J. R. Ward Amante Liberado



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Sob seu adorno todo o som se ouvia amortecido, e seria difícil para alguém ouvi-la falar. Mas bom, não tinha nenhum papel pessoal nem na cerimônia de apresentação nem no ritual de emparelhamento que o seguiria. Era um símbolo, não uma mulher, por isso sua resposta individual não seria requerida ou animada. As tradições eram o governo supremo.

—Perfeita —disse uma das Escolhidas.

—Resplandecente.

—Digna de nós.

Cormia abriu a boca e sussurrou para si mesmo:

—Sou eu, sou eu, sou eu...

As lágrimas brotaram e caíram, mas não podia alcançar seu rosto para as enxugar, por isso desceram por suas bochechas e sua garganta, perdendo-se na túnica.

Sem advertência, o pânico repentinamente foi das mãos, como um animal selvagem solto. Virou ao redor, entorpecida pela pesada túnica, mas conduzida por uma necessidade de fugir que não podia reprimir. Saiu na direção que pensou estava a porta, arrastando o peso com ela. Fracamente ouviu chiados de surpresa que ressoaram na câmara de banhos, junto com sons de garrafas, taças e jarras que se rompiam em pedaços.

Sacudiu-se, tratando de tirar a túnica, desesperada por aliviar-se.

Desesperada por ser liberta de seu destino.

CAPÍTULO 33

No centro da cidade de Caldwell, na esquina nordeste do complexo do St. Francis, o doutor Manuel Manello, pendurou o telefone em seu escritório sem ter marcado nenhum número e sem ter respondido nenhuma chamada que tivesse chegado. Contemplou o console Nec. A coisa estava recoberta de botões, como tirada do sonho úmido de um viciado em Cidade Circuito com todas essas campainhas e assobios.

Queria lançá-la através da sala.

Queria fazê-lo, mas não o fez. Tinha deixado de lançar as raquetes de tênis, os controles remotos da TV, os escalpelos e os livros quando decidiu transformar-se no chefe mais jovem de cirurgia da história do St. Francis. Após, seus lançamentos só implicavam garrafas vazias e pacotes da máquina vendedora atirados para os cestos de papéis. E isso era apenas para praticar a pontaria.

Acomodando-se para trás na cadeira de couro, virou ao seu redor e olhou fixamente através da janela de seu escritório. Era um escritório agradável. Grande, elegante como a merda, todo revestido de painéis de mogno e de tapetes orientais, o Quarto do Trono, como era conhecido, tinha servido como colchão de aterrissagem do cirurgião chefe durante cinqüenta anos. Tinha estado nesta vantajosa posição durante aproximadamente três anos e se alguma vez conseguisse ter um descanso ia dar ao lugar um novo ar. Todo o brilho da Instituição lhe dava alergia.

Pensou no maldito telefone e soube que ia fazer uma ligação que não deveria. Era simplesmente uma fodida amostra de fraqueza, que logo o ia engasgar, embora nela desdobrasse toda sua habitual arrogância de macho.

Ainda assim, ia terminar por deixar que seus dedos percorressem o caminho.

Para postergar o inevitável, fez um pouco de tempo olhando fixamente através da janela. Desde sua vantajosa posição podia ver a frente da panorâmica entrada do St. Francis, assim como a cidade que estava mais abaixo. Facilmente esta era a melhor vista de todo o hospital. Na primavera as cerejeiras e as tulipas floresciam na frente do caminho de entrada. E no verão, ambos os lados das duas vias, os frondosos arces brotavam folhas verdes como esmeraldas até que se mudavam para o pêssego e o amarelo do outono.

No geral não passava muito tempo desfrutando da paisagem, mas realmente apreciava saber que estava ali. Às vezes um homem precisava centrar seus pensamentos.

Agora se encontrava em um desses momentos.

Passada a noite que tinha ligado ao telefone celular de Jane, calculando que estaria em casa depois da maldita entrevista. Nenhuma resposta. Tinha ligado esta manhã. Nenhuma resposta.

Bem. Se não quisesse revelar nada sobre a fodida entrevista em Columbia, ia diretamente à fonte. Ligaria ao chefe de cirurgia de lá ele mesmo. Os egos seguiam sendo o que eram, e seu antigo mentor não vacilaria em compartilhar alguns detalhes, mas, homem, isto ia ser como se o pintassem com grafiti no traseiro durante uma expedição de pesca.

Manny virou ao seu redor, teclou dez dígitos e esperou, dando golpezinhos com uma caneta Montblanc sobre o mata-borrão.

Quando responderam à ligação, não esperou um olá.

—Falcheck, assaltante cara de pau.

Ken Falcheck riu.

—Manello, segue tendo uma incrível facilidade de palavra. E eu sendo seu mentor, estou especialmente impressionado.

—Então, como é a vida na via lenta, velho?

—Boa, boa. Agora me conte, pequenino, deixam você comer comida sólida ou ainda come as de potinhos?

—Estou à altura das papinhas de aveia. O que significa que estarei bem forte para substituir seu osso do quadril quando se aborrecer de usar o andador.

Tudo isto era uma completa sandice, é obvio. Aos sessenta e dois ans, Ken Falcheck estava em plena forma e era um pé no saco na mesma linha que Manny. O dois se entenderam desde que Manny tinha estado no programa de graduação do cara há quinze anos.

—Então, com toda a deferência para as pessoas de idade —disse Manny arrastando as palavras—Por que está seduzindo a minha cirurgiã de emergências? E o que pareceu ela a você?

Houve uma leve pausa.

—Do que está falando? Na quinta-feira me chegou uma mensagem de um cara que disse que tinha que mudar a data da entrevista. Pensei que me ligava por isso. Para desfrutar de que tinha me rechaçado e de que tinha conseguido conservá-la.

Uma desagradável sensação se envolveu ao redor da nuca de Manello, como se alguém o tivesse dado uma colher com barro frio.

Manteve a voz calma.

—Vamos, eu faria isso?

—Sim, faria. Treinei você, lembra? Obteve todos os seus maus hábitos de mim.

—Só os profissionais. Ouça, o cara que ligou… conseguiu seu nome?

—Não. Deduzi que era seu ajudante ou algo assim. Obviamente não foi você. Conheço sua voz, e mais, o cara era educado.

Manny engoliu com força. Bem, precisava terminar a ligação em seguida. Jesus Cristo, onde demônios estava Jane?

—Então, Manello, posso assumir que a conservou?

—Confronta os dados, tenho muitas coisas que oferecer. —Ele mesmo era uma delas.

—Só que não a chefia de um departamento.

Deus, neste momento, toda esta frescura de politica médica não importava. Na opinião do Manny, Jane estava desaparecida em ação, e tinha que encontrá-la.

Com um perfeito sentido da oportunidade, seu assistente apareceu na porta.

—OH, sinto muito…

—Não, espera. Ouça, Falcheck, tenho que ir.

Desligou enquanto Ken ainda lhe dizia adeus e imediatamente começou a discar o número da casa de Jane.

—Escuta, tenho que fazer uma chamada telefônica…

—A doutora Whitcomb acaba de ligar para dizer que esta doente.

Manny levantou a vista do telefone.

—Falou com ela? Foi ela quem ligou?

Seu assistente o olhou um pouco divertido.

—É obvio. Esteve todo o fim de semana com gripe. Goldberg vai cobrir seus casos. Escute, está bem?

Manny deixou o receptor e assentiu com a cabeça embora se sentisse infernalmente enjoado. Merda, a idéia de que algo tivesse acontecido a Jane diluía seu sangue transformando-o em água.

—Está tudo bem, doutor Manello?

—Sim, estou bem. Obrigado pela informação a respeito de Whitcomb. —Quando se levantou, o chão serpenteou um pouco— Me esperam na sala de cirurgia em uma hora, agora vou comer. Tem algo mais para mim?

Seu assistente tratou de um par de questões com ele e depois o deixou.

Quando a porta se fechou Manny se afundou de novo na cadeira. Homem, precisava tomar as rédeas de sua cabeça. Jane Whitcomb sempre tinha sido uma distração, mas este tremente alívio ao saber que estava bem o surpreendia.

Certo. Precisava ir comer.

Dando uma chute mental no traseiro, ficou de pé novamente e levantou uma pilha de solicitudes de aspirantes a residente para ler durante a refeição. No processo de agarrá-los com a mão, algo caiu da mesa. Inclinou-se e o pegou, depois franziu o cenho. Era a cópia impressa da fotografia de um coração… que tinha seis cavidades.

Algo piscou na parte posterior da mente de Manny, uma espécie de sombra se moveu ao seu redor, um pensamento a ponto de manifestar-se, uma lembrança a ponto de cristalizar. Mas então apareceu uma aguda dor nas têmporas. Enquanto amaldiçoava, perguntou-se de onde infernos tinha saído a fotografia, e olhou a data e hora na parte de abaixo. Tinha sido feita aqui, em seu hospital, em sua sala de cirurgia, e o trabalho de impressão tinha sido feito em seu escritório. A máquina tinha um problema já que deixava um ponto de tinta no canto inferior esquerdo e o sinal estava ali.

Voltou-se para o computador e fez uma busca em seus arquivos. Não existia tal fotografia. Que merda era essa?

Olhou o relógio. Não havia tempo para seguir procurando, por que realmente tinha que comer antes de ir operar.

Enquanto abandonava o escritório , decidiu que ia ser um médico à antiga por esta tarde.

Esta noite ia fazer uma visita domiciliár, a primeira de sua carreira profissional.

V colocou um par de calças soltas de seda negra e uma camisa combinando, a qual se parecia com uma jaqueta de smoking dos anos quarenta.

Depois de colocar o triste medalhão do Primale ao redor do pescoço, deixou o quarto e acendeu um néscio. Enquanto caminhava pelo corredor escutou Butch amaldiçoar na sala de estar, a letanía em voz baixa continha muitos palavrões e uma interessante acepção de traseiro que V ia ter que lembrar.

V encontrou o cara no sofá, franzindo o cenho sobre o computador portátil de Marissa.

—O que está fazendo, poli?

—Acredito que este disco rígido mordeu o pó. —Butch levantou a vista— Jesus Cristo… se parece com o Hugh Hefner, o fundador da revista playboy.

—Não tem graça.

Butch fez uma careta.

—Sinto muito. Merda…V, o sint…

—Se cale e me deixe olhar o computador. —V pegou a coisa de cima de Butch e fez uma rápida exploração de manutenção— Morta.

—Deveria ter sabido. Lugar Seguro forma parte do fodido grupo de tecnologia da informação de merda. Seu servidor caiu. Agora isto. Enquanto isso Marissa está na mansão com a Mary tratando de calcular como contratar mais pessoal. Cara, não precisa disto.

—Pus quatro novos DELL no armário de fornecimentos que esta fora do escritório do Wrath. Lhe diga que pegue um, OK? Prepararia-o para ela agora, mas tenho que ir.

—Obrigado, cara. E sim, está tudo pronto para eu ir com você…

—Não tem que estar lá.

Butch franziu o cenho.

—Merda. Precisa de mim.

—Alguém mais pode substituir você.

—Não o abandonarei…

—Não seria abandono. —Vishous olhou para o pimpolim e fez girar uma das barras. Quando a fila de pequenos homens virou ao contrário, exalou.

—É algo assim como…não sei, se estiver lá, tudo se volta muito fodidamente real.

—Então quer que alguém mais o respalde?

V fez girar a barra outra vez, o som de um zumbido se elevou da mesa. Tinha escolhido ao Butch em um ato reflexo, mas a verdade era que o macho era uma complicação. V estava tão condenadamente unido ao tipo que faria que fosse mais difícil lhe fazer frente à apresentação e ao ritual.

V o olhou através da sala de estar.

—Sim. Sim, acredito que prefiro que seja outra pessoa.

No curto silêncio que seguiu, Butch adotou a aparência de alguém sustentando um prato de comida que estava muito quente: inquieto e inseguro.

—Bem… enquanto saiba que estaria ali por você, sem importar o que fosse acontecer.

—Sei que é de confiança. —V foi para o telefone, meditando suas opções.

—Está segur…

—Sim —disse, discando. Quando Phury respondeu à chamada, V lhe disse— Se importaria de ir comigo esta noite? Butch vai se atrasar. Sim. Uh-huh. Obrigado, homem. —Desligou. Esta poderia ser uma estranha opção, já que eles dois nunca tinham estado particularmente unidos. Mas bom, essa era a idéia.

—Phury o fará, nenhum problema. Vou passar por seu quarto agora.

—V…

—Deixa, poli. Retornarei em algumas horas.



—Desejaria como o inferno que não tivesse que…

—Não importa. Isto não vai mudar as coisas. —depois de tudo, Jane ainda teria ido. Continuaria sendo um macho vinculado sem sua companheira. Por isso sim, nada mudava, nada importava.

—Está absolutamente seguro de que não quer que eu vá?

—Só esteja aqui com o Goose para quando retornar. Vou precisar de um gole.

V deixou o Pit através do túnel subterrâneo e enquanto caminhava para a mansão, tratou de dar-se um pouco de perspectiva.

Esta Escolhida com a que ia se emparelhar era apenas um corpo. Como ele. Ambos fariam o que era necessário fazer, quando fosse necessário. Eram simplesmente partes masculinas encontrando-se com partes femininas, depois empurrar e repetir até que o macho ejaculasse. E quanto à carência completa e total de excitação? Não era um problema. Escolhidas tinham bálsamos que asseguravam uma ereção e incensos que provocavam que gozasse. Por isso mesmo embora não tivesse absolutamente nenhum interesse no sexo, seu corpo faria o que tinha nascido e tinha sido criado para fazer: assegurar que as melhores linhagens da espécie sobrevivessem.

Merda, gostaria que pudesse ser clínico, todo copo-e-seringa de injeção. Mas os vampiros tinham tentado a fecundação in vitro no passado, sem nenhum êxito. Bebes deviam ser concebidos à maneira clássica.

Homem, não queria pensar com quantas fêmeas ia ter que estar. Não podia ir lá. Se o fizesse, ia a…

Vishous se deteve no meio do túnel.

Abriu a boca.

E gritou até que esgotou sua voz.

CAPÍTULO 34

Quando Vishous e Phury cruzaram juntos para o Outro Lado, tomaram forma em um branco jardim rodeado de brancas arcadas de colunas corintias. No centro havia uma fonte de mármore branco que salpicava água clara e cristalina dentro de uma profunda cisterna branca. No canto mais afastado, em uma árvore branca com flores brancas, um bando de pássaros cantores das cores do arco íris estavam reunidos como se fossem o polvilhado de uma madalena. Os doces chamados dos pinzones e os carboneros38 harmonizavam com o repico da fonte, como se ambas as cadências tivessem o mesmo tipo de alegria.

—Guerreiros. —A voz da Virgem Escriba chegou detrás de V e provocou que a pele se esticasse como plástico sobre os ossos—Se ajoelhem e os saudarei.

V ordenou a seus joelhos que se dobrassem, e depois de um momento se articularam como as patas oxidadas de uma mesa de jogo. Phury, por outro lado, não parecia estar sofrendo um caso de rigidez e desceu brandamente.

Por outro lado, não estava prostrando-se frente a uma mãe que desprezava.

—Phury, filho de Ahgony, como vai?

Com uma voz perfeitamente fluída, o irmão respondeu na Antiga Língua.

—Estou indo bem, pois estou ante você com profunda devoção e o coração puro.

A Virgem Escriba riu longamente.

—Uma saudação correta na forma adequada. Encantador de sua parte. E certamente mais do que conseguirei de meu filho.

V sentiu mais que viu a cabeça de Phury virar-se rapidamente para ele. OH, sinto muito, pensou V. Suponho que esqueci de mencionar esse pequeno e feliz detalhe, irmão.

A Virgem Escriba se aproximou lentamente.

—Ah, então meu filho não contou sobre sua linhagem materna? Pergunto-me se por decoro. Preocupado por fazer naufragar o princípio geralmente aceito de minha então chamada virginal existência? Sim, essa é a razão, não é assim, Vishous, filho de Bloodletter?

V levantou o olhar, embora não tivesse sido convidado a fazê-lo.

—Ou possivelmente apenas me recuse a reconhecer você.

Isso era exatamente o que ela esperava que dissesse, podia detectá-lo não só por ler seus pensamentos, mas também porque em algum nível ambos eram um e o mesmo, indivisíveis apesar do ar e o espaço entre eles.

Pegue já.

—Sua reticência em reconhecer minha maternidade não muda nada —disse em tom duro— Um livro sem abrir não altera a tinta de suas páginas. O que aí está aí e segue.

Sem permissão, V se levantou e se encontrou com o rosto encapuzado de sua mãe, cara a cara, fortaleza contra fortaleza.

Phury estava sem dúvida empalidecendo como a farinha, ou o que fosse. Dessa forma não se via em decacordo com a decoração. Além disso, a Virgem Escriba não ia torrar seu futuro Primale ou a seu precioso filho. De maneira nenhuma. Então não se importava uma merda.

—Vamos acabar com isto, mãe. Quero retornar à vida real…

V se encontrou em um piscar, dobrado de costas e sem poder respirar. Entretanto não havia nada em cima de seu corpo e não parecia estar comprimido, sentia-se como se tivesse um grande piano sobre o peito.

Enquanto os olhos saíam de suas órbitas e lutava para arrastar algum ar aos pulmões, a Virgem Escriba flutuou por cima dele. O capuz se elevou sobre seu rosto por própria vontade, e o olhou fixamente com expressão aborrecida em seu fantasmal e resplandecente rosto.

—Quero sua palavra de que se comportara com respeito para comigo enquanto estejamos ante a reunião das Escolhidas. Admito que tem certas liberdades por definição, mas não duvidarei em decidir um futuro pior para você ao que quer renunciar se o revela em público. Estamos de acordo?

De acordo? De acordo? Sim, certo, esse tipo de merda pressupõe livre-arbítrio, e por tudo o que tinha aprendido no curso de sua vida, estava claro que não tinha.

Que se foda. Ela.

Vishous exalou lentamente. Relaxando os músculos. E aceitou a asfixia.

Manteve o olhar fixo ne dela… enquanto começava a morrer.

Depois de mais ou menos um minuto em seu autol imposto sufoco, o sistema nervoso autônomo começou a funcionar, os pulmões pressionaram contra as paredes do peito, tratando de conseguir algum de oxigeno. Apertou os molares, pressionou juntos os lábios, e estreitou a garganta para que esse ato reflexo fosse impotente.

—OH, Jesus. —disse Phury com voz trêmula.

O ardor nos pulmões de V se difundiu com o passar do torso e sua visão começou a tornar-se imprecisa enquanto o corpo se sacudia na batalha entre a vontade mental e o imperativo biológico de respirar. Finalmente a batalha se converteu menos em um foda-se mãe e mais uma luta para conseguir o que queria: paz. Sem Jane em sua vida, a morte era realmente a única opção.

Começou a perder os sentidos.

De repente o inexistente peso foi levantado; logo o ar irrompeu em seu nariz e em seus pulmões como se fosse uma sólida e invisível mão que empurrasse a merda nele.

Seu corpo tomou o comando, amassando seu autocontrole. Contra sua vontade aspirou o oxigênio como se fosse água, virando de lado, respirando a grandes goles, a visão clariou gradualmente até que pôde focar a prega da túnica de sua mãe.

Quando por fim separou o rosto do chão branco e levantou o olhar para ela, não era a brilhante forma a que estava acostumado. Estava apagada, como se o resplendor tivesse um regulador de luz e alguém tivesse tratado de desligar o interruptor.

Entretanto, seu rosto era o mesmo. Translúcida, bela e dura como um diamante.

— Procederemos à apresentação? —disse— Ou possivelmente quer receber seu casal prostrado sobre meu mármore?

V se sentou, aturdido mas sem preocupar-se se por acaso perdia o fodido conhecimento. Supunha que devia sentir alguma espécie de sensação de triunfo ao ganhar a batalha contra ela, mas não era assim.

Percorreu com o olhar o Phury. O homem estava assustado, os olhos amarelos nus como uvas, a pele cítrica e pálida. Parecia que estivesse de pé em meio de uma piscina de jacarés usando bifes por sapatos.

Colega, vendo como o irmão dirigia esta pequena disputa familiar, V não podia imaginar à Escolhida agüentando muito melhor o aberto conflito entre ele e seu Joan Crawford mãe-pesadelo. E V podia não ter nenhuma simpatia por esse conjunto de fêmeas, mas isso não era razão para as irritar.

Ficou de pé, e Phury caminhou para ele ao mesmo tempo. Quando V tombou para um lado, o irmão o segurou sob a axila e o estabilizou.

—Agora me seguirão. —A Virgem Escriba encabeçou o caminho para a arcada, flutuando sobre o mármore, sem fazer um ruído ou movimento em particular, uma diminuta aparição de forma sólida.

Os três seguiram pela galeria para um par de portas douradas que V nunca tinha visto antes. Eram maciças e com sinais de uma versão anterior da Antiga Língua, uma que conservava bastante relação com a simbologia escrita atual que V podia traduzir:

Contemplem o santuário das Escolhidas, sagrado domínio do passado, presente e futuro da Raça.

As portas se abriram sem que as tocassem, revelando um esplendor pastoral que sob outras circunstâncias poderia ter acalmado muito, inclusive a V. Exceto pelo fato que tudo era branco, podia ter sido algum tipo de colégio universitário da Ivy League, com formais edifícios georgianos estendidos amplamente entre uma ondulada e esbranquiçada erva, e carvalhos e olmos albinos.

Um tapete de branca seda tinha sido estendido, e ele e Phury caminhavam sobre ele enquanto a Virgem Escriba flutuava como um fantasma aproximadamente a um metro e meio por cima dele. O ar tinha a temperatura perfeita e estava tão completamente calmo que não se notava, seu roçar sobre a pele exposta. Embora a gravidade ainda mantinha sujeito a V, sentia-se mais leve e um tanto otimista… como se, com uma corridinha, pudesse ir saltando através do pasto como essas fotos dos homens na lua.

Ou, merda, possivelmente esta sensação de passeio lunar era porque tinha o cérebro frito.

Quando alcançaram o topo da colina, revelou-se um anfiteatro mais abaixo. Ali estavam as Escolhidas.

OH, Jesus… As quarenta fêmeas mais ou menos estavam vestidas com túnicas brancas idênticas com o cabelo preso e as mãos enluvadas. A coloração variava do loiro ao castanho e ao ruivo, mas pareciam ser todas, a mesma pessoa por suas constituições altas, esbeltas e as túnicas combinando. Divididas em dois grupos, alinhavam-se de cada lado do anfiteatro, apresentando-se em três quartos de volta com o pé direito avançado ligeiramente. Lembraram-no as cariátides da arquitetura romana, essas esculturas de fêmeas que sustentavam os frontones dos tetos com suas régias cabeças.

As olhando fixamente, perguntava-se se tinham corações que palpitavam e pulmões que bombeavam. Porque estavam tão quietas como o ar.

Olhe, este era o problema com o Outro Lado, pensou. Nunca nada se movia ali. Havia vida… sem vida.

—Irá conhecê-las —ordenou a Virgem Escriba— As apresentações o aguardam.

OH… Deus… Outra vez não podia respirar.

A mão do Phury aterrissou em seu ombro.

—Precisa de um minuto?

Porra!Um minuto?Precisava de séculos… embora assumindo que tivesse esse tempo, não ia mudar em nada o resultado. Com um sentido de destino, imaginou esse vampiro civil que tinha encontrado no beco, que tinha topado na noite em que tinham atirado nele, que tinha se vingado matando o lesser.

Precisavam mais membros na Irmandade, pensou enquanto começava a caminhar de novo. E não era como se a cegonha fosse encontrar-se com o trabalho feito.

Abaixo frente a ele havia uma única cadeira na casa, uma espécie de trono fabricado em ouro que estava colocado perto do limite do cenário do anfiteatro. Desde esta posição vantajosa, deu-se conta que o que tinha suposto que era uma parede branca no fundo na realidade era uma vasta cortina de veludo que se pendurava imovel como se estivesse grafitada sobre um mural.

—Você. Sente-se disse a Virgem Escriba, estou obviamente mais que farta de seu traseiro.

Engraçado, sentía o mesmo a respeito dela.

V se sentou enquanto Phury jogava raízes como uma árvore depois do trono.

A Virgem Escriba flutuou para a direita, adotando uma posição ao lado do cenário, um diretor shakesperiano, orquestrando todo o drama.

Colega, que não daria agora por um áspid.

—Procedamos —gritou em voz entrecortada.

A cortina se dividiu ao meio e se abriu, revelando uma fêmea coberta por túnicas fechadas da cabeça aos pés. Flanqueada por duas escolhidas, sua prometida parecia estar de pé em um estranho ângulo. Ou possivelmente não estava de pé. Jesus, parecia como se estivesse em algum tipo de tabela inclinada em posição vertical para olhar. Como uma mariposa presa.

Quando a moveram, ficou claro que realmente estava segura sobre alguma coisa. Havia bandas ao redor da parte superior de seus braços, umas que estavam camufladas com jóias para combinar com a túnica, outras que pareciam estar sustentando-a.

Deve ser parte da cerimônia. Porque a que estava debaixo dessa túnica não estava apenas preparada para esta apresentação e o ritual de emparelhamento que seguiria, a não ser sem dúvida que estava emocionada como o inferno por ser a fêmea numero um. A primeira Escolhida do Primale tinha direitos especiais, e só podia imaginar que ascensão tão boa seria para ela.

Embora podia não ser justo, estava ofendido como o inferno pelo que estava baixo desse esplendor.

A Virgem Escriba assentiu, e as Escolhidas a esquerda e a direita de sua prometida começaram a lhe desfazer a toga. Enquanto trabalhavam, uma corrente de energia ondeou através da quietude do anfiteatro, a culminação de décadas de Escolhidas esperando que os antigos costumes começassem de novo.

V olhava sem prestar atenção a nada enquanto as túnicas eram retiradas para revelar uma forma de fêmea surpreendentemente linda coberta com um delicado e fino envoltório. O rosto de sua prometida permanecia oculto, de acordo com a tradição, porque não era ela que estava sendo entregue e sim todas as Escolhidas.

—É de seu gosto? —perguntou a Virgem Escriba secamente, como se soubesse que esta fêmea era a perfeição absoluta.

—Não importa.

Um murmúrio de inquietação cruzou entre as Escolhidas, uma brisa fresca passou através dos rígidos juncos.

—Possivelmente queira escolher suas palavras de novo? —disse bruscamente a Virgem Escriba.

—Servirá.

Depois de uma embaraçosa pausa, uma Escolhida se adiantou com um queimador de incenso e uma pluma branca. Enquanto cantava, fazia flutuar a fumaça para a fêmea encapuzada na cabeça até os pés nus, girando ao seu redor uma vez pelo passado, uma pelo presente e uma pelo futuro.

Enquanto o ritual avançava, V franziu o cenho e se inclinou para frente. O fronte do delicado e fino envoltório de sua prometida estava úmido.

Provavelmente devido aos azeites que tinham utilizado ao prepará-la para ele.

Recostou-se no trono. Merda, odiava os costumes antigos. Odiava toda esta fodida coisa.

Debaixo do capuz, Cormia estava em um estado de desespero. O ar que respirava era quente, úmido e sufocante, pior nesse aspecto que não ter nada que inalar. Tinha os joelhos frouxos como fibras de erva, as palmas empapadas. Se não fosse pelas ataduras, cairia.

Depois de sua aterrada tentativa de fuga nos banheiros, e sua captura final, uma bebida amarga tinha sido obrigada a descer por sua garganta por ordem da Directrix. Tinha-a tranqüilizado durante um tempo, mas o elixir se enfraquecia, e o medo a aguilhoava outra vez.

Embora a degradação total acontecendo quando sentiu as mãos descendo pela frente da túnica para liberar os broches de ouro, tinha chorado pela violação do olhar de um estranho sobre sua pele íntima. Logo as duas pesadas metades de sua túnica tinham sido se separadas do corpo e havia sentido o frescor sobre a pele, algo que não era um alívio ao peso que tinha envolto sobre ela.

Os olhos do Primale tinham estado sobre ela enquanto a voz da Virgem Escriba tinha gritado: “É de seu gosto?”

Cormia tinha esperado a resposta do irmão, rezando por alguma calidez nela.

Não houve absolutamente nenhuma: “Não importa”.

—Possivelmente queira escolher suas palavras de novo?

— Servirá.

Ao ouvir as palavras, o coração da Cormia deixou de palpitar, o medo substituído pelo terror. Vishous, filho de Bloodletter, tinha uma voz fria, uma que sugeria tendências muito piores mesmo das quais a fama de seu pai tinha detalhado.

Como poderia sobreviver ao emparelhamento, e muito menos representar bem às veneráveis Escolhidas durante o curso disso? No banheiro, a Directrix tinha sido brutal no resumo de tudo o que Cormia desonraria se não se comportasse com a dignidade apropriada. Se não se encarregasse de sua responsabilidade. Se não era a representante apropriada de todas.

Como poderia suportar tudo isto?

Cormia ouviu a Virgem Escriba falar de novo:

—Vishous, o olhar não foi depositado em seu nome. Phury filho de Ahgony, deve inspecionar a escolhida que foi oferecida, como testemunha do Primale.

Cormia tremeu, temerosa de ter outro par de desconhecidos olhos masculinos sobre ela. Sentia-se impura embora tenha sido tão cuidadosamente lavada; suja, embora nenhuma sujeira destilasse dela. Sob o capuz desejava ser pequena, tão pequena que envergonharia à cabeça de uma agulha.

Pois se fosse pequena, seus olhos não a encontrariam. Se fosse diminuta, poderia esconder-se entre coisas maiores… desaparecer de tudo isto.

Os olhos de Phury estavam cravados na parte posterior do dourado trono, e na realidade não os queria em nenhum outro lugar. Tudo isto estava errado. Tudo errado.

—Phury, filho de Ahgony? —a Virgem Escriba pronunciou o nome de seu pai como se o peso da linhagem completa da família descansasse nele, Phury seguiu com o programa.

Abriu as pálpebras olhando para a fêmea...

Cada um de seus processos mentais se deteve em seco.

Seu corpo foi o que respondeu. Imediatamente. Engrossou-se dentro das calças de seda, a ereção surgiu tão rápido como um suspiro, mesmo enquanto se sentia completamente envergonhado. Como podia ser tão cruel? Deixou cair as pálpebras, cruzou os braços sobre o peito, e tratou de averiguar como poderia chutar o próprio traseiro e permanecer de pé.

—Como lhe parece, guerreiro?

—Resplandecente. —A palavra saiu de sua boca de nenhuma parte. Logo acrescentou— Digna da mais bela tradição de Escolhidas.

—Ah, agora sim, essa é a resposta correta. Como a aceitação foi feita, declaro esta fêmea como a escolha do Primale. Terminem o banho de incenso.

Com a vista periférica, Phury se deu conta que apareciam duas Escolhidas com varas das quais emanavam fumegantes esteiras brancas. Quando começaram a cantar em altas e cristalinas vozes, respirou profundamente, peneirando através de um jardim em flor de essências femininas.

Encontrou a essência da prometida. Tinha que ser ela, porque era a única em todo o lugar que desprendia um puro terror…

—Parem a cerimônia —disse V com voz dura.

A Virgem Escriba virou a cabeça para ele.

—Terminarão logo.

—O inferno que o farão. —O irmão se levantou do trono e se dirigiu para o cenário, obviamente tendo captado também a essência. Enquanto ia para lá, as escolhida deixaram escapar gritos de alarme e romperam as filas. Enquanto as fêmeas se dispersavam e as brancas túnicas se agitavam pelos arredores, Phury pensou em uma pilha de guardanapos de papel em um picnic, saindo ao vôo quisessem ou não, saltando sobre a erva.

Exceto que, isto não era um domingo no parque.

Vishous fechou a túnica da prometida, logo rasgou as ataduras. Como fraquejou, pegou-a pelo braço e a segurou.

—Phury, encontraremo-nos em casa.

O vento começou a arremeter, procedendo da Virgem Escriba, mas V se manteve firme, de frente a seu… bem, sua mãe, aparentemente.

Mãe, Cristo, nunca teria imaginado.

V tinha um aperto mortal na pobre fêmea e o rosto cheio de ódio enquanto cravava o olhar na Virgem Escriba.

—Phury, parte daqui.

Embora Phury fosse no fundo um pacificador, tinha melhor juízo para interceder nesse tipo de brigas familiares. O melhor que podia fazer era rezar para que seu irmão não voltasse em uma urna.

Antes de ir-se, deu um último olhar à forma encapuzada da fêmea. V agora a segurava com ambas as mãos, já que parecia que desmaiou. Jesus Cristo… Que confusão.

Phury se voltou e se apressou a retornar andando pelo branco tapete de seda para o jardim da Virgem Escriba. Primeira parada? O escritório de Wrath. O Rei tinha que saber do acontecido. Embora evidentemente a maior parte da história ainda não tivesse sido interpretada.

CAPÍTULO 35

Quando Cormia recuperou a consciencia, estava deitada sobre as costas, a túnica ainda posta, o capuz em seu lugar. Embora pensasse que já não estava naquela tabela a que tinha sido atada. Não... não estava em...

Lembrou-se de tudo. O Primale interrompendo a cerimônia e liberando-a. Um imenso vento soprando através do anfiteatro. O irmão e a Virgem Escriba começando a discutir.

Cormia tinha desmaiado naquele momento, perdendo o que se seguiu. O que tinha ocorrido ao Primale? Certamente não tinha sobrevivido, já que ninguém desafiava à Virgem Escriba.

—Deseja tirar algo do que usa? —disse uma áspera voz masculina.

O medo disparou por sua coluna. Virgem misericordiosa, ele até estava lá.

Instintivamente se enroscou formando uma bola para proteger-se.

—Relaxe. Não vou fazer nada a você.

A julgar por seu duro tom de voz, não podia confiar em suas palavras: a ira marcava as sílabas que pronunciava, as tornando agudas , e embora não pudesse ver sua forma, podia sentir o formidável poder nele. Era verdadeiramente o filho do guerreiro Bloodletter.

—Olhe, vou tirar o capuz para que possa respirar, certo?

Tentou afastar-se, tentou arrastar-se de onde quer que estivesse, mas a túnica se enredou e a reteve.

—Pare, fêmea. Somente estou tentando fazê-lo mais fácil para você.

Ficou mortalmente quieta enquanto suas mãos caíam sobre ela, certa de que apanharia. Entretanto somente afrouxou os dois broches superiores e levantou o capuz.

O doce e limpo ar percorreu seu rosto através do magro véu, um luxo como a comida para o faminto, mas não podia aspirar muito. Estava toda tensa, os olhos fechados com força, a boca retraída em uma careta enquanto preparava a si mesma para só a Virgem sabia o que.

Mas, nada ocorreu. Ainda estava com ela... podia captar seu temível aroma... e entretanto não a tocou, nem pronunciou outras palavras.

Escutou um chiado e uma inalação. Depois cheirou algo picante e defumado. Como incenso.

—Abre os olhos. —Sua voz lhe chegou de trás e era uma ordem.

Levantou as pestanas e piscou várias vezes. Estava no cenário do anfiteatro, de frente a um trono dourado vazio e um tapete branco de seda que usava a levantada elevação.

Sentiu fortes pisadas aproximando-se.

E ali estava ele. Elevando-se imponente sobre ela, maior que qualquer coisa que tivesse visto que respirasse, seus pálidos olhos e severo rosto tão frio que retrocedeu.

Levou um magro e branco cilindro aos lábios e inalou. Enquanto falava, a fumaça saía de sua boca.

—Disse-lhe isso. Não vou fazer mal a você. Qual é seu nome?

Através de uma garganta oprimida, disse com voz áspera:

—Escolhida.

—Isso é o que é —disse bruscamente— Quero seu nome. Quero saber o seu nome.

Era-lhe permitido perguntar isso? Estava ele... O que estava pensando? Podia fazer tudo o que quisesse. Era o Primale.

—C-C-Cormia.

—Cormia.

Inalou do branco e magro cilindro de novo, a ponta laranja flamejou com intensidade.

—Me escute. Cormia, não fique assustada. Ok?

—É...? —lhe quebrou a voz. Não estava certa se podia lhe fazer perguntas, mas teria que saber— É um deus?

As negras sobrancelhas desceram sobre os brancos olhos.

—Infernos, não.

—Mas então como fez...

—Fale alto. Não posso ouvir você.

Tentou que sua voz soasse mais forte.

—Então como intercedeu com a Virgem Escriba? —enquanto a olhava com o cenho franzido, apressou-se a desculpar-se— Por favor, não quis ofender...

—Não importa. Olhe, Cormia, não esta convencida deste emparelhamento comigo, não é? —quando não disse nada, apertou a boca com impaciência— Vamos, me fale.

Abriu a boca. Não saiu nada.

—OH, pelo amor de Deus.

Passou a mão enluvada através do escuro cabelo e começou a andar.

Sem dúvida era uma deidade de alguma classe. Parecia tão feroz que não se teria surpreendido se atraísse raios do céu.

Deteve-se sobressaindo sobre ela.

—Disse-lhe isso, não vou machucar você. Maldição, o que crê que sou? Um monstro?

—Nunca antes tinha visto um macho —deixou escapar— Não sei o que é.

Aquilo o deixou frio.

Jane despertou só porque escutou chiar a porta de uma garagem, o alto e agudo gemido chegou do apartamento que estava à esquerda do dela. Virando-se sobre si mesma, olhou o relógio. As cinco da tarde. Tinha dormido a maior parte do dia.

Bom, se podia chamar o que fez de dormir. A maior parte do tempo, tinha estado presa em uma estranha paisagem onírica, no qual imagens que estavam meio formadas e confusas, atormentavam-na. Um homem estava comprometido de algum jeito, um homem grande que sentia como parte dela e entretanto completamente alheio. Não tinha sido capaz de ver seu rosto, mas conhecia seu aroma: escuras especiarias, perto, em seu nariz, tudo a seu redor, sobre tudo seu corpo...

Aquela enxaqueca que parecia um triturador de ossos estalou, e soltou o que estava pensando como se fosse um atiçador quente e estivesse sujeitando o extremo equivocado. Felizmente, a dor atrás de seus olhos cedeu.

Para ouvir o ruído do motor de um carro, levantou a cabeça do travesseiro. Através da janela próxima à cama viu uma minivan dando marcha ré na entrada para carros junto à sua. Alguém tinha mudado para o apartamento do lado, e Deus, esperava que não fosse uma família. As paredes entre as moradias não eram tão finas como em um edifício de apartamentos, mas nem por indício eram sólidas como as da caixa forte de um banco. E podia passar muito bem da presença de filhos gritalhões.

Endireitando-se, sentiu-se ainda mais miserável e dentro de uma nova categoria de lixo. Algo doía intensamente em seu peito, e não pensava que fosse muscular. Movendo-se de um lado para o outro, tendia a pensar que antes já havia sentido isso, mas não podia situar quando ou onde.

Tomar banho era um suplício. Infernos, somente chegar ao banheiro foi um esforço. A boa notícia foi que a rotina ensaboar-e-esclarecer a reviveu um pouco, e seu estomago pareceu abrir-se à idéia de um pouco de comida. Deixando que o cabelo secasse no ar, desceu e pôs-se a esquentar um pouco de café. O plano era colocar a cabeça na primeira velocidade, retornar algumas ligações telefônicas. Então viesse o inferno ou um maremoto, ia trabalhar amanhã, então queria preparar-se para a ação o melhor que pudesse antes de ir para o hospital.

Com a xícara na mão, dirigiu-se à sala de estar e se sentou no sofá, embalando o café entre as palmas, esperando que o Capitão Cafeína viesse a resgatá-la e a ajudasse a sentir-se humana. Quando olhou para baixo às almofadas de seda, estremeceu. Estes eram as que sua mãe tinha alisado tão freqüentemente, aquelas que tinham servido como um barômetro para medir se tudo estava bem ou não, e Jane se perguntou quando se sentou nas malditas coisas pela última vez. Deus, pensava que a resposta fosse nunca. Por isso sabia, o último traseiro que tinha depositado seu peso ali bem poderia ter sido o de um de seus pais.

Não, provavelmente o de um convidado. Seus pais só se sentavam nas poltronas gêmeas na biblioteca, seu pai na da direita com o cachimbo e o jornal, sua mãe à esquerda com um quadrado de petit point, seu tipo de bordado, no colo. Os dois tinham sido um pouco como tirado do museu de cera de Madame Troussaurs, parte de uma exibição sobre ricos maridos e esposas que nunca dirigiam a palavra um ao outro.

Jane lembrou as festas que tinham dado, toda aquela gente formando redemoinhos naquela grande casa colonial, com garçons uniformizados oferecendo crepes e coisas cheias com massa de cogumelos. Sempre era a mesma multidão, a mesma conversação e o mesmo tipo de curtos vestidos negros e trajes do Brooks Brothers. A única diferença tinham sido as estações, e a única interrupção no ritmo ocorreu depois da morte de Hannah. Depois de seu enterro, as festas se interromperam durante aproximadamente seis meses por ordem de seu pai, mas depois voltaram a subir no trem. Preparados ou não, aquelas festas começaram de novo, e embora sua mãe tivesse parecido bastante frágil para quebrar-se, aplicou sua maquiagem e seu curto vestido negro e se posicionou na porta principal, toda falsos sorrisos-e-afagos.

Deus, Hannah tinha adorado aquelas festas.

Jane franziu o cenho e colocou uma mão sobre o coração, dando-se conta de quando havia sentido antes esta espécie de dor no peito. O fato de não ter Hannah a seu lado, tinha causado o mesmo tipo de dolorosa pressão.

Era estranho que despertasse com esta tristeza e sensação de perda. Não tinha perdido ninguém.

Tomando um gole de café, desejou ter feito chocolate quente...

Sobreveio-lhe uma imprecisa imagem de um homem lhe oferecendo uma xícara. Havia chocolate quente nela, e o tinha feito para ela porque estava... estava deixando-a. OH... Deus, estava-a abandonando…

Uma aguda dor disparou através de sua cabeça, interrompendo a agitada visão... bem quando a campainha começou a soar. Enquanto esfregava a ponta do nariz, deu uma olhada furiosa para o vestíbulo. Realmente não se estava sentindo muito sociável nesse momento.

A coisa voltou a soar.

Obrigando-se a ficar de pé, arrastou-se para a porta de entrada. Enquanto abria o ferrolho, pensou, homem, se fosse um missionário, ia dar a comunhão com...

—Manello?

O chefe de cirurgia estava de pé na porta principal com sua caracterítica fanfarronice, como se o capacho de bem-vinda lhe pertencesse apenas porque ele o dizia. Vestido com o pijama cirúrgico e tamancos, também luzia um elegante casaco da mesma cor marrom de seus olhos. Seu Porsche ocupava a metade do caminho de entrada.

—Vim ver se estava morta.

Jane teve que sorrir.

—Jesus, Manello, não seja tão romântico.

—Parece como um pedaço de merda.

—E agora com os elogios. Pare. Esta me fazendo ruborizar.

—Agora vou entrar.

—É obvio que o fará —murmurou, pondo-se de lado.

Deu um olhar ao redor enquanto tirava o casaco.

—Sabe, cada vez que entro aqui, sempre penso que este lugar é muito pouco parecido com você.

—Então espera algo rosa e com babados? —fechou a porta. E o ferrolho.

—Não, quando vim a primeira vez, esperava que estivesse vazio. Como minha casa.

Manello vivia no Commodore, aqueles apartamentos de luxo no alto da colina, mas sua casa era apenas um custoso armário, verdadeiramente, decorado pela Nike. Tinha os equipamentos de esporte, uma cama e uma cafeteira.

—Certo —disse — Não serve precisamente de material da casa e decoração.

—Então me diga como é você, Whitcomb. —Enquanto Manello a olhava, seu rosto não mostrava emoção, mas os olhos ardiam, e lembrou a última conversa que tinha tido com ele, aquela onde lhe disse o que sentia algo por ela. Os detalhes do que tinha sido dito eram um pouco confusos e tinha a vaga impressão de que tinha sido segurada em um quarto da UTIC por cima de um paciente...

Começou-lhe a doer de novo a cabeça e como tremeu Manello disse:

—Sente-se. Agora.

Possivelmente fosse uma boa idéia. Encaminhou-se de volta ao sofá.

—Quer café?

—Na cozinha tem?

—Trare...

—Posso me servir. Tenho anos de experiência. Você, sente-se.

Jane se recostou no sofá e fechou as lapelas de seu robe enquanto esfregava as têmporas. Merda, alguma vez ia se sentir ela mesma outra vez?

Manello entrou exatamente quando se inclinava e punha a cabeça entre as mãos. O que naturalmente o colocou em modo médico absoluto.Deixou sua xícara sobre um dos livros de arquitetura da mãe de Jane e se ajoelhou no tapete oriental.

—Me fale. O que está acontecendo aqui?

—Cabeça —gemeu Jane.

—Me deixe ver seus olhos.

Tentou sentar-se direita outra vez.

—Está diminuindo…

—Se cale. —Brandamente Manello lhe pegou os pulsos com suas mãos e lhe separou os braços do rosto—Vou examinar suas pupilas. Incline a cabeça para trás.

Jane se rendeu, simplesmente se deixou levar e relaxou contra o sofá.

—Não me sentia tão horrível em anos.

O polegar e o indicador de Manny foram para o olho direito e cuidadosamente afastou a pálpebra enquanto levantava uma lanterninha. Estava tão perto que podia ver suas longas pestanas, a sombra de uma barba incipiente e os finos poros de sua pele. Cheirava bem. A colônia.

De que marca seria?Perguntou-se, divagando.

—Que bom que tenha vindo preparado —disse arrastando as palavras e acendendo o pequeno foco.

—Sim, está bem, é como um escoteiro… Hei, tome cuidado com essa coisa.

Tratou de piscar quando o brilho da lanterna lhe chegou no olho, mas não a deixou.

—Faz que a cabeça doa mais? —pergunto, indo para o lado esquerdo.

—OH, não. Isso me faz sentir ótima. Não posso esperar que você… Demônios, isso é muito brilhante.

Apagou a lanterna e voltou a colocar a coisa no bolso superior do pijama.

—As pupilas se dilatam adequadamente.

—Que alívio. Suponho que se quisesse ler sob a luz de um refletor poderia fazê-lo, certo?

Tomou o pulso, pôs o dedo indicador sobre o pulso e levantou seu Rolex.

—Com este exame médico obterei um desconto no seguro? —perguntou-lhe.

—Shh.


—Porque acredito que estou sem dinheiro…

—Shh.


Era estranho ser tratada como um paciente, e manter a boca fechada se fazia pior. Homem, quanto podia dizer-se a respeito de encobrir o desconforto através das palavras…

Um quarto escuro. Um homem na cama. Ela falando… falando a respeito… do funeral de Hannah.

Outro agudo disparo lhe cravou na cabeça e aspirou um pouco mais de ar.

—Merda.


Manello soltou seu pulso e lhe pôs a palma sobre a fronte.

—Não está quente —lhe pôs as mãos nos lados do pescoço, bem abaixo da mandíbula.

Enquanto franzia o cenho e apalpava, disse:

—Não tenho a garganta irritada.

—Bom, não tem as glândulas inflamadas. —Seus dedos foram à coluna à altura do pescoço até que deu um pulo e o inclinou sua cabeça para um lado.

—Merda… Que demônios?

—O que?

—Tem um hematoma aqui. Ou algo. Demônios. O que mordeu você?



Levantou a mão.

—OH, Sim, não sei o que é isso. Nem quando fiz isso.

—Parece que está curando bem. —Apalpou-lhe a base do pescoço, em cima das clavículas— Sim, por aqui tampouco há inflamação. Jane, odeio lhe dizer isso mas não tem gripe.

—Seguro que tenho.

—Não, não tem.

—É traumatóloista, não um czar das enfermidades infecciosas.

—Não está tendo uma resposta contra uma infecção, Whitcomb.

Apalpou sua própria garganta. Pensou no fato de que não estava espirrando, nem tossindo nem vomitando. Mas, demônios, onde a deixava isso?

—Quero que faça um TAC na cabeça.

—Garanto que lhe diz isso a todas as garotas.

—Às que apresentam seus sintomas? Absolutamente.

—E eu aqui pensando que era especial —lhe dirigiu um fraco sorriso e fechou os olhos— Estarei bem, Manello. Somente preciso voltar para o trabalho.

Fez-se um longo silêncio, durante o qual se deu conta de que ele tinha as mãos em seus joelhos. E ainda estava muito perto, inclinando-se sobre ela.

Levantou as pálpebras. Manuel Manello a estava olhando não como o faria um médico, mas sim como faria um homem que se preocupava com ela. Merda, era atraente, especialmente então… salvo que algo não estava bem. Não com ele… com ela.

Bom, óbvio. Tinha dor de cabeça.

Inclinou-se para frente e lhe acariciou o cabelo.

—Jane…

—O que?


—Deixaria-me arrumar uma consulta para que lhe façam um TAC? —quando começava a negar-se, interpôs— Considere-o como um favor para mim. Não poderia me perdoar se acontecesse algo ruim a você e eu não tivesse insistido.

Merda.


—Sim. OK. Está bem. Mas não necessito…

—Obrigado. —Houve uma pausa. E logo se inclinou para frente e a beijou na boca.

CAPÍTULO 36

No Outro Lado, Vishous olhou fixamente a Cormia e quis correr. Depois de sua alucinante revelação de que nunca tinha visto um macho antes, sentia-se horrível. Alguma vez lhe tinha ocorrido pensar que só tinha conhecido fêmeas, mas se tinha nascido pouco depois que o último Primale morrera, como poderia ter conhecido alguém do outro sexo?

É obvio que havia se sentido aterrorizada por ele.

—Jesus Cristo —murmurou, inalando profundamente de seu néscio e lhe dando uns golpezinhos depois. Estava atirando a cinza sobre o cenário de mármore, mas não se importou uma merda— Subestimei totalmente quão duro seria isto para você. Assumi…

Tinha assumido que estaria quente por trotar com ele ou por alguma merda. Em vez disso, não se encontrava melhor que ele.

—Sim, estou malditamente arrependido.

Quando as pálpebras se abriram pela surpresa, a cor jade de seus olhos brilhou.

Não esperava que acontecesse em um tom gentil, disse-lhe:

—Esta….. deseja… —moveu a mão em que tinha o cigarro daqui para lá entre eles— …emparelhamento? —Quando permaneceu em silêncio, sacudiu a cabeça— Olhe, posso vê-lo em seus olhos. Quer fugir de mim, e não simplesmente porque esteja assustada. Quer fugir pelo que teremos que fazer, não?

Ela levou as mãos ao rosto, a pesada túnica foi se pregando e deslizando pelos magros braços até ficar estrangulado nas magras curvas dos cotovelos. Com um fio de voz disse:

—Não poderia suportar falhar às Escolhidas. Eu… farei o que deva ser feito pelo bem do conjunto.

Bem, essa era a mesma música para os dois.

—Como o farei eu —murmurou.

Nenhum dos dois disse outra palavra e não soube o que fazer. Para começar, não era bom com as fêmeas, e agora que era mercadoria avariada por ter deixado Jane ir era ainda pior.

Bruscamente virou a cabeça, consciente de que não estavam sozinhos.

—Você, atrás da coluna. Saia. Agora.

Uma Escolhida deu um passo à frente, com a cabeça inclinada, tinha o corpo tenso sob a tradicional capa branca.

—Senhor.


—O que está fazendo aqui?

Enquanto a Escolhida olhava fixa e submissamente o chão de mármore, pensou, que o Senhor me salve dos submissos. Era engraçado, durante o sexo tinha demandado isso. Agora essa merda o incomodava como o inferno.

—Será melhor que tenha vindo consolá-la —grunhiu— Se for para qualquer outra coisa, deve sair daqui como se fugisse dos infernos.

—É para consolá-la —disse a Escolhida brandamente— Me preocupo com ela.

—Qual é seu nome?

—Escolhida.

—Não me irrite! —quando ambas, ela e Cormia saltaram, forçou seu gênio a enterrar-se profundamente em suas vísceras— Qual é o seu nome?

—Amalya.


—Bem, Amalya. Quero que cuide dela até que eu volte. É uma ordem.

Quando a Escolhida fez algumas reverencia e promessas, tomou uma última imersão de néscio, lambeu dois dedos e os apertou sobre a ponta. Quando pôs a bituca no bolso da bata, perguntou-se sem motivo algum por que demônios todos tinham que usar fodidos pijamas no Outro Lado.

Dirigiu um olhar a Cormia.

—Vejo você em dois dias.

V partiu sem olhar para trás, subindo pela grama branca da colina, evitando o tapete branco de seda que tinha sido estendido. Quando chegou ao pátio da Virgem Escriba, rezou como um demônio para não encontrar-se com ela, e deu graças a Deus de que não estivesse por perto. A última coisa que precisava era um encontro com alguém da índole da Mamazilla. (mamãe + godzilla)

Sob o olhar atento de todos esses pássaros cantores, lançou-se de volta ao mundo real, mas não foi à mansão.

Foi exatamente aonde não devia ir. Tomou forma na rua em frente do apartamento de Jane. Era uma fodida má ideia do tamanho de um arranha-céu, mas estava meio morto de dor e não estava em seu são julgamento, e além disso, não dava uma merda por nada. Nem sequer pelas linhas que não podiam ser cruzadas entre os humanos e os de sua espécie.

A noite era fria e estava vestido com as roupas cerimoniosas de fakata, mas não se importou. Estava tão aturdido e tão destruído mentalmente, que poderia encontrar-se nu em uma tempestade de neve e não perceber.

Que demônios.

Havia um carro no caminho de entrada. Um Porsche Carreira 4S. O mesmo que tinha Z, só que o de Z era cinza ferro e este era prateado.

V não tinha pretendido aproximar-se além da calçada da frente, mas esse plano foi apagado como por água quando inalou e captou o aroma de um macho que emanava do conversível. Era esse médico, que tinha tido aquela merda de conversa com ela no quarto de hospital.

V se materializou junto ao arce do jardim frontal e olhou pela janela da cozinha. A cafeteira estava ligada. O açúcar fora. Havia duas colheres na mesa.

OH, demônios, não. Fodida mãe dos infernos não.

V não podia ver muito do resto do apartamento, então correu rodeando-o, os pés descalços, chiavam enquanto fazia ranger os emplastros de neve gelada. Quando uma anciã do apartamento contigüo apareceu pela janela como se o tivesse visto, pulverizou um pouco de mhis ao redor como precaução… e porque imaginava que devia fazer algo que demonstrasse que tinha cérebro.

Esta rotina de perseguidor, seguro como a merda, que não o ia levar ao Leopardo!

Quando chegou às janelas traseiras e conseguiu dar uma olhada à sala de estar, viu a morte do outro tão claramente como se tivesse cometido o assassinato em tempo real.

Esse macho humano, esse médico, estava de joelhos e apertado perto de Jane, que estava sentada no sofá. O tipo tinha uma mão em seu rosto, a outra no pescoço, e estava centrado em sua boca.

V perdeu a concentração, deixou cair o mhis, e se moveu sem pensar. Sem raciocinar. Sem vacilar. Não havia nada mais que um grito, o instinto de macho vinculado, foi para as portas trilhos, preparado para matar...

Saído de um nada, Butch se interpôs frente a ele, descarrilando o ataque, Peguendo-o pela cintura e arrastando-o à força afastando-o do apartamento. Foi um movimento perigoso, mesmo entre bons amigos. A menos que seja um trailer de trinta toneladas, não queria se interpor entre um macho vinculado e o objetivo deste tipo de agressão. O instinto de ataque de V mudou de foco no momento. Descobriu as presas, separou-se de um puxão, e bateu no seu ser mais próximo e querido de um lado da cabeça.

O irlandês soltou V como se fosse uma colméia, jogando para trás o punho lhe lançou um murro ascendente, que deu a V na parte inferior do queixo. Quando a mandíbula se estrelou contra o crânio e os dentes cantaram como um coro de anjos, acendeu-se tão rápido como uma pradaria seca, entrou instantaneamente em combustão.

—Mhis, idiota —cuspiu Butch— Use o mhis sobre o lugar antes de que façamos isto.

V colocou o bloqueio visual e os dois foram então com todas suas forças. Tudo valia, o sangue brotava de narizes e bocas enquanto se davam murros, tirando a merda um do outro. Na metade do assunto, V se deu conta de que isto não era só por ter perdido Jane. Era porque estava totalmente sozinho. Ainda com Butch perto, não seria o mesmo sem ela, então era como se V estivesse sem nada.

Quando tudo acabou, ele e o poli se estenderam sobre as costas um ao lado do outro, os peitos ofegantes, o suor nem tanto secando-se como congelando-se sobre eles. Merda, V já podia notar o inchaço. Os nódulos e o rosto estavam transformando-o no boneco do Michelín.

Tossiu um pouco.

—Necessito de um charuto.

—Eu necessito uma bolsa de gelo e um monte de tirinhas.

V rodou para um lado, cuspiu um pouco de sangue e depois retornou à posição em que tinha estado. Enxugou a boca com o dorso da mão.

—Obrigado. Precisava disso.

—Não há po... —grunhiu Butch— Não há problema. Maldição, tinha que me bater no fígado dessa forma? Como se o uísque não fosse o suficientemente mau para a coisa.

—Como soube onde estava?

—Onde mais podia estar? Phury voltou sozinho e mencionou que alguma merda estava ocorrendo, então imaginei que finalmente acabaria aqui. —Butch fez ranger o ombro e amaldiçoou— A verdade, é que o policial que há em mim é como uma antena de rádio para imbecis estúpidos. E não se ofenda, mas não ganharia nenhum prêmio na divisão dos espertos.

—Acredito que teria matado esse homem.

—Sei que o teria feito.

V levantou a cabeça. Quando não pôde ver através das janelas de Jane, levantou-se apoiando-se sobre os cotovelos para ter o campo espaçoso. O sofá estava vazio.

Deixou-se cair novamente sobre o chão. Estavam fazendo amor lá em cima na sua cama? Nesse momento? Enquanto ele jazia arruinado em seu fodido jardim traseiro?

—Merda. Não posso suportá-lo.

—Sinto muito, V. Sério. —Butch esclareceu a garganta— Escuta… poderia ser boa idéia que não voltasse aqui.

—Diz isso o idiota que passava de carro pela casa de Marissa durante quantos meses?

—É perigoso, V. Para ela.

V olhou enfurecido para seu melhor amigo.

—Se for insistir em ser razoável, deixarei de falar com você.

Butch deixou escapar um sorriso deformado… por causa da ferida que tinha no lábio superior.

—Sinto muito, colega, não poderia se liberar de mim nem que tentasse.

V piscou um par de vezes, horrorizado pelo que estava a ponto de dizer.

—Deus, vai para merda, sabe? Sempre esteve aí para mim. Sempre. Mesmo quando eu…

—Mesmo quando você o que?

—Já sabe.

—O que?


—Porra. Mesmo quando estava apaixonado por você. Ou alguma merda assim.

Butch levou as mãos ao peito.

—Estava? Estava? Não posso acreditar que tenha perdido o interesse. —colocou um braço sobre os olhos, em modo Sarah Bernhardt— Meus sonhos sobre nosso futuro se quebraram…

—Pare, poli.

Butch o olhou por debaixo do braço.

—Está de brincadeira? O reality que tinha planejado era fantástico. Ia pasar no VH1, Duas Dentadas são Melhor que Uma. Íamos fazer milhões.

—OH, pelo amor...

Butch rodou até ficar de lado e ficou sério.

—Este é o trato, V. Você e eu? Estamos nesta vida juntos, e não só por causa de minha maldição. Não sei se são todas essas providências e merdas divinas, mas há uma razão pela qual nos encontramos. E quanto ao fato de estar apaixonado por mim? Foi provavelmente mais algo do estilo de que sentisse carinho por alguém pela primeira vez.

—Bom, deixa aí. Está me dando urticária com essa merda do carinho/compartilhar.



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