J. R. Ward Amante Liberado



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As primeiras lembranças de V eram de sentir-se faminto e gelado, de observar a outros comer enquanto seu estômago rugia. Ao longo de seus primeiros anos, a fome o tinha impulsionado, e como outros pretrans, sua única motivação tinha sido alimentar-se, sem importar o que tivesse que fazer para consegui-lo.

Vishous esperava oculto nas sombras da cova, permanecendo longe da piscante luz jogada pela fogueira do fosso do acampamento. Sete veados frescos estavam sendo devorados com obsceno frenesi, os soldados cortavam a carne dos ossos e a mastigavam como animais, o sangue lhes sujava os rostos e as mãos. À margem da comida, todos os pretrans tremiam de cobiça.

Como outros, V estava ao fio da inanição. Mas não estava junto a seus jovens companheiros. Esperava na longínqua escuridão, com os olhos fixos em sua presa.

O soldado que estava vigiando era gordo como um porco, com dobras de carne caindo sobre suas calças de couro e as feições imprecisas pelo grande volumoso, a maior parte do tempo, o glutão andava sem túnica, com o bulboso peito e o distendido estômago dançando enquanto desfilava pelos arredores distribuindo patadas aos cães vagabundos que viviam no acampamento ou indo atrás das prostitutas. Apesar de toda sua preguiça, era um malvado assassino, o que lhe faltava de velocidade o compensava com força bruta. Com mãos grandes como a cabeça de um macho adulto, se comentava que arrancava as extremidades dos lessers para comer depois.

Em cada refeição era dos primeiros a chegar à carne, e comia rapidamente, embora o danificava com sua falta de cuidado. Não prestava muita atenção ao que conseguia meter na boca. Partes de carne de veado, jorros de sangue e fragmentos de osso cobriam seu estômago e peito, formando uma sangrenta túnica tecida por sua descuidada tarefa.

Essa noite o macho terminou cedo e se reclinou para trás sobre os quadris, com uma perna de veado no punho. Embora tinha terminado, atrasava-se perto da peça morta da que tinha estado alimentando-se, empurrando a outros soldados para entreter-se.

Quando chegou o momento de que se repartissem os castigos dos treinamentos, os soldados se transladaram da fogueira para a plataforma de Bloodletter. À luz das tochas, os soldados que tinham sido derrotados nas práticas eram obrigados a inclinar-se aos pés do Bloodletter e eram violentados por aqueles que os tinham derrotado, ante as brincadeiras e desprezo de outros. Enquanto isso, os pretrans caíam sobre as sobras do veado enquanto as fêmeas do acampamento observavam tudo com duros olhos, esperando sua vez.

A presa de V não estava muito interessada nas humilhações. O gordo soldado olhou durante um momento, logo se foi com a perna de carne pendurando em uma de suas mãos. Seu sujo jergón estava em um dos extremos mais afastados de onde dormiam os soldados, porque até seus narizes se viam ofendidos pelo fedor que desprendia.

Estirado, via-se como um campo ondeante, seu corpo era uma série de colinas e vales. A perna de veado que repousava sobre seu estômago era o prêmio no topo da montanha.

V se manteve afastado até que os olhos do soldado estivessem cobertos por suas carnudas pálpebras e seu pesado peito subiu e baixo com um ritmo que cada vez se ia fazendo mais lento. Logo a boca de peixe se abriu, e saiu um ronco, seguido de outro. Foi nesse momento quando V se aproximou com os pés descalços, sem fazer nenhum som sobre o chão de terra.

O repugnante aroma do macho não deteve v, e não se importava com a imundície que havia sobre a fresca coxa do veado, moveu-se para frente, com a pequena mão estendida, aproximando-se da articulação do osso.

Quando a liberou, uma adaga negra passou velozmente junto à orelha do soldado e ao penetrar no atestado chão da cova fez que o macho abrisse os olhos de repente.

O pai de V surgiu como um punho com cota de malha a ponto de cair, as pernas fixadas firmemente, os escuros olhos nivelados. Era o maior dentro do acampamento, se comentava que era o maior macho nascido dentro da espécie, e sua presença inspirava medo por duas razões. Por seu tamanho e por ser imprevisível. Seu humor era sempre volúvel, com caprichos violentos e caprichosos, mas V sabia a verdade atrás de seu volátil temperamento. Não havia nada que não fosse calibrado para obter resultados. O engenho malicioso de seu pai era tão intenso como grossos eram seus músculos.

—Acordade —disse bruscamente o Bloodletter— Enquanto vagueia está sendo roubado por um debiloide.

V foi para longe de seu pai, mas começou a comer, afundando os dentes na carne e mastigando tão rápido como podia. Seria espancado por isso, provavelmente por ambos os homens, assim tinha que consumir a maior quantidade possível antes de que começassem a cair em cima dele.

O gordo começou a dar desculpas até que o Bloodletter o chutou na planta do pé com uma bota de pregos. O rosto do macho ficou cinza mas tinha claro que não devia queixar-se.

—Os porquês deste acontecimento me aborrecem. —O Bloodletter olhou fixamente ao soldado—Eu estou perguntando que fará a respeito.

Sem deter-se para tomar fôlego, o soldado formo um punho com a mão, inclinou-se, e o descarregou contra o flanco do V. V perdeu o bocado que mastigava quando o impacto tirou o ar dos seus pulmões e a carne da boca. Enquanto ofegava, recolheu a parte do pó e voltou a meter-lhe entre os lábios. Sentia salgado pelo chão da cova.

Quando começou a surra, V comeu entre agressões até que sentiu que o osso de sua pantorrilha se dobrava até quase quebrar-se. Deixou escapar um grito e perdeu a peça de carne. Alguém a recolheu e fugiu com ela.

Todo o tempo, o Bloodletter riu sem sorrir, o som saía como um latido de lábios retos e finos como facas. E logo terminou. Sem esforço aparente pegou a gordo soldado pela parte traseira do pescoço e o atirou contra a parede de rocha.

As botas com pregos do Bloodletter se plantaram frente ao rosto do V.

—Recolhe minha adaga.

V piscou e tratou de mover-se.

Houve um rangido de couro, e então o rosto do Bloodletter esteve frente a V.

—Recolhe minha adaga, menino. Ou esta noite farei que tome o lugar das putas no fosso.

Os soldados que se reuniram atrás de seu pai riram, e alguém atirou uma pedra que pegou a V na perna que tinha sido ferida.

—Minha adaga, menino.

Vishous estendeu os pequenos dedos na terra e se arrastou para a arma. Embora estava a só uns dois metros dela, a lâmina parecia estar a milhas de distância. Quando finalmente fechou a palma sobre ela, necessitou ambas as mãos para liberá-la da terra de tão fraco que estava. Tinha o estômago revolto de dor, e enquanto puxava a lâmina, vomitou a carne que tinha roubado.

Quando as náuseas cessaram, estendeu a adaga a seu pai, que havia tornado a elevar-se em toda sua altura.

—Se coloque de pé —disse o Bloodletter— Ou pensa que deveria me inclinar para o indigno?

V lutou para conseguir sentar-se e não podia imaginar como ia conseguir elevar todo seu corpo se não podia levantar os ombros. Trocou a adaga para a mão esquerda, pôs a direita no chão, e se elevou. A dor foi tão grande que lhe obscureceu a visão… e logo ocorreu algo milagroso, uma espécie de luz radiante o alagou de dentro para fora, como se o sol se derramasse em suas veias e limpou a dor até que esteve livre dela. Sua visão retornou… e viu que sua mão brilhava.

Este não era o momento de assombrar-se, elevou-se do chão, levantando-se enquanto tratava de não depositar o peso na perna ferida. Com mão tremente, apresentou a adaga a seu pai.

O Bloodletter olhou para trás durante um instante, como se nunca tivesse esperado que V conseguisse ficar em pé. Olhou a arma e se voltou.

—Que alguém o faça cair de novo. Seu atrevimento me ofende.

V aterrissou em uma pilha quando a ordem foi cumprida, e então, a radiante luz o abandonou e a agonia retornou. Esperou que chegassem mais golpes, mas quando escutou que a multidão rugia, soube que o castigo dos perdedores seria o entretenimento do dia, e não ele.

Enquanto jazia em uma restinga de miséria, enquanto tratava de respirar através do pulsar de seu golpeado corpo, imaginou uma mulher com uma túnica branca vindo para ele e envolvendo-o em seus braços. Com suaves palavras o embalava e lhe acariciava o cabelo, acalmando-o.

Deu as boas-vindas à visão. Era sua mãe imaginária. A que o amava e desejava que estivesse a salvo, abrigado e alimentado. Verdadeiramente, essa imagem era a que o mantinha com vida, lhe dando a única paz que tinha conhecido em sua vida.

O soldado gordo se inclinou para ele, seu fétido e úmido fôlego invadiu o nariz de Vishous.

—Me roube outra vez e não conseguirá se curar do que irei fazer.

O soldado cuspiu no rosto de V logo o levantou e o jogou para fora do jergón como se fosse um resto inútil.

antes que V desmaiase , a última coisa que viu foi aos outros pretrans, que estavam terminando de saborear a perna de veado.

CAPÍTULO 6

Com uma maldição, V se livrou de suas lembranças, seus olhos revoaram pelo beco em que se encontrava, como um velho jornal apanhado pelo vento. Homem, estava arruinado. O selo de seu descaramento se quebrou e seus restos se derramaram por todo o lugar.

Fudido. Muito fudido.

O bom era que nesse momento não tinha sabido que tipo de merda era esse assunto de minha-mamãe-me-quer. Isso o teria ferido mais que os abusos aos quais foi submetido.

Tomou o medalhão do Primale do bolso traseiro e ficou a olhá-lo fixamente. Ainda estava olhando-o quando minutos mais tarde o objeto caiu ao chão e ricocheteou como uma moeda. Franziu o cenho… até que se deu conta de que sua mão “normal” estava brilhando e tinha queimado o cordão.

Maldita fosse, sua mãe era uma egomaniaca. Deu a vida à espécie, mas isso não foi suficiente para ela. Demônios, não. Queria tomar parte no baile.

A merda com ela. Não ia lhe dar a satisfação de ter centenas de netos.Fedia como mãe, assim para que lhe dar outra geração a que arruinar.

E além disso, havia outra razão de porquê não deveria ser o Primale. Era, depois de tudo, o filho de seu pai, assim que a crueldade estava em seu DNA. Como podia confiar em si mesmo de que não se descarregaria com as Escolhidas? Essas fêmeas não tinham culpa, e não mereciam o que terminaria entre suas pernas se se convertia em seu par. Não ia fazer .

V acendeu um cigarro encalacrado à mão, levantou o medalhão, e deixou o beco girando à direita pela rua Trade. Precisava desesperadamente uma briga antes que chegasse o amanhecer.

Contava encontrar alguns lessers no labirinto de concreto que era o centro da cidade.

Era uma aposta segura. Na guerra entre a Sociedade Lessening e os vampiros havia uma só regra no combate: Não lutar frente a humanos. A última coisa que precisavam, qualquer das duas partes eram baixas humanas ou testemunhas, assim que as batalhas encobertas eram o distintivo do jogo, e o Caldwell urbano apresentava um bom teatro para combates a baixa escala. Graças ao êxodo em pequenas quantidades por volta dos subúrbios dos anos setenta, havia muitos becos escuros e edifícios desocupados. Além disso, os poucos humanos que estavam na rua estavam primordialmente ocupados servindo-se de vários vícios. O que significava que estavam ocupados em outra coisa, dando muito trabalho à polícia.

Enquanto caminhava, mantinha-se afastado dos atoleiros de luz proporcionados pelo sistema de iluminação guia de ruas e os faróis dos carros. Graças à dura noite, havia poucos pedestres nos arredores, por isso estava sozinho quando passou pelo McGrider e o Screamer e um novo clube de striptease que acabava de abrir. Mais acima, passou em frente ao auto-serviço tex-mex e o restaurante chinês, que estavam ladeados por salões de tatuagens que competiam entre si. Umas quadras depois passou perto do edifício de apartamentos sobre a avenida Redd onde estava acostumada a viver Beth antes de conhecer Wrath.

V estava a ponto de dar a volta e voltar para o núcleo principal quando se deteve. Levantou o nariz. Inalou. O aroma de talco de bebê estava no ar, e já que as velhas anciãs e os bebês estavam fora de serviço a esta tardia hora, soube que seu inimigo estava perto.

Mas havia algo mais no ar, algo que fez que seu sangue esfriasse.

V desabotoou a jaqueta para ter as adagas à mão e começou a correr, rastreando os aromas até a rua Vinte. A Vinte estava a uma quadra de distância do Trade, cercada por edifícios de escritórios que estavam adormecidos a esta hora da noite, e enquanto corria por seu desigual e lamacento pavimento, os aromas se fizeram mais fortes.

Tinha o pressentimento que tinha chegado tarde.

Cinco quadras depois viu que tinha razão.

O outro aroma era o do sangue derramado de um vampiro civil, e quando as nuvens se afastaram, a luz da lua caiu sobre o horrível espetáculo. Um macho post transição vestido com roupas rasgadas de sociedade estava além da morte, seu torso retorcido, o rosto tão quebrado que seria impossível de reconhecer. O lesser que tinha executado o assassinato estava revisando os bolsos do vampiro, sem dúvida com a esperança de encontrar a direção de sua casa como pista que o levasse a fazer outra matança.

O assassino sentiu V e olhou sobre o ombro. O ser era branco como a pedra calcária, seu cabelo pálido, a pele e os olhos decolorados como o giz. Grande, constituído solidamente como um jogador de rugby, fazia tempo que tinha passado pela iniciação e V soube, não só devido ao fato da natural pigmentação do bastardo ter se desvanecido. O lesser já estava preparado quando ficou de pé de um salto, as mãos indo à altura de seu peito, jogando o corpo para frente.

Correram o um para o outro e se encontraram como o fariam dois carros se chocando em um cruzamento: cara a cara, peso a peso, força contra força. E no inicial encontro e saudação, V recebeu um murro de uma mão do tamanho de um presunto na mandíbula, do tipo que faz que seu cérebro se fragmente dentro do crânio. Ficou tonto momentaneamente, mas as arrumou para devolver o favor o suficientemente forte para fazer girar o lesser como um peão Logo foi atrás de seu oponente. Pegando-o pela jaqueta de couro e lançando-o para o ar fora de suas botas militares.

V gostava de lutar corpo a corpo. E era bom no trabalho de campo.

Embora o assassino foi rápido. Levantou-se do pavimento e lhe lançou um golpe que revolveu os órgãos internos de V como um maço de cartas. Quando V cambaleou para trás, tropeçou em uma garrafa de Coca-Cola, que fez com que seu tornozelo se dobrasse e tomou um assento no expresso que usava para o asfalto. Afrouxando e deixando ir seu corpo, manteve os olhos sobre o assassino, que se moveu depressa. O bastardo foi até o tornozelo de V, pegando-o pela pesada bota e dobrando-a com toda a força de seu grosso peito e braço.

V lançou um grito enquanto girava o rosto ao chão, mas se fechou à dor. Usando seu tornozelo machucado e seus braços como alavanca, empurrou-se sobre o asfalto, levantou sua perna livre para o peito e deu um golpe para trás, atirando no filho da puta uma patada no joelho e lhe quebrando a articulação. O lesser se sustentou sobre uma só perna como um flamingo, com a extremidade dobrada na direção equivocada, enquanto caía sobre as costas do V.

Ambos se sujeitaram fortemente, com os antebraços e os bíceps encolhendo-se enquanto giravam para terminar perto do civil assassinado. Quando a V morderam a orelha, a merda realmente se agitou. Livrando-se dos dentes do lesser, deu-lhe ao bastardo um murro no lóbulo frontal, resultando em ambos os ossos quebrados, mas que aturdiu ao maldito o tempo suficiente para liberar-se.

Ou quase.

A faca entrou em seu flanco quando estava tirando as pernas de debaixo do assassino. O afiado estalo de dor foi como uma picada de abelha, e soube que a lâmina tinha perfurado a pele no lado esquerdo e acessado o músculo debaixo das costelas.
Homem, se tinha perfurado seu intestino, as coisas iam se pôr feias instantaneamente. Assim era hora de terminar a briga.

Vigorizado pela ferida, V pegou o lesser pelo queixo e a nuca e retorceu o filho de puta como se fose a tampa de uma garrafa de cerveja. O rangido do crânio saindo da medula espinhal foi como o de um ramo partindo-se pela metade e o corpo ficou súbitamente inútil com os braços sacudindo-se sobre o chão, e as pernas ficando imóveis.

V apalpou o flanco enquanto a cúspide de poder se desvanecia. Merda, estava coberto de suor frio e suas mãos tremiam, mas tinha finalizado o trabalho. Apressadamente, apalpou o lesser procurando uma identificação antes de fazer desaparecer ao bastardo.

Os olhos do assassino encontraram os seus, sua boca se moveu lentamente.

—Meu nome… foi Michael uma vez. Faz… oitenta e três… anos. Michael Klosnick.

Abrindo a carteira, V encontrou a carteira de motorista.

—Bom Michael, que tenha uma boa viagem de ida ao inferno.

—Me alegro… que tenha terminado.

—Não o tem feito. Não se inteirou? —merda, o flanco o estava matando— Seu novo lar é o corpo do Omega, amigo. Viverá ali sem pagar aluguel para sempre.

Os pálidos olhos se abriram desmesuradamente.

—Entendeu.

—Por favor. Parece que ia me incomodar em fazê-lo? —V sacudiu a cabeça— Acaso seu chefe não mencionou isso? Vejo que não.

V desembaiou uma das adagas, levantou a arma sobre o ombro e baixou a lâmina em linha reta para o amplo peito. Houve um estalo de luz o suficientemente brilhante para iluminar o beco inteiro, logo se ouviu um pop e… merda, o estalo tinha alcançado ao civil, lhe fazendo arder também graças a uma forte rajada de vento. Quando os dois corpos se consumiram, a única coisa que ficou na fria brisa foi o espesso aroma de talco para bebê.

Foda. Agora como dariam a notícia à família?

Vishous examinou a área, e quando não encontrou outra carteira, apoiou-se contra o contêiner e ficou ali sentado, respirando em ofegos superficiais. Cada inalação o fazia sentir como se estivesse sendo esfaqueado novamente, mas ficar sem oxigênio não era uma opção, assim continuou fazendo-o.

Antes de tirar o telefone para pedir ajuda, olhou a adaga. A negra lâmina estava coberta pela enegrecido sangue do lesser. Rememorou a luta com o assassino e imaginou a outro vampiro em seu lugar, um não tão forte como ele. Um que não tivesse sua linhagem.

Levantou a mão enluvada. Se, sua maldição o tinha definido, a Irmandade e seu nobre propósito tinham dirigido sua vida. E se tivesse morrido essa noite? Se essa lâmina tivesse atravessado seu coração? Seriam só quatro guerreiros.

Merda.


No tabuleiro de xadrez de sua desolada vida, as peças se alinharam, o jogo estava destinado. Homem, muitas vezes na vida não podia escolher seu caminho devido a que já tinha sido decidido por você.

O livre-arbítrio era uma tremenda mentira.

Deixando de lado a sua mãe e seu dramatismo… devia transformar-se no Primale pela Irmandade. O devia à herança a que servia.

Depois de limpar a lâmina em suas calças de couro, voltou a embainhar a arma com o punho para baixo, lutou para ficar de pé, e apalpou a jaqueta. Merda… seu telefone. Onde estava seu telefone? No apartamento de cobertura. Devia tere caido da jaqueta quando a atirou sobre a cama do apartamento de cobertura…

Soou um disparo.
Uma bala entrou no peito.

O impacto o fez elevar-se e o envio em câmara lenta através do ar. Quando caiu de costas sobre o chão, permaneceu ali enquanto uma pressão demolidora fazia saltar seu coração e lhe nublava a mente. Tudo o que podia fazer era ofegar, pequenos fôlegos rápidos saltando para dentro e para fora de sua garganta.

Com o último resquício de força, levantou a cabeça e olhou o corpo. Um tiro. Sangue na camisa. E uma esmagadora dor no peito. O pesadelo feito realidade.

Antes que pudesse entrar em pânico, chegou a escuridão e o bebeu inteiro… uma comida a ser digerida no banheiro ácido da agonia.

—Que demônios pensa que está fazendo, Whitcomb?

A doutora Jane Whitcomb levantou a vista do histórico do paciente que estava assinando e deu um pulo. Manuel Manello, doutor em medicina, chefe de cirurgia do Centro Médico St. Francis, estava avançando como um touro pelo corredor para ela. E sabia por que.

Isto ia ser feio.

Jane rabiscou sua assinatura no final da ordem de farmácia, devolveu o histórico à enfermeira, e observou como a mulher saia correndo. Uma boa manobra defensiva, e nada extraordinária nesse lugar. Quando o chefe estava assim, as gentes começavam a correr… o que era o lógico se tinha meio cérebro e uma bomba estava a ponto de explodir.

Jane o enfrentou.

—Então, se inteirou.

—Aqui. Agora. —Abriu de repente a porta da sala de descanso dos cirurgiões.

Quando entrou com ele, Priesa e Dubois, dois dos melhores cirurgiões gastrointestinais do St. Francis, deram um olhar ao chefe, Pegaram a comida da máquina e saíram da sala. A sua esteira, a porta se fechou brandamente sem apenas o sussurro de um som. Como se ela tampouco quisesse chamar a atenção de Manello.

—Quando iria me dizer isso Whitcomb? Ou pensou que Columbia estava em outro planeta e não ia me inteirar?

Jane cruzou os braços sobre os seios. Era uma mulher alta, mas Manello a superva em alguns centímetros, e parecia com os atletas profissionais que operava. Grandes ombros, grande peito, grandes mãos. Aos quarenta e cinco anos, estava em ótimas condições físicas e era um dos melhores cirurgiões ortopédicos do país.

Tanto como um aterrador FDP, Filho da puta, quando estava zangado.

Que bom que se sentisse cômoda em situações tensas.

—Sei que tem contatos lá, mas pensei que seriam o suficientemente discretos para esperar que eu decidisse se queria o trabalho…

—É obvio que o quer ou não teria perdido tempo indo lá. É pelo dinheiro?

—Certo, primeiro, não me interrompa. Segundo, vai baixar a voz. —Enquanto Manello se passava a mão pelo espesso cabelo escuro e fazia uma profunda inspiração, sentiu-se mal— Olhe, deveria ter dito. Deve ser desconcertante ter sido pego de surpresa dessa maneira.

Sacudiu a cabeça.

—Receber uma ligação de Manhattan dizendo que uma de minhas melhores cirurgiãs vai fazer uma entrevista com meu mentor em outro hospital, não é uma de minhas coisas preferidas.

—Foi Falcheck que lhe disse isso?

—Não, uns de seus subordinados.

—Sinto muito, Manny. Não sabia como foram as coisas, e não queria dar um passo em falso.

—Por que está pensando em deixar o departamento?

—Sabe que quero mais do que tenho aqui. Será chefe até os sessenta e cinco, a menos que resolva renunciar. Em Columbia, Falcheck já tem cinqüenta e oito. Tenho uma boa oportunidade de me transformar em chefe de departamento lá.

—Já nomeei você chefe do setor de Emergências.

—E eu merecia isso.

Seus lábios se separaram em um sorriso.

—É humilde, não?

—Para que me incomodar? Ambos sabemos que é verdade. E no que diz respeita a Columbia? Você gostaria de ser subordinado de alguém nas próximas duas décadas de sua vida?

Suas pálpebras baixaram sobre os olhos cor mogno. Pelo mais breve dos instantes, pensou ver algo cintilante em seu olhar, mas logo colocou as mãos nos quadris, fazendo que a bata branca se estirasse ao alargar-se seus ombros.

—Não quero perder você, Whitcomb. É a melhor cirurgiã de emergências que tenho.

—E eu devo considerar meu futuro. —Foi para seu armário— Desejo dirigir meu próprio posto, Manello. É minha forma de ser.

—Quando é a maldita entrevista?

—Amanhã a uma hora da tarde. estou livre todo o fim de semana e não estou de plantão, assim vou ficar na cidade.

—Merda.

Houve um golpe na porta.



—Entre —disseram ambos.

Uma enfermeira apareceu.

—Temos um caso de urgência, tempo estimado de chegada, dois minutos. Homem perto dos trintas. Ferida a bala com provável perfuração da aorta. Paralisou duas vezes na ambulância. Aceita o paciente, doutora Whitcomb, ou deseja que chame o Goldberg?

—Não, aceito-o. Preparem a área quatro no box e diga a Ellen e Jim que vou em um momento.

—Farei isso, doutora Whitcomb.

—Obrigado, Nan.

A porta se fechou brandamente, e olhou ao Manello.

—Voltando para assunto de Columbia. Faria o mesmo que eu se estivesse em meu lugar. Assim não pode dizer que se surpreende.

Houve um momento de silêncio, logo ele se inclinou um pouco para frente.

—Não deixarei você ir sem oferecer resistência. O que tampouco deveria surpreender você.

Deixou a sala, levando a maior parte do oxigeno com ele.

Jane se reclinou para trás contra a porta do armário e olhou ao redor da área da cozinha e para um espelho pendurado da parede. Seu reflexo era claro como a água no cristal, do jaleco branco de médica, o pijama de cirurgia verde e seu curto cabelo loiro.

—Recebeu bem a notícia —disse a si mesma— Tendo tudo em conta.

A porta da sala de descanso se abriu, e Dubois apareceu.

—Àrea limpa?

—Sim. E eu me dirijo ao box.

Dubois empurrou a porta e entrou, sem fazer ruído ao pisar sobre o linóleo com seus sapatos de cirurgia.

—Não sei como faz. É a única que não deixa sem sentido depois de uma briga.

—Na realidade ele não é nenhum problema.

Dubois soprou.

—Não me interprete mal. Respeito-o muitíssimo, de verdade. Mas eu não gosto que se zangue.

Pôs a mão no ombro de seu colega.

—A pressão desgasta às pessoas. A semana passada te desenquadrou. Lembra?

—Sim, tem razão. —Dubois sorriu—.E ao menos já não atira coisas.

CAPÍTULO 7

O departamento de Emergências T. Wibble Jones do Centro Médico St. Francis era uma obra de arte graças à generosa doação de seu benfeitor homônimo. Inaugurado fazia apenas um ano e meio, o Complexo de vinte mil metros quadrados estava construído em duas partes, cada qual com dezesseis áreas de tratamento. Os pacientes de emergências eram admitidos alternativamente na área A ou B e permaneciam com o grupo que os fora atribuído até que eram dados de alta, admitidos ou enviados ao necrotério.

Com o passar do centro das instalações estava o que o pessoal médico chamava o “box”. O box era estritamente para admissões de urgência, das quais havia dois tipos: “roda-os” que chegavam em ambulância e os “tetos” que vinham voando para a pista de aterrissagem que estava onze andares a cima. Os tetos tendiam a ser casos mais difíceis e os traziam em helicóptero de um rádio de aproximadamente cento e cinqüenta milhas ao redor de Caldwell. Para esses pacientes, havia um elevador exclusivo que os deixava bem no box. Era suficientemente grande para que entrassem duas macas e dez membros do pessoal médico ao mesmo tempo.

As instalações de urgências tinham seis áreas abertas para pacientes, cada uma equipada com raios X, equipe de ecografias, válvulas de oxigênio, fornecimentos médicos e suficiente espaço para mover-se comodamente. O centro de operações, a torre de controle, estava no meio, um conclave de computadores e pessoal que tragicamente, sempre estava esperando. A qualquer hora havia ao menos um médico de admissão, quatro residentes e seis enfermeiras, normalmente tinham dois ou três pacientes no lugar.

Caldwell não era, nem por acaso, tão grande como Manhattan, mas tinha muita violência de grupos, tiroteios relacionados com drogas e acidentes de tráfico. Além disso, com quase três milhões de habitantes, via uma interminável variedade de humanos com enganos de cálculo: uma pistola de pregos disparava no estômago de alguém porque um cara tinha tentado arrumar o zíper de seu jeans com ela; uma flecha atravessava um crânio porque alguém queria provar que tinha uma excelente pontaria e estava equivocado; o marido imaginava que seria admirável reparar o forno e recebia uma descarga de duzentos e quarenta volts porque não o tinha desligado antes.

Jane vivia no box e lhe pertencia. Como chefe do departamento de Trauma, era administrativamente responsável por tudo o que ocorria nessas seis áreas, mas também estava treinada tanto como médica no departamento de Emergências como cirurgiã de urgências, assim tinha muita prática. No transcurso do dia a dia, tomava decisões a respeito de quem devia subir à sala de cirurgia e muitas vezes entrava em fazer o trabalho de linha e agulha.

Enquanto esperava o seu paciente de ferida de bala, revisou as histórias dos dois pacientes que estavam sendo tratados nesse momento e olhou por cima do ombro dos residentes e enfermeiras enquanto trabalhavam. Cada membro da equipe de urgências era escolhido por Jane, e quando recrutava, não ia necessariamente depois dos do tipo Ivy League10, embora ela mesma tenha estudado em Harvard. O que procurava, eram as qualidades de um bom soldado, ou como gostava de chamá-los, a disposição mental de “Não Fode, Sherlock”. Inteligência, vitalidade e sangue-frio. Especialmente sangue-frio. Tinha que ser capaz de permanecer calmo em uma crise se fosse conhecer o box de A a Z.

Mas isso não significava que a compaixão não fosse necessária em cada coisa que faziam.

Geralmente, a maior parte dos pacientes de urgências não precisavam que lhes segurassem a mão nem que os confortasse. Tendiam a estar narcotizados ou em coma devido ao fato que estavam perdendo sangue como um coador, tinham uma parte de seu corpo congelada em um geladeira ou tinham o setenta e cinco por cento de sua pele queimada. O que os pacientes precisavam eram carros de reanimação com gente bem treinada e sensata para dirigir as paletas.

As famílias e seres queridos, entretanto, sempre precisavam de bondade e simpatia, e ser reconfortados se fosse possível. Vidas eram destruídas ou ressuscitadas todos os dias no box, e não eram só as pessoas que estavam nas macas as que deixavam de respirar ou começavam a fazê-lo novamente. As salas de espera estavam cheias de outras pessoas que se viam afetadas: maridos,esposas , pais, filhos…

Jane sabia o que era perder a alguém que era parte de você mesmo e enquanto trabalhava era muito consciente da parte humana da medicina e a tecnologia. Assegurava-se de que sua gente estivesse na mesma sintonia. Para trabalhar no box, tinha que ser capaz de confrontar os dois aspectos do trabalho, precisava uma mentalidade de campo de batalha e saber empatizar com os pacientes. Como dizia a seu pessoal, sempre havia tempo de estender a mão a alguém, escutar seus problemas ou de oferecer um ombro no qual chorar, porque em um piscar podia estar no outro extremo da conversação. Depois de tudo, a tragédia não discriminava, por isso todo mundo estava sujeito aos mesmos caprichos do destino. Sem importar a cor de pele ou a quantidade de dinheiro que tivesse, se foi homossexual ou heterossexual, um ateu ou um verdadeiro crente. Do lugar que ocupava, via todo mundo como um igual. Que era amado por alguém em algum lugar.

Lhe aproximou uma enfermeira.


—O doutor Goldberg acaba de avisar que está doente.

—É essa gripe?

—Sim, mas pediu ao doutor Harris que o cobrisse.

Deus benza o coração de Goldberg.

—Nosso homem precisa de algo?

A enfermeira sorriu.

—Disse que sua esposa esteve encantada de poder vê-lo quando despertou. Sarah está preparando sopa de frango em um absoluto estado de alvoroço.

—Bem. Precisa de um pouco de tempo livre. pena que não vá desfrutar.

—Sim. Mencionou que ia fazer você ver no DVD todo os filmes diurnos que perderam durante os últimos seis meses.

Jane se pôs a rir.

—Isso o fará ficar pior. OH, escuta, quero fazer uma revisão completa do caso Robinson. Não podíamos fazer nada mais por ele, mas acredito que de qualquer forma precisamos repassar sua morte.

—Tinha o pressentimento de que quereria fazer isso. Arrumei-o para o dia depois de que volte de sua viagem.

Jane deu à enfermeira um leve apertão na mão.

—É um amor.

—Não, só que conheço nossa chefe —sorriu— Nunca deixa de ir examinar e voltar a comprovar todo o caso se poderia ter feito algo de forma diferente.

Isso era completamente certo. Jane lembrava a cada paciente que tinha morrido no box, tanto se tinha sido ela a que o tinha admitido como se não e tinha os falecidos catalogados na mente. De noite, quando não podia dormir, os nomes e rostos desfilavam por sua mente como um antigo microfilme até que pensava que ia tornar louca.

Sua lista de mortos era o perfeito estímulo e estava condenada se o paciente ferido de bala que estava chegando se somava a ela.

Jane se aproximou de um computador e reprimiu a tristeza pelo paciente. Isto ia ser uma batalha, estaba se falando de uma punhalada e uma bala alojada na cavidade torácica e dado o lugar onde tinha sido encontrado estava disposta a apostar que era ou um traficante de drogas que estava fazendo negócios no território equivocado ou um grande comprador que tinha sido traído. Em qualquer caso, era improvável que tivesse um seguro de saude, embora isso não importasse. O St. Francis aceitava a todos os pacientes, sem importar se podiam pagar ou não.

Três minutos depois, as portas duplas se abriram e a crise entrou a grande velocidade, como impulsionada por uma mola. O senhor Michael Klosnik estava imobilizado na maca, era um gigante caucásico com grande quantidade de tatuagens, um par de calças de couro e cavanhaque. O paramédico em sua cabeceira estava lhe insuflando ar com um respirador, enquanto que outro sustentava a equipe e o apertava.

—Na área quatro —disse Jane aos paramédicos—O que temos?

O que lhe estava dando ar com o balão disse:

—Pusemos duas intravenosas com soro. A pressão arterial é de sessenta por quarenta e baixando. O ritmo cardíaco está em cento e quarenta. A respiração é de quarenta. Esta intubado pela boca. Sofreu fibrilação ventricular a caminho daqui. Demos duzentos joules. O ritmo sinusal é de cento e quarenta.

Na área quatro, os médicos detiveram a maca e puseram o freio enquanto o pessoal do box se unia. Uma enfermeira se sentou em uma pequena mesa para registrar tudo. Outras duas esperavam prontas para entregar os instrumentos a Jane e uma quarta se preparou para cortar as calças de couro do paciente. Um par de residentes perambulavam por ali para observar ou ajudar se fosse necessário.

—Tenho a carteira. —disse o paramédico, entregando-lhe à enfermeira que tinha as tesouras.

—Michael Klosnick, trinta e sete anos —leu— A foto do documento de identidade esta imprecisa, mas… poderia ser ele, assumindo que tingiu o cabelo de negro e deixado crescer o cavanhaque depois que a tiraram.

Entregou a carteira a seu colega que estava tomando notas e logo começou a cortar as calças.

—Verei se estiver no arquivo —disse a outra mulher enquanto teclava no computador— O encontrei… espera, isto… deve ser um engano. Não, a direção é correta, o ano está equivocado.

Jane amaldiçoou em voz baixa.

—Pode ser que haja problemas com o novo sitema de registro informatizado, assim não quero confiar na informação que sai dali. Peguem uma amostra de sangue e uma radiografia do tórax em seguida.

Enquanto tiravam o sangue, Jane fez um rápido exame preliminar. A ferida de bala era um limpo buraco ao lado de uma espécie de cicatriz que tinha no peito. Um riacho de sangue era tudo o que se via, dando poucas pistas do dano que pudesse ter ocasionado no interior. A ferida de faca estava aproximadamente igual. Não havia muito machucado na superfície. Esperava que os intestinos não tivessem sido perfurados.

Deu uma olhada ao resto do corpo, vendo uma enorme quantidade de tatuagens… Wow. Essa era uma tremenda e antiga ferida na virilha.

—Me deixem ver os raios X e quero uma ecografia do coração…

Um gritou rasgou a sala de operações.

Jane virou a cabeça bruscamente para a esquerda. A enfermeira que tinha estado tirando a roupa do paciente estava a um ataque com convulsões, os braços e as pernas se agitavam contra os ladrilhos. Em sua mão tinha a luva negra que usava o paciente.

Por meio segundo todo mundo ficou congelado.

—Só tocou sua mão e caiu —disse alguém.

—De volta à diversão! —cortou Jane— Estevez, se ocupe dela. Quero saber como está imediatamente. O resto, concentrem-se. Agora!

Suas ordens fizeram que o pessoal entrasse em ação. Todo mundo voltou a focar-se enquanto a enfermeira era conduzida para a área contigüa e Estevez, um dos residentes, começava a tratá-la.

Os raios X do tórax saíram bastante bem, mas por alguma razão a ecografia do coração era de má qualidade. Não obstante, ambos revelavam exatamente o que Jane esperava. O pericárdio tapado por uma ferida de bala no ventrículo direito, o sangue se filtrou à bolsa do pericárdio e estava comprimindo o coração, comprometendo sua função e causando um bombeamento falho.

—Façam uma ecografia do abdômen enquanto ganho um pouco de tempo com o coração. —Tendo determinado a situação da ferida mais premente, Jane desejava mais informação sobre a punhalada— E assim que terminem com isso, quero que ambas as máquinas sejam revisadas. Algumas destas imagens do tórax têm uma sombra.

Quando um residente ficou a trabalhar sobre o estômago do paciente com a sonda para a ecografia, Jane passou uma agulha para anestesia número vinte e um e a ajustou a uma seringa de cinqüenta centímetros cúbicos, depois que a enfermeira tivesse passado Betadine pelo peito do homem, Jane atravessou a pele e navegou pela anatomia óssea, abrindo uma brecha na bolsa do pericárdio e tirando quarenta centímetros cúbicos de sangue para aliviar a pressão do pericárdio.

Enquanto isso, deu ordens de que preparassem o sala de cirurgia dois no andar superior e que lhe dissessem à equipe de marca passo cardíaco que se preparasse.

Deu a seringa à enfermeira para que a atirasse.

—Vejamos o abdômen.

A máquina definitivamente estava ruim já que as imagens não eram de todo claras como deviam ser. Entretanto, mostravam boas notícias, o que confirmou ao apalpar o contorno. Nenhum órgão interno parecia estar gravemente afetado.

—OK, o abdômen parece estar bem. Vamos levá-lo para cima imediatamente.

Ao sair do box, apareceu olhou na área onde Estevez estava tratando à enfermeira.

—Como vai?

—Está se recuperando. —Estevez negou com a cabeça— Seu coração se estabilizou depois de lhe dar uma sacudida com as paletas.

—Estava fibrilando? Cristo.

—Igual o cara do telefone que ingressou ontem. Como se a tivesse levado uma descarga elétrica.

—Chamou o Mike?

—Sim, seu marido está a caminho.

—Bem. Cuida de nossa garota.

Estevez assentiu e olhou a sua colega.

—Sempre.


Jane alcançou o paciente que estava sendo transladado pelo pessoal para o elevador que usava a planta de cirurgia. Já no piso superior se lavou enquanto as enfermeiras o colocavam sobre a mesa. A sua petição, uma equipe de instrumentação cirurgica cardiotorácica e a máquina de marca passo tinham sido preparadas, enquanto as ecografias e placas feitas na planta baixa brilhavam na tela do computador.

Com ambas as mãos enluvadas e mantidas no alto, separadas do corpo, voltou a revisar as provas torácicas. Para falar a verdade, ambas eram defeituosas, granuladas e com essas sombras, mas podia ver o suficiente para orientar-se. A bala estava alojada nos músculos das costas e a ia deixar lá. Os riscos inerentes a sua extração eram maiores que se a deixassem em paz, e de fato, a maioria das vítimas de ferida a bala, deixavam o box com o troféu de chumbo no mesmo lugar onde se alojava.

Franziu o cenho e se inclinou mais perto da tela. Interessante bala. Era redonda, não com a forma oblonga típica das balas que estava habituada a ver dentro de seus pacientes. Ainda assim, aparentemente parecia ser feita de chumbo comum.

Jane se aproximou da mesa onde o paciente tinha sido conectado à máquina de anestesia. Seu peito tinha sido preparado, as regiões que o rodeavam estavam cobertas por panos cirúrgicos. A cor alaranjada do Betadine o fazia ver como se tivesse um falso bronzeado mal aplicado.

—Não faremos valvula de desvio .Não quero perder tempo. Temos sangue de seu tipo à mão?

Uma das enfermeiras falou da esquerda.

—Temos, embora não encontremos seu tipología.

Jane olhou por cima do paciente.

—Não o encontraram?

—A leitura da amostra deu como indeterminável. Mas temos oito litros do tipo O.

Jane franziu o cenho.

—OK, mãos à obra.

Usando um escalpelo laser fez uma incisão sobre o peito do paciente, logo curto o esterno e uso um separador de costelas para abrir a cavidade do coração, expondo…

Jane ficou sem respiração.

—Santa…

—…merda —outra pessoa terminou a frase.



—Sucção. —Quando houve uma pausa, levantou a vista para o enfermeiro que a assistia—. Sucção, Jacques. Não importa como se vê. Posso arrumá-lo… sempre e quando puder ter uma vista clara da endemoninhada coisa.

Houve um som como de vaia quando o sangue foi absorvido e logo pôde lhe dar uma boa olhada a uma anomalia física que nunca tinha visto antes: um coração com seis cavidades em um peito humano. Essa “sombra” que tinha visto nas ecografias era, de fato, um par extra de cavidades.

—Fotos! —gritou— Mas por favor, façam rápido.

Homem, o departamento de Cardiologia vai se voltar louco com isto. Pensou enquanto tiravam as fotografias. Nunca antes tinha visto algo assim… embora o buraco esmigalhado no ventrículo esquerdo lhe era absolutamente familiar. Havia visto muitos destes.

—Sutura —disse.

Jacques lhe pôs um par de pinzas na palma da mão, o instrumento de aço usava uma agulha curva com fio negro no extremo. Com a mão esquerda, Jane tomou a parte de atrás do coração, tampou o extremo do buraco com o dedo e costurou o impacto que estava na parte dianteira da área até fechá-lo. O seguinte passo seria levantar o coração tirando-o do saco do pericárdio e fazer o mesmo na parte traseira.

O tempo total transcorrido era menor que seis minutos. Logo soltou o separador de costelas, pô-las onde se supunha que deviam estar e usou arame de aço para unir as duas metades do esterno. Justo quando estava a ponto de grampeá-lo do diafragma até a clavícula, o anestesista falou e a máquina começou a soar.

—A pressão arterial é de sessenta por quarenta e está caindo.

Jane praticou o protocolo de falha cardíaca e se inclinou sobre o paciente.

—Nem sequer pense nisso —lhe disse bruscamente— Se morrer vou me zangar muito.

Do nada, e contra toda lógica médica, os olhos do homem piscaram até abrir-se e focar-se nela.

Jane se afastou bruscamente. Deus querido… sua íris tinham o incolor esplendor dos diamantes, brilhando tanto que a lembravam a lua de inverno em uma noite limpa. E pela primeira vez em sua vida, ficou pasma, incapaz de mover-se. Ao enlaçar seus olhares, era como se estivessem ligados corpo a corpo, enroscados e entrelaçados, indivisíveis…

—Está fibrilando outra vez —ladrou o anestesista.

Jane voltou bruscamente para a realidade.

—Fica comigo —ordenou ao paciente— Me ouve? Fica comigo.

Teria podido jurar que ele assentiu antes de fechar as pálpebras. E voltou para o trabalho de lhe salvar a vida.

—Deve se tranqüilizar a respeito desse incidente com o lançador de batatas —disse Butch.

Phury pôs os olhos em branco e se reclinou sobre a banqueta.

—Rasgaram minha janela.

—É obvio que o fizemos. V e eu estávamos apontando para ela.

—Duas vezes.

—Isso prova que somos notáveis atiradores.

—A próxima vez, por favor poderiam escolher a de outra pessoa… —Phury franziu o cenho e afastou o martini de seus lábios. Sem nenhuma razão aparente, seus instintos tinham cobrado vida, todos aguçados e soando como uma máquina. Deu uma olhada a seu redor na seção VIP, procurando algo que tivesse aspecto de problemas—. Hey, poli, sente…

—Algo não está bem —disse Butch enquanto esfregava o centro do peito, logo tomou a grossa cruz de ouro que tinha debaixo da camisa— Que demônios está acontecendo?

—Não sei. —Phury voltou a percorrer com a vista a multidão que havia na seção VIP. Homem, era como se um repugnante aroma penetrasse no ambiente, colorindo o ar com algo que fazia com que seu nariz quisesse buscar um novo trabalho. E ainda assim não havia nada errado.

Phury pegou o telefone e chamou seu gêmeo. Quando Zsadist atendeu, a primeira coisa que perguntou foi se estava bem.

—Estou bem, Z, mas você também percebeu, huh?

Do outro lado da mesa, Butch levantou o telefone para sua orelha.

—Carinho? Está bem? Está tudo bem? Sim, não sei… Wrath quer falar comigo? Sim, certo, ponha ao… Hey, grande homem. Sim. Phury e eu. Sim. Não. Rhage está com você? Bem. Sei, chamarei Vishous em seguida.

Depois que o poli desligasse, pressionou algumas teclas e o telefone retornou a seu ouvido. O poli franziu as sobrancelhas.

—V? me ligue. Assim que escutar isso.

Terminou a chamada ao mesmo tempo que Phury desligou.

Ambos se reclinaram em seus assentos. Phury ficou a brincar com sua bebida. Butch mexeu com a cruz.

—Talvez foi a seu apartamento de cobertura encontrar-se com uma fêmea —disse Butch.

—Disse-me que ia fazer isso na primeira hora da noite.

—Bem. Então talvez esteja em meio a uma briga.

—Sim. Ligará-nos a qualquer momento.

Embora os telefones da Irmandade tinham chips GPS inseridos, o de V não funcionava se tinha o telefone com ele, assim chamar o Complexo e tratar de rastrear seu celular não ia ser de muita ajuda. V culpava a sua mão de entorpecer essa função, assegurando que fosse o que fosse o que a fazia brilhar causava uma alteração elétrica ou magnética. Certo que afetava à qualidade das chamadas. Cada vez que ligava para V havia uma interferência na linha, embora estivesse em uma linha de terra.

Phury e Butch duraram um minuto e meio antes de olhar um ao outro e falar ao mesmo tempo.

—Importa-se se dermos uma volta…

—Que tal se formos…

Ambos ficaram de pé e se dirigiram à saída de emergência que estava em uma porta lateral do clube.

Ao chegar ao beco de fora, Phury olhou o céu noturno.

—Quer que me desmaterialize para sua casa imediatamente?

—Sim. Faze-o.

—Preciso da direção. Nunca estive lá antes.

—Commodore. O último piso, na esquina sudoeste. Esperarei aqui.

Para o Phury foi questão de um momento para localizar-se no ventoso terraço do elegante apartamento de cobertura situado umas dez quadras perto do rio. Nem sequer se incomodou em aproximar-se da parede de vidro. Podia perceber que seu irmão não estava dentro e voltou junto de Butch no que levou um batimento de coração.

—Não.

—Então está caçando… —o poli se congelou, uma estranha e fixa expressão bateu seu rosto. Sua cabeça virou bruscamente para a direita— Lessers.



—Quantos? —perguntou Phury, abrindo sua jaqueta. Desde que Butch tinha tido seu encontro com o Omega, tinha sido capaz de detectar aos assassinos como se fossem putas moedas para um detector de metais.

—Um par. Vamos rápido.

—Totalmente de acordo.

Os lessers apareceram na esquina, deram- uma olhada ao Phury e Butch e ficaram em guarda. O beco da parte externa do ZeroSum não era o melhor lugar para lutar, mas com sorte e devido a noite estar muito fria, não haveria humanos nos arredores.

—Estou a cargo da limpeza —disse Butch.

—Entendido.

Ambos arremeteram contra o inimigo.

CAPÍTULO 8

Duas horas mais tarde, Jane abriu a porta da Unidade de Terapia Intensiva Cirúrgica. Já tinha recolhido seus pertences e estava pronta para ir para casa, a bolsa de couro no ombro, as chaves do carro na mão, e a capa de chuva colocada. Mas não iria sem antes ver o paciente ferido por arma de fogo.

Ao chegar ao controle de enfermaria, a mulher do outro lado do computador a olhou.

—Hey doutora Whitcomb, devo controlar seu ingresso?

—Sim, Shalonda. Já me conhece… não posso abandoná-los. Que quarto lhe atribuiu?

—O número seis,Faye está com ele, assegurando-se que esteja confortável.

—Vêem por que lhes amo garotas? O melhor pessoal do UTIC da cidade.Alguém veio lhe ver? Encontramos algum familiar próximo?

—Chamei o número que havia em seu expediente médico. O cara que respondeu disse que tinha vivido nesse apartamento nos últimos dez anos e que nunca tinha escutado falar em Michael Klosnick. Assim o endereço é falso.

Enquanto Shalonda punha os olhos em branco, as duas disseram ao mesmo tempo:

—Drogas.

Jane sacudiu a cabeça.

—Não me surpreende.

—Nem a mim. Essas tatuagens no rosto não combinam com um corretor de seguros.

—Não a menos que trabalhe para um grupo de lutadores profissionais.

Shalonda ainda ria quando Jane a saudou com a mão e começou a descer pelo corredor. O quarto número seis estava no final do corredor a direita, e enquanto caminhava checou outros dois pacientes que tinha operado, um com o intestino perfurado por uma lipoaspiração que tinha saído errado e outro que tinha ficado preso contra o mediador em um acidente de moto.

Os quartos da UTIC eram de vinte metros quadrados por vinte de pura atividade. Cada uma tinha a frente de vidro, com uma cortina que podia ser fechada para ter intimidade, e não eram o tipo de quarto que contava com uma janela, um póster de Monet ou uma TV passando Regis e Kelly11 nela. Se estava o bastante bem para preocupar-se pelo que podia ver no aparelho, não pertencia aquele lugar. As únicas telas e imagens eram as da equipe de monitores que rodeavam a cama.

Quando Jane chegou ao número seis, Faye Montgomery, uma verdadeira veterana, que estava checando o soro do paciente, levantou a vista.

—Boa tarde doutora Whitcomb.

—Como esta Faye? —Jane deixou sua bolsa e pegou o histórico médico que estava em um fichário em forma de bolso pendurado junto à porta.

—Estou bem e antes que pergunte, esta estável, o que é assombroso.

Jane deu uma folheada às estatísticas mais recentes.

—Não me diga.

Estava por fechar o histórico médico quando franziu o cenho ante o número que viu no canto esquerdo. O identificador de dez dígitos atribuído ao paciente tinha milhares e milhares de números de diferença com os que dava às novas admissões. Examinou a data em que o histórico tinha sido criado pela primeira vez: 1974. Folheando-o encontrou duas admissões anteriores no departamento de emergência. Uma por ferida de faca, a outra por overdose de drogas. As datas eram dos anos 71 e 73.

Ah demônios, já tinha visto isto antes. Os erros e os acertos podiam parecer-se quando se escrevia rapidamente. O hospital não tinha informatizado os registros até o final de 2003 e anteriormente tudo se escrevia à mão. Claramente este registro tinha sido trascrito por processadores de texto que tinham interpretado mal os dados. Em vez de 01 e 03 a pessoa havia trascrito a data nos anos setenta.

Salvo que… a data de nascimento não tinha sentido. Com a que figurava ali, o paciente teria completo os trinta e sete anos três décadas atrás.

Fechou o histórico e colocou a mão sobre ele.

—Devemos obter mais precisão do serviço de trascrições.

—Eu sei. Notei o mesmo. Escuta, deseja ficar algum tempo a sós com ele?

—Sim, seria bom.

Faye se deteve junto à porta.

—Escutei que esteve bastante impressionante no centro cirurgico esta noite.

Jane sorriu um pouco.

—A equipe esteve impressionante. Eu sozinha fiz minha parte. Hey, esqueci de dizer a Shalonda que apostarei pelo UK na Loucura de Primavera12. Poderia…

—Sim. E antes que o pergunte, sim, apostou de novo em Duke este ano.

—Bem, poderemos nos insultar uma à outra por outras seis semanas.

—É por isso pelo que os escolheu. Está fazendo um serviço público para que o resto de nós possamos brigar. São muito generosas.

Depois que Faye saiu, Jane correu a cortina e se aproximou da cama. A respiração do paciente era assistida pela equipe através da intubação e seus níveis de oxigênio eram aceitáveis. A pressão arterial era estável, embora um pouco baixa. O ritmo cardíaco era lento e refletia uma leitura estranha no monitor, mas bom, tinha seis cavidades pulsando.

Cristo, esse coração.

Inclinou-se sobre ele e estudo seus traços. Caucasiano, provavelmente originário da Europa Central. Bonito, não é que isso importasse, embora a beleza estava um pouco empanada pelas tatuagens que tinha na têmpora. aproximou-se, estudando a tinta em sua pele. Tinha que admitir que estavam belamente feitas, intrincados desenhos pareciam caracteres chineses e hieroglífos misturados. Imaginou que os símbolos deviam estar relacionados com a banda a que pertencia, apesar de que não lembrava um menino que cantasse à guerra; era mais feroz, como um soldado. Talvez as tatuagens fossem relacionado com as artes marciais?

Quando observou o tubo que tinha inserido na boca, notou algo estranho. Empurrou com os polegares seu lábio inferior afastando-o. Seus caninos eram muito pronunciados. Curiosamente afiados

Cosmética, não havia dúvida. Nestes dias as pessoas faziam todo tipo de coisas horripilantes com sua aparência, e ele já tinha marcado seu rosto.

Levantou a magra manta que o cobria. A bandagem da ferida do peito estava bem, assim desceu pelo corpo, afastando as mantas do caminho. Inspecionou a bandagem da punhalada, logo apalpou a área abdominal. Enquanto apertava brandamente para sentir os órgãos internos, observou as tatuagens que tinha sobre a área púbica, logo se concentrou nas cicatrizes que tinha ao redor da virilha.

Tinha sido parcialmente castrado.

Dada a desastrosa cicatriz não tinha sido uma extirpação cirúrgica, mas bem o resultado de um acidente. Ou ao menos esperava que tivesse sido acidental, por que a única outra explicação seria a tortura.

Olhou fixamente seu rosto enquanto o cobria. Em um impulso, colocou a mão sobre seu antebraço e apertou.

—Teve uma vida dura, não é assim?

—Sim, mas isso tem sido bom.

Jane se virou.

—Jesus Manello, assustou-me.

—Sinto muito, somente queria lhe dar uma olhada. —O chefe foi para o outro lado da cama, percorrendo o paciente com os olhos— Sabe, não acredito que tivesse sobrevivido sob a faca de outro.

—Viu as fotos?

—Do coração? Sim. Quero enviar aos meninos de Columbia para que lhe dêem uma olhada. Poderá lhes perguntar o que pensam quando estiver lá.

Ela deixou passar.

—Não determinamos seu tipo de sangue.

—Sério?


—Se conseguíssemos seu consentimento, acredito que deveríamos fazer um estudo completo, mesmo os cromossomos.

—Ah sei, seu segundo amor. Gens.

Era engraçado que o se lembrasse. Provavelmente tivesse mencionado apenas uma vez como quase terminou sendo investigadora genética.

Com a emoção de um viciado, Jane lembrou o interior do paciente, viu o coração em sua mão, sentiu o órgão em seu punho enquanto salvava sua vida.

—Poderia representar uma fascinante oportunidade clínica. Deus, eu adoraria estudá-lo. Ou ao menos participar do estudo.

O suave assobio dos monitores parecia aumentar no silêncio entre eles até que momentos depois uma espécie de certeza lhe fez cócegas na nuca. Levantou a vista. Manello estava olhando-a fixamente, com o rosto solene, a grossa mandíbula apertada, as sobrancelhas franzidas.

—Manello? —franziu o cenho—. Estas bem?

—Não vá.


Para evitar seus olhos olhou para baixo, para o lençol que tinha dobrado e metido sob o braço do paciente. Ociosamente alisou a branca extensão… até que se lembrou de algo que sua mãe estava acostumada a fazer.

Deteve a mão.

—Pode encontrar outro ciruj…

—Que se foda o departamento. Não quero que vá porque… —Manello passou a mão pelo espesso cabelo negro— Cristo, Jane. Não quero que vá porque sentirei saudades como o inferno, e porque… merda, preciso de você, certo? Preciso de você aqui. Comigo.

Jane pestanejou como uma idiota. Nos últimos quatro anos, nunca tinha havido nenhuma sugestão de que o homem se sentisse atraído por ela. Certo, estavam unidos e tudo isso. E era a única que podia acalmá-lo quando se zangava. E certo, sim, falavam do funcionamento interno do hospital todo o tempo, mesmo depois de hora. E comiam juntos toda noite quando estavam de plantão e… ele tinha contado sobre sua família e ela tinha contado sobre a sua…

Diabos.


Sei, mas o homem era a coisa mais quente em todo o hospital, e ela era tão feminina como… bem, uma mesa de operações.

Certamente tinha tantas curvas como uma.

—Vamos Jane, não é possível que não tenha percebido nada? Se me desse um pequeno indício estaria dentro de seu pijama imediatamente.

—Estas louco? —disse.

—Não. —Apertou os dentes— Estou muito, muito lúcido.

Enfrentado a sensual expressão de noite de verão, o cérebro da Jane foi de férias. Simplesmente saiu voando de seu crânio.

—Não parece correto —balbuciou.

—Seríamos discretos.

—Brigamos. —Que demônios saía de sua boca?

—Eu sei. —Sorrio curvando os lábios carnudos—Eu gosto disso, ninguém me enfrenta, exceto você.

Olhou-o por cima do paciente, até então atônita, que não sabia o que dizer. Deus, tinha passado tanto tempo desde a última vez que tinha havido um homem em sua vida. Em sua cama. Em sua cabeça. Tanto condenado tempo. Eram anos desde que ia para seu lar no condomínio, tomar banho sozinha, deitar-se sozinha, despertar só e ir para o trabalho sozinha. Com ambos os pais mortos, não tinha família e devido às horas que passava no hospital, nenhum círculo externo de amigos. A única pessoa com a que realmente falava era… bom, Manello.

Enquanto o olhava agora, lhe ocorreu que essa era realmente a razão pela qual partia, embora não somente porque se interpunha em seu caminho no departamento. Em algum nível sabia que esta conversa íntima chegaria, e tinha querido correr antes de que o fizesse.

—O silêncio —murmurou Manello— não é algo bom neste momento, a menos que esteja tratando de expressar algo assim como “Manello amei você durante anos, vamos a seu apartamento e passemos os próximos quatro dias na posição horizontal”

—Já é amanhã —disse automaticamente.

—Posso dizer que estou doente. Dizer que tenho essa gripe. E como seu chefe, posso te ordenar que faça o mesmo —se inclinou sobre o paciente— Não vá para Columbia amanhã. Não vá. Vejamos até onde podemos levar isto.

Jane olhou para baixo e compreendeu que estava olhando fixamente as mãos de Manny… suas fortes e largas mãos, que tinham curado tantos quadris, ombros e joelhos, salvando as carreiras e a felicidade tanto de atletas profissionais e aficionados por isso. E não somente operava os jovens e atléticos. Também tinha conservado a mobilidade dos anciões, os feridos e os afetados pelo câncer, ajudando a muitos a manter a função de seus braços e pernas.



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