Introdução: Breves Apresentações



Baixar 11,24 Kb.
Encontro11.07.2018
Tamanho11,24 Kb.



Introdução: Breves Apresentações

Este trabalho consiste numa comparação entre o livro “O Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, e o filme “O Auto da Compadecida”, baseado na obra de Ariano Suassuna. Antes de qualquer coisa, devo lembrar-nos da definição da palavra “Auto”, que a tantos causou problemas por seu significado mal explorado no cotidiano de nossa atualidade.


Auto, do latim: actu = ação, ato; é um subgênero da literatura dramática. Originado na Idade Média, na Espanha, por volta do século XII, o Auto era escrito em redondilhas e visava satirizar pessoas. Em Portugal, Gil Vicente foi uma grande expressão deste gênero dramático.
Agora que entendemos perfeitamente do que se trata um Auto, podemos iniciar o trabalho...
Síntese Individual de Cada Auto:
O Auto da Barca do Inferno:
Escrito por Gil Vicente, considerado o primeiro grande dramaturgo português, se trata de uma complexa alegoria dramática, e é a primeira parte da chamada Trilogia das Barcas (sendo a segunda e a terceira o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória). Apesar da história se passar durante o Juízo Final, do julgamento das almas para guiá-las ao céu ou ao inferno, o livro leva esse nome dado ao fato de que a maior parte dos candidatos às barcas do Céu e do Inferno acaba por seguir na segunda.

A obra proporciona uma amostra do que era a sociedade em Lisboa nas décadas iniciais do século XVI, embora alguns dos assuntos que cobre sejam pertinentes na atualidade. Esse auto não tem uma estrutura definida, não estando dividido em atos ou cenas, por isso divide-se em cenas à maneira clássica, cada vez que entra uma nova personagem.



O Auto da Compadecida:
Baseado na obra de Ariano Suassuna, o filme O Auto da Compadecida trata da história de dois amigos que, após inúmeras confusões nas quais eles se envolvem, se separam, pois um deles acaba por morrer, e reencontrar-se no Juízo Final com outros envolvidos de sua vida, onde serão julgados no Tribunal das Almas por um Jesus negro (Maurício Gonçalves) e pelo diabo (Luís Melo). O destino de cada um deles será decidido pela aparição de Nossa Senhora, a Compadecida (Fernanda Montenegro). O nome se deve aos esforços da própria Compadecida em mostrar o bem nas menores coisas que cada ser humano ali em julgamento poderia ter. E, com esses esforços, com todas as lembranças da vida de um homem, João Grilo (Matheus Nachtergaele), ela o dá a chance de voltar à vida, para concertar todos os seus erros.

A Comparação:
Ambos os autos, tanto o da Barca do Inferno quanto o da Compadecida, tratam de assuntos divinos, de purgatório, de julgamento das almas ao fim de suas vidas.

Porém, na dramatização redigida por Gil Vicente, que já se inicia no momento do julgamento, a maior parte dessas almas é levada pelo Diabo, mesmo implorando pelo perdão do Anjo. E, no ímpeto de convencer o Diabo de que não merecem estar em sua barca, mas sim na do Anjo, as almas acabam por se mostrar pecadoras natas e às vezes irremediáveis, que apenas merecem ir ao lado de Lúcifer na Barca do Inferno. Muitas das características de cada personagem apontam diretamente para a sociedade portuguesa da época, o que nos leva a crer (ou até a ter absoluta certeza) numa sátira muito bem formulada pelo dramaturgo, que utilizou de eufemismos e linguagens ambíguas para criticar o povo de seu tempo.

Enquanto isso, na adaptação da obra de Ariano Suassuna, os personagens iniciam a trama ainda vivos, cometendo os atos mais insólitos possíveis, num cenário típico brasileiro, onde as críticas são menos visíveis, graças ao clima cômico do filme em si. A história se passa no Nordeste brasileiro, envolvendo dois personagens principais, sendo que apenas um deles é levado ao Juízo Final durante o filme. Cena na qual as comparações com A Barca do Inferno podem ser feitas, pois lá estão O Diabo e Jesus, prontos para julgar tanto o protagonista quanto os outros personagens com ele envolvidos. Ao final de tudo, o protagonista volta à vida, enquanto os outros são levados ao purgatório.
A relação mais aparente entre as duas obras é o momento do julgamento. As semelhanças a serem consideradas são, por exemplo, um Diabo com argumentos simplistas, porém diretos, que fazem em ambas as histórias um equilíbrio entre o bem e o mal em cada indivíduo a ser julgado. Porém, as diferenças das histórias são incrivelmente mais acentuadas.

Em “O Auto da Barca do Inferno”, o Diabo mostra-se interessado de uma forma bem mais possessiva que o Anjo, tentando sempre puxar os candidatos à sua barca, e na maior parte das vezes conseguindo-o. Os julgados estão sempre se esforçando para mostrar que o Céu é o lugar deles, e quanto mais falam, mais provam que são dignos de acompanhar o Diabo. Em “O Auto da Compadecida” acontece o contrário. Os personagens têm todos os seus momentos de glória, que absolvem suas almas e mostram a bondade deles, enquanto a possessividade do Diabo e da Compadecida são equilibradas, ambos tentando convencer o protagonista da história de que o melhor lado é o lado de cada um deles. Em ambas as histórias, há a possibilidade do perdão, mas apenas na Compadecida há o perdão implorando para ser levado em consideração pelo perdoado.


A conclusão geral e resumida na comparação de ambas as obras é que há, nas duas, o ato do julgamento final das almas, mas enquanto há uma abundante leva de almas ao Inferno em uma delas, há um esforço magnífico da Compadecida de mostrar o perdão e o bem nos personagens da outra.



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal