J. B. Rhine o alcance do Espírito



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Joseph Banks Rhine

O Alcance do Espírito



Constable –

Cirros (Nuvens da Primavera)


Conteúdo resumido
Esta obra pioneira tenta demonstrar a existência de um principio espiritual que existe em nosso ser através dos canais ocultos como: A Clarividência, a precognição, a telepatia, tudo explicável em termos desta faculdade anímica que se engloba com o nome de Percepção Extra-Sensorial.


Sumário

Prefácio

I - A Pergunta principal a respeito do homem

II - Primeiro passo na direção da resposta: “telepatia”

III - Segundo passo: espírito e matéria

IV - Alcance do espírito no espaço

V - Alcance do espírito no tempo

VI - Força mensurável do espírito

VII - Massa e espírito

VIII - Onde aparece a psicocinética (pc)

IX - Até onde vai a normalidade das funções psíquicas?

X - Aceitação de espírito e psicocinética

XI - Perpectivas para aplicações

XII - Conseqüências para as relações entre os homens

PREFÁCIO

O ALCANCE DO ESPÍRITO

MUITOS acontecimentos se verificaram no assunto que "O Alcance do Espírito" versa, depois que veio a lume este livro. Mas Somente um acontecimento não se deu: o aparecimento de outro livro que lhe tomasse o lugar ou preenchesse o mesmo fim. Descrevendo o progresso passo a passo da marcha firme do pesquisador neste território inexplorado nas fronteiras da mentalidade real durante as décadas de 1930 e 40, o livro expõe em linguagem não-técnica a maneira pela qual uma ciência nova surgiu para a existência organizada. este relato, feito por um dos que viveram e trabalharam durante esse período, será ainda necessário, juntamente com os que proporcionam outros pontos de vista e perspectivas outras. Não foi superado. De tal maneira, embora muito tenha acontecido desde então, conforme disse - e em parte porque este começo era bastante sólido para persistir -, os progressos ulteriores ampliaram, confirmaram e utilizaram as bases instituídas e revistas pelo "Alcance do Espírito".

Que vêm a serem esses últimos progressos? Conforme o indica a relação que se encontra ao fim deste volume, muitos outros vieram a lume sobre o assunto nos últimos tempos. Em grande parte se especializam em um setor ou ramo do assunto em que domina o presente volume. Encontra-se bom exemplo nas experiências do Doutor S. G. Soal e associados, realizadas na Grã-Bretanha; estas emprestam ênfase principalmente à telepatia. A obra de Soal apareceu em dois volumes: "Modernas Experiências em Telepatia" (Soal e Bateman, 1954) e "Os Ledores do Espírito" (Soal e Bowden, 1960). As pesquisas da Dra. Gertrudes Sehmeidler sobre a relação de atitudes e peculiaridades para com o sucesso em experiências do tipo de "clarividência" de percepção extra-sensorial foram publicadas em ESP and Personality Correlates (Sehmeidler and McConnell, 1958). A Doutora Louisa E. Rhine apresenta no livro Hidden Channels of the Mind (Canais Ocultos do Espírito") publicado em 1961, os resultados de dez anos de estudos de experiências espontâneas de natureza parapsíquicas (isto é, psíquica ) .

É natural que se manifeste a necessidade de um manual para qualquer novo ramo de pesquisa - algo que o estudante possa usar nos novos cursos que se oferecem, ou que possa consultar o profissional desejoso de examinar o assunto em busca de termos, definições, referências, instruções para experiências, processos de avaliação e quadros de resultados. O Doutor J. G. Pratt e o autor tentaram proporcionar este material no livro "Parapsicologia, Ciência da Fronteira do Espírito", publicado em 1957. O volume do Doutor D. J. West, "A Pesquisa Psíquica Atual" (1954) representa ponto de vista mais histórico, identificado com as sociedades de pesquisa psíquica, e assim também o livro de Rosalind Heywood, Beyond the Reach of Sense ("Para Além do Alcance do Sentido"). Não será preciso mencionar aqui outras obras mais gerais. Meu livro anterior, New World of the Mind ("O Novo Mundo do Espírito"), publicado em 1953, procura explicar as descobertas da parapsicologia e a relação deste ramo para com outros setores do conhecimento. A crítica filosófica do professor Anthony Flew da parapsicologia (1953) procurou restringir-lhe a significação.

Todavia, uma relação dos novos livros, mesmo completa, não daria uma idéia perfeita ou de fato apropriada do que se realizou durante os últimos quinze anos em parapsicologia. Sem dúvida, são de esperar mudanças - e não simples repetição ou continuação da mesma espécie de descobertas que assinalaram o progresso do período precedente de igual duração. Entretanto, a natureza não fornece a matéria-prima para manter-se indefinidamente progresso tão direto e rápido. Não se descobriu qualquer outro tipo de capacidade psíquica ou parapsíquicas. Foi possível, contudo, distinguirem mais cuidadosamente uns dos outros os tipos que havia sido identificado, investigaram-se as suas características, ampliou-se o conhecimento geral da natureza deles e criou-se maior compreensão e explicação científica. E tais foram os frutos colhidos pela investigação durante os últimos quinze anos. Sem dúvida, a colheita é rica, conforme o indicará o teor do Journal of Psichology (e outros periódicos) especialmente se levar em conta o pequeno número de pesquisadores e as limitações sob que operam.

Olhando mais de perto, o que nos é dado ver entre os frutos das décadas de 40 e 50? A telepatia, apesar da familiaridade maior que desfruta entre os tipos de fenômenos psi, revelou-se a mais difícil de identificação final, mas ficou mais "pura". Tornou-se experimentalmente distinta da clarividência, mas não da combinação possível entre a precognição e a clarividência. Contudo, as experiências de telepatia foram conduzidas com sucesso sob condições que não permitem qualquer percepção extra-sensorial de um alvo objetivo, mesmo se futuro; e Somente até aí pode ir a idéia originária da "transferência de espírito para espírito", atualmente concebível. Do lado oposto, as experiências de clarividência foram conduzidas de maneira tal que excluem a possibilidade de telepatia, mesmo da telepatia precognitiva.

Por igual maneira, o ESP do futuro ou a precognição, foi levada a um ponto de identificação mais nítida frente à possibilidade da produção em parte por psicocinética da ordem de alvos (por exemplo, uma série de símbolos) conforme preditos pelo indivíduo submetido à experiência. Queremos dizer, a escolha da ordem de alvos supostamente fortuita poderia sofrer a ação direta do espírito sobre a matéria. Por volta de 1960, contudo, a possibilidade de exercer a PC semelhante efeito sobre a escolha da ordem fortuita de alvos foi eliminada até um ponto que parece geralmente satisfatório. Por outro lado, a verificação do próprio efeito da PC, baseado no esforço do indivíduo no sentido de influir sobre a queda dos dados (ou de outros objetos) manifestou dificuldade comparável, exigindo cautelas especiais contra a probabilidade de vir a precognição, orientando a escolha da face do alvo (seja do dado) a justificar os resultados significativos obtidos. Todas iam, demonstrou-se agora, repetidamente sob certas condições, estarem a psicocinética e a precognição garantidas cada uma contra a hipótese oposta da outra, conforme se fez para a telepatia e a clarividência.

Ao mesmo tempo em que estes tipos se distinguiam cada vez mais claramente por meio da experiência, o conhecimento cada vez maior das propriedades comuns dos diversos tipos de fenômenos promoveu a suposição de serem eles simples conseqüências de uma única função psi fundamental, relação extra-sensorimotor entre a pessoa e o ambiente objetivo - entre sujeito e objeto. As pesquisas originais em que se baseiam esses comentários gerais constam do Journal of Parapsichology.

Qual a natureza da psi? Até que ponto nos adiantamos nos últimos anos para responder a tal pergunta? As últimas provas mais decisivas a favor da precognição e o tempo gasto nas experiências relativas ao ESP do futuro mostram a tendência de tornar mais nítida à distinção entre psi e ação sensorimotor. Não há base material concebível para a psi, mas conhecem-se as bases materiais para as outras ações sensorimotoras através da série inteira (muito embora ainda seja grande a brecha entre a ação material e a experiência sensorial). Enquanto esta distinção se acentua, a ação recíproca fundamental entre sujeito e objeto, da qual a psi é exatamente outro meio, vem sendo confirmada cada vez mais mediante novos progressos. A medida quantitativa das trocas entre o esforço mental do sujeito e a influência sobre o objeto material nas experiências de psicocinética de lance de dados patentearam nova perspectiva ao estudo quantitativo da energética essencial da ação parapsíquicas. É ou pode ser igualmente "parapsicofísica", e de tal modo se demonstra outro tipo de troca, além da ação recíproca nas relações de cérebro-espírito de tipo mais familiar. Embora engenheiros e físicos se preocupem muito mais com o espaço exterior do que com o problema do "mundo interior", e com a energia nuclear mais do que com a energia psi, dispomos agora de processos na parapsicologia para atacar novo programa de pesquisas, quando se passar a focalizar suficientemente a natureza do próprio homem nos assuntos mundiais.

A natureza psicológica da psi revelou-se mais completamente do que nunca. Suspeitava-se antigamente não ser possível experimentar conscientemente a psi como tal, o que se confirmou amplamente agora; não possui qualquer sinal de identificação que a faça reconhecer introspectivamente. Por meio do estudo de experiências espontâneas, identificaram-se as formas de transmissão que o ESP tem de utilizar para chamar a atenção do indivíduo como familiares e relativamente comuns: sonhos de vários tipos, alucinações e intuições. Nenhum tipo ou forma caracteriza Somente o modo parapsíquico de troca como tal. A psi não possui qualquer modalidade consciente. O reconhecimento deste fato esclareceu melhor o estudo dos fenômenos da psi do que qualquer outra descoberta isolada. Grande parte dos escritos dos últimos vinte anos relaciona-se de certo modo aos inúmeros efeitos que atualmente se reconhecem como associados a esta propriedade esquiva da função da psi. Esta opera inconscientemente; atua independentemente de qualquer forma característica de percepção.

Não só muitas peculiaridades psicológicas das ocorrências da psi podem atribuir-se ao nível de inconsciência em que atua (como deslocamento para um alvo próximo, deixar de acertar no alvo sistematicamente e produzir resultados "abaixo da probabilidade", declínios no número de pontos etc.); daí, porém, resulta a séria dificuldade de Somente ser possível controlar a psi mui ligeiramente. O sujeito pode imprimir certa direção volitiva ao próprio esforço ou, com toda certeza, não seria possível a realização de qualquer trabalho experimental. Mas a falta de direção introspectiva da capacidade da psi devido à ignorância de quando está funcionando (e se o está fazendo com resultado ou não) interfere com o exercitamento do sujeito no sentido de melhorar o desempenho. Esta dificuldade impede a utilização da psi e retarda grandemente o programa de pesquisa, tornando difícil a demonstração dos fenômenos.

O problema de conseguir melhor controle sobre a capacidade da psi mediante melhor compreensão da sua natureza constitui indubitavelmente o maior desafio à década atual, devendo tornar-se alvo de muitos projetos de pesquisa.

Na realidade, esta necessidade de aumentar o controle sobre a capacidade da psi já conduziu a certo número de projetos de pesquisa. Um deles resulta da dificuldade experimentada pelos pesquisadores em encontrar indivíduos que atuem bem em experiências e mantenham a execução durante certo período. Grande variedade de circunstâncias afeta facilmente os indivíduos, e entre elas especialmente a falta de interesse. Reconheceu-se, portanto, a importância de encontrar-se algum setor já existente, em que os indivíduos deparem naturalmente com situação favorável. A situação mais aproximada que se encontrou até agora é a da sala de aula, na qual a relação professor-aluno, nas melhores condições, proporciona boa relação para trabalho. Tala verdade se for possível interessar suficientemente o professor para que represente o papel de experimentador e se as suas relações com os alunos assegurarem o tipo de cooperação, atenção e interesse continuado exigidos pelas boas condições da experiência. O sucesso considerável conseguido com experiências de ESP na sala de aula durante os últimos dez anos animou os pesquisadores a adotarem essa maneira de proceder com relação a demonstrações mais controladas de ESP.

Fizeram-se igualmente esforços no sentido de controlar a capacidade da psi por meio da medida das condições que lhe acompanham o exercício. Reconheceu-se a importância de certos estados psicológicos. Procuraram-se estados psicológicos suscetíveis de indução pronta e repetida, como se dá com o auxílio da hipnose e de outros tipos de exame psicológico. Fizeram-se também esforços, igualmente com sucesso crescente, para relacionar as experiências de ESP com estados psicológicos, como se revelam na medida da pressão sangüínea, resistência da epiderme ou efeitos elétricos recolhidos de contatos com a epiderme. Têm aumentado a importância e o esforço dessa maneira de ver, embora até agora tenha sido muito limitada à matéria dada à publicação.

Terceira maneira ampla de pesquisar a natureza da psi (e seu controle subseqüente) conduziu à investigação da distribuição da capacidade. Estudos da personalidade e a busca do "tipo psíquico”, mesmo acompanhado das indagações exploradoras entre outros povos ou culturas, não revelaram qualquer grupo particular de indivíduos que possuíssem presença excepcional de capacidade de psi ou dela fossem definitivamente privados. O conhecimento disponível até agora indica que a capacidade se distribui largamente em estado potencial pela espécie. Há uns dez anos esta verificação levou a indagar se a capacidade de psi não faria parte da herança animal do homem. Embora a pesquisa da psi nos animais tenha sido extremamente limitada no espaço e no tempo, produziu resultados que, em qualquer outro campo, teriam sido considerados suficientes para estabelecer a teoria da origem evolucionária pré-humana. Abundante coleção de material anedótico põe o problema e trabalhos experimentais sobre algumas espécies - gatos, cães, pombos e cavalos - dão provas de apoio mais firme e mais do que justificam a continuação da pesquisa.

Tentando determinar as condições mais favoráveis para a psi, deu-se início recentemente a um "movimento de jogos de psi". Neste esforço, introduziram-se experiências de ESP e PC em processos parecidos com jogos, comparando-se com experiências-padrão. Até agora, o processo de experiência por meio de jogos deu melhores resultados. Sem dúvida, a novidade poderá ser fator favorável, mas essa maneira de proceder parece promissora. Forneceria pelo menos um meio de captar impulsos e interesses naturais.

São essas algumas das tendências para as pesquisas, a que pequeno punhado de investigadores se vem dedicando desde que "O Alcance do Espírito" recapitulou a situação em 1947. Tais descobertas, porém, mesmo se desenvolvidas detalhadamente, não constituiriam só por si o principal progresso da época. Ao invés, o tipo de prova que surgiu, as correlações das descobertas formando uma rede de significação e proporcionando estrutura global, exibem valor maior do que a soma de todos esses estudos isoladamente.

Qual a posição da parapsicologia entre as outras ciências atuais? Não seria de observar-se qualquer grande alteração de imediato. Não houve concessão repentina ou reconhecimento expresso da parapsicologia por parte da ciência oficial ou convencional. As mudanças mais sutis que ocorreram tornaram-se evidentes na supressão do antagonismo que as pesquisas encontraram nas décadas de 30 e 40. Embora a atitude preponderante por parte dos cientistas possa descrever-se como sendo de expectativa vigilante, a vigilância é mais amistosa e a espera mais paciente. Ataques diretos e polêmicos desapareceram em grande parte, pelo menos nos Estados Unidos, das publicações profissionais. Provavelmente os profissionais, em sua maioria, das ciências, estão atualmente convencidos de que se dá conta do homem e da natureza por meio de uma filosofia materialista. Tais indivíduos sentem-se impossibilitados de aceitar as descobertas da parapsicologia, seja qual for à prova fornecida. Grande parte, contudo, inclina-se por pensar que, pelo menos, devem investigar-se os fatos, muito embora ainda sejam alguns de opinião que a respectiva interpretação como prova de operação imateriais no homem seja errônea. De qualquer maneira, depara-se com a disposição generalizada de "esperar para ver". Cada vez número maior de pessoas, embora lentamente, firma opinião sobre a questão, em comparação a qualquer outra época na história deste assunto.

Mais importante ainda, maior número de jovens está indagando da possibilidade de uma carreira em pesquisas nesse campo. Abriram-se alguns cursos em colégios na América do Norte e o número deles continuará provavelmente a crescer. Inauguraram-se três centros de pesquisas (além do Laboratório de Parapsicologia de Duke) definidamente identificados com a matéria em terrenos de colégios e universidades desde o aparecimento de "O Alcance do Espírito". Dois outros estão em vias de organização.

O "Jornal de Parapsicologia", ora filiado à sociedade de pesquisadores profissionais da matéria, conhecida por Associação Parapsicológica, completa agora 25 anos de existência.

A nova Associação, fundada em 1957, conta atualmente com 125 membros de diversos países, prometendo ser tão bem sucedida neste campo como têm sido outras organizações em outros ramos da ciência. Embora em quantias limitadas, algumas sociedades filantrópicas têm fornecido fundos para pesquisa há mais de dez anos. Em conjunto, a promessa de auxílio para pesquisa de várias espécies é maior do que nunca antes, e, em geral, as experiências e as habilitações do pesquisador de hoje são melhores do que o foram no passado.

Para resumir, o que se verifica quanto ao campo de pesquisa que este livro apresentou aos leitores em 1947 é que está em marcha. O progresso da ciência é sempre difícil e podemos estar certos de que o aclive a subir será penoso para os parapsicologistas. Todavia, vê-se mais trabalho de grupo e melhor espírito de cooperação entre os pesquisadores atuais e apreciação mais favorável dos seus esforços pelo mundo dos que lêem a respeito das descobertas realizadas. Sei que são gratos por esse interesse; faz realmente parte importante do auxílio à pesquisa.

J. B. RHINE

Novembro, 1960.

CAPÍTULO I


A PERGUNTA PRINCIPAL A RESPEITO DO HOMEM
Que vem a ser entes humanos, como o leitor ou o autor? Ninguém sabe. Muito se sabe a respeito do homem, mas a sua natureza fundamental - o que o faz proceder como procede - ainda constitui profundo mistério. A ciência é incapaz de explicar o que é realmente o espírito humano e como trabalha com o cérebro. Não há mesmo quem tenha a pretensão de saber como se produz a consciência. Que espécie de fenômeno natural é o pensamento? Nem mesmo existe uma "teoria" a respeito.

Tal ignorância por parte do próprio conhecedor é dificilmente acreditável! A ciência fez recuar as nossas fronteiras com êxito em inúmeras direções. Explorou os pólos e as profundezas e elevações da Terra e todos os elementos da matéria; revelou a composição das estrelas mais afastadas e liberou a violência enclausurada do átomo; está sondando a delicada estrutura do plasma e a natureza sutil de moléstias outrora temíveis. Como poderia ter deixado quase sem tocar a pergunta fundamental: Qual a posição da personalidade humana no esquema do que existe?

Constituirá com toda certeza fonte de espanto para os futuros historiadores do século vinte e um ter o homem deixado de atacar por tanto tempo mediante pesquisas concentradas o problema do que ele próprio é.
*
Ao invés de conhecimento do que somos, temos opiniões.

Quando éramos muito jovens adquirimos, muitos dentre nós, a primeira opinião a respeito do homem - que consistiria de duas partes, uma o corpo material e a outra o espírito não-material ou alma. A alma era a parte que governava e o corpo a casa ou o instrumento da alma. Sem dúvida, Somente aos domingos, nas escolas dominicais falávamos da alma, exceto se houvesse um enterro. Mas nos dias da semana empregava-se a palavra "espírito" em grande parte no mesmo sentido; não nos preocupávamos com os pontos sutis da diferença.

Fosse na igreja ou na rua todos nós encontrávamos e absorvíamos essencialmente o mesmo conceito dos entes humanos. A opinião dominadora era de que na realidade o espírito controlava o indivíduo e seu comportamento. Era, sem dúvida, em torno do espírito do indivíduo que a cultura e as instituições se desenvolviam. Não só os órgãos sociais como as escolas, mas na realidade todas as maneiras da vida, costumes, moralidade, prazeres, aspirações e valores, baseavam-se na doutrina que adquiríramos na infância, isto é, o homem é um ente dual, sendo o espírito o centro verdadeiro da personalidade.

Esta opinião tradicional geralmente continua com o indivíduo até o fim da adolescência. Depois dessa idade, tende a persistir com os que não se adiantam mais na instrução ou em reflexão. Mesmo entre os jovens que prosseguem nos estudos mais adiantados, alguns há que se apegam dedicadamente aos conceitos originários durante o período dos estudos superiores e mesmo até certo ponto durante a vida.

A tendência geral, contudo, é no sentido do abandono desta antiga maneira espiritual de ver o homem em duas partes. Como estudante, trava conhecimento com as ciências que tratam da espécie humana, sua origem e evolução; à proporção que adquire conhecimentos a respeito da íntima ligação entre comportamento e o cérebro; à proporção que verifica até que ponto as glândulas regulam a personalidade por meios químicos, as suas opiniões começam a mudar. Descobre que o espírito da criança Somente amadurece com o desenvolvimento do cérebro, que certas funções mentais se relacionam com regiões específicas do cérebro e que se o cérebro for lesado perdem-se essas funções psíquicas. Tão intimamente parece agirem paralelamente o pensamento e o cérebro que o jovem inquiridor naturalmente vem a pensar que o cérebro é o verdadeiro centro do controle sobre o pensamento. Esta a segunda opinião sobre o homem.

Sem dúvida alguma, presta-se o cérebro ao estudo por processos materiais. As células nervosas de que se compõe constituem parte do universo da matéria e da energia. O espírito, por outro lado, é intangível. De que "matéria" seria formado? O que seria se não fosse material? Parece simplesmente função do cérebro - certo aspecto do cérebro em ação. De tal maneira passamos a considerar o homem como inteiramente material por natureza, e o espírito como simples epifenômeno ou efeito ulterior da atividade do cérebro. Essa explicação permite organizar o conhecimento de quanto existe em um único sistema ao invés de dois.

De sorte que o estudante de ciências acaba de instruir-se dispondo de muito pouco do que aprendera anteriormente a respeito do homem. Talvez tenha realizado a mudança gradativamente, sem qualquer discussão franca ou mesmo decisão consciente. De fato, essa transição de uma opinião para outra é, na maior parte dos casos, sutil alteração de atitude em resposta a ponto de vista de professores e livros; pode ser resultado de pura sugestão tanto quanto o era a aceitação infantil do conceito mais antigo a respeito do homem.
*
A questão é que ouvimos dizer muito pouco a respeito do problema do que somos.

Existe infeliz tabu, tanto na escola como fora, contra a discussão das opiniões a respeito da natureza final do homem. Em conseqüência, mesmo nos recreios da universidade mais liberal, raramente a questão do homem e do espírito vem abertamente à baila. Certas organizações adotam naturalmente as opiniões tradicionais, vindas à frente delas a igreja paroquial, na qual se afigura essencial à suposição de um fator espiritual ou não-material no homem. Mas enquanto esta escola está atarefadamente preparando jovens pregadores na fé que alguma espécie de espírito ou alma transcendente regula a vida do indivíduo, a escola de medicina, talvez Somente a alguns passos de distância, está por igual deixando de lado confiantemente tudo quanto não seja processo materialmente objetivo no ensino dos jovens médicos. Até mesmo o jovem psiquiatra, enquanto estuda, é levado cada vez mais a confiar na seringa, no escalpelo e no aparelho elétrico, para trabalhar sobre o cérebro em lugar de sobre o espírito.

Naturalmente, a psicologia é o campo a que pertence este problema. A natureza do espírito ou psique constitui, por definição, o assunto do estudo da psicologia, embora a "ciência da alma" tenha perdido há muito o interesse pelas almas. Até a palavra "espírito" conforme o leigo emprega, para significar algo diferente do cérebro, não está mais em boa situação. O estudante, portanto, nada encontra a respeito da alma nos manuais de psicologia e nas preleções, e muito pouco no espírito como realidade distinta. Ao invés, estuda a respeito do "comportamento" e sua relação para com os campos e passagens do cérebro. A relação entre o espírito e o corpo constitui tema fora da moda e a opinião dualista de que o espírito é algo em si mesmo que atua juntamente com o cérebro e até certo ponto lhe governa a atividade é um beco sem saída em psicologia.

Entre os psicólogos (e filósofos-psicólogos), os antigos defensores da natureza dual do homem - William James, William McDougall, Henri Bérgson e Hans Driesch - saíram agora da cena, não tendo tido sucessores que se lhes comparem. A teoria da alma da personalidade passou à história da psicologia.

Entretanto, bastante estranhamente, não há quem afirme ter provado que o espírito é material. Não se registra qualquer teoria física do processo mental consciente. Ë extraordinário que um ramo da ciência aceite uma opinião sobre o espírito não só em qualquer prova positiva mas sem mesmo formular uma hipótese não comprovada que o justifique. Semelhante atitude só se pode caracterizar como de pura opinião, como ato de "fé". Entretanto, tomou-se quase tão característica dos círculos científicos e das salas de aula como a crença na alma tem sido a das escolas de teologia.
*
Nada, contudo, fica permanentemente instituído em qualquer campo pela fé desprovida de verificação.

Nos dias de Copérnico e de Galileu, os pensadores tinham de optar entre a opinião de um mundo que tivesse por centro a Terra (geocêntrico) e um que tivesse por centro 0 Sol (heliocêntrico). Hoje, os homens que refletem têm de decidir, por igual maneira, qual o centro de controle do mundo pessoal do indivíduo - o espírito subjetivo, experimentador ou o cérebro orgânico, objetivo. Mas Somente por meio da pesquisa será possível determinar o que é certo, se a idéia do homem tendo por centro o espírito ou psicocêntrico ou se a concepção do cérebro como centro ou cerebrocêntrico. Não se poderá resolver a questão por autoridade de qualquer espécie. Meras opiniões, de qualquer tipo que sejam, não são mais suficientes para a orientação dos homens.

Em contraste com a antiga questão da Terra contra o Sol, este problema do homem é de natureza urgente! Tão urgente como a felicidade humana, o seu bem-estar ou a vida. As difíceis relações humanas atuais resultam evidentemente de uma causa única: Não sabemos como tratar as pessoas - em que princípios, em que filosofia do homem, em que suposição a respeito da sua natureza deve basear-nos. Não o conhecemos suficientemente. Temos Somente idéias e opiniões em conflito a respeito.

Pondere-se tão-só um punhado das questões urgentes com que nos defrontamos hoje em dia: Qual deve ser a nossa atitude com relação aos povos conquistados? Indivíduos deslocados? Minorias raciais? Antigos aliados? Concorrentes no mercado mundial ou nos negócios locais? Empregados? Administração? Criminoso condenado? Desempregado? Vizinhos esfomeados e necessitados no país ou no estrangeiro? Ninguém conhece uma resposta segura. A maneira por que tratamos essas pessoas depende evidentemente das opiniões a respeito do que são. Mas essas opiniões estão em conflito e confusão fundamentais.

Qual o médico capaz de tratar de um doente se não soubesse que moléstia o acomete? Qual o engenheiro que trabalha sem conhecer a natureza dos materiais de que faz uso? Como podemos esperar preparar e encaminhar eficazmente as pessoas, seja individualmente seja em grupos, se não sabemos o que é realmente a mais simples espécie de homem? Nem mesmo conseguimos ficar de acordo no que acreditar!

As instituições sociais baseiam-se na opinião do homem tendo por centro o espírito ou psicocêntrico. Por outro lado, a psicologia atual é em grande parte cerebrocêntrico, tendo por foco a dinâmica cerebral. E o chisma entre essas duas concepções é profundo e radical. A nossa cultura supõe, por exemplo, que o espírito é suficientemente diferente do corpo de sorte a permitir o "livre arbítrio". Semelhante liberdade volitiva significa ter o espírito leis que lhe são próprias, e, portanto, que não o governam as leis do corpo e do ambiente, pelo menos não inteiramente. Deixam-lhe certas liberdades da determinação material, certa independência de ação. O ponto de vista material da personalidade, por outro lado, sujeita todos os atos à lei física sem deixar de modo algum lugar à liberdade. Um único sistema de causação, um único tipo de lei é supremo tanto no reino físico como no mental.

Em conseqüência, é para nós decisivo, bem como para a sociedade em geral, saber se o espírito é ou não simplesmente função do cérebro. Sem liberdade de escolha, a filosofia social entraria em colapso. Sem volição livre não há moralidade, democracia real, nem mesmo qualquer ciência como indagação livre. Se a vida mental fosse totalmente produto de física cerebral não haveria meio de escapar à lei física em qualquer ponto da conduta humana. A liberdade seria então uma fantasia, e a moral, sob a lei física, simples ficção.

As relações humanas atingiram agora um ponto em que miséria inconcebível e devastação resultarão da impossibilidade de descobrir-se melhor dispositivo para compreensão e orientação dos homens. As antigas crenças muito perderam da fôrça de orientação sem que novas crenças de valor comprovado lhes tomassem o lugar. É hora de ação.


*
O primeiro passo a dar é encarar a questão da natureza humana em perspectiva.

O problema, sem dúvida, não é novo. Apresentei-o aqui conforme o estudante provavelmente o há de ver no colégio; mas a mesma situação se apresenta à raça inteira quando atinge a "maturidade intelectual". O paralelo é bastante aproximado.

Em tempos remotos, no que se poderia denominar de infância e adolescência intelectual da humanidade, havia a mesma crença de ser o homem criatura dual, corpo com alma governante ou espírito de caráter imaterial. Depois, ao alcançar o desenvolvimento cultural o ponto de pensamento crítico, racional, científico, conforme aconteceu nos últimos séculos, quase o mesmo aconteceu para o mundo pensante em geral como se dá com o estudante que medita ao cursar a universidade. O homem racional perdeu a crença na própria natureza espiritual. Descobertas revolucionárias nas ciências, especialmente na biologia do século dezenove, destruíram o quadro tradicional do homem e do lugar que ocupa na ordem natural. Na reconstrução das descobertas científicas em um esquema universal único, deixou-se de lado o espírito como ordem distinta da realidade. Para ele não havia lugar em o novo quadro mecânico do mundo.

Sempre que a ciência se apresentava, a crença tradicional na natureza espiritual do homem desertava. A psicologia foi ficando cada vez mais saturada de conceitos físicos. A doutrina materialista do homem progrediu do materialismo grosseiro para teorias moldadas, segundo as da física moderna; mas o predomínio da analogia material ainda continua. Não existe qualquer tolerância na ciência para o não-material, ou exclusivamente psíquica, para a realidade que os homens outrora denominavam de alma. este movimento foi tão longe que atualmente os poucos cientistas restantes que exprimem de público a crença na alma põem provavelmente em embaraço os colegas.

Entretanto, há algo de errado nesse quadro do século dezenove! Desprezaram-se alguns fenômenos excepcionais da natureza humana quando se estava elaborando esse conceito científico do homem; omitiu-se, como é costume, porque não se ajustava. De fato, introduzi-lo teria alterado completamente o quadro inteiro.

Esses fenômenos constituem o começo da narrativa deste livro. A ciência ortodoxa deixou-os de lado facilmente por serem raros, excepcionais e difíceis de verificar. Apesar disso, alguns pesquisadores científicos ousados aceitaram o desafio para verificação das reivindicações que se formulavam em prol de semelhantes manifestações. E, conforme veremos, as conseqüências foram revolucionárias. Os fenômenos em causa são os chamados "psíquicos" e o seu estudo tornou-se conhecido por "pesquisa psíquica". Nos círculos universitários, chamamos atualmente de "parapsicologia", ciência das manifestações mentais que parece ultrapassam os princípios aceitos. Formaram-se sociedades não-acadêmicas em diversos países para a promoção dessas pesquisas; uma das primeiras foi a Sociedade para Pesquisas Psíquicas (SPP), fundada na Inglaterra em 1882. A princípio e, de fato, durante muitos anos, foi preciso conduzir essa pesquisa fora dos laboratórios da universidade, dependendo quase inteiramente do patrocínio de sociedades. Foi esse trabalho pioneiro que atraiu a atenção para a possibilidade de encarar-se cientificamente a questão da natureza fundamental do homem.

Neste ponto, a história com que nos confrontamos constitui o relato desse ramo herege, controvertido, pioneiro da pesquisa, que ainda clama pelo reconhecimento devido ante as portas da ciência circunspetas, conservadoras, oficiais. A narrativa refere-se a alguns exploradores dispersos, mas dedicados, que trabalharam nos Estados Unidos e no estrangeiro durante os últimos setenta anos, bem como com o que descobriram a respeito dos seres humanos, que nos permitirá descobrir o que são realmente os homens no esquema de tudo quantos existe. Conta-nos às experiências realizadas e a prova obtida, os altos e baixos da investigação, as dificuldades e as conquistas ocasionais, a significação dos resultados e os problemas que ficaram sem resposta. Ao leitor ficará sem dúvida o julgamento final, mas depara-se agora com grande acúmulo de descobertas de que se lance mão.

Teremos de nos preocupar com muitos mistérios nos CAPÍTULOS que estão à frente. Mas por isso não tenho de pedir desculpas; uma ciência vigilante faz cabedal dos mistérios. O cientista apodera-se do fenômeno inexplicável como se fosse tesouro repentinamente descoberto. Quanto mais inexplicável e misterioso, tanto maior a compreensão quando finalmente esclarecido. A promessa especial dos mistérios que teremos de versar importa em conduzir-nos à descoberta de alcance mais amplo e mais longínquo do espírito humano em direção ao domínio do espaço e do tempo e da matéria, a que chamamos de universo.

CAPÍTULO II

PRIMEIRO PASSO NA DIREÇÃO DA RESPOSTA:

“TELEPATIA”



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