Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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Heranças éticas




26. Aproveitando Pitágoras e um pouco da experiência alheia. 27. Código ético genético. 28. Destino e seus limites. 29 - Erros e acertos na natureza 30 - Potencial não é destino. 31 - Vícios e virtudes. 32. Indagações éticas. 33. Delimitando os objetos de estudo. 34. Indivíduo, dualismo e contexto.
26. Aproveitando Pitágoras e um pouco da experiência alheia
Vejo que Pitágoras tem pelo menos parte de razão: na vida, para ordenação das idéias e dos elementos disponíveis, é imprescindível recorrer aos números, compreender as quantidades e saber relacioná-las. Sinto que preciso definir :

a) o tamanho das idéias e das coisas que se revela na relação quantitativa entre a idéia e as dimensões do indivíduo;

b) a forma que é anunciada pelos limites, nas relações geométricas entre o indivíduo e o espaço;

c) o conteúdo, ou seja a relação qualitativa entre o indivíduo e o seu contexto.

d) as quantidades, como somas ou produtos que identificam as combinações de unidades dos elementos.

O bom senso nos leva a aceitar que a idéia de tempo liga-se à idéia de estado e de ação. Ação e criação estão compreendidas numa relação antes-agora-depois ou passado-presente-futuro, ligada à noção de tempo. A idéia de eternidade colide com a idéia de tempo. Diante do abstrato e do concreto que a vida nos sugere, ambas são paradoxais.

Criar materialmente, num sentido amplo, traduz a idéia de fazer surgir, no contexto em que vivemos, algo que não existia, que é novo e que a partir desse momento de criação, fica incluído na ordem da realidade sensível. Anoto que só pode ser novo na combinação materializada das parcelas, por que resulta de materiais "velhos", preexistentes.

E na idéia? Será também novo? A criação do sujeito ou do objeto, sejam reais ou abstratos, leva-me a aceitar que algo novo passou a existir no campo das idéias e do materialmente insensível. Por analogia sou levado a acreditar que assim deve ocorrer a própria gestação da idéia.

Todavia percebo e capto essas noções por outros meios de abordagem que não apenas através dos sentidos. Forçoso é reconhecer que nenhum de nós é criado a partir do Nada. E também não é nem idealizado nem ordenado por uma ação súbita da vontade. Por outro lado, a ordenação e materialização do potencial criador, ainda quando ocorre numa fração de segundos, que para nós é muito pouco, exige tempo.

Adoto como princípio que, para todo processo ou procedimento, a natureza exige tempo. A fixação material da idéia-vontade-ordenação resulta num código de procedimentos e só pode ter significado quando associada à idéia de tempo.

Dessa forma, a criação não apenas viabiliza o indivíduo, mas desde logo fixa os parâmetros e limites de seu desenvolvimento físico e biológico, incluindo obviamente, no caso do ser humano, também os parâmetros físico-biológicos para o desenvolvimento mental. Essa força contida na ordenação de preceitos para o desenvolvimento de cada indivíduo inclui, também, as demais forças através das quais se materializa a idéia-vontade.
A idéia de tempo tem raízes mitológicas. Cronos é o deus grego que contém a idéia de Tempo. Na Bíblia judaica e cristã Jehová cria o mundo em seis dias e descansa no sétimo. No Hinduísmo, Krishna é eterno, ou seja, está fora da idéia de tempo, mas o corpo dos homens é mortal, portanto, está sujeito ao tempo. Surgem as questões que integram o campo de atuação do criticismo ético:

- É possível pensar fora do tempo?

- É possível agir fora da noção de tempo?

- Com que margem de segurança posso afirmar que a idéia do triângulo equilátero e todas as demais idéias, não estão sujeitas à ação do tempo?
Objetivamente, estou chegando a reconhecer a possibilidade existencial de um código ético-genético, embora apenas tateando ao redor de seu conceito. Não sei exatamente o que é um código ético-genético, mas as palavras anunciam a razão-idéia (logos) do que nele se contém.

Esta trilha é tortuosa. Os abismos que estou cruzando podem atrair pensamentos de misticismo e crendices diversas, deixando de lado a firmeza da razão. A intuição me provoca reações que exigem desmistificações.

E estas vêm através de uma formulação que adquire nitidez: o código ético-genético a que me refiro não implica nas determinações do que muitos entendem por destino, nem em predeterminação. Apenas contém potencialidades

27. Código ético genético.
Quando falo de herança intelectual a trilha se alarga. Há uma predisposição de sentimentos que nos leva a uma situação de vantagem pois essa idéia de receber heranças corresponde a idéia de acréscimo patrimonial. Há uma conotação de coisas prontas, de conjuntos completos, de idéias materializadas; de vivências comprovadas e de relações ordenadas e sistematizadas.

A herança vem de outros, daqueles que construíram ou conservaram esse patrimônio. As linhas de pensar vão ficando mais claras. Há heranças genéticas e há heranças patrimoniais.

As heranças genéticas nos vêm através de um código genético, herdado quando somos gerados e concebidos. Na abordagem deste fenômeno estudado pela genética, os estudiosos falam de genes e cromossomos e de caracteres hereditários. Ou seja, há caracteres que recebemos no momento em que o espermatozóide entra no óvulo e germina a célula mãe.

Não estarei muito distante da verdade que nos é mostrada pela biologia se eu afirmar que o código genético de um indivíduo, de uma raça, de uma espécie ou de um gênero, animal ou vegetal, é a expressão materializada do projeto desse indivíduo, dessa raça, dessa espécie ou desse gênero.

A experiência induz-me pensar que esse código tem sinais ou elementos que só se revelam ou retransmitem durante o tempo de vida de cada indivíduo. Ou seja, o código bio-genético é aproveitado e só é utilizado pelo indivíduo enquanto ele estiver biologicamente vivo, enquanto é possível materializar suas potencialidades.

O código genético nos parece ser, na verdade, a materialização da vontade de vida reprodutiva que recebemos da natureza, codificada e contida em cada célula germinativa de cada ser individualizado. Uma vez propiciada a realização do potencial genético, essa vontade, como força propulsora, atua sobre o projeto e se materializa no indivíduo.


Reporto-me ao que nos é transmitido pela mitologia persa. Ormuzd indaga da fravasi (alma) se ela quer integrar as Forças da Luz contra as Forças das Trevas. Quando a alma, individualizada mas ainda abstrata, responde positivamente, ela é encarnada com características definidas para desenvolver seu comportamento durante a vida física.
O que nos chega pela mão dos persas é que o ser humano nasce com um código de comportamento. Ela traz esse código de comportamento em sua constituição físico-biológica. O que me leva a entender que, dentre as potencialidades a serem desenvolvidas pelo indivíduo durante sua existência, estão também as que se relacionam as suas posturas em favor das Forças da Luz.

Os relatos mitológicos, tanto de indus, persas, egípcios, gregos e hebreus, sugerem que há três idéias fundamentais ligadas pela mesma linha de pensar. São elas: a idéia da Verdade, que, mesmo quando verificada experimentalmente pelo seu conteúdo, é sempre uma idéia, por natureza abstrata e dinâmica; a idéia da Luz, que ao ser materializada passa a ter natureza física ( matéria e energia), e a idéia do Bem, por natureza abstrata, e que é moral pois nos chega pela força propulsora de tradições, costumes, usos e conhecimentos.


Dentro da tradição dualística trazida pelo Zoroastrismo (Mazdeísmo), para cada ser ou idéia criada pelo deus Ormuzd para integrar as forças da Luz, seu irmão e adversário, o deus Ahriman tem o direito de criar uma força da mesma natureza e de sentido oposto. Na medida que imagino uma ligação linear Verdade-Luz-Bem, por correspondência, pode ser imaginada uma linha Mentira-Trevas-Mal.
Para o ser humano, bem e mal, verdade e mentira, são conceitos, necessariamente abstratos por natureza, mas que dirigem suas posturas e comportamentos. São idéias de natureza ética que nos vinculam a tudo que está ao nosso redor, e que, num salto do mundo abstrato para o mundo físico, determinam nossa posição na luta entre a Luz e as Trevas, resultante das disputas abstratas entre Verdade e Mentira, Bem e Mal.

A idéia dessas disputas, dos processos e procedimentos humanos, suscitadas e contadas pela mitologia, constitui a idéia fundamental que dá origem à compreensão dos fenômenos éticos. São as representações imaginárias das razões do comportamento humano. E, por que se referem aos usos e costumes, às tradições e à prática dos conhecimentos, são chamadas razões morais. Tais razões nos chegam de forma vaga, imprecisa, muitas vezes truncadas e incompletas.

Aventuro uma suposição. Não me parece errado dizer que, incluído no seu código genético biológico, cada indivíduo receba também um código para que tenha saiba relacionar-se com os elementos do contexto a que é lançado. É um saber potencial, a ser desenvolvido durante a manifestação do indivíduo enquanto ser vivo.

Diante da história, dos fatos e das tradições que nos chegam, deve ser considerada como provável a hipótese de predestinação. É o que nos contam as histórias de Cristo e de João Batista, iniciadas e continuadas por toda a mitologia.

Não preciso aceitar a idéia de predestinação como uma idéia imperativa, que define a necessidade de materializar-se. Mas não posso desconsiderar essa possibilidade nem refutá-la diretamente. É possível que seja verdade. Nada mais nem nada em contrário. Vejo nas religiões, cujo estudo integra a Ética religiosa, há muita tradição oral e escrita de episódios em que as pessoas recebem, antes de nascer, a missão que devem cumprir na terra.

Esta idéia de missão a ser cumprida tem muito a ver com os fenômenos éticos. Aproveitando-me de tradições, usos e costumes, e mais especialmente dos conhecimentos científicos, permito-me aventar como provavelmente verdadeira a idéia de código ético genético, ou seja, de caracteres éticos herdados juntamente com o código genético, de natureza biológica-físico-química.

Admito intuitivamente a possibilidade de que, quando somos concebidos, herdamos também um código ético que está contido, integra ou faz parte de algum ou alguns de nossos genes.



28. Destino e seus limites
Quando falamos necessidade, na linguagem comum, em geral queremos nos referir a algo que nos é indispensável. Que precisamos. Que devemos ter ou fazer. Nas suas raízes etimológicas a palavra necessidade traduz idéia semelhante à de destino, ou seja, aquilo de que não se pode fugir, que é indesviável. Assim, dizer que necessito de alguma coisa é o mesmo que afirmar que não posso fugir dessa possibilidade por que o destino me impõe essa necessidade. Se eu digo necessito comprar um carro é o mesmo que dizer o destino me impõe comprar um carro. Mas se eu digo quero comprar um carro, observo que tenho o arbítrio, a possibilidade de não exercer essa vontade.

Todavia o uso da palavra necessidade vulgarizou a idéia, modificando-lhe o conteúdo etimológico. Atualmente a idéia de necessidade corresponde à idéia de algo que me faz falta, ou seja, que vai completar o meu eu.

Quando falo de um código genético, refiro-me a um dispositivo que contém potencialidades. Estas podem ou não desenvolver-se. O sentido usual da expressão necessidade do desenvolvimento não é o mesmo que conscientizo quando ouço a palavra destino.

Revejo as anotações anteriores e observo que a palavra necessidade contém a muitas idéias. Significa o que é inevitável; o que nos é imposto como obrigação; indica a fatalidade, com o sentido de destino indesviável. Também contém a idéia da exigência legal. Outro sentido é o que indispensável à pessoa por exigência natural. O estado de necessidade sugere a situação crítica, de alguém em apuros. Socialmente traz o signo do estado de indigência, da extremada pobreza. E ainda, necessidade expressa a força de ligação que decorre dos laços de parentesco ou amizade, pois a idéia de parentesco é uma necessidade, uma fatalidade, surgida das relações sanguíneas entre pais, filhos e seus descendentes. Sempre contém a idéia de uma força potencial, em fase de realização.

Isto por que, o potencial de desenvolvimento contém a idéia de uma força que existe dentro do ser, do grupo social ou da comunidade, cuja eficácia pode vir a ser, pode tornar-se realidade. Mas pode não se tornar realidade. Se sou portador de um potencial de desenvolvimento posso ou não desenvolver-me, dependendo das demais condições do contexto.

Portanto, destas observações concluo que a idéia de destino, ou seja, daquilo que não pode deixar de acontecer, conflita com a idéia de potencialidades, do que pode ou não vir-a-ser. Aqui encontro uma das justificativas éticas para firmar meu crédito no livre arbítrio como parte integrante do potencial humano.

A idéia que me vem das tradições cristãs e de tantas outras mitologias religiosas, animada pela experiência pensante, é que o destino poderia estar embutido nas potencialidades mas, porque é uma força potencial, a realização dessa força é apenas possível e não uma necessidade indesviável.

As locuções missão possível e impossível, destino possível e impossível, sugerem-me idéias de conteúdo tautológico e paradoxal.


29 - Erros e acertos na natureza
Não é possível contestar que recebemos um código genético biológico. Quer me parecer que somos todos, homens, pássaros, peixes, mamíferos, insetos e protozoários, vírus e bactérias, portadores de um código ético-genético, resultante de uma idéia-vontade que nos antecede e cujo processo de materialização é ordenado e viabilizado antes de nossa criação.

A ordenação da idéia-vontade do que designamos abstratamente por Natureza, Deus, Autoridade Anterior, Poder Criador, Poder Ordenador, Grande Arquiteto do Universo ou tantos outros nomes, dá, como resultado, que cada um de nós, ao ser gerado e concebido pelo pai e pela mãe, recebe de ambos, numa combinação de seus genes e cromossomos, um novo código genético.

Se houvesse predeterminação, a Natureza não exibiria, em desperdício, todo o esforço que perde nas milhões de sementes que não germinam. Será que a idéia universal de frustração e desperdício não corresponde ao mesmo fenômeno que nos indica o quanto desperdiçamos de tempo, dinheiro, força, saúde, tristezas e alegrias ao longo de nossas vidas?

O que posso constatar é que a Natureza avança numa sucessão de tentativas e erros cujos números são fantásticos: bilhões de sementes produzidas para que umas poucas germinem. Das milhares que germinam, poucas vicejam. Das poucas que brotam, menos ainda florescem e dão frutos. Bilhões de espermatozóides em cada ejaculação, para que, ao longo da vida, uns poucos filhos levem nossa herança genética. E, muitas vezes, nenhum recebe ou transmite essa herança.

A quantificação da história da Natureza é a constatação de um número infinito de tentativas de reprodução, em que a absoluta maioria falhou. A Natureza avança e se desenvolve sobre frustrações , erros, desvios e desacertos. Errar muito parece ser a regra natural para acertar pouco. O que nós entendemos por desperdício parece ser a regra da Natureza.

A variação ou mudança de qualquer item do projeto do indivíduo humano, ou seja, qualquer mudança em nosso código genético, custa, para que seja bem sucedida, bilhões de tentativas. São infinitos bilhões de combinações frustradas, cujas potencialidades são insuficientes para que sua realização seja efetivada.

Qualquer mutação genética desfavorável pode alterar imediatamente as possibilidades de sobrevivência da própria espécie biológica. Ou, em menor escala, dos indivíduos que a recebem. Da mesma forma, qualquer mutação favorável pode propiciar manifestações de indivíduos cujas possibilidades lhes transmitam melhores condições de sobrevivência, desenvolvimento e sucesso.

Assimilar e saber harmonizar os conceitos éticos para as relações entre indivíduos, sociedade e Universo, exige de cada um de nós a vontade, o tempo e adaptação.



Para que se opere o nascimento, deve ser cumprido o código genético contido na célula-mãe, ou seja, no ovo. Até esta fase, são necessárias condições mínimas, propiciadas pelo contexto do ambiente materno, que possibilitem e viabilizem a formação e sobrevivência do indivíduo recém-nascido de acordo com seu código genético natural.

As condições mínimas para formação e sobrevivência são viabilizadas, produzidas, geradas e criadas pelo Todo e dirigidas ao contexto em que o indivíduo vai nascer. Se não forem atendidas, ocorre a morte, e o projeto daquele indivíduo não se materializa.


30 - Potencial não é destino.
Parece-me que o código genético de cada indivíduo ou ser vivo está integrado pelo menos por três subcódigos.

Um subcódigo é, por natureza, ordenatório e universal, que se aplica a todas as criaturas e que lhes indica as possibilidades de relacionamento e suas potencialidades de desenvolvimento no contexto a que são lançadas. Por exemplo, existir, ser, estar, parecer, permanecer, ficar e tornar-se são idéias que exsurgem como contidas nesse subcódigo biogenético de natureza universal.

Um segundo subcódigo, por natureza de alcance menos extenso, menor, que define gênero e espécie de indivíduos, define as características genéricas ou específicas, próprias do gênero ou espécie em que estão enquadradas.

E finalmente, um terceiro subcódigo individual, que particulariza e distingue cada indivíduo de seus semelhantes. Intúo que o conteúdo deste subcódigo não só é de natureza física, mas também de natureza anímica ou espiritual.


Acredito que fazem parte do código genético: o tamanho, ou seja, a relação quantitativa entre a idéia e o indivíduo; por esta disposição são preestabelecidos os valores máximo e mínimo do tamanho físico do indivíduo; pode ser gordo ou magro, forte ou frágil, alto ou baixo, etc.; o formato, ou seja, a relação geométrica entre o indivíduo e o espaço: são pré-fixados os limites para o formato físico do indivíduo: caucasiano ou africano, loiro ou moreno, ágil ou lerdo, etc.; e o conteúdo, ou seja a relação qualitativa entre o potencial do indivíduo e seu redor.
Falo e penso acerca do que me parece espiritual.

- Mas o que é o espírito? É a mesma coisa que alma?

Há várias formulações para conceituá-lo. Tradicionalmente é entendido como sendo o imaterial que existe na matéria. É o que transcende o mundo da realidade sensível. Na equação enunciada por Einstein é a energia, que pode se transformar em matéria numa relação tempo-espaço.


Na Ética Positivista a transcendência do espírito sobre a matéria não é passível de verificação e por isso não pode ser reconhecida. Explicam-se os fenômenos em face dos dados comprováveis e disponíveis. Como a idéia de transcendência de espírito e alma não satisfaz estes requisitos, não pode ser adotada. Como na Ética Naturalista, os positivistas entendem as coisas pelo que elas parecem ser aos nossos sentidos. Fenômenos que não são sensíveis não são passíveis de comprovação e por isso não se pode afirmar que ocorram. Diante desta verificação, são excluídos do objeto dos estudos porque não sendo não podem ser provados pelas formas sensíveis de comprovação.
Cada um de nós encontra, por vezes, dificuldade extrema em conceituar distintamente o espírito e alma. A discussão é extremamente especulativa, e sobretudo conceitual. Assim, adotemos, por ora, a idéia de que a natureza espiritual a que nos referimos prende-se à noção do imaterial, das formas imateriais, abstratas, onde a idéia e a razão coexistem com as fantasias e as abstrações do pensamento.

Aceitos estes elementos conceituais como uma constatação, eles permitem concluir que, antes do nascimento, há um conjunto de regras que estabelecem em que nível de relações o eu, como indivíduo, é viável, e em que limites é possível sua evolução e seu desenvolvimento. Acredito que conhecer estes limites é imprescindível, não só para políticos que querem governar como também para todos, em geral, na condução pessoal de suas relações e no desempenho da vida.

A materialização do indivíduo corresponde a uma ruptura física do contexto, na medida em que, rompendo o cordão umbilical, ele se destaca, se identifica e se caracteriza na forma física de uma pessoa.

Portanto, numa primeira etapa, intuo que o indivíduo recebe, quando é criado, um conjunto de determinações genéticas que dever ser respeitado diante do seu contexto e com aproveitamento do qual poderá realizar a plenitude de seu desenvolvimento.

As relações indivíduo-universo e indivíduo-contexto que dependem da vontade do indivíduo ou do seu grupo social são chamadas de relações éticas.

Assim, o livre arbítrio de que dispõe o ser humano encontra seus limites no código genético e no contexto das relações éticas.


31 - Vícios e virtudes
Recebemos das tradições e dos costumes a idéia da necessidade moral.

- Você precisa dizer a verdade, por que isto é moral.

- Você deve trabalhar para o seu sustento, por que a ética ensina que deve ser assim.

- Você deve amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo!

- Você precisa honrar seu pai e sua para que seja próspero e se prolonguem seus dias na terra - é o que ensina a Lei gravada na pedra e recebida por Moisés.

As idéias, linhas e formas de pensar envolvidas nas disputas, nos processos e procedimentos humanos, entre a Verdade e a Mentira, a Luz e as Trevas, o Bem e o Mal e que nos são transmitidas pelas tradições mitológicas, usos e costumes e conhecimentos, constituem o objeto conceitual indispensável para a abordagem especulativa no estudo dos fenômenos éticos.

Estas representações imaginárias das razões, primeiras ou finais, do comportamento humano são os eixos sobre os quais somos ensinados a conceituar as virtudes. Há virtudes físicas e há virtudes morais.


Os primeiros Versos Dourados, ensinados aos neófitos que tinham a intenção de iniciar-se na academia de Pitágoras, recomenda os procedimentos fundamentais:

Venera sobretudo os Deuses imortais segundo a lei, e obedece o juramento. Honra pois os radiosos Heróis divinizados e aos demônios subterrâneos faze tuas ofertas, segundo o rito. Honra também os teus pais, e quem é, por sangue, mais próximo de ti. Dos outros faz amigo aquele que por virtude é o melhor, imitando-o no falar manso e nas ações úteis. Por culpa leve, quando puderes, não te ires contra teu amigo. Ligada ao poder vige a Necessidade.
Como vimos anteriormente, as formas de pensar que nos induzem ao dualismo, opõe os vícios às virtudes..

E por que se referem aos usos e costumes, às tradições e à prática dos conhecimentos, as virtudes e vícios constituem razões( ou causas) morais que explicam os nossos procedimentos.

As razões morais nos chegam pela tradição, usos e costumes, muitas vezes de forma vaga, imprecisa. Truncadas, incompletas e distorcidas exigem uma abordagem metódica e meticulosa para serem suficientemente entendidas.

Aventuro uma suposição. Afirmei acima, que a intuição me assinala com a possibilidade de existência de um código ético, incluído naquele que é, por natureza física, designado código genético biológico.

Todavia a experiência ensina o que as tradições, usos, costumes sugerem: há uma terrível disputa, no mundo físico, entre forças de natureza biológica, física, química e moral, que atuam sobre tudo e todas as coisas.

O pensamento humano, de forma objetiva, preocupa-se em definir regras de atuação que lhe facilitem a existência e propiciem as condições de vida que o satisfaçam.

Conforme a tradição, o que chamamos virtudes são as idéias ou razões morais positivas que nos trazem os melhores resultados. Os vícios são os portadores dos insucessos e dos resultados negativos. Enquanto atuo, seja de acordo com virtudes ou vícios, procedo eticamente. Mas , e ai vem o fundamento da explicação, se os costumes (mores) indicam a prática da virtude, e eu pratico o vício, eu estou agindo contra a moral, mas, a rigor, não estou agindo contra a ética mas contra as regras que me são recomendadas pelos conhecimentos trazidos pela Ética..

Posso agir contra a Ciência? Contra a física? Contra as Matemáticas? Por óbvio que não. Só posso agir contra seres físicos, pois agir expressa atuação no mundo físico. Ciência, Física, Matemáticas são idéias. São abstrações que identificam campos de atuação do conhecimento. Como idéias, são inatingíveis pela ação física do homem, por que, por natureza são abstrações.

Na linguagem usual, eu não posso agir contra a Ciência, mas contra as leis da Ciência, não posso agir contra a Física, mas contra as Leis da Física. Não posso agir contra a Ética, mas contra as leis da ética. Posso atuar negando validade ou eficácia às leis do conhecimento, mas não contra o conhecimento. E assim por diante.

A minha intuição sugere que cada indivíduo recebe, antes de nascer, um código de relacionamento com os elementos do contexto a que é lançado. Pelo menos me parece evidente, à vista dos fatos e das tradições que nos chegam, que deve ser considerada a hipótese de predestinação. É o que nos contam as histórias de Cristo e de João Batista. Não preciso aceitá-las mas não posso desconsiderá-las.

Vejo que nas religiões, cujo estudo integra a Ética religiosa, há muita tradição oral e escrita de episódios em que as pessoas recebem, antes de nascer, a missão que devem cumprir na terra.

Esta idéia de missão a ser cumprida tem muito a ver com os fenômenos éticos. Aproveitando-me das tradições, dos usos e costumes, e especialmente dos conhecimentos científicos , permito-me aventar como provável a verdade contida nessa idéia de código ético genético, ou seja, de caracteres herdados juntamente com o código genético biológico. Admito e considero a possibilidade de que, quando somos concebidos, herdamos também um código ético que integra algum ou alguns de nossos genes.

Recorrendo aos elementos trazidos pela tradição, pela mitologia, e retransmitidos pelos usos e costumes, vejo que é lícito supor que os homens nasçam para integrar algum dos sistemas de forças que se enfrentam no Universo. Agrada-me pensar que integramos as forças da Verdade-Luz-Bem. Sinto-me aliado desse conjunto. Procuro ajustar-me a ele. A idéia da Verdade me é extremamente agradável, tanto aos sentidos como à mente. Lidando com idéias verdadeiras as linhas e formas de pensar tecem conjuntos que me dão prazer. Sinto-me bem, compatibilizando-me com essas idéias e procurando atuar de acordo com elas. Amo a verdade e odeio a mentira. A verdade é uma virtude, e a mentira é um vício. A idéia de que estou integrado às forças que tem a seu lado a verdade me dá prazer e segurança. Se há forças em disputa, onde estiver a verdade estou do lado dela. É a razão moral contida na idéia de verdade que me leva a agir assim.

Procuro outras virtudes, que integrem estas mesmas forças.

As tradições do povo judeu, herdadas pelas culturas ocidentais através da difusão do cristianismo, através dos escritos deixados pelos profetas hebreus, que há anunciam que há uma relação de amor entre Deus e a obra de sua criação.

Receber por tradição as mensagens afirmando que Deus Jehová é Deus da Verdade, da Misericórdia, da Generosidade, da Bondade e do Amor , ama e protege a obra de sua criação, faz-me reconhecer que esse é o Deus das Virtudes.


Saber que o Deus dos judeus é bondoso me agrada e me atrai. Saber que Ele ama a obra de sua criação me dá segurança. Na medida em que sou informado pela tradição que Deus Jehová é Deus das Virtudes, sinto-me integrado às suas forças. Por opção alisto-me entre os que querem e defendem as virtudes.
Observo que o mundo moderno é formado por centenas de países. O mais populoso deles tem tradições incontáveis, recebidas de mestres que ensinaram e explicaram de forma conceitual em que razões morais reconheciam as virtudes. Reporto-me aos mestres chineses Lao Tsé, pai do Taoísmo, e a Confúcio, gerador do Confucionismo, e que nasceu na cidade de Lu, no ano de 551 a.C. Lao-Tsé, ou Lao-Tan, mais velho que Confúcio, foi seu contemporâneo. Era chamado o Velho Mestre, em lugar de Velho Grande Ouvidor.
Conta-nos a tradição que Lao Tse era culto e instruído, e fora, em seu tempo, o responsável pelos arquivos imperiais. Considerado um dos maiores escritores da língua chinesa, é autor de um livro com cerca de 5000 palavras e que chegou ao nosso tempo com o título de Tao Te King, ou Clássico de Tao, um dos mais profundos trabalhos de Filosofia do mundo. Todavia, como em todas as boas obras, suscitam-se dúvidas quanto à autoria. Confúcio, certa vez, dirigiu-se a Lao-Tsé, colocando-lhe proposições acerca da ostentação contida nos ritos em vigor, ao que o Velho Mestre respondeu sugerindo-lhe humildade e simplicidade.
Lao-Tsé ensinava uma compreensão do universo essencialmente naturalista e anti-social, à qual se opunha Confúcio. Nenhum dos dois traduzia sentimentos religiosos em suas mensagens. Confrontavam-se, no conteúdo ético das proposições, sem anunciarem a necessidade da ligação homem-deus. Eram opositores nas cadeias de idéias com que procuravam incentivar as virtudes humanas na vida, em sociedade ou fora dela.

Como resultado desse confronto, surgiu o Taoísmo em oposição ao Confucionismo. Naturalista e anti-social, o Taoísmo acompanha a doutrina do deixar fazer, recomendando tanto quanto possível o reencontro do homem com a natureza.

O Taoísmo é o movimento precursor do Naturalismo e dos chamados movimentos verdes, capitaneados, nas ações políticas atuais, pelos Partidos Verdes de vários países. Mostra muitas afinidades com as recomendações do Zoroastrismo que dizem respeito à preservação da natureza. A palavra de ordem é amar e respeitar a natureza, compatibilizando a vida individual apenas com as necessidades, dispensando o que não for indispensável para a sobrevivência. Por antecipação à realidade que vivemos, é a mais direta oposição ao consumismo.

Quanto a Confúcio a história é outra.
Mandava a tradição chinesa que, durante três anos, aquele que ficasse órfão de mãe vivesse solitariamente. Querendo melhorar sua posição social, Confúcio aproveitou-se desse período para longas e profundas meditações. Aos trinta e quatro anos seu nome passou a chamar a atenção de seus concidadãos pela sua competência, e já era considerado um distinguido Mestre de cerimônias. Dos três anos de vida solitária pouco se sabe, restando apenas o seu interesse em fazer crescer seus conhecimentos pela abordagem dos assuntos mais diversificados. É fora de dúvida, entretanto, que ele se tornou um especialista no código de "Li". Uma vez terminado o período de luto, tornou-se mestre escola, acolhendo jovens que se preparavam para a profissão.
Como professor, Confúcio ensinava a ciência dos ritos ("li"), a escrita, o cálculo e a arte da oratória (retórica). Seus alunos assumiam postos de intendência junto às famílias aristocratas. Nada havia de extraordinário no seu procedimento de educador, salvo a forma de recrutar seus alunos. Existiam, em seu tempo, os pedagogos hereditários que ministravam seus ensinamentos apenas aos jovens da aristocracia. Confúcio foi o primeiro a abrir suas portas aos jovens de todas as classes sociais. Ensinava que não há classes sociais diante do conhecimento; todos podem ter acesso à instrução.

Como foi bem sucedido nesse trabalho, Confúcio passou a incluir, entre as disciplinas que ensinava , aulas de história, de poesia e de ciências morais e políticas, que lhe pareciam matérias essenciais para o sucesso nas carreiras públicas de seus discípulos. Confúcio recebeu ensinamentos de Lao-Tan, grão mestre de cerimônias da cidade de Lo. Em outra cidade, Ch'i, descobriu uma "música divina" que tanto o deslumbrou que por três meses ele perdeu o gosto de comer carne. Ocupou altas posições na administração de Lou, primeiro como juiz e depois como ministro da justiça, e até, provavelmente, como ministro interino. Quando foi forçado a abandonar seu posto em Lou, provavelmente por desavenças políticas, passou treze ou catorze anos viajando, ensinando e visitando os soberanos feudais dos lugares pelos quais passava. Quando já velho retornou a Lou, o homem simples, pastor de rebanhos, havia se tornado o mais culto e respeitado entre seus concidadãos.

Confúcio assumiu a responsabilidade histórica que o levou a escrever e editar o que pensava, somando ao que herdou de seus ancestrais e contemporâneos. A partir desse desejo de preservar por escrito o que lhe parecia inseguro fazer pela tradição oral, ele tornou-se um editor de obras literárias e responsabilizou-se pela elaboração, compilação e supervisão de trabalhos que, se não são de sua autoria - o que em nada lhes diminui o conteúdo - não nos teriam chegado sem a sua colaboração.
É mesmo possível que o Livro das Odes e o Livro das Histórias já tivessem circulado anteriormente a Confúcio, mas, sem dúvida, após seu advento, tomaram novas formas e nos foram apresentados de maneira mais acessível. Na questão dos ritos, onde se tornou indiscutivelmente mestre, foi o mais capacitado. Entendia mesmo do assunto. O Livro dos Ritos foi perdido e não chegou aos nossos tempos.

Também o Livro da Música extraviou-se no decorrer dos séculos, sem que nos fosse permitido acessá-lo. O exemplar de Memorial dos Ritos que lhe é atribuído foi, na verdade, produzido posteriormente, na dinastia Han. Fascinado pela leitura de um livro místico, Livro das Mudanças, de autoria possivelmente do rei Wen e do duque de Chow, Confúcio redigiu, já na maturidade, segundo alguns estudiosos, os seus apêndices, de natureza eminentemente filosófica. Até esse momento, Confúcio sempre foi tido como professor, que transmitia conhecimentos, mas a partir desses apêndices, em face de sua autoria, Confúcio foi denominado o primeiro dos autores chineses.



De tudo que chegou ao nosso tempo, ficou assegurado a Confúcio, perante os estudiosos da magia, a condição de mago, possivelmente por sua colaboração na edição do Livro das Mudanças.
Sobre o conceito confucionista de virtudes, escreve o Professor Liu Wu Chi, da Universidade de Yale e diretor do Departamento de Estudos Chineses do Hartwick College, em Nova York:
"Mas o que mais nos impressiona é sua concepção elevada sobre as virtudes fundamentais: Chung (fidelidade a si mesmo e aos outros); Shu (altruísmo); Fen (humanidade); I (justiça); Li (decência); Chih (sabedoria); Hsin (sinceridade), sendo certo que todas foram recomendadas com tanta força pelo mestre, do que ele deu exemplo pessoal, que se tornaram, desde seu tempo, o credo moral de todo povo chinês. De fato, foi esta insistência sobre a cultura moral, independentemente de sua classe ou de sua origem social, que fez de K'ung Ch'iu o mestre imortal que ele é."
Atento a estas informações, procuro o significado dessas virtudes. Sinto que esta trilha conduz a um centro de idéias elevadas e de cunho prático.

Sete idéias primordiais contidas em sete palavras chaves do pensamento de Confúcio nos revelam o sentido ético e ritualístico de suas formas de pensar. Correspondem ao enunciado dos parâmetros do procedimento humano, definidos e recomendados pelo pensador chinês. Chung - fidelidade; Shu - altruísmo; Fen - humanidade; Yi - justiça; Li - decência; Chih - sabedoria e Hsin - sinceridade, expressam as sete virtudes principais do confucionismo. As idéias contidas nessas palavras merecem uma atenção especial.

Chung – fidelidade. A primeira palavra-idéia é Chung, que em português significa fidelidade. O sentido de fidelidade envolvido nesta palavra é genérico: fidelidade a si mesmo e a todos. O conceito ocidental de fidelidade coincide com o oriental, embora este seja mais abrangente. Na cultura ocidental, a etimologia nos leva à idéia de fé contida no vocábulo latino representado pelo substantivo fides, ei, do qual surgiu fidelitas, tis. Contudo, muito antes do Império Romano, a idéia da fidelidade já corria entre os homens, expressando uma forma de relacionamento entre as pessoas que decorria de um vínculo de vontade ou de obrigações. A fidelidade, como um ato de livre manifestação de vontade individual, liga o amante ao ser amado, prende-lhe a atenção e os sentimentos, e gera uma relação afetiva unilateral (amo porque quero vê-la amada) ou bilateral (amo porque ela me ama). Assim, o sentido da fidelidade conjugal expressa uma ligação, no plano do abstrato, que não é materialmente ligada a nada mais senão à idéia do vínculo da vontade dos cônjuges, que pode ser traduzida na expressão: tenho fé nesta relação.

Também no sentido da fidelidade do súdito ao seu soberano, ocorre da parte do súdito uma ligação de fé,(do latim fides,ei) de confiança, em que o soberano, com mais sabedoria, poder e força, irá fazer o melhor pelo súdito e por sua comunidade. Há uma fé latente na validade da relação soberano-povo. A fidelidade se extingue quando o soberano se mostra injusto ou incapaz.

A idéia confucionista de fidelidade não subsiste isoladamente, mas se completa com as noções de compromissos mútuos, nas relações conjugais, e na de compromissos gerais, entre o soberano e seus súditos. Por isso que a fidelidade pressupõe sempre um compromisso; o compromisso afetivo, histórico ou contratual, que decorre do ajuste de vontades. Nas três hipóteses, a fidelidade é determinada pela palavra empenhada.
Veja-se como exemplo, em nosso país, o compromisso matrimonial prestado em voz alta pelos cônjuges diante de testemunhas, de um juiz de paz, ou perante sua comunidade religiosa; também é assumido através da palavra o compromisso cívico do cidadão com a Pátria no juramento à bandeira, ou quando assume cargos públicos; ou quando se faz presente na colação do grau de sua profissão e, finalmente, nos contratos, quando se sujeita à palavra escrita e às condições do ajuste. Manter e respeitar os compromissos assumidos - este é o sentido fundamental que encontro nesta virtude.
Fidelidade a Deus, à Pátria, ao amor, à justiça, à decência, à sabedoria e à sinceridade nos levam, sem possibilidade de desvios, à fidelidade a nós mesmos. Com fidelidade a nós mesmos, a vida adquire sentido e significado de responsabilidade perante os demais seres à nossa volta, e agrada ao espírito, por mais que, às vezes, possa custar sacrifícios ao corpo. A fidelidade a nós mesmos afasta e isola a noção da irresponsabilidade. O conceito aplica-se também à honestidade com que se custodiam ou se guardam os valores, bens ou pessoas, dando-lhes o destino ou a aplicação corretas, em decorrência de compromissos, encargos, funções ou trabalhos assumidos. Num sentido genérico, fidelidade para consigo mesmo é o respeito e a atenção que cada um dá a seus dotes pessoais, desenvolvendo-os e ajustando-os aos objetivos de vida que se propõe.
Shu – Altruísmo. A segunda palavra forte que emerge do confucionismo é Shu, ou seja, Altruísmo. Altruísmo tem sua raiz no vocábulo latino alter-a-um, que significa outro. Em sentido genérico traduz os conceitos de abnegação e amor ao próximo, opondo-se ao egoísmo.

Há os que entendem o altruísmo como a capacidade do indivíduo abrir mão dos próprios interesses, para se preocupar com os outros. É a idéia que se opõe ao procedimento dos que cuidam de seus interesses pessoais, colocando-os acima dos demais. O altruísta é tido por generoso, nobre e desapegado, chegando até mesmo, nas suas manifestações de heroísmo, a sacrificar a própria vida por amor ao próximo. O verdadeiro altruísmo não nasce de forma improvisada, mas é virtude adquirida na luta incessante entre a individualidade e a coletividade, entre o eu e o nós. Acredito que para Confúcio, o nós deve prevalecer sobre o eu, e não os outros sobre o eu, na exata medida em que o termo é altruísmo e não alterocentrismo.


Fen – Humanidade. Segue-se a terceira palavra, Fen, que em português significa Humanidade. Vários são os sentidos que se pode extrair da palavra humanidade. De um lado, é a natureza humana a dar-nos, num sentido coletivista, a idéia de humanidade como todo o gênero humano a ser preservado. De outro, a indicar virtudes morais, como compaixão, clemência e benevolência, opondo-se à desumanidade, crueldade e impiedade.
Dentro do meu entender, o Confucionismo faz de Fen uma palavra tão forte e em harmonia com as demais palavras fundamentais que enumera e significa a fidelidade do ser humano com sua natureza humana, respeitando-a em si mesmo e nos outros, tratando-a com altruísmo, justiça, decência, sabedoria e sinceridade, a fim de ver o homem em sociedade numa relação de respeito pelos indivíduos, harmonizada e sábia, que visa a corrigir seus desvios mediante a compreensão das insuficiências e imperfeições da natureza humana.
Yi – Justiça. A quarta palavra, Yi, que significa justiça, diz respeito muito à minha profissão. A idéia contida na palavra justiça de Confúcio deve ser situada no contexto do quinto século antes de Cristo. Na China dominada pela dinastia Chow, o termo é fixado por Confúcio como elemento fundamental de sua recomendação filosófica
Dar a cada um o que lhe pertence é um dos sentidos que se empresta à idéia de justiça. Mas me parece insuficiente; eis que se liga apenas à noção da propriedade. A vingar este conceito, quem nada tem nada recebe. Reconhecer que o direito de cada um vai até onde começa o de seu próximo é também noção insuficiente, na medida em que direito e justiça são diferentes. Mas ambas idéias coincidem num ponto: ambas expressam uma ação, um fazer, um processar, que pode chegar a ser uma ação de justiça. A ação é sempre resultante de uma vontade do agente ou de quem o dirige. Portanto, a idéia de justiça prende-se à idéia de uma ação que distribui vontades e iguala, nivela ou harmoniza interesses. Pode ser observado, ao longo dos séculos, que para os chineses a idéia de justiça prende-se à vontade do homem de organizar-se para fruir da vida em sociedade. Não há um conceito isolado que satisfaça ou delimite essa idéia.
Para Confúcio a justiça não é a simples aplicação da lei aos fatos. É preciso que se avalie a concorrência das demais virtudes através das quais possa ser encontrada a solução para as pendências. Chung - fidelidade; Shu - altruísmo; Fen - humanidade; Yi - justiça; Li - decência; Chih - sabedoria e Hsin - sinceridade, enquanto expressam as sete virtudes principais, são também as forças que compõe o quadro para que se encontrem as soluções justas nas relações entre os seres humanos.

Pode-se perceber que, dessa forma, inaugura-se um sistema de vida em que não se explicam, nem se louvam ou se condenam atos ou fatos segundo um único parâmetro. Mais importante é compor o contexto segundo os padrões ditados pelas sete virtudes, para assim achar qual é a situação de equilíbrio que ponha em relevo o sentido da justiça. De que serve aplicar a Lei, se não se é fiel ao soberano e ao princípio que gerou a Lei? De que serve usar da Lei se não se tem por objetivo a humanidade? A sinceridade, a sabedoria e a decência são intimamente relacionadas com as pretensões dos que buscam a Justiça, e entre si interdependentes.

A aplicação da Lei sem humanidade, sem altruísmo, sem sabedoria, sem decência, sem sinceridade e sem fidelidade não faz nem é Justiça; pode ser sentença, mas nunca passará de uma manifestação isolada, pobre, injusta e indesejada de quem não sabe julgar.
Li – Decência. A quinta palavra me parece nova em relação aos fundamentos filosóficos e liga-se à idéia dos rituais e de seu valor. É Li, ou seja, decência. A decência é a virtude que decorre da compatibilidade entre o procedimento, suas causas e os ritos e rituais em que ele se desenvolve. O que é decente para uns, é indecente para outros. O sentido de decência nos sugere estar e proceder de acordo com os ritos e rituais que regem o comportamento no local onde nós nos encontramos.
Andar nu entre os índios primitivos que adotam esse comportamento como normal e ritualístico da sua vida natural, não é indecente. Fazê-lo nas cidades ocidentais ou orientais, numa igreja ou cerimônia cívica, é extremada indecência. Participar nu de uma sessão de sauna mista, em alguns países, é indecente. Em outros é a regra.

Alguns exemplos de indecência moral: não trabalhar quando pode fazê-lo, pondo-se fora dos demais que trabalham, no contexto; não produzir, quando a regra é a que cada um produza; não ir à guerra, quando a necessidade nacional chama todos à guerra;.


A decência é relativa ao ambiente e ao contexto em que o indivíduo se encontra. No latim, decere significa estar conforme as regras da honestidade e se refere também ao comportamento que respeita as regras, tanto relativas ao pudor como as que regem a satisfação das necessidades. Isto se estende também às regras que regulam os modos de agir e de vestir, gestos e palavras.

No contexto social em que são enunciadas as idéias de virtude pelo confucionismo, os rituais constituem peça essencial para o convívio social.

Decência significa estar de acordo com os ritos e rituais da sociedade, o que para nós quer significar, comportar-se de acordo com os nossos usos e costumes. Devemos recorrer aos rituais, utilizando-os de acordo quanto a forma e o propósito, pois há uma harmonia entre a sinceridade e a decência, em que a intenção é levada em conta para a qualificação do comportamento. É preciso que o homem aja de acordo com a decência e a sinceridade para que se torne respeitado e consiga o seu espaço na sociedade.
Chih – Sabedoria. A sexta palavra-idéia é Chih, a sabedoria. A noção de sabedoria prende-se mais à idéia do adjetivo sábio do que ao substantivo abstrato. Para muitos, a compreensão do fenômeno vida é o acúmulo e a cultura memorizada, é a constante vontade de aprender e perceber o que se passa à sua volta. As demonstrações de humildade, de caráter bom e firme, de espírito de justiça, de prudência e de decência fazem do indivíduo um sábio. A idéia do sábio corresponde, geralmente, ao singular, a um indivíduo que adota e pratica as virtudes.

Nenhuma manifestação isolada de qualquer dessas qualidades substitui o conceito geral e genérico: a idéia de sabedoria liga-se ao conhecimento em geral, e não necessariamente, ao específico. A sabedoria pode incluir a cultura, mas não necessariamente um homem culto é um homem sábio. E nem por ser inculto um indivíduo, necessariamente, deixa de ser sábio. Sábio é o homem que alia a prudência ao bom senso e à vontade de ser justo. Também o é aquele que parte do pressuposto da humildade intelectual: "Eu sou sábio porque sei que nada sei". A sabedoria é mais do que a instrução que pode tornar o homem culto e capacitado na técnica; é mais do que a educação que forma e dirige a personalidade; é mais do que o conhecimento que o torna bem informado. A sabedoria é a qualidade que ajusta o ser humano às suas condições de perceber e aprender, sem revolta, ansiedade, angústia ou violência; que harmoniza o homem com a natureza e o seu contexto, e lhe dá o sentido e o significado da vida.

A sabedoria, como virtude, é a somatória da fidelidade, da humanidade, da sinceridade, da justiça, do altruísmo e da decência.
HsinSinceridade. E, finalmente, a sétima palavra enumerada me parece tão singela - Hsin, a sinceridade - mas diz tanta coisa! Quando na aparência e em si mesmo o indivíduo apresenta as mesmas características, então ele é sincero. Ou seja, há sinceridade quando o que o indivíduo pensa corresponde ao que ele faz. A sinceridade é expressa na confirmação, pelas ações, das intenções pelas quais o indivíduo se deixa motivar. Ou seja, há uma estreita correlação entre intenção, vontade e causa subjetiva da ação. Quando a intenção ou propósito se identifica com a ação, então esta é sincera e exterioriza franqueza e sinceridade do agente. Há sinceridade quando a pessoa é decente porque quer sê-lo. Quando fiel, é porque acredita na fidelidade como virtude. É sábio, por que ama a sabedoria. É justo, por ue acredita na justiça. É altruísta, por que é humilde. Como se vê, no confucionismo as palavras fundamentais se completam na vontade do indivíduo. Confúcio não acredita no destino, mas louva o livre arbítrio.

Na medida em que tentamos clarear as idéias de virtude, recorrendo aos conhecimentos e tradições que informam os estudos éticos, não precisamos falar do que são os vícios. São as idéias antagônicas às idéias de virtude. E, na linguagem discursiva, são antônimos.

O comportamento humano recorre à prática de vícios e virtudes. Esse comportamento é sempre de natureza ética. Mesmo quando contrário à moral e aos bons costumes, é sempre estudado pela Ética.

O comportamento humano, seja quando recorre à idéia de vícios ou virtudes, é sempre um fenômeno ético. Os costumes, ( do latim mos,moris) que se traduzem na moral do contexto, podem sugerir a moralidade ou imoralidade da ação ou reação. Todo o fenômeno moral é sempre um fenômeno ético.

A ética e o indivíduo têm tudo a ver com a política e o social. Sou levado a crer que o político deve reunir, na sua formação individual, o máximo de virtudes e afastar-se dos vícios. Os líderes empresariais ou políticos, das várias categorias profissionais, das seitas ou irmandades religiosas ou filosóficas, devem atuar dentro de contextos em que se socorram, no seu desempenho, do maior número de virtudes e abominem, por outro lado, os inumeráveis vícios que a estas se opõem.

- O que são virtudes e o que são vícios?

Este é talvez o maior significado do estudo da Ética na Política e em toda atividade profissional, empresarial ou assalariada. Proclama-se que aos políticos é confiada a responsabilidade de governarem e conduzirem a sociedade que dirigem, para que seus integrantes sejam bem-sucedidos na convivência possível, e para que governantes e governados possam viver pelos padrões mais altos, e não apenas sobreviver nos padrões mais baixos. A tradição política que nos chega, pela história dos povos, é muito diversificada.

Observo que três noções abstratas estão presentes nas tradições de praticamente todas as sociedades, em todos os tempos. Tais noções estão contidas nas idéias de família, religião e propriedade. Essas idéias são, por natureza abstratas. A família é gerada e propicia a hereditariedade, a continuação da espécie. Os laços de família são fenômenos éticos. A religião é esse procura constante que anima o homem a pretexto de sua re-ligação com suas causas primeiras. A propriedade esta contida na idéia de posse, de poder desfrutar e utilizar os meios físicos, que integram o contexto de cada indivíduo ou núcleo social. A idéia de propriedade pode ser coletiva- o que pertence ao núcleo social - ou individual- o que pertence a cada indivíduo. As tradições, os usos ,costumes e as leis nos ensinam que tais noções estão presentes e persistem em todos agrupamentos humanos de que tempos notícia. A história nos mostra que aos governantes cabe, por tradição, sobretudo, aceitar e fazer respeitar o conteúdo destas noções. É o dever ético que lhes é demandado.

O confucionismo, por sua vez, progressista e ritualista por excelência, pretende regrar e impelir, com a força da sua vontade e dinamismo, a atuação política e social dos governantes. Para o confucionismo a força da palavra serve também para sustentação das razões do exercício do poder da vontade nas ações do homem.

Confúcio afirma que o governante feudal sofre no espírito. Em realidade, o Mestre se refere ao princípio de sustentação do feudalismo e da oligarquia governamental. Sofrer no espírito significa penar no intelecto, no esforço em apreender as abstrações contidas no pensar, que é o uso maior das palavras. Obviamente, não é apenas o sentido do pensar que gera força e poder de governo político, mas também do homem diante de suas obrigações. No estudo do confucionismo, é também importante observar que cerca de cento e cinqüenta anos depois da morte de Confúcio, ao tempo do Mestre Meng, ou seja, por volta do ano 420 a.C., havia por toda China a expectativa do surgimento de um Filho do Céu, que assumiria sua autoridade sobre todos os estados chineses. Não só os judeus, mas também os chineses, desde século IV a.C., já esperavam o seu Messias vindo do céu.


Os políticos têm a incumbência natural de zelar para que os homens possam desenvolver ao máximo as qualidades embutidas em seu potencial genético, que consideramos eticamente positivas, e impedir a proliferação dos vícios e padrões negativos. Devem cavar masmorras aos vícios e construir templos às virtudes.


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