Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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A herança contida no dualismo
Não me sinto em condições de recusar o fato de que os conceitos dualísticos estão sujeitos a uma relação direta com o contexto em que se verificam.

Tais conceitos, todavia, são firmados em relação ao contexto. Não surgem como idéias absolutas em si mesmas. São noções herdadas da cultura, das tradições, dos usos e costumes. Tais idéias se superpõem e são mais eficazes que as noções trazidas pelas imposições do conhecimento.

Há um momento em que nossas formas de pensar deixam-se subjugar por usos, costumes e tradições, pois o aprofundamento das formas de pensar impostas pelo conhecimento racional é evitado intuitivamente pelo homem comum.

O objeto fundamental da Ética, como é usualmente entendida, haveria de ser, portanto, o estudo, a análise e a avaliação deste tipo de proposições: o que é o bom, o que é o mal; o que é o melhor, o que é o pior; o que é honesto, o que é desonesto; o que é ruim para poucos pode ser bom para todos. E assim por diante.

Mas a Ética não se reduz a esses objetivos. É o que veremos a seguir.

Capítulo IV
Natureza e Objeto da Ética

35. Ética como Ciência. 36. A Ética como atividade filosófica. 37. A ética prática. 38. Ética especulativa e normativa. 39. A ética descritiva. 40. Ética nas Ciências. 41. Ética, moral e costumes. 42. Metaética. 43. Naturalismo. 44. Cognotivismo. 45. Intuicionismo. 46. Subjetivismo. 47. O emotivismo. 48. O imperativismo. 49. O ceticismo. 50. Relativismo . 51. A Ética teleológica (Kant). 52. Hedonismo. 53. Ética utilitarista. 54. Perfeccionismo. 55. Ética deontológica e Santo Agostinho. 56. Egoísmo.

35. Ética como Ciência.
O fenômeno das relações humanas é estudado não apenas na Ética, como e também em todos os demais ramos das Ciências compreendidas como Humanidades. Afinal os nossos conhecimentos decorrem, essencial e fundamentalmente, de nossas relações com o que existe no contexto em que estamos situados.

As relações entre nós e as estrelas que estão a milhões de anos luz, são muito pequenas na ordem de grandeza com que percebemos o Universo. Seres mais próximos, como os planetas, o sol e a lua sugerem relações mais próximas. A noção de proximidade do homem com os seres à sua volta, depende muito do tempo e do espaço.

Se uma onda de luz polarizada passa por mim a 300.000 quilômetros por segundo, não poderei captá-la diretamente pelos sentidos, pois a minha acuidade sensorial não me possibilita essa captação. Poderei fazê-lo através de um instrumental próprio, e daí terei a percepção que me é dada por reflexos. Também não consigo captar sensorialmente a influência que um dos meus antepassados, que viveu no terceiro milênio antes de cristo, possa ter sobre minha conduta, pois está muito distante, no eixo do tempo. Mas posso avaliar a influência de meu pai e de minha mãe no meu comportamento.

No campo da Ética, para abordar os fenômenos de uma forma racional, mesmo que com a base empírica focalizada nas tradições, nos usos e costumes e nos conhecimentos que recebo de outros campos do conhecimento, ao adotar uma metodologia científica, preciso definir qual é o fenômeno ético que vamos estudar, como se dá o fenômeno ético, e em seguida definir também qual o contexto em que ocorre.

E por que a sistematização dos conhecimentos implica na identificação das leis que regem os fenômenos, as Ciências, nos seus primeiros passos, apoiam-se em constatações e fatos, cujas causas são presumidas como verdadeiras . Mas todas submetem-se inicialmente às narrativas históricas, às tradições contidas nos processos de conhecimento, sejam por natureza cosmológicas, ambientais, sociais ou econômicas. De fato, os primeiros passos que o cientista dá na direção do conhecimento, coincidem com os de todos os demais seres humanos. As primeiras regras do procedimento científico aplicam-se, por tradição, a todos os processos de abordagem intelectual de todos os campos do conhecimento. Referem-se à abordagem conceitual dos elementos que dão contornos, formam contrastes e nos transmitem o conceito inicial que procura conter a idéia do fenômeno em estudo.

Conhecer, para a ciência, é ter condições de provar o que é conhecido. Ou seja, para o cientista há possibilidade de provar o que enuncia quando consegue repetir a experiência ou, se repetido o fenômeno, nas mesmas condições que as anteriores, são constatados os mesmos resultados. Resumindo, há conhecimento de um fenômeno quando se tem a definida da relação causa-efeito. Isto quer dizer que, quando reunidos os elementos que compõe o conjunto a que denominamos causa do fenômeno, necessariamente ele ocorre. Também significa que quando temos o efeito, necessariamente as causas são as mesmas. Se de verificado A temos B, a relação causa efeito determina que, constatada a ocorrência de B é porque A também ocorreu.

A esta relação causa-efeito denomina-se a lei que rege o fenômeno.

As ciências em que é possível fazer e repetir experiências, ou seja, pode ser utilizado o método experimental, são ditas ciências empíricas, que cuidam e tratam de fenômenos físicos, químicos e biológicos. São também designadas ciências aplicadas por que é possível aplicar os conhecimentos obtidos, visando sua utilidade intelectual ou na vida física. A idéia de utilizar contém a idéia de servir aos propósitos do ser humano.
Muitas classificações dirigidas ao campo de estudo das diversas atividades científicas têm servido para a abordagem intelectual. Mas, o que me chama atenção é que, fora dos conhecimentos dirigidos ao micro e a o macrocosmos, que não nos chegam senão por hipóteses, os demais campos do conhecimento levam em conta basicamente a sensibilidade humana. São conhecimentos de natureza empírica. Como essa sensibilidade, associada às formas de percepção, tem por centro as atividades físicas e mentais do homem, todas as ciências empíricas devem ser consideradas e estudadas no campo do que podemos chamar Humanidades.

Não incluo as investigações científicas dirigidas ao conhecimento das leis que regem o macro e o micro cosmos o campo das humanidades por que, se de um lado elas não têm o homem como centro de referências, de outro, elas são fundamentalmente hipotéticas e teóricas. Nossas possibilidades de acesso aos limites superior e inferior do cosmos são tão pequenas que podem ser consideradas como inexistentes.

Dentre as ciências aplicadas estão excluídas, por enquanto, as ciências sociais. Isto por que não é admissível , em razão das normas éticas decorrentes da tradição, dos usos e costumes, que o ser humano possa ser transformado em objeto de experiências, quer laboratoriais quer experimentais. Posso admitir muita observação nas relações do homem com seu contexto. Posso admitir que algumas situações sejam repetidas, desde que não firam os padrões morais. Mas, tenho firme convicção de que esta não é a regra de abordagem dos fenômenos sociais de natureza ética.

A dificuldade de abordagem do conhecimento dos fen6eomenos sociais e individuais de natureza ética deve ser contornada através da coleta de dados, informações e observações do que ocorre no presente, do que aconteceu no passado e do que poderá acontecer na seqüência cronológica..

Assim, enquanto na Sociologia são estudados os fenômenos sociais e sociológicos, na Ética estudam-se os fenômenos e fatos éticos, que enunciam, explicam ou justificam leis, regras e normas que atuam no relacionamento e no procedimento humanos.

Uma é a ética científica, como ciência dos fatos, ações e processos éticos, que explica como ocorrem e em que condições se manifestam. Outra é a ética filosófica, que estuda as normas e as leis, e explica por que ocorrem ou devem ocorrer as relações. Verifico que, diante do pressuposto moral que rege as atividades no campo das ciências sociais, devo fazer buscar uma solução. Vamos, de fato, estudar as ações humanas. Vamos buscar saber as regras que regem as vontades do homem. E, esta não é uma trilha fácil a ser percorrida.

Abordando a Ética como ciência, o que for enunciado deve ser comprovado, não necessariamente em laboratório, mas nas observações reiteradas do mesmo fenômeno quando ele se repetir, provocada ou espontaneamente.

Como o campo da atividade ética é fundamentado em seres humanos, pessoas, indivíduos e coletividades, a tradição moral ensina que não posso condicionar a repetição dos fenômenos apenas ao meu desejo de estudar, mas devo submeter-me aos direitos e vontades das demais pessoas. Por esta razão, como ciência a Ética enfrenta problemas de contorno moral limitador e restritivo.

Juan Sepich, em Introducción a la Ética, Ed. EMECÉ, B.Aires, 1952, ensina como sobrepor-se às dificuldades de abordagem. O problema indicado não se limita a esses termos. Sua formulação é simples, mas seu conteúdo não.

O conhecimento da ação tem duas significações distintas. A primeira está contida na idéia do processo de conhecimento que responde à pergunta: - como se pode ter conhecimento da ação. A segunda equivale a responder qual é o conhecimento que integra a ação. Ou seja, a ética como ciência deve primeiramente enfocar como abordar o fenômeno ético e em segundo lugar definir qual é a regra que emerge na causa-efeito que o determina.

Para Sepich, a primeira abordagem pode ser alcançada de forma direta, tal qual surge da observação do fenômeno. O conhecimento de que nos valemos para o desenvolvimento diário de nossa conduta com o próximo vem desta fonte. Afirma:
À criança basta observar os signos externos que acompanham a ação paterna ou materna para entender a mensagem que lhe comunicam os pais. Com esse conhecimento regula sua conduta. Os animais são empiricamente dirigidos por um tipo de conhecimento que aparece genericamente aparentado com este que mencionamos.
Importa observar, concordando com Sepich, que a Ética científica parte do pressuposto que a ação é suscetível de um conhecimento reflexo, que não provém da observação empírica, mas sim da atividade racional que atua sobre o fenômeno ético.

Emerge destas considerações que nos é possível na Ética como ciência, abordar os fenômenos éticos de pelo menos duas maneiras: uma, através de constatações de que os mesmos fenômenos obedecem as mesmas regras e outra, racionalizando as observações e projetando-as, através das idéias que contém, para o enunciado das regras gerais que regem ditos fenômenos. Procurar as causas primeiras ou finais já é um problema para a Ética filosófica. Tentar definir a utilidade dessas observações é objeto da Ética utilitarista. Invocar ou reportar-se a causas mitológicas ou de cunho religioso é objeto de estudo da Ética religiosa.

Em todos os estudos éticos, todavia, devo ter em mente que um campo depende do outro. Que a Ética científica recorre às informações disponíveis em todos os demais campos do conhecimento, sejam ou não relativos aos fenômenos éticos, utilizando-os como princípios, enunciados, hipóteses ou teses.
36. A Ética como atividade filosófica.
A Ética, como filosofia moral, é o ramo da Filosofia que estuda e avalia a conduta e o caráter humanos à vista dos conhecimentos, das tradições, dos usos e dos costumes.

Se estuda é porque reconhece a existência do fenômeno ético.


Não posso estudar o que não existe. Posso estudar o que tem existência no abstrato, ou seja, posso estudar idéias, linhas e formas de pensar. Posso estudar sonhos e fantasias. Nem só por que está no plano do abstrato idéias, sonhos, fantasias, linhas e formas de pensar deixam de existir. O que não existe não é. Se o fenômeno não é abstrato nem concreto, não ocorre na seqüência das abstrações possíveis, nem se materializa no tempo e no espaço, é por que não existe. Se não existe, não pode ser objeto de estudos.
Se a abordagem filosófica avalia os fenômenos, é porque pode atribuir-lhe juízos de valor, e até mesmo de quantidade. Mas, mais do que isso, é também o estudo sistemático dos princípios que nos permitem distinguir o bem do mal, o certo do errado, o correto do incorreto.

Como os demais campos do conhecimento, a Ética tem conexões com outros ramos da Filosofia e das demais Ciências. Por essa razão liga-se estreitamente à Metafísica, ao estudo das realidades (ciências aplicadas) e à Epistemologia, que é na prática o próprio estudo do conhecimento. Este estudo se relaciona, por exemplo, em saber se há diferença real, sensível, entre o bem e o mal, e se positiva, de que maneira essa diferença pode ser conhecida ou abordada. Por esta linha de procedimento, a Ética transforma-se na Ciência (ou Filosofia Moral) que objetiva conhecer e distinguir o bem e o mal.

Conceituar certo e errado necessita de padrões de erro e certeza. Em relação a operações aritméticas o procedimento é fácil e não deixa margem a dúvidas. Todavia, quando se trata de fixar padrões éticos em torno dos quais serão formulados juízos de valor abstrato, metafísico, então o problema se avoluma, e têm início as divergências. Conceituar o bem e o mal, tanto em termos restritos como em termos globais, enfrenta a mesma ordem de problemas conceituais.

A história das experiências sujeitas à inquirição ética nos mostra interpretações incertas e geradas por conflitos de opinião, de idéias ou palavras, acerca do que deve ser feito. Se essas opiniões são julgadas e vencidas depois da ocorrência dos fatos, o agente sofre as conseqüências penosas das ações que de início lhe pareceram corretas. Por força do resultado variável e nem sempre racional dos conflitos éticos, são postas em evidência as diferenças conceituais entre os grupamentos sociais. Estas experiências não apenas dão resposta às questões pessoais (à pergunta: o que devo fazer?), mas, em função do sistema filosófico ou da doutrina moral adotada, situam o homem-indivíduo em relação a si mesmo, à sociedade e ao universo.

Há uma ética teórica que visa estabelecer e harmonizar as relações do ser humano com a Natureza e o Universo. Neste caso, as proposições da Ética Teórica são estudadas para saber se os padrões e regras propostos são válidos no nível [verificar esta construção] apenas individual ou social, ou também para toda a Natureza e o Universo. Em outras palavras, importa saber se o objetivo das normas é harmonizar a vida e a sobrevivência dos indivíduos apenas entre si ou no seu contexto mais próximo, ou com toda a Natureza e todo o Universo.

No campo da Ética Teórica procura-se responder às proposições: o que significa dizer que uma coisa é certa ou errada? O que faz as ações serem recebidas como certas ou erradas? Como podem ser resolvidas as disputas nas questões morais?

Centenas, senão milhares de pensadores têm procurado, ao longo de milênios, os caminhos para chegar ao conhecimento. Quando tratamos de métodos de abordagem, de trilhas que nos podem levar aos horizontes abertos pelos quais poderemos conhecer o Universo e o que nele se contém, recorremos aos mapas que a didática nos propicia.

São indicações que reconhecemos válidas em face de quem a sugere. Aceitar a utilidade dessas informações é uma postura que decorre da autoridade moral, experimental, científica ou filosófica quem as fornece. É o mesmo que recorrer a um guia turístico, nas visitas aos monumentos históricos. Presumimos que ele tenha uma formação profissional, que seja sincero, honesto e verdadeiro nas informações que nos transmite. É o hierofante que leva os neófitos à iniciação. É o mestre, diante dos discípulos. O professor que informa e orienta os alunos.

Reconhecemos como ajustáveis aos nossos objetivos iniciáticos pelo menos seis métodos de abordagem dos conhecimentos. Didaticamente bem enunciados por W. Pepperel Montague em Los caminos del Conocimiento, Ed. Sudamericana, B. Aires, 1944, vale enunciá-los.

Há seis métodos que se referem à Lógica, no contexto da linguagem discursiva.

1.º) O método do autoritarismo, que utiliza os princípios que regem a autoridade de que emana o conhecimento. A ética lida com os pressupostos de autoridade fática que geram as tradições, usos e costumes. Portanto, este método tem utilidade para os nossos estudos.

O autoritarismo recebe como verdadeiros os conhecimentos que são anunciados por uma autoridade. Assim, o que muitas vezes é designado como conhecimento, de fato resulta de opiniões, tradições, usos e costumes, que são transmitidas por pessoas respeitadas e que desfrutam de conceitos positivos.


As expressões: Ser analfabeto é ruim porque a professora falou; colesterol faz mal, porque o médico me contou; devo ser honesto porque minha mãe recomendava são formulações simples, que revelam o sentido da idéia contida no autoritarismo. Aceito como verdadeiras a afirmação, a regra ou a recomendação, porque vieram de pessoas em quem confio, a que eu dou crédito. A professora tem autoridade para transmitir conhecimentos morais. O médico tem autoridade para transmitir conhecimentos de seu ramo. A mãe tem autoridade para recomendar como eu devo proceder porque mãe quer o bem do filho. Einstein provou a teoria da relatividade é uma afirmação que muitos aceitam como verdadeira em função da fama, da autoridade que Einstein desfrutava como cientista. O mesmo é dizer que tais conhecimentos me são transmitidos por quem tem autoridade moral. Por isso dispenso provas e adoto como conhecimento.
2.º) O método do misticismo. As informações míticas e místicas constituem precioso acervo que interfere e muitas vezes induz à geração do fenômeno. Também pode ser utilizado, com sucesso, na análise dos fenômenos éticos.

O recurso às heranças mitológicas e místicas dá origem a explicações de muitos fenômenos éticos. Mas não se poderá dizer que tais explicações sejam suficientemente completas para que possam ser consideradas conhecimentos científicos. Carl Jung e Joseph Campbell formularam estudos que insinuam o aproveitamento dos relatos mitológicos para a abordagem dos fenômenos éticos. Recordo-me que os relatos místicos ou mitológicos são os que atribuem às divindades origens de coisas, fatos, atos e processos e que relatam as conversas e relações entre deuses e homens, Por óbvio que tais relatos fazem parte de uma realidade literária a que pode corresponder uma realidade científica ou filosófica, embora não sirvam como enunciados suficientes. O acervo de tradições míticas, mitológicas e místicas, os usos e costumes que envolvem tais elementos éticos, servem muito especialmente aos estudos incluídos no campo da Ética Religiosa.


3. º) O método do racionalismo ou empirismo, pelo qual são procuradas as origens dos conceitos universais, a validade e a origem dos juízos universais e necessários, o estado ontológico dos universais e a significação cosmológica das proposições universais e necessárias.
Como já foi anotado, o que designamos por racionalismo ou empirismo é a abordagem do campo do conhecimento ético pela metodologia científica, também chamada racional. Descartes foi um dos precursores da sistematização do conhecimento fundado essencialmente nas formulações racionais. Apesar dessa portura racional e naturalista, Descartes intitulou seu trabalho sobre o método como Regras para a condução do espírito, sem explicar o que entendia por espírito.
4.º) O método do pragmatismo. Aqui se recorre ao pragmatismo como futurismo, ou seja, de projeções no tempo; como, ou seja, como estudo das relações entre o que é concreto, físico e particular, em oposição ao que é universal e abstrato; o pragmatismo prático envolve o que nos serve direta e contextualmente, no tempo em que vivemos; e finalmente, o pragmatismo empírico, que nos reporta não ao que é prático, mas à importância do que é concreto, específico e particular nas nossas relações empíricas.
O vocábulo pragmatismo tem origem no adjetivo latino pragmaticus,a,um que se refere à qualidade do que tem experiência; é hábil, é experiente em leis. Reporta-se também à idéia contida no substantivo pragmaticus,i que traduz a idéia de advogado, consultor em leis, legista e legislador. Em Ética Filosófica, a doutrina de Charles Sanders Pierce (1839-1914) expressa um pragmatismo cuja tese fundamental é que a idéia que temos de um objeto é a soma de todas as idéias relativas aos efeitos imagináveis atribuídos a esse objeto que possam ter utilidade. Por outras linhas de pensar o pragmatismo está sempre ligado à idéia da utilidade do conhecimento, ou seja, procura conceituar que só é válido como conhecimento o que puder ser utilizado, tanto nas formulações teóricas como na vida prática. Para estes, a verdade de uma proposição está contido na sua utilidade.
5.º) O método do ceticismo, com seus argumentos históricos, dialéticos, fisiológicos e psicológicos.
Demócrito é considerado o primeiro defensor da dúvida sistemática. Platão e Aristóteles também seguem sempre o curso das dúvidas que suscitam acerca de tudo que indagam e afirmam. Descartes, sugere que objeto do estudo é deve estar fundado naquilo de que nós temos a intuição clara e evidente ou que deduzir com certeza. O conteúdo fundamental do ceticismo é que a possibilidade do conhecimento repousa nas limitações da mente e resulta da inacessibilidade do objeto do conhecimento. A certeza e o ceticismo se opõem em razão das confusões da linguagem, dos diferentes significados para as mesmas palavras, dos critérios distintos e das ambigüidades no campo conceitual.
6.º) Um método eclético, ou misto, que se utiliza de todos os demais.
Eclético é palavra de origem latina, ecclesia,ae, que contém a idéia de assembléia, reunião, e quer expressar, na designação adotada para este método, o aproveitamento dos demais métodos e procedimentos, naquilo que eles são compatíveis entre si.
Sou levado a crer que o pressuposto do racionalismo ético, fundamento sistemático do procedimento filosófico, é que a idéia da razão é independente da idéia da experiência ou de qualquer outra fonte de conhecimento. Assim, objetivamente, a razão em si mesma independe da relações empíricas.

Concluo que a razão ética é trazida pelos conhecimentos, tradições, usos, costumes e experiências, está contido nesses fenômenos, mas não depende dele. Ou seja, a razão ética, filosoficamente, é independente do fenômeno ético.



- Duas pessoas se amam - é o enunciado de um fenômeno ético. Passam-se os anos e elas morrem. Mas a idéia do amor que existiu entre elas persiste.

A idéia do amor, que é o amor como causa-efeito da relação amorosa, independe do fenômeno concretizado entre as pessoas. Age e atua em todos os fenômenos enunciados da mesma forma.

A razão ética não depende do fenômeno ético.

A verdade sugere estar contida na afirmação oposta, ou seja, o fenômeno ético é explicado pela razão ética.


37. A ética prática
Há também uma Ética Prática, que serve ao indivíduo, ao seu grupo social, a sua pátria e mesmo a sua nacionalidade. Os estudos deste campo específico tentam explicar e resolver os problemas imediatos adotando posturas práticas, ocasionais, transitórias, que parecem ser as soluções apropriadas no momento

Neste momento importa observar o que significa o desejo de acreditar. No campo do conhecimento de natureza ética ou qualquer outra, entre duas opções, sejam elas de natureza teórica ou prática, científica ou filosófica, especulativa ou concreta, a forma de pensar dualística, herdada pelas nossas tradições filosóficas e religiosas, nos induz a escolher uma das possibilidades por que desejamos acreditar que ela seja verdadeira. Esta situação nos leva a proceder com muito cuidado intelectual, pois uma coisa é o que se tem e outra a que desejamos.

Na vida prática, que experimentamos nos sentimentos e paixões, maior cuidado é necessário, pois o que nós mais queremos é ser amados por quem amamos. Desejamos acreditar que somos amados. E, nem sempre, o que desejamos é o que queremos.

- Amor com amor se paga, diz o adágio português, mas a prática mostra que muitos que pagam não recebem.

O fenômeno ético ocorre nas relação indivíduo-contexto, ao longo do tempo, e em geral, expressa uma vontade do indivíduo ou do grupo social.

Sérias divergências, envolvendo a idéia do livre arbítrio e do destino, põem em dúvida que a vontade seja o fundamento do procedimento ético. Neste caso, todas as relações diretas ou indiretas do homem com seu contexto são fenômenos éticos e deve ser estudadas, pela Ética.

Isto é o mesmo que dizer que, aceitando-se ou não o fenômeno ético como decorrente de uma vontade universal, ele deve ser incluído e estudado no campo da Ética. Afinal, a vontade universal não deve ser incompatível com a vontade terrena, de nações, grupos sociais ou indivíduos. Este é o meu entendimento pessoal.

A Ética Prática, que estuda também as relações diretas que servem ao indivíduo e ao seu núcleo social, nos leva à abordagem de fatos e fenômenos éticos de extremada influências diretas. Nos estudos dos fenômenos jurídicos, históricos e sociais, que se incluem no estudo da Ética Prática, posso observar que os julgamentos sumários, os tribunais de exceção e as medidas intervencionistas, em geral ocorrem como soluções práticas que pretendem resolver situações emergenciais. Pretendem, mas como constato nos relatos históricos, no mais das vezes não resolvem e geram resultados inesperados ou efeitos que se mostram desastrosos ao longo do tempo.

Quando adotada com base em juízos de valores falsos ou sem respaldo racional, a Ética Prática, a meu ver, resulta no oposto do que é positivo e favorável ao desenvolvimento humano: destrói, vicia e corrompe. Em geral, beneficia poucos em prejuízo de muitos. Mas, na verdade, em avaliações de longo prazo, prejudica a todos e causa reflexos e efeitos extremamente negativos para o próprio indivíduo, para a sociedade e para a natureza.

É preciso muito cuidado no procedimento para não confundir Ética Prática com a Ética Utilitarista. Por esta os fins justificam os meios.



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