Interview with David Zambrano



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Artigo originalmente publicado na revista Relâche - Revista Eletrônica da Casa Hoffmann, em 2004, Curitiba, Brazil.

(sem nome) - Lucianne Figueiredo. Fotografia de Fernando Augusto, 2003.

COMUNIDADE X AUTOFAGIA – DESAFIO E RESISTÊNCIA

(ou Como Construir uma Pangéia de Nossas Ilhas)
por Cristiane Bouger

O objetivo deste artigo é realizar um registro histórico e análise crítica sobre o Ciclo de Ações Performáticas, durante o ano de 2003, e seu papel para a construção1 de uma comunidade artística na cidade de Curitiba. Parte de conceitos sobre trabalho em processo, identidade e a cena contemporânea.


O termo comunidade data das teorias sociológicas do final do século XIX, mais notavelmente, da distinção do sociólogo alemão Ferdinand Tönnies entre Gemeinschaft (comunidade de cidades pequenas ou rurais, em contato intenso e permanente) e Gesellschaft (sociedade de massa com muitas relações, porém superficiais).2 Na década de 70, o historiador americano Thomas Bender, ao contrário dos sociólogos que discursavam acerca do fim da comunidade americana3, irá “reconceituar comunidade, indicando que não é uma forma social estática que está desaparecendo, mas, antes, que formas novas, dinâmicas e sobrepostas de redes em pequena escala apareceram” (BANES, 1998, p.56).
Em Curitiba, é difícil falar em comunidade artística, já que não existe o hábito ou a cultura do diálogo sobre os interesses e necessidades em comum num âmbito mais amplo, seja este político, estrutural ou artístico. A segmentação de grupos é facilmente verificada e percebida rapidamente por artistas vindos de outras regiões do País, que já agregam interesses e percebem a importância da existência de ações capazes de articular e fortalecer artística e politicamente, suas respectivas produções locais (os movimentos Arte Contra a Barbárie4, de São Paulo e o cenário musical de Porto Alegre5 são algumas ações-exemplo, embora não indiquem necessariamente a existência de comunidades artísticas).
Faz-se importante enfatizar que ao falar em criação de uma comunidade artística, refiro-me especialmente a ações capazes de engendrar um ambiente favorável à construção de um pensamento que privilegie a investigação estética e o fortalecimento da arte local (seja no âmbito artístico ou econômico), respeitando as especificidades e singularidades de seus componentes, mas não se isentando de uma análise rigorosa e não evasiva sobre esta mesma produção.
Nesse sentido, o Ciclo de Ações Performáticas foi um evento capaz de empreender o início de uma transformação potencial. Abrigou diferentes artes, tendências e estéticas, possibilitou o debate sobre a produção local, criando, por vezes, atritos ou diálogos ainda evasivos, mas sobretudo, promovendo o contato entre os artistas e suas investigações.
Através desta análise, não pretendo enaltecer a arte apresentada durante os eventos, mas sim, refletir sobre a iniciativa de proporcionar um espaço permissivo e acolhedor, de experimentação e apresentação de pesquisa e trabalhos em processo, no qual a coexistência da diversidade tem-se revelado mais importante do que a simples agremiação dos iguais.
Historiografia do Ciclo de Ações Performáticas
Em junho de 2003, foi inaugurado o calendário de atividades da Casa Hoffmann - Centro de Estudos do Movimento, com a Mostra Comentada de Vídeo, apresentada por Leonel Brum6. Durante a oficina, ficou claro que os artistas ali presentes, muito pouco se conheciam. Embates travaram-se, revelando a falta de diálogo e conhecimento sobre a produção realizada na cidade. Brum seria, então, quem abriria a mentalidade dos participantes de sua oficina para o fortalecimento da produção local.
A oficina que se seguiria, estava focada em criação e pensamento coreográfico, com Sarah Michelson7. A partir daí, um grupo começaria a tomar corpo e a pensar e dialogar sobre comunidade artística. E talvez nunca tenha existido tanta franqueza e respeito entre os artistas locais, como passou a existir entre aqueles que fizeram parte do workshop de Michelson.
Em julho do mesmo ano, Rosane Chamecki e Andrea Lerner, curadoras da Casa Hoffmann, incentivariam o envio de propostas por parte dos bolsistas e freqüentadores das oficinas para a criação de eventos que ocupassem os estúdios nos horários livres. A partir dessa abertura, alguns artistas começaram a encaminhar suas propostas de curadoria e eventos, até se estabelecer entre eles um consenso de que seria mais produtivo haver um diálogo entre as propostas.
Foi a partir dessa diretriz que aconteceu em uma mesa de bar, em Curitiba, o encontro de alguns dos artistas freqüentadores da Casa Hoffmann, com o objetivo de discutir suas propostas para a ocupação da Casa8. Estavam à mesa, Olga Nenevê, Eduardo Giacomini, Ricardo Marinelli, Andrea Obrecht, Sheylli Caleffi e Cristiane Bouger. A idealização de um ciclo de eventos, que ocuparia as noites de terças-feiras da Casa, no Largo da Ordem, surgiu nesse encontro. A esses artistas, agregaram-se Andréa Serrato, André Coelho e Michelle Moura e, assim, formou-se o que viria a se chamar Ciclo de Ações Performáticas – Casa Hoffmann 2003.
As inspirações e influências eram diversas e embora não fossem necessariamente as mesmas para todos os artistas, fundaram o pensamento de base dessa ação. Dentre as influências inspiradoras dos desejos transformativos estavam a comunidade artística do Greenwich Village,9 em Nova York nas décadas de 50 e 60; o Cabaret Voltaire10, berço do Dadaísmo; o reconhecimento da necessidade de se criar uma comunidade forte e colaborativa em uma cidade tão conhecida por sua autofagia e, finalmente, o incentivo de Leonel Brum e Sarah Michelson, primeiros instrutores na Casa Hoffmann.
A partir desse encontro, três eventos foram criados: In-side CWB11, com curadoria do bailarino Ricardo Marinelli; Da Casa, com curadoria assinada por mim e pela bailarina Michelle Moura e Mostra Temática, curada pela atriz Olga Nenevê e pelo ator e figurinista Eduardo Giacomini. Somaram-se ao Ciclo, pouco tempo depois, Improviso, com curadoria assinada pela bailarina Rocio Infante12 e Circuito Inserções, sob minha curadoria13.
O evento In-side CWB previa a realização de um mapeamento imparcial da dança, teatro e performance em Curitiba, com o objetivo claro de (re) conhecer a produção local. Da Casa apresentava ao público as performances dos artistas-pesquisadores que freqüentavam as oficinas do Centro de Estudos do Movimento, e privilegiava as pesquisas em processo de desenvolvimento, dos respectivos artistas. Mostra Temática falou, em 2003, sobre Corpo e Matéria, convidando bailarinas e bailarinos, performers, atrizes e atores, artistas plásticos, coreógrafas e coreógrafos para criarem um trabalho com base no tema proposto. Improviso reunia artistas de diversas áreas para uma improvisação coletiva e Circuito Inserções14 (que entrou na agenda do Ciclo em outubro do mesmo ano), apresentava como objetivo trazer à Casa pesquisadoras e pesquisadores com trabalhos de relevante importância para o desenvolvimento de um pensamento artístico voltado às questões contemporâneas. Buscava aproximar público, artistas de diversas áreas e teóricos, estabelecendo assim, um maior diálogo entre as pesquisas desenvolvidas no meio acadêmico, os estudos na Casa Hoffmann e a cena curitibana.
Tornava-se evidente para esse grupo de artistas que constituir uma comunidade artística em nossa cidade, prescindia antes, de uma ação capaz de aglutinar diferentes pensamentos estéticos, favorecer um pensamento de inclusão e, ainda, proteger-se do fator - culturalmente hereditário? -, da autofagia, trabalhando a favor de um autocontrole ostensivo da própria condição autofágica, pois, se Curitiba é autofágica, nós artistas da cidade é que em realidade o somos.
Falamos então, de uma busca por uma nova forma de olhar e de se relacionar, na qual se privilegie a profusão de idéias. Fazia-se necessário compreender que o insuportável hábito de atribuir a uma cidade a culpa de todos os males de uma cena artística enfadonha, como se uma névoa misteriosa e insuperável circunscrevesse nosso território geográfico, é algo de um cinismo merecedor da mediocridade que nos envolve.
Modificar esse cenário, significaria, antes de mais nada, assumir esse comportamento autodefensivo e trabalhar efetivamente para expulsar o pensamento introjetado em nossa conduta, assumindo o papel de uma comunidade que constrói aos outros ao se construir e colabora consigo mesma, ao se respeitar.
Assim, o objetivo do Ciclo de Ações era desde o princípio, abrir as portas da Casa Hoffmann para o diálogo da comunidade artística, ampliando e multiplicando as informações geradas naquele centro de estudos, fazendo com que essas informações ganhassem propulsão através da realização performática. Curadores e organizadores do evento se distribuiriam nas mais diversas tarefas, da organização do café para receber o público ao cuidado com os artistas.
Um segundo aspecto, igualmente importante, concentrava-se no intuito de aproximar o público da performance art e das linguagens de fronteira, tornando disponível à platéia a possibilidade de compartilhar trabalhos em processo15, trabalhos que dialogassem com limites, sejam estes morais, físicos ou semânticos.



fimdocomeço, de Lauro Borges. Fotografia de Fernando Augusto, 2003.




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