J. R. Ward Amante Liberado



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GLOSSÁRIO

A Irmandade da Adaga Negra

Guerreiros vampiros altamente treinados que protegem aos de sua espécie contra a Lessening Society. Como conseqüência da seleção genética de sua raça, os Irmãos possuem uma imensa força física e mental, assim como uma extraordinária capacidade regenerativa —podendo recuperar-se de suas feridas de uma maneira assombrosamente rápida. Normalmente não estão unidos por vínculos de parentesco, e são introduzidos na Irmandade mediante a proposta de outros Irmãos. Agressivos, auto-suficientes e reservados, vivem separados do resto dos civis, mantendo apenas contato com os membros de outras classes, exceto quando precisam alimentar-se. São objeto de lenda e reverência dentro do mundo dos vampiros.


Escravo de sangue.

Homem ou mulher vampiro que sujeita sua existência às necessidades alimentícias de outro vampiro. O costume de possuir escravos de sangue foi suspensa há muito tempo, mas ainda não foi abolida.


Escolhida.

Mulher vampiro que foi criada para servir à Virgem Escriba. São consideradas membros da aristocracia, embora seu enfoque seja mais espiritual que temporário. Sua interação com os homens é virtualmente inexistente, mas podem emparelhar-se por ordem da Virgem Escriba para propagar sua espécie. Possuem o dom da videncia.


Doggen.

Constituem a servidão do mundo vampírico. São fiéis a estritas tradições a respeito de como servir a seus superiores e obedecem a um conservador código de comportamento e vestuário. Podem caminhar sob a luz do sol mas envelhecem relativamente rápido. Sua média de vida é de uns quinhentos anos.


O Fade.

Reino atemporal onde os mortos se reunem com seus entes queridos para passar juntos o resto da eternidade.


Família Principal.

Composta pelo Rei e a Rinha dos vampiros e sua descendência.


Hellren.

Vampiro macho que se emparelhou com uma fêmea. Está permitido que os homens possam ter mais de uma companheira.


Leelan.

Adjetivo carinhoso que se traduz como o/a mais querido/a.


Lessening Society.

Ordem ou organização de assassinos reunida pelo Omega com o propósito de erradicar as espécies vampíricas.


Lesser.

Humanos sem alma, membros da Lessening Society, que se dedicam a exterminar os vampiros. Permanecem eternamente jovens e só pode lhes matar cravando uma adaga no peito. Não comem nem bebem e são impotentes. À medida que passa o tempo, sua pele, cabelo e olhos, perdem pigmentação até que ficam completamente albinos. Soltam um aroma muito parecido ao talco. Quando ingressam na Sociedade —introduzidos pelo Omega— ele lhes extrai o coração e o conserva em um pote de cerâmica.




Período de zelo.

Período de fertilidade das mulheres vampiro. Dura em torno de dois dias e é acompanhado de um forte desejo sexual. Produz-se, aproximadamente, cinco anos depois da transição feminina e, posteriormente, uma vez a cada dez anos. Durante o período de zelo, todos os machos respondem, em maior ou menor medida, à chamada da fêmea o que pode provocar conflitos e brigas entre os mesmos, especialmente quando a fêmea não está emparelhada.


O Omega.

Ente místico e malévolo que quer exterminar à raça vampírica pelo ressentimento que tem para com a Virgem Escriba. Existe em um reino atemporal e possui enormes poderes, embora não o da criação.


Princeps.

A casta mais alta da aristocracia vampírica, só superado pelos membros da Família Principal ou pela do Eleito da Virgem Escriba. É uma casta que se tem por nascimento, sem que possa ser concedido com posterioridade.


Pyrocant.

Termo referido à debilidade vital que pode sofrer todo indivíduo. Esta debilidade pode ser interna, como por exemplo um vício, ou externa, como um amante.


Rythe.

Rito pelo que se tenta apaziguar aquele/aquela cuja honra foi ofendido. Se o rythe é aceito, o ofendido escolhe arma e golpeará com ela ao ofensor, que acudirá desarmado.


A Virgem Escriba.

Força mística conselheira do Rei, guardiã dos arquivos vampíricos e dispensadora de privilégios. Existe em um reino atemporal e tem enormes poderes. Lhe concedeu o dom um único ato de criação que foi o que utilizou para dar vida aos vampiros.


Shellan.

Vampiro fêmea que se emparelhou com um macho. As mulheres vampiros não podem emparelhar-se com mais de um companheiro devido à natureza dominante e territorial destes.


A Tumba.

Cripta sagrada da Irmandade da Adaga Negra. Utilizada como convocação cerimoniosa e como armazém para os potes dos lessers. As cerimônias ali realizadas incluem iniciações, funerais e ações disciplinadoras contra os Irmãos. Ninguém pode entrar, exceto os membros da Irmandade, a Virgem Escriba, ou os candidatos à iniciação.



Transição.

Momento crítico na vida de um vampiro no qual ele ou ela se transforma em adulto. Depois da transição, o novo vampiro deve beber sangue do sexo oposto para sobreviver e, a partir desse momento, não pode suportar a luz do sol. Geralmente ocorre na idade de vinte e cinco anos. Alguns vampiros não sobrevivem a este momento, especialmente os varões. Previamente à transição, os vampiros são fracos fisicamente, sexualmente ignorantes e incapazes de desmaterializarse.


Vampiro.

Membro de uma espécie diferente da humana. Para sobreviver devem beber sangue do sexo oposto. O sangue humano os mantém com vida, embora a força que lhes outorga não dura muito tempo. Uma vez que superam a transição, são incapazes de expor-se à luz do sol e devem alimentar-se obtendo o sangue diretamente da veia. Os vampiros não podem transformar aos humanos com uma mordida ou através de uma transfusão, e em raras ocasiões podem reproduzir-se com membros de outras espécies. Podem desmaterializar-se a vontade, mas para isso devem estar calmos, concentrados e não vestir ou carregar nada pesado. São capazes de apagar as lembranças dos humanos, sempre que essas lembranças não sejam distantes. Alguns vampiros podem ler a mente. A esperança de vida é indeterminável.


PRÓLOGO
Greenwich Country Day School

Greenwich, Connecticut

Vinte anos atrás.
—Pegue-a já Jane.

Jane Whitcomb pegou a mochila.

—Vem, não é?

—Disse-lhe isso esta manhã. Sim.

—OK. —Jane olhou sua amiga dirigir-se abaixo pela calçada até que soou uma buzina. Endireitando a jaqueta, ergueu os ombros e se voltou para o Mercêdes-benz. Sua mãe estava olhando fixamente pelo vidro do acompanhante, com o cenho franzido.

Jane se apressou a cruzar a rua, a chamativa mochila que continha o contrabando fazendo muito ruído, em sua opinião. Saltou para o assento traseiro e escondeu a coisa sob seus pés. O carro começou a rodar antes que tivesse fechado a porta.

—Seu pai virá para casa esta noite.

—O que? —Jane subiu os óculos sobre o nariz— Quando?

—Esta noite. Assim temo que…

—Não! Prometeu!

Sua mãe olhou por cima do ombro.

—Espero suas desculpas, jovenzinha.

Jane exclamou.

—Prometeu isso para meu aniversário de treze anos, supunha-se que Katie e Lucy…

—Já liguei para suas mães.

Jane se deixou cair contra assento do carro.

A mãe levantou os olhos para o espelho retrovisor.

—Tira essa expressão de seu rosto, por favor. Crê que é mais importante que seu pai? Realmente?

—É obvio que não. Ele é Deus.

O Mercedes se desviou para a sarjeta com uma sacudida e os freios chiaram. Sua mãe se virou, levantou a mão, e sustentou a pose, com o braço tremendo.

Jane se encolheu aterrada.

Depois de um momento de indecisa violência, sua mãe se voltou, alisando o cabelo perfeitamente penteado com a palma de sua mão, que se via tão firme como a água fervente.

—Você… não se reunirá conosco para o jantar desta noite. E me desfarei do bolo.

O carro começou a andar novamente.

Jane enxugou as bochechas e baixou a vista para a mochila. Nunca tinha dormido fora de casa antes. Tinha rogado por meses.

Arruinado. Agora tudo estava arruinado.

Permaneceram em silêncio todo o caminho de volta para casa, e quando o Mercedes estacionou na garagem a mãe de Jane saiu do carro e caminhou para a casa sem olhar para trás.

—Já sabe aonde ir. —foi tudo o que disse.

Jane ficou no carro, tratando de recompor-se. Logo pegou a mochila e os livros e se arrastou através da cozinha. Richard, o cozinheiro, estava inclinado sobre a lata do lixo atirando um bolo decorado com uma cobertura de açúcar e flores de cor vermelha e amarela.

Não disse nada a Richard porque tinha a garganta apertada como um punho. Richard não lhe disse nada porque não a apreciava. Não apreciava ninguém à exceção de Hannah.

Enquanto Jane passava pela porta de serviço dirigindo-se a sala de jantar, não queria encontrar-se com sua irmã mais nova e rezou para que Hannah estivesse na cama. Havia se sentido doente essa manhã. Provavelmente porque tinha que fazer um resumo a respeito de um livro.

No caminho para a escada, Jane viu sua mãe na sala.

As almofadas da poltrona. Outra vez.

Sua mãe ainda usava o casaco de lã azul pálido e tinha o cachecol de seda na mão, e sem lugar a dúvida ia ficar vestida assim até que estivesse satisfeita com a forma que luziam as almofadas. O que poderia demorar um pouco. Os padrões com os quais as comparavam eram os mesmos padrões que para o cabelo: suavidade total.

Jane subiu a seu quarto. A única esperança a estas alturas era que seu pai chegasse depois do jantar. Dessa maneira, embora se inteirasse de que fora castigada, ao menos não teria que observar seu assento vazio. Como sua mãe, odiava algo desconjurado, e que Jane não estar na mesa de jantar era algo totalmente desconjurado.

A extensão do sermão que ouviria dele seria mais maior dessa forma, porque teria que incluir ambas as coisas, tanto a decepção que lhe causava à família com sua ausência no jantar, como também o fato de que tinha sido mal educada com sua mãe.

No segundo andar, o quarto amarelo dourado de Jane era como todo o resto da casa: suave como o cabelo e as almofadas da poltrona e a forma como falavam as pessoas. Nada desconjurado. Tudo era de classe de congelada perfeição como o que se via nas revistas sobre casas.

A única que não se encaixava era Hannah.

Colocou a mochila no armário, sobre os mocassins e os Mary Janes1, logo Jane trocou o uniforme do instituto por uma camisola de flanela Lanz. Não havia razão para vestir-se. Não ia a nenhum lugar.

Levou a pilha de livros para a branca mesa. Tinha lição de inglês. Álgebra. Francês.

Olhou para seu mesinha de cabeceira. Noites da Arábia a esperavam.

Não podia pensar em uma forma melhor de passar o castigo, mas os deveres vinham primeiro. Tinha que ser assim. Se não, se sentiria muito culpada.

Duas horas depois estava na cama com Noites sobre o colo quando se abriu a porta e apareceu a cabeça de Hannah. Seu encaracolado cabelo ruivo era outra raridade. O resto deles eram loiros.

—Trouxe comida.

Jane se sentou, preocupada com sua irmã mais nova.

—se meterá em problemas.

—Não, isso não ocorrerá. —Hannah deslizou para dentro, levando uma pequena cesta na mão com um guardanapo de tecido, um sanduiche, uma maçã e uma bolacha— Richard me deu isso para que pudesse tomar um lanche durante a noite.

—E o que tem você?

—Não tenho fome. Aqui tem muito.

—Obrigada, então. —Jane tomou a cesta enquanto Hannah se sentava ao pé da cama.

—Então o que foi o que fez?

Jane sacudiu a cabeça e mordeu o sanduiche de rosbife.

—Zanguei-me com mamãe.

—Porque não podia ter sua festa?

—Uh-huh.

—Bom… tenho algo para animar você. —Hannah deslizou um pedaço de cartolina dobrada sobre o edredom— feliz aniversário!

Jane olhou o cartão e piscou rapidamente um par de vezes.

—Obrigada….

—Não fique triste, eu estou aqui. Olhe seu cartão! Fiz-o para você.

No frente, desenhadas com a torpe mão de sua irmã, havia duas figuras juntas. Alguém tinha cabelo murcho e loiro e a palavra Jane escrita debaixo. A outra tinha cabelo ruivo encaracolado e tinha o nome Hannah a seus pés. Estavam de mãos dadas e tinham amplos sorrisos sobre os redondos rostos.

Justo quando Jane ia abrir o cartão, um par de faróis deslizaram pelo fronte da casa e começaram a avançar pela entrada de carros.

—Papai está em casa —vaiou Jane— Será melhor que saia daqui.

Hannah não parecia tão preocupada como estaria habitualmente, provavelmente porque não se sentia bem. Ou talvez estivesse distraída com… bom, com o que fosse que Hannah se distraí. Passava a maior parte do tempo sonhando acordada, provavelmente era por isso que estava feliz todo o tempo.

—Vai, sério.

—Certo. Mas realmente lamento que tenha ficado sem sua festa. —Hannah se arrastou para a porta.

—Hey. Eu gostei do cartão.

—Não olhou dentro ainda.

—Não tenho que fazê-lo. Eu gosto porque você o fez para mim.

O rosto da Hannah revelou um de seus sorrisos de margarida, do tipo que lembrava a Jane os dias ensolarados.

—É a respeito de você e de mim.

Enquanto a porta se fechava, Jane escutou as vozes de seus pais que subiam o vestíbulo. Velozmente comeu o lanche da Hannah, colocou a cesta entre as dobras das cortinas próximas à cama, e foi para a pilha de livros escolar. Pegou o livro Memórias do Clube Pickwick de Charles Dickens e o levou para cama com ela. imaginava que se estivesse trabalhando em coisas do instituto quando seu pai entrasse, ganharia alguns pontos a seu favor.

Seus pais subiram uma hora depois e se esticou, esperando que seu pai a chamasse. Não o fez.

O que era estranho. Era, em seu caráter dominante, tão confiável como um relógio, e havia um estranho consolo em seu caráter previsível, embora não gostasse de lidar com ele.

Deixou de lado Pickwick, apagou a luz, e colocou as pernas sob o edredom com babados. Deitada sob o dossel da cama não podia dormir, e eventualmente escutou o relógio do avô que estava na parte superior da escada tocar doze vezes.

Meia-noite.

Saindo da cama, foi para o armário, tirou a mochila e a abriu. O tabuleiro da Ouija caiu para fora, abrindo-se e aterrissando de barriga para cima sobre o chão. Pegou-o com rapidez, como se pudesse haver quebrado algo e logo tomou o ponteiro.

Ela e seus amigas tinham estado esperando para jogar esse jogo porque todas queriam saber com quem iriam se casar. Jane gostava de um menino chamado Victor Browne, que estava em sua classe de matemática. Ultimamente tinham conversado um pouco, e realmente pensava que poderiam formar um casal. O problema era que não estava certa do que ele sentia por ela. Talvez só o agradasse porque lhe dava todas as respostas.

Jane deixou o tabuleiro sobre a cama, descansou as mãos no ponteiro e deu uma profunda inspiração.

—Qual é o nome do menino com o que vou casar?

Não esperava que a coisa se movesse. E não o fez.

Depois de tentá-lo um par de vezes mais se recostou para trás frustrada. Depois de um minuto bateu a parede atrás da cabeceira. Sua irmã devolveu o golpe, e um pouco depois Hannah entrava às escondidas através da porta. Quando viu o jogo, entusiasmou-se e saltou sobre a cama, fazendo ricochetear o ponteiro no ar.

—Como se joga?

—Shhh! —Deus, se as apanhavam assim, seriam realmente castigadas. Por toda vida.

—Sinto muito. —Hannah subiu as pernas e se abraçou a elas para evitar voltar a colocar a mão— Como…?

—Faz perguntas e ele diz as respostas.

—O que podemos perguntar?

—Com quem vamos nos casar. —Certo, agora Jane estava nervosa. O que aconteceria se resposta não fosse Víctor?— Comecemos com você. Ponha os dedos sobre o ponteiro, mas não empurre nem nada. Só… assim, sim. OK… Com quem vai casar a Hannah?

O ponteiro não se moveu. Mesmo depois de Jane repetir a pergunta.

—Está quebrado. —disse Hannah, tirando as mãos.

—Me deixe provar com outra pergunta. Ponha as mãos outra vez. —Jane inspirou profundamente— Com quem eu vou casar?

Um leve som de chiaso se elevou do tabuleiro quando o ponteiro começou a mover-se. Quando descansou sobre a letra V, Jane tremeu. Com o coração na garganta, observou-o mover-se para a letra I.

—É Víctor! —disse Hannah— É Víctor! Vai se casar com Víctor!

Jane não se incomodou em fazer calar sua irmã. Isto era muito bom para ser ver…

O ponteiro aterrissou sobre a letra S. S?

—Isto está errado. —disse Jane tem que estar errado…

—Não pare. Vejamos quem é.

Mas se não era Víctor, não sabia quem poderia ser. E que tipo de menino tinha um nome como Vis…

Jane lutou para redireccionar o ponteiro, mas insistia em ir para a letra H. Logo O, U e outra vez a S.

VISHOUS.

O temor revestiu o interior das costelas de Jane.

—Disse a você que estava quebrado. —murmurou Hannah— Quem se chama Vishous?

Jane apartou a vista do tabuleiro, logo se deixou cair para trás sobre os travesseiros. Este era o pior aniversário que tinha tido.

—Talvez deveríamos tentar de novo. —disse Hannah. Quando Jane duvidou, franziu o cenho— Vamos, eu também quero uma resposta. É o justo.

Voltaram a pôr os dedos sobre o ponteiro.

—O que me darão de presente de Natal? —perguntou Hannah.

O ponteiro não se moveu.

—Tenta uma pergunta que implique um sim ou um não para começar .—disse Jane ainda assustada pela palavra que tinha saído a ela. Talvez o tabuleiro não soubesse soletrar?

—Me darão de presente algo no Natal? —disse Hannah.

O ponteiro começou a chiar.

—Espero que seja um cavalo. —murmurou Hannah enquanto o ponteiro fazia um círculo— Devi ter perguntado isso.

O ponteiro se deteve no não.

Ambas o olharam fixamente.

Hannah abraçou a si mesma.

—Eu também quero presentes.

—É só um jogo. —disse Jane, fechando o tabuleiro— Além disso, a coisa na verdade está quebrada. Ele caiu.

—Quero presentes.

Jane se estirou e abraçou a sua irmã.

—Não se preocupe pelo estúpido tabuleiro. Eu sempre compro algo para você no Natal.

Um momento mais tarde quando Hannah se foi, Jane voltou a meter-se entre os lençóis.

Estúpido tabuleiro. Estúpido aniversário. Estúpido tudo.

Enquanto fechava os olhos, deu-se conta que nunca tinha olhado o cartão de sua irmã. Reacendeu a luz e o recolheu da mesinha de cabeceira. Dentro dizia, Sempre estaremos juntas pelas mãos! Amo você! Hannah!

Essa resposta que lhes tinha dado a respeito do Natal estava completamente equivocado. Todo mundo amava a Hannah e lhe comprava presentes.Em algumas ocasiões até podia influenciar seu pai, e ninguém mais podia fazer isso. Assim era certo que lhe dariam presente.

Estúpido tabuleiro…

Depois de um momento Jane dormiu. Devia havê-lo feito, porque Hannah a despertou.

—Está tudo bem? —disse Jane, sentando-se. Sua irmã estava de pé junto à cama vestindo a camisola de flanela, e com uma estranha expressão no rosto.

—Devo ir. —a voz de Hannah era triste.

—Ao banheiro? Vai vomitar? —Jane apartou as mantas—. Irei com…

—Não pode. —suspirou Hannah— Devo ir.

—Bom, se o desejar, quando terminar de fazer o que tem que fazer, pode voltar aqui para dormir.

Hannah olhou para a porta.

—Estou assustada.

—Estar doente sempre assusta. Mas sempre pode contar comigo.

—Devo ir. —quando Hannah olhou para trás, via-se… maior, de certa forma. Nada há ver com os dez anos que tinha— Tratarei de voltar. Esforçarei-me por fazê-lo.

—Um… certo. —Talvez sua irmã tinha febre ou algo assim?— Quer que vá despertar a mamãe?

Hannah negou com a cabeça.

—Só queria ver você. Volte a dormir.

Quando Hannah se foi, Jane se afundou entre os travesseiros. Pensou em ir ver como estava sua irmã no banheiro, mas o sono a reclamou antes que pudesse seguir esse impulso.

Na manhã seguinte Jane despertou com o som de fortes pisadas correndo pelo corredor. A princípio assumiu que alguém tinha atirado algo que estava deixando uma mancha no tapete ou sobre uma cadeira ou uma colcha. Mas logo ouviu as sirenes da ambulância no caminho de entrada.

Jane saiu da cama, olhou pelas janelas dianteiras, logo colocou a cabeça no corredor. Seu pai estava falando com alguém na parte de baixo, e a porta do quarto de Hannah estava aberta.

Na ponta dos pés, Jane caminhou pelo tapete oriental, pensando que habitualmente sua irmã nunca se levantava tão cedo aos sábados. Devia sentir-se realmente doente.

Deteve-se na porta. Hannah jazia sobre a cama, com os olhos abertos fixos no céu raso, a pele tão branca como os antigos lençóis brancos como a neve sobre as que estava estendida.

Não piscava.

Na canto oposto do quarto, tão longe como lhe era possível de Hannah, sua mãe estava sentada no assento da janela, com o vestido de seda cor marfim formando redemoinhos ao seu redor.

—Volte para a cama. Agora.

Jane correu a seu quarto. Justo quando fechava a porta, viu seu pai subir a escada com dois homens de uniforme azul marinho. Estava falando com autoridade e ouviu as palavras congênita coração algo.

Jane saltou sobre a cama e cobriu a cabeça com os lençóis. Enquanto tremia na escuridão, sentiu-se muito pequena e muito assustada.

O tabuleiro tinha razão. Hannah não teria presentes de Natal e não se casaria com ninguém.

Mas a irmã mais nova de Jane cumpriu sua promessa. Sim, ela retornou.

CAPÍTULO 1

—Não me sinto nada bem com esta calça de couro.

Vishous levantou a vista do grupo de computadores. Butch Ou’Neal estava de pé na sala do Pit com um par de calças de couro sobre as coxas e uma expressão de deve estar brincando no rosto.

—Não ficaramm bem? —perguntou V a seu companheiro de quarto.

—Esse não é o problema. Não se ofenda, mas são raros os que gostam de se vestir como os Village People —Butch levantou os fortes braços e caminhou em círculo, a luz refletindo-se em seu peito nu— Quero dizer, olha isso.

—São para lutar, não para estar na moda.

—Também são as saias escocesas, mas não me vê enrolando um tartán.

—E dou graças a Deus por isso. Tem as pernas muito arqueadas para pôr essa merda.

Butch assumiu uma expressão aborrecida.

—Me morda o traseiro.

Eu gostaria, pensou V.

Encolhendo os ombros foi em busca de seu pacote de tabaco turco. Enquanto tirava o papel para enrolar, depositava uma linha, e a atava até transformá-la em um cigarro, fez o que passava muito tempo fazendo: recordou a si mesmo que Butch estava felizmente emparelhado com o amor de sua vida, e que, mesmo que não estivesse, ele não jogava nesse time.

Enquanto o acendia e inalava, tratou de não olhar o poli e falhou. Maldita visão periférica. Sempre acontecia o mesmo.

Homem, era um estranho pervertido. Especialmente dado quão unidos estavam. Nos últimos nove meses se aproximou do Butch mais que a ninguém que tivesse conhecido em seus trezentos anos de vida. Morava com o macho, embebedava-se com ele, exercitava-se com ele. Tinha atravessado a morte, vida, profecias e destino com ele. Tinha-o ajudado a romper as leis da natureza para converter o cara de humano a vampiro, além disso o curava quando usava seu poder especial com os inimigos da raça. Também o tinha proposto como membro da Irmandade… e esteve a seu lado quando se emparelhou com sua shellan.

Enquanto Butch passeava como se estivesse tratando de acostumar-se às calças de couro, V olhou fixamente as sete letras que estavam gravadas em suas costas em idioma antigo: MARISSA. V tinha gravado os dois A, e tinham ficado bem, apesar do fato de sua mão tremer todo o tempo.

—Sim. —disse Butch— Não estou certo de que me assentam direito.

Depois da cerimônia de emparelhamento, V tinha desocupado o Pit nesse dia para que o feliz casal tivesse privacidade. Foi-se cruzando o pátio do Complexo e se encerrou no quarto de hóspedes da mansão com três garrafas de Grei Goose. Embebedou-se até saturar-se, realmente, alagado como um cultivo de arroz, mas não tinha conseguido alcançar a meta de desmaiar. A verdade o tinha mantido implacavelmente acordado: V estava ligado a seu companheiro de quarto de uma forma que complicava as coisas mas que ainda assim não mudava nada.

Butch sabia o que acontecia. Demônios, eram os melhores amigos, e ele podia ler V melhor que qualquer outra pessoa. E Marissa sabia porque não era estúpida. E a Irmandade sabia porque esses estúpidos fofoqueiros idiotas nunca o deixavam manter segredos.

Todos estavam tranqüilos a respeito disso.

Ele não. Não podia suportar as emoções. Nem a si mesmo.

—Vai provar o resto do equipamento? —perguntou enquanto exalava— Ou quer se queixar um pouco mais pelas calças?

—Não me provoque que soco você.

—Por que se privar de seu passatempo favorito?

—Porque estão começando a doer meus dedos. —Butch caminhou por volta de uma das poltronas e recolheu o arnês para o peito. Ao deslizá-lo pelos amplos ombros, o couro perfilou seu torso à perfeição— Merda, como fazem para que ajuste tão bem?

—Tomei as medidas, recorda?

Butch o fechou em seu lugar, se inclinou e passou a ponta dos dedos ao longo da tampa de uma caixa negra laqueada. Atrasou-se sobre as letras da Irmandade da Adaga Negra, logo riscou os caracteres na Antiga Língua que soletravam Dhestroyer, descendente de Wrath, filho de Wrath.

O novo nome de Butch. A antiga e nobre linhagem de Butch.

—OH, merda, abre-o. —V esmagou o cigarro, enrolou outro, e o acendeu. Homem, era bom que os vampiros não pudessem ter câncer. Ultimamente tinha estado fumando um após o outro como um criminoso— De uma vez.

—Ainda não posso acreditar.

—Só abre a condenada coisa.

—Realmente não posso…

—Abre-a. —a estas alturas, V estava suficientemente irritado para sair levitando da maldita cadeira.

O poli acionou o mecanismo de ouro maciço da fechadura e levantou a tampa. Sobre uma base de cetim vermelho havia quatro adagas iguais de lâmina negra, cada uma precisamente calibrada para o físico de Butch, afiadas com um fio mortal.

—Santa María, Mãe de Deus… são lindas.

—Obrigado. —disse V ao exalar— Também faço um pão excelente.

Os olhos cor avelã do poli dispararam ao outro lado da sala.

—As fez para mim?

—Sim, mas não é grande coisa. Fiz para todos nós. —V levantou a mão direita enluvada— Como sabe, sou bom com o calor.

—V… obrigado.

—Não há necessidade. Como disse, sou o homem das espadas. Faço-as todo o tempo.

Sim… só que talvez não com tanta concentração. Para Butch, passou quatro dias seguidos trabalhando nelas. Uma maratona de dezesseis horas trabalhando com sua maldita mão brilhante sobre o aço misto tinham provocado dor nas costas e que se cansassem os olhos, mas maldita seja, tinha estado decidido a obter que cada uma fosse digna do macho que as empunharia.

Ainda não eram o suficientemente boas.

O poli tirou uma das adagas, e enquanto a sustentava na palma da mão seus olhos brilharam.

—Jesus… sente esta coisa. —começou a oscilar a arma para trás e para frente de seu peito— Nunca segurei nada tão bem feito. E o punho. Deus… é perfeito.

A adulação agradou V mais que qualquer outra que tivesse recebido antes.

Por isso o irritou como a merda.

—Sim, bom, supõe-se que são assim, certo? —esmagou o cigarro no cinzeiro, oprimindo o frágil brilho da ponta— Não tem sentido que saia ao campo de batalha com um jogo de Ginsu2.

—Obrigado.

—Tudo bem.

—V, sério…

—Que se foda. —Quando não houve uma resposta rápida, levantou a vista.

Merda. Butch estava de pé frente a ele, os olhos cor avelã do poli obscurecidos com um conhecimento do que V não queria que ele fosse consciente.

V baixou a vista para o acendedor.

—Como é, poli, são só facas.

A negra ponta da adaga deslizou sob o queixo de V e lhe empurrou a cabeça para cima. Ao ser forçado a encontrar o olhar de Butch, o corpo de V se esticou. Logo ficou a tremer.

Com a arma unindo-os, Butch disse:

—São perfeitas.

V fechou os olhos, desprezando a si mesmo. Logo deliberadamente se apoiou na folha para que mordesse sua garganta. Tragandoa labareda de dor, absorveu-a em suas vísceras, usando-a como um aviso de que era um fodido estranho, e os estranhos se mereciam ser feridos.

—Vishous, me olhe.

—Me deixe em paz.

—Me obrigue.

Por meio segundo V quase se lançou para ele, preparado para bater no bastardo. Mas logo Butch disse:

—Só estou agradecendo por fazer algo bom. Não é a uma grande coisa.

Não era grande puta coisa? Os olhos de V relampejaram e os sentiu flamejar.

—Isso é mentira. Por razões das quais é muito fodidamente consciente.

Butch retirou a lâmina, e quando o braço do macho caiu, V sentiu uma gota de sangue lhe correr pelo pescoço. Era cálida… e suave como um beijo.

—Não diga que sente muito. —murmurou V no silêncio— Sou propenso a me pôr violento.

—Mas é verdade.

—Não há nada pelo que pedir desculpas. —homem, já não podia suportar viver ali com Butch. Entendam isso como Butch e Marissa. O constante aviso do que não podia ter e não devia desejar estava matando-o. E Cristo sabia que já estava em péssima forma. Quando tinha sido a última vez que tinha dormido durante o dia? Não desde fazia semanas e semanas.

Butch embainhou a lâmina no arnês do peito, com a ponta para baixo.

—Não quero que se sinta mal…

—De maneira nenhuma vamos discutir mais sobre isto. —ficando o dedo indicador na garganta, V enxaguou o sangue provocado pela lâmina que tinha forjado. Enquanto o lambia, a porta oculta que levava ao túnel subterrâneo se abriu e o aroma do oceano encheu o Pit.

Marissa apareceu em um canto, vendo-se tão bem como Grace Kelly como era habitual. Com o longo cabelo loiro e o rosto perfeitamente formado, era conhecida por ser a grande beleza da raça, e até V, que não gostava do tipo, devia reconhecê-lo.

—Olá, meninos… —Marissa se deteve e olhou fixamente para Butch— Deus… querido… olhe essas calças.

Butch se encolheu.

—Sim, sei. São…

—Pode vir aqui? —começou a retroceder pelo vestíbulo para o corredor que levava a seu dormitório— Necessito que venha comigo um minuto. Ou dez.

O aroma da vinculação de Butch flamejou até transformar-se em um apagado rugido, e V soube perfeitamente bem que o corpo dele estava endurecendo para o sexo.

—Carinho, pode me ter tanto tempo quanto desejar.

Quando estava saindo da sala, o poli lançou um olhar sobre seu ombro.

—Sinto-me muito bem com estas calças de couro. Diga ao Fritz que quero cinqüenta dessas, o mais rápido possível.

Quando o deixaram sozinho, Vishous se inclinou sobre o Alpine3 e pôs Music is my Savior do MIM’S. Enquanto o rap ressoava, pensou em como estava acostumado a usar essa merda para afogar os pensamentos das demais pessoas. Agora que suas visões terminaram e todo o assunto de ler a mente tinha feito Poof! Usava esses sons graves para evitar ouvir seu companheiro de quarto fazendo amor.

V esfregou o rosto. Realmente tinha que sair dali. Por um tempo tratou de fazer que se mudassem, mas Marissa sustentava que o Pit era “acolhedor” e que gostava de viver ali. O que tinha que ser mentira. A metade da sala estava ocupada pelo pimbolim, ESPN4 estava na TV sem som as vinte e quatro horas dos sete dias da semana, e sempre estava soando o rap duro. O geladeira era uma zona mitiralitar marcada com baixas podres de Taco Hell e Arby’S. O Grei Goose e o Lagavulin eram as únicas bebidas que havia na casa. O material de leitura se limitava ao Sports Illustrated e… bom, mais edições do Sports Illustrated.

Assim, sim, por aí não havia um monte de adoráveis patinhos e coelhinhos. O lugar era em parte uma fraternidade e em parte um vestuário. Decorado pelo Derek Jeter5.

E no que se refería a Butch? Quando V tinha sugerido um pouco de ação com a compainha de mudança O-Haul6, o poli tinha dirigido um olhar imparcial a ele através da poltrona, tinha sacudido a cabeça uma vez, e tinha partido para a cozinha para procurar mais Lagavulin.

V se recusava a acreditar que ficavam porque estavam preocupados com ele ou alguma porcaria assim. A mesma idéia o deixava louco.

Ficou de pé. Se ia haver uma separação, ia ter que ser ele a dar o primeiro passo. O problema era, que não ter Butch a seu redor todo o tempo… era impensável. Era melhor a tortura que padecia agora que o exílio.

Olhou o relógio e imaginou que bem poderia tomar o túnel subterrâneo e dirigir-se à casa grande. Embora o resto da Irmandade da Adaga Negra vivesse nesse monstro recoberto de pedra que era a mansão vizinha, havia muitos quartos desocupados. Talvez devesse provar um para ver se se acostumava. Por alguns de dias.

O pensamento fez que lhe revolvesse o estômago.

Em seu caminho à porta, chegou-lhe um pouco do aroma do vinculo que flutuava do quarto de Butch e Marissa. Quando pensou no que estava ocorrendo ali, seu sangue esquentou inclusive enquanto a vergonha fazia que lhe arrepiasse a pele.

Proferindo uma maldição, caminhou para sua jaqueta de couro e tirou o telefone celular. Enquanto discava, seu peito estava tão quente como um refrigerador de carne, mas ao menos sentia como se estivesse fazendo algo a respeito da obsessão que tinha.

Quando a voz feminina respondeu, V cortou o rouco olá.

—Ao anoitecer. Hoje. Sabe como se vestir, e usará o cabelo afastado do pescoço. O que me diz?

A resposta foi um ronrono de submissão.

—Sim, meu lheage.

V pendurou e atirou o celular sobre o escritório, observando como ricocheteava e terminava repousando contra um dos quatro teclados. À fêmea que tinha escolhido para esta noite gostava das coisas especialmente duras. E ia ter isso.

Porra, verdadeiramente era um pervertido. Até a medula. Um impenitente desviado sexual… que de alguma forma era famoso dentro da raça pelo que era.

Cara, era absurdo, mas bom, os gostos e motivações das fêmeas sempre tinham sido extravagantes. E sua fantástica reputação não era mais significativa para ele do que o eram suas ajudantes. Tudo o que importava era que tivesse voluntárias para suas necessidades sexuais. O que se dissesse dele, só era uma masturbação oral para bocas que precisavam estar ocupadas de alguma forma.

Enquanto caminhava pelo túnel e se dirigia para a mansão estava completamente de saco cheio. Graças à estúpida rotação dos horários que a Irmandade praticava, não estava permitido sair ao campo de batalha essa noite, e odiava isso. Certamente preferia estar caçando e matando os assassinos não mortos que perseguiam a sua raça que estar sentado sobre seu traseiro.

Mas havia formas de fazer desaparecer um caso de frustração sexual.

Para isso pareciam as restrições e os corpos bem dispostos.

Phury entrou na cozinha tamanho industrial da mansão e congelou da forma que se faz quando se enfrenta a uma ferida acidental do tipo das que são muito sangrentas: a sola de seus sapatos ficaram cravadas no chão, sua respiração parou, e seu coração saltou um batimento e logo disparou.

Antes que pudesse dar marcha ré pela porta de serviço, pegaram-no.

Bela, a shellan de seu gêmeo, elevou a vista e sorriu.

—Olá.

—Olá. —Sai. Agora.



Deus, cheirava tão bem.

Ondeou a faca que tinha na mão sobre o peru assado que tinha estado cortando.

—Quer que te faça um sanduiche?

—O que? —disse como um idiota.

—Um sanduiche. —apontou a lâmina ao pão, o pote de maionese quase vazio, a alface e os tomates— Deve ter fome. Não comeu muito na última refeição.

—Ah, Sim… não, não tenho… —seu estômago danificou a mentira ao grunhir como a besta vazia que era. Bastardo.

Bela sacudiu a cabeça e voltou a trabalhar sobre o peito do peru.

—Pegue um prato e sente-se.

OK, isto era a última coisa que precisava. Era melhor ser enterrado vivo que sentar-se a sós na cozinha enquanto ela preparava a comida com suas lindas mãos.

—Phury. —disse sem levantar a vista— Prato. Assento. Agora.

Acessou porque a pesar do fato de que provinha de uma linhagem de guerreiros, de que era um membro da Irmandade e a ultrapassava em peso por umas boas quarenta quilos, era um inútil e um debiloide quando se tratava dela. A shellan de seu gêmeo… a shellan grávida de seu gêmeo… não era alguém a quem Phury se pudesse negar.

Depois de deslizar um prato perto dela, sentou-se sobre a ilhota de mármore e disse a si mesmo que não olhasse suas mãos. Estaria bem sempre e quando não olhasse seus longos e elegantes dedos e suas unhas curtas e limadas e a forma em que…

Merda.

—Juro a você. —disse isso enquanto cortava mais carne do peito— Zsadist quer que me transforme em uma grande casa. Outros treze meses com ele me importunando para que coma e não caberei na piscina. As calças já quase não me entram.



—Você está bem. —Demônios, estava perfeita, com o longo cabelo escuro e os olhos cor safira e o corpo alto e magro. O filho que tinha dentro não se notava exceto pela camiseta folgada, mas a gravidez era óbvia em sua pele brilhante e na forma em que sua mão freqüentemente se dirigia para a parte baixa do estômago.

Sua condição também se fazia evidente na ansiedade atrás dos olhos de Z quando estava ao seu redor. Como as gravidezes vampíricas tinham altas taxas de mortalidade materno/fetal, eram uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo, para os hellren que se vincularam a suas companheiras.

—Sente-se bem? —perguntou Phury. Depois de tudo, Z não era o único que se preocupava com ela.

—Bastante. Canso-me, mas não é tão mau. —lambeu a ponta dos dedos, logo pegou o pote de maionese. Enquanto escavava dentro, a faca fez um ruído de repique, como uma moeda sendo sacudida— Embora Z esteja me deixando louca. nega-se a alimentar-se.

Phury recordou o sabor de seu sangue e desviou o olhar, enquanto alargavam suas presas. Não havia nenhuma nobreza no que sentia por ela, para nada, e como macho que sempre se orgulhou de sua natureza honrável, não podia reconciliar essas emoções com seus princípios.

E o que acontecia de seu lado definitivamente não era recíproco. Tinha-o alimentado uma vez porque precisava desesperadamente e porque era uma fêmea de valor. Não tinha sido porque se sentisse atraída a sustentá-lo ou porque o desejasse.

Não, tudo isso era para seu gêmeo. Desde a primeira noite que tinha conhecido Z, havia-se sentido cativada, e o destino tinha disposto que fosse a que verdadeiramente o salvasse do inferno ao qual tinha estado submetido. Phury podia ter resgatado o corpo de Z desse século em que foi escravo de sangue, mas Bela tinha ressuscitado seu espírito.

O que, é obvio, era uma razão a mais para amá-la.

Demônios, desejava ter um pouco de fumaça vermelha em cima. Tinha deixado o diabólico pacote lá em cima.

—Então, como está? —perguntou enquanto punha finas fatias de peru, e logo empilhava folhas de alface sobre elas— Essa nova prótese ainda está dando problemas?

—Está um pouco melhor, obrigado. —A tecnologia desses dias estava a anos luz de distância do que o tinha sido um século atrás, mas considerando toda a luta que praticava, sua perdida pantorrilha era um constante problema para sua mobilidade.

Perna perdida… sim, está bem, tinha-a perdido. A tinha tirado de um tiro para afastar Z da cadela doente que tinha por Ama. O sacrifício havia valido a pena. Como também o sacrifício de sua felicidade valia a pena para que Z estivesse com a fêmea que ambos amavam.

Bela coroou os sanduichees com outra fatia de pão e deslizou o prato pelo mármore para ele.

—Aqui está.

—Isto é justo o que precisava. —saboreou o momento enquanto lhe cravava os dentes, o pão brando cedendo como se fosse pele. Enquanto engolia, foi atacado pela triste alegria de que lhe tivesse preparado essa comida, e o tivesse feito com um certo tipo de amor.

—Bem. Me alegro. —mordeu seu próprio sanduiche.

—É que… quis perguntar algo a você.

—Sim? Que coisa?

—Como sabe, estive trabalhando no Lugar Seguro com Marissa. É uma organização genial, cheia de gente estupenda… —houve uma longa pausa… do tipo que fazia que se animasse— De qualquer maneira, uma nova assistente social veio para dar conselho às fêmeas e seus filhos —limpou a garganta, secou a boca com um guardanapo de papel— É realmente maravilhosa. Cálida, divertida. Estava pensando que talvez…

OH, Deus.

—Obrigado, mas não.

—É realmente agradável.

—Não, obrigado. —Com a pele de galinha por todo o corpo, começou comer às pressas.

—Phury… sei que não é meu assunto, mas, por que se mantém solteiro?

Merda. Mais rápido com o sanduiche.

—Poderíamos mudar de assunto?

—É devido a Z, certo? O porquê de que nunca tenha estado com uma mulher. É seu sacrifício por ele e seu passado.

—Bela… por favor…

—Tem mais de duzentos anos de idade, e já é tempo de que comece a pensar em você mesmo. Z nunca vai ser completamente normal, e ninguém sabe isso melhor que você e eu. Mas agora está mais estável. E com o tempo vai estar ainda melhor.

Era certo, sempre e quando Bela sobrevivesse a gravidez.

Até que saísse do parto saudável, seu gêmeo não ia sair do bosque. E por extensão, tampouco o faria Phury.

—Por favor deixe que lhe apresente…

—Não. —Phury ficou de pé e mastigou como uma vaca. Os maneiras na mesa eram muito importantes, mas esta conversação tinha que terminar antes que lhe explodisse a cabeça.

—Phury…


—Não quero uma fêmea em minha vida.

—Seria um maravilhoso hellren, Phury.

Limpou a boca no guardanapo de cozinha e disse na Antiga Língua:

—Obrigado por esta comida feita por suas mãos. Bendita noite, Bela, amada companheira de meu gêmeo, Zsadist.

Sentindo-se desprezível por não ajudar a limpar, mas imaginando que era melhor que sofrer um aneurisma, empurrou a porta de serviço e saiu da cozinha. A meio caminho, ao longo da mesa de doze metros de extensão, se sentiu exausto, retirou uma cadeira ao acaso, e se deixou cair sobre ela.

Homem, seu coração estava esmurrando seu peito.

Quando elevou a vista, Vishous estava de pé do outro lado da mesa, olhando-o.

—Cristo!


—Está um pouco tenso, irmão? —Desde um metro e noventa de altura, ele era descendente do grande guerreiro conhecido só como o Bloodletter7, V era um macho imponente. Com os olhos de íris branca com um rebordo azul, o cabelo negro azeviche, e rosto anguloso e ardiloso, poderia ter sido considerado bonito. Mas o cavanhaque e as tatuagens nas têmporas o faziam parecer malvado.

—Tenso não. Nem um pouco. —Phury estendeu as mãos sobre a lustrosa mesa, pensando no néscio que ia acender no instante em que chegasse a seu quarto— Na realidade, ia buscar você.

—Ah, sim?

—Wrath não gostou das vibrações que sentiu na reunião desta manhã —o que era dizer pouco. V e o Rei tinham terminado queixo a queixo em um par de ocasiões, e esse não era o único argumento que voava por aí— Esta noite nos tirou todos da escala. Disse que precisábamos de algo de D&D8, descanço e diversão .

V arqueou as sobrancelhas, parecendo mais inteligente que um grupo de Einsteins. O ar de gênio não era só aparência. O homem falava dezesseis idiomas, desenhava jogos para computador por diversão, e podia recitar os vintes livros das Crônicas de cor. O irmão fazia que Stephen Hawking parecesse um candidato a simples técnico.

—Todos nós? —disse V.

—Sim. Ia ao ZeroSum. Quer vir?

—Acabo de marcar um programa particular.

Ah, sim. A pouco convencional vida sexual de V. Homem, ele e Vishous estavam em extremos opostos do espectro sexual. Ele não sabendo nada, Vishous havendo-o explorado tudo, e a maior parte disso até o extremo… o caminho inacessível e a estrada. E essa não era a única diferença entre eles. Pensando-o bem, não tinham nada em comum.

—Phury?


Sacudiu a si mesmo.

—Sinto muito. O que?

—Disse que sonhei com você uma vez. Faz muitos anos.

OH, Deus. por que não foi direito para seu quarto? Poderia estar acendendo um nesse momento.

—Como foi isso?

V acariciou o cavanhaque.

—Vi você parado em uma encruzilhada sobre um campo imaculado. Era um dia tormentoso… sim, muitas tormentas. Mas quando pegou uma nuvem do céu e a envolveu ao redor do poço, a chuva deixou de cair.

—Sonho poético. —e era um alívio. A maioria das visões de V eram aterradoras como o inferno— Mas carece de sentido.

—Nada do que vejo carece de sentido, e sabe.

—Entendimento então. Como pode alguém envolver um poço? —Phury franziu o cenho— E por que me diz isso agora?

As escuras sobrancelhas de V baixaram sobre seus olhos semelhantes a espelhos.

—Eu… Deus, não tenho nem idéia. Só tinha que dizê-lo. —Com uma grosseira maldição, dirigiu-se à cozinha—Bela ainda está ali?

—Como sabia que estava…?

—Sempre parece destroçado depois de vê-la.

CAPÍTULO 2

Meia hora e um sanduiche de peru depois, V se materializou no terraço de seu apartamento de cobertura particular no centro da cidade. A noite era uma porcaria, com todo o frio de março e a umidade de abril, o amargo vento formando redemoinhos ao seu redor como um bêbado com uma atitude errada. Enquanto permanecia de pé frente ao panorama que ofereciam as pontes gêmeas de Caldwell, a vista de postal da cintilante cidade o aborrecia.

Como também o fazia o projeto que tinha de diversão e jogos para essa noite.

Supunha que era similar ao que ocorria com uma pessoa que tinha sido viciada em cocaína durante muito tempo. No começo o efeito tinha sido intenso, mas agora alimentava seu vício sem nenhum tipo de entusiasmo. Era tudo para acalmar a necessidade e não para obter alívio.

Plantando as palmas das mãos sobre o muro da terraço, apareceu inclinando-se muito para fora e foi golpeado no rosto por uma corrente de ar gelado, seu cabelo voando para trás como um modelo e toda essa merda. Ou talvez… era mais parecido ao super herói das historias. Sim, essa era uma metáfora melhor.

Salvo que ele seria o vilão, não?

Deu-se conta de que suas mãos estavam alisando a plaina pedra sobre a que descansavam, acariciando-a. O muro tinha um metro e meio de altura e percorria ao longo do edifício como o rebordo de uma bandeja de serviço. O bordo era um saliente de um metro de largura rogando ser saltado, para se encontrar com os dez metros de ar que havia do outro lado sendo um perfeito e gracioso prelúdio para que logo a morte o fodesse duramente.

Agora, essa era uma vista que lhe parecia interessante.

Sabia de primeira mão como doce era uma queda livre. Como a força do vento oprimia seu peito, fazendo que fosse difícil respirar. Como choravam os olhos e as lágrimas percorriam suas têmporas, em lugar de descer por suas bochechas. Como a terra se apressava para você para te acolher, uma anfitriã pronta para dar as boas-vindas à festa.

Não estava certo de ter tomado a decisão correta ao decidir salvar-se da vez que tinha saltado. Entretanto, no último momento, havia se desmaterializado para a terraço. De volta… aos braços de Butch.

Maldito Butch. Tudo conduzia sempre para esse filho da puta, isso é o que era.

V deixou de lado o impulso de fazer outro vôo e abriu uma das portas corrediças com a mente. As três paredes de vidro do apartamento de cobertura eram a prova de balas mas não filtravam a luz do sol. Embora o fizesse, não tinha ficado ali para passar o dia.

Isto não era um lar.

Enquanto entrava, o lugar e o que significava pressionaram sobre ele como se a força da gravidade fosse distinta ali. As paredes, o teto e o chão de mármore da aberta extensão de um só quarto eram negros. Como o eram as centenas de velas que podia acender a vontade. A única coisa que podia ser classificada como movel era uma cama extra grande que nunca usava. O resto era equipamento. A mesa com os objetos de sujeição. As algemas embutidas na parede. As máscaras, as mordaças, os chicotes, os fortificações e as algemas. A penteadeira cheio de pesos para mamilos e pinzas de aço e ferramentas de aço inoxidável.

Tudo para as fêmeas.

Tirou a jaqueta de couro e a atirou sobre a cama, logo se desfez da camisa. Sempre conservava as calças de couro durante as sessões. As submissas nunca o viam completamente nu. Ninguém o fazia salvo seus irmãos durante as cerimônias na Tumba, e isso era apenas porque os rituais exigiam.

Como era sua parte inferior não era assunto de ninguém mais.

As velas flamejaram quando mandou, a luz líquida ricocheteando sobre o lustroso chão antes de ser absorvida pelo negrume do teto abovedado. Não havia nada romântico no ar. O lugar era uma cova onde voluntariamente se praticavam atos profanos, e a luz era apenas para assegurar que o couro e o metal, as mãos e as presas fossem postos nos lugares adequados.

Além disso, as velas podiam ser usadas para outros propósitos além da iluminação.

Foi para o bar, serviu-se de dois dedos de Grei Goose, e se apoiou contra a curta extensão do balcão. Havia algumas dentro da raça que pensavam que vir aqui e resistir uma relação sexual com ele era um rito de graduação. Logo havia outras que só podiam obter satisfação com ele. E havia ainda mais que desejavam explorar quanto se podiam mesclar a dor e o sexo.

As do tipo Lewis e Clark9 eram as que lhe interessavam menos.

Habitualmente não podiam suportá-lo e na metade da sessão, tinham que utilizar a palavra certa ou o gesto da mão certo que lhes proporcionava. Sempre as deixava ir prontamente, embora qualquer lágrima tinham que enxugar elas mesmas, não ele. Nove de cada dez vezes queriam tentá-lo de novo, mas isso não era possível. Se quebravam muito facilmente uma vez, provavelmente o voltassem a fazer, e não estava interessado em adestrar pesos leves em seu estilo de vida.

As que podiam suportá-lo-o chamavam lheage e o adoravam, embora não se importasse uma merda com sua reverência. O bordo nele tinha que mitigar-se, e seus corpos eram a pedra que usava para polir-se. Fim da história.

Foi para a parede, levantou uma das correntes de aço, e a deslizou sobre a palma da mão, elo por elo. Embora fosse um sádico por natureza, não se excitava machucando a suas submissas. Seu lado sádico era sustentado com suas matanças de lessers.

O que procurava era o controle de suas mentes e corpos. As coisas que os fazia sexualmente ou de outra forma, as coisas que dizia, o que os fazia ficar… tudo era calibrado cuidadosamente para obter um efeito. Seguro que envolvia dor, e sim, talvez chorassem pela vulnerabilidade e o medo. Mas lhe rogavam por mais.

E os dava, se se sentia com humor para isso.

Deu uma olhada nas máscaras. Sempre colocava máscaras nelas, e nunca deviam tocá-lo a não ser que lhes dissesse onde, como e com o que. Se tinha um orgasmo durante o transcurso de uma sessão, o que era incomum, era recolhido pelas submissas com grande orgulho. Se se alimentava, era só porque tinha que fazê-lo.

Nunca degradava às que iam a esse lugar, nunca as fazia fazer nenhuma das coisas que sabia endemoniadamente bem que alguns dominadores preferiam. Mas não as consolava no começo, no meio ou no final e as sessões só se levavam a cabo sob seus términos. Dizia-lhes onde e quando, e se lhe saíam com alguma merda de ciúmes de proprietária, estavam fora, para sempre.

Consultou o relógio e levantou o mhis que rodeava o apartamento de cobertura. A fêmea que vinha essa noite podia rastreá-lo já que um par de meses antes tinha bebido de sua veia. Quando terminasse com ela, arrumaria-o de forma que se fosse sem lembranças do lugar onde tinha estado.

Embora lembrasse o que tinha ocorrido. As marcas do sexo estariam por todo seu corpo.

Quando a fêmea se materializou no terraço, deu-se a volta. Através das portas corrediças era uma sombra anônima de curvas vestindo um espartilho de couro negro e uma larga e folgada saia negra. Usava o cabelo negro recolhido alto sobre a cabeça, como tinha solicitado.

Sabia esperar. Sabia que não devia chamar.

Abriu a porta com a mente, mas também sabia que não devia entrar sem ter sido chamada.

Deu-lhe uma olhada e captou seu aroma. Estava completamente excitada.

Lhe alargaram as presas, mas não devido a que estivesse particularmente interessado no úmido sexo entre suas pernas. Precisava alimentar-se, e ela era uma fêmea e tinha muitas veias que podia sangrar. Era algo biológico, não algo encantado.

V estendeu o braço e lhe fez gestos com o dedo, adiantou-se, tremendo, como deveria. Essa noite estava de um humor particularmente cáustico.

—Se desfaz dessa saia —disse— Eu não gosto.

Imediatamente abriu o zíper da roupa e a deixou cair sobre o chão em uma corrente de cetim. Debaixo, usava uma cinta negra e meias rematadas em encaixe negro. Não usava calcinhas.

Hmm… Sim. ia tirar essa lingerie de seus quadris cortando-a com uma adaga. Eventualmente.

V caminhou para a parede e tomou uma máscara com somente uma abertura. Se queria ar, ia ter que respirar pela boca.

Atirando-lhe disse:

—Ponha agora.

Cobriu o rosto sem dizer uma palavra.

—Sobe à mesa.

Não a ajudou quando se adiantou desorientada, somente a observou, sabendo que encontraria o caminho. Sempre o faziam. As fêmeas como ela sempre encontravam o caminho à mesa de tortura.

Para passar o tempo tirou um néscio do bolso traseiro, o pôs entre os lábios, e pegou uma vela negra do candelabro. Enquanto acendia o cigarro, olhou fixamente o pequeno atoleiro de cera líquida que havia ao pé da chama.

Comprovou o progresso da fêmea. Bem feito. colocou-se de barriga para cima, com os braços aos lados e as pernas abertas.

depois de atá-la, soube exatamente por onde começar essa noite.

Manteve a vela na mão enquanto dava um passo à frente.

Debaixo das luzes embutidas do ginásio da Irmandade, John Matthew assumiu a posição de início e se focou em seu oponente no treinamento. Ambos estavam tão bem equilibrados como um par de palitos chineses, ambos magros e insubstanciais, fáceis de quebrar. Como o eram todos os pretrans.

Zsadist, o irmão que estava dando a lição de luta corpo a corpo essa noite, assobiou entre dentes, e John e seu companheiro de classe se saudaram com uma reverência. Seu oponente disse a saudação apropriada na Antiga Língua, e John respondeu à declaração usando a linguagem de sinais americano. Logo se engancharam. Pequenas mãos e ossudos braços voaram sem obter grande efeito; os golpes eram lançados como aviões de papel, eram esquivados com pouca desenvoltura. Todos seus movimentos e posições eram sombras do que deveriam ter sido, ecos de trovão, não o grave rugido em si mesmo.

O trovão proveio de outra parte no ginásio.

No meio da ronda, sentiu-se um tremendo WHOOMP! quando um sólido corpo bateu os colchonetes como um saco de areia. Ambos John e seu oponente olharam para lá… logo abandonaram seus pobres intentos de artes marciais mistas.

Zsadist estava trabalhando com o Blaylock, um dos dois melhores amigos do John. O ruivo era o único aluno que tinha passado pela mudança até esse momento, assim tinha o dobro do tamanho que todo o resto da classe. E Z acabava de atirá-lo ao chão.

Blaylock saltou a seus pés e novamente carregou como um soldado de cavalaria, mas só para ser chutado no traseiro novamente. Era grande, mas Z era um gigante além de ser membro da Irmandade da Adaga Negra. Assim Blay estava enfrentando um fodido tanque Sherman de experiência em combate.

Homem, Qhuinn deveria estar lá para ver isso. Onde estava esse cara?

Todos, os onze alunos deixaram escapar um Whoa! quando tranqüilamente Z fez que Blay perdesse o equilíbrio, atirou-o de barriga para cima sobre os colchonetes, e o retorceu com uma presa que lhe retorceu os ossos até a submissão. No mesmo instante que Blay deu uma palmada, Z o soltou.

Enquanto Zsadist parava perto do menino, sua voz soou com o tom mais quente que podia chegar a ter alguma vez.

—Por ter passado cinco dias da transição, está fazendo bem.

Blay sorriu, embora sua bochecha estivesse esmagada contra o colchonete como se o tivessem pregado com cola.

—Obrigado… —ofegou— Obrigado senhor.

Z estendeu a mão e içou Blay do chão quando o som de uma porta se abrindo ecoou através do ginásio.

John arregalou os olhos ao ver o que entrou por ela. Bom, isso merda, explicava onde tinha estado Qhuinn toda a tarde.

O macho que se aproximava lentamente através dos colchonetes de aproximadamente um metro e oitenta e cinco de altura e noventa quilos de peso tinha uma certa semelhança com alguém que até ontem tinha pesado tanto como uma bolsa de comida para cães. Qhuinn tinha passado pela transição. Deus, não era para se surpreender que o cara não tivesse estado sujando as mãos ou metido entre os livros nesse dia. Tinha estado ocupado habituando-se com um novo corpo.

Quando John levantou a mão, Qhuinn o saudou com a cabeça como se a tivesse rígida ou talvez como se lhe estivesse pulsando. O homem se via como a merda e se movia como se lhe doesse cada osso do corpo. Também mexia com o pescoço de sua nova sueter tamanho XXL como se senti-lo o incomodasse, e subia as calças uma e outra vez encolhendo-se cada vez. Surpreendeu-lhe ver que tinha um olho arroxeado, mas talvez bateu contra algo em meio da transição. Dizia-se que se sacudia muito quando estava mudando.

—Alegra-me que tenha vindo. —disse Zsadist.

A voz do Qhuinn era grave quando respondeu, com uma cadência totalmente distinta da anterior.

—Quis vir embora não possa me exercitar.

—Bem feito. Pode descansar por aí.

Enquanto Qhuinn se dirigia para um canto e encontrou o olhar de Blay e ambos sorriram muito lentamente. Logo olharam para John.

Usando o LSA, as mãos do Qhuinn soletraram: depois das aulas iremos a casa do Blay. Tenho um monte de coisas que contar aos dois.

Enquanto John assentia, a voz de Z retumbou no ginásio.

—A pausa para a fofoca terminou, senhoritas. Não façam que lhes chute o traseiro, porque o farei.

John enfrentou a seu pequeno companheiro e ficou na posição de luta.

Embora um dos alunos tinha morrido devido à mudança, John não podia esperar a que o golpeasse a sua. Certo, tinha medo da morte, mas era melhor estar morto que estar no mundo como um pedaço de carne assexuado deixado a mercê de outros.



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