Isabel de Aragão, a rainha médium



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ISABEL DE ARAGÃO, A RAINHA MÉDIUM

Valter Turini,

pelo Espírito Monsenhor Eusébio Sintra


"Agora, estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade permanecem; mas, dentre elas, a mais excelente é a caridade."

I Coríntios, 13.13



Isabel de Aragão, a rainha médium

Incomparável médium de efeitos físicos, Isabel de Aragão, a rainha santa de Portugal, tem relatados, nesta obra, aspectos da sua profícua existência, ao se

mostrar repleta de atos de extrema renúncia e de rara sabedoria, além de ter

realizado, também, expressivas manifestações mediúnicas, como quando realizou um dos maiores fenômenos de transmutação da matéria, de todos os tempos, ao transformar pães em rosas, e tido, à sua época, como milagre.



Valter Turini

Eusébio Sintra relata-nos a vida de D. Isabel de Aragão, a rainha santa de Portugal.

Nascida em Saragoça, no Reino de Aragão, em 1271, D. Isabel desposou o rei português, D. Dinis de Borgonha, em 1282, tornando-se rainha consorte de Portugal.

Dona de beleza ímpar, aliada a excepcional inteligência, D. Isabel logo ganhou a simpatia dos seus súditos portugueses que a tinham à conta de criatura piedosíssima, sempre pronta a distribuir benesses entre os miseráveis e os desvalidos das ruas.

Sempre acompanhada de suas fiéis damas de companhia, saía ela, todos os dias, a exercer a caridade pelas ruas, a atender às necessidades materiais e espirituais dos seus súditos mais necessitados.

"Deus deu-me um trono para eu fazer a caridade", repetia ela, constantemente, àqueles que lhe censuravam os modos nada convencionais a uma rainha.

Admoestada, certa vez, pelo esposo que a julgava uma perdulária, pelo tanto que distribuía aos pobres, foi personagem de um dos mais célebres fenômenos de transmutação da matéria, que se tem notícia, ao transformar rosas em pães, diante dos estupefatos olhos do esposo que, surpreendendo, intimara-a a revelar o que carregava oculto sob o manto.

ISABEL DE ARAGÃO, A RAINHA MÉDIUM

1a edição

"Deus deu-me um trono para eu fazer a caridade..."

Isabel de Aragão, rainha de Portugal


Índice para catálogo sistemático:

133.9 Espiritsmo

133.901 Filosofia e Teoria

133.91 Mediunidade

133.92 Fenômenos Físicos

133.93 Fenômenos Psíquicos

Impresso no Brasil



Presita en Brazilo

Índice

Palavras do Autor Espiritual

Capítulo I - Uma princesinha

Capítulo II-A morte de um rei

Capítulo III - Novos rumos

Capítulo IV- Tramas e traições

Capítulo V - Um atentado

Capítulo VI - Prepara-se uma guerra

Capítulo VII - Diante das dores do mundo

Capítulo VIII - Uma tragédia

Capítulo IX - Crenças e mistérios

Capítulo X - Dores e aflições

Capítulo XI - Em Portugal

Capítulo XII - A chegada de um herdeiro

Capítulo XIII - O nascimento de um varão

Capítulo XIV-Elos trocados

Capítulo XV - Reencontro com Constança

Capítulo XVI - O início de uma rebelião

Capítulo XVII - Revendo a terra natal

Capítulo XVIII - Lágrimas por Constança

Capítulo XIX - Questões de herança

Capítulo XX -Uma guerra na Itália

Capítulo XXI - Conflitos e traições

Capítulo XXII - Um príncipe rebela-se

Capítulo XXIII - Novos confrontos

Capítulo XXIV - Novas dissensões

Capítulo XXV- Confronto em Alvalade

Capítulo XXVI - Pães e rosas

Capítulo XXVII - O adeus a D. Dinis

Capítulo XXVIII - A Formosíssima Maria de Borgonha

Capítulo XXIX - Maria e Afonso XI

Capítulo XXX - O adeus a Isabel

Epílogo


Palavras do Autor Espiritual
A rainha Isabel de Aragão nasceu em Saragoça, no ano de 1271, onde então se encontrava a corte aragonesa. Era filha de Pedro III de Aragão, com Constança da Sicília, descendente da poderosa família Hohenstauffen da Germânia. Entretanto, a princesa Isabel não foi criada pelos pais, mas pelo avô, o então rei de Aragão, Jaime I, que se tomou de intensos amores pela neta, mal a viu, logo após o seu nascimento, e reclamou para si o privilégio de educar aquela formosíssima criança que se lhe mostrava tão especial.

A corte aragonesa, à época, era um dos principais centros político-culturais europeus, o que facultou à princesinha Isabel esmerada edu­cação, junto ao avô, homem culto e sábio, que iniciou a neta, desde muito cedo, nas artes do governo. Como soía acontecer a poucas mu­lheres do seu tempo, Isabel de Aragão foi alfabetizada e ganhou vasta cultura, uma vez que, além de conhecer várias outras línguas, também dominava o latim, a língua internacional de então.

Isabel viveu em seu país natal até os doze anos, quando, em 1282, contraiu núpcias com o rei português, Dinis de Borgonha, passando, destarte, a ser rainha consorte de Portugal, até a sua morte, ocorrida na cidade lusitana de Estremoz, em 1325.

Desde muito cedo, Isabel de Aragão revelou-se criatura especial, dona de grande beleza e graça, além de excepcional caráter, que lhe granjearam a simpatia e a benevolência incondicional do avô, Jaime de Barcelona, e de toda a corte aragonesa.

Ao tornar-se a rainha consorte de Portugal, pelo seu casamento com o rei D. Dinis, também em terras lusitanas, a jovem rainha logo con­quistava a simpatia de seus novos súditos, pela sua amabilidade, inteli­gência e, principalmente, pela piedade espontânea que a caracterizava, quando se deparava com os desafortunados do mundo.

Era comum vê-la, desde bem cedinho, acompanhada das suas fiéis damas de honor, a percorrerem as ruas das cidades onde se encontrava a corte - que, àquele tempo, não tinha local fixo a permanecer -, a distri­buírem dádivas e a socorrem, com alimentos, com roupas, com tisanas e com curativos, os mendigos e os doentes que pululavam em todos os becos e desvãos das vielas e das ruas, em época quando ainda nem se cogitava sobre a criação de hospitais ou de despender-se qualquer tipo de assistência aos necessitados de toda ordem que, sobejamente, enxa­meavam por todo lado, vítimas da miséria extrema, das constantes guerras e das mais variadas epidemias.

Ao lado de altíssimo senso de caridade e de amor que lhe foram sempre espontâneos, a rainha de Portugal, como característica de espí­rito de larga envergadura moral como ela já o era, desde aquela época, ostentava, ainda, excepcional mediunidade de efeitos físicos, fato que a caracterizava como santa, uma vez que, então, nada se conhecia acerca dessa questão, pois o catolicismo ainda possuía a hegemonia sobre o Cristianismo e, as coisas atinentes aos fenômenos espirituais e anímicos eram tidas como milagres ou, ainda, dependendo das circunstâncias em que ocorriam, eram tomadas como manifestações demoníacas, e aqueles que apresentassem fatos dessa natureza tomavam-se passíveis de perse­guição, aprisionamento e, de forma mais generalizada, submetidos a terríveis suplícios, seguidos de morte, preferencialmente nas fogueiras, a partir da bula Licet ad capiendos, editada pelo papa Gregório IX, em 20 de abril de 1233, a marcar o início da Inquisição.

Isabel de Aragão, entretanto, por sua posição e, principalmente, por demonstrar altíssima devoção, senso de caridade extremo, além de es­trito respeito aos preceitos que impunha a seus féis a Igreja Católica de então, foi tida como santa e canonizada, em 25 de maio de 1625, pelo papa Urbano VIII, após longo processo investigatório, que se iniciou dois séculos depois da sua morte e perdurou por mais um outro, até que, finalmente, fosse concedida a sua canonização pela Santa Sé, a exatos trezentos anos após a sua desencarnação.

Sua existência como rainha de Portugal foi permeada por impor­tantes fatos históricos, dos quais participou, ativamente, quando da configuração do Estado português, como nação independente e livre, da forma que se mostra, atualmente, além do estabelecimento do processo de paz duradoura com os vizinhos castelhanos, nas questões de delimi­tação das fronteiras entre esses dois países, pelo tratado de Alcanises, firmado em 1297, e cujos conteúdos perduram até os dias de hoje.

Adorada pelos cortesãos e, mormente, pelos seus súditos mais hu­mildes, D. Isabel de Aragão teve a sua vida marcada pelas importantes ações que desenvolveu em prol da paz entre os povos ibéricos e, de modo geral, a prover as necessidades mais prementes dos mais pobres, a propiciar-lhes pão, roupas e remédios e a empregar os rendimentos da fabulosa fortuna própria que detinha, sempre com o proprósito de minorar as dores deste mundo. Ao fechar os seus olhos para aquela sua exis­tência terrena, a piedosa rainha legava a seus súditos mais necessitados uma série de orfanatos, albergues, hospitais, conventos e igrejas, cons­truídos com a sua participação direta e, para assegurar a sobrevivência dessas entidades, após a sua morte, deixava, em testamento, a maior parte da sua fortuna pessoal, garantindo, dessarte, que essas instituições não viessem a falir, por falta de socorro pecuniário.

E, para aqueles que não entendiam por que uma princesa de tamanha relevância trocava as esplendências e as delícias de uma corte rica e fabulosa - como o era a de Portugal, naquela época -, para viver entre os mendigos e os estropiados das ruas, ela respondia, com a simplicidade que lhe era natural: "Deus deu-me um trono para eu fazer a caridade!"

Assim revelava-se Isabel de Aragão, a vivenciar, em todos os mo­mentos da sua existência, o que nos recomendou fazer o insigne Mestre Nazareno: " Ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos...


Tupi Paulista, inverno de 2010.

Eusébio Sintra

1. Evangelho de S. Lucas, 14:13

Capítulo I

Uma princesinha...
Com passos leves, quase imperceptíveis, Jaime de Barcelona1 apro­xima-se daquela meninazinha de porte altivo e gracioso que, pondo-se à ponta dos pés e, altamente absorta, espiava a paisagem, a estender-se infinita, através da janela alta.

- Qué miras, Isabelita?...1 - cochicha o monarca de Aragão ao ou­vido da neta.



  • Oh, paye!... No te sintié plegar...3 - responde a menina de olhos azul-claros e redondos. - Olhava o rio...4

1. Jaime I de Aragão (Montpellier, 2 de fevereiro de 1208 - Valência, 27 de julho de 1276), cognominado O Conquistador, foi rei de Aragão, Conde de Barcelona, Príncipe da Catalunha e Senhor de Montpellier, a partir de 1213; rei de Maiorca, desde 1276; rei de Valência, desde 1239 até a sua morte e, ainda, senhor de outros feudos na Occtânia.

2."- Que olhas, Isabelita?... ", em aragonês.

3."— Oh, vovô!... Não percebi que chegavas... ", em aragonês.

4.Referência ao rio Ebro, que banha a cidade de Saragoça, na Espanha.

Vê... Hoje, as águas parecem prata... A tarde, se voltares a olhá-las, parecer-se-ão com ouro líquido!... Não achas isso estranho, paye?



  • Estranho?... - retruca, altamente vivaz, o rei de Aragão. - Não concordas que a palavra certa seria maravilhoso?... De manhã, temos um rio de prata; à tarde, temo-lo de ouro... Vês como somos ricos?...

  • Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... - explode a menina, num riso inocente e cristalino. E, aproximando-se mais do rosto do velho monarca que, agora, já se lhe ajoelhava ao lado, pondo-se-lhe à mesma altura, e num sussurro, num cochicho mesmo, a pequerrucha segreda ao ouvido do avô: - E, à noite, já o vi de diamante!...

  • Não me digas!... - exclama Jaime de Barcelona, fingindo-se alta­mente admirado. - Dessa cor ainda não no vi!... Oh, então estamos ainda mais ricos!... Os diamantes valem muito mais que o ouro ou a prata!...

  • Deveras?!... - ri-se a menina, em sua inocência de pouco mais de seis anos de existência. - Então, acabas de descobrir que o teu tesouro é ainda maior do que pensavas!...

  • Mía pequena rosa!... 5 - exclama o velho rei, rindo-se, a beliscar, amorosamente, a rúbida bochecha da neta.

Em seguida, o monarca aragonês abraça-se à menina e lhe acaricia, demoradamente, com a mão, a tez rosada e aveludada como o pêssego maduro. Depois, levanta-se e, pensativo, e enquanto cofiava, com a ponta dos dedos, a longa barba prateada, põe-se a olhar o horizonte distante, que se abria, a partir daquela janela do Palácio de Aljaferia.6
5. "- Minha pequena rosa.'... ", em aragonês. Jaime I costumava chamar Isabel, sua neta favorita, de "minha pequena rosa de Aragão ".

6.Aljaferia é um palácio fortificado, construído na segunda metade do século XI, na época de Al-Muqtadir, em Saragoça, para a residência dos reis hudes. Depois da reconquista de Saragoça, em 1118, por Afonso I, passou a ser residência dos reis cristãos de Aragão.

- Em que pensas, paye?... - pergunta a pequena Isabel, quebrando o curto silêncio que se estabelecera entre ambos, ao mesmo tempo em que tomava a mão do avô e a beijava calorosamente.


  • Oh, pensava em quanto és importante para mim...

  • Mesmo?!... - diz a pequenina princesa de Aragão, abrindo largo sorriso que lhe deixou entrever uma fileira de dentinhos arredondados e alvos como a neve.

  • Sim!... Não sabes o quanto a tua chegada iluminou a minha vida, Isabelita!... - exclama Jaime de Barcelona. E, com os olhos a inundarem-se de lágrimas, prossegue: - Antes de ti, tudo aqui era muito triste... Eu andava muito só. Tua avozinha7 já se tinha ido para o céu e eu, apesar de toda essa tribulação que sempre foi a minha vida - sabes que tivemos que expulsar os mouros, não?8

eu me achava altamente desconso­lado!... Não imaginas, Isabelita, o quanto a vida de um rei é difícil!... Há tantas coisas a resolver, tantos são os problemas que surgem...

  • Entendo... - diz a menina, baixando os olhinhos claros e arredon­dados. Porém, em seguida e inesperadamente, como lhe era do feitio, levanta o rosto, altivamente, e, a apontar um dedinho para o avô, diz-lhe: - Mas, não reclames!... Foi Deus Quem te fez rei de Aragão!... E, além do mais, tens os teus ministros e os teus guerreiros a auxiliarem-te!... Ximena9 vive a dizer-me que Deus não põe nenhuma carga a mais sobre os nossos ombros, além do que podemos aguentar!...

7.Referência à rainha consorte de Aragão, Iolanda da Hungria (1216 -1251), segunda esposa de Jaime I, morta de impaludismo, aos 35 anos de idade.

8.Em 1228, Jaime I iniciou a campanha de reconquista da Península Ibérica aos muçulmanos e, em 1229, a esquadra catalã partiu de Salou, Tarragona, para enfrentar Abu Yahya, o governador almóada e, após uma sucessão de intensas batalhas navais, anexou as ilhas Baleares Maiorca, Mínorca e Ibiza e, em seguida, iniciou a vitoriosa conquista do reino de Valência, numa sucessão de batalhas, ocorridas de 1233 a 1238.

9.Maria Ximenes Cronel, uma das aias de Isabel de Aragão, carinhosamente tratada por

Ximena, pela princesinha.



Jaime de Barcelona abre a boca, altamente espantado com os falares da neta. Aquela adorável menina de apenas seis anos de idade vivia a surpreendê-lo!... Ainda estupefato com a resposta da neta, olha em derredor, a rir-se, e se dirige a um dos gentis-homens, dos muitos nobres cavaleiros e damas da corte que enxameavam no grande salão do trono:

  • Ouvistes bem, Don Ramon?... A infanta tem falas de gente graúda!...

  • Pro que sí, Sinor!...10 - responde o homem, a rir-se. - Sua Alteza pensa como adulta, apesar de ser tão jovenzinha ainda!

  • E cremos que muito terá ainda a ensinar-nos a nós que já somos tão velhos, não é? - e se abre o rei em gostosa gargalhada à qual se somam uma trezena delas, dos que se achavam no salão do trono.

Somente a pequena Isabel não se ri. Mantém-se serena e sóbria, como costumava achar-se, na maior parte do tempo. O rei volta a sentar-se no trono, ainda a rir-se, enormemente, dos modos da neta. A menina man-tinha-se inalterada e altiva, porém sem demonstrar o mínimo de empáfia, tão comum aos da sua estirpe; pelo contrário, apresentava sempre um olhar compassivo e bondoso.

Após espiar, demoradamente, o céu, através de uma das altas janelas do salão, e muito desenvolta, a menina aproxima-se do trono.

- Com vossa permissão, Siñor, retiro-me!... - diz Isabel, enquanto fazia longa reverência diante do avô. E, após beijar-lhe a mão e lhe soli­citar a bênção, volta-se para o grupo de aias que se postava de pé, a um canto do enorme salão, e ordena, firme e resolutamente: - Vamos, siñás!... A capela!... Deus aguarda-nos!...

O séquito da princesinha de Aragão apresta-se, então, em seguir-lhe os passinhos firmes e determinados; uma dezena de gentis-damas enga­lanadas e altivas, com altos chapéus de pontas, turbantes


10."-Acho que sim, Senhor!... ", em aragonês.
ou fillets,11 a cobrirem-lhes totalmente os cabelos,12 além de uma profusão de véus e de adornos nébulas a quase ocultarem-lhes as fisionomias, como era hábito à época.13

A capela do Palácio de Aljaferia achava-se mergulhada numa semiobscuridade, e o bruxuleante brilho dos círios pintava tudo de dourado; no alto da nave do pequeno templo, uma nuvem de incenso de mirra pairava lânguida e azulada.

A pequena Isabel de Aragão, resoluta como se já fosse uma dama semelhante às suas aias, ajoelha-se diante do altar, e se persigna, alta­mente contrita. Suas damas de honor seguem-lhe, sincronamente, os movimentos.

-Ave, Maria, gratia plena, Dominus tecum... - corta o silêncio da capela a vozinha da princesinha de Aragão, em fervorosa prece à Virgem Maria.

- Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus... - res­pondem as aias, em coro.

E a tarde avança, lenta; morosas, as horas fluem, e o grupo de mu­lheres, genuflexas, na capela do Palácio de Aljaferia, sente os joelhos dormentes pelas horas seguidas naquela posição. Altamente agastadas, aquelas nobres damas entreolham-se, às raias do desespero. Isabel não se cansava nunca?...



  • Pater noster, Qui es in caelis... - prosseguia firme a voz da prince­sinha de Aragão, infatigável, sem demonstrar o mínimo de abatimento.

11. Adorno surgido no século XIII, que consistia em colocar sobre a cabeça duas tiras ocas traba¬lhadas, onde eram colocados os cabelos que tomavam a forma quadrada, deixando o rosto fechado numa moldura, contrastando com o adorno nébula arredondado.

12.Consideravam-se, ainda à essa época, imorais os cabelos femininos à mostra. Por essa razão é que se imagina tenham surgido tantas inovações para adornar os cabelos com a desculpa de ocultá-los. O véu costumava ser preso por um semicírculo ou um círculo completo de ouro, usado em volta da testa. Além disso, do final do século XII ao início do século XIV, usava-se a barbette, uma faixa de linho passada sob o queixo e puxada sobre as têmporas.

13. Na mesma época, usava-se também o gorjal, feito de linho fino branco ou seda, a cobrir o pescoço e a parte do colo e sendo, às vezes, enfiado dentro do vestido; as pontas eram então puxadas para cima e presas no alto da cabeça sob o véu, para emoldurar o rosto.


  • Panem nostrum cotidianum da nobis hodie... - respondiam as damas de honor, a entreolharem-se, já bem perto da exaustão. "Então, ela não se cansa nunca?...", poder-se-ia ler-lhes nos olhares que se trocavam.

Isabel de Aragão continuava firme, ajoelhada sobre o chão de pedras, à frente do seu séquito que se postava, também de joelhos, a partir de dois passos atrás. O rostinho da princesinha prosseguia fixo na imagem da Virgem, esplendidamente entronada no altar-mor da capela. Seus olhinhos azul-claros faiscavam em êxtase, sem se desviarem um só ins­tante dos beatíficos olhos de Maria...

"Ai, Deus do céu!... ", gemia em pensamento, Maria Ximenes Cronel, a aia favorita da princesa. "Assim vou-me ao céu, mesmo que não queira!... Ai, Jesus, como me doem os joelhos!... Santíssima Mãe, abri os olhos dessa menina!... Dai-lhe sede, fome!... Ai, que me estouro de sede!... Oh, uma tacinha de vinho!... ", e suspira, altamente desolada.

Pelos vitrais da capela, as aias percebiam que a tarde morria, e já vinha a noite e... Ai, Deus do céu!... O senhor clérigo viria bem depres­sinha para as vésperas e então!... Por Jesus Cristo, o Kyrie!... A intermi­nável ladainha!... Cruzes!... Deus santíssimo, fazei essa criaturinha sentir fome!...



De repente, os sinos começam a badalar... "As vésperas!... As vés­peras!... ", grita Maria Ximenes Cronel, em pensamento. "Agora, só por misericórdia do Altíssimo!..."

- Kyrie eleison; Christe eleison; Kyrie eleison.14 - ressoava a voz canónica do oficiante pela capela.

- Kyrie eleison...

Maria Ximenes Cronel cochilava.

- Christe eleison...

"Ai, Deus do céu!... Isso não acaba nunca!... "

- Ximena!...

  • Oh, Alteza!... - brada a outra, a esfregar, sistematicamente, os olhos, com a ponta dos dedos.

  • Dormias durante o Kyrie, Ximena?!.... - censura-a a princesinha de Aragão.

  • Oh, perdão, Alteza!... Perdão!... - exclama a jovem mulher, pondo-se de joelhos diante de Isabel. - Achava-me tão cansada!... Oh, sabeis como é, não, Alteza, a carne é fraquinha!...

-És por demais fraca, Ximenal... - diz-lhe Isabel. - As coisas de Deus requerem-nos muita fortaleza! Por que te deixas levar assim?... Vem, vamo-nos, é hora de dormir!...

"Dormir?!...", pensa Maria Ximenes Cronel, estarrecida. "E o bucho, meu Deus?... Ai, que me ardo toda de fome!... "

  • Mas, senhora, não vamos cear?... - arrisca-se a perguntar.

  • Tu só pensas em comer, Ximena!... - responde-lhe a princesa de Aragão, enquanto caminhava resoluta, à frente do seu exausto séquito, em direção dos seus aposentos. - Não sabes que é saudável jejuar?... Jesus jejuava sempre, esqueceste?... - e arremata: - Além disso, estás muito gorda!... Oferece o jejum a Cristo e te sentirás melhor!... E nem perceberás a fome, eu te garanto!... - e, parando de súbito, a observar, atentamente, as vestes da aia, prossegue: - E mais: acho que não andas botando o teu cilício!... Estás com as ancas por demais redondas!... Engano-me, acaso, caríssima Ximena?

"Ai, Deus, não!... ", pensa a aia, altamente estarrecida. "Ela des­cobriu que não ando a pôr aquela coisa abominável!... ", e tartamudeia, a revirar os olhos de desespero: - Sim... Oh, Alteza... digo... não!... Tal coisinha faz-me sofrer tanto!... Parte-me as carnes, senhora, deixando-me toda roxa!... Ui, que já ando com as anquinhas todas lanhadas, em carne viva!... Dei-me um descanso, Alteza!... Um descansozinho, só!... Até que as feridas fechem-se!... Depois, juro-vos, senhora, voltarei a enlaçar-me com a amaldiçoa...
14. Do grego: "Senhor, tende misericórdia (de mim): Cristo, tende misericórdia (de mim); Senhor, tende misericórdia (de mim)... ". A ladainha ou Kirye eleison é uma celebração do rito católico que consiste em oração constituída de uma série de invocações curtas e de respostas repetidas.

quero dizer, tão bendita coisa que nos afasta dos pensamentos impuros!... Juro-vos!...



- Ximena, Ximena!... - diz Isabel, censurando a sua jovem aia. - Se te permites folgar sem o cilício, verás com que rapidez o diabo virá a solicitar-te favores!... Vê as demais aias, como andam apertadas, com o cilício a comer-lhes as carnes!... Espia bem Dona Leonor15 que, mesmo sendo casada, ser mãe e esposa prestimosa e bem mais velha que todas nós, não deixa o cilício de lado. E tu, que ainda és bem jovem e bela, poderás ser presa fácil de satanás, que nos ronda, noite e dia, com o único propósito de nos arrebanhar para o inferno!... Com tais coisas não se brinca,Ximena!... Amanhã mesmo, bem cedinho, quero-te a confessares e a comungares, na primeira missa, entendeste?

A aia baixa os olhos, com um fundo suspiro. O estômago judiava-lhe enormemente. Certamente, aquele seria mais um dia a encerrar-se, sem que nada tivesse mastigado desde a manhãzinha...



  • Troquemos as roupas para dormir, Alteza - diz Maria Ximenes Cronel, altamente desolada. E, com a voz débil pelo jejum de muitas horas, prossegue, mal sofreando teimoso bocejo: - Já anda a passar muito da hora de ganhardes o leito, senhora!... Ai de nós, se adoecerdes por tantos sacrifícios e jejuns!... A forca ser-nos-á pouca!

  • Não sinto fome, Ximena... - responde a menina. E continua, fixando o rosto da desconsolada aia, com um par de olhinhos vivazes: - Deus supre a nossa fraqueza!

Neste momento, achavam-se apenas ela, Maria Ximenes Cronel, a Condessa Leonor Afonso e a menina, no amplo aposento de dormir.

15. Referência à Condessa Leonor Afonso, uma das aias da princesa de Aragão e filha bastarda do príncipe Afonso, tio de Isabel, primogênito de D. Jaime I e herdeiro da coroa aragonesa. Leonor Afonso era, na verdade, prima de Isabel e, desde 1286, era já viúva do segundo marido, Gonçalo Garcia de Sousa.


As demais aias, podres de sono e de cansaço, já haviam sido despachadas aos seus respectivos aposentos, a fim de se jogarem na cama, altamente extenuadas até a alma. Enquanto a Condessa Afonso preparava o enorme leito senhorial, guarnecendo-o de pesadas cobertas de lã, a outra aia principiava a desnudar Isabel.

  • Sabes, Ximena, vovô disse-me, ontem de manhã, que já pensam em casar-me! - exclama a princesinha de Aragão, levantando os braços, para que a aia lhe subtraísse, por cima da cabeça, o pesado e complexo con­junto de roupas que a menina, obrigatoriamente, tinha de envergar, a começar pelo denso manto de veludo púrpura, todo bordado com fios de ouro, em intricados e esplêndidos arabescos; depois, o longo vestido de seda branca, ricamente bordado com motivos florais, em finíssimos al­jôfares de âmbar; a seguir, uma sucessão de combinações e de saiotes de linho alvíssimo e, por fim, os panos íntimos de puríssima cambraia alvinitente...

  • Oh, penso que ainda sois por demais novinha, Alteza, para pen­sardes em matrimônio!... Eu, que já tenho quase dezesseis anos, nem tenho pretendentes ainda!... - observa a aia, bocejando ostensivamente, enquanto desfazia as longas tranças dos cabelos cor de trigo maduro que se achavam metidos por dentro dos fillets de tecido dourado. - Tendes seis anos, apenas...

  • Quase sete!... - corrige-a Isabel. - Em alguns dias, completarei sete anos, e sabes muito bem que as princesas casam-se bem jovenzinhas!... - e, depois de cogitar por instantes, com os olhinhos redondos perdidos no espaço, pergunta: - Dize-me, Ximena: com quem achas que me casarei?...

  • Certamente, com qualquer um desses príncipes que por aí há... -responde a aia, sem muito ânimo. E, após longo e ruidoso bocejo, arremata: - Solteirona é que não morrereis... Isso posso garantir-vos!

  • É... Tens razão... - diz Isabel, pensativa. E, depois de instantes, emenda: - A menos que eu professe...

Professardes?!... - espanta-se a aia. - Se disserdes tal coisa diante do rei, vosso avô, matá-lo-eis de susto!... Acaso não sabeis que as prin-cesinhas valem muito para os reinos?... São preciosíssimas!... Mas, ca-sadoiras, Alteza!... Ouvistes bem?... Casadoiras e boas parideiras, pre­ferencialmente, de saudáveis filhos varões, entendestes bem?... E não se tornando madres - que nada valem! -, encerradas em horrorosos con­ventos!... - e, meneando a cabeça, extremamente amofinada, emenda: -Que desperdício tais ideias!...

  • Oh, blasfemas, Ximena!... - observa a princesinha, altamente in­dignada. - Bate na boca!... Como podes dizer tal sandice?... Olha que Deus ainda te castigará, por andares a dizer tantas blasfêmias!... Não sabes que isso é pecado?!...

  • Oh, corrijo-me, Alteza!... - apressa-se em dizer a aia. - Quis dizer que princesas que se tornam monjas nada valem aos interesses do reino, entendestes?...

  • Entendi...

Isabel mete-se, então, a cogitar, em silêncio, enquanto a aia lhe reti­rava o derradeiro pano íntimo.

- Não vamos desatar essa coisa, aí, Alteza?... - diz a aia, logo após desnudá-la, completamente, a apontar para o cordão de couro cru, cheio de nós, que cingia os quadris da menina.16 E, firmando os olhos, à fraca luz dos candelabros, exclama: - Que horror, senhora!... Vossas carnes estão todas dilaceradas!... Por Deus do céu!... Como conseguis viver com essas coisas aí, a roerem-vos como cães famintos?...

16. Por essa época, era comum as pessoas fazerem uso do cilício, cinto ou cordão, de crina, de lã áspera, às vezes com farpas de madeira ou mesmo de couro cru, com pequenos nós que, por penitência, se trazia vestido diretamente sobre a pele. Isabel de Aragão, desde muito jovem, já se penitenciava, com o cilício, com jejuns e com intermináveis horas passadas em oração. Tudo isso, certamente, sob o jugo e olhares altamente censuráveis de clérigos católicos que, dessa forma e abaixo de ameaças de castigos e de condenações eternas, subjugavam até mesmo os poderosos da terra.
- Se não nos penitenciarmos diante de Deus, Ximena, o diabo con-some-nos!... É preciso enfraquecer a carne, para que a alma sobreviva pura!... Louvemos a dor, que nos nivela ao pó do chão!... - e se lançando de bruços sobre as pedras do piso, prossegue:

- Dormirei aqui, Ximena... Meu leito anda por demais macio...

A aia olha em derredor, estupefata. Aquela menina surpreendia a todos!... Ainda não completara sete anos de idade e agia e falava como um adulto!... Troca, então, significativo olhar com a outra dama de honor e meneia a cabeça em desaprovação.


  • Oh, se vosso real avô disso tomar conhecimento!... - exclama Maria Ximenes Cronel, altamente preocupada. - E se adoecerdes, se­nhora?... Olhai que o chão está gelado!... Certamente, ireis apanhar friagem e aí então!... Jesus Cristo!... Nós é que pagaremos por tudo!... Sabeis como é a mão do rei!... Levaremos toda a culpa!... Por favor, se­nhora!... Levantai-vos daí e buscai o vosso leito!... -e, passando as mãos pelas confortáveis e aconchegantes cobertas de lã, prossegue: - Vede que macia e quentinha a vossa cama!...

  • Deita-te tu, aí, Ximena!... - exclama a menina, sem se mexer de onde estava. - Tu é que gostas das coisas boas da vida... E satã também!... Não te esqueças disso, quando estiveres a queimar nas profundezas dos infernos!...

  • Cruzes, Alteza!... - exclama a aia, persignando-se. É isso que me desejais, senhora?

  • Por certo que não, Ximena!... - diz a menina, com os olhos já a se lhe revirarem às órbitas, cheios de sono. - Se não quiseres que satanás te leve às profundas do inferno, põe o teu cilício, para de pensar nos manjares e nos vinhos da ceia real e naquele jovem moreno e mui guapo, o Juanito Yañes, o escudeiro do vovô, e vem deitar-te aqui, ao nosso lado...

-Alteza!...

- Oh, brinco contigo, Ximena!... - diz a menina, a rir-se.

A aia senta-se numa cadeira e se põe a pensar, altamente embasba­cada. Aquela criaturinha era mesmo de amargar!... Como é que nada lhe passava despercebido?... Não é que a danadinha capturara os ardorosos olhares que ela, Maria Ximenes Cronel, trocara com Juanito Yanes, du­rante o último jantar do qual participaram alguns emissários do rei da França?... Ela, Maria Ximenes Cronel, postara-se atrás da princesinha, com o propósito de auxiliá-la, durante o repasto, e ele, Juanito Yañes, mantinha-se de pé, ao lado do rei, a atender-lhe às mínimas solicitações. E, enquanto os comensais se deliciavam com o banquete, ela e Juanito Yañes devoravam-se com os olhos!... Oh, como aquele mancebo era lindo!... Quantos anos teria?... Dezenove?... Vinte?... Tão forte e tão viril!... Ah, Juanito Yañes!...

- Ximena!.... - reacende-se a menina, de inopino.


  • Hã?!... - assusta-se a aia, despencando, abruptamente, do seu de­vaneio. - Que desejais, Alteza?...

  • Matraqueaste tanto que quase nos fazias esquecer de orar!... Que falta grave, Ximena!... Deveras imperdoável!... Ia dormir, sem fazer a derradeira oração!... Ainda bem que me lembrei a tempo! - e, levan-tando-se, ligeira como uma lebre, põe-se de joelhos e ordena: -Ximena, Condessa Afonso, vamos!...

As duas aias entreolham-se, às raias do desespero. Que remédio?...

-Ave, Maria, gratia plena... - as vozes das três mulheres misturam-se num pequeno coro, diante do riquíssimo oratório, onde a Virgem achava-se entronada.

As horas passavam, o sono fazia toscanejarem as duas mulheres, al­tamente extenuadas.



- Sancta Maria, mater Dei... - prosseguia Isabel, incansável.

Por fim, a interminável reza chega ao fim. Maria Ximenes Cronel transpassava pelo excesso de cansaço; tinha as pernas dormentes de tanto ficar ajoelhada sobre o frio chão de pedras que não conseguia levantar-se. Literalmente, travara-se.

- Não vais dormir, Ximena?... - diz a menina, lépida, voltando a deitar-se sobre o chão frio. - A reza já acabou!... Ou vais continuar aí, a pensares no Juanito?...

-Dios me'n guarde!17 - exclama a aia, extremamente espantada.

- Estarei enganada, Ximena? - pergunta Isabel, rindo-se.

A aia nada responde. Estupefazia-se. Como é que a danadinha adivi­nhava, assim, o pensamento dos outros?!... Era bem verdade aquilo. No meio das orações, seus olhos encontravam-se presos à figura da Virgem Mãe, que se achava no oratório da princesinha, mas seu pensamento via outro rosto: Juanito Yañes. Mas que danadinha!... Ainda abobada, a jovem dama de honor espia a menina que já dormia, a pregas soltas, sobre as pedras do chão frio, vestida apenas com a camisola de cetim branco.

- Ixa gata ye prou farta, ni cosa no ha quiesto minchar...18 - murmura Maria Ximenes Cronel, enquanto olhava para a princesinha que já res­sonava como um anjo. - Como será isso possível?... Nada comeu durante o dia todo!... - e, apertando forte o estômago com a mão, prossegue: - Enquanto que eu me sinto desfalecer de tanta fome...

A Condessa Afonso gemeu alto, a cabecear, tonta de sono, sentada numa poltrona. Maria Ximenes Cronel, procurando esquecer-se das dores que lhe proporcionavam o estômago, a exigir-lhe, urgentemente, a ingestão dalgum alimento, apanha, então, grossa coberta de lã e cobre Isabel, delicadamente. A menina suspira fundo e prossegue dormindo, sentindo-se mais confortada. Neste ínterim, após forte toscanejamento, a Condessa Afonso abre os olhos, assustada, e boceja ruidosamente. As mulheres entreolham-se. A tarefa de ambas ainda não se findara. Era preciso aguardar, pacientemente, que a menina caísse em sono profundo para, mesmo à revelia da danadinha, instalarem-na no leito. E, para ma­tarem o tempo, entabulam conversa aos cochichos.

17. " - Deus me livre!", em aragonês.

18."- Esta gala está saciada; nada quis comer", em aragonês.

- Pobre criança... - murmura Maria Ximena Cronel para a outra aia, bem mais velha que ela, e que sempre a auxiliara a servir a princesinha de Aragão, posto que ambas lhe eram as mais próximas e haviam recebido tal incum­bência, diretamente do rei, à falta da mãe da menina que ali não se achava para tais misteres.19 - Não achais que Isabel é uma pessoinha especial?

- Sim, e, certamente, será rainha, como a mãe e a avó - responde a Condessa Leonor Afonso, abrindo ligeiro sorriso. - Algum dia reinará sobre muitos, ao lado dalgum nobre senhor; entretanto, a cada dia que passa, tem se portado tão estranhamente!... Anda a revelar-se assaz di­ferente das demais crianças da sua idade!... Vive a surpreender a todos, com especial vivacidade e com essa inteligência incomum, para tão poucos anos de existência!...



  • Sim, condessa! - diz a outra. E prossegue, em voz baixa, para não acordar a menina que, por esse tempo, já ressonava profundamente. -Ouvistes bem o que disse ela sobre mim e Juanito Yañes, não?... O que me espanta é que ela esteve de costas para mim, quase que durante o tempo todo, mas, mesmo assim, demonstrou tanta perspicácia a ponto de não perder nenhum dos detalhes que se passava no salão!...

  • E percebeste como impressionou os embaixadores franceses com as conversas sérias sobre altos assuntos de Estado?...

19. Os pais de Isabel, o futuro rei de Aragão, Pedro III e Constança de Hohenstaufen, por essa época, viviam em Barcelona, longe da filha, uma vez que o rei Jaime I tomara-se de amores por Isabel, logo que a menina nascera, e, elegendo-a sua neta favorita, suplicou ao filho e à nora que lha dessem para criar. Fato curioso é que Jaime I e o filho, Pedro, herdeiro natural do trono, não se falavam até o nas¬cimento de Isabel; o infante, instado pela mãe, Iolanda da Hungria, e. depois, pela esposa, afastara-se do pai, fazia anos, uma vez que o rei ainda não decidira quem, efetivamente, sucedê-lo-ia no trono de Aragão: Pedro ou Afonso, o seu primogênito, nascido de Leonor de Castela, sua primeira esposa, desde 1221, mas de quem tivera que se divorciar, pelo não reconhecimento desse casamento, tido como consanguíneo e anulado em 1235, pelo papa Gregório IX. O nascimento de Isabel propiciou a reaproximaçâo de Jaime I com o filho, fazendo-os reatarem a antiga amizade, rompida fazia já longo tempo.

- observa Leonor Afonso. - A fama de nossa Isabelita já ganha o mundo!...

Logo choverão os pretendentes à sua mão!... - diz Maria Ximenes Cronel.



  • E o que achas que vieram aqui fazer os franceses?... - fala a con­dessa. - Certamente o rei da França já anda a costurar os seus interesses políticos com os do nosso soberano!... - e, rindo-se para a companheira, prossegue: - Gostarias de morar em França, Ximenita?...

  • Oh, adoraria!... - exclama a moçoila, com os olhos a inflamarem-se de brilho.

  • Pois, se isso, de fato, ocorrer, é para lá que iremos todas, no séquito da princesa!... - exclama a outra.

  • É mesmo!... Ainda não tinha cogitado sobre tal coisa!... Todas nós seguiremos Isabel, quando se casar!...

  • Se ela nos quiser junto de si, é claro!... - corrige a outra. E, fazendo pilhéria com a companheira: - E terás, então, a coragem de largar Juanito Yañes para trás?... Não te esqueças de que ele é o escudeiro do rei!... E, além do mais, correrás o risco de tê-lo enroscado nas redes da Teresa!...20

-Ai, que não suporto essa tal!... - exclama a jovem aia, enchendo-se de ódio. - Serei capaz até de abandonar o séquito de Isabel; ficarei em Aragão, mas não deixarei o meu guapo guerreiro às sanhas daquela espevitada!...

- Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... - explode a outra numa gargalhada. -Pensa bem!... Se quiseres, falarei à princesa que desejas deixar-lhe o séquito...

- Oh, não!... Não!...


  • Pensa bem, Ximena!... Isabel nem sentirá falta de ti, com tantas aias e damas de honor a lhe engrossarem a comitiva!... Já o talzinho...

20. Teresa Martins, uma das inúmeras damas de companhia de Isabel de Aragão.




  • Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... Esse não ficará à solta por muito tempo!

  • Ssssh!... Ides acordar Sua Alteza, condessa!... - admoesta-a a jovem aia. - Se Isabel nos ouve a falar tais coisas!...

  • Sim, tens razão!... - diz a outra, mal sofreando o riso. Além do mais, já ouço o galo cantar. Deve ser bem tarde, e temos de nos recolher também. Tenho os ossos moídos de tanto ficar de joelhos, a rezar... Acho que já rezei tanto que, se pecar até o fim da minha porca vida, ainda assim e, mesmo a contragosto, irei dar com os meus cornos no paraíso!... - e, suspirando, prossegue! - Vem, coloquemos Isabel no leito.

Em seguida, jeitosamente, ambas as aias tomam o corpinho da prin­cesinha e, delicadamente, colocam-no sobre o leito aconchegante e o cobrem com as grossas cobertas de lã. A menina emite profundo suspiro de gozo e, nem por um instante sequer, acorda-se. Pudera, achava-se tão cansada pelas intermináveis horas de oração e de penitência a que se submetera!

As duas mulheres olham-se satisfeitas e, apanhando, cada uma delas, uma vela acesa das muitas que ardiam no grande candelabro de ferro, postado sobre imenso aparador e, pé ante pé, rumam para a porta.



- Güenas nueis, siñá!...21 - murmura Maria Ximenes Cronel, já no escuro e silencioso corredor.

- Güenas nueis, Ximena!... - responde a Condessa Afonso.

E, como duas sombras, sem provocarem o mínimo ruído, saem em busca dos seus respectivos aposentos. A noite avançava, e era urgente descansar...

21. "— Boa-noile, senhora!... ", em aragonês.

Capítulo II

A morte de um rei

Güenos diyas!... jGüenos diyas!...1 - exclama Maria Ximenes Cronel, a plena voz, e, a bater palmas, efusivamente, desperta a prince-sinha de Aragão que dormia, profundamente, mergulhada em seu fofo leito de penas de ganso.


  • Oh, Güenos diyas, Ximena!... - diz a menina, abrindo os olhinhos redondos. E, esfregando-os, ostensivamente, com o dorso das mãos, prossegue: - Já sabemos!... São horas das matinas...

  • Sim, Alteza - diz a outra, puxando as grossas cobertas de lã. - É preciso que nos aprestemos para a primeira missa.

  • Dizei-nos, Ximena - observa Isabel, altamente intrigada, pondo-se de joelhos sobre o colchão de penas de ganso, enquanto a jovem aia principiava a vesti-la com a infinidade de trajos que lhe eram habituais -, como é possível que vimos a acordar-nos em nosso leito, uma vez que sempre nos deitamos sobre o chão, quando vamos dormir?

  • Oh, Alteza - diz Maria Ximenes Cronel, sem encarar a menina, e, voltando-se para a outra aia, a piscar-lhe um olho -, esse é um mistério que eu e Dueña Leonor Afonso ainda não conseguimos descobrir, não é, condessa?

  • Pro que si!...2 - exclama Leonor Afonso, cúmplice com a compa­nheira. E palpita: - Se quereis mesmo saber, Alteza, acho que a Virgem, em pessoa, vem, todas as noites, devolver-vos ao vosso leito, logo que eu e Ximena deixamos os vossos aposentos!... Não há outra explicação!...

  • Sim!... - concorda a jovem aia. - Não haveria outra causa, uma vez que ninguém mais aqui vem, e os únicos que ficam mais próximos

1."- Bom-dia!... Bom-dia!... ", em aragonês. 2. "-Acho que sim!... ", em aragonês.

2.” – Acho que sim!...”, em aragonês

de vós são a parelha de lanceiros que guardam a porta da vossa câmara, enquanto dormis.

Isabel queda-se muda por alguns minutos. Depois, levanta os olhinhos claros e redondos e os fixa, atentamente, na imagem da Virgem, entro­nada no rico oratório que se achava na parede bem à frente do leito.

- Será mesmo?... - pergunta cismarenta, quase num murmúrio, en­quanto duas pequenas lágrimas, brilhantes como duas contas de aljôfar, descem-lhe pelas pequenas faces rosadas. E voltando a encarar as duas aias, alternadamente: - Não andais, acaso, a mentir para nós, não?

Oh, não, Alteza!... - respondem, em coro, as duas mulheres. - Por Deus, não!...

Olhai bem, ambas, que jurar em falso é falta por demais grave, para arremeter alguém direto às profundas do inferno!... Pecado mortal!... Mortalíssimo, senhoras!... - exclama Isabel, com expressão assaz grave à face. E, saltando da cama, já quase totalmente vestida, ordena: - O manto!... Acaso não ouvistes os sinos?... Estamos atrasadas, e Deus a ninguém espera!... Vamos!...

Ao pequeno séquito, junta-se o outro, maior, que já a aguardava, do lado de fora.

-¡Güenos diyas, siñás!... - diz Isabel, enquanto aquela trezena de cabeças engalanadas por chapéus pontudos, turbantes ricamente bor­dados de aljôfares e, ainda, fillets em profusão de cores, dobravam-se, tautocronamente, diante dela.


  • ¡Güenos diyas, Alteza!... - respondem, em coro, as damas de honor, dobrando os joelhos, em longa mesura, à passagem de Isabel.

  • A capela, senhoras!... A capela!.. - convida Isabel, com a altivez da sua condição, mas sem demonstrar qualquer ostentação ou o exagero da afetação, e sempre com profunda doçura à voz. - Deus aguarda-nos a presença!...

Novamente a capela. Desta vez, cheia. O rei fazia-se presente, e Isabel ajoelhou-se-lhe ao lado.

- ¡Mia pequeña rosa!... - murmura Jaime de Barcelona, beijando a face da neta.

- Vossa bênção, senhor!... - diz a menina, ao beijar a mão do avô. O celebrante inicia o ofício religioso. E Isabel, altamente contrita, como



sempre, segue, fielmente, o ritual, acompanhando-o, com fé ardorosa.

  • Não queres compartilhar conosco um passeio pelos jardins, pe­quena rosal - convida o rei, após o término da missa.

  • Sim, vovô - responde a menina. - Para mim é sempre um prazer estar ao vosso lado!

Pouco depois, ambos caminhavam, avô e neta, de mãos dadas, pelas aleias floridas do imenso jardim do Palácio de Aljaferia. No horizonte, o sol principiava a erguer-se magnífico, a iluminar os campos de Saragoça.

  • Ficamos muito feliz, quando estás conosco, Isabel!... - exclama o velho monarca de Aragão, a ostentar, àquela manhã, especial palescência à fisionomia.

  • Sinto-vos um tanto pálido, senhor!... - exclama a menina, olhando-o, firmemente, à face, à luz da clara manhã. - Estais a sentir-vos bem?... - e, aproximando a mão do avô à própria face, prossegue: - Vossa mão está álgida; vossas unhas encontram-se arroxeadas!... Não convém que cha­memos o vosso médico?...

  • Tens razão, Isabel!... - diz o velho rei, com a voz frouxa. E pros­segue um tanto desalentado: - Há dias vimos sentindo febres e nos no­tamos, sim, tomar, inopinadamente, de palores!... Também já mandamos chamar o nosso médico. Entretanto, nada nos disse ele, ainda, a não ser prescrever-nos uma série de vomitórios, além de horríveis beberagens e de algumas sangrias.3

  • Oh, vovô!... - exclama a menina, tomando a mão do velho rei e a beijando com ternura. - Se vos fordes, que será de mim?...

  • Nós é que não suportaríamos apartar-nos de ti, pequena rosa!... -diz Jaime de Barcelona, com olhos tristíssimos. - Ainda mais sabendo que já estás quase na idade de te casares!... Isso é que nos dói muito!... Afastarmo-nos de ti!... - e fitando, com olhos lacrimais, o céu azul e brilhante, prossegue: - Foste o anjo que Deus nos enviou a iluminar a nossa casa, que se achava bem triste!... Já te contamos que o teu pai e a tua mãe, antes, não gostavam de nós?... Viviam em Barcelona e nós, na maior parte do tempo, aqui, em Saragoça, e não nos visitávamos e nem nos falávamos!... Felizmente, tudo mudou!...

  • Ao nasceres, foste o elo de reconciliação entre nós e os teus pais que, percebendo o quanto nós nos tomamos de amores por ti, concederam-nos a tua guarda, e nem podes aquilatar que guapo presente nos deram!... Confiaram a nós a tua edu­cação, Isabelita!... E acho que, agora, sentem-se tão orgulhosos quanto nós, ao saberem que te transformas numa linda moça, a fazeres os co­rações dos príncipes da Europa inteira baterem-se pela tua mão!... És o orgulho de todos nós!... A fama da tua beleza, delicadeza e sabedoria já venceram as fronteiras de Aragão e ganham o mundo!... Nem cogitas quantas propostas de casamento já recebemos para ti, pequeña rosa!... E das principais cortes da Europa!... Da França, da Inglaterra, da Hungria!... Mas, até agora, a ninguém respondemos!... Nosso coração parte-se em mil pedaços, só em imaginar que, um dia, tu te irás daqui para sempre!...

  • ¡Oh, paye!... - exclama a menina, enchendo-se de compaixão pelo avô. - Se quiserdes, não me vou!... Não me casarei com ninguém!... - e, erguendo-se, vivaz como sempre, prossegue: - Que diríeis se me tornas­se monja?...

  • ¡Oh, pequeña rosa!... - diz o rei, altamente emocionado, a acarinhar, suavemente, com a ponta dos dedos, o rostinho rosado da neta. -

3. Desde a medicina de Hipócrates (IV século a.C), até o século XIX, e, antes das descobertas de Virchow, no campo da mecânica do tromboembolismo, predominou a teoria dos humores, para explicar todos os fenômenos biológicos, e a sangria destinava-se a eliminar as impurezas contidas no sangue, causadoras do estado mórbido. Por meio dela, retirava-se o humor "vicioso" e outros tipos de humores que se acreditavam responsáveis pelas doenças. Galeno, no século III, deu grande importância à sangria, indicando-a como tratamento das inflamações, da febre e da dor.

Até isso farias por nós?... - e, abrindo um sorriso melancólico, prossegue: -Já entendemos que pertences a Deus, desde que vieste ao mundo!... - e, de repente, ganhando subitâneo brilho aos olhos, prossegue: - Sabias que nasceste envolta?...4 Tua mãe ainda mantém guardado o véu que te envolvia, ao nasceres, e o carrega sempre consigo! - e, mostrando-se altamente meigo, sorri amável e continua: - Acho que já te contamos que, quando eras ainda um bebezinho de poucos dias, amiúde, costu­mavas chorar, altamente sentida, por horas a fio, e tuas aias não conse­guiam consolar-te, com ninares ou mimos, e nem mesmo as tuas amas-de-leite faziam-te calar, a oferecerem-te, ostensivamente, os seios fartos do copioso alimento!... Entretanto, era só mostrar-te Jesus Crucificado e tu passavas, de repente, a sorrir-Lhe, felicíssima!... Foi sempre assim: desde pequenina te mostras grande amiga de Jesus... - e, tomando as mãozinhas da neta entre as suas, acaricia-as, longamente, e, depois, per­gunta: - Dizes, então, que preferirias dedicar-te a servir a Cristo, em detrimento de vires a ser uma rainha?... Trocarias, sem titubear, o trono pela clausura?...



  • Por certo que sim!... - responde a menina, com os olhinhos bri­lhantes. - Com todo o amor do mundo, faria isso!...

  • Oh, querida!... - exclama o rei, altamente emocionado. - A Deus, temos a certeza absoluta de que tu já pertences!... Porém, pressupomos que Ele não te deu um trono por acaso...

  • Eu sei... - retruca a menina, com a voz firme. - Deus deu-me um trono para que eu O pudesse melhor servir... - e, fixando os olhinhos azul-claros e brilhantes nos rosto grave do avô, prossegue: - O Altíssimo pôs-me uma coroa à cabeça para eu fazer a caridade...

Jaime de Barcelona silencia por instantes. Aquela criaturinha era deveras especial.
4. Isabel teria nascido envolta num estranho e finíssimo véu, semelhante à escumilha, o qual, após ser delicadamente retirado do bebê, foi mantido desidratado, numa caseia de prata, por ordem da rainha Constança, sua mãe.

Tinha a capacidade de proporcionar-lhe profunda tran­quilidade à alma. Por longo tempo, segue olhando-a, sistematicamente, com os olhos lambuzados de ternura. Era patente a forte emoção que o invadia. A princesinha tinha o poder de acalmar-lhe as aflições e de dar-lhe intensa paz ao coração. Então, os olhos do velho monarca de Aragão enchem-se de lágrimas, enquanto se fixam, firmemente, no restinho grácil e meigo da neta. "Tem sangue bom!... ", pensa ele. "Tem sangue boníssimo!... Sangue de santa... "5

- Por que estais chorando, vovô? - pergunta a menina.

- Oh, porque víamos o quanto és formosa e pura, pequena rosa... -responde ele, trêmulo de emoção. E, após emitir fundo suspiro, enxuga os olhos, com a ponta dos dedos, e prossegue: - Quando tu nasceste, o teu pai e a tua mãe encontravam-se aqui, em Saragoça. Haviam vindo visitar-nos e, também, para agradar-nos, desejavam que nós presenciás­semos o teu nascimento. Sabes que, para um avô, o nascimento de um neto é sempre alegria ímpar. Estávamos sem nos ver, nós e os teus pais, fazia, já, longo tempo. Da última vez que nos havíamos encontrado, o teu pai e a tua mãe haviam dito coisas horríveis para nós!... Sabes, que­rida, as questões de sucessão sempre foram muito dolorosas!... Há tanto interesse em jogo!... Há tanta gente que nos quer ver morto, a fim de deitarem as mãos à coroa!... Nós, mesmos - e não sei se já te contamos isso antes! -, quando éramos um bebezinho de poucos dias de vida, ati­raram uma enorme pedra pela janela do aposento em que nós nos encon­trávamos e, por pouco, não fomos cruelmente esmagados, enquanto dormíamos em nosso berço!...

5. Jaime I, certamente, refere-se à ascendência da neta que, pelo lado materno, era sobrinha de Santa [sabei da Hungria, filha de André II da Hungria e da rainha Gertrudes de Andechs-Meran, descendente da família dos condes de Andechs-Meran. Do lado materno, Isabel da Hungria era sobrinha de Santa Edwiges, tia das santas Cunegundes e Margarida da Hungria e, do lado paterno, prima de Santa Inês da Boêmia.


  • Deveras, vovô?!... - espanta-se Isabel, com a crueldade do fato que lhe narrava o avô. - E quem teria tido a coragem de fazer tamanha mal­dade com um recém-nascido?

  • O pior disso tudo isso, Isabel - prossegue o velho rei, com um sor­riso amargo aos lábios -, é que o autor de tal façanha, certamente, foi um dos nossos parentes!...

  • Oh, que horror!... - exclama a menina, altamente indignada. - Um dos nossos parentes?!

  • Sim!... E quem mais desejaria a nossa morte?... Provavelmente, alguém que de nós estivesse bem próximo, na linha de sucessão...

  • Então, não podemos confiar nem nos nossos parentes!... - assevera a princesinha, altamente preocupada.

  • Assim é, Isabel - diz Jaime de Barcelona, com fundo suspiro de desconsolo. - Infelizmente, assim é!... Um monarca não poderá confiar sequer nos filhos...

  • Até nos filhos, vovô?!... - espanta-se a menina. - Não confiais em papai, então?

  • Gostaríamos que assim não fosse, querida - responde o velho rei de Aragão. E após ligeiros instantes de reflexão, prossegue: - Sabias que o teu pai e a tua mãe culpavam-nos pelas questões da sucessão da coroa?

- Deveras?!...

- Sim. Nem imaginas o que era o Reino de Aragão, quando tudo co­meçou... Guerras e rebeliões eram o que não faltavam por aqui!... Conto-te tudo - diz o rei. E prossegue, após ligeiro silêncio, como se ordenasse as ideias: - Quando herdamos a coroa do nosso pai, Aragão achava-se em guerra com Castela. Depois, tivemos que combater a França. E nós tínhamos apenas catorze anos de idade, quando passamos a comandar os nossos exércitos, em duas fronteiras, ao mesmo tempo: o Reino de Castela, que desejava tomar para si as nossas terras, e a França, que re­clamava nossas possessões no Roussillon que, como sabes, herdamos, legitimamente, da nossa augusta mãe.6 Foram duríssimos os combates a enfrentar. Às vezes, tínhamos que confrontar exércitos mais poderosos e mais numerosos que os nossos, mas, com a inteligência que Deus nos deu, mais a valentia e a habilidade dos soldados de Aragão, conseguimos vencer tanto os franceses quanto os castelhanos!... Mas, não paramos por aí, não!... Ainda, havia a reconquista dos territórios ocupados pelos mouros, ao sul, e nós os combatemos, com coragem e destemor, e deles tomamos as Baleares e, depois, Valência. Atualmente, temos o nosso reino aumentado em três vezes mais de quando o herdamos das mãos do nosso pai!

- Então, é por isso que vos apelidaram de O Conquistador!... -observa a menina, rindo-se.

Jaime I apenas se ri orgulhoso. Depois, volta a entristecer-se, como era comum vê-lo, nos derradeiros dias da sua vida.


  • Sabes, Isabelita, ao contrário do que muita gente pensa, os reis não são donos da própria vontade!... - retoma o diálogo o velho monarca, depois de alguns instantes de profunda reflexão. - Decididamente, quando um rei cinge a coroa, perde a liberdade!... Tem de renunciar a tanta coisa, em favor do trono!... E, conosco, não foi diferente!... - diz ele, baixando a cabeça, extremamente triste. E, depois de instantes, prossegue, com profundo amargor à voz: - Saibas que, dentre tudo a que tivemos de re­nunciar, talvez o pior golpe que recebemos, em toda a nossa vida, foi quando tivemos de repudiar a nossa primeira esposa...7

  • E por que tivestes de deixá-la? - pergunta Isabel, altamente inte­ressada na questão. - Acaso não na amáveis?...

- Oh, não!... - responde Jaime de Barcelona. - Pelo contrário!...

6. Jaime I era filho de Pedro II de Aragão, o Católico, e de Maria de Montpellier, filha de Guilherme VIII, senhor de Montpellier, e de Eudóxia Romenos. Com a morte da sua mãe, em 1219, Jaime I herdou o senhorio de Montpellier. Em 1241, por testamento do seu primo Nuno Sanches, herdaria os condados de Rossilhão e Cerdanha e o viscondado de Fenouillèdes, na França.

7. Jaime I foi casado, em primeiras núpcias, com Isabel de Castela e, em segundas, com Iolanda da Hungria.

Amávamo-la, sim!... E como nós a amávamos!... Mas, era nossa prima, e o papa não nos desobrigou da consanguinidade!... O Reino de Aragão já andava, havia tempos, nas miras da Santa Sé, desde o Grande Cisma.8 Tivemos, então, de casar-nos outra vez, para não levantarmos novas contendas com a Igreja!... Não que não tenhamos amado, também, a Iolanda, a tua avó!...

Mas, nós éramos apaixonado por Leonor!... Nós tínhamos somente catorze anos, quando com ela nos casamos. E, seguin­do os conselhos do teu bisavô, que dizem uma vez que dele não nos lembramos, posto que morreu quando nós éramos ainda um bebê! -, aconselhava, sempre, aos herdeiros que a primeira coisa que um monarca tinha a fazer eram os filhos, a garantirem a sucessão ao trono... E seguimos os conselhos do nosso pai: tivemos um filho, aos quinze anos de idade!... Afonso era o nosso primogênito!...9 Mas, ai, tentaram envenená-lo, tantas vezes, que morreu muito jovem!... Era ainda um moço!...

- Tentaram envenenar o meu tio?!... - espanta-se Isabel.

- Oh, queridinha!... responde o rei, com um sorriso amargo. - E que isso sirva também para ti, como conselho que te damos: dorme sempre com um dos teus olhos aberto e come e bebe sempre depois que os teus provadores fizerem-no antes de ti!... Ou então!...

-Jesus Cristo!... - exclama Isabel, arregalando os olhinhos redondos. E, depois de pensar por instantes. - Então o príncipe Afonso desobedeceu às vossas ordens, senhor!...


8. Durante o cisma da Santa Sé, Afonso II, o Casto, (1157- 1196), pai de Jaime I, apoiou, de forma inequívoca, o papa Alexandre 111 contra os antipapas, promovidos pela facção imperial. Somente a partir do reinado de Pedro II de Aragão, e por bula papal de 6 de Junho de 1205, os monarcas aragoneses tiveram a permissão de serem coroados pela Santa Sé, devendo fazê-lo na Sé de Saragoça pelo arcebispo de Tarragona, depois de se solicitar a coroa ao papa. Essa concessão foi extensiva às rainhas e, por renovar as relações com a Igreja, Pedro II foi cognominado O Católico.

9. Afonso, príncipe herdeiro da coroa de Aragão, morto em 1260, aos 31 anos de idade.


- Oh, sabes como é a juventude!... - exclama o rei, fazendo largo gesto de desolação com as mãos. - Afonso não era diferente!... Saía sempre a caçar com os amigos!... Bebedeiras, aventuras amorosas e co­milanças fora de casa... Então, amiúde, traziam-no desacordado, à beira da morte, extremamente pálido e com os lábios roxos e os olhos enco­vados. Escapou, algumas vezes, pelas excepcionais habilidades do nosso médico, a lidar com os envenenamentos, mas a sua saúde minou-se e, um dia, acabou por receber dose letal...

  • Não sabeis quem o envenenou, senhor?...

  • Oh, quem, Isabel?... - responde o rei, altamente desolado. - Sabes que vivemos rodeados de centenas de pares, de toda a espécie.

Há os que, efetivamente, amam-nos, mas há aqueles que apenas fingem; no fundo, odeiam-nos de morte; têm profunda inveja de nós e querem usurpar-nos a coroa!...

  • Por que as coisas têm de ser assim, vovô?... - exclama a menina, extremamente entristecida. - Por que tanto desamor, tanta cobiça entre as criaturas?

  • Infelizmente, assim é, Isabel!... - observa o rei, com profunda amar­gura à voz. E prossegue: - Não quero que te ofendas com o que vamos relatar, uma vez que as pessoas sobre as quais nos referiremos também nos são muito caras ao coração, mas é preciso contar-te, mesmo que isso nos doa muito, até a alma!... - e, depois de engolir em seco por algumas vezes - prova de que pensava muito sobre as palavras que ia proferir -, Jaime de Barcelona prossegue: - Saibas, querida, que, ao longo da nossa vida, já tivemos de mudar o nosso testamento por diversas vezes. Quando o nosso primogênito Afonso ainda vivia, a ele é que recaía o direito sobre o trono de Aragão, embora o nosso casamento com Leonor, sua mãe, não fosse considerado legítimo pela Igreja; mesmo assim, nós o contem­plávamos como nosso herdeiro à coroa. Era o nosso filho, e nós o amá­vamos, acima de qualquer coisa, uma vez que era fruto do grande amor da nossa vida; entretanto, Iolanda, a tua avó, nossa segunda esposa, não suportava Afonso. Talvez, por desmedido ciúme, Iolanda odiava o prín­cipe herdeiro e tantas fez, na tentativa de que nós deserdássemos Afonso que, no fim de tudo, o que ela realmente conseguiu foi afastar Pedro de nós!... Tua avó insuflou tanta animosidade entre o teu pai e Afonso que ambos quase se bateram em duelo!... Custou-nos muita diplomacia para que uma tragédia não ocorresse à época. Quando Iolanda10 morreu, Afonso ainda lhe sobreviveu alguns anos, tempo suficiente para que o coração do teu pai permanecesse eficazmente envenenado que fora pela tua avó, anos a fio, contra nós e contra o meio-irmão!...

Depois que Iolanda se foi, a tua mãe substituiu-a, em tais terríveis misteres, uma vez que também passou a devotar incontido ódio contra nós e contra o cunhado. 11 Entretanto, nem a morte de Afonso que, em tese, dirimiria o ódio existente entre os irmãos; nem a morte do herdeiro conseguiu amainar a terrível animosidade que, durante muitos anos, foi cultivada entre nós e os teus pais. Nossa vida era muito triste, devido a essa estúpida inimi­zade que brotou em nossa família. Além do ódio devotado a Afonso, o teu pai e a tua mãe não nos perdoavam, por não termos reconhecido o casamento deles, feito à nossa revelia... Nós tínhamos outros planos para o teu pai, entretanto...

  • Entretanto, mais tarde, papai e mamãe vieram visitar-te, esponta­neamente, não foi assim?... - pergunta a menina.

10. A rainha Iolanda, consorte de Jaime I, morreu de febre, em Huesca, em Outubro de 1251

11. Além dos motivos atinentes à sucessão, Jaime I permanecera de relações rompidas com seu filho e herdeiro Pedro (a quem foi atribuído o cognome de Grande), devido a seu casamento, sem o consentimento paterno, com Constança de Hohenstaufen, filha do rei Manfredo da Sicília, uma vez que Jaime I acalentava outros planos matrimoniais para o filho.


  • Sim, quando tu nasceste, pequena rosa!... - exclama o rei, sorrindo, enquanto afagava, com a ponta dos dedos, a delicada face da menina. E prossegue, cheio de contentamento: - E tributo isso, já, à tua influ­ência!... Eu houvera feito tantas rogativas à Santa Isabel da Hungria-tua tia e de quem herdaste o nome!... - para que acabasse aquela dolorosa animosidade existente entre nós e o nosso filho Pedro, o novo herdeiro do trono, uma vez que Afonso, meu primogênito, já se finara, anos antes; tanto suplicamos àquela piedosa santa que a resposta que dela obtivemos foi o teu nascimento!... Inexplicavelmente, um mês, apenas, antes do teu nascimento, recebemos, na corte, a visita dos teus pais!... Vinham alegres, apresentavam-se diferentes e felizes e, nem de longe, demonstravam quaisquer laivos de raiva ou de rancor contra nós!... Trataram-nos com desmedida cordialidade e pareciam de nada lembrar-se ou guardar qual­quer mágoa ou ressentimentos do passado!...

Todas as brigas, discussões e afrontas, que persistiram por anos, jaziam mortas e esquecidas!...

E traziam uma novidade: tu estavas a caminho!... Nosso filho e nossa nora abraçaram-nos, comovidamente, e nos pediram perdão!... Tu não ima­ginas o quanto nos alegramos com esse fato!... Festejamos, por três dias, essa reaproximação!... Nunca, antes, houvera tantos festejos e com tal intensidade em Aragão!... E, quando tu nasceste, trazias o véu dos puros a envolver-te!... Era o sinal que eu pedira à tua tia santa!... E, ao contar aos teus pais esse milagre, deram-te, então, esse nome, Isabel, em homenagem à tão poderosa santa!... A partir daí, novos rumos tomaram o nosso reino!... Depois do teu nascimento, as coisas começaram a ajeitar-se!... És uma enviada, Isabel!... Vieste para trazer a paz ao reino!...

A menina limita-se a sorrir para o avô, com um par de olhinhos azuis e redondos. Pequeno silêncio, então, estabelece-se entre os dois. O rei mostrava-se altamente emocionado, e duas lágrimas brotam-lhe dos cantos dos olhos.

-A velhice deixa-nos tontos, Isabelita!... - diz Jaime de Barcelona, enxugando os olhos com a ponta dos dedos. - Os anos deixaram-nos atoleimado, de coração mole...

-Acho que deveríeis entrar e descansar, Majestade!... - diz a menina, tomando-lhe a mão. - Vinde, que vos acompanho.

Em pouco, o rei repousava em seus aposentos, cercado pelos médicos da corte. Isabel, ajoelhada ao lado do avô, segurava-lhe a mão e a cobria de beijos.



  • jOh, paye!... - exclama a menina, com os olhinhos tristes. -Tenhamos fé em Deus!... Para o Altíssimo, nada é impossível!...

  • Recomendamos-vos, Majestade - diz o médico do rei, aproxi­mando-se, após longa confabulação com seus pares -, todos nós, una­nimemente, que partais para o Sul, em busca de ares mais amenos. O clima frio de Saragoça só faz judiar mais e mais de vós. Valência, por se achar ao extremo Sul, seria o lugar ideal para a vossa recuperação, Siñor!

  • Por que não vamos para Valência, vovô?... - observa Isabel. - Lá encontraremos papai e mamãe e, certamente, vós vos sentireis mais amparados.

- Pedro e Constança não vivem em Valência; acham-se em Barcelona

- retruca o monarca de Aragão. - Sabes o quanto eles amam aquela cidade!...

- E por que não vamos nós também para Barcelona? - sugere a menina.

-Ao contrário dos teus pais, não gostamos de Barcelona, Isabelita...

- diz o velho rei. - Se for para irmo-nos a Barcelona, preferimos aqui permanecer, a aguardarmos o nosso fim!

- Oh, senhor!... - exclama a menina. - Por que dizeis tal coisa?... Ainda viverás muito!... Sois um guerreiro insuperável, e os grandes guer­reiros, como vós, são ungidos por Deus!... Tendes a proteção do Altíssimo!...



  • Sempre achamos que Deus nos protegeu, ao longo da nossa vida, pequeña rosa! - exclama Jaime de Barcelona, abrindo ligeiro sorriso, carregado de tristeza. - Mas sabemos que não somos eterno!... Cedo ou tarde, a morte sempre chega, mesmo aos predestinados!... Ninguém se faz eterno sobre este mundo!...

  • Deus apôs o sinal sobre vós, senhor, ao conceder-vos a coroa de Aragão!... - exclama Isabel. - E sei que cumpristes, fielmente, a difícil missão que Ele vos confiou!... Então, tendes o mérito da proteção di­vina!... O Altíssimo não vos faltará!...

O velho monarca afaga, carinhosamente, o delicado rostinho da neta, com a ponta dos pálidos dedos, e lhe sorri, um tanto mais confortado. E, voltando-se para o médico que dele aguardava uma solução, pergunta:

-Achais que suportaremos a longa jornada, Don Cortázar!



  • ¡Pro que sí, Siñor!... - responde o médico. - Iremos devagar e pa­raremos sempre que vos sentirdes fatigado.

  • O que não desejamos é nos finar pelos caminhos, Don Cortázar!... - exclama o rei. - Entretanto, se garantis que suportaremos a viagem, por que não partir?... - e, voltando-se para a neta, prossegue: - Que te parece, Isabelita?

  • Perfeito, Siñor!... - exclama a menina, osculando a mão do avô. -Deus certamente nos guiará até Valência!...

O rei, então, ganhando inusitado recurso às debilitadas forças, brinca com a neta:

- E, para que tomes gosto pela coroa, doravante, nomeamos-te a nossa regente!... Anda, então, a ordenar ao nosso mordomo que apreste a arrumação das bagagens!... E, assim que tudo se encontrar em ordem, ganharemos os caminhos, em busca de Valência!...



Isabel põe-se de pé, ligeira e, depois de longa reverência diante do avô, dispara em direção da porta. No corredor, seu numeroso séquito aguardava-a e, estabanadamente, aquelas distintas senhoras põem-se, literalmente, a correr, para poderem acompanhar a princesinha de Aragão que, resoluta, caminhava apressadíssima, para a sala do trono, a levar as ordens do avô...

A azáfama que se instaura, imediatamente após as ordens do rei, foi geral, a envolver toda a cidade de Saragoça: animais domésticos eram apanhados, às pressas, nos enxurdeiros, e abatidos, às centenas; em seguida, suas carnes eram salgadas e metidas numa infinidade de barricas; toneladas de trigo eram retiradas dos silos do rei e cuidadosamente en­sacadas e preparadas em infinidade de cangas, para viajarem ao lombo dos muares de carga; bateladas de barris de vinho e de azeite eram reti­rados das cavas subterrâneas e se os ajeitavam, amarrados em duplas, para se acomodarem ao jugo das bestas... Como a viagem para o Sul, possivelmente, duraria uma quinzena, e havias muitas bocas a alimentar pelos caminhos, nada de exagero havia em tão expressivos preparativos! A par de toda essa correria, os soldados do rei revisavam e afiavam suas armas, amolando-as, meticulosamente, com pedras de arenito, ou fabri­cavam setas ou renovavam as guitas de seus arcos, deixando-os rete­sados e prontos ao uso, e os archeiros - a guarda particular do rei - azei­tavam as molas das balestras e davam lustro e aguçavam a lança e o machado das longas alabardas. Tudo deveria estar de acordo, sob a su­pervisão dos espertíssimos olhos dos comandantes do exército real!... E, depois de cinco dias de grande afã, numeroso séquito, composto de mi­lhares de soldados, pajens, damas e valetes de honor, além de centenas de gentis-homens e nobres damas que compunham a corte de Jaime I de Aragão - esses ricamente vestidos e a cavalgarem majestosos e engala­nados corcéis - deixa a cidade de Saragoça, a meio de tristes adeuses do povo, dirigidos a seu rei que partia, definitivamente, do lugar.

Dezenove dias depois de deixar Saragoça e a meio de inominável sofrimento, uma vez que sua saúde piorara, ainda mais, pelos caminhos, o velho rei de Aragão e sua imensa comitiva chegavam às portas da ci­dade de Valência. Recebido com altas honras pelo povo, Jaime de Barcelona não pôde manter-se de pé, a receber seus súditos valencianos na cerimônia do beija-mão. Achava-se tão enfraquecido e tão depaupe­rado pelos esforços despendidos durante a viagem que, nem mesmo os incessantes rogos que Isabel fazia-lhe, para que lutasse e reagisse contra o mal que o acometia, conseguiram trazer-lhe de volta a esperança de recuperar-se; nem mesmo o afável e tépido clima do Sul, conforme lhe sugeriram os médicos, conseguiu reavivar-lhe as forças. E, numa cálida tarde de julho, o velho monarca aragonês entregava sua alma a Deus,12 sob os chorosos olhos de Isabel que, nem por um só instante, deixara os aposentos do avô, durante a sua longa e dolorosa agonia.
12. Jaime I morreu em Valência, a 27 de Julho de 1276.


Capítulo III

Novos rumos...

- Requiem aeternam dona eis, Domine...1 - espalha-se a voz grave e canónica do celebrante, pela imensa cúpula da catedral de Valência.

O esquife de Jaime I achava-se colocado ali mesmo, naquele templo de feições híbridas: meia catedral, meia mesquita. Das ruínas do antigo templo muçulmano, devagar ia brotando, à semelhança da Fênix que renascia das cinzas, após se autocomburir, a imponente construção ga­nhava formas e feições cristãs.2 Emendadas ao corpo

1. O Réquiem. No rito católico, oração que se fazia nos atos fúnebres. O texto todo: "Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. Amen."

2. A Catedral de Valência, a princípio, fora uma mesquita muçulmana e, desde a sua origem, em 1238, encontra-se consagrada à Virgem Maria, ante cuja imagem celebrou a primeira missa o bispo Pere de Albalat. Essa imagem era propriedade do mesmo Jaime I que, após a reconquista de Valência, armou-se com um martelo de prata e destruiu as paredes do templo onde havia a decoração muçulmana. A essa tarefa somar-se-iam seus homens, deixando a mesquita convertida em ruínas, em poucas horas.


da antiga mesquita, apenas a abside e algumas das suas capelas achavam-se concluídas e, entronada no altar-mor, a imagem da Virgem Santíssima que ele, o rei, doara à catedral, quando da reconquista da cidade, muitos anos atrás.

Isabel, a trajar luto pesado, acompanhava os pais que para Valência haviam acorrido, a fim de assistirem às exéquias do velho rei. A pequena princesa debulhava-se em lágrimas, postando-se de joelhos, entre o pai - o futuro rei de Aragão - e a mãe, enquanto ouviam a missa de corpo presente. Expressiva multidão entupia a catedral, desde o adro, até quase rente à boca da abside, diante do altar-mor, onde haviam colocado o es­quife de Jaime I. Toda a numerosa corte, que sempre o rodeara, durante a sua vida, achava-se presente, a prestar-lhe as derradeiras homenagens. A inumação do rei de Aragão, o valoroso soldado e defensor da sua pátria, dar-se-ia ali mesmo, numa das capelas da catedral que se construía. A tarde avançava, lentamente, enquanto prosseguia o extensíssimo ato litúrgico. Um coral de meninos entoava tocante canto sacro, durante o cânon. Isabel, com os olhos cozidos pelo incessante pranto, olhava para o esquife do avô, colocado sobre alto socio de madeira ricamente esculpida em alto relevo e totalmente recoberto de tenuíssimo véu de tule negro. Haviam-no vestido com uma cota de finíssimos fios de prata, desde o alto da cabeça - a balaclava - sobre a qual ostentava a coroa real, até o peito, e, sobre a cota reluzente, o colete de bronze polido e brilhante. E, sobre o peito, o cerimonial houvera colocado a pesada es­pada, cuja empunhadura, o defunto segurava entre as mãos, à guisa de um crucifixo; o saiote de veludo azul-escuro e a malha preta, ajustada às pernas, mais as botinas de pontas finas e longas3 e a majestosa capa de seda vermelha, bordada com fios de ouro e de prata completavam-lhe os

3. Na Idade Média, a partir do século XII, surgiram as "poulaines ", calçados extremamente pontudos e fabricados em couro, veludo ou seda e bordados com fios de ouro, muito difundidos, então. E, quanto maior fosse o bico do sapato, mais importante seria o seu dono, caracterizando, destarte, a ordem hierárquica de quem o possuísse.

trajos fúnebres. Postada ao lado do esquife, entre os pais, Isabel olhava, insistentemente, para a esquálida silhueta do avô morto; o rosto apresentava-se sereno, apesar da hígida máscara da morte a tomar-lhe o semblante austero; a testa larga, encimada pelas bordas da balaclava, tecida em finíssimos fios brilhantes; os olhos, cerrados e encovados; o nariz longo e afilado; os bigodes bastos e compridos; a barba sobeja e grisalha, untada com óleo de mirra e primorosamente penteada... Isabel soluçava baixinho, enquanto seus olhinhos redondos e azul-claros esquadrinhavam a insigne figura do avô amado que se ia, para não mais voltar...


  • Sancte Johannes...

  • Ora pro nobis...

  • Saneia Maria...

A pequena princesa de Aragão apenas movia os lábios, a responder à ladainha, juntamente com as centenas de pessoas espremidas no recinto da catedral; seu pensamento andava longe, enquanto olhava para o rosto ceráceo do avô, ligeiramente obnubilado pelo véu que o recobria.

  • Au, mio amigo!...4 - murmura a princesinha, entre profundos suspiros.

  • Doravante tu viverás conosco em Barcelona, querida - diz Constança de Hohenstaufen, a princesa consorte de Aragão, à filha, já à noitinha, enquanto se dirigiam, de carro, ao paço, após as exéquias do avô.

Isabel fita, demoradamente, o rosto da mãe. Aquela mulher bonita e elegante era a sua mãe; entretanto, quão estranho era o que sentia em relação àquela rutilante dama!... Quase não estivera ao seu lado, antes, posto que ela, Isabel, vivera sempre junto do avô, em Saragoça. Uma estranha, nada mais que uma estranha, afigurava-se-lhe a mãe. Sentia-a distante, fria; nenhum gesto de carinho ou de
4. "-Adeus, meu amigo!... ", em aragonês.

afeto demonstrara ao ver a filha; apenas beijaram-se, ligeiramente, à face, quando se encontraram. Com o pai fora a mesma coisa: ele se resumira a abraçá-la; abraço rápido, seguido de um "Como estás, queridinha? ", nada mais, além disso.



Isabel achava-se profundamente triste. Seu amigo acabava de ir-se para sempre. O primeiro grande desencanto da sua vida: a separação daquele que, mais que avô e tutor, fora o seu grande amigo e conselheiro. Um nó do tamanho do mundo entupia-lhe a garganta e, enquanto o carro seguia pelas ruas de Valência, a menina olhava para a mãe que se lhe sentava ao lado, no luxuoso coche. Esquadrinhava-lhe, minuciosamente, o rosto.

Os olhos claros, assim como os dela; a tez alvíssima, de neve; as mãos claríssimas, bem tratadas; aos dedos, os riquíssimos e esplên­didos anéis; à cabeça, sob o fillet de rendas de fios de ouro, os cabelos louros como o trigo maduro e a resplendente tiara principesca. A mãe... Entretanto, a alma de Constança de Hohenstaufen parecia nada sentir; mostrara-se fria o tempo todo; derramara, discretamente, algumas lá­grimas, quando encerraram o corpo de Jaime de Barcelona no rico sar­cófago de mármore branco, na principal das capelas recém-construídas na abside da catedral. O pai, o príncipe herdeiro, mantivera-se também frio e impassível; apenas leve palor tintava-lhe de branco a face. Às vezes, percebiam-se-lhe ligeiros tremores aos lábios; entretanto, no mais, postara-se firme, com as feições rígidas, sem esboçar qualquer reação em maior intensidade. Ao lado do principal herdeiro de Jaime de Aragão, ajoelhava-se o seu outro filho5 mais novo, também chamado Jaime, com quem Pedro dividiria a herança, segundo as derradeiras vontades do defunto rei.


5. Em Fevereiro de 1221 Jaime de Aragão contraiu matrimônio com a infanta Leonor de Castela (1202-1244), filha de Afonso VIII de Castela e Leonor Plantageneta. Desse casamento, anulado pelo papa Gregório IX, em 1235, por consanguinidade, nasceu Afonso, príncipe herdeiro de Aragão (1229-1260), casado com Constança de Moneada. A 8 de Setembro de 1235, o rei casou-se, em segundas núpcias, com Iolanda (1215-1251), filha de André II da Hungria e de Iolanda de Courtenay, princesa de Constantinopla. Antes de enviuvar, em 1251, nasceram: Violante (1236-1301), casada com Afonso X de Leão e Castela; Pedro III de Aragão e Sicília (1239-1285), seu sucessor no trono da Coroa de Aragão; Constança, infanta de Aragão (1238-1269), casada com Manuel, infante de Castela, senhor de Escalona e Penafiel, irmão de Afonso, o Sábio; Jaime II de Maiorca (1243-1311), herdeiro do reino de Maiorca, que compreendia as ilhas Baleares, os condados de Rossilhão e Cerdanha, e parte da Occitânia; Fernando (1245-1250); Isabel, casada com Filipe III de França, filho de São Luís; Maria (1248-1267), religiosa; Sancho (1250-1279), arcediácono em Belchite, abade em Valladolid e arcebispo de Toledo, faleceu prisioneiro dos mouros de Granada e Sancha, monja, que morreu em Jerusalém.


  • Quando partiremos para Tarragona? - pergunta Constança de Hohenstaufen ao marido que se sentava diante dela.

  • Depois da consulta aos notários e ao cerimonial - responde o futuro rei de Aragão, sem perder a frieza e a impassibilidade que vinha demons­trando, desde que haviam chegado a Valência. E, sem tirar, por um só instante, os olhos da janela do coche, por onde viera espiando a cidade, ao longo do trajeto, prossegue: - Sabes muito bem que nos achamos atrelados ao testamento do rei. Tudo depende do que lá contiver... A paz ou a guerra!...

  • E quando abrirão esse maldito testamento? - pergunta a princesa consorte de Aragão, cheia de ironia. E, a acrescentar ainda mais sarcasmo à voz, prossegue: - Por que é que o teu pai tinha de ser diferente dos demais?... Acaso não és o filho mais velho dele?... Por que é que não se segue como faz o resto das casas reais do mundo?... Apenas uma consulta ao papa e nada mais!... Mete-se a coroa à cabeça do mais velho e pronto!

  • Sabes como era o meu pai, Constança! - responde o príncipe de Aragão, quase às raias da rispidez. - Não passava de um velho piegas e dado a sentimentalismos bobos!

  • Entretanto, é bom que te prepares, meu caro!... Metade do teu reino será dado ao teu irmão! - diz a princesa consorte, cheia de sarcasmo.

  • Como podes dizer tal absurdo, Constança! - exclama, ríspido, o infante aragonês. - Acaso não sabes que sou eu o legítimo herdeiro do meu pai?... Sou o mais velho...

  • Entretanto, já posso adivinhar o conteúdo do maldito testamento -prossegue a futura rainha de Aragão. - A ti o teu pai terá destinado apenas as minguadas terras de Aragão; ao teu irmão, certamente, terá regalado a Catalunha inteirinha, juntamente com a cidade que tu amas, mais esta pocilga em que ora nos achamos!... Oh, como detesto Valência e os va­lencianos todos!... E sei que tu também abominas estas terras!... Vês?... Ficarás sem a tua querida Barcelona!... Se quisermos, teremos de arru­mar as nossas trouxas e rumarmos para o Norte, a viver o resto dos nossos dias em Saragoça, a sermos devorados vivos pelos mosquitos que enxa­meiam pelos pântanos do Ebro!... Francamente, não sei como o teu pai podia gostar tanto daquele lugar!...

  • Lá, os mosquitos do Ebro; aqui, os do Túria!...6 - exclama o infante Pedro. E prossegue, altamente irônico: - A Espanha é toda cheia de mosquitos, minha cara!... Ou, na Sicília,7 acaso, não há mosquitos?

Constança de Hohenstaufen limita-se a fulminar Pedro com um olhar carregado de ódio. E, a contragosto e tendo de mastigar e de deglutir as ríspidas palavras do esposo, para vingar-se dele, volta-se para a filha que, calada e recolhida, passeava os olhos da mãe ao pai e vice-versa, enquanto estes falavam. Isabel surpreendia-se com o tom azedo e descortês dos pais, ao se relacionarem entre si, e, ainda, espantava-se, enormemente, com o tom frio e cheio de descaso, quando ambos se referiam ao avô morto.

  • Dize-me, queridinha - diz Constança, a acarinhar o rosto da filha com a ponta dos dedos -, onde é que tu preferirias morar?... Em Saragoça, Valência ou Barcelona?

6. Rio Túria. em cuja margem direita ergue-se a cidade de Valência.



7. Constança de Hohenstaufen (1249 - 1302) foi princesa da Sicília e rainha consorte de Aragão de 1275 até à sua morte.

  • Saragoça... - responde a menina, a olhar firme para os olhos da mãe. - Lá teria as doces lembranças de mio paye... Para mim, ele será insubstituível!... Ninguém me será mais caro ao coração que mio paye... E quem dele se refere, com palavras descorteses, não o conheceu de fato; peca, enormemente, quem dele fala mal!... Dom Jaime de Barcelona foi um grande homem, Sinal... Sem dúvida, até hoje, o maior rei que já teve Aragão!... E, dificilmente, surgirá um outro que lhe suceda à altura!... Pena que tu e papai não tivestes tempo de conhecê-lo, como eu o conheci!...

Constança retira, abruptamente, os olhos dos olhos da filha e os fixa no marido. Pedro de Barcelona também olha para a esposa, altamente estarrecido. Então aquela meninazinha estúpida já dava mostras de ar­rogância, mal saía de sob as asas daquele velho estulto?...

  • Como ousas te referires a nós dessa forma, menina?!... - exclama, altamente ofendido, o futuro rei de Aragão. - Por quem nos tomas?... Não sabemos, efetivamente, o que te ensinou o teu avô, durante esse tempo todo que ao lado dele estiveste!... Pelo visto, boas coisas não foram!... Mas, doravante, deves-nos obediência irrestrita, ouviste bem?...

  • Perdão, senhores, se minhas palavras ofenderam-vos; contudo, não foi essa a minha intenção. Apenas defendia o meu amigo!... Não posso permitir que falem o que pensam de alguém que me foi tão caro!... Dom Jaime de Barcelona foi o guerreiro insuperável que, coroado rei aos ca­torze anos de idade e, ainda menino, comandou, ao lado dos seus valo­rosos generais, os exércitos aragoneses, a nos defenderem daqueles que nos queriam sujeitar a seu jugo inclemente; foi o intrépido rei que ousou, efetivamente, varrer os infiéis do solo espanhol; foi ele que enfrentou o rei da França, a exigir a herança que lhe deixara a sua mãe!... Sim - pros­segue Isabel, agora, com os olhos a inundarem-se de lágrimas -, e, prin­cipalmente, foi ele a ensinar-me que, acima das gloriólas humanas e passageiras, existe o Supremo Criador de todas as coisas e a Quem de­vemos, efetivamente, reverenciar como o nosso verdadeiro Rei... - e, a soluçar, cobre o rosto com ambas as mãos.

Pedro e Constança trocam-se ligeiro e significativo olhar. A dor da filha era real.

  • Bem... - diz Constança, a tomar as mãozinhas da filha entre as suas. - Não há motivo para que te amofines assim, com os teus pais!... Nós também amávamos o rei, entendes?... Apenas que não convivíamos com ele, como tu, desde que nasceste!... Deves entender que a nossa posição é diferente!...

  • Sim - emenda Pedro. - A tua mãe tem toda a razão! Se pensas que não gostávamos do nosso pai, enganas-te profundamente!... Acaso não fomos visitar-vos amiúde?... Só não entendíamos como é que ele podia trocar Barcelona por Saragoça!...

  • Vovô não era benquisto na Catalunha, bem o sabeis!... Os grãos senhores de lá o odiavam de morte!... Acaso desconheceis o quanto a nossa estirpe é odiada em todo o território catalão?... O rei sempre me contava as histórias da conquista da Catalunha!... Jogo de interesses, altas traições!...

  • E por que tu pensas que fixamos nossa residência em Barcelona?... - diz Pedro. - Não foi pura e simplesmente por gostarmos do lugar, não!... Havíamos que firmar as nossas raízes por lá, ou o principado nos escaparia das mãos!... Ou achas que isso não foi, no fundo, ideia do teu avô?

-Assim é, queridinha - observa Constança -, vivemos na Catalunha, para mostrar quem é que lá, de fato, manda!...

- És ainda muito jovem, minha filha, para entenderes as questões do governo - diz Pedro. - Sei que o teu avô ensinou-te muito sobre a arte de governar; mas, infelizmente, és uma mulher!... Serás rainha, com toda a certeza, mas consorte, e nunca deixarás de ser a segunda, na ordem das coisas!... Porém, se bem entenderes sobre as coisas palacianas, menos sofrerás!... Teu avô foi muito importante na tua vida!... Nós abdicamos da tua educação, para que ele se sentisse feliz, tendo-te por perto!... Quando nasceste, o rei tomou-se de inexplicáveis e intensos amores por ti e tanto nos suplicou que lhe déssemos a tua guarda, que não tivemos como negar-lhe!...

-Assim foi!... - atalha Constança. - E tu já deves andar cansada de ouvir essa história!... Agora, entretanto, será preciso que enfrentes a realidade! És uma princesa de Aragão, e teremos de cuidar do teu futuro!

A noite, em sua câmara, Isabel preparava-se para dormir.



  • Sabes, Ximena - diz ela à sua fiel aia -, mamãe e papai levar-nos-ão para Barcelona. Não mais retornaremos para Saragoça. Primeiro, viaja­remos para Tarragona, para a coroação, e, depois, moraremos todos em Barcelona.

  • Que dizeis, Alteza?! - espanta-se a jovem aia. - Mas somos arago­nesas!... Como poderemos deixar, assim, a nossa terra, sem mais nem menos?

  • Oh, Ximena, bem o sabemos que não desejas deixar Saragoça, simplesmente, por seres aragonesa!... - diz Isabel, a olhar nos olhos da aia, com ligeiro ar de maroteira. - O motivo deverá ser bem outro: Juanita Yañes!... Acertamos?...

- ¡Asinas ye!...8 - responde a outra, sem pensar. E, a perceber que se traíra, ao responder de pronto, retifica: - ¡No!...

-Ha!... Ha!... Ha!... Ha!...-ri-se a princesinha de Aragão. - Para nós não precisas fazer segredo da tua paixão, não, Ximena!... Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... Viste como te traiu o teu coração?... Dizia-nos, sempre, vovô que o coração se ressente daquilo que mais lhe falta!... - e, a aproximar-se mais do rosto da aia, diz-lhe, quase a sussurrar: - Se quiseres, direi ao meu pai que tome Juanito Yañes também por escudeiro...



  • Si yo estase bos, no dizirba cosa!...9 - exclama Maria Ximenes Cronel, altamente assustada. - Melhor deixar as coisas como estão!

8. "-Assim é!... (...) Não!.... ", em aragonês. "- Se fosse vós, nada diria!... ", em aragonês.

9. “ – Se fosse vós, nada diria!...”, em aragonês.


  • Bem, se assim o desejas... - diz Isabel, a dar de ombros. - Mas te advirto que o séquito de vovô deverá retornar para Saragoça, em breve, e terás de fazer uma escolha.

Três dias depois da inumação do corpo do velho rei, o grande salão de audiências do palácio real de Valência achava-se cheio de grãos se­nhores e de gentis damas, ricamente engalanados. Presentes à sessão de abertura do testamento de Jaime I, seus principais herdeiros: os infantes Pedro e Jaime, além dos demais membros da família real aragonesa.

- Altezas - clama o principal notário do reino -, apresentamos-vos o documento, cujo conteúdo reproduz as derradeiras vontades do finado real senhor, Dom Jaime I, Rei de Aragão, Conde de Barcelona, Conde de Girona, Conde de Osona, Conde de Besalú, Conde do Rossilhão, Conde da Cerdanha, Príncipe da Catalunha, Senhor de Montpellier, Rei de Maiorca e Rei de Valêncial... - e, a dirigir-se para Pedro, o herdeiro mais velho: - Real Senhor, é preciso que observeis a integridade do lacre, conforme as normas!

-Apresentai-mo, senhor Dom Sancho! - exclama o infante Pedro.

E, apanhando o rolo de pergaminho, examina-o atentamente. Em se­guida, passa-o ao irmão que se lhe sentava ao lado; este, após a meticu­losa inspeção, entrega-o a digníssimo prelado, que repete os mesmos gestos. Depois de examinada a lisura do lacre, o documento é devolvido ao notário que, após romper o selo e desenrolar o pergaminho, limpa a garganta e, a altear a voz, principia a leitura:

- "Pelo ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1262, nós, Jaime I de Barcelona, damos por fé e vontade que se disponham de nossos bens à nossa descendência legítima, como: a nosso mui amado e benquisto filho Pedro, legamos a coroa de Aragão, o Principado da Catalunha e de Valência, devendo a esse infante caberem essas terras e tudo que nelas houver, e se tornando ele senhor absoluto e rei destas terras, conforme as vontades de nosso Pai e Criador; a nosso também mui amado e estimado filho Jaime, legamos: todo o Senhorio de Montpellier, o Condado de Rossilhão, o Condado de Cerdanha até as terras de Vallespir e de Conflent, mais as Ilhas Baleares..."

O notário suspende, por instantes, a leitura, a ganhar fôlego. Neste comenos, após tomarem conhecimento das derradeiras vontades do pai, os irmãos herdeiros que até então vinham trocando-se olhares hostis e pejados de ódio, sentem-se fremir de raiva intensa.



  • Terminastes a leitura, senhor Dom Sancho? - brada Pedro, cheio de impaciência.

  • Não, Alteza... - retruca o notário. - Há ainda o legado aos demais herdeiros e as considerações finais...

-Pois achamos que já se encerrou!... -e, levantando-se, volta-se para o irmão e lhe diz com a voz pejada de ódio: - Melhor que ignorasses e declinasses, já, do que aquele velho tonto pensa que te legou!...

- Só morto, imbecil!... - retruca o outro, também se levantando e, a pôr a mão sobre o punho da adaga que trazia à cintura, arrosta, ostensi­vamente, o irmão e, a fixar-lhe um par de olhos horríveis, prossegue, a espumar ódio extremo: - Só se me assassinares!

-Assim pediste, idiota!... Aguarda-me e verás que destino darei aos usurpadores da coroa de Aragão!... - retruca Pedro que, a aplicar fortís­simo golpe ao peito do irmão, com a mão espalmada, empurra-o, bru­talmente, e deixa a sala de audiências, seguido pelo seu numeroso séquito.

Isabel, que se sentava ao lado da mãe, durante a leitura do testamento, sentiu-se estupefazer, diante daquela situação. Não conseguia entender por que o pai agia daquela forma!... E o tio?... Não eram, acaso, irmãos?...

Não eram aquelas as vontades do rei?... Que prova maior que essa haveria de que Jaime de Barcelona amava, igualmente, a ambos os filhos?... Contemplava os seus herdeiros com equidade!... Dividia o grandioso reino, que fora conquistado e até ali mantido unificado, a duras penas, simplesmente, para não deixar nenhum dos dois desamparados!... No entanto, pensavam em matar-se, para não dividirem o que o pai a eles legara num ato de amor!... Por que não se juntarem e, irmanados, continuarem a tarefa que o pai de ambos conquistara?... Mas, ai, a cobiça humana para a qual não cabem limites!... Um irmão levantava-se contra o outro e, certamente, derramariam rios de sangue, por conta da desme­dida cupidez!...

Em pouco, Constança e o marido confabulavam, a portas trancadas, no aposento a eles reservado.


  • Que pretendes, agora, que o teu pai, decididamente, selou a loucura que temíamos houvesse feito? - pergunta a futura rainha de Aragão, a extravasar ironia até pelas orelhas.

  • A guerra, minha cara! - retruca Pedro de Barcelona, às raias da fúria. - Apenas aguardo a coroação!... Não me precipitarei por ora!... Seria loucura!...

  • E se desses um jeito no teu irmão, enquanto ele se acha sob o mesmo teto que tu e, antes que o arcebispo de Tarragona meta-lhe, também, uma coroa à cabeça?... - sugere Constança. - Não te será difícil eliminá-lo, agora; mais tarde, terás de enfrentá-lo nos campos de batalha!

  • Oh, pensas que seria fácil matá-lo, exatamente agora, minha cara?... - responde o infante de Aragão, pejado de cinismo à voz. - Esqueces-te de que ora ele também acaba de herdar uma coroa?... E os seus súditos?... Metade do Reino de Aragão não gosta de mim e nem de ti!... E, para onde achas que esses execráveis grãos senhores de Aragão e da Catalunha, que simplesmente nos odeiam, penderão, numa guerra civil?... Nem ca­rece que me respondas...

  • Oh, mas os venenos costumam fazer maravilhas!... - diz a mulher, a aproximar-se do esposo e a abraçá-lo, cheia de agrados. Também a ela convinha ser a rainha de muitas terras... - Não queres uma aliada, para mandar o teu abominável irmão às profundas do inferno?...

  • Constança, Constança!... - exclama o futuro rei de Aragão, a menear a cabeça. - Às vezes tu me metes medo, sabias?... - e, a acarinhar a branquíssima cútis da esposa, com a ponta dos dedos, prossegue: - Para vós, mulheres, as coisas resumem-se a uma praticidade incrível!... - e abre ligeiro sorriso, entre debochado e condolente. - Que bom se fosse assim fácil!...

  • Nós, mulheres, sempre fomos mais práticas que vós, os homens, meu caro! - diz Constança, a abrir largo sorriso. - Pena que não nos leveis a sério!... Se tivéssemos participação mais ativa nas coisas, o mundo, certamente, seria outro!

  • Oh, viste muito bem o que sucedeu a Adão, ao seguir os conselhos de Eva!... - brinca ele. - E, como poderíeis resolver questões tão com­plexas como essas que nos competem, se sequer tendes alma?...10

A vós reserva-se apenas a procriação e os cuidados com o lar!... E já é muito!

- Oh, como subestimais a nossa condição!... - geme ela, contrariada.

-Ah, não é tanto assim, não!... - diz ele. - Tendes-nos por vassalos e não é isso algo importante?... Sois, na realidade, as nossas donas... 11

- Ah, se assim fosse!... - exclama Constança de Hohenstaufen. -Mas, divergências à parte, se me quiseres como tua aliada, podes contar comigo, incondicionalmente!...



Pedro de Barcelona limita-se a olhar para a mulher. Um pensamento voltava a martelar-lhe à cabeça: como se sair daquela situação?... Não lhe seria difícil, numa escaramuça adrede planejada, atacar o irmão de surpresa e assassiná-lo. Tinha os seus valentes archeiros e bastaria or­denar isso. Poderia, ainda, enviar-lhe valioso presente, juntamente com pretensas escusas pelo que lhe dissera,

10. Por essa época, final do século Xlll, ainda se discutia se as mulheres teriam ou não uma alma semelhante à dos homens.

11.0 relacionamento homem-mulher, no decorrer da História da Humanidade, tomou características bem diversas. Na baixa Idade Média, época em que se passam os presentes fatos, vigia o amor cortês - situação em que o relacionamento dos casais tinha como referência a relação de vassalagem, existente entre os senhores e os seus servos, além do Código de Honra da Cavalaria Medieval. Diferentemente do que aqui afirma o personagem, na realidade, a mulher não passava de uma serva do homem.

quando da leitura do testamento, e o convidar para uma caçada, situação em que um virotão12 perdido po­deria, facilmente, dar cabo do desgraçado!... Mas, e a repercussão do ato?...

Havia a Igreja, o papa, que deveria dar a anuência e ordenar ao bispo de Tarragona que lhe metesse a coroa à cabeça, conforme a tradição.13


  • Em que pensas? - pergunta Constança, ao perceber que, pela si­tuação dos olhos do marido, parados, e a fixarem o nada, deveria ele andar em altas e profundas cogitações.

  • Desculpa-me... Que disseste? - responde o futuro rei de Aragão, a estremecer-se ligeiramente.

- Queria saber em que pensavas, assim tão absorto...

  • Num plano que começa a delinear-se em minha cabeça - diz ele, a olhá-la sério.

  • Não desejas compartilhá-lo? - diz ela, a abrir ligeiro sorriso. - Olha que costumo ter ideias fantásticas!

  • Principalmente quando a questão é despachar alguém aos infernos, não é? - responde ele, brincalhão.

  • Oh, precisavas ser assim tão direto?... - resmunga ela, a fingir-se ofendida.

  • Sabes que sou franco, minha cara! - diz o infante de Aragão. - Mas não quis ofender-te. Andava a pensar...

E, em minúcias, Pedro expõe à esposa o plano que engendrava para assassinar o irmão...

  • Extraordinário!... - brada Constança, efusivamente, a bater palmas de satisfação, depois que o marido, minudentemente, expusera-lhe o que tinha à cabeça. - És um gênio, Pedro!... Destarte, tudo parecerá um aci­dente, e não recairá qualquer suspeita sobre ti!...

12. Pequeno dardo disparado pela balestra ou besta, arma inventada pelos romanos e largamente empregada na Idade Média.

13. A partir do reinado de Pedro II, avô de Pedro III, e por bula papal de 6 de Junho de 1205, os monarcas aragoneses passaram a ser coroados pela Santa Sé, devendo fazê-lo na Sé de Saragoça Pelo arcebispo de Tarragona.


  • Além do mais, desejo retratar-me com o meu irmão, em público, para que todos testemunhem que dele me reaproximo!

  • Oh, pensaste em tudo, querido!... - observa a mulher, altamente feliz. - E por que não envenenas o dardo?... Mesmo que o tiro não lhe atinja o peito, um simples risco à pele ser-lhe-á fatal!

  • Esplêndido!... - brada o príncipe, com intenso brilho aos olhos. - És espertíssima, minha cara!... Não poderemos errar!... Uma vez disparado o tiro, ele terá de acertar o seu alvo, de qualquer modo!... Tua ideia é brilhante!...

  • Temos de nos precaver - prossegue ela -, pois sabes que a cota e o peitoral poderão barrar a entrada do dardo!...

  • Sim, e como não no poderemos disparar de muito próximo, cor­reremos o risco de, mesmo acertando o alvo, nada suceder a ele!... Entretanto, se se encontrar envenenada a seta, bastará singelo risco à pele!...

  • Contudo, nada poderemos fazer a sós!... - acrescenta a princesa siciliana. - Teremos de achar cúmplices!... E pessoas de nossa inteira confiança!

  • Tens razão, minha cara - responde Pedro. E prossegue, a puxar pela memória: -Aquém, efetivamente, poderemos entregar tal empreitada?... Faz-se sumamente importante que sejam pessoas altamente confiáveis!

  • Tu estás rodeado de súditos leais!... - diz ela, enfática. - Não te será difícil tomares o apoio de alguns deles!... - E precisarás, ainda, de exímio atirador!... Não poderá errar!... Terá tempo de disparar um só tiro, antes que o façam em pedacinhos!... - e se ri debochada.

  • Tens toda a razão!... - Teremos de escolher gente capaz e leal!... Nada poderá dar errado!...

- E deixa que os virotões prepararei eu! - emenda Constança, deci­dida. - Não confiarei tal mister a ninguém, e penso que tal detalhe deverá permanecer apenas entre nós dois. Além do mais, tenho em meu poder pequeno frasco de potentíssimo veneno que adquiri, certa feita, de velho herbanário cipriota, ainda quando eu vivia em Palermo. Garantiu-me o bruxo que seu efeito far-se-ia fulminante, em pouquíssimos segundos!... Testei-o, certa feita, num daqueles colossais mastins, empregados na guarda do palácio, e o bicho expirou em segundos!... - e explode em mefistofélica gargalhada: - Ha!... Ha!... Ha!... Ha!...

- Oh, mais um motivo para eu me encher de medos de ti, minha cara! exclama Pedro de Barcelona, a simular altíssimo apavoramento. Depois,

a rir-se, emenda: - Não é que me casei com legítima Messalina?14


  • Oh, a quem me comparas!... - retruca ela, fingindo amofinar-se.

  • Apenas brinco contigo, minha cara!... - diz ele, a atraí-la para si e a estreitá-la, apaixonadamente, aos braços fortes.

  • Oh, Pedro!... - murmura ela, com a voz rouca, e a tomar-se de in-contido arroubo, olha-o, fundo, nos olhos e continua: - Tudo dará certo, tu verás!...

Através da alta janela do aposento real, a tarde insinuava-se radiosa e banhada pelo esplêndido sol valenciano, enquanto longo e voluptuoso beijo silenciava a boca carnuda e aflante da futura rainha de Aragão...
14. Valéria Messalina Augusta, (17 - 48 d.C.) foi a terceira mulher do imperador Cláudio. Filha de Marco Valério Messala Barbato Suetônio, membro de uma família tradicional da aristocracia da República Romana, e de Domícia Lépida, casou-se com Cláudio em 38 d.C. Messalina é descrita como uma mulher cruel e ambiciosa, com enorme influência sobre o marido, incentivando-o a mandar executar todos aqueles que a ela desagradavam.


Capítulo TV

Tramas e traições
Jaime de Barcelona olha, contra a luz da janela, o esplêndido anel de ouro maciço que houvera recebido, um pouco antes, das mãos de um emissário do irmão. Depois, relê, com o cenho carregado, as palavras rabiscadas, a próprio punho, num pergaminho que acompanhava aquele mimo, inusitadamente recebido àquela hora da manhã:

"Receba, amado irmão, esta preciosa jóia, digna de ser ostentada à mão do futuro rei de Maiorca. E que ela seja o lastro a contrapesar o meu pedido de desculpas pelo infausto acontecido de ontem. Queira Deus que a tua bondade seja do tamanho da capacidade que tem o teu coração de remir o nosso ultraje a ti endereçado. Perdoa-me, irmão, por Deus e pela memória do nosso amado pai.

Beijo-te, Pedro "

  • De quem recebeste tal preciosidade?... - aproxima-se, altamente interessada, a esposa de Jaime 1

  • Do meu irmão - responde o infante de Aragão, com fundo suspiro de agastamento, enquanto depositava o anel à palma da mão da mulher.

  • Oh, põe-no ao indicador!... - exclama Escalamonde, devolvendo a finíssima joia ao marido, após detalhado e meticuloso exame. E, a abrir largo sorriso de satisfação, insiste: - Vamos!... Põe-no ao dedo!... Quero ver como te fica ele!

-Não!... - responde Jaime, cheio de rancor. - Nada quero que venha daquele ordinário!... Vou devolver-lhe o anel!...

  • Oh, por que ages assim? - exclama Escalamonde de Foix, olhando em derredor.




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