas, e o musgo que crescia na parte de atrás das rochas estava escorregadio como gordura de porco. Embora sua presa estivesse lhe tirando vantagem, V se conteve para assegurar seus passos.

Justo onde a corrente se alongova formando a poça em que tinham estado pescando os outros, o pretrans saltou à rosto plaina de uma rocha e conseguiu dar alcance ao peixe enganchado de V. Salvo que quando se estirou para pagar o pau, seu equilíbrio falhou… e seu pé escorreu debaixo dele.

Com a queda lenta e elegante de uma pluma, caiu de cabeça na rápida corrente. O rangido de sua têmpora contra a rocha que estava umas polegadas por baixo da superfície foi tão forte como uma tocha golpeando madeira nobre, e enquanto seu corpo ficava murcho, o pau e a linha continuaram seu caminho rio abaixo.

Quando V chegou até o menino, lembrou a visão que tinha tido. Claramente tinha estado equivocado. O pretrans não morria no topo de uma montanha com o sol sobre o rosto e o vento em seu cabelo. Morriam aqui e agora, nos braços do rio.

Foi um pequeno alívio.

Vishous observou como a corrente arrastou o corpo à escura e tranqüila poça. Antes de afundar-se sob a superfície, deu-se a volta, ficando de barriga para cima.

Enquanto as borbulhas atravessavam os imóveis lábios e subiam à superfície para captar a luz da lua, V se maravilhou com a morte. Tudo ficava tão calmo depois que chegava. Qualquer chiado ou grito ou ação que causava a liberação da alma para o Fade, o que seguia era como a densa calma da neve caindo.

Sem pensar, estendeu a mão direita e a meteu na água gelada.

De repente um resplendor se difundiu pela poça, emanando de sua palma… e o rosto do pretrans ficou iluminado tão certeiramente como se o sol brilhasse sobre ele. V ofegou. Era a visão feita realidade, exatamente como o tinha previsto: a neblina que tinha turvado a claridade era de fato a água, e o cabelo do menino ondeado daqui para lá não era pelo vento, mas sim pelas profundas correntes da poça.

—O que lhe está fazendo na água? —disse uma voz.

V levantou a vista. Os outros meninos estavam alinhados na curvada ribeira do rio, o olhando.

V tirou a mão da água de um puxão e a colocou atrás de suas costas para que ninguém a visse. Quando a retirou, o resplendor na poça diminuiu, e o pretrans morto ficou nas negras profundidades como se tivesse sido enterrado.

V ficou de pé e olhou fixamente aos que agora sabia que não só eram seus competidores pelo escasso alimento e comodidades, mas também seus inimigos. A coesão entre os meninos reunidos que permaneciam ombro com ombro lhe disse que, sem importar quão beligerantes fossem dentro da seca matriz do acampamento, estavam vinculados como se fossem uma mente.

Ele era um paria.

V piscou e pensou no que tinha vindo depois. Engraçado, o giro que previa no caminho nunca era o que tinha o gelo negro. Tinha assumido que os outros pretrans o jogariam do acampamento, que um por um passariam a mudança e depois se confabulariam contra ele. Mas o destino gostava de surpresas, certo?

Rodou sobre seu flanco e decidiu resolutamente dormir um pouco. Exceto que quando a porta do banheiro se abriu, teve que abrir uma pálpebra. Jane tinha posto uma camisa branca e uma folgada calça negra de ioga. Seu rosto estava ruborizado pelo calor da ducha, o cabelo úmido. Tinha um aspecto assombroso.

Jane lhe deu uma olhada breve, uma revisão rápida que lhe disse que tinha assumido que estaria dormindo; então se afastou e se sentou na cadeira do canto. Quando Jane levantou as pernas, envolveu os braços ao redor dos joelhos e baixou o queixo. Parecia tão frágil assim, apenas um revolto de carne e osso dentro do abraço da cadeira.

V fechou o olho e se sentiu desprezível. Sua consciência, que tinha estado quase apagada durante séculos, estava acordada e lhe doía: não podia fingir que não ia estar completamente curado em umas seis horas. O que significava que seu propósito tinha acabado e que ia ter que permiti-la ir quando o sol ficasse esta noite.

Exceto que, o que acontecia a visão que tinha tido dela? Na qual permanecia em uma porta de luz? Ah, demônios, talvez simplesmente tivesse uma alucinação…

V franziu o cenho quando captou um aroma no quarto. Que demônios?

Inalando profundamente, ficou duro em um instante, seu pênis se engrossou, crescendo violentamente contra seu ventre. Olhou Jane através da quarto. Tinha os olhos fechados, a boca um pouco aberta, as sobrancelhas franzidas… e estava excitada. Talvez não se sentisse inteiramente cômoda com isso, mas estava definitivamente excitada. Pensava nele? Ou no macho humano?

V estendeu sua mente sem nenhuma esperança real de entrar na cabeça da Jane. Quando suas visões se foram, também o tinha feito a leitura que fazia dos pensamentos de outras pessoas, os que podiam ser forçados sobre ele ou captada a sua vontade…

A imagem em sua mente era dele.

OH, merda, sim. Era totalmente dela: estava arqueando-se na cama, os músculos do estômago apertados, os quadris levantando-se enquanto ela trabalhava seu sexo com a palma da mão. Isso foi antes de que gozasse, quando tinha tirado a mão enluvada de debaixo de seu pênis e puxou o edredom.

Sua cirurgiã o desejava mesmo sabendo que estava parcialmente arruinado, não fosse de sua espécie e a prendera contra sua vontade. E estava dolorida. Estava dolorida por ele.

V sorriu enquanto as presas lhe cravavam o interior da boca. Bem, este era o momento de ser humanitário. E aliviar alguns de seus sofrimentos…

Com as botas militares amplamente separadas e os punhos apertados nos flancos, Phury permaneceu de pé sobre o lesser que acabava de deixar inconsciente com um feio golpe na têmpora. O bastardo jazia de barriga para baixo sobre um sujo monte de neve meio derretida, os braços e pernas caídos pesadamente de um lado, a jaqueta de couro despedaçada nas costas devido à luta.

Phury respirou fundo. Havia uma maneira cavalheiresca de matar seu inimigo. Em meio da guerra, havia uma maneira honorável de trazer a morte mesmo a aqueles que odiava.

Olhou acima e abaixo pelo beco e cheirou o ar. Nem humanos. Nem outros lessers. E nenhum de seus irmãos.

Agachou-se sobre o assassino. Sim, quando matava seus inimigos, havia um certo padrão de conduta que devia observar.

Isso não ia acontecer.

Phury levantou o lesser pelo cinturão de couro e o pálido cabelo e lançou a coisa de cabeça contra um edifício de tijolo como se fosse um boneco. Um amortecido e carnudo crunch soou quando o lóbulo frontal se rompeu e a coluna vertebral atravessou a parte traseira do crânio.

Mas a coisa não estava morta. Para matar a um assassino devia se apunhalar seu peito. Se deixava como estava agora, o bastardo simplesmente estaria em um estado perpétuo de putrefação até que eventualmente o Omega viesse em busca de seu corpo.

Phury arrastou a coisa por um braço até detrás de um contêiner e tirou uma adaga. Não utilizou a arma para apunhalar ao assassino e mandá-lo com seu professor. Sua ira, essa emoção que não gostava de sentir, essa força que não se permitia vincular nem a pessoas nem a acontecimentos, tinha começado a rugir. E seu ímpeto era inegável.

A crueldade de suas ações lhe manchou a consciência. Embora sua vítima fosse um assassino amoral que vinte minutos antes tinha estado a ponto de matar a dois vampiros civis, o que Phury estava fazendo seguia sendo incorreto. Os civis tinham sido salvos. O inimigo estava incapacitado. O fim deveria chegar limpamente.

Não se deteve.

Enquanto o lesser uivava de dor, Phury ficou com o que lhe estava fazendo à coisa, as mãos e a lâmina movendo-se rapidamente pela pele e os órgãos vitais que cheiravam como talco. O sangue negro e brilhante corria pelo pavimento, cobria os braços de Phury, engordurava suas botas e salpicava sua roupa de couro.

Enquanto continuava, o assassino se converteu em um StairMaster21, para sua fúria e o ódio que sentia para si mesmo, um objeto no que descarregar seus sentimentos. Naturalmente, suas ações lhe fizeram pensar ainda pior de si mesmo, mas não se deteve. Não podia parar. O sangue era propano e suas emoções eram a chama, e agora que tinha sido acesa a combustão era inevitável.

Centrado em seu terrível projeto, não escutou o outro lesser vindo de trás. Captou o aroma de talco de bebê antes de que a coisa golpeasse, e logo que pôde virar-se de um lado para escapar do golpe do taco de beisebol dirigido a seu crânio.

Sua fúria mudou do assassino incapacitado ao que estava de pé, e com o DNA de guerreiro gritando em suas veias, atacou. Dirigindo a adaga negra, agachou-se e procurou o abdômen.

Não o conseguiu. O lesser o segurou pelo ombro com o taco de beisebol, e logo dirigiu um sólido backswing22 à perna boa de Phury, lhe alcançando a lateral do joelho. Enquanto se encolhia, concentrou-se em manter o cabo da adaga, mas o assassino era todo um José Conseco23 com esse número de alumínio. Outro balanço e a lâmina saiu voando, a ponta girando sobre seu eixo, deslizando depois através de um lance do pavimento molhado.

O lesser saltou sobre o peito de Phury e o segurou pela garganta, apertando-o com um punho que era tão forte como um cabo de aço. Phury apertou a palma de sua mão sobre o pulso grosso da coisa que lhe comprimia a traquéia, mas então, repentinamente teve outras coisas com as quais preocupar-se além da hipoxia. O assassino mudou a forma com que segurava o taco de beisebol, estrangulando-o para cima até que o sustentou pelo centro. Com mortal concentração levantou o braço para o alto e baixou a parte inferior do taco de beisebol diretamente sobre o rosto do Phury.

A dor foi como uma bomba lhe estalando no rosto e o olho, a candente metralha ricocheteando através de todo seu corpo.

E curiosamente… foi algo bom. Anulou todo o resto. Tudo o que soube foi o impacto que lhe congelou o coração e a elétrica dor que veio depois.

Gostou.

Pelo único olho que ainda funcionava bem, viu o lesser levantar o taco de beisebol outra vez, ao estilo êmbolo. Phury nem sequer se preparou. Simplesmente observou como funcionava a cinética, sabendo que os músculos que se coordenavam para elevar esse pedaço de metal gentil iriam esticar e baixar de novo essa coisa para seu rosto.



Hora do golpe mortal, pensou fracamente. Provavelmente seu osso orbital já estivesse destroçado ou no mínimo fraturado. Outro golpe e já não estaria protegendo sua matéria cinza.

Veio-lhe uma imagem do desenho que tinha feito de Bela, e viu o que tinha posto no papel. Ela sentada na mesa de jantar virada para seu gêmeo, o amor entre eles tão evidente e lindo como um pano de seda, tão forte e firme como aço temperado.

Rezou uma antiga oração para eles e seu bebê na Antiga Língua, uma em que lhes desejava que tudo fora bem até que os encontrasse no Fade em um longínquo, longínquo futuro. Até que vivamos de novo, era a forma em que acabava.

Phury soltou o pulso do assassino e repetiu a frase uma e outra vez, perguntando-se fracamente qual das quatro palavras seria a última.

Exceto não houve impacto. O lesser desapareceu de cima dele, simplesmente arrojado longe de seu peito como uma boneco cujas cordas tinham sido cortadas.

Phury jazia ali, logo que respirando, enquanto uma série de grunhidos ressonavam no beco, e logo houve um brilho brilhante de luz. Com suas endorfinas golpeando, teve um agradável e elevado momento de euforia que o fez resplandecer com se estivesse saudável, mas que na realidade era evidência de que estava fundo na merda.

Já tinha tido levado o golpe mortal? Tinha sido suficiente o primeiro para deixar seu cérebro com uma hemorragia?

Não importava. Sentia-se bem. A coisa inteira se sentia bem, e se perguntou se assim era o sexo. Quer dizer, os momentos posteriores. Nada exceto uma relaxação pacífica.

Pensou em Zsadist vindo por volta dele no meio daquela festa fazia meses, com uma bolsa de lona na mão e uma demanda infernal nos olhos. Phury havia se sentido doente ante o fato de que seu gêmeo tinha precisado, mas entretanto tinha ido com Z ao ginásio e tinha golpeado o macho uma e outra vez.

Essa não tinha sido a primeira vez que Zsadist tinha precisado desse tipo de alívio.

Phury sempre tinha odiado dar em seu gêmeo as surras que lhe tinha pedido, nunca tinha entendido a razão dessa conduta masoquista, mas agora o fazia. Isto era fantástico. Nada importava. Era como se a vida real fosse uma tormenta longínqua que nunca o alcançaria porque ele se afastou de seu caminho.

A voz profunda de Rhage também lhe chegou de longe.

—Phury? Pedi a caminhonete. Precisa ir onde Havers está.

Quando Phury tratou de falar, sua mandíbula se negou a fazer o trabalho, fixa como se alguém a tivesse pregado em seu lugar. Claramente, já estava inchando, e decidiu negar com a cabeça.

O rosto do Rhage apareceu frente a sua visão inclinada.

—Havers poderá…

Phury negou com a cabeça outra vez. Bela estaria esta noite na clínica tratando o assunto do bebê. Se estava no limite para um aborto, não queria levá-la ao limite aparecendo como um caso de emergência.

—Havers… Não… —disse asperamente.

—Irmão, o que tem é mais do que os primeiros socorros podem arrumar. —O perfeito rosto de modelo do Rhage era uma máscara deliberada de calma. O qual queria dizer que ele estava realmente preocupado.

—Casa.


Rhage amaldiçoou, mas antes de que pudesse voltar a pressionar para levá-lo até Havers, um carro virou no beco, com os faróis cintilando.

—Merda. —Rhage se lançou à ação, levantando Phury do pavimento e apressando-se a colocá-lo atrás do contêiner.

O que os levou justo junto ao profanado lesser.

—Que merda é isto? —resmungou Rhage enquanto um Lexus com aros cromados passava, com o rap a todo volume.

Quando passou, Rhage entrecerrou os brilhantes olhos verde azulados.

—Fez isto?

—Sim… Isso é apenas uma briga —sussurrou Phury—Me leve para casa.

Enquanto fechava o olho, deu-se conta de que tinha aprendido algo esta noite. A dor era boa, e colhido sob circunstâncias adequadas, era menos vergonhoso que a heroína. Mais fácil de conseguir, também, já que podia ser uma legítima conseqüência de seu trabalho.

Que perfeito.

Quando Jane se sentou na cadeira frente à cama do paciente, baixou a cabeça e fechou os olhos. Não podia deixar de pensar no que tinha feito… e no que ele tinha feito como resultado. Viu-o bem quando teve o clímax, a cabeça arremessada para trás, as presas brilhando, a ereção sacudindo-se em seu punho, enquanto seu fôlego entrava em um ofego e saía em um gemido.

Jane se moveu, sentindo-se quente. E não porque tivessem ligado o aquecedor.

Deus, não podia evitar reviver a cena uma e outra vez, e ficou tão mal, que teve que abrir a boca para respirar. Em um ponto durante o contínuo circuito fechado sentiu uma aguda espetada na cabeça, como se seu pescoço tivesse adotado uma postura ruim, mas depois ficou meio adormecida.

Naturalmente, seu subconsciente tomou o controle onde sua memória o tinha deixado.

O sono começou quando algo lhe tocou o ombro, algo quente e pesado. Sentiu-se tranqüilizada por como se sentia, pela forma em que baixava lentamente pelo braço, sobre o pulso e a mão. Tinha os dedos fechados em um punho, e então foram abertos para que um beijo fosse colocado no centro da palma. Jane sentiu uns lábios suaves, um quente fôlego, e o roçar aveludado de… um cavanhaque.

Houve uma pausa, como se lhe pedissem permissão.

Soube exatamente com quem estava sonhando. E sabia exatamente o que ia acontecer no sonho se permitisse que as coisas continuassem.

—Sim —sussurrou em seu sonho.

As mãos de seu paciente foram até suas pantorrilhas e lhe separaram as pernas da cadeira. Logo algo largo e morno se moveu entre elas, metendo-se entre suas coxas, abrindo-os amplamente. Quadris masculinos e… ah, Deus, sentiu uma ereção em seu centro, a longitude rígida pressionando sobre as suaves calças que tinha posto. O pescoço de sua camisa foi afastado para um lado e sua boca encontrou seu pescoço, seus lábios se pegaram à pele e chuparam enquanto sua ereção começava um rítmico avanço e retrocesso. Uma mão lhe encontrou o seio e logo o bordeou descendo para o estômago. Descendo para o quadril. Baixando mais, substituindo a ereção.

Quando Jane gritou e se arqueou, dois pontos agudos lhe percorreram a coluna do pescoço para a base da mandíbula. Presas.

O temor alagou suas veias. E também uma explosão de sexo.

Antes de que pudesse ordenar os dois extremos, a boca de V deixou seu pescoço e encontrou seu seio através da camisa. Enquanto chupava, foi em busca de seu centro, esfregando-o até que esteve preparado para ele, faminto por ele. Abriu a boca para ofegar, e algo foi empurrado dentro… um polegar. Aferrou-se a ele desesperadamente, chupando-o enquanto imaginava o que outra parte dele poderia estar entre seus lábios.

Ele era o professor de tudo isto, o condutor, que dirigia a maquinaria. Sabia exatamente o que o fazia enquanto seus dedos utilizavam suas suaves calças e suas calcinhas molhadas para levá-la diretamente ao limite.

Uma voz em sua cabeça —a dele—, disse:

—Goza para mim, Jane.

De lugar nenhum uma luz brilhante bateu em seu rosto, e saltou para cima, levantando os braços para afastar o seu paciente de um empurrão.

Salvo que não estava em nenhuma parte perto dela. Estava na cama. Dormindo.

E quanto à luz, vinha do vestíbulo. Rede Sox tinha aberto a porta do quarto.

—Sinto acordá-los meninos —disse—Temos um problema.

Quando o paciente se incorporou, olhou para Jane. No momento em que seus olhos se encontraram, ela ruborizou e afastou o olhar.

—Quem? —perguntou o paciente.

—Phury. —Rede Sox fez um gesto com a cabeça para a cadeira— Precisamos de um médico. Assim como, agora, neste mesmo instante.

Jane clareou a garganta.

—Por que me olham…?

—Precisamo dela.

Seu primeiro pensamento foi, que nem louca ia se envolver mais profundamente com eles. Mas então o médico que havia nela falou mais alto.

—O que aconteceu?

—Algo realmente desagradável. Uma briga com um taco de beisebol. Pode vir comigo?

A voz de seu paciente chegou primeiro, o grunhido mortal desenhando uma tremenda linha na prudência:

—Em qualquer lugar que ela vá, eu também vou. E quão ruim ele está?

—Bateram-lhe no rosto. Ruim. Nega-se a ir até o Havers. Diz que Bela está ali por causa do bebê, e não quer transtorná-la aparecendo feito um asco.

—Maldito irmão, tinha que ser um herói. —V olhou para Jane— Ajudará?

Depois de um momento, ela ‘esfregou o rosto. Maldita seja.

—Sim. Farei-o.

Enquanto baixava o canhão da Glock que lhe tinham dado, John olhou fixamente o objetivo do campo de tiro que estava a uma distância de dezesseis metros. Voltando a colocar em seu lugar seguro, ficou totalmente boquiaberto.

—Jesus —disse Blay.

Com total incredulidade, John pulsou o botão amarelo a sua esquerda e a lâmina de papel de oito e meio por onze zumbiu até ele como um cão sendo chamado para casa. No centro, agrupados como uma margarida, havia seis disparos perfeitos. Santa merda. Depois de ter sido um desastre em tudo o que lhe tinham ensinado até agora no que conscerne a lutar, finalmente se sobressaía em algo.

Bem, não fazia isto que se esquecesse da dor de cabeça?

Uma mão pesada aterrissou em seu ombro, e a voz de Wrath estava cheia de orgulho.

—Tem-no feito bem, filho. Verdadeiramente bem.

John estirou a mão e desenganchou o objetivo.

—Bom —disse Wrath.─ É tudo por hoje. Verifiquem as armas, meninos.

—Hei, Qhuinn —chamou Blay— Viu isto?

Qhuinn deu sua arma a um dos doggen e se aproximou.

—Uau. Aí tem uma verdadeira merda do Harry o Sujo.

John dobrou o papel e o pôs na parte de atrás de seu jeans. Quando devolveu a arma ao carrinho, tratou de imaginar como identificá-la outra vez para poder utilizar na próxima prática. Ah… embora os números de série tenham sido apagados, havia uma marca débil no carregador, um arranhão. Realmente podia encontrar sua arma outra vez.

—Se movam —disse Wrath enquanto apoiava seu imenso corpo contra a porta— O ônibus espera.

Quando John levantou a vista depois de devolver a arma, Lash estava bem detrás dele, todo ameaça e perigo. Em um movimento fluido o tipo se inclinou e baixou sua Glock com o canhão apontando para o peito de John. Para deixar claro, manteve o dedo no gatilho durante um momento.

Blay e Qhuinn se juntaram, bloqueando o caminho. O movimento foi feito de forma verdadeiramente casual, como se simplesmente estivessem ali por azar, mas a mensagem foi clara. Com um encolhimento de ombros, Lash levantou a mão da Glock e em seu caminho para a porta bateu o ombro do Blay com o seu.

—Bode —murmurou Qhuinn.

Os três amigos saíram para o vestuário, onde recolheram seus livros e se dirigiram fora juntos. Já que John ia utilizar o túnel para voltar para a mansão, detiveram-se frente à porta do velho escritório de Tohr.

Enquanto os outros estudantes passavam, Qhuinn manteve a voz baixa.

—Temos que sair esta noite. Não posso esperar. —Fez uma careta e mudou sua postura como se tivesse papel de lixa nas calças—Estou meio louco por uma mulher, sabe o que quero dizer?

Blay ruborizou um pouco.

—Eu… ah, sim, posso lidar com um pouco de ação. John?

Arrojado por seu êxito no campo de tiro, John assentiu.

—Bem. —Blay subiu os jeans— Devem ir ao ZeroSum.

Qhuinn franziu o cenho.

—Que tal ao Screamer?

—Não, quero o ZeroSum.

—Bem. E podemos ir em meu carro. —Qhuinn deu uma olhada— John, por que não pega o ônibus e vai a casa de Blay?

Deveria me mudar?

—Pode emprestar um pouco de roupa. Tem que estar bem arrumado para o ZeroSum.

Lash apareceu de nenhum lugar, como um golpe imprevisto no estômago.

—Assim via descer à cidade, John? Possivelmente o veja lá, colega.

Com uma careta desagradável e perigosa, partiu tranqüilamente, seu corpo a ponto de esticar-se, seus musculosos ombros movendo-se como se esperasse uma briga. Ou quisesse uma.

—Soa como se quisesse um encontro, Lash —grunhiu Qhuinn— Boa jogada, porque se mantiver essa merda, vai conseguir que o fodam, colega.

Lash se deteve e olhou para trás, as luzes do teto se vertiam sobre ele.

—Ouça, Qhuinn, Diga olá a seu pai por mim. Sempre gostou mais de você. Por outro lado, eu sim encaixo.

Lash tocou no lado do olho com o dedo do meio e seguiu seu caminho.

Depois dele, o rosto do Qhuinn se fechou, se convertendo em uma estátua.

Blay pôs a mão na parte de atrás do pescoço dele.

—Escuta, nos dê quarenta e cinco minutos em minha casa, OK? Então nos pegue.

Qhuinn não respondeu em seguida, e quando finalmente o fez sua voz foi baixa.

—Sim. Nenhum problema. Perdoem-me um segundo?

Qhuinn deixou cair os livros e voltou para o vestuário. Quando a porta se fechou com suavidade, John gesticulou:

As famílias de Lash e Qhuinn estão unidas?

—Ambos são primos irmãos. Seus pais são irmãos.

John franziu o cenho.

O que quis dizer Lash apontando o seu olho?

—Não se preocupe por…

John pegou o antebraço dele.

Diga-me isso .Blay esfregou seu cabelo vermelho como se tentasse conseguir uma resposta.

—Bom… é como… o pai do Qhuinn é um homem importante na glymera, sabe? E sua mãe também. E na glymera não se aceitam defeitos.

Isto foi dito como se o explicasse tudo.

Não o safado. O que está errado com seu olho?

—Um azul. Outro verde. Como não são da mesma cor, Qhuinn nunca vai poder emparelhar-se… e, já sabe, seu pai se envergonhará dele toda a vida. Não é uma boa merda, e por isso estamos sempre em minha casa. Precisa escapar de seus pais. —Blay olhou a porta do vestuário como se pudesse ver seu amigo através dela— A única razão pela qual não o jogaram é porque esperavam que a transição possivelmente o desencardisse. É por isso que acabou utilizando alguém como Marna. Tem sangue muito bom, e acredito que o plano era que pudesse ajudar.

Não o fez.

—Não. Provavelmente lhe pedirão que parta em algum momento. Eu já tenho uma quarto preparado para ele, mas duvido que o utilize. Muito orgulho. E está em todo seu direito.

John teve um horrível pensamento.

Como se fez o machucado? A que tinha no rosto depois da transição?

Nesse momento a porta do vestuário se abriu e Qhuinn saiu com um sólido sorriso em seu lugar.

—Vamos, cavalheiros? —quando recolheu os livros, sua arrogância tinha retornado— Vamos antes de que as tias boas estejam todas tomadas no clube.

Blay bateu no ombro dele.

—Seguiremos você, maestro.

Quando se dirigiram ao estacionamento subterrâneo, Qhuinn ia na frente, Blay atrás, John no meio.

Quando Qhuinn desapareceu pelos degraus do ônibus, John pegou Blay pelo ombro.

Foi seu pai, não?

Blay vacilou. Logo assentiu uma vez.

CAPÍTULO 18

Certo, isto podia considerar-se genial como o inferno ou terrível como a merda. Enquanto Jane caminhava, era como se estivesse atravessando um túnel subterrâneo em um filme de Jerry Bruckheimer. Este cenário parecia diretamente tirado de um filme de alto custo realizado em Hollywood: de aço, tenuemente iluminado por luzes fluorescentes embutidas, imensamente largo. Em qualquer momento um Bruce Willis saído do ano 1980 ia aparecer correndo com os pés descalços, vestindo uma andrajosa camiseta de suspensórios e conduzindo uma metralhadora.

Olhou os painéis fluorescentes do teto, logo o gentil chão de metal. Estava disposta a apostar que se perfurasse as paredes esas teriam um metro de espessura. Homem, estes caras tinham dinheiro. Muito dinheiro. Mais do que poderia conseguir se estivesse vendendo drogas controladas no mercado negro ou subministrando cocaína, crack e demais vícios alucinógenos. Este era dinheiro em escala governamental, sugerindo que os vampiros não eram só outra espécie; eram outra civilização.

Enquanto os três avançavam, surpreendeu-se de que a deixassem solta. Mas bom, o paciente e seu amigo estavam armados com pistolas…

—Não —o paciente negou com a cabeça— Não está algemada porque não tentará fugir.

Jane ficou boquiaberta.

—Não leia a minha mente.

—Sinto muito. Não tinha intenção de fazê-lo, só aconteceu.

Esclareceu a garganta, tratando de não apreciar quão magnífico parecia de pé. Vestido com uma calça de pijama de tecido escocês Black Watch24 e uma camiseta de regata negra, movia-se devagar, mas com uma confiança letal que era irresistível.

Do que tinham estado falando?

—Como sabe que não sairei correndo?

—Não falhará com alguém que precisa de atenção médica. Não está em sua natureza, não é?

Bom… merda. Conhecia-a bastante bem.

—Sim, esta certo.—disse.

—Termine com isso.

Rede Sox olhou para Jane e o paciente.

—Sua habilidade para ler a mente está retornando?

—Com ela? Às vezes.

—Huh. Está captando algo de alguém mais?

—Não.


Rede Sox acomodou o boné.

—Bom, ah… me deixe saber se captar alguma merda de minha parte, OK? Há algumas coisas que preferiria manter em particular, entende?

—Entendido. Embora algumas vezes não posso evitá-lo.

—É pelo que vou começar a pensar em beisebol quando estiver pelos arredores.

—Dou obrigado de que não seja admirador dos Yankees.

—Não use a palavra Y. Temos companhia feminina.

Nada mais foi dito enquanto continuavam avançando através do túnel, e Jane teve que perguntar-se se estava perdendo a razão. Deveria haver se sentido aterrorizada neste escuro lugar subterrâneo com dois enormes homens como escolta de natureza vampírica. Mas não o estava. Estranhamente se sentia a salvo… como se o paciente fosse protegê-la pela promessa que lhe tinha feito e Rede Sox iria fazer o mesmo devido a seu vínculo com o paciente.

Onde demônios estava a lógica nisso?Perguntou-se.

Me dê um E! Um S! Uma T! Um O!Um U! Seguidas de C-A-L-M-A! O que se formava? PROLEMA NA CABEÇA.

O paciente se inclinou para seu ouvido.

—Não posso ver você no papel de animadora. Mas tem razão, ambos mataríamos qualquer que se atrevesse sequer a sobresaltar você. —O paciente voltou a endireitar-se, uma gigantesca massa de testosterona a meio-fio com botas militares.

Jane bateu em seu antebraço e lhe fez gestos com o dedo indicador para que voltasse a inclinar-se. Quando o fez, sussurrou:

—Assustam-me os ratos e as aranhas. Mas não precisa usar essa pistola que leva no quadril para abrir uma fossa na parede se alguem me cruzar o caminho, entende? As armadilhas Havahart ou um jornal enrolado funcionam da mesma maneira. E têm a vantagem de que, dessa forma, não precisa uma placa de pladur e um trabalho de gessa depois. Só é uma sugestão.

Deu tapinhas em seu braço, despedindo-o, e voltou a se concentrar no túnel que tinha na frente.

V começou a rir, torpemente no início, logo mais profundamente, e Jane sentiu que Rede Sox a observava. Encontrou seus olhos sem titubear, esperando encontrar alguma espécie de recriminação neles. Em troca, ali só havia alívio. Alívio e aprovação enquanto o homem… macho… Cristo, o que fosse… a observava e logo a seu amigo.

Jane ruborizou e afastou a vista. O fato de que ele evidentemente não estivesse irritado, por estar ocupando um lugar ao lado de seu melhor-amigo, com ela a respeito de V não deveria ter sido um ganho. De nenhuma forma.

Uns cinquenta metros depois chegaram a umas escadas baixas que levavam a uma porta com um mecanismo de fechadura apoiado em um sistema de barras do tamanho de sua cabeça. Quando o paciente se adiantou e introduziu um código, imaginou que iriam entrar em uma espécie de ambiente ao estilo 007…

Bom, apenas. Era um armário com prateleiras cheias de cadernetas legais de artigos amarelos, cartuchos para impressoras e caixas com clipes para documentos. Talvez do outro lado…

Não. Era só um escritório. Um escritório comum do tipo de posto de comando médio com uma mesa e uma cadeira giratória, arquivos e um computador.

Certo, nada do filme Duro de Matar, de Jerry Bruckheimer, aqui. Mais parecia um anúncio de Seguros Allstate. Ou uma companhia de hipotecas.

—Por aqui —disse V.

Saíram por uma porta de vidro para um corredor branco sem marcas que levava a uma porta dupla de aço inoxidável. Atrás delas havia um ginásio de qualidade profissional, um suficientemente grande para acolher uma partida entre equipes profissionais de basquete, um torneio de luta, e uma exibição de voleibol ao mesmo tempo. Havia colchonetes azuis dispostos pelo lustroso chão cor mel, e sacos de areia pendurando debaixo da fila inferior dos degraus.

Muito dinheiro. Muitíssimo. E como tinham construído tudo isto sem que alguém do lado humano se inteirasse? Devia haver muitíssimos vampiros. Certamente.

Operários e arquitetos e artesãos… todos capazes de passar por humanos se o quisessem.

A geneticista nela pegou um sério caso de tensão cerebral. Se os chimpanzés compartilhavam noventa e oito por cento de DNA com os humanos, quão perto estavam os vampiros? E falando de um ponto de vista evolutivo, quanto tinha se desviado este ramo desta outra espécie afastando-se dos símios e os Homo Sapiens? Sim… uau… daria o que fosse para dar uma olhada a sua dupla hélice. Se na verdade fossem limpar sua mente antes de deixá-la ir, a ciência médica estava perdendo muitas coisas. Especialmente dado que não contraíam câncer e se curavam tão rapidamente.

Que oportunidade.

No lado mais longínquo do ginásio se detiveram frente a uma porta de aço que dizia EQUIPAMIENTO/SALA DE FISIOTERAPIA. Dentro havia mesas e montes de armas. Um arsenal de espadas e shurikens de artes marciais. Adagas que estavam encerradas em armarios, pistolas e estrelas pontiagudas.

—Deus… querido.

—Isto é só com propósitos de treinamento —disse.

—Então que demônios usam para lutar? —Enquanto todo tipo de cenários da Guerra dos Mundos desfilassem por sua cabeça, percebeu o familiar aroma de sangue. Bom, meio-familiar. Havia uma matiz diferente no aroma, algo picante, e lembrou a mesma fragrância parecida com o vinho de quando tinha tido o seu paciente na sala de cirurgia.

Do outro lado uma porta que dizia fisioterapia, abriu-se de repente. O lindo vampiro loiro que a tinha transportado tirando-a do hospital apareceu pelos umbrais da porta.

—Graças a Deus que está aqui.

Todos os instintos médicos de Jane foram despertos enquanto entrava em uma sala ladrilhada e via os pés revestidos por um par de botas pendurando-se de uma maca. Adiantou-se aos homens, afastando-os aos empurrões de seu caminho para poder chegar ao homem que estava estendido na mesa.

Era o que a tinha hipnotizado, que tinha os olhos amarelos e o cabelo espetacular. E realmente precisava de atenção. A região orbital esquerda de seu rosto estava esmagada para dentro, a pálpebra tão inchada que não podia abri-lo, essa metade de seu rosto tinha o dobro do tamanho normal. Pressentia que o osso sobre o olho afundou, do mesmo modo que a maçã do rosto.

Pô-lhe a mão no ombro e encontrou seu olhar no olho que tinha aberto.

—Parece um saco de batatas.

Ele esboçou um débil sorriso.

—Não me diga.

—Mas vou consetar você.

—Acredita que pode fazê-lo?

—Não —sacudiu a cabeça de um lado para o outro— Sei que posso.

Não era cirurgiã plástica, mas dada a capacidade de cicatrização que tinha o vampiro, sentia-se confiante de que poderia encarregar-se dos problemas que tinha sem danificar sua aparência. Assumindo que tivesse os medicamentos adequados.

A porta voltou a se abrir amplamente, e Jane congelou. OH, Deus, era o gigante com o cabelo negro azeviche e os óculos de sol envolventes. Perguntou-se se não teria sido um sonho, mas evidentemente era real. Totalmente real. E no comando. Andava como se fosse dono de tudo e de todos na sala e pudesse dispor de tudo com um só movimento da mão.

Deu uma olhada em sua direção perto da maca do enfermo e disse:

—Me digam que isto não está acontecendo.

Instintivamente Jane deu um passo para trás em direção a V, e exatamente enquanto o fazia, sentiu que ele se aproximava por trás. Embora não a tocasse, soube que estava perto. E preparado para defendê-la.

O de cabelo negro sacudiu a cabeça em direção ao homem ferido.

—Phury… pelo amor do demônio, temos que levar você até o Havers.

Phury? Que tipo de maldito nome era esse?

—Não —foi a débil resposta.

—Por que demônios não?

—Bela está lá. Se me vir neste estado… vai se assustar… Já está sangrando.

—Ah… merda.

—E temos alguém aquí capaz de ajudar. —disse ele ofegando. Seu único olho se moveu para Jane—Não é verdade?

Quando todos olharam em sua direção, o de cabelo negro pareceu crescer. Por isso foi uma surpresa quando disse:

—Tratará de nosso irmão?

A solicitude não foi intimidatoria, e foi formulada respeitosamente. Evidentemente tinha estado aborrecido principalmente porque seu amigo tinha se machucado e não estava recebendo cuidados.

Esclareceu a garganta.

—Sim, farei-o. Mas, o que tenho para trabalhar? Vou ter que colocá-lo para dormir…

—Não se preocupe com isso —disse Phury.

Dirigiu-lhe um olhar enviesado.

—Quer que trate de seu rosto sem utilizar anestesia geral?

—Sim.

Talvez tivessem uma tolerância à dor diferente…



—Está louco? —murmurou Rede Sox.

OK, talvez não.

Mas basta de conversa. Assumindo que este homem com o rosto do Rocky Balboa se curasse tão rapidamente como seu paciente, devia operá-lo agora, antes que seus ossos se colassem novamente de maneira errada e tivesse que voltar a quebrá-los.

Olhando a sala a seu redor, viu armários com portas de vidro cheios de medicmentos, e confiou em que pudesse reunir uma equipe cirúrgica com o que havia ali.

—Suponho que nenhum de vocês tem experiência médica, não?

V falou, bem em seu ouvido, quase tão perto como sua própria roupa.

—Sim, eu posso te assistir. Fui treinado como paramédico.

Olhou-o por cima do ombro, uma baforada de calor atravessando-a.

Volte para o jogo, Whitcomb.

—Bem. Tem anestesia local de qualquer tipo?

—Lidocaína.

—E sedativos? E talvez um pouco de morfina. Se se mover no momento equivocado, poderia deixá-lo cego.

—Sim. —Quando V avançou para os armários de aço inoxidável, Jane notou que ele cambaleava. Essa caminhada pelo túnel tinha sido longa, e embora na superfície parecesse curado, apenas fazia uns dias que tinha saído de uma cirurgia do coração.

O segurou pelo braço e o puxou.

—Vai se sentar. —Olhou para Rede Sox—Lhe Traga uma cadeira. Agora. —Quando o paciente abriu a boca para discutir, interrompeu-o ao dirigir-se ao outro lado da sala— Não me interessa. Necessito que ponha as pilhas enquanto opero, e isso pode levar um tempo. Está melhor, mas não tão forte como quer acreditar estar, assim senta seu traseiro e me diga onde posso conseguir o que necessito.

Fez-se um silêncio que durou o batimento de um coração, logo alguém ladrou uma risada enquanto seu paciente amaldiçoava como cortina ao fundo, parecia que o rei começou a lhe sorrir.

Rede Sox arrastou uma cadeira da banheira de hidromassage e a empurrou diretamente contra a parte de atrás das pernas de V.

—Estacione, grandão. Ordens de sua doutora.

Quando o paciente se sentou, ela disse:

—Agora, isto é o que vou precisar.

Enumerou: escalpelo padrão, fórceps, material de sucção, logo pediu arame cirúrgico e fio, betadine, solução salina para enxaguar, pedaços de gaze, luvas de látex…

Surpreendeu-se por quão rápido reuniu tudo, mas bom, ela e seu paciente estavam na mesma onda. Dirigia-a através da quarto sucintamente, antecipando o que pudesse querer, e não desperdiçava palavras. O perfeito enfermeiro, se isso existia.

Deixou sair um enorme suspiro de alívio ao ver que tinham uma furadeira cirúrgica.

—E suponho que não terão um equipamento de lupa que se ajuste à cabeça?

—O armário que está junto ao carro de paradas cardíacas —disse V— Na gaveta de abaixo. À esquerda. Quer que lave bem as minhas mãos?

—Sim. —Foi e localizou o equipamento— Temos aparelho de raios X?

—Não.

—Merda. —Pôs as mãos nos quadris—. Não importa. Irei às cegas.



Enquanto colocava a lupa na cabeça, V se levantou e foi lavar as mãos e os antebraços na pia que havia no canto mais afastado. Quando terminou tomou seu lugar, logo colocou as luvas.

Retornou ao lado do Phury, olhando seu olho bom.

—Provavelmente, isto doerá mesmo com a anestesia local e um pouco de morfina. Provavelmente desmaie, e espero que isso aconteça o mais breve possível.

Foi procurar uma seringa e sentiu a familiar sensação de poder envolvê-la enquanto se preparava para arrumar o que precisava ser reparado…

—Espera —disse ele— Nada de drogas.

—O que?


—Só faze-o. —Havia uma repugnante antecipação em seu olho, uma que não era correta em muitos níveis. Desejava que o machucassem.

Entrecerrou os olhos. E se perguntou se ele tinha permitido que lhe ocorresse isto.

—Sinto muito. —Jane cravou o plugue de borracha da lidocaína com a agulha. Enquanto tirava o que precisava, disse— Não há uma maldita forma de que proceda sem o anestesiar. Se realmente estiver contra isso, procure outro cirurgião.

Deixou a pequena garrafa de vidro sobre uma bandeja de aço com rodas e se inclinou sobre seu rosto, com a seringa apontando ao ar.

—Assim, o que decide? A mim e este liquido anestésico ou… sim, ninguém?

O olhar amarelo flamejou com fúria, como se o estivesse prendendo em armadilhas.

Mas então o homem que parecia um rei tomou a palavra.

—Phury, não seja idiota. Estamos falando de sua vista. Se cale e deixa-a fazer seu trabalho.

O olho amarelo se fechou.

—Está bem —murmurou ele.

Foi duas horas depois que Vishous decidiu que tinha problemas. Grandes problemas. Enquanto olhava as fileiras de pulcros e pequenos pontos negros no rosto de Phury, sentiu-se afligito até o ponto de ficar mudo.

Sim. Tinha mega problemas.

Jane Whitcomb, doutora em medicina, era uma perfeita cirurgiã. Uma absoluta artista. Suas mãos eram instrumentos elegantes, seus olhos agudos como o escalpelo que usava, sua concentração tão feroz e concentrada como a de um guerreiro em plena batalha. Em ocasiões trabalhava a uma velocidade avassaladora, e em outras baixava o ritmo até que parecia que não estar se movendo. O osso orbital do Phury se quebrou em vários lugares, e Jane os tinha unido passo a passo, removendo lascas que eram brancas como ostras, brocando o crânio e passando arame entre os fragmentos, pondo um pequeno parafuso em sua maçã do rosto.

V podia dar-se conta de que não estava completamente feliz com o resultado pelo duro olhar que tinha no rosto quando fechou a ferida. E quando lhe perguntou qual era o problema, disse-lhe que teria preferido pôr uma placa na maçã do rosto de Phury, mas como não tinham esse tipo de equipamento à mão, só restava esperar que o osso se soldasse rapidamente.

Do início ao fim tinha tido o controle absoluto. Até o ponto que o tinha excitado, o que era tão absurdo como vergonhoso. O que ocorria era que nunca tinha conhecido uma fêmea —uma mulher— como ela antes. Acabava de fazer cargo de seu irmão de uma forma magnífica, com uma habilidade que V não podia esperar igualar.

OH… Deus… Tinha grandes problemas.

—Como está sua pressão arterial?

—Estável —respondeu ela. Phury tinha estado desacordado passados uns dez minutos do início, embora sua respiração continuasse forte, do mesmo jeito que sua pressão arterial.

Enquanto Jane limpava a área ao redor do olho e o maçã do rosto e começava a enfaixá-la com gaze, Wrath esclareceu a garganta da porta de entrada.

—O que acontecerá com sua vista?

—Não saberemos até que ele nos diga —disse Jane— Não tenho forma de determinar se o nervo óptico sofreu danos ou se tiver algum machucado na córnea ou na retina. De ter ocorrido qualquer uma dessas coisas, vai ter que mudar-se para outro lugar para que o curem, e não só pelos limitados recursos que há aqui. Não sou cirurgiã oftálmica, e nem sequer tentaria praticar esse tipo de operação.

O Rei subiu um pouco os óculos sobre o reto nariz. Como se estivesse pensando em seus fracos olhos e esperando que Phury não tivesse que lutar com esse tipo de problemas.

Depois que Jane cobriu o lado do rosto do Phury com gaze, passou uma boa quantidade de ataduras ao redor de sua cabeça formando um turbante, logo pôs os instrumentos que tinha usado em um recipiente. Para evitar olhá-la obsessivamente, V se ocupou de atirar as seringas usadas, as partes de gaze, e as agulhas junto com o tubo descartável do aparelho de sucção.

Jane tirou as luvas cirúrgicas.

—Falemos de infecção. Quão suscetível é sua espécie?

—Não muito. —V desceu para sentar-se na cadeira. Odiava admiti-lo, mas estava cansado. Se não o tivesse obrigado a descansar, a estas alturas já estaria morto sobre seus pés— Nosso sistema imunológico é muito forte.

—Seu médico lhe receitaria antibióticos como medida contra infecções?

—Não.


Foi até o Phury e o olhou fixamente como se estivesse lendo seus sinais vitais sem utilizar um estetoscópio ou um bracelete para medir a pressão sangüínea. Logo estirou a mão e alisou o extravagante cabelo para trás. O sentido de posse em seu olhar e o gesto chatearam V, embora não devesse fazê-lo. É obvio que Jane tinha um interesse especial em seu irmão. Acabava de pôr em seu lugar um lado de seu rosto.

Mas ainda assim.

Merda, os machos vinculados eram um chute no traseiro, não é mesmo?

Jane se inclinou para o ouvido de Phury.

—Se comportou muito bem. Tudo vai ficar bem. Só descansa e deixa que essa fantástica cicatrização que tem fique a trabalhar, OK? —depois de dar tapinhas no ombro, apagou o potente abajur que havia sobre a maca—. Deus, eu adoraria estudar a sua espécie.

Uma rajada de frio chegou do canto, enquanto Wrath dizia:

—Não tem a menor possibilidade, Doc. Não seremos feitos de coelhinhos da índia para os entusiastas da raça humana.

—Não tinha esperanças de que acontecesse. —Olhou a todos— Não quero que fique sozinho, assim ou eu fico com ele ou alguém mais o faz. E se eu for , vou querer controlá-lo em aproximadamente umas duas horas para ver como está evoluindo.

—Ficaremos aqui —disse V.

—Parece como se estivesse a ponto de cair.

—Isso não acontecerá.

—Só porque está sentado.

A idéia de ser fraco frente a ela agravou sua voz.

—Não se preocupe por mim, mulher.

Ela franziu o cenho.

—Certo, isso foi a declaração de um fato, não preocupação. Faz o que quiser com isso.

Ouch. Sim… simplesmente ouch.

—Como é. Estarei aqui fora. —V se levantou e saiu rapidamente.

Na sala de equipamento pegou uma garrafa da Aquafina do refrigerador, logo se estirou sobre um dos bancos. Enquanto abria tampa, foi levemente consciente de que Wrath e Rhage entravam e lhe diziam algo, mas não estava seguindo o fio.

Que quisesse que Jane se preocupasse com ele o voltava louco. Sentir-se mal porque não o fazia era ainda pior que um problema de ego.

Fechou os olhos e tratou de ser lógico. Não tinha dormido em semanas. O pesadelo o tinha atormentado. Quase tinha morrido.

Tinha conhecido a sua monstruosa mãe.

V sorveu a maior parte da água. Estava pior que em mal estado, e devia ser por isso que captava sentimentos. Não se tratava de Jane. Era a situação. Sua vida era uma salada de frutas de confusões de merda, e essa era a razão pela qual estava se comportando de maneira tão possessiva com ela. Porque seguro como a merda que não lhe estava dando nada em que apoiar-se. Tratava-o como a um paciente e com uma curiosidade científica. E sobre o orgasmo que quase lhe deu? Estava condenadamente certo de que se tivesse estado completamente acordada nunca teria acontecido. Essas imagens que tinha tido dele eram as fantasias de uma mulher a respeito de estar com um monstro perigoso. Não se deviam ao fato de que estivesse interessada nele na vida real.

—Hei.


V abriu os olhos e olhou para Butch.

—Hei. —O poli empurrou os pés de V para um lado e se sentou no banco— Homem, fez um excelente trabalho com o Phury, não acredita?

—Sim. —V olhou a porta aberta que dava à sala de fisioterapia— O que está fazendo lá dentro?

—Revisando todos os armários. Disse que queria ver o inventário, mas realmente penso que quer permanecer junto ao Phury e está tratando de que pareça algo casual.

—Não tem que observá-lo todo o tempo —murmurou V.

Quando a frase abandonou sua boca, não podia acreditar que estivesse ciumento de seu irmão ferido.

—O que quero dizer é…

—Não. Não se preocupe. Entendo você.

Quando Butch começou a fazer soar seus nódulos, V amaldiçoou em seu interior e pensou em ir embora dali. Esses sons de estalos tendiam a ser o prelúdio de uma conversa importante.

—O que?


Butch flexionou os braços, sua camisa Gucci estreitando-se firmemente sobre seus ombros.

—Nada. Bom nada mais que… quero que saiba que aprovo.

—O que?

—Ela. Você e ela. —Butch o olhou, e logo afastou o olhar— É uma boa combinação.



No silêncio que se seguiu, V examinou o perfil de seu melhor amigo, do cabelo escuro que lhe caía sobre a inteligente frente do nariz quebrado e a sobressalente mandíbula. Pela primeira vez em muito tempo não ansiou por Butch. O que deveria ter sido qualificado como uma melhoria. Em vez disso, sentiu-se pior por uma razão diferente.

—Não há ela e eu, amigo.

—Mentira. Vi você após ter me curado. E a conexão se está fazendo mais forte com cada hora que passa.

—Não está acontecendo nada. Estou dizendo a verdade a você.

—Bom, certo… Como esta essa água?

—Desculpe?

—Está quente o Nilo nesta época do ano?

Enquanto V ignorava o sarcasmo, encontrou-se concentrando-se nos lábios de Butch. Em uma voz muito fraca disse:

—Sabe… Queria ter relações sexuais com você.

—Sei. —Butch virou a cabeça, e seus olhos se encontraram— Isso passou agora, não?

—Acredito que sim.

Butch indicou com a cabeça para a sala de fisioterapia.

—Por causa dela.

—Talvez. —V olhou através da sala de equipamento e captou uma vista de Jane enquanto percorria os armários. A resposta de seu corpo quando se dobrou pela cintura foi imediata, e teve que mover os quadris para evitar que a cabeça de sua ereção fosse espremida como uma laranja. Quando a dor minguou, pensou a respeito do que tinha sentido por seu companheiro de quarto.

—Devo dizer, que me surpreendeu que ficasse tão tranqüilo com todo o assunto. Pensei que teria calafrios ou alguma merda assim.

—Não pode evitar o que sente. —Butch olhou as mãos fixamente, examinando-as unhas. O pulseira de seu Piaget. A colocação da cadeia de platina em seu pulso.

—Além disso…

—O que?


O poli negou com a cabeça.

—Nada.


—Diga-o.

—Não. —Butch se levantou e se estirou, arqueando seu grande corpo— Vou retorno ao Pit…

—Você me desejava. Talvez um pouco.

Butch se assentou sobre sua espinha dorsal, os braços caindo aos flancos, sua cabeça ficando em seu lugar. Franziu o cenho, enrugando todo o rosto.

—Entretanto, não sou gay.

V deixou cair a mandíbula um quarto e sacudiu a cabeça para frente e para trás.

—Não me diga? Isso é uma tremenda surpresa. Estava certo que toda essa merda de sou-um-bom-menino-irlandês-católico-do-sul era uma fachada.

Butch lhe mostrou dedo do meio.

—Como é. Aceito o homossexuais. No que diz respeito a mim, as pessoas deveriam deitar-se com quem quisessem de qualquer forma que os excitasse sempre e quando todos os envoltos fossem maiores de dezoito anos e ninguém saísse ferido. É só que eu prefiro mulheres.

—Se tranqüilize. Só estou brincando.

—Melhor que assim seja. Sabe que não sou “homofóbico”.

—Sim, sei.

—Então, é?

—Um “homofóbico”?

—Gay ou bissexual.

Quando V exalou, desejou que fosse porque tinha um cigarro entre os lábios, e por reflexo verificou o bolso, reconfortado pelo fato de que havia trazido alguns néscios com ele.

—Olhe, V, sei que se atira as fêmeas, mas a forma em que o faz é só pelo caminho do couro-e-cera. É diferente quando faz com caras?

V acariciou o cavanhaque com a mão enluvada. Sempre havia sentido como se não houvesse nada que ele e Butch não pudessem dizer um ao outro. Mas isto… isto era difícil. Em grande parte porque não queria que nada mudasse entre eles e sempre tinha temido que se seus entendimentos sexuais fossem discutidos muito abertamente, as coisas ficariam muito estranhas. A verdade era que Butch era heterossexual por natureza, não só por nascimento. E se sentia algo um pouco distinto aqui e lá por V? Era uma aberração que provavelmente o fizesse se sentir incômodado.

V fez rodar a garrafa de Aquafina entre as palmas de suas mãos.

—Faz quanto que quer me fazer essa pergunta? Sobre o assunto de ser gay.

—Há um tempo.

—Tinhas medo de qual seria a resposta?

—Não, porque não me importa que seja de uma forma ou outra. Estou com você já seja que você goste dos machos ou das fêmeas, ou os dois.

V olhou seu amigo nos olhos e se deu conta que… Sim, Butch não ia julgá-lo. Estariam bem sem importar nada.

Com uma maldição, V esfregou o centro do peito e piscou. Nunca tinha chorado mas sentiu que poderia fazê-lo nesse momento.

Butch assentiu como se soubesse exatamente o que lhe estava passando.

—Como disse, amigo, seja o que for. Você e eu? Será o mesmo sempre, sem importar a quem você foda. Embora… se você gostasse das ovelhas, seria duro. Não sei se poderia suportá-lo.

V teve que sorrir.

—Não me atiro aos animais de granja.

—Não pode suportar o feno em suas calças de couro?

—Nem a lã entre os dentes.

—Ah. —Butch voltou a olhar para trás— Então que qual é a resposta, V?

—Qual pensa que é?

—Acredito que o tem feito com machos.

—Sim. Tenho-o feito.

—Mas imagino… —Butch moveu o dedo—. Imagino que você não gosta muito mais que as mulheres com as quais faz o papel de Dom. A longo prazo ambos os sexos são irrelevantes para você porque nunca apreciou a ninguém verdadeiramente. Salvo a mim. E… a sua cirurgiã.

V baixou os olhos, odiando ser tão transparente, mas sem sentir-se realmente surpreso pela rotina de escassa dissimulação que estava mostrando. Ele e Butch eram assim. Não havia segredos. E com esse estado de ânimo…

—Provavelmente deveria dizer algo a você, poli.

—O que?

—Uma vez violentei um macho.



Homem, poderia ter ouvido os grilos cantarem no silêncio que se seguiu.



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