Isolamento!



Baixar 0,77 Mb.
Página1/14
Encontro11.07.2018
Tamanho0,77 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   14

PARTE IV
Isolamento!...

Centro do deserto. Ao Norte, depenas de quilómetros de areia, Sol e areia; ao Sul, depenas de quilómetros de Sol, areia e Sol; a Leste, dezenas de quilómetros de areia, Sol e areia; a Oeste, dezenas de quilómetros de Sol, areia e Sol.

A caravana pirata esperava em sítios especiais do deserto:solidão...

Isolados, outros homens-.inquietação-ganância tentavam atravessar o deserto; como alguns antes deles, e vários que já estão indo, e diversos que irão, igualmente pensavam ficar o mundo :pão só para ale rã do mundo :cão onde se vive.

A caravana ladrona espreitava em locais escolhidos...

Bastantes daquelas pessoas-.ganância-inquietação eram apanhadas, des­pojadas dos míseros haveres, amarradas e atiradas para cima dos camelos.

A quadrilha pirata prosseguia a marcha; de longe em longe um membro da caravana semeadora de homens infelizes lançava abaixo os desgraçados nus, ainda encordoados. A maior infelicidade consistia em caírem fofos demais naquela areia solta e ressequida que já quase conseguia ciciar devido à inaudita e milenária precisão de queixar-se dos tormentos tórridos. Seria sorte tom­barem sobre rocha onde logo se morresse esborrachado. Mas na areia, para ali penavam as infelizes e desprotegidas criaturas, tendo apenas a companhia do Norte-Sol-areia, do Sul-areia-Sol, do Leste-Sol-areia, e do Oeste-areia--Sol tão ali, tão vizinhos e, incrível!, tão distantes, a tantos milhares de quilómetros!

Num requinte de selvajaria, a última refeição que os desgraçados enguliam, imposta e forçada pelo sadismo dos salteadores, era feijoada com tempero de puxavante e sal ao dobro. Sem água !, enquanto os ladrões do deserto demo­ravam a ingerir líquidos...

O cérebro das vítimas ia ficando empanturrado de feijão, areia e Sol, Sol e areia-areia. Estômago, intestinos, coração, garganta, boca, nariz, ouvidos—tudo continuamente parecia prestes a rebentar por demasiada inchação à custa de Sol e areia, areia e Sol-Sol.

Na imensidade do deserto frequentemente imperava o tal vento harmatão, muito parente daquele do Senegal: vento quentíssimo; trocista, agitava e punha areias a barulhar.

Olhos, orelhas, nariz e boca de cada um iam tolerando a derradeira refeição: areia fina lá para dentro, mais areia média lá para dentro, até areia grossa lá para dentro!, acompanhada de Sol.-brasa, de Sol:bronze derretido.

Depois os pulmões, os brônquios, a traqueia, a laringe, a boca dos desditosos principiavam a vomitar vento, Sol e areia; areia, Sol e vento. Quando os dedos das mãos e dos pés, as orelhas e os pelos do corpo já não conseguiam forças para escarrar a areia, o Sol e o vento, as criaturas permaneciam amar­radas ao mais horrível desespero: naquela solidão, onde se morria e continuava vivo!, par a se morrer de facto daí a bocado!, acontecia a desgraça suprema: Sol, areia, e às vezes vento, enchiam o deserto, ao ponto de não caberem hienas mabecos, chacais, nem quaisquer outros bichos carniceiros; Sol, vento, e às vezes areia, também ocupavam tanto o espaço que nele não cabiam corvos, águias, abutres!; nem nada...

Solidão!...
1962
117

Os responsáveis pelo destino da Rússia e do comunismo interna­cional, principalmente, sentiram-se embudar ao saberem que a China Continental abrira Embaixada no Tanganica. O enguiço durou escasso tempo; depressa activaram a competição com o perigoso e perfurante rival na luta pela posse de África: também tinham fogoso interesse em manter o apoio aos movimentos inimigos de Portugal.

Para alcançarem os seus intentos decidiram passar a actuar de forma indirecta: servir-se-iam dos lideres negros mais inclinados às teorias marxistas /sinceros ou hipócritas.../; e as suas atenções convergiram para o quinteto extremista de Casablanca; N'Krumah, Gamal Abdel Nasser, Hassan II(1), Modibo Keita e Sékou Touré; uma espécie de súbditos da URSS no Continente Africano!, em parte por força dos empréstimos concedidos...

Como Ghana possuía Embaixada em Dar-es-Salaam, os primeiros novos esforços dos condutores da União Soviética, contra Moçam­bique, incidiram sobre o presidente daquele país.

O dr. Kwame N'Krumah propendia de modo ferrenho para o pan-africanismo; entre os maiores chefes de cor terá sido um dos inimigos mais acerbos de Portugueses brancos. Encabeçou a lista de quantos gesticularam na pretensão de serem presidentes dos Estados Unidos da África, uma vez transformado todo o continente num só bloco pátrio!, mesmo sem federações regionais!, não fossem elas gerar oposição ao chefe supremo...

A propósito das temidas federações regionais, capazes de provocar dissenções, o presidente de Ghana escreveu: «Podem dar origem a uma oposição perigosa, não só das políticas entre os Estados e regiões de África, mas também a uma situação que permita aos imperialistas e neocolonialistas pescar em águas turvas». As ambi­ções de N'Krumah esbarravam nas orelhas moucas dos outros presidentes; todavia, acrescentou: «Devemos tentar extirpar rapi­damente as forças que nos mantiveram separados. O melhor meio é começar por criar uma pátria geral que manterá a África em con­junto, como um povo unificado, com UM governo e UM destino» .

Este déspota Ghanês saboreou deificação inimaginável!, actual­mente: recebeu o título oficial de Osagjefo Dr. Kwame N'Krumah, o Presidente, em continuação do hábito indígena de se atribuir carácter sagrado aos chefes políticos(3).

O dirigente supremo de Ghana nutria animosidade contra o dr. Julius Nyerere e pelos líderes africanos que discordavam das suas aspirações políticas estultas e não lhe apoiavam a vaidade. Além disto, já há tempos via no cabecilha máximo da TANU compe­tidor importuno animado por idêntica febre de mando. Esta era uma das razões maiores por que o seu representante diplomático em Dar-es-Salaam vinha pretendendo ajudar o Adelino Chitofo Gwambe e captar simpatias de quantos se diziam prontos a combater Portugal em Moçambique.

E quando N'Krumah, após a independência do Tanganica, recebeu instruções de Moscovo, relacionadas com a UDENAMO segundo informações prestadas pela mulher :boceta de Pandora, imediatamente transmitiu directrizes diferentes ao seu embaixador em Dar-es-Salaam. Este, pleno de gáudio, logo resolveu actuar em profundidade junto do Gwambe, que se prontificou a obedecer!, pois ainda não sabia da armadilha soprada pelo Mbiyu Koinange ao ouvido de Kambona no salão de baile numa das festividades da independência. E, assim, ia cometer passo arriscado que servia às mil maravilhas para o Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional executar finalmente a receita bichanada em palavras redentoras pelo Koinange, semanas atrás.
* *

— A UDENAMO abandona tão de repente a casa dos «refu­giados»?, seu Gwambe!...

— Estou longe de ser coxo da cabeça como tantos que cá ficam!, amigo. Ano a principiar, vida diferente a começar, ueh!...

Os partidários da UDENAMO tinham acabado de sair, trans­portando os seus pertences. Ficara apenas o comandante e um novo aspirante a terrorista, entrado há dois meses em Dar-es-Salaam. Possuía língua acerada diante dos mais papa-açorda; era curioso perante todos:

— Seu Gwambe!: óia, como vem a ser isso?: o partido inteiro dá o piranço assim sem hoje nem ontem?...

— Houlá!, paparrotão mexeriqueiro. É forte!, o meu movi­mento; e poderoso! Nunca falta dinheirinho quente!: posso fazer o que entender.

— Uia-uia!...

— Acho loucura continuar nisto. Ainda seria capaz de desen­caixar a dentuça a meia dúzia!; a certos fabianos vale eu não estar para aí virado.

— Ufa!... A gente quando morrer é defunto!, seu Gwambe. Pouco adianta ser assim gritão! Bem faz o Mahlayeye!, sempre atrelado a lindezas; mas poderia portar-se melhor, se não fosse tão roleta com mulheres... Chi!, admiro esta saída corajosa.

— Alguém tem de abalar para caberem os chegados das Rodésias e Niassalândia,(«ao engano»), e que se apresentam como vindos directamente de Moçambique!—(Riu, malicioso. Fitou o interlo­cutor. Adicionou)—: Topo-vos!, ah-ah...(«todos procedemos assim»).

O curioso sentiu incómodos na testa; gasoso, disfarçou:

— Continuam surgindo tipos especiais!; espalhados pelas pensões, hão-de saltar caro à TANU!...

— Efeitos de propagandas na imprensa e rádio clandestinas e oficiais!; ainda por influência da guerra na fronteira-Norte de Angola. Vários dos aparecidos ultimamente já virão tocados pelo Mondlane...

— Esse Moçambicano das Américas!, será boa rês?...

— Pantafaçudo!; um pulha qualquer...—(Gwambe suspendeu o fechar da mala. Endireitou as costas. Sentencioso—; Você está cru nestas andanças; eu cá, posso mostrar as minhas sabedorias:tenho percebido a China Popular ardendo por ocupar África!, ser­vindo-se nesta parte Oriental das facilidades concedidas pelos..., ou das necessidades!..., dos novos mandões do Tanganica; igualmente descobri a danação dos Russos(«onde paras?, mulher branca danada!, vinda de terras distantes...») mortinhos por conseguirem o mesmo, mas a partir das áfricas-Norte e Ocidental ;(«N'Krumah e Nasser são poderosos!»); actualmente, com essa história do parasita Mondlane, entendo melhor também a ganância americana por tudo isto!; hem?...

— Vai ser lindo!, o futuro de África...

— Lindo-trágico!, ueh...—(Gwambe fechou a mala. Pegou nela. Foi andando)—(«não sou tanso; tenho viajado: N'Krumah, Nasser e outros pretendem mandar na África toda; ora a Rússia!, como conseguirá aproveitar para o mesmo fim a submissão daqueles dois presidentes rivais no domínio deste continente?... Em Moçam­bique nenhum porá a pata!; pertence-me!; Moçambique é meu!, muito meu! Escusas de vir!, Mondlane vadio. Magnífica ideia!, ter enviado o Sangolipinde à almoçarada do biltre Kambona: assim, além de talvez me safar de morrer envenenado, fiquei a conhecer novidades importantes; hoje percebo por que o pulha Mondlane não respondeu às minhas duas cartas!...; e já escuso de pensar nele para introduzir a UDENAMO na ONU. Era cedo, era...») —(Gwambe alcançara o traço da porta; virou-se; entoou)—: Até à vista!, amigalhote sem préstimo. Agora é que vai começar a sério a luta entre os partidos de Moçambique!, no exílio.

— Quê?, seu Gwambe!,(«maluco...»).

— Verás como é!, para contares aos bisnetos... Só lamento a falta do Bucuane e Chambale. Com eles cá e o Mondlane pandilha!, 1962 seria contínua festa de gritos...

--------------------------------------------------------------------------------------------------



118
Também no Tanganica a política xenófoba passou a ter mais peso após a independência. O Português Álvaro Pinto foi a primeira vítima.

Até ali nem ligara ao facto de em África se dar pouca importância ao tempo, para muito inês-da-horta quase nulo de sentido!, tanto podendo um mês representar trinta dias como cem...

Diante das duras realidades o alma-de-deus acordou azabumbado do seu sopor, ao receber a Ordem de Expulsão, entregue pelo Queniano Mbiyu Koinange.

Tão Tien /embaixador chinês/ havia sugerido que o secretário--geral do PAFMECA fosse intermediário entre o Governo Tanganiquenho é Álvaro Pinto, por motivos óbvios...

Depois de momentâneo torpor, ao pegar e ler o repulsivo papel, o Português experimentou quarenta e oito horas de suores frios, galgadas num corre-voa de silvos e bufidos, constantemente rodopiando pernas em vertigem:ventoinha!

Abandonou Tanganica no último dia de Dezembro. E só nessa altura!, porque não contratara Sangolipinde quando lhe apareceu no escritório com língua:alvião, amargoso... Percebera-o dado à respinguice, menos inteligente do que o Aurélio Bucuane, sem os modos maneirosos do David Chambale; e, portanto, achou desadecuado introduzi-lo nos seus problemas-segredos :imbróglio.

Procedeu certo: se caísse na esparrela de recrutá-lo, em vez de expulso talvez acabasse fuzilado..., pois que, entre outras fla­grantes deficiências de carácter, no almoço de pseudo confraterniza­ção oferecido por Kambona, o trampolineiro representante da UDENAMO esteve quase-quase a revelar como o seu presidente viveu disfarçado na parte final da última perseguição desencadeada pelo secretário-geral da TANU!; por conseguinte, se o Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional lhe atirasse pólvora à boca, Sangolipinde até o próprio chefe desmascararia!, quanto mais.
*

A súbita presença de Álvaro Pinto, em Lourenço Marques, não surpreendeu. Só Bucuane ficou entanguido!, ao vê-lo na Polícia... («acertei!: se me puseram a dactilógrafo, quase verbo de encher, sem complicados interrogatórios, foi porque já sabiam tudo pelo «cônsul» e pelo misto Paty Momade. Este nunca mais assoma?... Ainda serei apertado com perguntas?... Aguardemos. Feito servente à pressa!, rica vida leva a maria-maluca do Chambale... Em Dar-es-Salaam revelei-lhe minhas artimanhas!; agora, moita-carrasco!: não conhecerá os arrojados serviços a favor da TANU e do Tanganica. De nenhuma forma posso perder a fabulosa fortuna prometida pelo Kambona! Lá o Governo arranjará dinheiro para pagar?... A China empresta, ou dá!, o necessário»).

Logo no primeiro encontro do Álvaro Pinto com o director da Polícia e conselheiros, dialogaram horas a fio, arredando mesmo o jantar. Já demasiado alongados na noite, tomaram decisão arriscadíssima, invulgar na história da espionagem...

Entre enviarem o Aurélio Bucuane a Dar-es-Salaam, ao serviço do Governo Português, ou voltar lá o Álvaro Pinto, permanecendo primeiro uns meses na América metido numa intricada operação, preferiram esta hipótese, no remate de:

— Aquela forma de olhar, do Bucuane I, provoca acentuadas dúvidas...

Mantenho certas reservas, senhor director. Só quando aban­donou Dar-es-Salaam reflecti-reflecti e atentei melhor nalgumas atitudes dele.

— Bem nós sabemos se faz aqui o que desejávamos fosse realizar no Tanganica!, ao nosso serviço...—(Alvitrou um conselheiro)—.

— Há-de ser interrogado e vigiado(«lamento a forçada ausência do Paty Momade»). É conveniente saber os passos que dá, e com quem. Pode esperar algum espião da TANU!...

— Ou já terem contactado!, senhor director...

* *


A espionagem a e política, em determinados aspectos, estão muito sujeitas a imprevistos.

Graças à imediata colocação do Bucuane na Polícia, tornou-se dispensável a saltada do Mbiyu Koinange a Lourenço Marques. Mesmo assim, foi, porque Kambona queria certificar-se da firmeza do Bucuane; desejava conhecer boatos de Moçambique acerca da independência do Tanganica e sobre o apoio da TANU aos partidos antiportugueses; e por Nyerere verificar ser tremendo erro o Bucuane enviar cartas, em código ou não, para qualquer ponto do país.

Portanto, no dia aprazado, Koinange voou direito a Lourenço Marques e chegou feito caçador profissional queniano!, com do­cumentação falsificada. Passou do aeroporto à casinhota alugada pelo Bucuane no Bairro Xipamanine. Conversando, discutindo, lá perma­neceu boa parte do tempo até retomar o avião.

Regressado a Dar-es-Salaam, sem vénias relatou o sucesso da viagem aos mentores da TANU; salientou a dificuldade para conven­cer Bucuane a enviar o correio em nome do régulo Megama, no Chiúre Velho, em vez de endereçá-lo ao missionando anteriormente escolhido na Missão Msimbazi, dos padres suíços:

— Tive de jurar que uma carta daquelas, com remetente falso, oferecia menos perigo a circular dentro de Moçambique, do que vinda de Lourenço Marques para cá, devido à recente independência, entre outros motivos.

Concluída a descrição, Koinange, sicofanta, fez vénia ampla; dirigiu-se a Kambona; interrogou-o sobre o resultado da malfadada almoçarada de confraternização; entabularam diálogo peçonhento. Ao correr do aranzel, ora encruava um ora encoscorava outro; e iam intercalando semblante com Sohmocidade.

A receita radical do Koinange contra Gwambe, soprada semanas atrás no salão de baile, consistia em Kambona fazer constar, com os mais concludentes foros de veracidade, que o Moçambicano era refinado espião ao serviço da Polícia de Moçambique!, acirrando os ânimos colectivos para Mahussa, Belisário, Mmole, Millinga, ou até Sangolipinde e outros o suprimirem.

Devido às novas preocupações governamentais, e à ausência de Gwambe, esmorecera ligeiramente a euforia de Kambona. Os recados enviados ao régulo Megama, e os cuidados postos no secretário-geral do PAFMECA, também o absorveram. A atenção do embaixador Tão Tien dispensada ao presidente da UDENAMO, igualmente contribuiu para retardar o desencadeamento da operação considerada fatal.

E assim correram vários dias tossiquentos, acontecendo, entre­tanto, a saída dos udenamistas da casa dos «refugiados» de Moçam­bique.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional aforrou as mangas e aproveitou a bombástica novidade para divulgar que, em virtude da saída do espiador Álvaro Pinto, o outro perigoso espião Adelino Chitofo Gwambe se mudara para actuar mais à vontade, andando unicamente preocupado em manter a confusão no intuito de impedir a ordem e o bom senso nos movimentos nacionalistas.


119

A mulher :boceta de Pandora já não precisava de intervir no envio de rublos transformados em dinheiro corrente no Tanganica; os cheques destinados à UDENAMO deixaram de ser endereçados ao Tangazi Makalika, protector do Gwambe nos dias infaustos. O Partido Comunista Internacional, de Moscovo, passou a ficar ligado ao presidente udenamista por intermédio do embaixador ghanês, sob controle de Nkkrumah(2).

Adelino Chitofo Gwambe, o secretário-geral Calvino Mahlayeye, vice-secretário Fanuel Mahluza, o presidente do executivo Constâncio Stanislaus, tesoureiro Absalão Baúle, o chefe da propaganda e infor­mação Feliciano Sangolipinde, e alguns antigos e recentes amigos passaram a viver numa casa alugada pela UDENAMO.

Nos primeiros dias da mudança, por tudo e nada estralejaram foguetes entre frases ocas, bebidas e comezainas. Foi Sol de curta duração para o chefe. A alegria ébria engelhou ao rebentar e serpear o aleive:bomba lançado por Kambona, cheio de efeitos!, nos moldes do cómodo sistema «Já não lembro a quem ouvi dizer que...; ignoro quem disse, mas consta que...», ficando assim no anonimato o autor da sementeira-.peste.

Açulada a «bicha de rabear», Kambona optou pela ideia do intelectual Edmund Burke: «Para o mal vencer, basta que os homens não façam nada».

Entrementes, a maleficência alastrava à rédea solta, e iam acon­tecendo cenas levadas do diabo, passando o atrabiliário Gwambe a vomitar aziúme pelas narinas.

Belisário Mota despediu asneiredo vermelho!, enquanto as pupilas relampaguearam. O pessoal da UNAMI desejou escrever ao partido governamental, pedindo a morte do Moçambicano traidor.

Mathew Mmole e Malinga Millinga juraram vingança amarela! por viverem enganados tanto tempo. O analfabeto Lucas Mahussa vogal da direcção, estarrincou dentes!, tocado a raiva ;carvão., ê vociferou ameaças. Vários adeptos da MANU, trabalhados pelo Mbiyu Koinange, fizeram uma espera ao Gwambe e apedrejaram-no à falsa fé. Atingido de surpresa, o alvejado ligou o ataque ao boato espalhado contra ele, e chegou a estarrecer!, durante segundos. Refeito do susto, correu atrás dos velhacos, porém, nem sequer chegou a distingui-los.

A golfar danações, o presidente da UDENAMO amargou saudades dos tempos em que os Ingleses eram donos e senhores do Tanganica(«assim pareço traidor!: significa pensar que enquanto os Portugueses ocuparem minha terra, lá se viverá melhor...»). Dali foi parar à sede. Imediatamente convocou reunião urgente, a realizar no dia imediato após o mata-bicho.

Compareceram todos. Houve falario :feira. Nenhum soube explicar a proveniência da acusação. O mentor do partido bufou jura explosiva:

— Eu fique ceguinho de gota-serenal, sendo verdade a besteira corrente.

— A calúnia partiria dos últimos patrícios chegados de Moçam­bique; murmuram...

— Então, que a terra me engula vivo!, se é verdadeira semelhante nojice.

— Bucuane, Chambale!..., onde param ?..., podiam ter espalhado isso. Ai l, quando na TANU escutarem o boato... Ui, o Kambona...

— Pois hei-de viver!, ao menos para ensinar a essa gentaça que tenho feitio para me sustentar de álcool, sexo e sangue!, indife­rente a patacoadas, e pronto à vingança!

— Arreda essas farroncas!, Gwambe; anda tudo cheio ter o Lucas Mahussa aguentado ganir que havia de cortar-te aos boca­dinhos—(Atacou Sangolipinde, desejoso de vê-los engalfinhados)—. Ele nunca aguenta desistir de chamar estrangeiros ao Mmole e Milinga! Está pouco satisfeito com o cargo de vogal da direcção, mesmo. Quererá aguentar desforrar-se à cabeçada mesmo seja em quem for...

— Não comeces tu a vomitar palhaçadas!, labrosta estúpido. O Mahussa cabeçudo anda atravessado, e novamente com a mania de rachar a MANU ao meio!, porque verificou que nada manda nem pode arrebanhar dinheiro das quotas!, conforme fazem os chefes e os amigos engraxadores(«e tu?, Baúle!...»). Esta é a verdade sem o mínimo boato!

— No teu lugar, acautelava-me!, Gwambe—(Interveio Absalão Baúle)—. Nacionalistas das Rodésias, Niassalândia, e doutros lados, já afirmam que a UDENAMO largou a casa dos «refugiados» de Moçambique por seres espião da Polícia portuguesa... Hum!...

Estas palavras aumentaram o destrambelnamento nervoso do chefe. Para disfarçar, puxou à discussão;

— Só sabeis enguiçar!, pequenos camelões... Vamos ao principal: Kambona odeia-me. No sábado comunicou ao Belisário, Mmole e Millinga que iriam à Quinta Conferência do PAFMECA a realizar em Addis-Abeba, já de dois a nove de Fevereiro(«escusais conhecer que a revelação veio do Tão Tien e do embaixador ghanês»). Mos­trou três convites e respectivos bilhetes de avião!: um pertencia à UDENAMO, é evidente. A hiena mal cheirosa entregou ao Millinga maniento o bilhete e convite destinados a mim.

— No PAFMECA manda a TANU, e nacionalistas granjolas do Quénia por intermédio do Mbiyu Koinange: secretário-geral talhado à catana à última hora..., costumo escutar. Portanto, Kambona põe e dispõe conforme quer.

— Dispõe?, Mahlayeye!; pois então prego-lha!: vou e vou mesmo à dita conferência!; e antes talvez dê uma curvinha muito do meu agrado!... Quando os da TANU descobrirem quem pagou as viagens!, até lançarão fogo pêlos olhos.. .(«Tão Tien e o embaixador ghanês poderão ser amigos fixes no futuro. O Chinês é artistão!, a mostrar zanga e a odiar todo mundo branco; ri aos Africanos nacionalistas das dkeitas e das esquerdas! Prossegue!, rico amigo, se desejas abocanhar Moçambique; Tanganica já tu tens debaixo dos pés! Dinheirinho da Rússia e da China consola melhor a vida»). Está assente!, camaradas basbaques.

Constâncio Stanislaus tomou a pakvra. Impregnou de terror cada frase, concluindo, exuberante:

— Consta mesmo que o Governo dará belo dinheirão a quem te envenenar! Ouvi-o a refugiado político da Bassutolândia. Foge ou esconde-te!, antes de ires à tal conferência em Addis-Abeba.

— Jurastes consumir-me o seixo!...

Interiormente, Gwambe tremeu como varas verdes. Aferroou ao rubro. Esquecendo o feitio pessoal, sentiu ganas de elevar-se contra a tineta dos soberbos prepotentes. Levantou-se, brusco; atentou nas caras sujas, nas roupas enodoadas, à volta; e fez sinal ao secretário-geral. Saíram(«quando a vida começava a brilhar!, bafejado pela sorte vinda de embaixadores e presidentes de nações!, surge rasteira tão malandra!... A passeata de Fevereiro há-de acon­tecer!; para isso, convém esconder-me»).

Transeuntes:solidão atiraram ao Gwambe olhosrvíbora!... Iam já longe da sede, apontados à Rua Somália; Mahlayeye reagiu, quebrou o silêncio:

— Então?, patrão da lancha!...

— Tenciono passar uns dias na casinhota da amante mais antiga, cá por coisas... Não é cobardia!; fujo de fazer cavalada na rua com bicharada traiçoeira. Lá falaremos; caluda.

— A pancrácia anda muito gritona! Ficarás convenientemente escondido?(«o Baúle já não permite unhas alheias no cofre! Custa viver à lisa»). Sendo assim, patrãozinho camarada, passa para cá «painço», vamos!...

— Eu bem digo!: devias silenciar, mas preferes soltar asneiras! Onde gastas tanto dinheiro?, ultimamente!...

— Se to fosse a contar!, presidente... Mas vê: sou obrigado a dar esmola diária a um velho Árabe, malandro, quando passeio a namorada número três.

— Patetice.

— Julgas?... Nem posso dar qualquer bagatela!; farto de insignificâncias anda o velhacote.

— Patetice, repito.

— Oh!...; pois se ele cantarola: «Lindo casalinho, dai esmolinha pela felicidade do vosso primeiro filho!».

— Quantos primeiros filhos pensas ter?, dessas namoradas todas!...—(Ríspido)—: Caluda!: arreda conversa(«azar!: lá vem um [ue acredita ser eu espião. O volume de tamanha afronta assusta!, timidez. Uma assim!...»).



  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   14


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal