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JORNALISMO E PAULO FREIRE: o conhecimento do desvelamento1


JOURNALISM AND PAULO FREIRE: the knowledge of the unveiling

Alfredo Eurico Vizeu Pereira Junior2



Resumo: O presente trabalho tem como preocupação esboçar o conceito provisório de conhecimento do desvelamento no Jornalismo. A preocupação é deter a ideia de um conhecimento que se buscar tornar mais comum e mais acessível, mas não se trata de um conhecimento acabado, sempre um conhecimento aproximado. Tomamos como base os estudos realizados por Paulo Freire no que diz respeito ao seu método bem como a tomada de consciência. No trabalho também são mobilizadas as Teorias e Estudos do Jornalismo bem como questões do construtivismo, da ética, do método jornalístico e da objetividade.
Palavras-Chave: Jornalismo, tomada de consciência, conhecimento do desvelamento.
Abstract: The present work is preoccupied in delineate the provisional concept of knowledge of the unveiling in Journalism. The preoccupied is to stop the idea of seeking knowledge that is becoming more common and affordable, but it is not a finished knowledge, always an approximate knowledge. We take as a basis the studies by Paulo Freire in regards to the method as well as awareness making. At work are also mobilized the Theories and Studies of Journalism as well as issues of constructivism, ethics, journalistic method and objectivity.
Keywords: Journalism, awareness making, knowledge of the unveiling.

O Jornalismo é uma atividade central nas sociedades democráticas. Deve ter como preocupação contribuir para o acesso e a compreensão de homens e mulheres do mundo que os cerca. O Jornalismo é nesse sentido uma espécie de “lugar de referência” para homens e mulheres (CORREIA; VIZEU, 2008). Um “lugar” para muitos brasileiros muito semelhante ao da família, dos amigos, da escola, da religião e do consumo. Quando assistimos a um telejornal, em particular, é como se víssemos o mundo, ele está, ele nos vê. Para o bem ou para o mal o Jornalismo contribui para contextualizar e também pode ajudar na compreensão do entorno em sociedades cada vez mais complexas (MELLUCI, 2001).

A importância do Jornalismo não é uma questão da contemporaneidade. Remete-nos aos estudos de Tobias Peucer (SOUSA, 2004), cuja tese doutoral De Relationibus Novellis no século XVII, tratava das relações e relatos dos jornais e das notícias. Para Peucer, a vertente informativa dos jornais está claramente vinculada a comunicação jornalística, embora possa ter outras finalidades, serve essencialmente para informar. Em outras palavras, mostra a relevância do Jornalismo em contribuir para situar o homem no mundo.

Otto Groth dá uma dimensão ainda maior ao Jornalismo ao propor uma ciência periodística. Em 1910, começou a publicar quatro volumes que são uma verdadeira enciclopédia do Jornalismo. Mas, sua reflexão mais estruturada, em que fundamenta a autonomia de uma ciência jornalística, começou a ser publicada em 1960 e mostra a importância do Jornalismo para a sociedade (GROTH, 2011).

Na contemporaneidade, mais de uma centena de autores enfatizaram e pesquisaram a relevância do Jornalismo para a sociedade moderna. A afirmação de Schudson (1996) de que os cidadãos e cidadãos mais informados criarão uma melhor e mais completa democracia (Schudson, 1996) reforça a perspectiva da importância do Jornalismo na democracia. Como observa o autor, o Jornalismo é uma instituição central na sociedade moderna, uma referência do conhecimento e da autoridade cultural (SCHUDSON, 1996).

Mas, a importância do Jornalismo para a sociedade não é uma questão só de autores estrangeiros. O patrono e pioneiro da nossa imprensa, Hipólito José da Costa, no editorial de lançamento do Correio Braziliense, em 1808, já destacava a importância do Jornalismo. Como observa Melo (2009), o jornal publicado por Hipólito da Costa circulou até a fase em que o Brasil passou à condição de Reino Unido a Portugal. Mas, o importante é que o jornal, reforçando a importância do Jornalismo, difundiu no Brasil o ideário liberal, bem como a emergente doutrina da liberdade de imprensa, que são as bases do Jornalismo brasileiro. Como observa Melo (2006), o jornal publicado por Hipólito da Costa circulou até a fase em que o Brasil passou à condição de Reino Unido a Portugal.

O autor mais enfático na relevância do Jornalismo é, sem dúvida, Ruy Barbosa, para quem a imprensa é a vista da Nação que acompanha de perto aqueles que tramam contra ela, contra os que sonegam, roubam. Deve ter como preocupação denunciar os corruptos, aqueles que lesam o País. Televisões, rádios, jornais, Internet, redes sociais e outras formas de expressão jornalística não cansam de denunciar políticos, prefeitos e empresários que se apropriam do dinheiro público. Essa atividade do Jornalismo é básica na democracia (BARBOSA, 2004).

Essa breve introdução teve como preocupação fazer uma concisa discussão que aponta para a produção de uma Teoria Social do Jornalismo que contribua para construção, legitimação e consolidação do campo, central na sobrevivência da democracia.

É nessa perspectiva que temos buscado apontar alguns caminhos para entendermos esse processo (MACHADO, 2005). Dentro desse contexto compartilhamos a definição de Lorenzo Gomis, para quem o Jornalismo é o resultado de uma atividade profissional de mediação vinculada a uma organização que se dedica basicamente a interpretar a realidade social e mediar os que fazem parte do “espetáculo mundano” e o público. A mídia não só transmite, mas prepara e apresenta uma realidade dentro das normas e das regras do campo jornalístico contribuindo dessa forma para a percepção do mundo da vida (GOMIS, 1991).

A nossa preocupação neste trabalho é estudar o conhecimento do Jornalismo que faz parte dos estudos desenvolvidos no Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade da Universidade Federal de Pernambuco. Nesse sentido estamos propondo provisoriamente a hipótese do Jornalismo como um conhecimento do desvelamento com base numa ampla investigação da obra de Freire (2005), entre outros autores. Antes de entrar na discussão do conhecimento consideramos necessário contextualizar de que Jornalismo estamos falando. Por isso, começamos com uma breve definição do campo jornalístico, para depois tratarmos do construtivismo jornalístico. O Jornalismo é um campo de conhecimento e uma prática social. Ou seja, há um campo jornalístico, constituído por regras, normas, rotinas, pela linguagem, pelas pressões econômicas, políticas e sociais, bem como pela disputa de uma hegemonia entre os agentes que o constituem.

Para Bourdieu (1997):

um campo é um espaço social estruturado, um campo de forças – há dominantes e dominados, há relações constantes, permanentes, de desigualdades que se exercem no interior desse espaço – que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse espaço de forças. Cada um, no interior desse universo, empenha em sua concorrência com os outros a força (relativa) que detém e que define sua posição no campo e, em conseqüência e estratégias (Bourdieu, 1997, p. 57).

Bourdieu (1997) defende que os jornalistas na lógica de sua profissão selecionam e enquadram as realidades do cotidiano em função de categorias que lhe são próprias, resultado da nossa educação, da história e da cultura. No entender do autor, os jornalistas têm “óculos” especiais a partir dos quais veem certas coisas e não outras.

Nesse sentido, é que ao refratar o mundo como “óculos” o Jornalismo contribui para a construção social da realidade. Ou seja, o Jornalismo não reproduz o real, é uma interpretação social dele que procura se aproximar da verdade dos fatos. Hoje essa tendência teórica ganha cada vez mais espaço na academia. No entanto, a teoria do espelho ainda está bem presente nas redações de todo o País. Ou seja, a ideia de que o Jornalismo consegue reproduzir a realidade.

Como lembra Meditsch (2010), convém lembrar também, quando afirmamos que o Jornalismo contribui para construção social da realidade, que essa não é uma ação isolada do campo da produção, mas uma relação intersubjetiva entre o campo da produção e homens e mulheres. É uma ação reflexiva (TUCHMANN, 1983). O Jornalismo atua na construção da realidade, mas é constituído por essa própria realidade. Não existe construção do real se não há uma audiência ativa e interativa, que interpreta e reinterpreta os fatos.

A perspectiva construtivista permeia as investigações de vários autores que estudam o Jornalismo(TUCHMANN, 1983; CORREIA, 2011; CHANDLER, 2005; HALL, 2005; GADINI, 2007), com os mais diferentes olhares sobre o tema, desde a Sociofenomenologia até os Estudos Culturais; eles se aproximam na falta de uma definição mais clara e consistente do que seja o construtivismo jornalístico.

Por fim, consideramos importante também refletirmos no Jornalismo a perspectiva apontada por Scolari (2011) sobre a possibilidade de construção de mundos possíveis como um processo coletivo:

Segundo Eco, ao ler um livro ou ver um filme, criamos mundos possíveis, hipóteses que tratam de antecipar a continuação da história. À medida que o relato avança, muitas dessas hipóteses não se verificam e devemos descartá-las. Esse processo é individual, os mundos possíveis são uma construção cognitiva do leitor, ou do espectador. Agora se dá um fenômeno diferente: em certos casos, esta construção de hipotéticos se tornou um processo coletivo. Basta terminar a emissão de um episódio de uma série televisiva, para poucos minutos depois, os fóruns da web entrem em estado de agitação. Os espectadores discutem o texto que acabaram de ver, analisam suas possíveis continuações e debatem sobre os personagens e a trama do episódio. Ou seja, em muitos casos a construção de mundos possíveis deixou de ser um processo coletivo que se desenvolve nas redes sociais (SCOLARI, 2011, p. 130-131).

A proposta de Scolari (2011), sem dúvida, pode trazer importantes contribuições para a reflexão do construtivismo do Jornalismo. O Jornalismo vem passando por uma série de mudanças resultantes das novas tecnologias como, por exemplo, as chamadas redações integradas, que preferimos como expressão ao termo convergência. Entendemos que a expressão redação integradas dá uma imagem mais precisa do que vem ocorrendo hoje no Jornalismo. Para nós, convergência indica uma certa homogeneidade, a criação de um meio, de um suporte único quando avaliamos que o está acontecendo é uma interface cada vez maior dos meios. No entanto, a mudança mais importante do Jornalismo atualmente é a participação cada vez maior das fontes como coprodutoras das notícias o que se aproxima da construção coletiva sugerida por Scolari (2011).

O construtivismo no Jornalismo está intimamente ligado à questão do conhecimento, a produção do conhecimento. Ou seja, há um campo jornalístico, constituído por regras, normas, rotinas, pela linguagem, pelas pressões econômicas, políticas e sociais, bem como pela disputa de uma hegemonia entre os agentes que o constituem.

Nessa perspectiva entendemos que o Jornalismo é uma forma de conhecimento. Um dos primeiros pesquisadores a trabalhar essa perspectiva foi Park (1972). Com base no pensador William James, um dos principais representantes do pragmatismo, movimento filosófico que exerceu profunda influência no pensamento americano durante parte do século XX, Park (1972) afirma que existem dois tipos fundamentais de conhecimento: o conhecimento de e o conhecimento acerca de.

Grosso modo, o autor explica que o conhecimento de é uma espécie de conhecimento que adquirimos no curso dos nossos encontros pessoais e de primeira mão do mundo que nos rodeia. Já o conhecimento acerca de é formal. É o conhecimento que atingiu um certo grau de precisão e exatidão substituindo a realidade concreta por ideias e as coisas por palavras.

Genro (1987), num interessante trabalho, fundamental para quem quer pensar o Jornalismo como uma forma social de conhecimento, apesar de reconhecer a contribuição de Park, critica seus pressupostos teóricos afirmando que ele não vai além da função orgânica da notícia e da atividade jornalística. No entender dele, a postura assumida por Park é redutora porque supõe uma espécie de senso comum isento das contradições internas, cuja função seria somente reproduzir e reforçar as relações sociais vigentes, integrar os indivíduos na sociedade.

Com base no referencial teórico de Genro, Meditsch (1992) argumenta que o conhecimento do jornalismo é diferente do conhecimento da ciência. Enquanto o primeiro é o modo de conhecimento do mundo explicável, o segundo é o modo de conhecimento do mundo sensível. A Ciência trabalha com hipóteses, enquanto o Jornalismo trabalha com o universo das notícias que diz respeito às aparências do mundo.

Ao nível metodológico isso resulta em diferenças importantes. A hipótese está relacionada como a experimentação controlada. É um corte abstrato na realidade através do isolamento de variáveis que permita a obtenção de respostas a um questionamento baseado em conhecimento anterior. A teoria científica expõe uma relação entre fatos e a partir dela surgem novas deduções através da lógica (MEDITSCH, 1992).

De acordo com Meditsch (1992), o Jornalismo, por sua vez, não parte de uma hipótese, mas de uma pauta (agenda de assuntos que podem virar notícia). A pauta, diferentemente da hipótese, não surge de um sistema teórico anterior, mas da observação não controlada (do ponto de vista da metodologia científica). Na pauta, o isolamento das variáveis é substituído pelo ideal de aprender o fato dos mais diversos pontos de vista. Isso determina o limite da abstração possível no modo de conhecimento do Jornalismo e sua possibilidade de acumulação. O conhecimento produzido pelo jornalismo é de fundamental importância para a sociedade.

Ao tratar do tema Sponholz (2007) propõe um conhecimento híbrido do Jornalismo que ficaria entre o senso comum e a ciência. Para a autora, o senso comum não se reduz só às ações cotidianas. É uma espécie de conhecimento “naturalizado” de determinado fato, certo procedimento é assim porque sempre foi assim, não há porque questioná-lo.

Nesse sentido, o senso comum é muito próximo do que Schultz (2003) chamava de atitude natural. Grosso modo, a atitude natural é a suspensão da dúvida. Por exemplo, quando nos levantamos não ficamos nos questionando se vamos morrer. Quando estamos dirigindo um carro não ficamos também nos questionando se o veículo que vem na direção oposta vai bater em nós. É isso que nos mantêm vivos, senão a vida seria insuportável, estaríamos nos questionando o tempo todo e não saberíamos como proceder em situações do cotidiano.

Consideramos com base nos estudos de Paulo Freire (2005) que podemos esboçar provisoriamente o que denominamos a hipótese do conhecimento do desvelamento com o objetivo de procurar entender o conhecimento do Jornalismo. Para o autor, todo o contexto teórico está imbricado com a realidade, com o concreto. Como observa Freire (1976): “nos encontramos envolvidos pelo real, molhados nele, mas não necessariamente percebendo a razão de ser dos mesmos fatos, de forma acrítica” (FREIRE, 1976, p. 135). Para Gomis (1991) “cabe ao jornalista interpretar a realidade social”. Ou seja, contribuir para uma melhor compreensão do mundo para homens e mulheres.

No entendimento do autor, é preciso ir mais além do que os simples fatos para compreender a realidade. É a tarefa que diariamente no cotidiano das redações e nas ruas os jornalistas realizam para desvendar os fatos. Freire faz observações como se estivesse dando uma aula para jornalistas:

(...) ir mais além da mera captação da presença dos fatos, buscando assim, não só a interdependência que há entre eles, mas também o que há entre as parcialidades constitutivas da totalidade de cada um e, de outro lado, a necessidade de estabelecermos uma vigilância constante sobre nossa própria atividade pensante (FREIRE, 1976, p. 136).

A crítica que se pode fazer ao autor é que em poucos momentos tratou dos meios de comunicação. Um deles foi quando se referiu a televisão dizendo que é uma tecnologia e que podemos fazer dela o que queremos. Entendia que a questão dos meios estava intimamente ligada ao poder. Considerava que o importante era perguntar a serviço de quem a televisão estava. “A convicção que tenho, é a de que, resolvida essa situação, de fato problemática, do ponto de vista técnico você tem solução” (FREIRE, P.; GUIMARÃES, S. 1984, p.14).

Avaliamos que a crítica de Freire em nada compromete a contribuição que os trabalhos do autor podem dar aos Estudos de Jornalismo. Lima (2011) preocupado com esta lacuna, na obra do autor quanto aos meios, chega a propor o estudo de Freire no campo da Comunicação numa relação com as instituições religiosas que o mesmo estudou. Julgamos que a entrada do autor no campo do Jornalismo pode se dar pelo seu método, que pode contribuir na investigação jornalística e no conhecimento do Jornalismo.

No que diz respeito ao conhecimento do Jornalismo há uma passagem de Freire no livro Pedagogia da Autonomia que se aproxima muito da questão de que o conhecimento do Jornalismo nunca é um conhecimento acabado. Procura-se trabalhar com os vários ângulos que constituem os fatos, desvendar o acontecimento. Trabalhar com uma objetividade possível.

Freire afirma que não existe distância entre o saber da experiência simples, do senso comum e o que resulta dos procedimentos metodicamente rigorosos, uma ruptura, mas uma superação. “A superação e não a ruptura se dá na medida em que a curiosidade ingênua, sem deixar de ser curiosidade, pelo contrário, continuando a ser curiosidade, se criticiza.” (FREIRE,1994, p. 34). Segundo o autor, é que a curiosidade ao “rigorizar-se” aproximando do seu objeto se aproxima mais da exatidão. Gostaria de enfatizar este aspecto porque o considero importante, com relação ao Jornalismo aproximar-se mais da verdade dos fatos. Não chegamos à verdade dos fatos,, nem a essência dos mesmos. Incorreríamos dessa forma na ingenuidade de que ao Jornalismo é possível reproduzir o real.

A leitura de Freire da superação do senso comum é uma das características do que proponho provisoriamente como a hipótese do conhecimento do desvelamento:

Na verdade, a curiosidade ingênua que, ‘desarmada’, está associada ao saber do senso comum, é a mesma curiosidade que, criticizando-se, aproximando-se de forma cada vez metodicamente rigorosa do objeto cognoscível, se torna curiosidade epistemológica. Muda de qualidade, mas não de essência (FREIRE, 1994, p.34).

O conhecimento do desvelamento que apresentamos aqui guarda um pouco do conhecimento aproximado, ressalvadas as diferenças epistemológicas, de Bachelard (2004). A preocupação é deter a ideia de um conhecimento que se buscar tornar mais comum e mais acessível, mas não se trata de um conhecimento acabado, sempre um conhecimento aproximado. O ato de conhecer nunca é pleno. Sempre trabalhamos com aproximações. É, de certa forma, o que o ocorre no Jornalismo, procuramos nos aproximar dos fatos em busca da verdade do acontecimento. E, isso só é possível com um método, com a investigação jornalística.

As perspectivas apontadas, nessa breve passagem por Bachelard (2004), são caminhos que apropriados com rigor podem contribuir para procurarmos entender o conhecimento do Jornalismo. No entanto, enfatizo é na obra de Paulo Freire que identifico o caminho mais profícuo para tentarmos compreender e procurar definir o conhecimento do Jornalismo, pesquisa na qual damos os primeiros passos.

Na questão do conhecimento do desvelamento há um tema caro a Paulo Freire e básico para o Jornalismo. Tomada de consciência. É por meio da qualidade da informação (investigação) e da ética no Jornalismo que produzimos o conhecimento do desvelamento no Jornalismo que aqui só está esboçado. Na tomada da consciência Paulo Freire explica:

A tomada de consciência se verifica na posição espontânea que meu corpo consciente assume em face do mundo, da concretude dos objetos singulares. A tomada de consciência é, em última análise, a presentificação à minha consciência dos objetos que capto no mundo em que e com que me encontro. Por outro lado, os objetos se acham presentificados à minha consciência e não dentro dela.(...) A tomada de consciência é o ponto de partida. É tomando consciência do objeto que eu primeiro me dou conta dele. Dando-se à minha curiosidade, o objeto é conhecido por mim (...) (FREIRE, 1994, p. 224-5)

Como isso se dá no Jornalismo? Na objetividade possível, na ética e qualidade da informação (investigação que constituem) o conhecimento desvelado que supera a esfera espontânea da realidade e para chegarmos a uma esfera crítica. “Quanto mais conscientização, mais se desvela a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-lo” (FREIRE, 2005, p.15).

O Jornalismo, a ética, a objetividade e a verdade jornalística estão imbricadas no rigor do método jornalístico. Não entender isso é distanciar-se do que é Jornalismo, algo que é cada vez mais comum hoje. O Jornalismo é atividade profissional como o futebol e a política, sobre o quais todo mundo tem uma opinião formada. Ótimo do ponto de vista da socialização da discussão. No entanto, o que observamos de uma maneira geral é que é preciso avançamos e refletirmos mais sobre o papel do Jornalismo nas sociedades democráticas.

Não temos a pretensão de ser o dono da verdade. No entanto, temos algumas ponderações para discutirmos de uma maneira menos ingênua, afinal o que é Jornalismo? Por que o método é central para essa atividade? É central porque o dever do Jornalismo é se aproximar da verdade. Da verdade possível, não cabe ao Jornalismo uma preocupação filosófica da verdade.

Como enfatizamos, o rigor do método é central para o Jornalismo. Ele garante a objetividade e a verdade que resultam numa postura ética. Como é possível isso? Na investigação jornalística é preciso uma descrição correta dos fatos. Publicar unicamente informações cuja origem se conhece, ou senão acompanhá-las das reservas necessárias; não suprimir informações essenciais; não alterar textos, nem documentos; e retificar uma informação publicada que se revele inexata.

Esses procedimentos, apresentados de uma forma resumida, devem fazer parte do cotidiano do Jornalismo. Na medida em que um jornalista procura ser objetivo, se aproximar da verdade dos fatos ele está tendo uma postura ética com a sua atividade. Ele está imbuído de algo que é central no Jornalismo: o respeito intransigente ao ser humano e a dignidade no tratamento com homens e mulheres.

O jornalista que seja tentado a abrir mão do rigor do método esquece o respeito ao outro, vítima, testemunha, parente, espezinha o respeito que deve a si mesmo: não é mais que um instrumento – um meio! – da informação. Está reduzido à função que o campo jornalístico lhe atribui. É prisioneiro de um determinismo reificante, de que o seu próprio cinismo não é capaz de libertá-lo. Se há rigor no método, a notícia se aproxima da objetividade e da verdade dos fatos garantindo uma postura ética do jornalismo diante da realidade dos acontecimentos.

Sem dúvida, compartilho com as idéias de Daniel Cornu (1999). A ética é da essência do Jornalismo e podemos chegar a isso com o rigor do método. Confesso uma saudável inveja pelo que o autor escreveu, mas a possibilidade de disseminar as questões que coloca me faz feliz. Reflitamos sobre a responsabilidade do Jornalismo, em particular, numa sociedade como a nossa, com grandes abismos sociais.

No nosso entendimento o conceito que mais consistência apresenta sobre a questão é denomina objetividade possível (MIOTTO, 1993). Como explica Miotto (1993), o bom jornalismo que se aproxima da verdade está intimamente ligado à averiguação dos fatos (método, investigação).

O jornalista precisa qualificar suas perguntas, a intuição, a ousadia, a capacidade de denúncia, inclusive aquilo que se chama objetividade da fantasia. “A vigilância constante, o empenho, a acumulação de uma experiência refletida, uma maturidade permanente e um grande esforço pessoal podem conduzir até uma objetividade possível” (MIOTTO, 1993, p.249).

Objetividade também não significa apenas ouvir fontes que apresentem os dois lados de uma questão, mas sim fontes de todos os lados possíveis, inclusive aquelas que não têm necessariamente uma opinião a expressar. Buscar a realidade é uma tarefa que o Jornalismo pode e deve fazer. Abdicar a ela seria o mesmo que aceitar todo tipo de manipulação e esvaziar o Jornalismo de sentido, exatamente quando tanto se precisa dele. Dentro desse contexto, a questão da objetividade é subsidiária à discussão sobre a verdade no campo jornalístico.

No sentido comum, uma informação não é a verdade. Uma informação reflete unicamente um aspecto, um fragmento da realidade. Está marcada pelo selo do provisório. Contribui, no entanto, para o aumento do saber. Inscreve-se no projeto do homem do homem que consiste em descobrir de maneira tão completa e precisa quanto possível o universo que o rodeia, a fim de reduzir a incerteza do seu meio ambiente.

A discussão sobre a verdade jornalística, e por conseguinte, sobre a objetividade, empobrece-se quando não se preocupa com a relação entre três ordens de informação: a observação (o acontecimento, os fatos); a interpretação (o sentido, os comentários) e a narração (o estilo, o relato, a retórica), e se não implicar plenamente a intervenção do jornalista como sujeito. O jornalista é um intérprete da atualidade, entendida como momento presente da realidade. Não pode apreendê-la na sua verdade profunda, que lhe escapa. Não há verdade sem sujeito, nem interpretação sem intérprete. Não se trata de afirmar unicamente a existência de uma subjetividade, mas de estabelecer uma relação íntima, essencial, entre o objeto da interpretação e o sujeito interpretante, no seu trabalho de compreensão de si mesmo.

Perante uma realidade que não cessa de esconder sua verdade última, e contra a ambição do sistema midiático de apresentar um quadro coerente do real, uma ética da informação que se apóie na afirmação do sujeito fundamental, uma percepção plural da realidade da realidade e uma interpretação pluralista dos acontecimentos. A interpretação não entra em contradição com a noção de objetividade, que integra nos seus métodos. A discussão sobre a verdade e sobre a objetividade na informação deve incidir sobre as três ordens da informação: a observação, a interpretação e a narração.

O jornalista move-se num mundo que é menos dos fatos e mais o das opiniões, para recuperar as distinções clássicas da profissão. Raramente confrontado com o acontecimento, com o fato na sua “materialidade”. Ao contrário do que seria de supor por via da ilusão científica, este não tem condições para simplesmente reproduzir a realidade. Tem de reconstruir a realidade para compreendê-la. É forçado a desempenhar um papel ativo e não ficar passivo. Cabe-lhe elaborar cada conceito utilizado para descrever a realidade. Situa-se logo numa cadeia hermenêutica, numa cadeia de interpretações.

O jornalista é observador, é intérprete e também narrador. Lança seu olhar sobre os fatos. Mobiliza a inteligência e convicções a serviço da sua compreensão. A objetividade da investigação e a subjetividade do investigador, seja qual for a ordem em que nos coloquemos, é indissociável. De fato, é a realidade, tal como aparece sob a forma de acontecimentos aleatórios, que é objeto da informação. O sujeito do relato jornalístico está presente na observação, na interpretação e na narração. Dentro desse contexto, a postura ética nunca pode perder de vista a veracidade do relato básica para uma ética jornalística. O rigor do método. O rigor é ir a fundo nas investigações materialmente realizáveis, no tempo dado para essas pesquisas. É captar, recolher, cobrir todos os fatos confirmados disponíveis. É tudo que se opõe a falsificação, à deformação, à mentira.

O rigor é um caminho balizado, no qual a jurisprudência dos tribunais reconhece a necessária diligência jornalística. Perante o objeto fugaz que é o acontecimento, não está dispensado o jornalista de recorrer aos instrumentos elementares da sua deontologia, a fim de garantir uma correta descrição dos fatos: publicar unicamente informações cuja origem conhece, ou senão acompanhá-las das reservas necessárias; não suprimir informações essenciais; não alterar nem textos, nem documento; retificar uma informação publicada que se revele inexata. O rigor passa hoje, também ele, por uma vontade de resistência.

Por fim, entendemos que ainda há muito a se pesquisar sobre o conhecimento do Jornalismo. O assunto vem se tratado por vários autores há muitos anos. Consideramos que é preciso estudar-se mais. Fazermos novas pesquisas para compreendermos qual o tipo de conhecimento que o Jornalismo contribui para com a sociedade. O que está correto. O que está modificado. Onde pode contribuir mais ainda. Sem dúvida uma tarefa muito grande que aqui damos uma pequena contribuição com a hipótese do conhecimento desvelado do Jornalismo.

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1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho 10 - Estudos de Jornalismo do XXIII Encontro Anual da Compós, na Universidade Federal do Pará, Belém, de 27 a 30 de maio de 2014.

2 Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002); a.vizeu@yahoo.com.br.







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