Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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38. Ética especulativa e normativa

No campo da Ética Filosófica encontramos a Ética Normativa e a Ética Especulativa. A Ética Normativa é mais do que prescrever regras e leis, pois procura enunciar as normas que assegurem e satisfaçam a autoridade do que deve ser, para que a sociedade atinja seus objetivos. Apoia-se em razões morais decorrentes dos costumes e também racionais empíricas, louvando-se em experiências anteriores.

A Ética Especulativa procura encontrar, com a sistematização dos dados conhecidos, as razões últimas (teleológicas) ou razões primeiras (deontológicas), através das quais possa quantificar e avaliar os fenômenos éticos, atribuindo-lhes juízos de valor moral, ou seja, de valor segundo os costumes.

Os estudos que se desenvolvem no campo da Ética especulativa prendem-se às causas geradoras dos fenômenos éticos, seja elas anteriores ou posteriores, próximas ou distantes, diretas ou indiretas.

Nesse estudo das causalidades dos fenômenos éticos os campos de trabalho podem ser muito ou pouco abrangentes, universais ou particular, genéricos ou específicos.

Vamos exemplificar. Abordemos o fenômeno do indivíduo que lê um livro.

Descrevo o fenômeno ético que me dá a relação homem-livro.

Há uma causa direta: tenho tem vontade de ler

Há um objeto; disponho do livro.

Há um processo ordenatório; o indivíduo se coloca num posição de leitura, em que haja luz, o livro esteja na posição correta que me permite ler. Se estiver fechado, nas mãos ou sobre a mesa, o processo de leitura não ocorre. Posso por-me sentado, deitado ou ficar em pé. Escolho a posição que me parece melhor.

A ética filosófica começa a trabalhar: por que quero ler? Tenho necessidade da leitura? Quem é o autor do livro? Ele tem competência para escrever? Qual é o assunto? Por que esse assunto me interessa?

A ética filosófica é a ética das indagações.

Vamos seguir, como exemplo, por uma trilha especulativa.

P. - Porque leio?

R, - Por que sou alfabetizado.

P. - Por que sou alfabetizado?

R.- Por que freqüentei a escola.

P. - Para que fui alfabetizado?

R. Para progredir nos conhecimentos.

P. - Para conhecer o quê?

R. - O que está nos livros.

P. - O que está nos livros é tudo que você quer conhecer?

R. - Não, há coisas que quero conhecer e que não estão nos livros.

P.- Porque dedicar-se à leitura, se é mais fácil buscar o conhecimento fora dos livros?

R. - Por que os livros informam e não tenho condições de colher, por outro modo, todas as informações que eles contém.

A razão filosófica do fenômeno encontra uma de suas possíveis explicações na seqüência acima. Aqui ela explica este fenômeno em particular e por que aquele indivíduo lê. Mas, a ética especulativa procura ir mais longe. Ela procura a razão necessária e suficiente para explicar o fenômeno. E, no relato acima há mais razões que podem levar à conclusão obtida. Porém, campo restrito em que foi situada, a experiência desse exemplo satisfaz a nossa especulação e nos leva a muitas conclusões:

O homem que lê procura o desenvolvimento intelectual. Procura o conhecimento. Coleta informações. Quer aperfeiçoar-se etc. etc.

Ou seja, o fenômeno do homem que lê ocorre se os elementos físicos e materiais necessários estão presentes. Deve haver um livro, luz, lugar de leitura. Há antecedentes tais como o indivíduo seja alfabetizado, o livro esteja escrito em idioma que o leitor entenda etc. Dentro todos esses requisitos, sem que qualquer deles possa ser desprezado, há um elemento essencial, de natureza psíquica que, se não estiver presente não possibilita a leitura: é a vontade de ler. A experiência mostra que, em milhões de casas, depósitos e bibliotecas, os livros estão à espera de quem tenha vontade de ler!

.A especulação filosófica vai então procurar identificar a natureza desta causa, da razão pela qual o indivíduo lê. A resposta , no exemplo acima, contém a idéia de uma causa final: Para progredir nos conhecimentos. Ele não está lendo por que o livro é bom, ou seja, por que o livro reúne em si mesmo qualidades que, independentemente do progresso nos conhecimentos, satisfazem no indivíduo o desejo do que é bom. O que é bom, quando se lê? É o que é útil, prático ou conveniente? O que insinua satisfações ao corpo? Ou o que sacia o intelecto?

É possível que haja uma causa originária desse fenômeno que antecede sua manifestação. A especulação continua. O livro existia antes de ocorrer o fenômeno. Quem o escreveu? Porque o escreveu? Qual a mensagem que a vontade do escritor pretende transmitir? E assim por diante. O simples fenômeno ético do homem que lê transforma-se, pelas possíveis especulações da ética teórica, na própria história do intelecto humano, e tenta responder qual é a causa da vontade de adquirir o conhecimento.


A Ética Normativa se indaga: O que faz certas as ações consideradas certas? Como podemos dizer o que é certo? Como posso ser moral? Ser moralmente certo é sempre ser eticamente certo? Vejo que as teorias principais que envolvem o normativismo se enquadram ou como teleológicas (tendo em vista os efeitos) ou deontológicas (sem levar em conta as conseqüências, mas apenas as causas). Ambas estão ligadas às idéias de valores morais ou espirituais.

Quando procuro regras metodológicas para abordar o conhecimento, é por que, através delas, me parece mais fácil identificar idéias, firmar linhas e conduzir formas de pensar/.

As normas tem assim um conteúdo de vontade de atingir os objetivos que as tornas próprias, convenientes e aceitáveis.

Ou seja, como corredores que conduzem a um determinado local, as normas são parâmetros abstratos que procuram conduzir a vontade de quem age dentro dos limites em que a ocorrência dos fenômenos éticos seja desejável, ou pelo conhecimento ou pelas tradições, usos e costumes.

A Ética Normativa tem por objetivo esclarecer e definir razões que nos induzam a certos comportamentos. Ela responde não só a uma vontade individual, mas e sobretudo à vontade social. Diz respeito especificamente ao estudo de regras para o comportamento humano. Leva em conta todos os demais conhecimentos, tradições, usos e costumes, mas, seu objetivo é enunciar as regras dentro das quais o ser humano deve ou pode desenvolver-se.

A mãe chega em casa v6e os filhos em desalinho e encontra uma bagunça. Brinquedos, roupas e sapatos espalhados pela casa inteira. Tem vários possibilidades à frente. Pode esbravejar, repreender, bater ou simplesmente chamar os filhos e dizer: Vamos por ordem na casa. Aqui é o lugar dos sapatos, ali é o das roupas e acolá o dos brinquedos. Está normatizando os procedimentos e indicando lugares e situações para as coisas. Enunciar a razão das normas, porque as roupas, sapatos e brinquedos devem ser colocadas nos seus lugares, esta ação de regular comportamentos em face do contexto e da vontade, do que se quer, é um dos objetos de estudos da ética normativa. Dos casos específicos aos genéricos, dos individuais aos coletivos, chega-se à regra: um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar.

A normatização dos conhecimentos éticos e dos comportamentos constitui um dos objetivos fundamentais da ética normativa.


39. A ética descritiva
A expressão teoria ética encobre, de fato, o conteúdo das respostas às indagações que formulamos quando tratamos das questões morais.

R. M. Hare, ao dissertar sobre Prescritivismo Universal in A Companion to Ethics, Blacwell Publishers, Oxford,UK 1993, formula as seguintes questões:



O que nós queremos significar pelas palavras ou sentenças que usamos no discurso moral: qual é a natureza dos conceitos morais ou da moralidade? Se somos bem sucedidos, estas referências terão maior implicação para uma outra questão, de ordem epistemológica, que também pertence ao campo da teoria ética: como nós nos podemos situar para responder racionalmente as questões morais? Ou não há meio racional - e isto significa apenas dizer o que sentimos ou o que os costumes correntes ditam? Ou de outro lado, se pode estabelecer-se uma discussão racional sobre questões morais, essa discussão exige que exista uma verdade acerca delas, ou uma seqüência de fatos que ela possa revelar?
O mesmo autor sugere que há duas maneiras de responder, conforme duas formas de pensar: através da ética descritiva e da ética não descritiva. Os que defendem o primeiro procedimento, por ele nomeados descritivistas, sustentam que os juízos morais podem ser falsos ou verdadeiros, enquanto os opostos, designados por não-descritivistas, negam essa possibilidade.
Por seu lado, Dale Jamieson, no mesmo compêndio, ao discorrer sobre Método e Teoria moral, afirma que as questões acerca das teorias morais foram relativamente negligenciadas, até recentemente, por que havia um grande consenso acerca da natureza das teorias morais e da aceitação dos vários métodos adotados. Elas eram vistas, geralmente, como estruturas abstratas cuja função era mais justificar do que motivar procedimentos. Nas concepções dominantes . as teorias morais são estruturas abstratas que situam agentes, ações e efeitos sensíveis em categorias apropriadas. As categorias propostas incluem vícios, virtudes, certo, errado, permitido e proibido, bom, ruim, melhor, pior, superações e obrigações... O trabalho das teorias morais na concepção dominante, é tornar explícitas teorias morais particulares, descrever sua universalidade e reviver seu poder coercitivo. Isto é feito pelo exame de argumentos, acessando evidências e apurando relações lógicas.
Nas atividades da Ética Científica encontramos a Ética Descritiva que é um dos ramos das ciências empíricas, decorrentes das percepções sensoriais.

A Ética Descritiva, ligada à Sociologia, pretende descobrir e descrever os fenômenos sociais que dão suporte às leis, que sustentam as crenças e os credos. Também é objeto da ética descritiva a descrição cronológica de tais fenômenos, num esforço de estabelecer, entre eles, as relações causais tomando por base a relação antecedente-conseqüente.



40. Ética nas Ciências
Não se pode confundir o objeto e a metodologia da Ética Científica com a as regras morais que devem reger a atividade científica.

Uma é a abordagem do campo da Ética como uma ciência, onde os conhecimentos são adquiridos através de métodos racionais, inclusive descritivos, dos fenômenos, suas causas e seus efeitos, visando enunciar as regras, normas e leis que regem tais ocorrências. Outra, que nem é oposta nem superposta à primeira abordagem, é aplicar os princípios e regras morais durante os trabalhos científicos.

Um dos mestres do racionalismo foi Descartes que, preocupado com a maneira pela qual devem conduzir-se os que trabalham com as idéias, escreveu o Discurso sobre o Método.

Entendemos que os procedimentos recomendados pelo pensador francês correspondem, de fato, a mandamentos de natureza ética que podem ser adotados com muita segurança para que, no campo do conhecimento as relações possam ser desenvolvidas com respeito às tradições, aos costumes, aos usos e à herança intelectual de que dispomos. Por essa razão, para os mais interessados, fazemos abaixo uma transcrição do que neles se contem. Razão, fé e intuição são as ferramentas indicadas por Descartes.


Regras para a direção do espírito, segundo Descartes.
Regra I: O objetivo dos estudos deve ser o de dirigir o espírito para que ele alcance julgamentos sólidos e verdadeiros sobre tudo que se lhe apresenta.

Regra II: Não nos devemos ocupar senão de assuntos acerca dos quais nosso espírito pareça capaz de adquirir um conhecimento certo e indubitável.

Regra III: Sobre os objetos que são propostos a nosso estudo é preciso procurar, não aquilo que outros têm pensado ou que nós mesmos conjeturamos, mas aquilo de que nós podemos ter a intuição clara e evidente ou que nós podemos deduzir com certeza: pois não é por outro caminho que se adquire a ciência.

Regra IV: O método é necessário para a procura da verdade.

Regra V: Todo método consiste no ordenamento e na disposição das coisas para as quais é preciso voltar o olhar do espírito para descobrir qualquer verdade. Ora, nós a seguiremos exatamente se reduzirmos gradualmente as proposições complicadas e obscuras às mais simples e se, em seguida, partindo da intuição das mais simples, nós ensaiemos subir pelos mesmos degraus ao conhecimento de todas as outras.

Regra VI: Para distinguir as coisas mais simples daquelas que são complicadas e para procurar com ordem é preciso, em cada série de coisas onde nós tenhamos deduzido diretamente algumas verdades de outras verdades, ver qual é a coisa mais simples, e como todas as outras o sejam ou mais ou menos ou igualmente entrelaçadas.

Regra VII: Para encontrar a ciência, é necessário percorrer por um movimento contínuo e ininterrupto do pensamento todas as coisas que se relacionam ao nosso objetivo e cada uma delas em particular, assim como envolvê-las em uma enumeração suficiente e ordenada.

Regra VIII: Se na série de coisas a pesquisar se apresenta alguma que a nossa compreensão não possa intuir suficientemente bem, é preciso parar aí; não se deve examinar o que segue, mas deve-se abster de um trabalho supérfluo.

Regra IX: É preciso voltar todas as forças do espírito para as coisas de menor importância e mais fáceis, e nelas ater-se longamente, até que se fique acostumado a ter a intuição distinta e clara da verdade.

Regra X: Para que o espírito adquira sagacidade, é preciso exercitá-lo a procurar o que já foi encontrado pelos outros, e a percorrer com método todos os afazeres dos homens, mesmo os menos importantes, mas sobretudo aqueles que expliquem o ordenamento ou fazem-no supor que ele exista.

Regra XI: Depois que nós tenhamos tido a intuição de algumas proposições simples, se daí nós deduzimos alguma outra, é útil percorrê-las todas por um movimento de pensar contínuo e ininterrupto, refletir sobre suas relações mútuas e, tanto quanto possível, conceber distintamente; é assim que nosso conhecimento adquire muito mais certeza e o poder de nosso espírito uma extensão maior.

Regra XII: Enfim, é necessário servir-se de todos os recursos de que dispõe o entendimento, da imaginação, dos sentidos e da memória, seja para ter a intuição distinta das proposições simples, seja para bem comparar as coisas que procuramos com aquelas que conhecemos, a fim de descobri-las, seja para encontrar as coisas que devem ser comparadas entre elas, de tal maneira que não fique omitido nenhum dos meios ao alcance do poder do homem.

Regra XIII: Se compreendemos perfeitamente uma questão, é preciso abstraí-la de todo conceito supérfluo, simplificá-la o mais possível, e dividi-la por meio de enumeração em partes tão pequenas quanto possíveis.

Regra XIV: A mesma questão deve ser relacionada à extensão real dos corpos, e representada inteiramente à imaginação por figuras nuas: pois assim ela será compreendida muito mais distintamente pelo entendimento.

Regra XV: Também é útil, durante a maior parte do tempo, traçar essas figuras e mostrá-las aos sentidos externos, a fim de que, por esse meio, nosso pensamento seja mantido atento mais facilmente.

Regra XVI: Quanto às coisas que não exigem a atenção imediata do espírito, quando forem necessárias para a conclusão, é melhor designá-las por sinais bem curtos mais que por figuras completas: pois assim a memória não poderá falhar e o pensamento não será então forçado a se dividir para retê-las, e poderá ser aplicado em procurar outras coisas.

Regra XVII: A dificuldade proposta deve ser diretamente percorrida fazendo-se abstração de que alguns dos seus termos são conhecidos e outros não-conhecidos, e tendo a intuição, seguindo o verdadeiro caminho da mútua dependência de cada um deles.

Regra XVIII: Por isso só quatro operações são requisitos: a adição, a subtração, a multiplicação e a divisão, dentre as quais, as duas últimas, freqüentemente, não devem ser feitas, tanto para não complicar as coisas inutilmente, como para que elas possam ser executadas mais facilmente em seguida.

Regra XIX: É por este método de raciocínio que é preciso procurar tantas grandezas expressas de duas maneiras diferentes, que nós supomos conhecidas em termos desconhecidos, para percorrer diretamente a dificuldade: pois assim nós teremos tantas comparações entre duas coisas iguais.

Regra XX: Encontradas as equações, é preciso acabar as operações que tenhamos deixado de lado, não se servindo jamais da multiplicação cada vez que tenha lugar a divisão.

Regra XXI: Se há muitas equações do mesmo tipo, é preciso reuni-las todas em uma só, isto é, àquela cujos termos ocuparão menos degraus na série das grandezas em proporção contínua, e segundo a qual elas deverão ser ordenadas. Finalmente, é a chegada do conhecimento pela síntese. Se há muitas equações do mesmo tipo, é preciso reuni-las todas em uma só, segundo a qual elas deverão ser ordenadas e, de forma global, ter-se-á o conhecimento de todas e do conjunto que elas representam. É o procedimento indicado pela álgebra, quando a partir de um sistema de equações, procura-se identificar as incógnitas.
A causa teleológica anunciada por Descartes na primeira regra é o encontro da verdade. Por este conjunto de linhas e formas de pensar, pode-se perceber o profundo sentido moral que está contido em todas as recomendações. Sentido moral porque há uma nítida vontade de fazer o melhor, de proceder da melhor maneira possível, com uma postura de honestidade de propósitos e procedimentos. Nisto consiste a moralidade das regras, pois elas querem ajustar-se às tradições, usos e costumes que nos propiciam os conhecimentos disponíveis. E, da mesma forma, sem violar tais fontes de conhecimento, elas podem e devem ser abordadas de maneira racional, intuitiva e experimental. .

Há necessidade de integrar as formas de percepção. Para ter a intuição distinta das proposições e relacionar as coisas que procuramos com aquelas que conhecemos ou para encontrar as coisas que devem ser comparadas entre elas, deve-se recorrer a todos os meios ao alcance do poder do homem: entendimento, imaginação, sentidos e memória.



A análise é essencial dentro do processo de condução do espírito. Análise vem do grego lysis, que significa dividir, partir. A-lysis significa não-partir, manter integral. An-a-lysis significa não não-partir. Ou seja, partir. Como em lógica só são totais os juízos negativos, análise quer dizer não não-dividir, ou seja, analisar é dividir. Se nós compreendemos perfeitamente uma questão, é preciso limpá-la de tudo que não é essencial para conhecê-la. Chegar se possível à essência do que é indispensável para o entendimento do que se trata, melhor dizendo, abstraí-la de todo conceito supérfluo ou desnecessário. Deve-se, por abstração do que é dispensável, simplificar o mais possível as formas de pensar e, enquanto possível, dividi-las por meio da enumeração, em tantas partes menores quanto possíveis. Dessa maneira, dividindo-se as grandes dificuldades em dificuldades pequenas, pode-se, a partir da solução destas, chegar à solução das maiores.

Trata-se aqui da utilidade da esquematização do que parece ser essencial em cada elemento. A proposição da idéia deve ter relação de semelhança e tamanho com o objeto que representa. É a primeira regra que trata da relação entre a dimensão da idéia e do objeto que nela se contém. Ou seja, embora abstrata, a idéia deve ser relacionada à extensão real (material, sensível) dos corpos a que se refere, e deve ser representada nos seus traços principais, pois assim ela será compreendida com mais nitidez. Descartes anuncia um procedimento de relacionamento de formas com idéias, que em sua Geometria inaugura um procedimento matemático absolutamente original: as formas podem ser reduzidas às formulações matemáticas a que correspondem e têm fórmulas próprias.

Há uma seqüência inaugurada pela regra XV: compatibilizar formas de pensar com fórmulas de procedimento. Relacionar o mundo das formas com o das idéias. Procurar, ainda no campo do abstrato imaginável as relações que precedem as materializações. De fato, o esforço contido nesta regra é o de determinar, identificar e se possível esboçar o projeto que sintetiza e exterioriza o conhecimento. Se tenho a condição de formular o projeto das idéias que me ocorrem é porque as conheço bem. E os sentidos haverão de captar, verificar e sentir essa materialização, dando-nos pelas sensações a notícia de como a recebem.

A visão conjuntural é imperativa quando nos faltam elementos esparsos. Ou seja, do conjunto de dados de que dispomos, podemos intuir um resultado maior e diferente do que nos é dado pelos sentidos. A dificuldade proposta deve ser diretamente percorrida, abstraindo-se do fato de que alguns dos seus termos sejam ou não conhecidos, e tendo a intuição da mútua dependência de cada um deles, de seu relacionamento e das formulações que deste decorrem.

De particular interesse para os que melhor se relacionam com o mundo sensível, a quantificação dos fenômenos deve ser ordenada através dos elementos mais simples que a razão nos oferece. Por isso só quatro operações são requisitos: a adição, a subtração, a multiplicação e a divisão. Por sua vez, a multiplicação e a divisão devem ser evitadas para não complicar as coisas inutilmente, e a fim de que possam ser executadas mais facilmente em seguida, uma a outra, na seguinte ordem: primeiro a divisão e depois a multiplicação.

O processo de comparação, tanto por analogias ou diferenças, por semelhanças ou dissemelhanças, é ajuda fundamental nas elaborações do intelecto. É preciso procurar e comparar, nas dificuldades, as grandezas expressas de maneiras diferentes, para percorrer diretamente a dificuldade, e fazer assim as comparações entre duas coisas iguais. esta regra sugere a adoção dos parâmetros exigidos pelo dualismo das formas de pensar.

A resolução das dificuldades deve ter por resultado uma seqüência de dados disponíveis que obedeçam às regras do pensamento lógico e racional. Encontradas as equações, é preciso concluir as operações que tenhamos deixado de lado, não se servindo jamais da multiplicação cada vez que tenha lugar a divisão, ou seja, não se usa, na solução de um problema matemático que envolva dois procedimentos, de um processo sintético (multiplicação) antes do procedimento analítico (divisão). O filósofo insiste, nesta regra, quanto à necessidade da ordenação das formas de proceder: vem primeiro a divisão e depois a multiplicação. Serve esta orientação não apenas para as matemáticas, mas para a vida em geral, pois primeiro é necessário reduzir as dificuldades a dimensões pequenas, em que possam ser resolvidas. Os produtos, como multiplicação de situações resolvidas, devem ocorrer depois. Estas regras indicam como opera a Ética no mundo das ciências e do conhecimento..



41. Ética, moral e costumes
Importa, num arremate, abordar mais uma vez os conceitos de Ética, códigos morais e códigos de comportamento.

A Ética não é em si mesma um código, nem um conjunto de regras e nem é só o estudo do comportamento ou de suas regras, normas e leis. É um campo de conhecimentos em que, à medida que avançamos, são feitas descrições, constatações, hipóteses, indagações e comprovações. É possível encontrar leis, enunciados e respostas verossímeis e verdadeiras. O objeto da Ética é o estudo dos fenômenos éticos. Isso implica em ordenação de pressupostos, ordenamento de idéias, linhas e formas de pensar, e, mais que tudo, sistematização da observação e dos conhecimentos, o que quer dizer métodos de trabalho.

A palavra costume tem origem latina, no vocábulo consuetudine. Traduz a idéia de procedimento, comportamento. Em sociedade, conforme suas características, o vocábulo costumes quer significar, genericamente, regras escritas ou não, que regulam procedimentos, rituais e ritos, aceitos e praticados pela referida comunidade.
Há diferença conceitual fundamental entre a idéia de rito e a de ritual.

Rito traz a idéia abstrata contida na regra ou conjunto de regras que regula o procedimento. Ritual é o processo sensível através do qual se dá a materialização dos procedimentos a que se referem os ritos. Ritos e rituais tem sua origem nos usos, costumes e tradições. Os dicionários nos ensinam que a palavra rito contem pelo menos seis significados. 1.º) as regras e práticas que devem ser observadas na prática de uma religião; 2. º) culto, seita; religião; 3.º) qualquer cerimônia de caráter sacro ou simbólico que segue preceitos estabelecidos por usos e costumes; 4.º) sistemas pelos quais se organizam entidades maçônicas; 5.º) normas que regem os rituais; 6.º) no sentido jurídico é o conjunto de normas que regem os procedimentos diante dos juízes.

O rito religioso - regras ou normas ditadas pelos usos e costumes para as práticas religiosas - fica à vista durante as cerimônias, ou seja, através dos rituais. Rito é a idéia que rege a liturgia.

Ritual, da mesma forma, é vocábulo que contém pelo menos cinco idéias: 1.º) que se refere a rito; 2.º) a forma pela qual se cultua; culto; 3.º) liturgia; 4.º) livro que contém os ritos ou regras para a prática religiosa; 5.º) conjunto de práticas consagradas pelos usos e costumes afim de processar as cerimônias.


A idéia de ritos e rituais está intimamente ligada às idéias contidas em outro vocábulo, também latino, mos,moris, e que evoluiu para o português como sendo moral.

Moral é o que se refere aos usos, costumes, hábitos e habitualidades. De uma certa forma, ambos os vocábulos se referem a duas idéias diferentes, mas relacionadas entre si: os costumes dizem respeito aos fatos vividos, ao que é sensível e registrado no acervo do grupo social como prática habitual. A idéia contida na moral é a relação abstrata que comanda e dirige o fato, o ato, a ação ou o procedimento. A moral explica e é explicada pelos costumes. A moral pretende enunciar as regras, normas e leis que regem, causam e determinam os costumes, inclusive, muitas vezes, anunciando-lhes as conseqüências.

A idéia contida no vocábulo uso tem origem no latim, usu. Corresponde à idéia do que é utilizado, aplicado, empregado. Quer significar ato ou efeito de usar. Ou seja, contém a conotaçào do que é útil, por que serve a determinada função ou finalidade. Usos são formas de respostas que a coletividade dá às necessidades práticas, procurando soluções para resolver os problemas rotineiros.

Os usos assinalam tanto as atividades concretas, que existem no mundo da realidade sensível, como as abstratas, que ocorrem no mundo das idéias. Na linguagem discursiva o pensamento dualístico, ( sim ou não, certo ou errado, justo ou injusto), traz a marca do uso rotineiro de idéias opostas. O matemático usa das regras matemáticas por que lhe são úteis. O físico usa dos conhecimentos físicos por que se prestam ao seu campo do conhecimento. Nós usamos do dinheiro para comprar ou vender.

Conscientizo que o desvio de uso se dá quando uso um copo para comer, um prato para beber, um tapete para cobrir ou um bule para cozinhar. Também há desvios de uso das regras morais quando usamos a idéia das virtudes para justificar os vícios ou vice versa.


Temos enfatizado que a ética é o campo do conhecimento que estuda os fenômenos éticos. Por isso inclui, necessariamente, o estudo dos usos, costumes, tradições e conhecimentos, na medida em que estes constituem, em si mesmos, a idéia de fenômenos éticos e são sua mais importante fonte de informações.
Quando falo conhecimento refiro-me ao enunciado da relação causa-efeito, de forma objetiva, passível de verificação.
Na medida em que a Ética Normativa recorre às tradições, usos e costumes e conhecimentos ela assume que o estudo desses fenômenos é indispensável. Por isso que não dispensa as informações e nem se deixa conduzir apenas pela racionalidade. Pretende dominar os dados para a partir daí enunciar, elaborar e criar normas e leis

Na tradição judaica há bons exemplos. Amós, um dos profetas hebreus, além de anunciar as punições que o povo de Israel iria receber, deixa sempre aberto o caminho do arrependimento, reiterando que o desejo de Jeová é que os homens pratiquem o bem e a misericórdia e tenham respeito pela justiça. O arrependimento de que fala o profeta é um convite à aceitação do que a razão moral impõe e exige. É a mensagem contra o luxo que contrasta com a pobreza, da simplicidade e da humildade que devem prevalecer sobre a ostentação e a prepotência. É sobretudo um alerta contra a experimentada provisoriedade da vida.

Como Israel é o povo escolhido e conhece os desejos de Deus, não pode deixar de atendê-los. Quando o povo escolhido, seus governantes e seus sacerdotes não atendem à Lei Divina porque desfrutaram do privilégio de terem sido apoiados e amparados por Jeová, são julgados com mais severidade e rigor e castigados com penas mais duras e pesadas. Esta ameaça de julgamento corresponde de fato à conseqüente punição pelos desvios dos padrões éticos.
O profeta Jonas nos deixa, pela tradição religiosa, um exemplo de como pode ser observada a desobediência ao que tem por chamado divino.
Jonas fugiu da convocação divina e procurou lugar num barco. Uma forte tempestade provocou ondas perigosas. Para aplacar a ira divina, Jonas foi lançado ao mar e engolido por um peixe enorme. Foi vomitado na praia e então submeteu-se à missão para a qual fora escolhida. Jonas vai a Nínive, adverte o rei e o povo. Estes se arrependem. Jonas, aborrecido porque Deus não lhes a infligira as penas profetizadas, retira-se para os arredores da cidade e constrói uma cabana, onde espera que Deus arrase a cidade, castigando os faltosos. O calor era sufocante. Jehová, durante a noite, faz crescer sobre a habitação do profeta uma aboboreira. Na manhã seguinte, Jonas se alegra, vendo a planta que lhe dá sombra. Mas , no dia seguinte, Deus manda um verme que a destrói e faz secar. Jonas lamenta profundamente o fato, e, abatido, quer morrer. O relato bíblico finaliza:

Tornou o Senhor: - Tens compaixão da planta que te não custou trabalho, a qual não fizeste crescer; que numa noite nasceu e numa noite pereceu; e não hei de eu Ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e cinqüenta mil pessoas, que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos animais?.
Na tradição hebraica, o relato acerca de Jonas anuncia que Deus Jehová tem amor a sua criação, ou seja, está inclinado a preservar-lhe condições de vida aceitáveis.

Essa mensagem profética surge diante das ações imorais dos habitantes de Nínive que prejudicam seu relacionamento com Deus. A idéia de Deus, portanto, está extremamente ligada à idéia da moralidade como regra a ser obedecida para a sobrevivência da sociedade.

Especulando nessa área, podemos recordar do que a história relata acerca de muitas tribos de antropófagos. Comer carne humana integra seus usos e costumes. Mas só comem a carne dos adversários que foram virtuosos. Há uma razão moral, que vem dos costumes e das crenças, e que se refere às virtudes que são transferidas da vítima para seus algozes. É uma regra que reconhece nas crenças também a força dos conhecimentos.

Nesses casos, a afirmação é verdade por que acredito sobrepõe-se à que adotamos, acredito por que é verdade. Ambas são afirmações de conteúdo ético e respondem às nossas experi6enmcias anteriores, sejam elas no campo do mundo sensível ou no campo das indagações e razões abstratas.




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