IntroduçÃO: israel como laboratório social



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O segundo conceito, no par centro e periferia, também demanda um esclarecimento. A periferia é constituída por aqueles grupos na sociedade que obedecem à autoridade do centro, submetidos voluntária ou involuntariamente à sua influência, mas que não são associados ativos na moldagem da imagem da sociedade do ponto de vista cultural e político. A concepção de centro e periferia em sua forma bruta não é adequada para tratar dos fenômenos sociais e políticos complexos. Esta concepção não é real em nenhuma sociedade e certamente não é real em uma sociedade de múltiplas rupturas ou em uma sociedade que passa por processos de modificação social intensiva. O desvio nela é inerente à hipótese que a autoridade e a iniciativa são privilégio de uma elite reduzida apenas, enquanto o resto da sociedade tende à passividade. A rejeição desta hipótese elitista obriga a um abandono do modelo simplório de centro e periferia e a sua substituição por um modelo mais elaborado. O primeiro aprimoramento tem a ver com a existência de sub-centros e centros secundários que mantêm uma conexão com o centro social, mas preservam uma dimensão ou outra de autonomia com relação a ele. Estes centros secundários podem ser associados ao centro nacional em forma de coalizão ou servir de focos de autoridade parcial para grupos sociais que se formam na periferia. É possível também uma situação em que em torno do centro secundário se forme uma elite substituta (contra-elite) que se empenhará em dominar o centro nacional ou até desligar-se dele no caso de uma comunidade de minoria nacional-étnica ou lingüística que almeja atingir uma posição soberana. Além disto, setores, grupos e indivíduos podem ser encontrados no âmbito de inspiração de alguns centros secundários que, por vezes, concordam entre si e por vezes competem entre si. Grupos sociais até podem manter uma conexão com grupos externos além das fronteiras da própria sociedade como exemplo de inspiração do país-mãe em relação às diásporas ou a influência de centros internacionais como igrejas ou movimentos com orientação internacional como o comunista.

O segundo aprimoramento do modelo de centro e periferia refere-se à conexão diferencial de setores, grupos e indivíduos ao centro. Estes não se assemelham obrigatoriamente um ao outro na medida da participação política e cultural ou na medida da aceitação da autoridade do centro. Deste ponto de vista, serão possíveis também definições diversas de pertinência ao sistema. Por exemplo, certos grupos marginais serão entendidos em certos contextos como parte do sistema e em outros contextos como grupos externos ao sistema. A fronteira entre o próprio centro e a periferia também é obscura. Instituições e funções diversas representarão uma parte do centro para certas necessidades e se encontrarão fora do mesmo para outros fins. Por exemplo, as elites guarnecem os meios de comunicação de massa que em certos contextos estão vinculados ao centro e por outro lado tratam da articulação das demandas da periferia em relação ao centro como representantes dos centros secundários. Um terceiro aprimoramento no modelo de centro e periferia toca ao discernimento entre dois aspectos diferentes de relações mútuas entre o centro e setores e grupos da periferia. O primeiro aspecto refere-se à função de mobilização do centro, ou seja, como organizador da “destinação da autoridade” de valores sociais. O outro aspecto relaciona-se ao centro como mobilizador de compromisso social para fins de concretização dos objetivos coletivos da sociedade. Em outras palavras, o primeiro aspecto está ligado à regulamentação diferencial da satisfação das necessidades de grupos e de indivíduos na sociedade, enquanto o segundo aspecto refere-se ao que é denominado pelos cientistas sociais de participação social e política.



De tudo o que foi dito acima, fica claro que a diferença entre o modelo original de centro e periferia e o modelo aperfeiçoado consiste em que o segundo modelo trata de centros e periferias mais como uma seqüência do que como entidades com traços limitadores unívocos. O modelo retificado, que acentua a obscuridade de fronteiras do centro e o diferencial de situações periféricas, pode ser formulado também em termos de “campo de autoridade”. Este conceito refere-se ao âmbito de inspiração de centro de cujos serviços grupos diversos necessitam ou em relação ao qual sentem responsabilidade de um modo ou de outro. Nos casos em que existem conexões de grupos diversos em relação a mais do que um centro de autoridade, por exemplo, em que parte da população mantém uma relação também com um centro de autoridade externa que representa a sua diáspora, pode-se falar de uma sobreposição parcial de campos de autoridade de dois centros. Uma superposição de campos de autoridade é em geral uma conseqüência de uma abertura em relação ao sistema político e social externo. Porém em sistemas políticos não soberanos em que existe uma distinção entre autoridade comunitária e autoridade soberana, como o governo colonial, o sistema todo encontra-se no âmbito de sobreposição de diversos campos de autoridade. Existem também situações em que um centro de autoridade nacional inspira a sua autoridade a campos secundários ou ao menos aceita em grande escala a sua autonomia. Nesta situação existirão junto ao campo de autoridade central também campos secundários de autoridade que representam uma espécie de bolsões que recebem inspiração de centros secundários. Fenômenos deste tipo ocorrem em sociedades multicomunitárias profundamente divididas, em que a fidelidade básica dos membros da comunidade é para com o centro comunitário secundário e não para com o centro soberano comum. Em contraste, em sociedades denominadas “consociocianalistas”*** existe uma autonomia específica apenas de culturas secundárias com o reconhecimento da superioridade do centro comum que em geral é de coalizão. Nestas circunstancias os bolsões ou os campos de autoridade das culturas secundárias serão limitados do ponto de vista da sua abrangência e do caráter de autoridade.

A conceituação que discerne setores e grupos do ponto de vista da medida da sua centralidade e do caráter de periferia é conveniente não somente para o exame de problemas de fronteiras do coletivo e dispersão da autoridade no seu interior, mas também para fins de exame de processos integrativos e desintegrativos na sociedade. Uma análise deste tipo refere-se não ao mapeamento da autoridade em um certo momento, mas aos processos dinâmicos de alteração nas relações dos centros secundários de setores e grupos em relação ao centro comum. Em outras palavras, os centros secundários devem modificar a sua localização na seqüência centro e periferia em comparação com outros centros secundários. Neste contexto pode-se discernir entre movimentos centrífugos cujo significado é o enfraquecimento da conexão instrumental ou válida com o centro e movimentos centrípetos cujo significado é o fortalecimento da conexão de grupos e indivíduos ao centro. Como existem duas dimensões da medida de centralidade ou de periferia dos centros secundários – a dimensão da necessidade de um centro que trate de destinação com autoridade de valores e uma dimensão de mobilização do compromisso em relação ao centro – poderão existir alguns tipos de deslocamento na posição do centro secundário em relação ao centro. Poderá ocorrer uma aproximação ou um afastamento do centro nas duas dimensões paralelamente. Neste caso, por um lado, crescerão ou diminuirão as demandas dos centros secundários com relação ao centro, de acordo com a direção da mudança e, por outro, a prontidão para atender as demandas do centro de identificação e participação no esforço coletivo. Porém poderão ocorrer também modificações somente em uma das duas dimensões. Se uma mudança destas ocorrer na dimensão da necessidade de recursos do centro apenas, aumentará ou diminuirá, de acordo com a direção da mudança, a carga de exigências voltadas ao centro. Por sua vez, se a mudança na dimensão de compromisso ocorrer em relação ao coletivo e a prontidão de mobilização, então se deduzirá dela um fortalecimento da autoridade do centro e a sua medida de capacidade de mobilizar recursos dos centros secundários e da periferia e com isto aproximar-se ao esgotamento do potencial inerente à sociedade como coletivo. Em casos extremos serão prováveis também tendências contrárias nas duas dimensões que agravarão o efeito de fortalecimento ou enfraquecimento do centro. Mudanças na orientação dos centros secundários que representam setores e grupos em relação ao centro social e político, influenciam, portanto, o índice de carga depositado sobre o centro. O fortalecimento da função de dotação e o enfraquecimento da função mobilizadora são capazes de causar uma situação de sobrecarga; e uma tendência inversa criará uma situação de bem estar que aumenta a capacidade de manobra do centro e abre ante ele opções adicionais sem necessitar de meios políticos de coação. Uma situação destas é em geral um fator que auxilia a coesão social enquanto a sobrecarga a ameaça. A sobrecarga tende a levar a dificuldades de funcionamento do sistema. Dificuldades deste tipo expressam-se em que o centro tem dificuldade de tratar dos resultados de fenômenos sociais ou contradições entre as necessidades do sistema inteiro e interesses de diversos sub-sistemas. A falta de equilíbrio entre a dimensão da destinação e a dimensão de mobilização afetará, portanto, o funcionamento do sistema político. Em sociedades extremamente instáveis ela é capaz até de levar ao esfacelamento do centro de autoridade e à formação de uma situação revolucionária ou uma situação anômica.

COESÃO SOCIAL E RUPTURAS SOCIAIS


O âmbito conceitual, que se concentra em conceitos de centro, centros secundários e periferia e que trata da dispersão da autoridade e do carisma de setores e grupos na sociedade, não é suficiente para fins de mapeamento dos parâmetros pelos quais a sociedade se divide em tais setores e grupos. Estes parâmetros podem referir-se ao distanciamento ou à proximidade do centro, mas eles também podem tratar da estrutura em camadas da sociedade, tanto se se trata de classes ou de grupos de status que não se sobrepõem obrigatoriamente ao eixo de centro e periferia. A hierarquia de camadas e a seqüência centro periferia representam dois pontos de partida diferentes para a análise da influência das rupturas sociais no funcionamento da sociedade como um sistema. O mapeamento dos grupos sociais de acordo com o seu status de camada refere-se à divisão diferencial de compensações sociais, compensações econômicas (de classe), compensações de prestígio (grupo de status) e compensações de força (que têm ligação também com a localização na seqüência centro e periferia.) O eixo centro e periferia tem dois aspectos, de um lado ele representa a medida de autoridade e a influência na sociedade e do outro lado a medida de participação e ingerência social. Existe uma ligação apenas parcial entre estas duas dimensões de desigualdade na sociedade, de modo que não há um modo de promover uma redução de uma dimensão por conta da outra. Em sociedades pré-modernas em que não houve diferenciação perceptível entre propriedade de um bem, classe social e poder político, a ligação entre as duas dimensões também foi mais corajosa do que em sociedades modernas. Em sociedades modernas, por exemplo, é provável que grupos que se encontram na base da escala de camadas do ponto de vista da propriedade, da renda e do prestigio, se transformarão em fatores que darão o tom na vida publica. Portanto, o conceito de “populismo” se refere a um fenômeno desta categoria. Outro ponto de partida da divisão da sociedade em grupos, que também não se sobrepõe obrigatoriamente ao eixo centro e periferia, é a divisão de acordo com crenças e ideologias. Todavia, poderão existir situações, por exemplo, em regimes consociacionais em que a pertinência a uma classe, a um grupo de status, a uma comunidade religiosa, étnica ou lingüística ou a um movimento ideológico se expressará como uma conexão com um centro secundário instituído como uma associação profissional ou partido.

As duas séries de conceitos que se referem à divisão da sociedade em grupos estão ligadas respectivamente ao conceito “rupturas sociais” e “pluralismo social”. Os dois conceitos podem em certa medida ser intercambiados. Todavia, pode-se apontar que aspectos diferentes de divisão da sociedade em grupos foram destacados no passado por cientistas sociais que utilizaram um dos conceitos ou o outro. Estes acentos diferentes se originam do fato que o uso do termo pluralismo no contexto de divisão da sociedade em grupos tem origem no relacionamento com grupos étnicos, religiosos ou lingüísticos e não com grupos de posições ou ideológicos. Em contraste, o uso do conceito “rupturas sociais” se refere tanto a linhas de corte primordiais à semelhança do conceito “pluralismo social”, como às linhas de corte de classes ou ideológicas. Classes sociais são realmente grupos mais amorfos do que grupos de origem ou de cultura na sociedade moderna. São também mais abertos do ponto de vista das possibilidades de deslocamento social, mas não se deve omiti-los no âmbito do relacionamento com a divisão da sociedade em grupos. Esta é a regra também em grupos de escolha “abertos” como partidos e movimentos políticos que representam a ruptura ideológica que é a origem nítida da tensão e conflitos. O mapeamento das rupturas sociais refere-se portanto ao conjunto de linhas de corte de acordo com as quais a sociedade se divide em setores e grupos.

O conceito “rupturas sociais” representa parâmetros de divisão social e não somente as linhas de corte entre certos grupos. Esta distinção é importante quando a sociedade se divide em um certo número de grupos em uma seqüência. Por exemplo, o numero de partidos políticos na seqüência direita-esquerda ou o numero de classes na seqüência de classes. Também neste caso falaremos de “ruptura de classes” ou “ruptura ideológica”, apesar de as palavras não se referirem na prática a uma ruptura, mas a um certo número de rupturas que se referem ao mesmo âmbito. As duas distinções que se referem a um mapeamento das rupturas sociais são a distinção entre rupturas que se sobrepõem e rupturas que se cruzam e discernimento entre rupturas dicotômicas e rupturas que não são dicotômicas. A distinção entre rupturas que se sobrepõem e as que se cruzam refere-se à ligação entre os diversos parâmetros de rompimento da sociedade em grupos. A sociedade moderna é caracterizada pelo fato de que a sobreposição entre rupturas que a dividem é de modo geral parcial e se expressa em simetrias estatísticas mais ou menos elevadas entre sociedades em grupos que apresentam rupturas diversas. Em contraste, a distinção entre rupturas dicotômicas e rupturas que não o são se refere à divisão da sociedade em grupo no âmbito daquele mesmo parâmetro. Em outras palavras, a questão é se a divisão é em dois grupos ou em um número maior naquela mesma seqüência. O uso da série de conceitos ligada a rupturas sociais possibilita um mapeamento da estrutura social do ponto de vista das relações entre rupturas diversas e o caráter das divisões no âmbito de qualquer ruptura.

Para fins de caracterização do tipo da influência da divisão da sociedade em grupos na dimensão do isolamento e do fechamento de grupos ou, em outras palavras, no escopo das relações mútuas entre elas, pode-se fazer uso de uma serie de denominações que pesquisadores utilizaram para o exame do pluralismo social. Estes pesquisadores distinguiram pluralismo institucional de pluralismo cultural e de pluralismo social. É conveniente frisar que estes termos referem-se às relações mútuas entre grupos diversos no âmbito da ruptura nas diversas classes, membros de religiões diversas, grupos étnicos e etc.. Dos três grupos de pluralismo o mais importante é a distinção entre pluralismo institucional, de um lado, e os outros dois grupos de pluralismo, do outro. Esta distinção também é menos obscura do que a distinção entre pluralismo cultural e social. O pluralismo institucional é caracterizado pela co-existência de sistemas grupais afastados um ao outro. Além disto, em situações de pluralismo institucional, em geral a linha divisória é acentuado por meio de sanções normativas com validade jurídica formal. Naqueles casos em que existe uma separação divisora entre os grupos que se baseiam em sanções normativas que não são formais do ponto de vista jurídico, é possível utilizar o conceito de pluralismo como que institucional.

O pluralismo cultural, em contraste, reflete-se nas diferenças de modos de vida e estilo de vida, inclusive diferenças de língua ou sotaque. Ele pode refletir diferenças entre grupos diversos de procedência étnica ou expressar diferenças de padrões de socialização diversos, como socialização religiosa em oposição a socialização laica. O pluralismo social refere-se a distinções mais delicadas entre grupos diferentes de status. A distinção entre o pluralismo social e o pluralismo cultural é difícil, pois também o pluralismo social expressa-se em estilos de vida e códigos de comportamento sociais. O pluralismo social é caracterizado em geral pelo fato de que relações mútuas entre os grupos tendem a se resumir a contatos secundários instrumentais, em oposição a contatos pessoais íntimos. Ao mesmo tempo, fenômenos como estes existem também no âmbito do pluralismo cultural. Verifica-se, portanto, que a diferença entre pluralismo cultural e social é conseqüência de uma diferenciação que ocorreu na sociedade moderna entre a divisão em camadas e a divisão de acordo com culturas secundárias. Nas sociedades pré-modernas e em sociedades não-móveis do ponto de vista de classes existe uma grande medida de sobreposição entre os dois tipos de pluralismo.

O caráter do pluralismo e a medida em que as rupturas nela representam um ponto de partida para mobilização política são estabelecidos pela dose de articulação ideológica das conexões grupais. O conceito ideologia neste contexto é amplo e refere-se a um sistema de crenças ligadas à atividade social organizada e que abrange três componentes: um componente cognitivo, um componente valorativo e um componente prescritivo. Em outras palavras, a ideologia abrange uma concepção da ordem natural e da ordem social, tomada de posições em relação a fenômenos sociais e proposição de modos de ação para fins de sua preservação e/ou alterações da ordem social. Uma definição tão ampla de ideologia abrange não somente o nível fundamental da ideologia que estabelece posições básicas na questão da ordem social e política, mas também o nível operativo que se refere a linhas de política em um certo tempo ou lugar. Pode-se também discernir entre a dimensão de conteúdo da ideologia, que se refere a questões ideológicas que surgem em contextos históricos específicos ou também amplos, e a dimensão de orientações básicas com caráter mais universal. A primeira dimensão destaca-se em posições referentes à distribuição de recursos sociais, formas de governo, direitos do cidadão, religião do estado, fronteiras do coletivo nacional e caráter de seu relacionamento com outros coletivos nacionais. A segunda dimensão abrange orientações básicas em relação ao tempo, relações humanas e ambientais e relações do indivíduo e a sociedade. As orientais básicas com relação ao tempo, relações de ambiente e sociedade e relações indivíduo e sociedade brotam de modo geral do nível fundamental da ideologia, mas o nível fundamental estabelece também as hipóteses normativas que estabelecem os conteúdos da ideologia. Todavia, os conteúdos abrangem também avaliações e receitas com caráter operativo.


A REGULAÇÃO POLÍTICA DE TENSÕES SOCIAIS

A influência das tensões originárias das rupturas sociais e ideológicas sobre a coesão social é estabelecida em grande escala pela capacidade de regulação do sistema político. O sistema político mobiliza e atribui compromissos e recursos e regula conflitos sociais. Os âmbitos políticos regulados são partidos, grupos de pressão e movimentos ideológicos que não são partidos institucionalizados. Uma política conduzida por partidos institucionalizados no regime democrático é definida como política partidária ou parlamentar. Uma política conduzida por organismos que representam grupos de interesses que não são partidos, principalmente no âmbito econômico, é definida como uma política corporativa. Uma política conduzida por movimentos ideológicos que não são partidos é definida como uma política de movimento, que em geral é uma política extra-parlamentar no sentido neutro deste conceito, sem a conotação de transgressão das legitimas regras do jogo, acompanhada por vezes pelo termo extra-parlamentar.


Uma série adicional de conceitos refere-se aos modos de regulação política no governo democrático. Neste contexto pode-se frisar o método que funciona com base em decisões de maioria e em que existe uma distinção nítida entre governo que tende à homogeneidade e oposição que representa uma alternativa a ela, e em contraste um método de negociação e acordo no âmbito de arranjos de coalizão. Um dos tipos mais destacados de regime de coalizão que se baseia em negociação e acordo é o modelo consociacional em cujo âmbito existe uma grande dose de autonomia de culturas secundárias. Assim cria-se uma espécie de bolsões que se concentram em torno de centros secundários de movimentos que se ocupam de mobilização de compromissos e destinação de recursos, em socialização e doutrinação cultural ou ideológica. A medida de eficácia de mecanismos de regulação dos conflitos e destinação de recursos é influenciada decisivamente pela dimensão da carga imposta ao sistema político. A medida da carga é estabelecida pela relação entre alvos coletivos e exigências grupais de um lado, e entre ambos e os meios de sua concretização, por outro. Uma sobrecarga de tarefas e exigências causará fenômenos de falta de controle enquanto um nível elevado de controle será possibilitado pela capacidade de mobilização de recursos e compromissos que contêm uma espécie de resposta às necessidades cujo escopo foi estabelecida pelas tarefas coletivas e pelas exigências grupais. Demandas grupais podem ser instrumentais e de acordo com isto podem ser satisfeitas pela destinação de recursos materiais e podem ser uma normatividade que obriga a decisões fundamentais em relação à imagem da sociedade e seus símbolos centrais. Demandas contraditórias do segundo tipo podem afetar a base de legitimação política.

Um dos fatores possíveis para a criação de uma sobrecarga originária da falta de equilíbrio entre tarefas coletivas e os meios de sua concretização é a ingerência em um conflito externo continuado. Neste contexto surge o problema de resistência de um regime democrático a tensões originárias das relações entre um sistema militar desenvolvido e as instituições civis do governo. As relações mútuas são estabelecidas dentre outras pela medida de permeabilidade das fronteiras seja do sistema militar como o do sistema civil e o escopo das relações mútuas entre ambas. A distinção conceitual, para fins de exame desta questão, é a que se faz entre fronteiras penetráveis e fronteiras integrais, em que fronteiras fragmentadas servem como uma categoria intermediária para a descrição de uma situação de fronteiras penetráveis em certos âmbitos e integrais em outros contextos. O modelo de “povo armado” caracterizado por semelhança e aproximação entre o setor militar e o civil é um modelo típico em que existem fronteiras fragmentadas entre o sistema militar e o sistema civil. Isto, diversamente do modelo de “estado de mobilização” em que existe a tendência de separação institucional-normativa entre o sistema militar e o civil e também em relação às elites que guarnecem estes sistemas e de acordo com isto também existe nele a tendência a fronteiras mais integrais. Um aspecto adicional das relações entre o setor militar e o civil está ligado ao conceito de expansão funcional, que descreve uma tendência do setor militar de ampliar os âmbitos de sua atividade além das funções nitidamente militares.


CULTURA, CLASSE E O SISTEMA POLÍTICO

Neste capítulo foram descritas as características principais da sociedade israelense, foram levantadas questões centrais como as fronteiras da sociedade israelense, a sua medida de coesão e a efetividade funcional de suas instituições; igualmente foi colocada uma base conceitual capaz de possibilitar a apresentação do caso israelense em perspectiva comparativa, mesmo que este livro não se ocupe disto. Na série de conceitos abrangentes que cria a base conceitual encontram-se algumas hipóteses teóricas, ainda que nem sempre explícitas e detalhadas. Uma hipótese central que afeta tanto problemas de identidade e estabelecimento de fronteiras do coletivo como também a dimensão ideológica de ruptura da sociedade em grupos refere-se à autonomia do fator cultural. Percepções que explicam as variáveis culturais por meio de redução a fatores econômicos e até políticos não permitem explicar os componentes primordiais (básicos, fundamentais) da identidade coletiva e nem o poder da ideologia como uma força propulsora dos movimentos sociais. Todavia, o âmbito conceitual não supõe uma dependência inversa, ou seja, dos fatores econômicos e potencial de um fator cultural. No máximo supõe que em circunstâncias de cristalização do coletivo social novo existe um avanço no tempo do fator comum cultural que possibilite a construção de instituições políticas no âmbito de coação ditados em grande medida por fatores econômicos e políticos externos. Estas hipóteses até deixam lugar a desenvolvimentos autônomos do âmbito político e de fatores de poder que são uma espécie de “moeda” deste contexto. Assim, por exemplo, a conexão com Israel da população dos territórios fora do limite da soberania israelense, baseia-se no fato de ser dominado pela força israelense e não por um consenso cuja origem se encontra na sensação de identidade primordial. Um outro nível de atividade em que existe uma autonomia parcial da dimensão de poder político é o da atividade das elites. Entre as diversas elites institucionais, basicamente a elite política, as considerações de força burocrática de classe e pessoal cumprem um papel nada desprezível. Todavia, este âmbito de ação é fugaz do ponto de vista de seu exame conceitual e as únicas generalizações que lhe são cabíveis afetam as regras do jogo e estilos de direção e atividade. Interesses de classes de origem econômica podem ser um fator autônomo que pode ser mobilizado do ponto de vista social, mas em contraste com hipóteses marxistas poderão existir sociedades, períodos e situações em que este fator represente apenas uma função secundária. Porém também em tais sociedades fatores econômicos podem fortalecer fatores culturais e políticos levando pessoas a uma atividade social organizada. O acesso a recursos econômicos é capaz, portanto, de influenciar as conseqüências de lutas políticas e sociais.

Uma outra hipótese incorporada na base conceitual de nosso texto é a referente à importância do consenso para o estabelecimento de fronteiras do coletivo de um lado, e aprendizado da articulação de identidades particularistas que se referem a rupturas sociais por outro lado. Esta hipótese esta vinculada à hipótese de que a medida de coesão social representa um ponto de partida conveniente à análise macro-social e macro-política. Coesão social não significa obrigatoriamente uma homogeneidade social ou uma ausência de tensões sociais. A coesão pode ser atingida por meio de uma regulação eficiente de conflitos, não exatamente por meio de harmonia. Além disto, a adoção da questão da coesão social e processos de integração e desintegração na sociedade como ponto de partida para debate não significa uma preferência válida de coesão a falta de coesão ou do que é fixo ao que se alterna. Ela reflete considerações metodológicas e não de valores.

A definição de caracterizadores da sociedade israelense, a identificação dos seus problemas centrais e a sugestão de uma base conceitual apoiada em hipóteses teóricas para fins de tratamento desta sociedade, servem, portanto, de ponto de partida para um debate variegado dos fenômenos sociais e mudanças históricas na sociedade cujas características a transformam, como mencionado, em um campo de pesquisa que pode equipará-la a um laboratório social.



* Lit. comunidade. Denominação da comunidade judaica que vivia em Israel nas primeiras décadas do século XX.

Lit. desastre, catástrofe. Denominação hebraica do extermínio de um terço do povo judeu durante a II Guerra Mundial.

1 A área do Estado de Israel seguindo-se aos acordos do cessar-fogo de 1949 era de 20.770 km2. Após a guerra de 1967 a área sob domínio de Israel aumentou para 89.959 km2. Depois da devolução da Península do Sinai conforme o acordo de paz com O Egito em 1979, restaram sob domínio de Israel: a Margem Ocidental, a Faixa de Gaza e o Planalto do Golã. A área total destas regiões chega a 7.391 km2. A população de Israel à véspera da Guerra dos Seis Dias era de 2.800.000 habitantes. A população dos territórios mantidos em 1967 era de 603.400 pessoas na Margem Ocidental e 394.000 pessoas na Faixa de Gaza e Norte do Sinai.


2 A autoridade parcial da Agência Judaica estava baseada no item 4 do Documento do Mandato sobre a Palestina, nestes termos: “Uma Agência Judaica apropriada será reconhecida como organismo público para o fim de aconselhar e cooperar com a Administração da Palestina em tais questões econômicas, sociais e outras que possam afetar o estabelecimento do Lar Nacional Judaico e os interesses da população judaica na Palestina.


3 A Declaração da Independência foi publicada no Diário Oficial n 1, 1948.

4 A base legal da justiça religiosa em questões de estatuto pessoal é do período do Mandato Britânico. A legislação israelense promoveu poucas alterações nesta tradição. As leis israelenses que tratam do estatuto pessoal dos judeus são: Leis dos tribunais rabínicos e Lei dos juízes. Há leis específicas para os membros das diversas religiões.

5 Isto foi dito por Israel Zangwill, um dos pais da idéia sionista.

6 A população de Israel em 1985 era de 4.250.000 habitantes.

7 Israel combateu em cinco guerras: Guerra da Independência (1948-1949); Campanha Kadesh (1956); Guerra dos Seis Dias (1967); Guerra do Iom Kipur (1973); e Guerra do Líbano (1982-1985). Esta relação não abrange a Guerra de Atrito de 1969-1970 e a Campanha Litani de 1978.

8 O total da ajuda externa do governo norte-americano a outros países desde o final da II Guerra Mundial chegou a cerca de 250 bilhões de dólares. Até o final de 1984 Israel recebeu cerca de 10% deste valores, ou seja, cerca de 25 bilhões de dólares.

9 O conceito de “laboratório social” relacionado à sociedade israelense é encontrado em diversos textos acadêmicos.

*** Forma de governo baseada em um sistema de compartilhamento de poder entre segmentos de uma sociedade agregados por uma cidadania comum mas dividida por etnicidade, língua, religião e outros fatores.


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