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Instituto de Psicologia - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Aula 02 - História de Psicologia 2007/2

 

O início da psicologia científica

Leslie Spencer Hearnshaw

 

Hearnshaw, L. S. (1987). The shaping of modern psychology



(Capítulo 9, pp. 124-148). London: Routledge.

(Traduzido por Caroline Passuello, Mariana Raymundo e Mayte Amazarray

 e revisado por Cristina Lhullier e Janaína Pacheco.)

 

I

A psicologia científica nasceu nas Universidades alemãs no século XIX e, desde então, difundiu-se para todo o mundo desenvolvido. Este nascimento na Alemanha não foi acidental. A psicologia científica é um produto da universidade moderna que, com sua dupla ênfase no ensino e na pesquisa, foi primeiramente estabelecida na Alemanha. Conforme observou, um século atrás, o historiador James Bryce “não existe nenhum povo que tenha dado tantas idéias e tanto suor para o desenvolvimento do sistema universitário como os alemães têm feito - em nenhum outro setor da vida nacional eles se dedicaram tanto”.1 Como resultado da fragmentação da nação alemã em numerosos reinos, ducados, bispados e cidades autônomas, bem como da falta de um governo central efetivo antes de 1870, havia muito mais universidades na Alemanha do que em qualquer outro país europeu.

Na ausência de um Estado ou de uma Igreja unificados, as universidades tornaram-se um condutor primordial da cultura nacional. Com o desenvolvimento da faculdade de filosofia no século XVIII, a fim de complementar as tradicionais faculdades de teologia, direito e medicina, surgiu a idéia da ampla e enciclopédica “Wissenschaft”, abrangendo todo o conhecimento, humanístico e científico. A Universidade de Göttingen, fundada em 1734, foi a incorporação da “Wissenschaft, assim como do importante ideal de “Lehrfreiheit” - a liberdade dos professores universitários de dirigirem suas aulas e suas pesquisas sem interferência ou constrangimento, e a liberdade do aluno de estudar o que fosse de seu interesse e escolher os professores de sua preferência, em qualquer universidade, onde receberia a melhor instrução. Esse elemento de liberdade foi um fator importantíssimo para o surgimento de novas disciplinas como a psicologia. Foi, entretanto, a fundação da Universidade de Berlin, em 1810, por Wilhelm von Humboldt que realmente consolidou o modelo da universidade moderna. Isso coincidiu com a reforma da educação primária e secundária por Baron von Stein, com a abolição da servidão e do sistema de castas, bem como com a extensiva modernização do Estado Prussiano, após sua humilhante derrota para Napoleão na batalha de Iena em 1806.

O excelente padrão de ensino e de pesquisa estabelecido na Universidade de Berlin propagou-se rapidamente às outras universidades alemãs que eram instituições mantidas pelo Estado e, deste modo, recebiam grandes quantidades de livros e de equipamentos. Laboratórios bem aparelhados foram estabelecidos para pesquisa em física, química, fisiologia e outras disciplinas científicas. Como Flexner observou em seu livro sobre as universidades, “nenhum outro país, durante o século XIX, reuniu semelhante grupo de cientistas e de estudantes tão notáveis, providos com tantas facilidades ou recompensados com igual respeito.”2 Portanto, não foi acidentalmente que a psicologia científica teve origem na Alemanha.

Apenas no final do século XIX as instituições acadêmicas de outros países ocidentais começaram a competir com aquelas da Alemanha. De fato, antes da fundação do “University Grants Committee” (Comitê de Outorga Universitário), em 1919, as universidades inglesas dificilmente recebiam algum apoio do governo; e antes do estabelecimento da ordem de PhD, no mesmo ano, havia pouca tradição em pesquisa neste país. Nas universidades mais antigas, Oxford e Cambridge, predominavam as disciplinas tradicionais; escolas renomadas em ciências naturais não foram inauguradas antes de 1850 e, até 1870, não existiam laboratórios adequados para pesquisas. Novos temas propostos para estudo freqüentemente confrontavam-se com a oposição conservadora, e isso aconteceu especialmente com a psicologia. Quando, em 1877, James Ward e o racionalista Dr. Venn organizaram um movimento para promover a psicologia experimental como disciplina independente em Cambridge, o “University Senate” (Senado da Universidade) opôs-se à idéia, alegando que iria “insultar a religião  pondo a alma humana nos pratos de balança”. Em Oxford, não havia ensino oficial de psicologia experimental até 1936.



No início de 1870, nos Estados Unidos a situação era muito semelhante. Antes da inauguração da Universidade de Johns Hopkins, em 1876, nenhum estudo ou pesquisa significativa, que seguisse o padrão alemão, fazia parte do modelo de educação americana. Durante a breve liderança de Stanley Hall, que foi nomeado para o corpo docente em 1881,3 Johns Hopkins logo se tornou a pioneira no desenvolvimento da psicologia americana. Progressos similares rapidamente seguiram-se em Harvard, Yale, Columbia, Princeton e em outras universidades americanas, apoiados pela fundação de revistas e de associações acadêmicas. O ambiente necessário para o crescimento de uma psicologia científica espalhou-se de sua terra natal, a Alemanha, para o outro lado do Atlântico, acarretando importantes conseqüências.

De acordo com o que comentamos no último capítulo, a psicologia científica foi a união resultante da antiga psicologia filosófica com o novo espírito experimental das ciências naturais, em particular da fisiologia experimental. As universidades alemãs possibilitaram as condições necessárias para este  encontro. A primeira parte do século XIX foi um período de um vigoroso debate filosófico na Alemanha. A figura gigantesca de Kant havia elevado a discussão filosófica a um novo nível de sofisticação, mas sua filosofia crítica, enquanto aparentemente solucionadora de alguns problemas, acabou dando origem a outros, e a dicotomia entre os mundos material e espiritual gerou tantas discussões  quanto o dualismo mente-corpo de Descartes. Um poderoso grupo de pensadores idealistas, dos quais Fichte, Schelling e Hegel eram os mais proeminentes, tentaram transcender as restrições que Kant havia imposto ao pensamento especulativo, e, por algum tempo, dominaram a filosofia alemã. Contudo, seus delírios metafísicos e dogmatismos não-científicos contribuíram para a alienação de vários pensadores realmente preocupados com os rumos da ciência. Depois da morte de Hegel, em 1831, a escola idealista perdeu terreno, embora sua influência jamais tenha se extinguido. A escola idealista se desenvolveu sob ataque constante. Feuerbach, que foi alvo de atenção de Marx e Engels, em sua Critique of the Hegelian Philosophy (Crítica da Filosofia Hegeliana - 1839) acusou-a de ser uma mera teologia disfarçada. Em todas essas vigorosas controvérsias metafísicas, o status da mente e a possibilidade de uma psicologia científica tiveram uma participação fundamental. Uma corrente de obras filosóficas centradas na psicologia, a maior parte delas hoje esquecida, emergiu das universidades alemãs entre 1830 e 1860. Havia bastantes argumentações, mas ainda faltavam conclusões concretas. Foi aqui que os progressos na fisiologia pareciam estar abrindo novas possibilidades, e pelo menos em certas áreas restritas da psicologia, particularmente a psicologia sensorial, estavam sendo produzidas respostas experimentais. O primeiro laboratório fisiológico foi inaugurado na Universidade de Breslau, que naquela época fazia parte da Alemanha, pelo fisiólogo J. E. Purkinje, conhecido pelos psicólogos principalmente por sua contribuição no estudo da visão. Em seguida, outras universidades seguiram este modelo. Em 1833, Johannes Müller foi indicado como professor de anatomia e fisiologia na Universidade de Berlin, e foi aí que ele produziu seu monumental Handbuch der physiologie des Menschen (Manual de Fisiologia Humana - 1833-40, tradução para o inglês- 1842). Müller foi um pesquisador produtivo em vários campos: microanatomia, embriologia, zoologia marinha, fisiologia experimental e psicologia fisiológica. Ele sintetizou o conhecimento fisiológico de sua época. O seu estudo mais importante foi o das sensações, segundo o qual tanto os fatores psicológicos como fisiológicos tinham participação nestas; e sua lei das energias específicas, na qual afirmava que cada rota de um nervo sensorial, uma vez estimulada, originava apenas um determinado tipo de sensação. Ele contou com várias figuras famosas entre seus alunos, inclusive o grande Helmholtz. Em Leipzig, E. H. Weber conduziu suas investigações pioneiras sobre o tato sensível, publicadas no clássico Der Tastsinn und das Gemeingefühl (Sobre o tato e a sensibilidade comum, 1846).4 Em suas pesquisas, ele empregou pela primeira vez o método das “diferenças apenas perceptíveis”, que pode ser considerado como o início da psicofísica e do acesso quantitativo à psicologia, e formulou a lei na qual as diferenças perceptíveis são constantemente proporcionais às magnitudes do estímulo original. Entre os alunos de Weber, em Leipzig, estava R. H. Lotze, formado em medicina, mas com uma inclinação à filosofia, que reuniu as correntes fisiológicas e filosóficas em seu influente Medizinische Psychologie, oder Psychologie der Seele (Psicologia Médica ou Psicologia da Alma  1852).

O caminho havia sido preparado para o nascimento de uma psicologia que era tanto quantitativa quanto qualitativa, tanto experimental quanto introspectiva, organizada, sistemática e com sua identidade própria. Entre 1850 e 1879 três grandes figuras em particular marcaram este caminho. Fechner formulou os métodos básicos de psicofísica quantitativa, Helmholtz sistematizou o acesso experimental aos problemas da percepção sensorial, bem como mediu a velocidade dos impulsos nervosos; e Wundt organizou toda a área da psicologia fisiológica, relacionado com o grande domínio da psicologia em geral, e deu à psicologia sua identidade institucional.

 

II

G. T. Fechner (1801-1887), uma estranha mistura de físico, filósofo, esteta, místico e psicólogo ‘inadvertido’, fez mais que qualquer outro individualmente, exceto talvez por Helmholtz, modificando o curso da psicologia acadêmica.5 Trabalhando assiduamente em um problema estritamente individual - a relação entre estímulo e sensação - ele introduziu a metodologia, a experimentação sistemática e a avaliação quantitativa dos resultados. Apesar da discussão de suas hipóteses e de suas conclusões, ele inaugurou uma nova era no estudo dos processos mentais. Segundo Boring, “Elemente der Psychophysik” (Elementos de Psicofísica - 1860) de Fechner encontra-se no topo da nova ciência da psicologia.”6 Nas palavras de um comentarista mais recente, Fechner “inventou métodos de mensuração psicológica baseado em considerações estatísticas, que são os verdadeiros fundamentos da psicologia experimental de nossos dias”.7 Embora Fechner tenha se iludido ao pensar que estaria lançando os fundamentos da “ciência exata da relação (ou relações) funcional de dependência entre corpo e mente”,8 e que sua lei psicofísica alcançaria no campo das relações mente-corpo um significado tão genérico e fundamental como a lei da gravitação no campo da mecânica;9 ele defendeu, contudo, a necessidade para a psicologia de haver recursos de “seu próprio laboratório, sua própria aparelhagem e seus próprios métodos”.10  E isto foi revolucionário. Experimentos, mensurações e propostas psicofísicas ocasionais já haviam sido feitos anteriormente, mas com Fechner tornaram-se sistematizados e estudados detalhadamente.11

O “Elemente der Psychophysik” finalmente foi publicado em 1860, depois de dez anos de trabalho assíduo, seguindo-se o afastamento prematuro de Fechner  das cadeiras de física em Leipzig, e um período prolongado de invalidez. Fechner, filho de um pastor, estava profundamente contrariado com o progresso do materialismo de sua época e, em oposição aos materialistas, acreditava na presença universal da alma - inclusive escreveu um livro sobre a alma dos vegetais - e defendia a idéia de que mente e corpo são dois aspectos, interno e externo, de uma realidade implícita. Ele começou a provar que isto funcionava desta forma, experimentalmente e matematicamente, estabelecendo uma relação constante e legítima entre os dois. Essa foi a motivação do trabalho que ele intitulou de “psicofísica”. Iniciou com o que chamou de “psicofísicas externas”, a relação entre estímulos externos e sensações, porém ele acreditava que os mesmos princípios poderiam ser aplicados também às funções mentais complexas. “As atividades mentais superiores”, escreveu, “não menos que a atividade sensorial, a atividade da mente como um todo, assim como em detalhes, é o objeto para a determinação quantitativa.”12 Isto, entretanto, foi uma área que ele nunca investigou a fundo, exceto na área da estética.13

O problema essencial, caso a mente fosse mensurável, era o de estabelecer uma escala de unidades e um ponto zero, a partir do qual as mensurações poderiam iniciar. A mente não poderia ser medida diretamente, mas Fechner acreditava que havia encontrado uma escala indireta apropriada nas diferenças apenas perceptíveis (d.a.p.) de E. H. Weber, que havia estabelecido alguns anos antes baseando-se nas evidências experimentais que d.a.p., no domínio de cada sensação, revelavam uma razão constante à magnitude do estímulo inicial. Assim, se poderia tomar como ponto zero, o limiar absoluto, abaixo do qual um estímulo é imperceptível. A magnitude de qualquer sensação poderia então ser verificada pelo número de d.a.p. superiores ao ponto zero. Para expressar isso numericamente e para estabelecer a lei relacionando as magnitudes do estímulo e das sensações, Fechner levou adiante prolongadas séries de experimentos, conferindo pesos, estimando brilhos visuais, julgando diferenças táteis e visuais. Fechner reconheceu que a experimentação psicológica envolvia dificuldades especiais, pois os resultados variavam segundo as condições, que não podiam ser completamente padronizadas, portanto os resultados deveriam ser avaliados estatisticamente. Os três métodos psicofísicos de Fechner, foram denominados de: os métodos das d.a.p.; o método dos casos certos e errados; e o método do erro médio. Estes foram os primeiros projetos sistemáticos experimentais em psicologia, assim como sua aplicação da teoria de probabilidades para a avaliação dos resultados numéricos foi o começo da psicologia estatística.14  O capítulo 8 do “Elemente der Psychophisik”, no qual Fechner discute sobre métodos de mensuração das sensações e sobre as precauções necessárias no uso destes, é um clássico na história da psicologia e inclusive pode ser lido com proveito do pesquisador até mesmo nos dias de hoje. O resultado da longa pesquisa de Fechner foi a formulação de sua  famosa lei logarítmica, que postulava que a grandeza de uma sensação varia de acordo com o logarítmo do estímulo.

O trabalho de Fechner não foi tão importante pelo que estabeleceu, mas também pelo que iniciou. Houve desde o início objeções aos seus procedimentos. Ele assumiu a validade geral da lei de Weber, que as d.a.p. poderiam ser tomadas como unidades equivalentes e que os limiares poderiam ser considerados como pontos zero.15 Brentano prontamente suscitou objeções contra a lei logarítmica, sugerindo uma alternativa, porém ele nunca a provou com evidências experimentais, e, por isso, foi ignorada até que, muitos anos depois, fosse embasada empiricamente pelo pesquisador sueco Ekman.16 William James ridicularizou essas iniciativas, negando que as sensações poderiam ser consideradas unidades de massa  “nossa sensibilidade pelo rosa certamente não é uma porção de nossa sensibilidade pelo vermelho”.17

O problema de quantificar as sensações tem sido infinitamente discutido pelos psicólogos por mais de um século sem se chegar a um acordo.18 Durante o domínio do behaviorismo, inclusive haviam dúvidas quanto ao que a psicofísica se referia. Entretanto, a lei logarítmica foi largamente aceita como uma útil generalização até a primeira metade do século XX. Foi aplicada em situações práticas, como a escala de decibéis para medir a intensidade sonora. Até mesmo a antiga escala de magnitudes estelares, formulada pelo astrônomo grego Hiparcos, no segundo século AC, foi aproximada logaritmicamente, e, desde a introdução da medida fotométrica, tem sido ajustada a uma função logarítmica. A confirmação fisiológica veio do trabalho das correlações nervosas das sensações feito por Adrian,19 que descobriu que a frequência dos impulsos neurais aumentavam como uma função logarítmica da intensidade da luz. Depois de 1950, S. S. Stevens20 apresentou claras evidências de que na avaliação da sonoridade e do brilho não se obtinha a função logarítmica, propondo, então, uma poderosa lei que afirmava que em toda modalidade sensorial, a magnitude de uma sensação é uma função direta do estímulo.

Quaisquer que fossem as objeções às propostas iniciais de Fechner, o uso de métodos quantitativos em psicologia tem proliferado, e uma nova psicologia tem surgido baseada no antigo modelo Fechneriano. Métodos de escalas diretas tem conduzido a uma grande variedade de aplicações de técnicas quantitativas a outras áreas além da sensação;21 e no campo da sensação novas teorias, como as teorias do quanta neural22 e da detecção dos sinais,23 tem originado novas áreas de investigação. A psicologia matemática tem se desenvolvido enormemente, bem como tem se tornado uma área altamente especializada com suas próprias revistas técnicas.24 Tudo isso se deu graças à iniciativa de Fechner.

Os problemas, evidentemente, persistem. Um especialista na área da psicologia matemática é modesto em relação às realizações desta ciência e ainda tem dúvidas quanto ao seus fundamentos, dizendo que ainda existe “o medo assustador de que a matemática existente não seja, na verdade, particularmente adaptada para os problemas psicológicos”.25 Aparte disso, duas questões fundamentais estavam envolvidas nos problemas Fechnerianos e, principalmente, na psicofísica  a natureza da mensuração e o status das sensações. Um grande foco de discussões relacionadas com a natureza da mensuração foi conduzido tanto por físicos como por psicólogos; gradualmente uma visão menos restrita da mensuração tem prevalecido, legitimando técnicas mais moldadas ao domínio psicológico do que escalas comumente empregadas na física.26 O status das sensações originou dois problemas centrais: a relação da ordem sensorial com o mundo externo e seu espaço dentro do domínio psicológico. Com o fim do simples dualismo, o empenho de Fechner ganha um caráter diferente. As sensações passam a ser mais uma forma de linguagem do que algo paralelo à física, e o estabelecimento de uma relação funcional direta entre estímulos e sensações torna-se uma prática incerta quando transduções complexas intervêm no processo. Além disso, as sensações não podem ser totalmente separadas de seu ambiente psicológico. Como Stern apontou, “todos os limiares que nós estudamos através da ciência empírica estão sujeitos não apenas a fatores constitucionais genéricos, mas também a fatores individuais estabelecidos pelo estímulo e o significado pessoal daquele estímulo no momento”.27 Contudo, apesar destes problemas, não há dúvidas de que Fechner deu uma nova dimensão à psicologia, e o que havia sido até o momento uma disciplina essencialmente filosófica tornou-se tanto quantitativa como experimental. Ele é, portanto, uma das figuras chaves na história da psicologia moderna.

 

III

Hermann von Helmholtz (1821-1894), um jovem contemporâneo de Fechner, certamente foi outro pesquisador importante. Um dos grandes cientistas da época, igualmente renomado como físico, fisiologista, matemático e psicólogo, trouxe todo o arsenal científico para dar apoio a uma área de investigação psicológica, a da percepção sensorial, e mais do que qualquer outro estabeleceu o modelo para o desenvolvimento de uma psicologia experimental. Graduado em medicina por Johannes Müller em Berlim, tendo, depois de sua qualificação, trabalhado por cinco anos como cirurgião do Exército, ele dedicou-se a lecionar cadeiras em fisiologia, anatomia e física em diferentes universidades alemãs. Além disso, ele foi um homem de cultura ampla e geral, versado em diversos idiomas e ainda admirador de música e artes visuais. Ele atribuiu muito de seu sucesso ao fato de que não era estritamente especializado e lamentou o crescente abismo existente entre a ciência e as humanidades.28 Ele estava idealmente equipado para o lançamento da psicologia a um novo plano, mesmo que jamais tivesse a pretensão de ser um psicólogo. Como Brett observou, o trabalho de Helmholtz constituiu “a verdadeira base da psicologia experimental”.29



Helmholtz, ainda muito jovem, mesmo antes de alcançar seu primeiro posto acadêmico, disparou repentinamente para a fama em 1847 com seu discurso “Sobre a conservação da força” para a Sociedade Física de Berlim.30 Este tem sido descrito como sendo, juntamente com a doutrina da evolução, uma das duas grandes generalizações científicas do século XIX.31 Apesar de haver sido pronunciada por vários outros cientistas, a concepção de Helmholtz de um estoque fixo de energia no universo destacou-se das demais por sua formulação precisa e apoio em provas experimentais. Em particular, Helmholtz demonstrou que os ganhos e as perdas de organismos animais estavam submetidos à lei da conservação e, contrariamente aos dogmas do vitalismo, deveriam ser considerados como parte da ordem natural. Em 1850, depois de se transferir de Berlim para Königsberg como professor de fisiologia, foi bem sucedido ao medir a velocidade dos impulsos nervosos, primeiro nos sapos e depois no homem, e estabeleceu o fato de que estes não eram instantâneos, ou quase instantâneos, como se acreditava anteriormente, mas comparativamente, lentos. Esta descoberta logo foi sustentada pelo problema da “equação pessoal” na cronometragem precisa das observações, enfrentado pelos astrônomos, e conduziu a um dos maiores tópicos de investigação nos primeiros anos da psicologia experimental: os tempos de reação.32 Isto implicava claramente que os processos mentais, uma vez que envolviam sequências causais no tempo, eram parte do mundo físico. Foi durante o andamento desta pesquisa que Helmholtz proferiu sua importante conferência “On methodos of measuring very small intervals of time, and their application to physiological purposes” (Sobre os métodos de mensuração de pequenos intervalos de tempo e suas aplicações às questões fisiológicas),33 que veio a ter uma influência significativa tanto na psicologia experimental como na fisiologia. No mesmo ano, ele inventou o oftalmoscópio, um instrumento genialmente simples para examinar a retina do olho, e sua atenção direcionou-se cada vez mais ao estudo dos processos visuais. Seu discurso inaugural em Königsberg, em 1852, foi On the Nature of Human Perceptions (Sobre a Natureza das Percepções Humanas). O resultado final desses estudos foi seu triplo volume “Treatise on Physiological Optics” (Tratado sobre Ótica Fisiológica)34, o qual William James, que era crítico de alguns aspectos das teorias de Helmholtz, descreveu como “uma das quatro ou cinco maiores obras do gênio humano na linha científica”.35 A obra Physiological Optics foi seguida de um tratado igualmente exaustivo sobre o sentido da audição em Sensations of Tone (As sensações dos sons).36 Com o surgimento dessas obras mestras, segundo as palavras do próprio Helmholtz, “a arte da experimentação, que tem se tornado tão importante nas ciências naturais, encontrou uma entrada no campo até agora inacessível dos processos mentais.”37

Essas obras continuam ilustrando exemplos de metodologia científica e de perfeição até os dias atuais. Helmholtz aproximou o estudo dos sentidos à precisão de um pesquisador científico. Toda conclusão era confirmada por observação ou experimentação cuidadosas. “A principal preocupação que eu tenho tido tem sido a de verificar todos os fatos importantes através das evidências de meus próprios olhos e de minha própria experiência”.38 Nos seus estudos em matemática e física, Helmholtz aprendeu a importância da precisão. Em uma carta para seu pai ele escreveu: “nós que aproximamos as ciências naturais ao ponto de vista matemático somos disciplinados para uma plena exatidão na testagem dos fatos e consequências, assim como somos compelidos a proceder através de passos pequenos e seguros nas hipóteses nas quais nos empenhamos em examinar, o que ainda é um oceano inexplorado”.39 Quando necessário ele recorria às ferramentas instrumentais; inventou novos aparelhos, como o oftalmoscópio; o oftalmômetro para medir a curvatura da córnea, ressonadores para amplificar tons parciais e o taquistoscópio. Também era um adepto à improvisação de equipamentos e construção de “partes de instrumentos para seus experimentos óticos a partir dos carretéis de sua esposa e dos blocos de brinquedos de seus filhos, com extremidades cônicas de cera e pedaços de barbantes”.40 Ele enfatizou a necessidade do cientista de possuir habilidades manuais. A isto ele acrescentou poderes extraordinários de observação analítica; na verdade, este cientista prático foi um dos mais brilhantes dos introspeccionistas psicológicos, havendo dúvidas se não foi ele, acima de todos os outros, que teria estabelecido o modelo de introspecção formal, o qual se tornou a característica central da primeira era da psicologia experimental. Finalmente, este perito em experimentação ainda enfatizou a necessidade dos conhecimentos teóricos: “o único experimentador bem sucedido na ciência física será o homem que possuir um conhecimento teórico completo e que souber como propor as questões corretamente de acordo com isso; enquanto que, por outro lado, só poderão teorizar com proveito aqueles que tiverem um amplo conhecimento prático do trabalho experimental”.41 Helmholtz trouxe para suas investigações não só uma poderosa mente teórica, mas também um amplo conhecimento da história dos estudos anteriores. Talvez sua contribuição mais importante para a psicologia seja seu domínio da metodologia científica e seu reconhecimento de que essa metodologia era aplicável a pelo menos alguns problemas da mente.

As pesquisas psicológicas de Helmholtz foram restritas aos dois sentidos superiores da visão e da audição. Ele considerou essa área especialmente importante porque “a fisiologia dos sentidos é o limite de uma área em que as duas grandes divisões do conhecimento humano, as ciências natural e mental, invadem uma o domínio da outra e os problemas levantados são importantes para ambas, bem como somente um trabalho conjunto das duas pode resolvê-los”.42 Ele foi realmente um tanto cético quanto a até que ponto os métodos científicos poderiam ser aplicados à “ciência mental”. Ele falou de uma “diferença genérica entre as ciências naturais e morais”43 e afirmou que “na vida mental as influências são tão interligadas que nenhuma seqüência definida pode, exceto raramente, ser demonstrada”.44 Contudo, ele sustentou que “a memória, as experiências e as práticas, também são fatos, portanto suas leis podem ser investigadas”;45 e o futuro comprovaria que os métodos experimentais poderiam ser aplicados bem mais extensivamente do que da maneira como ele próprio os aplicava. Sua importância foi ter estabelecido um modelo metodológico.

Suas duas obras sobre visão e audição foram fruto de anos de trabalho paciente, nos quais todos os aspectos desses dois sentidos: físico, fisiológico, psicológico e estético, eram comparados, examinados e testados.46 Por meio de observação extremada e meticulosa, e pelo uso de engenhosos equipamentos, Helmholtz revelou muitas novas facetas dos processos sensoriais, algumas das quais eram comumente ignoradas e outras combinaram-se para criar uma impressão completa. “O trabalho de Helmholtz sobre ótica”, comentou James, “é um pouco mais do que um estudo daquelas sensações visuais que o homem comum nunca toma conhecimento  pontos cegos, muscae volitantes, pós-imagens, etc... Percebemos somente aquelas sensações que significam alguma coisa para nós”.47 Ao ouvir acompanhamentos musicais muito atenciosamente, tons parciais e tons combinados “não eram, como pensava-se anteriormente, fenômenos isolados de pouca importância, mas, com raras exceções, determinavam as qualidades do tom de quase todos os instrumentos”.48 Helmholtz percebeu que esse fenômeno “pode ser submetido a objeto de percepção analítica sem qualquer outra ajuda do que a própria direção da atenção”,49 lançando, assim, o modelo de introspecção experimental do final do século XIX. Muitos dos seus experimentos eram extremamente simples e poderiam ser executados por qualquer um sem nenhum equipamento muito sofisticado. Um exemplo: para explicar os efeitos do contraste Helmholtz cobriu metade de uma folha de papel branco com um pedaço de papel preto; fixava seus olhos em direção a um ponto da parte branca próximo à parte preta; depois de mais ou menos um minuto retirava a folha preta, e então a metade da folha branca agora exposta aparecia repentinamente com muito mais brilho. Essas observações e esses experimentos simples eram significativos por causa de seu embasamento teórico. É graças a seus propósitos teóricos, que o trabalho de Hemholtz é particularmente famoso  a redescoberta da teoria tricromática das cores de Young, sua teoria da ressonância da audição e sua teoria geral da percepção  assim como pela riqueza de detalhes com que ele descreveu a fisiologia e a psicologia dos sentidos.

A atitude básica de Helmholtz para o estudo da percepção humana foi empirista e Lockeana. A aproximação metafísica aos Hegelianos ele considerou fundamental para “a tomada de falsas conclusões”50 e, apesar de admirar a crítica doutrina Kantiana do conhecimento, rejeitou sua teoria a priori de intuição espacial. A percepção, incluindo a percepção espacial, era construída a partir da experiência. As sensações eram meros símbolos ou signos para as relações reais dos objetos. Os signos não eram imagens ou cópias do que eles representavam a forma dos signos dependia de sua ordenação sistemática ou de suas combinações. Nós aprendemos através da experiência, principalmente pela atividade e pelo movimento em nossos primeiros anos de vida, o significado desses signos. Então “os testes que empregamos através dos movimentos voluntários do corpo são da mais alta importância para reforçar nossa convicção da exatidão da percepção que temos de nossos sentidos”.51 Nosso interesse básico em olhar e ouvir é prático. Reconhecemos objetos e interpretamos sons a fim de reagirmos apropriadamente em relação a eles. Desta forma, os numerosos defeitos do sistema visual (aberração cromática, astigmatismo, pontos cegos, sombreamentos venosos, etc.) são negligenciados, e, apesar da mobilidade dos olhos, um mundo estático dos objetos é percebido. Percepções que parecem imediatas e simples são na verdade adquiridas vagarosamente e de forma complexa. Em sua última contribuição para a teoria da percepção, um artigo escrito no último ano de sua vida, ele escreveu,

Através de repetições freqüentes de experiências semelhantes, nós podemos atingir a produção e o contínuo reforçamento de uma associação regularmente repetida entre duas percepções ou idéias diferentes, por exemplo, entre o som de uma palavra e a percepção visual ou tátil de imagens, que originalmente não precisam possuir nenhuma conexão natural; e quando isto tiver acontecido não estaremos longe de reportar com detalhes como chegamos a esse conhecimento no qual se baseia a observação individual.52

Uma grande quantidade de nossos julgamentos perceptuais, dessa forma, dependem do que Helmholtz denominou “inferências inconscientes”, e no caso das ilusões perceptivas essas inferências nos enganam. Nas palavras recentes de Gregory, “as percepções são como hipóteses científicas”.53

O trabalho de Helmholtz sobre os sentidos humanos da visão e da audição foi um enorme avanço em relação a seus antecessores e foi o fundamento de todo o trabalho futuro, assim como o verdadeiro início da psicologia experimental. Na geração anterior, James Mill escreveu sobre visão e audição somente utilizando termos gerais e vagos,54 e até um contemporâneo de Helmholtz, Bain, que pretendia unir a psicologia à fisiologia, produziu muito pouco para a época e limitou suas observações sobre visão em cores a uma nota de rodapé sem importância.55   Helmholtz transformou o panorama. Nem todas as suas descobertas têm sido aceitas. Em particular psicólogos influenciados pela tradição fenomenológica, Hering com respeito à visão, e Stumpf, com respeito à audição, apontaram para aspectos não abordados por Helmholtz e propuseram teorias alternativas. Um século a mais de trabalho naturalmente produziu novas descobertas desconhecidas por Helmholtz. Mesmo assim, ainda continua sendo verdadeiro que, no campo da psicologia sensorial, Helmholtz formulou os fundamentos nos quais se baseia todo o trabalho subseqüente, e os métodos empregados por ele para estudar os sentidos têm sido incorporados por grande parte da psicologia.

 



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