IntroduçÃO: israel como laboratório social



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Na sociedade israelense o problema da institucionalização e rotinização se revestiu de outro caráter e isto se deu devido à ausência de uma passagem abrupta de uma situação pré-revolucionária a uma situação revolucionária. O aspecto social da revolução – criação de uma nova ordem social - foi um processo gradual de moldagem de uma ordem social por imigrantes que se reuniram por força de fatores ideológicos. E quanto ao aspecto político da revolução que se concretizou no final do Mandato britânico e estabelecimento do Estado de Israel soberano, ele também não foi o início de um processo de institucionalização política da revolução sionista, mas o seu auge, pois o Estado de Israel é em grande medida a continuação do yishuv judaico organizado na Terra de Israel.

A outra face do problema da ideologia resultou das dificuldades de adaptação da sociedade em que foi dada grande ênfase aos compromissos ideológicos no período que reinou um clima intelectual de “fim da ideologia”. As novas elites que brotaram após o estabelecimento do Estado e primordialmente as elites profissionais e tecnocráticas tenderam a agir por inspiração dos estados de espírito do crepúsculo da ideologia que se evidenciaram nos anos cinqüenta e sessenta nos países ocidentais. Como resultado disto, criou-se uma distância entre a determinação pragmática dos homens de ação e as receitas ideológicas das elites antigas dos movimentos. O resultado foi processos de compromisso entre as duas tradições que se expressaram por vezes com a adaptação da ideologia às necessidades de realização e por vezes ao preço de apoio à ideologia quando o fazer não combinava em absoluto com ela. Na década de setenta a ideologia no Estado de Israel conheceu um novo frescor, em parte devido à influencia renovada de ideologias sociais no ocidente, como o surgimento da “nova esquerda”, e principalmente devido ao novo despertar, após a Guerra dos Seis Dias, da divergência ideológica e fundamental quanto à fronteira territorial da concretização sionista.

O terceiro aspecto do problema ideológico surgiu do fato que a ideologia sionista que deveria representar uma base para o consenso nacional amplo na sociedade israelense foi apenas um determinador comum restrito, em tudo o que se refere a questões de imagem da sociedade desejada, religião e Estado e componentes da identidade nacional israelense no contexto do conflito israelense-árabe. Quem melhor definiu isto foi o escritor Amós Oz que disse que “o sionismo é um sobrenome e não nome”. Por isto, não brotou da concordância à ideologia sionista uma concordância sobre o caráter das decisões nos dilemas políticos, sociais e culturais que o Estado de Israel tinha. Como resultado disto, o sistema político foi lançado a uma situação em que a ideologia foi um fator divisor e fonte de polarização política, que pode ser liberado das influências desintegradoras apenas por meio da negociação e acordo que obrigaram a um repúdio parcial ao menos a compromissos ideológicos. Com isto a sociedade israelense representa um exemplo importante da tensão existente entre a necessidade de ideologia como fonte de inspiração e convocação social, e a ideologia como fator divisor e como fonte de processos desintegradores.
UMA NOVA SOCIEDADE

A sociedade israelense é nova, tanto do ponto de vista de população como de suas instituições. A sua única conexão histórica comum é com a tradição cultural-comunitária de “um povo sem terra”.5 Portanto, a sua situação difere daquela da maioria dos novos estados que surgiram após a II Guerra Mundial. Não se trata, neste caso, de “uma sociedade antiga e uma nação nova”, mas de uma sociedade nova de um povo muito antigo. Como resultado disso, desenvolveu-se em Israel uma estrutura social que não é o clímax de processos históricos que se estendem por muitas gerações, mas é fruto, principalmente, de desenvolvimentos novos e breves cuja origem se encontra nos processos de colonização judaica na Terra de Israel. Israel se diferencia nisto de muitos países em desenvolvimento que se apoiaram em modelos tradicionais para a construção de suas instituições, mas que, por outro lado, foram freados em seu desenvolvimento por limitações originárias das suas próprias tradições culturais e sociais.

Contudo a sociedade israelense não era “tabula rasa” do ponto de vista de existência de tradições sociais e culturais que continuam a influenciar os modelos de comportamento e relacionamentos válidos de grupos no seio da população. A singularidade da sociedade israelense consiste em que estas tradições não foram fruto de desenvolvimento da própria sociedade israelense, mas foram importadas em sua maioria esmagadora dos países de origem dos imigrantes. Como conseqüência disto, estas tradições são extremamente diversas e até a tradição religiosa judaica se reveste de aspectos variados do ponto de vista de modos de vida e padrões de comportamento nos diversos países de origem dos imigrantes. Estas tradições abrangeram primordialmente um cumprimento total ou parcial dos preceitos da lei judaica, inclusive o cumprimento de rituais locais das diferentes comunidades judaicas.

Uma parcela considerável dos imigrantes não passou, portanto, pela revolução da laicização que, junto com a revolução industrial e a nacional moldaram a face da sociedade, da cultura e do estado nos países europeus e nas sociedades cuja população se origina da emigração da Europa. Se bem que alguns países do Oriente Médio e do norte da África já se encontravam no período da imigração no auge da revolução nacional, a exposição dos imigrantes dos países islâmicos à influência combinada da revolução industrial, revolução de laicização e revolução nacional, ocorreu somente com a sua vinda a Israel. Aqui eles precisaram mesclar-se na sociedade cujas instituições foram moldadas por grupos de elite cujo universo de valores foi formado por influência destas três revoluções e, portanto, procuraram em sua maioria criar na Terra de Israel um estado-nação moderno pelo caráter cultural e desenvolvimento econômico.

O encontro entre a estrutura institucional e o universo de valores da Terra de Israel e os imigrantes que conservaram a sua conexão com culturas tradicionais ou como que tradicionais não ocorreu em condições de igualdade de forças. O sistema absorvedor era dominante do ponto de vista político e social. Como conseqüência disto reconheceu-se pouco apenas a influência das tradições particularistas dos países dos imigrantes sobre o desenvolvimento da sociedade israelense no período do crescimento rápido e cristalização dos padrões institucionais da década de 1950 e início dos anos 60. Enquanto em muitos países em desenvolvimento a tradição cumpriu um papel de freio em relação a algumas dimensões do processo de modernização, esta influência foi apenas pouco percebida na sociedade israelense nos seus primórdios. Como conseqüência disto, as instituições da sociedade israelense puderam se desenvolver de forma sincrônica sem criar brechas perceptíveis de aperfeiçoamento entre diversos setores institucionais, agricultura, indústria, burocracia, exército e família.

Porém, desde que os grupos tradicionais na sociedade israelense começaram a se liberar do seu status marginalizado na sociedade israelense e a adquirir uma posição mais central, ocorreu uma modificação também na dimensão da influência das tradições particularistas sobre o caráter da vida pública em Israel. Dentre os setores que foram influenciados por esta alteração, destacou-se o da educação em que foi conferida legitimação à educação ultra-ortodoxa e em que influências tradicionais penetraram também na educação pública. Mesmo manifestações folclóricas diversas cujas dimensões eram modestas na década de cinqüenta, como cultos a homens considerados justos e medicina popular, gozaram de renascimento. Assim cresceu também a influência de partidos religiosos e ultra-ortodoxos e de populismo que faz uso de símbolos étnicos tradicionais sobre a vida política e sobre a legislação em Israel.

Como em outros países, ficou claro, portanto, também em Israel, que laços tradicionais que bloqueiam modernização em seus tons ocidentais têm uma sobrevivência maior do que se poderia esperar em um período em que foi moldada a base institucional do estado-nação soberano. Assim, Israel é obrigado, mesmo sendo uma sociedade nova, a voltar e a confrontar-se com problemas da tensão entre modernização e tradição, quando os bolsões tradicionais na sociedade mordiscam o padrão cultural-político que foi dominante no período da colonização judaica na Terra de Israel e que deixou a sua marca na estrutura institucional do Estado de Israel.
UMA SOCIEDADE PEQUENA

A sociedade israelense é pequena do ponto de vista da população e área, envolvida em processos históricos com significado regional e internacional amplo. Do ponto de vista das dimensões, a sociedade israelense é uma das menores dentre os países soberanos. Sua população, sem os habitantes dos territórios que domina por meio de um governo militar, chegou em 1985 a pouco mais de quatro milhões de habitantes.6 A área sob o seu domínio, incluindo a Margem Ocidental, a Faixa de Gaza e o Planalto do Golã, é de 22 mil km2. Estas dimensões reduzidas destacam-se principalmente à luz da função central que elas cumprem nos eventos históricos que ocorrem em uma região com importância central no sistema de relações internacionais globais. A desproporção entre as suas dimensões e a sua importância internacional sobressai primordialmente na dimensão estratégica. Israel é considerado o mais forte dentre os países do Oriente Médio do ponto de vista de seu poderia militar. Confrontou-se com sucesso em 1948, 1967 e 1973, também com coalizões de mais do que um país árabe. Seu poderio militar disponível para ser acionado de imediato é consideravelmente superior ao de países maiores e mais ricos do que ele e, na realidade, aproxima-se do poder de potências médias. Além disto, atribui-se a Israel uma capacidade nuclear, ao menos em força, que o coloca na primeira fila dos países capazes de criar e acionar armamento atômico. A desproporção entre o tamanho de Israel e o seu poder militar destaca-se em especial a partir da importância estratégica do Oriente Médio em uma região “cinzenta” cuja maioria não está envolvida diretamente nos pactos conduzidos pelas duas super-potências.

O Oriente Médio está próximo da fronteira da União Soviética enquanto que para o Ocidente ele é importante como a maior reserva de petróleo do mundo e como rota de passagem que encurta consideravelmente o caminho da Europa para a região do Oceano Índico e o sudestes asiático. Por isto, do ponto de vista das super-potências, as guerras Israel-árabes também representavam um perigo para a estabilidade internacional. Pois nesta região, mais do que em qualquer outra região do mundo, as super-potências temiam o perigo da degradação inter-blocos em seqüência a iniciativas militares de fatores regionais. E, realmente, o conflito israelense-árabe deu origem a muito mais confrontos militares regionais do que qualquer outro conflito regional após a II Guerra Mundial. 7

Um outro elemento, junto com o fator estratégico da desproporção entre as dimensões de Israel e sua proeminência, está ligado ao significado da questão da Terra de Israel e a questão judaica na consciência do universo cristão, do universo muçulmano e do mundo judaico. O status da questão judaica no universo cristão tem raízes teológicas e históricas profundas que gozaram de destaque renovado, mesmo que com uma modificação de aspectos, em seqüência à shoá dos judeus da Europa. Do ponto de vista do universo muçulmano, o problema de Israel é um reflexo do problema palestino e mais exatamente da situação de Israel como elemento não-árabe e não-muçulmano que se estabeleceu no centro do espaço em que o Islã e o arabismo são elementos dominantes. A centralidade de Israel do ponto de vista da dispersão judaica é perceptível pela sua própria definição como estado judaico. Porém esta centralidade transforma-se em fonte da proeminência - e não somente no contexto das relações de Israel e diásporas -, por causa da importância e status das diásporas judaicas nos países-chave na arena internacional. As maiores diásporas de Israel encontram-se nos Estados Unidos e na União Soviética. A considerável representação dos judeus no seio das elites nos países do ocidente contribui para esta proeminência. O status especial da questão judaica na consciência dos povos do ocidente é também uma fonte de curiosidade em relação à experiência sionista, ainda mais que ela está sujeita a desconfiança social e cultural.

Os elementos estratégicos e culturais que serviram como multiplicadores da proeminência de Israel além de suas fronteiras influenciaram também o desenvolvimento do próprio Israel. Um dos resultados da desproporção entre as dimensões de Israel e sua importância internacional em geral e no geral judaico em particular é a grande intensidade de contatos internacionais, inclusive a dependência econômica, política e de segurança dos Estados Unidos.8 Esta dependência nos fatores externos também teve influência sobre a estrutura interior de Israel. De um lado possibilitou a Israel mobilizar tanto recursos para as necessidades de desenvolvimento, como apoio político para as necessidades de confronto com a hostilidade árabe. Por outro lado, influenciou a estrutura institucional de Israel que se adaptou a uma situação de exposição comunicadora considerável para fora e foi preparado do ponto de vista de organização à necessidade de desenvolvimento das relações exteriores de Israel. Este fenômeno refletiu-se em âmbitos diversos como o da segurança e desenvolvimento da estrutura cientifica, cultural e de lazer. Esta situação também foi um dos fatores para que em Israel se desenvolvesse uma burocracia centralizadora grande especialmente em comparação com a sua dimensão, que intermedia não apenas entre as instituições do Estado de Israel e os seus cidadãos, mas também entre os cidadãos de Israel e suas instituições e establishments judaicos e internacionais fora das suas fronteiras. Os fatores estratégicos e culturais que serviram como multiplicadores de proeminência nem sempre auxiliaram Israel na luta pelo equilíbrio entre tarefas e recursos. É verdade que as relações internacionais de Israel alimentaram-no com recursos por vezes sem uma compensação concreta aos que proporcionam a ajuda, mas por outro lado também serviram como multiplicadores de problemas. Primordialmente isto se refere à dimensão estratégica, um âmbito em que o povo de Israel precisou suportar uma pressão de segurança continuada sem que estivesse ao seu alcance obter uma decisão militar que pudesse pôr fim a esta pressão.

O compromisso de Israel para com o povo judeu também pesou sobre o país por tirar dele na prática a possibilidade de regular a imigração de acordo com a sua capacidade de absorção econômica e social. A desproporção entre as dimensões de Israel e as suas necessidades, que foram influenciadas pelo seu status estratégico e pelos seus compromissos de valores, causou às vezes uma sobrecarga sobre o sistema. Esta sobrecarga não foi compartilhada em proporções iguais por todas as parcelas da população, pois alguns dos setores da população israelense estão alheados em principio às tarefas que particularizam Israel. Assim, por exemplo, a população efetiva para fins de mobilização de recursos humanos para objetivos de segurança não abrange os cidadãos israelenses árabes e parte do público ultra-ortodoxo judaico. Deste ponto de vista, a desproporção entre a dimensão da população efetiva e o poder militar de Israel é até maior do que a desproporção entre a dimensão da população geral e esta força.


SOCIEDADE DE IMIGRANTES

A sociedade israelense é conseqüência de um movimento de imigração da diáspora dispersa a um centro nacional em formação. Como resultado disto, a existência de centro e diáspora, lado a lado, não é conseqüência de uma imigração do centro para a diáspora, mas o contrário. Além disto, a imigração da diáspora e a conexão conseqüente dela entre a diáspora e o centro não foi um fenômeno único e sim um processo que moldou a face da sociedade israelense.

A conexão entre Israel e a diáspora teve muitas facetas, imigração, entrada de capital, compromisso válido e político mútuo. Do ponto de vista do Estado de Israel, a diáspora judaica foi percebida principalmente como retaguarda (hinterland) do Estado de Israel e de todo modo como fonte de recursos – recursos de força de trabalho, recursos materiais e apoio válido e político. A conexão menos problemática foi aquela ligada ao fluxo de recursos econômicos da diáspora para Israel. Neste contexto foi comum o compromisso unilateral da diáspora para com Israel, sendo que a compensação dada à diáspora é simbólica e, no máximo, política, mas não material. Esta conexão instrumental de Israel com a diáspora, como fonte de recursos materiais, possibilitou a absorção da imigração e o financiamento de custos de segurança e desenvolvimento econômico. A importação de capital sem uma compensação possibilitou uma ampliação do mercado israelense por meio de investimentos sem afetar o nível de vida e o atendimento às exigências dos diversos grupos.

A entrada de capital sem compensação teve também influência sobre o regime político. A possibilidade de investimentos de capital (não obrigatoriamente pela necessidade de mobilização de capital interno) e de divisão de recursos para a elevação do nível de vida de diversos grupos da população, simultaneamente, diminuiu pressões sobre o sistema. Sem a entrada de capital estas pressões seriam capazes de colocar em risco o regime democrático-pluralista de Israel.

A conexão política de Israel com as diásporas foi mais problemática no âmbito em que existe uma possibilidade de contradição entre o interesse judaico e o interesse israelense, e realmente contradições como estas surgiram por vezes. Assim, por exemplo, criou-se uma contradição entre o interesse israelense e o interesse das comunidades judaicas nos Estados Unidos quanto ao direcionamento de imigração dos judeus da União Soviética. Enquanto Israel empenhou-se no direcionamento da imigração toda para Israel, instituições comunitárias nos Estados Unidos insistiram no direito de livre escolha dos imigrantes e de prestar ajuda à saída dos judeus da União Soviética fosse qual fosse o destino deles.

A sensação de responsabilidade quanto ao destino de comunidades judaicas nos paises com regimes não-democráticos também esteve mais de uma vez em oposição aos interesses diplomáticos de Israel. Assim foi em relação à Argentina no período do regime militar até após a Guerra das Faulklands. Assim foi também quanto à África do Sul em que as relações de Israel com aquele país estiveram em oposição aos interesses israelense na África negra. Dentre outras, estas relações foram justificadas porque Israel tem a responsabilidade pelo destino da comunidade judaica ali. Em contraste, a existência de Israel como um estado judaico possibilitou a representação política do povo judeu em assuntos ligados à história da shoá. Israel foi o endereço para compensações que lhe foram dadas com base na alegação jurídica que ele absorveu centenas de milhares de sobreviventes da shoá. Israel também assumiu a responsabilidade de punir o criminoso de guerra Adolf Eichmann, seqüestrado na Argentina e julgado em Israel, pela sua função na organização de envio de judeus aos campos de extermínio.

No âmbito de valores, Israel teve que se confrontar com o problema do status da diáspora judaica em relação a Israel e o inverso. A ideologia sionista abrangia a concepção de negação da diáspora ou ao menos estava incorporada a colocação da centralidade da Terra de Israel como centro cultural do povo judeu. O componente da negação da diáspora foi enfraquecido com o passar dos anos. Um dos fatores para isto foi a shoá que criou um estado de espírito nostálgico em relação à diáspora judaica do leste europeu e um estado de espírito de compartilhamento no destino do povo na diáspora judaica em geral. Alem disto, tanto a shoá como o restabelecimento do Estado de Israel ampliaram o sistema de contatos culturais e políticos entre Israel com as diásporas que não foram afetadas na guerra. Ao invés da focalização das relações de Israel com a diáspora somente pelos canais do sionismo organizado, ramificaram-se muito os contatos também pelos canais que criaram uma conexão entre Israel e o judaísmo organizado que não é sionista. A “normalização” da sociedade israelense que foi obrigada a desistir da ousadia da construção de uma sociedade exemplar que fosse “luz para os povos”, também afetou a sua possibilidade de servir de centro espiritual para o judaísmo ocidental com as forças intelectuais de que é composto.

Como resultado disto tudo, ocorreu gradualmente uma corrosão na centralidade de valores de Israel no povo judeu. Apesar de a maioria das correntes políticas no próprio Israel não ter concordado com esta mudança, ela se refletiu mais e mais no diálogo prolongado entre Israel e as diásporas com as suas expressões institucionais e intelectuais juntas.

O aspecto ideológico das relações de Israel com a diáspora foi influenciado também pelo aspecto demográfico. Um dos fatores para a corrosão da centralidade do valor de Israel foi o insucesso de se tornar um foco de atração para imigrantes do ocidente. Judeus dos paises desenvolvidos que podiam escolher livremente imigrar ou permanecer nos seus lugares não vieram em grandes números a Israel. Ao contrário, desenvolveu-se uma tendência de saída de Israel para os paises ocidentais, primordialmente para os Estados Unidos. A saída de Israel foi entendida na sociedade israelense como tendo um significado diferente em sua essência de emigração comum de um pais-mãe para a diáspora. O objetivo sionista era a concentração territorial do povo judeu por meio de imigração de judeus para Israel. A saída dele mais do que a não-imigração a ele foi um contraste aberto a esta tendência. Esta englobava uma espécie de testemunho de insucesso do sionismo. Além disto, a saída foi entendida como uma espécie de deserção no contexto da sensação israelense de que Israel é um estado de sítio. O problema da emigração tornou-se proeminente especialmente nas décadas de setenta e oitenta por causa da sensível redução que ocorreu na imigração e por causa da mudança que ocorreu na composição dos que emigravam, não somente imigrantes que não foram absorvidos, mas também nativos e educados no país. Esta situação chegou ao auge em meados dos anos oitenta quando o numero de emigrantes foi superior ao numero dos imigrantes. A diminuição das fontes de imigração, por um lado, e o aumento na emigração, por outro, esvaziaram o conceito de “negação da diáspora” de seu conteúdo prático.
Seguindo-se a sensível redução na imigração que ocorreu depois que acabaram as fontes da imigração dos paises em situação difícil na Europa e Oriente Médio, Israel voltou-se à busca e reunião de remanescentes de comunidades distantes cujas ligações com o fluxo central do povo judeu foram rompidas no decorrer das gerações. Sob este aspecto destacaram-se comunidades em que os sinais externos de reconhecimento os discerniam de outros judeus, como os Bnei Israel, da Índia, e os judeus da Etiópia.

A imigração para a Terra de Israel como um processo demográfico e como expressão de concretização do sionismo despertou o problema de fronteiras do sistema em um contexto adicional – não como problema das fronteiras do coletivo israelense, mas como um problema de fronteira do coletivo judaico. Este problema recebeu, na terminologia israelense, o nome de “quem é judeu?” e teve expressões jurídicas, ideológicas e políticas. Uma das revelações da questão foi a falta de clareza da definição jurídica de “quem é judeu”. Muitas definições foram estabelecidas para fins de diversas leis. Além disto, ocorreram também alterações nestas definições especialmente em relação à Lei do Retorno. Entretanto, nem as alterações solucionaram as questões sobre as quais recaiam as divergências, em especial quanto à validade das conversões não-ortodoxas realizadas nas diásporas. Israel não é a única sociedade de imigrantes e não é a única sociedade que mantém ligação com a diáspora além de suas fronteiras. A sua singularidade consiste na relação que existe entre estas duas, cuja origem está no fato de que ela surge como resultado de uma emigração das diásporas e não ao contrário.



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