Iv encontro nacional de história da mídia



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RESTRIÇÃO À LIBERDADE DOS PROFISSIONAIS DA IMPRENSA EM JUAZEIRO (1930 – 1985)
Verusa Sái, Lidmillie Castro Santosii e Andréa Cristiana Santosiii
A bibliografia referente à história da imprensa no Brasil tem crescido progressivamente, embora seja mais comum encontrar periódicos como fontes documentais em dissertações e teses historiográficas com o fim de registrar o pensamento sócio-político e econômico de uma época. Não obstante a relevância da imprensa como fonte documental, faz-se necessário que ela seja estudada como campo de conhecimento da área de Comunicação, principalmente ao observarmos a importância dos impressos na formação da opinião pública e na consolidação da democracia na contemporaneidade.

Nesse contexto, um aspecto a ser abordado na história da imprensa refere-se à trajetória dos periódicos regionais que, apesar de se constituírem, em muitos casos, uma produção artesanal, revelam o modo como os meios de comunicação participam da vida pública. Com o objetivo de mapear os veículos existentes na cidade de Juazeiroiv, interior do estado da Bahia, tem se desenvolvido a pesquisa História da Imprensa em Juazeirov, que busca resgatar a atuação dos profissionais de imprensa e definir um recorte histórico no qual o periódico esteja inserido, referindo-se às relações sociais e culturais determinantes nesse espaço geográfico (BARBOSA, 2005).

A pesquisa parte do pressuposto de que a imprensa não pode ser entendida como reflexo da sociedade, ou seja, como “detentora” de “verdades” e “fatos” objetivos, mas como participante ativa na construção da realidade social, conforme recomendam os estudos estruturalistas e interacionistas (TRAQUINA, 2004). Nessa perspectiva, entende que a matéria-prima do Jornalismo – a notícia - resulta de processos complexos de interação entre os seus agentes: jornalistas, fontes e sociedade.

Este artigo de iniciação científica resgata a memória acerca das perseguições aos profissionais de imprensa Aprígio Araújo, fundador de O Eco, e João Leal, colaborador de A Luta. Ambos repercutiram em seus jornais os conflitos, as paixões políticas e o jogo de interesses existentes durante a Revolução de 30. Aborda, também, os atentados sofridos pelo jornalista e escritor Wilson Dias, quando trabalhava, nos anos 70 e 80, para as sucursais do Jornal da Bahia e A Tarde, jornais sediados em Salvador. Em paralelo, traz elementos a respeito da imprensa vinculada à classe operária, como O Trabalho, que repercutiu a luta pela sindicalização dos trabalhadores da Viação Baiana do São Francisco.

Os referidos jornais tinham perfis editoriais e finalidades distintas, mas representaram a memória coletiva de uma época e de uma sociedade capitalista emergente. Nos casos relatados, observa-se como o exercício da profissão jornalística em uma cidade do interior da Bahia também encontrou restrições à liberdade de imprensa, desde os constrangimentos de ordem política e econômica a padrões culturais, o que propiciou o desencadeamento dos atos de violência física que serão descritos a seguir.
PRIMÓRDIOS DA IMPRENSA ESCRITA EM JUAZEIRO
Berço dos meios de comunicação da região sanfranciscana, os primeiros jornais de Juazeiro têm como marco a compra da primeira tipografia pelo comerciante Raimundo de Azevedo, em 1885. O sonho do comerciante e jornalista era viabilizar a impressão de A Cidade de Juazeiro. Porém, Azevedo tinha outras ocupações e confiou a administração da tipografia, assim como a responsabilidade pela edição do jornal, ao tipógrafo Clóvis de Oliveira Mudo. A tarefa foi cumprida, mas, por ironia, Clóvis não imprimiu o jornal com o qual sonhara Raimundo Azevedo.

Em 1895, dez anos após a instalação da tipografia, Clóvis traz ao conhecimento da comunidade local o semanário O Sertanejo, cuja redação era do professor Atanázio Aquino Nazareno. A publicação do jornal foi duramente criticada por Azevedo, que mandou queimar os exemplares e demitiu Clóvis de Oliveira. Como afirma João Fernandes Cunha, “Clóvis perdeu o emprego, mas foi projetado como pioneiro da imprensa de jornal na região” (CUNHA, 1978:137).

Deste modo, surge a imprensa no Vale do São Franscisco por meio de um jogo de interesses e poder – ilustrado na imagem de Azevedo - contra um simples operário encarregado pela tipografia. A censura econômica e política a qual Clóvis foi submetido por não obter a posse da tipografia nem prestígio político, e a ousadia, ao publicar o primeiro periódico, gera controvérsia em torno da memória do primeiro jornal a circular na cidade, como revelam historiadores que se propuseram a construir uma memória oficialvi.

Para o historiador Walter de Castro Dourado, A Cidade de Juazeiro, editado em 1º de maio de 1896, seria o primeiro impresso a circular na região, pois teve maior periodicidade e circulou durante um ano. Já O Sertanejo teria sido distribuído para um círculo restrito de pessoas com acesso à tipografia (apud DIAS, 1982:40 - 41).

Disputas baseadas na inter-relação político-financeira permaneceram, de modo semelhante, ao longo da história da imprensa juazeirense. Os comunicadores eram, em geral, médicos, poetas, professores, políticos e comerciantes sendo considerados jornalistas autodidatas. O nascimento da imprensa reflete ainda as condições sociais da época, como o processo de emancipação política (1878), o desenvolvimento econômico vertiginoso para um município com três mil habitantes, a navegação pelo Rio São Francisco e um acervo de bens culturais como o teatro Santana, construído em 1874, com capacidade para 400 pessoas (CUNHA, 1978:135).

Banhada pelo Velho Chico, Juazeiro estava estrategicamente situada na encruzilhada entre a antiga estrada Bahia – Maranhão, permitindo a entrada ao estado do Piauí. Com uma malha fluvial abrangendo desde Minas Gerais ao Oceano Atlântico, viabilizava acesso aos estados de Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (DUARTE, 1985:25). O porto fluvial se tornaria uma importante rota de transação comercial pelos sertões, bem como de comunicação, pois circulavam negócios, informações e viajantes. Juazeiro iniciava o processo de urbanização de suas praças, demonstrava preocupação em prover a comunidade com assistência à saúde por meio da Santa Casa de Misericórdia. Também procurava viabilizar o acesso à educação formal com o funcionamento de duas escolas primárias.

Entre os anos de 1878 e 1885, quando houve a compra da tipografia, a cidade estruturava-se como um emergente centro comercial e urbano. Um meio de comunicação impresso passava a ser necessário para uma incipiente burguesia local, que detinha poder econômico e viabilizava a circulação de idéias, concepções políticas e visões de mundo sobre a nova sociedade que se desenvolvia.

De 1901 a 1919, circularam pequenos periódicos na região com ênfase em questões políticas e culturais, como A Pérola e A Crisálida, ambos de vida efêmera. Um dos primeiros jornais com periodicidade regular, O Correio do São Franscisco (1901-1919) era editado por Jesuíno Inácio da Silva. O médico José Inácio da Silvavii atuava como articulista, pregando a modernização da assistência à saúde local e o poeta José Petitinga era responsável pela redação. O jornal trazia artigos, notícias, notas oficiais e informes de serviços públicos, como datas e horários de viagem da Viação Baiana do São Franscisco, além de anúncios publicitários. Com o perfil editorial voltado para informações sobre avanços na saúde e técnicas agrícolas antecipava temas relacionados ao sonho da irrigação que marca a produção econômica atual na região.

Este quinzenário evidenciava os embates de uma sociedade diante da emergência da modernização do país, em contraste com uma sociedade que ainda se ressentia de alto índice de analfabetismo, da necessidade de escolas formais, aperfeiçoamento do sistema agrícola e um eficiente sistema médico. Exemplo dessas idéias também esteve presente no semanário Folha do São Francisco, criado em 1911, com o objetivo de enaltecer o progresso e a modernidade.

Durante este período, a imprensa é artesanal no que se refere ao corpo profissional e à sobrevivência econômica, caracterizada pela falta de especialização e sobrevida pequena. Alguns periódicos traziam anúncios de hotéis e consultórios médicos, mas a participação do comércio ainda se configurava incipiente. Muitos dos jornais, que apareciam e desapareciam com certa freqüência, dedicavam-se ao humorviii e a literatura.

Porém, na segunda metade da década de 20, surgem três jornais de posição política diferenciada: O Eco, que circulou de 1926 a 1949, sob a direção do jornalista Aprígio Araújo (também secretário da Prefeitura Municipal); A Luta, de propriedade de Joaquim Matos Quinaud e colaboração do professor João Rodrigues Leal, circulou de 1928 a 1933; O Trabalho, vinculado à Associação Beneficente dos Artífices de Juazeiro.

A fase de modernização da imprensa na região ocorre no início dos anos 80, com O Jornal de Juazeiro, atual Diário da Região, que adquiriu novo parque gráfico por meio da compra de uma off-set, em 1981. Embora o jornal circule diariamente há 33 anos, o forte conteúdo político atrelado aos interesses do proprietário Paganini Mota, cujo filho é vereador municipal, revela as limitações do periódico como veículo independente. O noticiário divulga basicamente ações dos órgãos públicos e prefeituras da região.

No final dos anos 70, a região recebe as sucursais do A Tarde, Tribuna da Bahia e Correio da Bahia, jornais de circulação estadual permanecendo, atualmente, apenas a sucursal de A Tarde. Alguns estudantes até arriscavam a criação de jornais, porém a necessidade de patrocínio sempre foi um forte obstáculo à sobrevivência dos periódicos. Em 1989, O Diarinho, propriedade do estudante Wellington Dias da Silva, filho de Wilson Dias, era feito diariamente e distribuído pela cidade. Deixou de circular devido à falta de patrocínio privado, embora contasse com apoio do comércio.

Verifica-se que os periódicos que circularam em Juazeiro, independente de sua precariedade, fizeram parte de uma tradição local e refletiram o avanço do desenvolvimento social e das disputas políticas na região, assim como dos impasses ao trabalho jornalístico, como se observam nos acontecimentos envolvendo Aprígio Araújo e João Leal. Testemunhas do seu tempo, os jornais serviram como veículo de informação e de luta para conquistar a opinião pública.

Distante da grande metrópole, a cidade banhada pelo São Francisco também participava dos conflitos que emergiam na sociedade. Esta mesma imprensa seria, de modo semelhante, cerceada na medida em que interesses políticos e sociais sobrepunham-se à livre expressão do pensamento. Como uma célula ativa dos grupos sociais, os jornais não ficariam incólumes às transformações desenvolvidas na primeira e segunda metade do século XX.
PERSEGUIÇÕES AOS JORNALISTAS: IMPACTOS DA REVOLUÇÃO DE 30
No decorrer da década de 20, o país vai sofrer influência de ideais da jovem oficialidade do Exército – os “Tenentes” - e de oligarquia dissidentes que culminarão com o fim da República Velha, caracterizada pelo predomínio dos cafeicultores e “coronéis” por meio do voto de cabresto (compra de votos). Aparecem os efeitos políticos do processo de urbanização e industrialização e o surgimento de camadas medias e massas urbanas que começam a exigir maior participação política.

A oposição dos "tenentes" ao sistema político manifestou-se nas revoltas dos 18 do Forte, de 1922, de São Paulo e Rio Grande do Sul, de 1924, e na Coluna Prestes, de 1925 a 1927. Eles expressavam idéias de regeneração do sistema jurídico-político, atacavam as oligarquias, defendiam o equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário e pleiteavam um vago nacionalismo econômico, bem como a modernização da sociedade (ABREU, 2005).

Assim como os tenentes, grupos políticos de vários estados descontentes com o sistema político que privilegiava a divisão de poder entre Minas Gerais e São Paulo na campanha eleitoral para a Presidência da República também se aliam aos tenentistas para reivindicar maior participação política. Apesar de unidos em um objetivo comum, havia divergências entre eles. Enquanto os tenentes consideravam que a “revolução” deveria ser feita a partir dos quartéis, para as oligarquias a tomada de poder seria por meio de eleições. A partir dessas idéias começavam a ser gestadas as condições sociais e políticas que levariam ao movimento armado de 3 de outubro de 1930, conhecido como Revolução de 30.

O alinhamento de tenentes paulistas e gaúchos, em 1925, proporcionou a formação da Coluna Prestes, a qual se opunha ao domínio oligárquico e tentava conscientizar as pessoas da sua miséria e iniqüidade social, refletidas pela estrutura fundiária vigente. Comandados por Luís Carlos Prestes, os jovens oficiais da Coluna entraram na Bahia em 1926, através da fronteira com Pernambuco.

A Coluna permaneceu por dois meses no estado. Disseminou o ideal revolucionário por mudanças na estrutura de poder e encontrou resistência de grupos armados em cada localidade que passou. No norte da Chapada Diamantina, os Lavristas (Batalhão Patriótico sob o comando do Cel. Horácio Matos) desestruturaram as forças tenentistas e dispersaram seguidores. Porém, apesar da resistência dos coronéis, os motivos que levaram a formação da Coluna Prestes continuavam a fomentar críticas à República Velha e não tardariam a eclodir em movimentos armados.

Em 3 de outubro, o conflito armado iniciou no Rio Grande do Sul e encontrou na Bahia a resistência dos coronéis e do governador recém-eleito Pedro Lago. Conservadora, a elite baiana representada pelos coronéis permaneceu legalista e defensora de Washington Luís. Jornais como A Tarde, de Ernesto Simões Filho, e Diário de Notícias, à frente da redação Altamirando Requião, comportaram-se como fiéis porta-vozes das forças conservadoras baianas. Na capital, somente o Diário da Bahia vai se posicionar favorável ao movimento revolucionário, influenciado pelas posições políticas assumidas pelo ex-governador J.J.Seabra (SANTOS, 1985: 113-114).

No início do confronto, Juazeiro foi considerada uma cidade estratégica e concentrou as forças legalistas. A cidade se dividiu entre os aliancistas favoráveis à Revolução e os resistentes ao movimento. Os primeiros eram comandados pelo tenente Jurandyr Bizarra Mamede, que permaneceu em Petrolina até desembarcar em Juazeiro. Nesse momento, o tenente é recebido pelos adeptos à Revolução: Rodolfo Araújo, os jornalistas João Leal, Joaquim de Matos Quinaud, e Sebastião Valença, entre outros. O general Santa Cruz encarregara-se de organizar a resistência ao movimento, nomeando o chefe político de Juazeiro e deputado federal, José Cordeiro de Miranda, para realizar a tarefa.

Nesse contexto, destaca-se O Eco (1926-1949), dirigido por Aprígio Araújo, opondo-se aos revolucionários de 30. Secretário da prefeitura, Araújo tanto elogiava as iniciativas do poder público quanto criticava os desacertos administrativos. Segundo o historiador João Fernandes Cunha (1978), o jornalista “realçava as necessidades da população de uma cidade que se desenvolvia e reclamava eficiência na condução dos seus direitos políticos”.

Aprígio Araújo tinha o apoio de Cordeiro Miranda e, juntos, chefiaram força armada de 800 homens dispostos a sustentar a legalidade do governo de Washington Luís. Os revoltosos não empreenderam nenhum ataque à cidade, pois estavam em Petrolina e com insuficiência de munição. Eles tentaram chegar pela retaguarda, vindo de Curaçá, nomeados como “A Coluna da Morte”. Foram duramente reprimidos.

Em 24 de outubro de 1930, Washington Luís é deposto, Getúlio Vargas assume a presidência do país e os revolucionários desembarcaram no Porto de Juazeiro. Os comandantes das tropas vitoriosas trataram de assumir o poder local e tomar medidas para combater os opositores ao movimento. Um deles seria representante da imprensa. Eles enviaram uma intimação para Aprígio com a finalidade de obter esclarecimento do jornalista sobre sua defesa ao governo anterior. Aprígio levou todas as edições do jornal O Eco em atendimento à solicitação do cel. João Costa. Os chefes da revolução compreenderam a autonomia da opinião do jornalista e o liberaram de sanções.

Porém, o sargento Severino Rodrigues denunciou Aprígio ao comando revolucionário, após o jornalista publicar a sátira “Pontas de Fogo – O Berro do Capitão”, que fazia referência a sua pessoa. Dias depois, Aprígio sofre um atentado à bala, em praça pública, na presença do prefeito Miguel Siqueira. O sargento desferira dois tiros contra Aprígio. Um atingiu o fêmur, outro foi apontado em direção à sua cabeça, mas não chegou a concretizar o ato. Foi impedido pelo civil Ponciano Moreiraix que desarmou Severino Rodrigues.

Aprígio Araújo sobrevive e marca, na história de Juazeiro, o primeiro atentado contra a vida de um jornalista na região. Constata-se que a prática militarista e os costumes regionais utilizavam-se da agressão física ou moral para repreender opositores. O jornalista poderia até expressar sua opinião, mas teria que arcar com as conseqüências dos seus atos, pois poderia de alguma forma ver ameaçada à liberdade de expressão. Vale lembrar que a consolidação da Revolução de 30 encontraria resistências e não seria aceita tão prontamente. Alguns opositores, como Simões Filho e Pedro Lago, exilaram-se do país devido a defesa do governo Washington Luís.


A Luta e a defesa da Revolução de 30

Desde 1928, A Luta se apresentava à sociedade como um periódico de oposição ao poder político local, comandado por Cordeiro de Miranda e pelo prefeito Miguel Siqueira. Partidário da Aliança Liberal, fazia um jornalismo combativo e veemente na figura do professor-colaborador João Leal. Joaquim Matos Quinaud era proprietário do jornal que tinha como proposta editorial ser um porta-voz das reivindicações populares e um crítico contumaz ao poder constituído, contra submissões ou abusos de autoridade.

João Leal iniciou uma campanha contra a administração de Miguel Siqueira. Durante a eclosão do movimento armado, João Leal e Quinaud serão os representantes do movimento tenentista na cidade. Essa postura e a crítica ao prefeito Siqueira trarão conseqüências para a vida de João Leal. Irmão do prefeito, o cel Suetónio Siqueira Camucé se indignou com as críticas de Leal, incentivando seu sobrinho Amarílio Siqueira a humilhar o jornalista em praça pública. O jovem assim o fez. Na companhia de dois tenentes do Exército esbofeteou o professor e deu golpes de coronhada de mosquetão (arma de cano curto utilizada pela artilharia e pela cavalaria) em sua cabeça. João Leal é assassinado a sangue frio e vítima do segundo atentado contra um profissional de imprensa em Juazeiro da Bahia.

O assassinato envolvia diretamente interesses políticos distintos de dois grupos pelo poder, mas se refere, também, a prática violenta defendida pela Lei do Talião: “Olho por Olho, Dente por Dente”, devolvendo-se o troco, algumas vezes, numa moeda muito mais cara. Nos livros memorialísticos, não é mencionada a morte de João Leal a mando de um representante da oligarquia local, o que nos leva a inferir que os assassinatos eram uma constante numa cidade marcada pela cultura da violência. Embora não tenhamos fontes documentais para assegurar, é possível que, no momento, em que a cidade passava por uma reestruturação de poderes locais, o sargento Suetônio Siqueira Camucé considerasse que o crime ficasse impune.

Após a vitória dos revolucionários de 1930, Miguel Siqueira é deposto e Rodolfo Araújo assume o cargo de prefeito de Juazeiro, escolhendo Quinaud como seu secretário particular. A Viação Baiana do São Francisco é entregue ao capitão revolucionário Nelson C. Xavier, que a administrou por cinco anos, deixando-a falida.

A vida na cidade começava a se normalizar, com a volta das famílias que se refugiaram em distritos da região como Juremal, Massaroca e Carnaíba. Juazeiro sofre sanções pela resistência em aderir à Revolução, perdendo algumas instituições a exemplo da Diretoria dos Correios. A cidade acumulou um déficit orçamentário e entregue ao chefe político Nelson C. Xavier, que comandava a Viação Baiana e elevado à condição de vice-rei do São Francisco. Aos poucos, a administração de Rodolfo Araújo consegue reestruturar a cidade, constrói o cais do porto e recupera o crescimento econômico-cultural da região (RIBEIRO, 2005: 130 -131).

Perseguições à imprensa só voltam a se concretizar em 1933, quando trabalhadores da Viação Baiana do São Francisco procuram se reorganizar por meio da Associação Beneficente dos Artífices de Juazeiro para reivindicar melhorias salariais. Resolvem criar o jornal quinzenal O Trabalho, confiando a direção de redação a Edson Ribeiro. O periódico é empastelado por ordem do coronel Nelson Xavier, superintendente da Viação Baiana, em virtude da campanha a favor da sindicalização dos trabalhadores fluviais. O jornal tem sua oficina gráfica paralisada e o periódico impedido de circular (idem.ibdem, p.255).

RESTRIÇÃO À LIBERDADE DE IMPRENSA: ATENTADO A WILSON DIAS
Ao longo da história do município, inserido nas transformações do estado e do país, a sociedade procura resolver as divergências políticas e culturais sem apelar para violência contra profissionais de imprensa. O Golpe Militar de 64, através do Ato Institucional nº 5, censurou oficialmente a imprensa que, ameaçada pelas sanções dos militares (censura política, prisões, tortura), ficou restrita a expressar pontos de vista favoráveis ao poder vigente.

Contudo, a partir de 1977, há registros de atentados. Atuante na imprensa, o jornalista e escritor Wilson Dias direciona críticas a representantes do poder local. Ele é perseguido e vítima do terceiro atentado a profissionais da comunicação no Vale do São Francisco. Colunista da sucursal do Jornal da Bahia, Wilson Dias denunciou maus-tratos e arbitrariedades cometidas contra cidadãos da localidade de Sobradinho por autoridades policiais. Em virtude disso, o jornalista foi vítima de um atentado à bala praticado pelo pistoleiro contratado por uma autoridade policial da região. Porém, Dias saiu ileso dessa situação, já que as balas desferidas contra sua pessoa acabaram atingindo o próprio autor dos disparos, causando-lhe infecção e, conseqüentemente, a mortex.

Percebe-se que as notícias publicadas por um jornal de circulação estadual tinham uma grande repercussão na cidade. Prefeitos, demais autoridades civis e a própria sociedade baiana ficariam cientes de atos ilícitos e abusos de poder, o que iria denegrir a imagem dos acusados. Por isso era tão necessário silenciar a imprensa, impedindo-a de agir em conformidade com o seu papel social de informar e esclarecer à sociedade.

Apesar do atentado que sofreu, o jornalista continuou produzindo suas matérias e denunciando irregularidades. Em 1984, Wilson Dias escrevia crônica policial para a coluna Pente Fino, do Jornal de Juazeiro (propriedade de Paganini Mota). Um policial descontente com tais críticas invadiu a redação do jornal, armado de revólver, para atentar contra a vida do jornalista. Todavia, Dias não se encontrava no local naquele momento, e Paganini, o diretor, conseguiu convencer o policial a mudar de idéia.

Em 1985, o jornalista sofreu um grave atentado. A causa principal teria sido uma série de notícias publicadas no jornal A Tarde que denunciavam corrupções, prisões ilegais e torturas praticadas pelos delegados regional e municipal Vicente Gomes e Samuel Ayres respectivamente, e o diretor da Casa de Detenção, PM Waltemir Ribeiro dos Santos. As denúncias começaram pelas acusações dos promotores de Justiça Valdir Oliveira e Agostinho Matos em relação à corrupção e maus-tratos aos presos da Casa de Detenção. Os promotores são fontes de várias reportagens publicadas pelo A Tardexi.

Após a veiculação dessas notícias, o jornalista recebeu telefonemas que ameaçaram sua vida. Um deles seria, provavelmente, de um advogado amigo dos delegados. Em 3 de outubro de 1985, o jornalista terminou a sua jornada de trabalho em A Tarde, aproximadamente às 17:30h. Ao chegar a sua residência, foi recebido pela esposa, Maria do Socorro, que lhe informou sobre a presença de um Opala Verde em frente a sua casa, cerca de uma hora. O jornalista virou-se para olhar e foi atingido, com tiros de espingarda, na testa e abaixo do olho esquerdo.

Wilson Dias foi socorrido pelo amigo José Lapa e levado à Santa Casa de Misericórdia. Ficou internado e sofreu com as conseqüências dos resquícios de chumbo que se alojaram entre o nariz e o olho, a exemplo da tísicaxii. Dois militares, um do Batalhão de Petrolina e outro do 3° Batalhão - Juazeiro, e duas vizinhas do jornalista, Detinha e Maria das Graças, chegaram a ver os criminosos. Porém, durante o inquérito policial instaurado pelo Major PM Antônio Carlos Pires, as testemunhas não foram ouvidas. O exame de corpo delito não havia sido, sequer, solicitado.

Somente após quarenta dias, pela pressão dos representantes dos meios de comunicação A Tarde e Jornal de Juazeiro, do Sindicato dos Jornalistas do Estado da Bahia, da Associação Baiana de Imprensa a solicitação da assistência de um delegado especial é atendida. O Coronel PM Getsêmary Galdino chegou a Juazeiro, autorizado pelo governador João Durval Carneiro. As testemunhas foram ouvidas, mas, receosas, nada declaram nos seus depoimentos.

O desinteresse em capturar os pistoleiros e punir os possíveis mandantes do crime ficou visível à população juazeirense. Pessoas importantes da região estavam envolvidas nas denúncias e elas não queriam difamar sua imagem perante a sociedade. Acredita-se que um médicoxiii (o qual não foi fornecido o nome) denunciado por Dias na reportagem “Promotor processa médicos e delegado” foi o mandante do atentado ao jornalista com a possível participação dos delegadosxiv e do diretor da Casa de Detenção. O médico estava no Fórum da cidade sendo julgado e, ao encontrar com Wilson Dias no estabelecimento, ameaçou-o quanto à possível veiculação da matéria descrita acima.

Os fatos foram “esquecidos” deixando de ocupar as manchetes dos noticiários. Formou-se um retrato de omissão, ineficiência, ou mesmo, falta de escrúpulo, por parte das autoridades policiais. Aos juazeirenses, sobraram injustiças e abusos de poder.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após a redemocratização do país, os coronéis e militares vão perdendo força e visibilidade e cedendo espaço à democracia. As práticas de perseguição aos meios de comunicação de massa e seus profissionais são substituídas por acordos econômicos, a exemplo, do patrocínio concedido por órgãos públicos ou empresas privadas aos veículos de comunicação. Tal prática tem proporcionado uma troca de favores representada na sustentabilidade dos programas.

Nesse contexto, Juazeiro continua sendo um centro difusor de informações, com o aparecimento de variados meios de comunicação. A liberdade de imprensa procura se consolidar, apesar de periódicos recorrer a patrocinadores que, muitas vezes, resistem a aceitação de críticas e ameaçam os jornalistas ou cancelam o acordo financeiro negociado.

Profissionais formados na área de Comunicação Social: habilitação em Jornalismo passam a ocupar mercado de trabalho, cursos profissionalizantes são oferecidos aos profissionais provisionados e garantem maior conhecimento acerca da prática jornalística . Os jornalistas procuram equilibrar denúncia e compromisso social à necessidade de obter patrocínios. Casos de perseguição e cerceamento à atuação dos jornalistas, como ocorridos em 30 e 85, não foram mais registrados na história da imprensa local.

O desafio atual da imprensa local é continuar a trabalhar em defesa dos cidadãos com ética e responsabilidade. Os setores público e privado devem incentivar a prática jornalística e juntos – meios de comunicação de massa e patrocinadores – proporcionar o desenvolvimento da consciência crítica da população, desprovido de interesses pessoais, pois existe o coletivo em suas diversas formas de relacionamento social.


REFERÊNCIAS

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CUNHA, João Fernandes. Memória Histórica de Juazeiro. Juazeiro-Ba. Ed. Autor. Juazeiro-Ba. 1978.

DIAS, Wilson. História da Imprensa em Juazeiro. Juazeiro-Ba. Ed. do autor. 1982.

DIAS, Wilson. Vultos Ilustres da Imprensa de Juazeiro. Mimeo. 2006.

DOURADO, Walter. Juazeiro da Bahia à luz da história. Vol II. Juazeiro/ BA. Edição do autor. 1985.

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FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 2001.

PORTELLI, Alessandro. O massacre de Civitella Val di Chiana (Toscana: 29 de junho de 1944): mito, política, luto e senso comum. In: FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2001.

RIBEIRO, Edson. Juazeiro: na esteira do tempo. 2º edição. Juazeiro-Ba: Câmara Municipal de Juazeiro. 2005.

SANTOS, José Weliton Aragão. Formação da Grande Imprensa na Bahia. Salvador, 1985. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal da Bahia.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo. Florianopolis: Insular: 2004
Fonte Oral

Wilson Dias, jornalista e escritor; médico holístico. Data: 7/03/2006.



i Graduanda em Comunicação Social: Jornalismo em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas, campus III.

ii Graduanda em Comunicação Social: Jornalismo em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas, campus III.

iii Graduada em Jornalismo, Mestre em História Social e professora do curso de Comunicação Social: Jornalismo em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas, campus III.

iv Cidade situada na região norte da Bahia, distante 500 km de Salvador e localizada na divisa com Petrolina, estado de Pernambuco.

v A está em andamento no curso de Comunicação Social: Jornalismo em Multimeios, buscando mapear os jornais que circularam na cidade, trajetória de comunicadores, a influência social e política da imprensa, modo de produção e linguagem. Também tem o objetivo de localizar e constituir acervo dos jornais

vi Sobre a definição de qual seria o primeiro jornal, podemos interpretar que a construção de uma memória sobre um acontecimento histórico pode gera uma disputa, no sentido de uma memória dividida. Isto se origina porque membros de uma sociedade procuram construir versões oficiais sobre o acontecimento que podem ser baseadas em concepção de poder, interesses e contradições inerentes aos personagens e ao próprio fato, gerando uma memória dividida, como se refere Alexandre Portelli (2001).

vii Foi possível encontrar exemplares do jornal O Correio do São Francisco, na biblioteca do Clube Comercial de Juazeiro, referente aos anos de 1901 e 1902. Um dos articulistas mais presentes foi o médico José Ignácio da Silva. Após concluir o curso de Medicina, em 1879, voltou para a cidade natal, fundou a Santa Casa de Misericórdia e exerceu cargos de vereador, prefeito interino e deputado à Assembléia Constituinte baiana.

viii Um dos representantes da imprensa humorística, Jose Diamantico, mais conhecido como Zezito, trabalhou como redator em O Farol, jornal editado em Petrolina-Pe e em O Eco. Lançou O Astro, A Marreta (1935); O Itiubense (1937) na cidade de Itiúba; O Esporte (1939), O Sertão (1947), A Tribuna do Povo (1957) e novamente O Esporte (1969) na cidade de Juazeiro.

ix Infelizmente, não foi possível identificar quem era Ponciano, sua ocupação e função. A bibliografia consultada não faz menção detalhada a seu respeito.

x Mestre em artes maciais (Kung-fu), Wilson Dias defendeu-se por meio de um golpe, fazendo com que o pistoleiro deixasse a arma cair, atingindo o próprio pé. A morte foi conseqüência da origem da bala (conhecida como dun-dun) que ao entrar em contato com o organismo do indivíduo, desfragmenta-se e provoca infecção crônica.

xi Entre as manchetes, do jornal A Tarde, citamos: Promotor pede saída de delegados por corrupção (12 de agosto de 1985); Promotor apura casos de tortura em presídio (18 de setembro de 1985); Promotor adverte delegado e Prisão a Menores ( 25 de setembro de 1985) e Promotor processa médicos e delegado (26 de setembro de 1985).

xii Justamente por causa disso, Dias adere à Medicina Holística, a fim de buscar um novo e eficaz tratamento para recuperar sua saúde. Atualmente, Dias é terapeuta holístico e edita periódicos da área de medicina alternativa. Também escreve sobre história da imprensa.

xiii Wilson interpreta desta maneira os acontecimentos envolvendo os atentados que sofreu. Ele também prefere não revelar o nome do médico, acusado de ser o mandante do crime, alegando que não convém ao contexto atual, já que o referido médico continua exercendo a profissão. A divulgação do nome poderia reavivar atritos.

xiv Sobre o envolvimento dos delegados, deduz-se que foram responsáveis por fazer o contato com a central da Rádio Patrulha para impedir a prisão dos criminosos, uma vez que uma viatura foi solicitada no momento do atentado e só apareceu no local na manhã seguinte.






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