J. R. Ward Amante Liberado



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Tratou de imaginar essas mãos em sua pele.

—Manny… —murmurou— é uma loucura.

Cruzando a cidade, no beco que estava na parte externa do ZeroSum, Phury se elevou por cima do imovel corpo de um lesser pálido como um fantasma. Com a adaga negra, tinha aberto uma enorme ferida no pescoço da coisa e o negro sangue bombeava sobre o asfalto coberto por neve semiderretida. Seu instinto era apunhalar à coisa no coração e o enviar de volta ao Omega. Mas essa era a antiga forma. A nova era melhor.

Embora custasse a Butch. Muitíssimo.

—Este está preparado para você. —disse Phury e retrocedeu.

Butch se adiantou, suas botas rangeram ao atravessar os gelados atoleiros. Seu rosto estava sombrio, o nariz alargado. Agora tinha o aroma adocicado de talco de bebê de seus inimigos. Tinha acabado com o assassino com o qual tinha estado lutando, com seu toque especial, e agora o faria novamente.

Quando se ajoelhou, o poli, luzia ao mesmo tempo motivado e dolorido. Plantou as mãos de cada lado do descolorido rosto do lesser, e se inclinou sobre ele. Abrindo a boca, colocou-se sobre os lábios do assassino e começou a inalar larga e lentamente.

Os olhos do lesser flamejaram quando uma névoa negra se elevou de seu corpo e foi absorvida pelos pulmões de Butch. Não houve pausa na inalação, nenhuma pausa na sucção, somente uma firme corrente do mal passando de um recipiente a outro. Ao final, seus inimigos se convertiam em nada mais que cinzas, os corpos paralisavam e logo se fragmentavam transformando-se em fino pó que era levado pelo vento frio.

Butch cambaleou, depois cedeu, caindo de lado sobre o nevado chão do beco. Phury se aproximou e estendeu a mão…

—Não me toque. —a voz do Butch foi um mero fôlego— Ficará doente.

—Me deixe…

—Não! —Butch se apoiou nos braços empurrando para levantar-se— Somente me dê um minuto.

Phury se manteve de pé perto do poli, cuidando-o e mantendo um olho no beco no caso de aparecerem mais.

—Quer ir para casa? Irei procurar V…

—Merda, não. —o poli elevou os olhos cor avelã— É meu problema. E eu irei buscá-lo.

—Esta seguro?

Butch ficou de pé e apesar de seu corpo ondear como uma bandeira, estava como a luz verde do semáforo.

—Vamos.


Phury ficou em pé ao mesmo tempo e ambos desceram pela rua Trade, mas não o agradava o aspecto do rosto de Butch. O poli tinha a expressão visivelmente perdida de alguém cujo processador congelou, mas não parecia como se fosse renunciar a não ser que desmaiasse.

Enquanto os dois percorriam o perímetro urbano de Caldwell e não encontravam uma puta merda. A situação “ausência-de-V” claramente fazia com que Butch se sentisse pior.

Estavam no limite do centro, perto da avenida Redd, quando Phury parou.

—Deveríamos voltar. Duvido que tivesse vindo tão longe.

Butch se deteve. Olhou a seu redor. E disse com uma voz apagada:

—Hey, olhe. Este é o velho edifício de apartamentos de Beth.

—Temos que voltar.

O poli sacudiu a cabeça e esfregou o peito.

—Temos que continuar.

—Não digo que deixemos de procurar, mas por que se afastaria tanto? Estamos no limite da área residencial. Muitos olhos poderiam ver a luta, assim não viria até aqui procurando-a.

—Phury, cara e se o atacaram? Não vimos outro lesser esta noite, e se aconteceu algo grande como o encurralarem?

—Se estava consciente, isso seria altamente improvável, dada a mão que tem. Uma arma tremenda, mesmo se tivesse sido despojado das adagas.

—E se o derrubaram?

Antes que Phury pudesse responder, a caminhonete de imprensa do Canal Seis de notícias deu volta a uma tremenda velocidade. Duas ruas mais abaixo, as luzes de freio brilharam e a coisa virou à esquerda.

Tudo no que Phury pôde pensar foi merda. As caminhonetes de notícias não apareciam com essa pressa por que o gato de alguma anciã subiu numa árvore. Mesmo assim, possivelmente somente era merda humana, como uma chuva de chumbo entre guangues.

O problema era que, certa e horrível intuição disse a Phury que não era o caso, assim quando Butch começou a caminhar nessa direção, seguiu-o. Não disse nenhuma palavra, o que provavelmente significava que o poli estava pensando exatamente o mesmo que ele: Por favor, Deus, deixa que seja a tragédia de alguém mais, não a nossa.

Quando chegaram aonde a caminhonete estava estacionada, encontraram a típica cena do crime, com duas patrulhas do departamento de Polícia de Caldwell estacionadas à entrada do beco sem saída da Vigésima avenida. Enquanto um repórter permanecia no ponto próximo e usando uma câmara, homens uniformizados caminhavam no interior de um círculo esboçado por uma cinta amarela e os curiosos se amontoavam juntos alimentando o drama e gritando.

A rajada de vento que descia do beco usava tanto o aroma do sangue de V como o fedor adocicado de talco de bebê dos lesser.

—OH Deus… —a angústia de Butch se filtrou no frio ar da noite, adicionando um agudo gosto a dissolvente à mescla.

O poli caminhou dando tombos para a cinta, mas Phury o pegou pelo braço para o deter. Só para empalidecer. A maldade em Butch era tão evidente que disparou pelo braço de Phury e aterrissou em seu estômago, provocando que ele se revolvesse.

De todo o modo se aferrou a seu amigo.

—Maldição, fica afastado. Provavelmente foi companheiro de algum desses policiais. —Quando o poli abriu a boca, Phury o interrompeu—Levante o pescoço, baixa a viseira de sua boné e fique aqui.

Butch puxou seu boné dos Rede Sox e o baixou até a mandíbula.

—Se esta morto…

—Se cale e preocupa-se em se manter de pé. —O que seria uma provocação por que Butch era um esmigalhado desastre. Jesus… se V estivesse morto, isso não só mataria a todos e cada um dos irmãos, e o poli em particular teria problemas. Depois que realizava essa rotina Dyson13, com os assassinos, V era o único que podia tirar o mal dele.

—Vai, Butch. É muita exposição para você. Vai agora.

O poli, caminhou alguns metros e se apoiou contra um carro estacionado nas sombras. Quando pareceu que o homem ia ficar ali, Phury se uniu aos que bisbilhotavam no limite da fita amarela. Inspecionando a cena, a primeira coisa que notou foram os resíduos onde um lesser tinha sido liquidado. Felizmente a polícia não prestava atenção. Provavelmente pensassem que o brilhante atoleiro era simplesmente óleo derramado por um carro e que o espaço chamuscado que tinha deixado era resultado da fogueira provisória de algum sem teto. Não, os policiais se concentravam no centro da cena. Onde certamente Vishous tinha jazido em um atoleiro de sangue vermelho.

OH… Deus


Phury observou fortuitamente o humano que estava junto a ele.

—O que ocorreu?

O homem encolheu de ombros.

—Tiros. Algum tipo de briga.

Um jovem vestido com roupas rave14 falou, exagerando tudo, como se isso fosse a coisa mais sensacional.

—Foi no peito, vi acontecer, e fui eu que chamou o 911 —sacudiu o celular como se fosse um troféu— A polícia quer que fique por aqui para que possam me interrogar.

Phury o olhou.

—Que aconteceu?

—Deus, você não teria acreditado. Foi exatamente como se o tivessem tirado do programa Impacto TV. Conhece-o?

—Sim —Phury examinou os edifícios de ambos os lados do beco. Não tinham janelas. Provavelmente este foi a única testemunha.

—E então o que aconteceu?

—Bom, tudo o que fazia era caminhar pela rua Trade. Meus amigos me abandonaram no Screamer e não tinha transporte, sabe? De qualquer forma, vim caminhando e vi este brilho de luz diante de mim. Parecia como um grande estroboscopio saindo deste beco. Andei um pouco mais rápido, por que queria ver o que estava acontecendo, e foi quando ouvi o tiro. Foi como o som de uma pequena explosão. Na realidade, nem sequer soube que era um tiro até que cheguei aqui. Pensei que soaria mais alto…

—Quando ligou para o 911?

—Bom, esperei um pouco, por que pensei que alguém poderia sair correndo do beco e não queria que disparassem em mim. Mas como ninguém saiu, acreditei que tinha desaparecido por algum caminho na parte de trás ou algo assim. Depois quando cheguei até aqui vi que não havia outra saída. Assim que talvez ele atirou em si mesmo.

—Como era o homem?

—Vic —o jovem se inclinou, aproximando-se— Vic é como a polícia chama a vitima, escutei-os.

—Obrigado pela elucidação —murmurou Phury— Então que como ele parecia?

—Cabelo escuro. Tinha cavanhaque. Muito couro. Fiquei junto a ele enquanto chamava o 911. Sangrava mas estava vivo.

—Não viu ninguém mais?

—Não, somente ele. Assim, a polícia vai me interrogar, de verdade. Já disse isso?

—Sim, felicidades. Deve estar encantado. —Homem, Phury teve que resistir o impulso de arrebentar os gordos lábios do jovem.

—Hey, não me odeie, isto é bom material.

—Não, para o homem em quem atiraram—Phury olhou novamente a cena. Ao menos V não estava nas mãos dos lessers e não tinha morrido na cena. Era provável que primeiro o assassino tivesse dado um tiro em V e que o irmão tivesse tido ainda suficiente força para arrebentar o bastardo antes de deamaiar.

Da esquerda, Phury escutou uma voz bem modulada.

—Aqui Bethany Choi da equipe líder de notícias do Canal Seis emitindo direto da cena de outro tiroteio no centro da cidade. De acordo com a polícia, a vítima, Michael Klosnick…

Michael Klosnick? O que era provável era que V tivesse tivesse pegado a documentação do lesser e que a teriam encontrado junto dele.

—… foi levado ao Centro Médico St. Francis em estado crítico com uma ferida a bala no peito…

OK, esta ia ser uma longa noite. Vishous ferido. Em mãos humanas. E só faltavam quatro horas para o amanhecer.

Momento de uma evacuação rápida.

Phury discou o número do Complexo enquanto caminhava para Butch. Ao mesmo tempo em que o celular começava a chamar, dirigiu-se ao poli.

—Está vivo no St. Francis. Atiraram nele.

Butch fraquejou e disse algo que soou como “Obrigado Senhor”.

—Então, vamos até ele?

—Sim —por que não atendia Wrath? Vamos, Wrath…atende—Essas merdas de condenados cirurgiões o devem ter levado e tevem tido a maior surpresa de suas humanas vidas quando o abriram… Wrath? Temos um problema.

Vishous despertou em um corpo imovel, recuperando totalmente a consciência apesar de estar preso em uma jaula de carne e osso. Incapaz de mover os braços nem as pernas, e com as pálpebras fortemente fechadas como se tivesse estado chorando cimento líquido, parecia que o ouvido era a única coisa que funcionava. Uma conversação estava acontecendo perto dele. Duas vozes. Uma mulher e um homem, nenhum dos quais reconhecia.

Não, espera. Conhecia um deles. Um que lhe tinha dado ordens. A mulher. Mas, por que?

E por que demônios o tinha permitido?

Escutou a conversação sem seguir realmente as palavras. A cadência de suas palavras era parecida com a de um homem. Direta. Autoritária. Dominante.

Quem era ? Quem…?

Sua identidade o pegou como um bofetão, inserindo algum senso de sentido dentro dele. A cirurgiã. A cirurgiã humana. Jesus Cristo, estava em um hospital humano. Tinha caido em mãos humanas depois… de… Merda. O que tinha acontecido?

O pânico lhe deu energia… e o levou exatamente a lugar nenhum. Seu corpo era uma fatia de carne e tinha a sensação de que o tubo que tinha na garganta significava que uma máquina estava fazendo trabalhar seus pulmões. Estava claro que o tinham sedado até a merda.

OH Deus quão perto estava o amanhecer? Precisava sair dali. Como faria…

Seus planos de fuga chegaram a um demolidor final, quando seus instintos dispararam, tomaram a frente e ficaram com o controle.

Entretanto, não era o guerreiro nele emergindo. Eram todos esses impulsos masculinos possessivos que sempre tinham estado latentes, aqueles sobre os quais tinha lido, escutado, ou visto em outros, mas que tinha assumido nascer sem eles. O detonante foi um aroma no quarto, a essência de um macho que desejava sexo… com a fêmea, com a cirurgiã de V.

Minha

A palavra saiu do nada e com ela chegou um instinto assassino. Estava tão enfurecido que abriu os olhos.



Girando a cabeça, viu uma mulher alta, humana com o cabelo curto e loiro. Usava óculos, não usava maquiagem, nem jóias. Um jaleco branco se lia JANE WHITCOMB, MD. CHEFE DA DIVISÃO DE EMERRGÊNCIAS em letras negras e em itálico.

—Manny —disse— É uma loucura.

V deslocou o olhar para um macho humano de cabelo escuro. O tipo também usava um jaleco branco com a legenda Manuel MANELLO, MD. CIRURGIÃO CHEFE, DEPARTAMENTO DE CIRURGIA, na lapela direita.

—Não é nenhuma loucura. —A voz do homem era profunda e exigente, seus olhos estavam condenadamente fixos na cirurgiã de V—Sei o que quero. E quero você.

Minha, pensou V. Não sua, MINHA.

—Não posso faltar ao Columbia amanhã —disse ela— Mesmo se houvesse algo entre nós, mesmo assim teria que partir se quero dirigir um departamento.

—Algo entre nós —o bastardo sorriu— Significa que já pensou nisso?

—O que?


—Nós.

O lábio superior de V se levantou e mostrou as presas. Enquanto começava a grunhir, essa única palavra girava em seu cérebro, como uma granada sem segurança. Minha.

—Não sei —disse a cirurgiã de V.

—Isso não é um não, não é mesmo Jane? Isso não é um não.

—Não…não é.

—Bem —o macho humano olhou em volta de V e pareceu surpreender-se— Alguém despertou.

É fodidamente melhor que acredite, pensou V. E se a tocar morderei seu maldito braço até o arrancar.

CAPÍTULO 9

Faye Montgomery era uma mulher prática, que era o que tinha feito dela uma grande enfermeira. Tinha nascido sensata, tal e como tinha saído com cabelo e olhos escuros, e era excepcional nas crises. Com um marido na Marinha, dois filhos em casa e doze anos trabalhando na UTI, precisava muito para pô-la nervosa.

Sentada atrás do controle de enfermaria da UTIC, agora ela estava.

Três homens do tamanho de um SUV estavam de pé do outro lado do computador. Os primeiro homen tinha o cabelo longo, multicolorido e um par de olhos amarelos que não pareciam ser reais de tão brilhantes. O segundo era tão alucinantemente lindo e tão sexualmente magnético, que teve que lembrar-se que era felizmente casada com um homem que ainda a deixava quente. O terceiro se colocou atrás, nada mais que um boné do Rede Sox, um par de óculos de sol, e um ar de pura maldade que não combinava com seu bonito rosto.

Faria algum deles alguma pergunta? Ela acreditava que sim.

Como nenhuma das outras enfermeiras parecia ser capaz de falar, Faye gaguejou:

—Perdoe-me? O… que foi que disse?

O que tinha o fantástico cabelo —Deus, era de verdade?— sorriu um pouco.

—Estamos procurando Michael Klosnick, que deu entrada na emergência. A recepção nos disse que haviam o trazido aqui depois que foi operado.

Deus… essas íris eram da cor dos botões de ouro ao sol, de um real, reluzente dourado.

—São familiares?

—Somos seus irmãos.

—Certo, mas sinto muito, acabou de sair do centro cirurgico e nós não…

Sem motivo algum, o cérebro de Faye mudou de direção, como se fosse um trem de brinquedo em uma via e o pusesse em outra. Encontrou a si mesma dizendo:

—Está descendo pelo corredor, quarto seis. Mas só pode ir um de vocês e só por um momento. OH, e têm que esperar até que seus médicos…

Nesse momento apareceu o doutor Manello caminhando a passos largos até a mesa. Deu uma olhada nos homens e perguntou:

—Está tudo bem por aqui?

Faye assentiu enquanto sua boca dizia:

—Sim, muito bem.

O doutor Manello franziu o cenho enquanto sustentava o olhar fixamente do homem. Então deu um pulo e esfregou as têmporas como se doesse a cabeça.

—Estarei em meu escritório se precisar, Faye.

—De acordo, doutor Manello. —Voltou a olhar o homem. O que era que estava dizendo? OH, claro— Entretanto tem que esperar até que saia o cirurgião, certo?

—Ele está lá agora?

—Sim. Ela está lá agora.

—Muito bem, obrigado.

Esses olhos amarelos se cravaram nos de Faye… e de repente não podia lembrar se depois de tudo havia um paciente na seis. Havia um ali? Espera…

—Me diga —disse o homem— qual é seu usuário e contra-senha?

—Perdoe-me…?

—Para o computador.

Para que quereria…? É obvio, precisava da informação. Absolutamente. E ela devia dar-lhe.—Obrigada.

—FMONT2 em letras maiúsculas é o usuário, e a contra-senha é 11Eddie11. E em letra maiúscula.

—Obrigado.

Estava a ponto de dizer, de nada, quando a noção de que era a hora da reunião de pessoal surgiu em sua cabeça. Certo por que seria? Já tinham tido uma no início da…

Não, definitivamente era a hora da reunião de pessoal. Realmente deviam ter uma reunião de pessoal. Nesse preciso momento…

Faye piscou e se deu conta de que estava olhando fixamente o vazio sobre o balcão do controle de enfermaria. Que estranho, juraria que tinha estado falando com alguém. Um homem e…

Reunião de pessoal. Agora.

Faye massageou as têmporas, sentindo como se tivesse um parafuso solto. Normalmente não tinha dores de cabeça, mas tinha sido um dia frenético, e tinha tomado muita cafeína e não havia comido direito.

Olhou sobre o ombro para as outras três enfermeiras, todas pareciam um pouco confusas.

—Vamos à sala de reuniões, garotas. Temos que fazer uma revisão dos pacientes.

Uma das companheiras de Faye franziu o cenho.

—Não já fizemos isso esta noite?

—Precisamos fazer de novo.

Todas se levantaram e entraram na sala de reuniões. Faye manteve as portas duplas abertas e se sentou na cabeceira da mesa para poder vigiar o vestíbulo assim como o monitor que mostrava as estatísticas de cada paciente na planta…

Faye se esticou na cadeira. Que demônios? Havia um homem com cabelo multicolorido depois do controle de enfermaria, inclinando-se sobre o teclado.

Faye começou a levantar-se, preparando-se para chamar a segurança, mas então o homem olhou por cima do ombro. Quando os olhos amarelos encontraram os seus, repentinamente se esqueceu por que estava errado que ele estivesse mexendo em um dos computadores. Também compreendeu que devia falar sobre o paciente do quarto cinco em seguida.

—Vamos revisar o estado do senhor Hauser. —disse com uma voz que captou a atenção de todas.

Depois que Manello partiu, Jane olhou fixamente para baixo, para seu paciente com incredulidade. Apesar de todos os sedativos que corriam por suas veias, tinha os olhos abertos e a olhava fixamente com o rosto duro e tatuado pleno de consciência.

Deus… esses olhos. Não se pareciam com nada que tivesse visto antes, as íris eram antinaturalmente brancas com bordos azul marinho.

Isso não estava bem, pensou. A forma com que a olhava não estava bem. Esse coração com seis cavidades pulsando em seu peito não estava bem. Esses largos dentes na parte dianteira de sua boca não estavam bem.

Não era humano.

Exceto que era ridículo. Primeira regra da medicina? Quando escutar som de cascos, não pense em zebras. Quantas probabilidades tinha que houvesse uma espécie de humanoides sem se detectar aí fora? Um laboratório sensacional pronto que tentava criar Homo Sapiens a partir dos golden retrievers?

Pensou nos dentes do paciente. Sim, possivelmente seria melhor dizer doberman em vez de retriever.

O paciente voltou a olhá-la, arrumando-se e de alguma forma parecendo mais ameaçador apesar de estar deitado, intubado, e tendo passado apenas duas horas de uma operação de urgência.

Como demônios estava este homem consciente?

—Pode me ouvir? —perguntou— Assente se puder.

Sua mão, a que tinha tatuagens, arranhou a garganta, logo segurou o tubo que saía de sua boca.

—Não, isso tem que ficar aí dentro. —Enquanto se inclinava para lhe afastar a mão, ele a separou dela, retirando-a tão longe como o permitiu o braço— Assim está bem. Por favor não me faça amarrar você.

Seus olhos se dilataram completamente pelo terror, simplesmente se abriram de todo enquanto seu grande corpo começava a tremer na cama. Seus lábios se moviam contra o tubo que lhe descia pela garganta como se estivesse gritando, e seu temor a comoveu. Havia uma acuidade semelhante a de um animal em seu desespero, olhava-a da forma em que olharia um lobo se tivesse a pata presa em uma armadilha: me ajude e possivelmente não a matarei quando me deixar livre.

Colocou-lhe a mão no ombro.

—Tudo está bem. Não temos por que seguir essa via. Mas precisamos deste tubo…

A porta da quarto se abriu, e Jane ficou gelada.

Os dois homens que entraram estavam vestidos de couro negro e pareciam do tipo que levariam armas ocultas. O homem era provavelmente o maior, mais magnífico loiro no qual ela tivesse posto os olhos. O outro a atemorizou. Usava um boné do Rede Sox imerso até embaixo e o rodeava um terrível alo de maldade. Não podia ver muito de seu rosto, mas guiando-se por sua cinzenta palidez, parecia estar doente.

Olhando o par, o primeiro pensamento de Jane foi que tinham vindo por seu paciente, e não simplesmente para lhe trazer flores e conversar com ele.

Seu segundo pensamento foi que ia precisar da segurança, imediatamente.

—Saiam —disse— Agora mesmo.

O homem com o boné dos Sox a ignorou completamente e se inclinou sobre a cabeceira. Quando ele e o paciente fizeram contato visual, Rede Sox se estirou e entrelaçaram as mãos.

Com voz rouca, Rede Sox disse:

—Pensei que tinha perdido você, filho da puta.

Os olhos do paciente se aguçaram como se tratasse de comunicar-se. Então simplesmente sacudiu a cabeça de um lado a outro no travesseiro.

—Vamos levar você para casa, certo?

Quando o paciente assentiu, Jane não se incomodou em seguir escutando mais dessa merda de “Cathy-a-faladora-tem-que-ir”.Equilibrou-se sobre o botão de chamada do controle de enfermaria, que indicava uma urgência cardíaca que provavelmente traria metade das enfermeiras e médicos até ela.

Não obteve nada.

O companheiro do Rede Sox, o lindo loiro, moveu-se tão rapidamente que não pôde lhe seguir o rastro. Em um momento estava entrando pela porta, no seguinte a tinha pego por detrás, levantando seus pés do chão. Quando começou a gritar, pô-lhe a mão sobre a boca e a submeteu tão facilmente como se fosse uma menina tendo um assesso de raiva.

Enquanto isso, Rede Sox despojou sistematicamente o paciente de tudo: a intubação, a intravenosa, o cateter, os marcadores cardíacos e o monitor de oxigênio.

Jane foi rápida como uma bala. Enquanto os alarmes das máquinas começavam a soar, virou-se e chutou seu captor na tíbia com o salto. O gigante loiro grunhiu e logo comprimiu suas costelas até que esteve muito ocupada tentando respirar e não pôde chutá-lo mais.

Ao menos os alarmes poderiam…

O agudo assobio se silenciou embora ninguém tocasse nas máquinas. E teve a horrível sensação de que ninguém ia vir pelo corredor.

Jane lutou mais duro, até que se fatigou tanto que lhe umedeceram os olhos.

—Fique tranqüila —disse o loiro ao seu ouvido— Desapareceremos de sua vista em um minuto. Simplesmente relaxe.

Sim, e um inferno se congelaria. Iriam matar seu paciente…

O paciente deu uma profunda inspiração por si mesmo. E outra. E outra. Então esses misteriosos olhos de diamante deslizaram sobre ela, e ela se acalmou como se ele tivesse desejado que o fizesse.

Houve um momento de silêncio. E então com uma voz áspera, o homem cuja vida tinha salvado disse três palavras que mudaram tudo… mudaram sua vida, mudaram seu destino:

—Ela. Vem. Comigo.

Permanecendo no controle de enfermaria, Phury fez um rápido trabalho de pirataria no sistema de informática do hospital. Não era tão fluido nem veloz sobre um teclado como V, mas era o suficientemente bom. Localizou os registros sob o nome Michael Klosnick e adulterou os resultados e as notas pertencentes ao tratamento de Vishous com dados aleatórios. Todos os resultados das provas, os exames, as radiografias, as fotografias digitais, o planejamento, as notas do pós-operatório, tudo se tornou em ilegível. Então introduziu uma breve anotação de que Klosnick era indigente e tinha pedido alta voluntária.

Deus adorava os consolidados e informatizados registros médicos. Que moleza.

Também tinha limpo as lembranças da maioria, se não, de todo o pessoal do sala de cirurgia. No caminho para cima passou pela sala de operações e tinha tido um pequeno tête-À-tête com as enfermeiras de vigia. Tinha tido sorte. O turno não tinha mudado, assim o pessoal que tinha assistido a V estava todo presente e tinha limpado suas mentes. Nenhuma dessas enfermeiras teria lembranças claras do que tinham visto enquanto o irmão tinha sido operado.

Não tinha sido uma limpeza perfeita, é obvio. Havia pessoas às quais não tinha chegado e possivelmente alguns registros auxiliares tinham sido impressos. Mas esse não era seu problema. Qualquer confusão ocorrida depois do desaparecimento de V seria absorvida pelo frenético funcionamento de um hospital urbano tremendamente ocupado. Certamente, poderia haver uma revisão ou duas sobre o cuidado dos pacientes, mas então não poderiam encontrar V, e isso era tudo o que importava.

Quando Phury acabou com o computador, correu pelo andar de terapia intensiva. Enquanto partia, danificou as câmaras de segurança que estavam embutidas no teto a intervalos regulares para que tudo o que mostrassem fosse estática.

Quando chegava ao quarto seis, a porta se abriu. Vishous era um peso morto na calidez dos braços do Butch, o irmão estava pálido, trêmulo e dolorido, a cabeça apoiada no pescoço do policial. Mas estava respirando e tinha os olhos abertos.

—Me deixe levá-lo —disse Phury, pensando que Butch se via quase mau quanto o amigo.

—Ele está seguro. Você se ocupe das conseqüências de nossa entrada e trabalhe com as câmaras de segurança.

—Que conseqüências de entrada?

—Espere por elas —murmurou Butch enquanto se dirigia a porta de incêndios na outra ponta do corredor.

Uma fração de segundo mais tarde, Phury lhe deu uma idéia do problema. Rhage saiu para o corredor sustentando com uma presa asfixiante uma fêmea humana incontrolavelmente irritada. Lutava com unhas e dentes, sufocando gritos que sugeriam que tinha o vocabulário de um caminhoneiro.

—Deve deixá-la inconsciente, irmão —disse Rhage, logo grunhiu— Não quero feri-la, e V disse que ela vinha conosco.

—Não se supunha que isto ia ser uma operação de seqüestro.

—Muito fodidamente tarde. Nocauteia-a, ok? —Rhage grunhiu de novo e estreitou seu aperto, afastando a mão da boca dela para capturar um dos braços que o pegavam.

A voz dela soou alto e claro.

—Ponho Deus como testemunha, vou a…

Phury a pegou pelo queixo com uma mão e a forçou a levantar a cabeça.

—Relaxe —disse brandamente—Simplesmente se tranqüilize.

Fixou seu olhar no dela e começou a obrigá-la a se acalmar com a mente… a obrigá-la a se acalmar… a obrigá-la…

—Foda-se! —cuspiu—Não vou deixar que matem meu paciente!

OK, isto não estava funcionando. Por trás dos óculos olhos de cor verde escura, tinha uma mente formidável, assim com uma maldição tirou a munição pesada, fechando-a mentalmente por completo. Derrubou-a como um trapo.

Tirando os óculos, pegou-os e os meteu no bolso do peito do casaco.

—Sairemos daqui antes de que volte a si de novo.

Rhage virou à mulher, pendurando-a como um xale dos fortes ombros.

—Pegue sua bolsa do quarto.

Phury voltou, pegou a bolsa de couro e a pasta marcada com o nome Klosnick, depois saiu rápido do quarto. Quando voltou para o corredor, Butch mantinha uma discussão com uma enfermeira que tinha saído do quarto de um paciente.

—O que está fazendo! —dizia a mulher.

Phury se plantou na frente dela como uma loja de campanha, saltando ante ela, olhando-a fixamente para atordoá-la, plantando em seu lóbulo frontal a urgente necessidade de chegar à reunião de pessoal. Quando voltou a alcançar o grupo, a mulher que estava nos braços do Rhage já estava se livrando do controle mental, sacudindo a cabeça daqui para lá enquanto se balançava ao ritmo da corrida de Hollywood.

Quando chegaram à porta da escada de incêndios, Phury gritou:

—Agüenta, Rhage.

O irmão se deteve rapidamente e Phury aferrou com a mão um flanco do pescoço da mulher, fazendo com que desmaiasse com um apertão.

—Desmaiou. Está tudo bem.

Chegaram às escadas traseiras e moveram os traseiros rapidamente. A áspera respiração de Vishous era a prova de que tanta ação o estava matando, mas era tão forte como sempre, agüentando, apesar do fato de que se pôs da cor do purê de ervilhas.

Cada vez que chegavam a um patamar, Phury sustentava uma pequena luta com uma câmara de segurança, administrando uma corrente elétrica às coisas para as cegar. Sua maior esperança era chegar ao Escalade sem tropeçar com um grupo de guardas de segurança. Os humanos nunca eram objetivo da Irmandade. Quer dizer, se havia risco de que a raça dos vampiros ficasse exposta, não havia nada que não fizesse. E como hipnotizar grandes grupos de agitados e agressivos humanos tinha uma pequena taxa de êxito, só ficava a luta. E a morte para eles.

Depois de uns oito andares descendo pela escada chegaram à base e Butch se deteve ante uma porta de metal. O suor lhe caía pelo rosto e caminhava em ziguezague, mas sua expressão era decidida. Ia tirar seu companheiro e nada ia se interpor em seu caminho, nem sequer sua própria debilidade.

—Encarregarei-me da porta —disse Phury, saltando à cabeça do grupo. Depois de ocupar-se do alarme, sustentou a prancha de ferro aberta para os outros. Do outro lado, estendiam-se vários corredores.

—OH, merda —murmurou— Onde demônios estamos?

—No porão. —O poli seguiu adiante— O conheço bem. O necrotério está neste nível. Passei muito tempo aqui em meu antigo emprego.

Uns cinquenta metros mais mais à frente, Butch os conduziu a um corredor baixo, que se parecia mais a um túnel repleto de tubos de ventilação e calefação, que a qualquer outra coisa.

E então ali estava. A salvação em forma de saída de emergência.

—O Escalade está aí fora —disse o policial a V— Em uma posição vantajosa.

—Graças a… Deus. —V apertou os lábios de novo, como se estivesse tentando não vomitar.

Phury deu outro salto para frente, então amaldiçoou. A configuração deste alarme era diferente das outras, operando em uma rede de circuitos mais complexa. O que deveria haver esperado. Freqüentemente as portas exteriores estavam muito mais protegidas que as interiores. O problema era que suas pequenas mutretas mentais não iam funcionar aqui e não era como se pudesse perder tempo para desarmar a coisa. V tinha o aspecto de um inseto atropelado em uma sarjeta.

—Se preparem para a animação —disse Phury antes de dar um golpe na camera da porta.

O alarme os colocou em marcha como uma banshee,fada irlandesa.

Enquanto saíam precipitadamente na noite, Phury se voltou e olhou para cima no fundo do hospital. Localizou a câmara de segurança sobre a porta, conseguiu que gravasse mau, e a manteve fechada bloqueando seu olho vermelho enquanto V e a fêmea humana eram descarregados dentro do Escalade e Rhage se colocava atrás do volante.

Butch se sentou no assento do co-piloto e Phury saltou à parte traseira junto à carga. Verificou seu relógio. O tempo total transcorrido desde que estacionaram em primeiro lugar aqui até que o pé de Hollywood se cravou a fundo no pedal do acelerador foi de vinte e nove minutos. A operação tinha sido relativamente curta. Tudo o que ficava por fazer agora era levar todo mundo ao Complexo e abandonar o SUV.

Só havia uma complicação.

Phury dirigiu seus olhos à mulher humana.

Uma grande, enorme complicação.

CAPÍTULO 10

John estava inquieto enquanto esperava no brilhantemente colorido vestíbulo da mansão. Ele e Zsadist sempre saíam durante uma hora antes do amanhecer, e pelo que sabia, não havia mudança de planos. Mas o irmão chegava quase meia hora atrasado.

Para matar o tempo, John voltou a percorrer o chão de mosaico, como sempre, sentiu-se como se não pertencesse a toda essa grandeza, mas a amava e a apreciava. O vestíbulo era tão escandalosamente extravagante que era como estar em um joalheiro: colunas de mármore vermelho e uma espécie de pedra verde e negra sujeitavam as paredes enfeitadas com flores de puro ouro e dispositivos de iluminação com cristais. A escada tinha um majestoso tapete vermelho, do tipo em que uma estrela de cinema pararia no início, e logo desceria até uma festa chique. E o desenho sob seus pés era uma macieira em flor, o brilhante paladar da natureza resplandecente e cintilando graças a milhões de peças brilhantes de cristal colorido.

Entretanto, sua parte preferida era o teto. Três andares acima havia um incrível desdobramento de cenas pintadas, com guerreiros voltando para a vida enquanto foram à guerra com adagas negras. Eram tão reais que poderia estirar a mão e tocá-los.

Tão reais como se pudesse ser eles.

Voltou a pensar na primeira vez que os tinha visto. Tohr o levava para conhecer Wrath.

John bebeu. Tinha tido ao Tohrment durante tão pouco tempo. Poucos meses. Depois de uma vida sentindo-se deslocado, deixando-se levar durante duas décadas sem um núcleo familiar que o ancorasse, tinha vislumbrado o que sempre tinha querido. E então com um só tiro seu pai e mãe adotivos se foram.

Gostaria de ser o suficientemente maduro para dizer que estava agradecido por ter conhecido Tohr e Wellsie durante esse tempo, mas era mentira. Desejava não havê-los conhecido. Sua perda era muito mais difícil de agüentar que a amorfa dor que havia sentido quando estava sozinho.

Realmente não era um macho que valesse a pena, não é mesmo?

Sem aviso, Z saiu da porta escondida sob a grande escada, e John ficou tenso. Não pôde evitá-lo. Sem importar as vezes que visse o irmão, a aparência de Zsadist sempre o fazia pensar duas vezes. Não era só a cicatriz no rosto ou a cabeça rapada. Era o ar mortal que não se foi, a pesar de agora ele estar emparelhado e que seria pai.

Além disso, esta noite o rosto de Z estava rígido e tenso, e seu corpo ainda mais tenso.

—Está preparado para sair?

John estreitou os olhos e indicou:

O que está acontecendo?

—Nada pelo que deva preocupar-se. Está preparado. —Não era uma pergunta, a não ser uma ordem.

Quando John assentiu e fechou a parka, os dois saíram atravessando o vestíbulo.

A noite tinha uma cor pérola, as estrelas opacas por uma ligeira saturação de nuvens que se recortavam contra a lua cheia. De acordo com o calendário, estava chegando a primavera, mas isso era só em teoria, se nós olhássemos a paisagem. A fonte diante da mansão permanecia fora de serviço durante o inverno, vazia e esperando ser preenchida. As árvores eram como esqueletos negros estirando-se para o céu, rogando com seus magros braços que o sol se voltasse mais forte. A neve permanecia na grama, tercamente obstinada a um chão que ainda estava totalmente gelado.

O vento trazia um frio que lhes golpeava as bochechas, enquanto ele e Zsadist caminhavam para a direita, com os pedras do pátio movendo-se sob suas botas. Ao longe se via o muro de segurança do Complexo, um bastão de seis metros de alto e dois metros de grossura, que rodeava a propriedade da Irmandade.

A coisa estava cheia de câmaras de segurança e detectores de movimento, um bom soldado repleto de grande quantidade de munição. Mas tudo eram minúcias, na realidade. O verdadeiro mecanismo para não permitir a entrada eram os 120 volts de carga elétrica que percorriam a parte superior em espirais de arame eletrificado.

Primeiro a segurança. Sempre.

John seguiu Zsadist pelo jardim cheio de neve, passando junto a convalescentes canteiros de flores e a vazia piscina da parte de trás. Depois de uma ligeira descida, alcançaram o limite do bosque. Neste ponto o monstruoso muro realizava um brusco giro à esquerda e descia pela ladeira da montanha. Não o seguiram, mas sim penetraram na linha de árvores.

Sob os grossos pinheiros e os densos ramos dos arces havia um grupo de velhas agulhas e folhas, e não muita beleza. Aí, o ar cheirava como terra e ar frio, uma combinação que fez com que lhe picasse o interior do nariz.

Como era habitual, Zsadist liderou a marcha. Os caminhos que tomavam cada noite eram diferentes e pareciam aleatórios, mas sempre terminavam no mesmo lugar, uma pequena cascata. O arroio que descia pela ladeira da montanha se lançava por um pequeno escarpado, e então formava uma piscina pouco profunda uns três metros mais a frente.

John se aproximou e pôs a mão no gorgoteante corrente. Quando sua palma atravessou a queda, seus dedos se intumesceram pelo frio.

Em silêncio, Zsadist cruzou o arroio, saltando de rocha em rocha. A elegância do irmão era como a da água, fluída e forte, seus passos tão seguros que estava claro que sabia com exatidão como reagiria seu corpo com cada movimento de músculo.

do outro lado, caminhou até a cascata, de modo que ficou em frente a John.

Seus olhos se encontraram. OH, cara, Z tinha algo a dizer nesta noite, não?

As caminhadas tinham começado depois que John atacou outro companheiro de estudos e o deixou inconsciente nos chuveiros dos vestuários. Wrath fazia que essa fosse uma condição para que John permanecesse no programa de treinamento, e no início as tinha temido, imaginando que Z ia tentar penetrar em sua cabeça, até agora, entretanto, sempre tinham estado em silêncio.

Esse não ia ser o caso nessa noite.

John retirou o braço, dirigiu-se um pouco corrente abaixo e cruzou para o outro lado sem a confiança ou a destreza de Zsadist.

Quando chegou junto ao irmão, Z disse:

—Lash vai voltar.

John cruzou os braços sobre o peito. OH, genial, o idiota que John tinha posto em uma maca. Certo, Lash tinha estado mais que pedindo-o, indo atrás de John, irritando-o e pressionando-o, voltando-se contra Blay. Mas ainda assim.

—E aconteceu a mudança.

Fenomenal. Nada mais fodidamente melhor. Agora o bastardo o perseguiria com músculos.

Quando? indicou John.

—Amanhã. Deixei-lhe claro que se der problemas, não voltará. Se tiver problemas com ele, avise-me, está claro?

Merda. John queria ocupar-se ele mesmo. Não queria que o vigiassem como um menino.

—John? Avise-me. Assente com sua fodida cabeça.

John o fez, devagar.

—Não arremeterá contra o bode. Não me importa o que diga ou o que faça. Só porque o irrite não significa que tenha que reagir.

John assentiu, porque tinha o pressentimento de que Z lhe voltaria a pedir o mesmo se não o fizesse.

—Se o pego atuando como Harry o Sujo, não vai gostar do que acontecerá.

John observou fixamente a corrente de água. Deus… Blay, Qhuinn, agora Lash. Todos mudados.

A paranóia se arraigou e John olhou a Z.

E se a transição não acontecer comigo?

—Fará-o.

Como sabemos com certeza?

—Biologia. —Z fez um sinal com a cabeça para um enorme carvalho— Brotarão folhas dessa árvore quando o sol chegar. Não poderá evitá-lo, e o assunto é o mesmo com você. Seus hormônios vão bater com muita dureza, e então passará. Já a pode sentir, não é?

John encolheu os ombros.

—Sim, pode. Sua alimentação e sono são diferentes. Assim como seu comportamento. Crê que há um ano teria batido em Lash contra os azulejos e golpeado até o fazer sangrar?

Definitivamente não.

—Está faminto, mas você não gosta de comer, certo? Inquieto e cansado. De mau humor.

Jesus, como sabia o irmão tudo isso?

—Passei por tudo isso, lembra.

Quanto tempo falta?Perguntou John.

—Até que ela chegue? Um macho tem tendência a parecer-se com o pai. Darius passou por isso um pouco antes do habitual. Mas realmente nunca se sabe. Algumas pessoas podem estar na fase que está durante anos.

Anos?


Merda. Como foi depois para você? Quando despertou?

No silêncio que seguiu, o irmão sofreu uma mudança das mais horripilantes. Era como se uma névoa deslizasse e ele tivesse desaparecido… apesar de que John ainda podia ver cada detalhe de seu rosto com cicatrizes e seu corpo, com tanta claridade como sempre.

—Fale com o Blay e Qhuinn sobre isso.

Sinto muito. John ruborizou. Não tinha intenção de bisbilhotar.

—Não importa. Olhe, não quero que se preocupe por isso. Temos a Layla esperando para que possa se alimentar dela, e vai estar em um lugar seguro. Não vou deixar que aconteça nada de ruim.

John levantou a vista para a rosto danificada do guerreiro, e pensou no companheiro de classe que tinham perdido.

Entretanto, Hhurt morreu.

—Sim, isso acontece, mas o sangue de Layla é muito puro. É uma Escolhida. Isso vai ajudar você.

John pensou na preciosa loira. E em quando tirou a túnica diante dele para lhe mostrar seu corpo para que o olhasse. Cara, ainda não podia acreditar que tivesse feito isso.

Como saberei o que fazer?

Z estirou o pescoço para trás e olhou o céu.

—Não precisa preocupar-se por isso. Seu corpo tomará o controle. Saberá o que quererá e o que precisará. —A cabeça rapada de Z voltou para sua posição normal e ficou observando, seus olhos amarelos atravessando a escuridão, tão seguros como o sol através de um espaço entre as nuvens— Seu corpo possuirá você durante um momento.

Embora o envergonhasse, indicou:

Acredito que tenho medo.

—Quer dizer que é preparado. Isto é uma merda complicada. Mas como disse… não vou deixar que aconteça nada a você.

Z se virou como se se sentisse incômodado, e John estudou o perfil do macho contra a cortina de fundo das árvores.

Enquanto a gratidão emanava, Z cortou os agradecimentos que John estava preparando para falar:

—Melhor que voltemos para casa.

Cruzando de volta o rio e dirigindo-se para casa, John se encontrou pensando sobre o pai biológico que nunca tinha conhecido. Tinha evitado perguntar sobre Darius, porque tinha sido o melhor amigo de Tohr, e algo conectada ao Tohrment era difícil para os irmãos.

Desejaria saber a quem dirigir-se com suas perguntas.

CAPÍTULO 11

Quando Jane despertou, suas linhas nevrálgicas eram como réstias de luzes de Natal, piscando de forma aleatória, e logo entrando em curto. Os sons se registravam e se desintegravam e reapareciam. Seu corpo estava lânguido, depois tenso, logo nervoso. Sua boca estava seca e se sentia muito quente, mas tremia.

Tomando profundas baforadas de ar, deu-se conta que estava parcialmente sentada. E que tinha uma condenada dor de cabeça.

Mas algo cheirava bem. Deus, havia um aroma incrível ao seu redor… era parte tabaco, como o tipo que seu pai havia fumado, e parte especiarias escuras, como se estivesse em uma loja de azeites índios.

Levantou as pálpebras. Não enxergava direito, provavelmente porque não estava com os seus óculos, mas podia ver suficientemente bem para saber que estava em um quarto escuro e vazio, que tinha… Jesus, livros empilhados por toda parte. Também descobriu que o assento no qual estava se encontrava situado ao lado do radiador, o que poderia explicar as rajadas quentes. Além disso, sua cabeça estava virada em um ângulo ruim, o que justificava a dor de cabeça.

Seu primeiro impulso foi sentar-se direito, mas não estava sozinha, por isso ficou quieta. Do outro lado do quarto, o do cabelo multicolorido estava ao lado de uma cama de casal que tinha um corpo deitado. O cara estava muito ocupado fazendo algo… pondo uma luva na mão de…

Seu paciente. Seu paciente estava nessa cama, com os lençóis pela cintura, o torso nu coberto de bandagens. Cristo, o que tinha acontecido? Lembrou havê-lo operado… e encontrar uma incrível anomalia em seu coração. Então houve um conversa com Manello na UTIC, e depois… merda, tinha sido seqüestrada pelo homem que estava junto à cama, um deus do sexo e alguém que usava um boné do Rede Sox.

O pânico ardeu junto com uma boa dose de aborrecimento, mas suas emoções não pareciam poder conectar-se com seu corpo, a rajada de sentimento diminuindo até que a invadiu a letargia. Piscou e tentou concentrar-se sem chamar a atenção sobre si mesma…

Suas pálpebras se abriram muito.

O homem com o boné do Rede Sox entrou com uma loira incrivelmente linda a seu lado. Estava perto dela, e embora não se tocassem, era claro que eram um casal. Simplesmente se pertenciam.

O paciente falou com voz áspera.

—Não.


—Tem que fazê-lo —disse Rede Sox.

—Disse… que me mataria se alguma vez…

—Circunstâncias atenuantes.

—Layla…


—Alimentou Rhage esta tarde, e não podemos ter outra Escolhida aqui sem dançar com a Directrix. O que tomaria um tempo que não temos.

A mulher loira se aproximou da cama do paciente e se sentou lentamente. Vestida com uma calça negra sob medida, parecia uma advogada ou uma mulher de negócios, e ainda assim era grosseiramente feminina com seu longo e lustroso cabelo.

—Me use —estendeu o pulso sobre a boca do paciente, fazendo-a flutuar por cima de seus lábios— Embora seja apenas porque o precisamos forte para que possa fazer ajudá-lo.

Não havia dúvida de quem era “ele”. Rede Sox parecia mais doente que quando Jane o tinha visto pela primeira vez, e o médico de seu interior se perguntou exatamente no que consistia “ajudá-lo”.

Enquanto isso, Rede Sox se afastou até bater na parede oposta. Rodeando o torso com os braços, segurou a si mesmo.

Com voz suave, a loira disse:

—Ele e eu falamos sobre isto. Fez tanto por nós…

—Não… não por você.

—Estou viva graças a você. Então isso é suficiente. —A loira estirou a mão como se fosse alisar o cabelo ao paciente, mas logo a retirou quando ele se encolheu— Deixa que cuidemos de você. Só desta vez.

O paciente olhou do outro lado do quarto, para o Rede Sox. Quando este assentiu, o paciente amaldiçoou e fechou os olhos. Então abriu a boca…

Merda. Seus pronunciados caninos se alargaram. Antes eram agudamente afiados, agora eram positivamente presas.

Certo, claramente isto era um sonho. Sim. Porque isso não acontecia com os dentes cosméticamente ressaltados. Nunca.

Quando o paciente descobriu as “presas”, o homem com o cabelo multicolorido ficou diante de Rede Sox, apoiou ambas as mãos na parede e se inclinou até que ambos os peitos quase se tocassem.

Mas então o paciente sacudiu a cabeça e se separou do pulso.

—Não posso.

—Preciso de você —sussurrou Rede Sox— Estou doente pelo que faço. Preciso de você.

O paciente fixou o olhar em Rede Sox e um poderoso desejo brilhou em seus olhos diamantinos.

—Só por… você… não por mim.

—Por ambos.

—Por todos nós —interveio a mulher loira.

O paciente inspirou profundamente, então —Cristo!— mordeu o pulso da loira. O ataque foi rápido e resolvido como o de uma cobra, e quando firmou, a mulher saltou, e logo exalou o que pareceu ser alívio. Do outro lado da quarto, Rede Sox tremeu por completo, com aspecto desamparado e desesperado enquanto o do cabelo multicolorido bloqueava seu caminho sem entrar em contato com ele.

A cabeça do paciente começou a mover-se seguindo um ritmo, como se fosse um bebê mamando de um peito. Mas não podia estar bebendo daí, certo?

Sim, demônios se não podia.

Sonho. Isto era todo um sonho. Um sonho de hospital psiquiátrico. Certo? OH, Deus, esperava que fosse isso. Se não, estava metida em uma espécie de pesadelo gótico.

Quando finalizou, seu paciente se deixou cair de volta nos travesseiros, e a mulher lambeu onde tinha estado sua boca.

—Descanse agora —disse, antes de voltar-se para Rede Sox— Está tudo bem?

Sacudiu a cabeça de um lado a outro.

—Quero tocar você, mas não posso. Quero entrar em você, mas… não posso.

O paciente falou.

—Se deite comigo. Agora.

—Não pode agüentá-lo. —disse Rede Sox, com voz aguda e rouca.

—Precisa-o agora. Estou preparado.

—Demônios se o está. E tenho que me deitar. Voltarei depois de descansar…

A porta voltou a abrir-se, a luz se derramou do que parecia ser um vestíbulo, e um enorme homem com cabelo negro até a cintura e envolventes óculos de sol entrou irado. Isto significava problemas. Seu rosto cruel sugeria que talvez se excitasse torturando às pessoas, e o brilho perigoso de seus olhos a fez perguntar-se se queria começar com algum agora mesmo. Esperando evitar que a notasse, fechou as pálpebras de repente e tentou não respirar.

A voz era tão dura como o resto de seu corpo.

—Se não estivesse já sobre seu traseiro, poria-te eu mesmo no chão. Em que merda estava pensado, trazendo-a aqui?

—Com permissão —disse Rede Sox. Houve um arrastar de pés e a porta se fechou.

—Fiz uma pregunta a você.

—Supunha-se que tinha que vir —disse o paciente.

—Supunha-se? Supunha-se? Está fodidamente louco?

—Sim… mas não a respeito dela.

Jane abriu um olho e observou através das pestanas enquanto o tipo gigantesco olhava o do cabelo fabuloso.

—Quero a todos em meu escritório em meia hora. Precisamos decidir que demônios faremos com ela.

—Não… sem mim… —disse o paciente, seu tom cobrando mais força.

—Não tem voto.

O paciente apoiou as palmas no colchão e se sentou, embora isto fizessem que seus braços tremessem.

—Tenho todos os votos no que concerne a ela.

O homem alto apontou ao paciente com um dedo.

—Que se foda.

De nenhuma parte, a adrenalina de Jane se elevou.

Sonho ou não sonho, deveria contar nesta feliz conversação. Ficando mais reta no assento, esclareceu a garganta.

Todos os olhos se centraram de repente nela.

—Quero sair daqui —disse, em uma voz que desejava que fosse menos entrecortada e mais contundente— Agora.

O homem grande colocou uma mão na ponte do nariz, tirou os óculos e esfregou os olhos.

—Graças a ele, essa não é uma opção imediata. Phury, volta a se ocupar dela, ok?

—Vai me matar? —perguntou apuradamente.

—Não —disse o paciente—Vai estar bem. Tem minha palavra.

Durante uma fração de segundo acreditou nele. O que era uma loucura. Não sabia onde estava, e esses homens eram claramente valentões…

O que tinha o cabelo lindo parou diante dela.

—Simplesmente vai descansar um poquinho mais.

Olhos amarelos encontraram os seus, e de repente foi uma televisão desconectada, o cabo arrancado da parede, a tela em branco.

Vishous observou sua cirurgiã enquanto se afundava de novo na cadeira do outro lado do quarto.

—Está bem? —disse ao Phury— Não a fritou, certo?

—Não, mas tem uma mente forte. Devemos tirá-la a daqui o quanto antes for possível.

A voz do Wrath cortou o ar.

—Nunca deveria ter sido trazida aqui.

Vishous se deixou cair com cautela na cama, sentindo-se como se tivesse sido golpeado no peito com um bloco de cimento. Não estava particularmente preocupado por que Wrath estivesse irritado. Sua cirurgiã tinha que estar aqui, e isso era tudo. Mas pelo menos podia considerar uma base lógica.

—Pode ajudar em minha recuperação. Havers é complicado devido ao assunto de Butch.

O olhar de Wrath era desapaixonada atrás dos óculos.

—Crê que quererá ajudar você depois de que a seqüestrassem? O Juramento Hipocrático só chega até certo ponto.

—Sou dela. —V franziu o cenho— Quero dizer, cuidara de mim porque me operou.

—Está dando um fraco motivo para justificar…

—È mesmo? Acabo de fazer uma operação no coração porque me atiraram no peito. Não me sinto como grande atleta no momento. Quer se arriscar a que haja complicações?

Wrath olhou à cirurgiã, logo voltou a esfregar os olhos.

—Merda. Quanto tempo?

—Até que esteja melhor.

Os óculos de sol do Rei voltaram para seu nariz.

—Sare rápido, irmão. Quero-a apagada e fora daqui.

Wrath deixou o quarto, fechando a porta com um golpe.

—Isto foi bom. —disse V ao Phury.

Phury, com sua forma de ser pacífica, murmurou algo a respeito de como todo mundo estava sob muito estresse, bla, bla, bla, e logo foi até a mesa para mudar de assunto. Voltou ao lado da cama com um par de cigarros na mão, um dos acendedores de V e um cinzeiro.

—Sei que quer isso. Que tipo de medicamentos vai precisar para tratar você?

V tirou uma ponta da cabeça. Com o sangue de Marissa nele, ia estar de pé logo, já que sua linhagem era quase pura. Acabava de pôr gasolina de muitos octanos em seu depósito.

Entretanto, o assunto era que, deu-se conta que não queria curar-se tão rápido.

—Ela também precisa de mais roupa —disse— E comida.

—Ocuparei-me disso —Phury se dirigiu à porta—Quer algo para comer?

—Não. —quando o irmão estava saindo para o corredor, V disse— Checará como está Butch?

—É obvio.

Depois que Phury partiu, V olhou fixamente à mulher humana. Seu aspecto, decidiu, não era tão lindo como irresistível. Seu rosto era quadrado, as feições quase masculinas. Os lábios não eram sedutores. Nem tinha pestanas longas. E não tinha grandes seios empurrando contra o jaleco branco de médico que usava. Nada de curvas selvagens, por isso podia ver.

Desejava-a como se fosse uma bela deusa nua rogando que a servissem.

Minha. Os quadris de V giraram, um rubor se estendeu sob sua pele embora não houvesse maneira de que tivesse a energia para excitar-se.

Deus, a verdade era que não sentia remorso por havê-la seqüestrado. De fato, estava destinado. Bem quando Butch e Rhage tinham aparecido no quarto de hospital tinha tido sua primeira visão em semanas. Tinha visto sua cirurgiã parada na soleira de uma porta, emoldurada em uma gloriosa luz branca. Tinha-o chamado por gestos com amor em seu rosto, guiando-o para frente por uma sala. A bondade que lhe tinha devotado tinha sido tão cálida e suave como sua pele, tão calmante como água quieta, tão substanciosa como a luz do sol que já não conhecia.

Ainda assim, embora não sentisse remorsos, culpava-se pelo medo e a ira no rosto dela quando tinha despertado. Graças a sua mãe, tinha tido uma desagradável visão do que era ser obrigado a algo, e acabava de fazer o mesmo à mulher que lhe tinha salvado a vida.

Merda. Perguntou-se o que teria feito se não tivesse tido essa visão, se não tivesse essa maldição de ver o futuro fazendo-se ouvir. A teria deixado lá? Sim. Claro que o teria feito. Mesmo com minha palavra lhe percorrendo a mente, a teria deixado ficar em seu mundo.

Mas a fodida visão tinha selado o destino da mulher.

Voltou a pensar no passado. Na primeira de suas visões…

A literatura não era um bem de valor no acampamento guerreiro, já que não podia matar com ela.

Vishous tinha aprendido a ler na Antiga Língua só porque um dos soldados tinha tido um pouco de educação e se encarregava de manter registros rudimentares do acampamento. Era descuidado com isso e o trabalho o aborrecia, assim V se ofereceu voluntário para fazer seus deveres se o macho o ensinasse a ler e escrever. Era a troca perfeita. V sempre tinha estado fascinado pela idéia de que se podia reduzir um sucesso a uma página e fazê-lo não algo transitivo, a não ser fixo. Eterno.

Tinha aprendido rápido e logo andou pelo acampamento procurando livros, encontrando alguns em lugares ocultos e esquecidos, como debaixo de velhas armas rotas ou em lojas abandonadas. Tinha colecionado os danificados tesouros encadernados com couro e os tinha escondido no limite mais longínquo do acampamento, onde se guardavam as peles dos animais. Nenhum soldado nunca ia lá, já que era território feminino, e se as fêmeas o faziam, era só para pegar uma pele ou duas para fabricar objetos de vestir ou roupas de cama. Além disso, não só era seguro para os livros, era o lugar perfeito para ler, já que o teto da cova descia até uma baixa altura e o muro ao redor era de pedra. Se alguém se aproximava, se ouvia imediatamente, já que tinham que arrastar-se para aproximar-se dele.

Entretanto, havia um livro para o que nem sequer este lugar oculto era suficientemente seguro.

O mais valioso de sua exígua coleção era um diario escrito por um macho que tinha chegado ao acampamento uns trinta anos antes. Tinha sido um aristocrata por nascimento, mas tinha terminado no acampamento para ser treinado devido a uma tragédia familiar. O diario estava escrito em uma bela letra, com grandes palavras das quais V só podia adivinhar o significado, e abrangia três anos da vida do macho. O contraste entre as duas partes, uma detalhando sucessos antes de vir aqui e a outra cobrindo a época posterior, era cru. No início, a vida do macho tinha estado marcada pelo glorioso passado do calendário social da glymera, cheio de bailes e encantadoras fêmeas e maneiras educadas. Depois tudo terminou. Desespero, exatamente o mesmo com o qual V vivia, era o que tingia as páginas depois que a vida do macho mudasse para sempre, logo depois de sua transição.

Vishous lia e relia o diario, sentindo afinidade com a tristeza do autor. E depois de cada leitura, fechava a tampa e passava os dedos pelo nome em relevo no couro.

DARIUS, FILHO DO MARKLON

Freqüentemente V se perguntava o que tinha acontecido com o macho. As anotações terminavam em um dia onde nada particularmente significativo tinha ocorrido, por isso era difícil saber se tinha morrido em um acidente ou se foi por capricho. V esperava inteirar-se em algum momento que destino tinha encontrado o guerreiro, assumindo que ele mesmo vivesse o suficiente para sair do acampamento.

Como perder o diario o faria sentir-se desamparado, guardava-o em um lugar onde nem uma alma se detinha. Antes de que o acampamento se instalasse aqui, a cova tinha sido habitada por algum tipo de antigo humano, e os anteriores habitantes tinham deixado desenhos primitivos nas paredes. As vagas representações de bisões e cavalos, e rastros de mãos e de um único olho eram consideradas maldições pelos soldados, e todo mundo as evitava. Uma divisão tinha sido erguida em frente dessa porção de parede, e embora estivesse pintada com mestria em toda parte, Vishous sabia porquê seu pai não as eliminava. O Bloodletter queria o acampamento desequilibrado e nervoso, e se mofava dos soldados e as fêmeas por igual, com ameaças de que os espíritos desses animais os possuiriam, ou que as imagens do olho e os rastros de mãos voltariam para a vida com fogo e ira.

V não tinha medo dos desenhos. Adorava. O desenho simples dos animais tinha poder e elegância, e gostava de pôr as mãos contra os rastros de palmas. De fato, era um consolo saber que tinha havido gente vivendo ali antes. Talvez tivessem vivido melhor.



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