Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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14 - A palavra escrita

A palavra escrita assume conotação de mensagem a ser decifrada mediante a identificação das idéias e das linhas de pensar que transmite.

A mente humana assinala que a cada palavra corresponde uma idéia, a cada nome um ser, um estado ou uma ação.
Os egípcios, por cerca de 3.000 anos, mantiveram até o governo de Cleópatra, uma estrutura social dividida em classes hierarquizadas, e sob uma mesma forma de governo. Suas formas escritas de comunicação estão contidas em dois níveis distintos, uma destinada ao povo, a escrita demótica, e outra à classe sacerdotal e à aristocracia, que é a escrita hieroglífica. As narrativas mitológicas e os ensinamentos são destinados privilegiadamente, às classes dominantes. Através da classe sacerdotal, tais conhecimentos eram ministrados aos aristocratas de várias nacionalidades. Por isso influenciaram, durante milênios, a intelectualidade e a formação cultural dos povos do Mediterrâneo. Essa influência foi evidenciada sobre gregos, fenícios, hebreus e, posteriormente, também os romanos.

Dentre todas as peças do fantástico acervo do Museu Britânico, um objeto, ligado à linguagem escrita, chamou-me, mais que todos, a atenção. Foi a Pedra Roseta, descoberta pelos franceses em 1799, e cedida à Grã Bretanha na capitulação de Alexandria. O texto está gravado em dois idiomas, o egípcio e o grego, mas em três escritas diferentes, logo reconhecidas como sendo hieroglífica, demótica e grega.

Importa anotar o fato de que a escrita simbólica, traduzida nos sinais hieroglíficos contidos na Pedra Roseta, era a expressão gráfica da linguagem utilizada pelos nobres, sacerdotes e governantes,. quando se comunicavam entre si.

Muitas vezes tenho indagado se a escrita demótica, expressão da linguagem falada pelo povo egípcio, era por natureza uma escrita fonética ou procurava transmitir apenas o conteúdo simbólico que, como nas formas de pensar, indica as idéias que revelam, genericamente, situações, objetos, ações e processos, mas não um fato isolado e específico.

Procuro decifrar esta dúvida. Se falo ou escrevo triângulo transmito a idéia que serve a todos os triângulos, e não a um triângulo isolado, específico, situado no tempo e no espaço.

A escrita demótica serviu como expressão de linguagem simbólica. Acredito que não tinha a preocupação de revelar relações entre situações, fatos e coisas isoladas específicas, mas apenas identificar idéias e linhas de pensar e conduzir as formas de pensar. A partir de idéías e linhas foram tecidas as formas de pensar que serviram ao povo e mantiveram os faraós por três milênios no governo.

Capto alguma coisa comum entre o objetivo da escrita demótica dos egípcios e o que se lê e ouve nos jornais e noticiários de nossos tempos. É ter como destino final o consumismo intelectual do povo. Querem servir comandando idéias e linhas de pensar, conduzidas, induzidas ou ajustadas a objetivos não restritos à idéia de informação.

Intuo que a imprensa globalizada de nossos dias, assim como a escrita demótica dos egípcios, carrega em seu bojo a idéia de condução e gerenciamento da opinião pública. Por vezes é dirigida especialmente a grupos e coletividades, induzindo e provocando manifestações distorcidas da vontade social.


A Pedra Roseta está à minha frente. Está sinalizando com três escritas, duas simbólicas e uma fonética, que não compreendo. Foi gravada em egípcio sacerdotal, em egípcio demótico que tem características eminentemente simbólicas, e em grego que é, por natureza, um idioma fonético. Ainda não aprendi a decodificar ou traduzir qualquer dessas linguagens escritas. A mensagem da Pedra traz idéias que não consigo captar. Não estou percebendo o que nela se contém. Se tiver de aprender o grego clássico e o egípcio demótico para obter essas revelações, terei de ficar estudando muitos e muitos meses, talvez anos. E esta iniciação não terá seqüência. Devo prosseguir por esta trilha em busca dos conhecimentos éticos, por mais atrativos que me pareçam os de outra natureza.
A mitologia hebraica, integrante do Velho Testamento, foi compilada a partir de 900 a. C. Confirmada por Cristo e por Maomé, ela nos conta que o Criador deu ao primeiro homem o nome de Adão, concedendo-lhe o poder de dar nome a todos os demais seres.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo, e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles.

Deu nome o homem a todos os animais domésticos , às aves dos céus e a todos os animais selváticos; para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. (Gên.2:20-21)
- O homem é a medida de todas as coisas! - afirmava Protágoras, um dos mais notáveis sofistas.

Platão rebateu Protágoras e sugeriu exatamente o contrário, ou seja o homem não é a medida de todas a coisas.


Platão, em um de seus Diálogos, o Cratylo, deixou-nos um dos mais profundos estudos sobre o conteúdo da palavra. Ensina que quando um nome é atribuído a um ser é por que essa palavra contém o logos que identifica esse ser. Ou seja, a palavra contém a idéia do ser que por ela é designado. Nesse diálogo, Sócrates refere-se a Protágoras, que dizia que o homem é a medida de todas as coisas. Rebatendo Protágoras, Sócrates conduz a que se as coisas são conformes à opinião que cada um faz delas, uma opinião pode ser verdadeira e outra falsa. Portanto, não é cada homem que dá a medida de todas as coisas, pois, se cada um agir a seu modo, um poderá estar errando e outro acertando, e vice-versa. E as medidas, de um ou de outro, sendo erradas, a expressão o homem é a medida de todas as coisas pode também ser verdadeira ou falsa. O que não leva a nada que possa ser considerado verdadeiro.
Associo a linha de pensar sugerida por Sócrates ao que observo num dos exemplos citados anteriormente. Na prática, a forma que materializa a idéia do triângulo equilátero assume conotações diferentes, conforme a posição do observador. Isto me leva a anotar que o homem não é como também não pode ser a medida de todas as coisas. Mas esta é uma abordagem que será melhor aproveitada no estudo da ética subjetivista.

No Museu do Louvre , na seção de antigüidade oriental, chama atenção um monolito negro, que contém, em escrita cuneiforme, um documento escrito da maior valia, tanto para os estudiosos da Ética como do Direito: é o Código de Hamurabi.

Hamurabi tornou-se célebre por ter compilado e reunido as leis, às quais deu formulação sistemática e consolidou no Código que leva seu nome.

Entre outras inovações importantes, separou o poder judiciário da organização sacerdotal e reafirmou a aplicação da pena de talião, ou seja, equalizou a pena ao crime cometido: olho por olho, dente por dente, membro por membro.

Este esforço para fixar, por escrito, gravada na pedra, a relação qualitativa entre o crime e a pena que a sociedade deve impor aos que agridem e desrespeitam as leis, foi codificado em 283 artigos.
Diante do bloco de diorita, que vi no Louvre, fiquei admirado As idéias contidas nessas palavras, escritas numa linguagem que não sei decifrar mas que outros traduziram, estão vivas... chegam até mim e contam como procurava ser justa a civilização da antiga Caldéia.

A pedra gravada, como testemunha das idéias contidas no que está escrito, comunica-se, desde 2.000 a. C., com as gerações seguintes. Há quatro mil anos este Código conceitua e relaciona idéias, transmitindo linhas e formas de pensar de conteúdo ético, porque são morais e jurídicas. As ações e regras morais e jurídicas integram o campo da Ética. Não importa quem trabalhou sobre a pedra e gravou, cuidadosamente, na escrita cuneiforme minúscula, o que lhe foi ordenado. O que vale, para nós, é o conjunto de idéias que nos transmite. São as idéias transportadas pela palavra escrita


Naquela época, por volta do século XX antes de Cristo, é possível que, diante de cada tribunal caldeu, houvesse uma pedra dessas, pois vários outros monolitos semelhantes foram encontrados. Supõe-se que eram colocados diante dos pretórios, onde se davam os julgamentos e pudessem ser consultados. Todos podiam ler e consultar o que estava escrito, antes de levarem ou discutirem suas pretensões diante do juiz.

Provavelmente esta é também a razão para que os dez mandamentos da Lei de Moisés, relatados no episódio mitológico do Sina, tenham sido gravados em pedra. Era uma referência fixa, imutável, às idéias contidas nas palavras escritas, que não admitia variações, refugos ou alterações.

O sentido dado à Lei era de regra geral, que servia a todos, submetida à mesma idéia padrão, mantidos seus termos na palavra gravada em pedra. Não se vivia na ficção jurídica da presunção legal. Nossa ordem jurídica nacional a ninguém desculpa por não saber a lei. É óbvio que ninguém conhece todas as leis. Apesar disso, a ficção jurídica dos nossos dias continua valendo. A nossa ordem social e jurídica depende de tantas leis que aquele que afirmar que as conhece todas, certamente estará faltando à verdade.

Na Caldéia de Hamurabi, também para os judeus de Moisés, a lei estava lá, diante de todos, das vítimas, dos agressores, dos litigantes e dos juízes!

Há quatro mil anos atrás os contendores consultavam o código antes de abordar o pretório. Naquele tempo ninguém podia dizer que ignorava a lei. Ela estava lá, gravada e escrita na pedra de tal forma que não podia ser fraudada!

Olho as minhas estantes de livros jurídicos, que reúnem leis, normas, resoluções e outras regras. Milhares. No Brasil de hoje temos dezenas de milhares de lei. Cada lei tem seus artigos e parágrafos. Nem os escritórios jurídicos mais bem informatizados do Brasil dispõem das informações completas acerca de todas as normas e leis vigentes. São leis nacionais, estaduais e municipais. Códigos de todas as naturezas. Quem tem o arquivo das leis nacionais não dispõe das estaduais ou municipais completas. Verifico, e posso afirmar com segurança, que temos uma ordem jurídica louvada em suporte fictício. Apesar disso nós nos submetemos. É aceita e acatada por todos. É uma fantasia afirmar que estamos conscientemente subordinados a um sistema legal que desconhecemos. É uma inverdade. A imaginação me leva a divagar:

Se, como advogado, eu quisesse as leis que nos regem, atualmente, em pedras, para que permanecessem vivas como as do monolito do Louvre, não teria como imaginar quantas pedreiras seriam necessárias!
Dispomos de muitas leis, mas nem por isso parecemos ou somos mais justos ou injustos que os caldeus!

Este é um problema de ordem ética jurídica que deverá ser resolvido pelas novas gerações. Procuro as raízes dessa impostura de natureza ética. Louva-se no princípio de que todos devemos nos curvar diante de leis para as quais não concorremos, que não conhecemos e, apesar de tudo, nos obrigam.




15 – Raízes mitológicas na distinção entre verdade e mentira.
Até agora falávamos de idéias que nos pareciam verdadeiras, e expressavam o que adotávamos como verdades. Perambulei por tradições, costumes e narrativas, procurando as origens da aversão que muitos têm à mentira. Busquei raízes desta relação.

- O que são a verdade e a mentira?

Há milênios a inteligência humana despende esforços incontáveis, coletando informações pelas trilhas do pensar que parecem levar à verdade.

Mas a tradição do pensamento dualístico me facilita afirmar: a verdade é, a mentira não é. A verdade é o que é; a mentira é o que não-é.

Neste instante, diante do trajeto que me parece tão fácil, vejo um abismo a meus pés. Se cair nele, não há recuperação possível.
Agarro-me às formas de pensar. Para prosseguir devo adotar sinais para identificar a verdade, procurando conhecer os métodos de sua verificação. Preciso determinar regras para comparar a idéia da verdade com as que me são suscitadas pela realidade sensível. Lembro-me da idéia do triângulo equilátero, que quando materializada numa folha de papel, me é apresentada. Se a vejo de perfil, é apenas uma linha. Se a vejo enviesada, mostra um outro triângulo. Se dobro a folha de papel, a imagem fica quebrada. A simples imagem de uma idéia elementar pode causar tantas variações conceituais!
As bases de apoio nesta travessia são muito escorregadias. Seguimos tateando. Convém repetir o que já foi identificado:1) precisamos de sinais, critérios de verdade e um método para verificação; 2) precisamos estabelecer regras para definir as relações entre a verdade ideal e a verdade sensível.

Intuo que há uma certa conexão entre as idéias de sabedoria, luz, honestidade, justiça, verdade, bondade e beleza. Talvez possamos apurar, futuramente, se essa intuição é válida. Como usamos uma linguagem discursiva, deveremos tentar apurar se é possível estabelecer a distinção entre a verdade real e a verdade verbal.

A experiência também nos sugere a distinção entre a verdade teórica e a verdade prática. Leva-nos a ficarmos conformados com a realidade existencial, verdade que temos e vivemos, e também a lutar pela realidade desejada. Ficamos convencidos que podemos materializar nossas vontades através de nossos esforços.

Em contrapartida, intuo que podemos fazer comparações entre o que nos parece uma verdade humana, que serve aos homens, e uma verdade divina, que serve às divindades. Vislumbro por entre as névoas deste caminhar sinais que as divindades são as idéias que temos delas. Posso atribuir-lhes a faculdade de possuir, alimentar ou criar idéias. E estas podem ser tão verdadeiras como as minhas. Se a idéia que tenho de deus é falsa é por que à idéia de deus eu posso atribuir também a idéia de falso ou verdadeiro!

Falta pouco para cruzar este abismo. Mas uma bateria de perguntas quase me leva ao chão:
- Há verdade no erro?

- Se eu errar nesta travessia intelectual, mesmo assim poderei chegar à verdade?

- Ver contrariado o meu desejo de atravessar a ponte é errar?

- Qual é mais verdadeiro: o que quero ou o que acontece?
Faço uma pausa nas minhas divagações. Pertenço a uma geração de homens muito ricos, que herdaram muitos conhecimentos. A nossa herança ética é muito grande. Costumes, tradições, história, usos e conhecimentos possibilitam acesso a múltiplas informações. Livros, arquivos, Internet, tudo parece abrir-se à especulação mental. Tudo nos é favorável, nestes tempos. Intuo que as idéias de verdade e mentira poderão ser melhor esclarecidas nas tradições mitológicas. Seguirei pela trilha por que passou um dos primeiros sábios de que se tem notícia. Leva-nos a relatos que dizem respeito à teogonia e à cosmologia mítica. E sugere problemas éticos surgidos a partir do conflito entre dizer a verdade ou mentir.
A faculdade de pensar nos permite utilizar o lendário tapete voador. Vamos à Pérsia.. Sentemo-nos diante de um dos velhos sábios e ouçamos suas narrativas: Por volta dos séculos VII e VI a. C. os povos nômades que se espraiavam pela Pérsia, seguidores do Mazdeísmo e do Zurvanismo transmitiam, pela tradição oral, as narrativas mitológicas referentes à disputa entre o deus da Luz, Ormuzd (Ahura Mazda) e Ahriman, o deus das Trevas. Zurvan foi o deus-pai de ambos. Zoroastro, também conhecido por Zaratustra, tem sido cronológica e historicamente posicionado de maneira conflitante. Alguns escritores situam-no por volta do ano 6.000 a.C., enquanto outros, entre 700 e 600 a.C. Também os lugares por onde esteve são objeto de divergências. Há escritores que afirmam ter ele nascido da Tribo dos Magos, entre Medas e Persas, povo nômade que perambulava pela antiga Pérsia e pela Mesopotâmia. Outros localizam-no diretamente na Caldéia. Para muitos foi um dos mestres de Pitágoras quando este esteve prisioneiro na Babilônia.
Dentre as centenas de páginas em que procurei dados sobre Zoroastro e o Mazdeísmo, uma linha de pensar ficou evidente: há muita coincidência entre as crenças zoroastristas, judaicas e babilônicas.

Muito posterior a Zoroastro, o carismático Manes viveu por volta do século III da era cristã. Embora cristão confesso, o fundador do maniqueísmo assimilou e divulgou a mesma compreensão dualística do Universo, explicada e anunciada na cosmologia do mazdaísmo. E esse dualismo chegou até nós por tradição, costumes ,uso e formas de pensar. É tão forte dentro de mim que, de fato, não consigo livrar-me dele.

Observo que há muitos pontos comuns entre as noções que levam à gnose, anunciada pelos cristãos, e a vitória das Forças da Luz, anunciadas na pregação Zoroastrista.

Na cosmologia mazdeísta, que inspira a religiosidade dos zoroastristas, há um constante duelo entre as forças da Luz e das Trevas. Apropriando-se de conceitos éticos, essa disputa é anunciada como sendo a mesma que ocorre entre as forças do Bem (Luz) e do Mal (Trevas). Ormuzd , também conhecido por Ahura Mazda, é o deus da Luz ( do mundo superior) e Ahriman é o deus das Trevas ( do mundo inferior). Vivem separados entre si por um vazio.

Ao ser provocado por Ahriman, que intenta avançar com as Trevas sobre o reino da Luz, Ormuzd cria o mundo com as dimensões de espaço e tempo. Mas a criação de tudo que há no mundo é feita por etapas. Há, inicialmente um plano em que a criação se manifesta no plano das idéias, designado como plano espiritual. Só depois de criada no plano espiritual ocorre a concretização das idéias no plano material. É no cenário do mundo recém criado que os deuses convencionam levar adiante sua disputa. E por que a terra está dimensionada no tempo, resolvem fixar também um prazo de duração para essa disputa: nove mil anos. Os primeiros seres criados por Ormuzd são os Benfeitores Imortais.

Lembro-me que também os Sumérios, na Caldéia, tinham a idéia mitológica dos Benfeitores Imortais. Para que seja mantido um equilíbrio de forças entre as forças do Reino da Luz e do Bem, para cada benfeitor imortal criado por Ormuzd, um demônio é criado por Ahriman. É provável que daí venha a origem do conceito de demônios que, na mitologia grega e cristã, são sempre os que habitam o mundo inferior.


Segundo Pitágoras, os demônios nos causam os males, as doenças e provocam os maus desejos e maus pensamentos. Para os Zoroastristas, o que é bom para o homem é feito pelos seres que integram as Forças da Luz, aliadas na disputa entre Ormuzd, o deus da Luz, e Ahariman, o deus das Trevas. O que causa males ao ser humano, vem das Forças das Trevas, que nos são hostis.

- Haverá uma relação direta entre a sombra do homem e o Reino das Trevas? O que significa Reino de Luz? É apenas uma noção conceitual do mundo físico ou existe um conceito abstrato de luz e de trevas?- assediado por estas questões prossigo avançando nas informações sobre as raízes do mazdeísmo iraniano.

Ormuzd, o Tempo, o Espaço e a Religião fazem parte de uma quadra de divindades eternas. Ormuzd, deus e chefe supremo do Reino da Luz, constitui com os Benfeitores Imortais o conjunto dos que dirigem as forças do bem.
Na origem mitológica do mazdeísmo, as divindades assumem diferentes responsabilidades: Ormuzd é o protetor dos homens e tem relação fundamental com o Sol, pois este é a fonte da luz terrestre. Os Benfeitores Imortais dividem suas atribuições. Vahuman, é o Bom Pensamento, a idéia ligada ao Bem, o logos do Reino da Luz que protege os animais e, mais especialmente o rebanho, relacionando-se diretamente com a Lua, que atua sobre os ciclos de tosquia e reprodução.

Artavahist é a Verdade Excelente, divindade protetora do Fogo. Sathrevar é a Potência Desejável que está contida e protege os metais e minerais; Spandarmat é a Aplicação Benfeitora que protege e se revela na Terra. Hurdat, o Benfeitor da Saúde, ligado e contido nas Águas e Amurdat, é a Imortalidade, que tem por incumbência proteger as plantas e os vegetais.


Ormuzd no seu plano de criação gera a fravasi (alma?) dos homens, a quem dá o direito de escolher entre permanecer eternamente no estado espiritual, sem corpo e sem materialização, ou de encarnar-se no mundo material . Quando a alma é encarnada num corpo humano, traz o compromisso, ou a missão, de lutar ao lado das forças da Luz e do bem, visando assegurar a vitória de Ormuzd sobre Ahriman.
Segundo essa tradição mitológica, o primeiro ataque de Ahriman foi repelido pelas palavras de Ormuzd que, recitando a prece Ahuvar, reduz Ahriman à impotência por três mil anos.

- Que poder têm as palavras contidas nesta prece!- pensei. - Preciso conhecê-las.

Procurei em vão qualquer referência mais direta ou precisa sobre a oração que teve o poder mitológico de imobilizar o deus das Trevas.

Conta a mitologia mazdeísta que depois desses primeiros três milênios, a Prostituída excitou Ahriman a atacar o céu, a terra e as águas, através dos opostos dos Benfeitores Imortais, ou seja, pelos animais selvagens (répteis, escorpiões e outros que infestaram a terra e as águas).


Ahriman agiu também através dos planetas que, por sua ação no sistema solar, afetam as condições de vida na terra. Convocou outros de seus exércitos para que integrassem suas forças na batalha contra Ormuzd e suas legiões.
Duchesne-Guillemin descreve assim o episódio: Ahriman , atacou sucessivamente toda a criação de Ormuzd, tanto existente no céu, como na água e na terra. Agrediu as plantas, o Primeiro Touro Original, cujo cadáver deu nascimento aos vegetais e cuja semente foi recolhida e filtrada na lua para formar as espécies animais. Agrediu também Gayomart, o Primeiro Homem, cujo corpo deu nascimento aos metais e cuja semente, recolhida e filtrada no sol, deu origem ao primeiro casal humano ( sob a forma original de um ruibarbo); ao fogo e a tantas outras coisas. Masye e Masyane, o primeiro casal , desde o momento em que assumiram a forma humana, receberam de Ormuzd a ordem de praticar o bem por pensamentos, palavras e obras, de não adorar os demônios e abster-se de alimentos de origem animal, não devendo matá-los. O casal reconhece Ormuzd como seu criador e protetor.

. Ahriman ataca o espírito do primeiro casal humano e, então, homem e mulher bradam que foi Ahriman que criou a água, a terra, as plantas e outras coisas que parecem boas ao homem.. Por esta mentira o casal recebe a condenação. Uma seqüência de perguntas tumultua meus pensamentos:



- De novo o poder mágico das palavras!

Imponho-me a indagação:



- Essa força resulta da verdade ou da falsidade que as palavras contêm nelas mesmas?

Releio a informação:- Artavahist é a Verdade Excelente, divindade protetora do Fogo Observo que as idéias dos deuses se associam ao que protegem e dominam. Esta relação de verdade excelente associada a idéia de fogo sugere-me um processo. A verdade excelente toma as cores das chamas, num processo de combustão. A imagem sensível sugere que a verdade excelente é um processo, um eterno tornar-se, um eterno devenir. Se eu agarrar-me a esta conceituação talvez me aproxime da verdade excelente. Como a experiência de vida nos mostra, apoiada no que chamamos conhecimento, o universo é verdadeiro por que vive como a chama, numa constante transformação. A tradição cultural persa me anuncia uma abordagem nova.


O deus designado como Verdade Excelente está relacionado à idéia das mutações e mudanças permanentes. Pela tradição persa, a idéia da verdade está intimamente relacionada à idéia do constante devenir que os filósofos jônicos enunciaram através de Heráclito de Éfeso, por volta do século VII a.C.

A idéia contida na expressão Deus da Verdade Excelente é a idéia do eterno tornar-se. Assimilo, pela mitologia, que a idéia da verdade, nela mesma, é muito próxima do que está em transformação permanente. A herança ética que me vem pela tradição mitológica dos persas parece indicar que a verdade é um continuo transformar-se em que nada é, mas está sendo. A idéia da verdade está contida na idéia de um processo, de um contínuo tornar-se.

Observo que nos diferentes idiomas, as palavras têm poder em razão do seu conteúdo, das idéias(logos) que transmitem ou da vivência(nous) com que são acondicionadas. Mas, o que parece mais significativo é, simplesmente, que sejam ou não utilizadas.

Segundo o mito mazdeísta, o primeiro casal foi condenado a um jejum de trinta dias, mas mamaram em seguida o leite de uma cabra, simulando desprazer; esta foi uma segunda mentira, que fortaleceu os demônios.


Observo no relato mitológico que o desvio das obrigações perante Ormuzd se dá no plano das idéias, da divulgação da mentira contra a aceitação da verdade.

Na medida em que a mentira é irreal, não corresponde ao que é ou a que foi, aos fatos verdadeiros, nem às ações, ela corresponde ao que não é, que não foi e ao que é falso. Ora, o que não é ou não foi é irreal, não existe nem existiu.


A razão prática sugere que a mentira, por que se refere a idéia que não é ou não foi, é irreal, não existe nem existiu. Logo, a mentira não integra, não pode e nem deve integrar o processo em que se constitui a verdade.

Então, se há uma reação do Deus da Luz ao que não é, nem foi nem existiu, é por que o vazio determinado pela ocorrência da mentira contamina o universo. Ou seja, a mentira agride o universo real, em que a verdade foi, é, existe e se manifesta.

A idéia da mentira, do que não é, do que não foi, não existe ou existiu, tem semelhanças e alguma correspondência ao que, no mundo da Ciência Física, é designado por buraco negro. Fico espantado com da associação da idéia do mitológico Ahriman, deus das Trevas, com o significado dos buracos negros da astronomia, que consomem até mesmo os campos de luz!

Mas há uma outra idéia que emerge deste relato mitológico e que tem relação especial com a Ética.

O casal de humanos não foi punido por que duvidavam de Ormuzd e de sua obra criadora. A origem da criação das águas e do mundo terrestre e o fato de que se tenham amamentado na cabra não foi a causa de sua punição. O crime consistiu em divulgar idéia de cuja falsidade ambos tinham consciência. Mentiram e sabiam que estavam mentindo. Ambos tinham consciência de que tinham sido criados pelo Deus da Luz.
Interrompo as leituras. Fica muito claro, por esse relato mitológico, que a linguagem universal, que designo como linguagem perdida, deve estar intimamente ligada à idéia (logos) de conteúdo de verdade, ou seja, de que a palavra-idéia-logos deve ser a expressão do que conhecemos e estamos convencidos que é a verdade.

Esta é a grande lição que vivencio junto à mitologia persa, justificando plenamente que seja indicada como mais uma possível trilha para os que quiserem avançar pelo campo dos conhecimentos éticos.

A idéia da verdade, seja o que é ou o que vai sendo, na forma do que minha consciência (ou intuição) indicar como verdade, deve ser um requisito essencial, necessário e indispensável das minhas palavras. É a maneira segura de caminhar, que serve à peregrinação intelectual e pela qual posso prosseguir neste processo de abordagem.
16 – A tradição que sugere o dualismo nas formas de pensar
Sinto necessidade de reportar-me ao que é conhecido como Zurvanismo e Mazdeísmo, para entender também a origem do dualismo que atua nas minhas formas de pensar.

O dualismo consiste em estabelecer como parâmetros das linhas de pensar as idéias contidas nos opostos. A origem dos antônimos, na literatura, coincide com as formulação das idéias opostas. Verdade e mentira, sim e não, cheio e vazio, luz e trevas e tantos outros exemplos, são formulações dualísticas.

A tradição mitológica nos ensina que o dualismo era praticado nos relatos referentes à Mitologia, seja na Cosmogonia, que estuda a origem do Universo (luz e trevas, seco e molhado, dia e noite) como na Teogonia, que estuda a origem dos deuses (deus do mal, deus do bem, da verdade, da mentira e assim por diante.

O dualismo tem suas raízes e já nos era ensinado inclusive desde as semelhanças dos textos cosmogônicos hebreus e gregos.

Na mitologia persa, Zurvan é o deus que gerou Ormuzd e Ahriman. É o Deus Uno e Anterior, pai do Deus da Luz e do Deus das Trevas.

A idéia contida no deus Zurvan antecede a idéia do dualismo contido na distinção entre os reinos da Luz, das Trevas. Sugere a idéia da unidade que, a partir do momento em que gera os opostos, anuncia um remanescente de vazio entre elas. Este vazio seria o reino da não-luz e não-trevas.

O Zurvanismo é anterior à religião de Hebreus e Caldeus. O culto a Zurvan antecede o culto a Baal. Baal, deus de Ur, era a divindade a que o pai de Abraão prestava culto. Abraão, patriarca do judaísmo, cultuava Jehová, o mesmo Deus Pai de Cristo e de Maomé.

Dentro da iniciação à Ética importam observar que o culto de Zurvan, donde teve origem o mazdaísmo, em que era cultuado o Deus da Luz, dá origem ao pensamento dualístico, em que as idéias opostas co-existem, simultaneamente, numa eterna disputa.

O Zurvanismo transmite, por tradição religiosa , essa concepção dualística ao mazdaísmo. Em seguida, ela é divulgada e adotada pelas demais religiões.

Importa todavia observar que o pensamento dualístico está intimamente amarrado às idéias contidas nas palavras.

Remontando ao pensamento indo-ariano, dominante no segundo milênio antes de Cristo, à época das grandes migrações provenientes do Cáucaso, posso afirmar que os sábios Vedas haviam encontrado nas palavras a força de um poder criador. Assim também os Hebreus, no seu relacionamento com Jehová. Budha, Cristo e Maomé nos repetem esses ensinamentos. A tradição é mantida e gera usos e costumes.

As comunidades humanas da Antigüidade, assim como as atuais, exigiram sempre a presença não só de sacerdotes como também de magos. Não nos basta a figura do curandeiro e do médico, mas impõe-se, nas organizações sociais, a presença do sacerdote, do pagé e do chaman, que se dedicam à prática de rituais para possibilitar a re-ligação do homem com as forças de sua origem.

Na raiz das estruturas sociais encontram-se as figuras sacerdotais, dotadas de poderes normativos e reguladores, tanto para a vida cotidiana como nas relações do homem com as divindades, função social de natureza Ética-religiosa. São as castas sacerdotais, muitas vezes impregnadas do poder político.

O mazdeísmo zoroastrista carregava sempre a figura do rei-sacerdote. Assim foi também com os egípcios. Os estudos que abordam esse fenômeno, tanto o processo dualístico das formas de pensar como a soma do poder político ao religioso, correspondem a um campo de estudos que integra a Ética.



17 - Alma individual e nacional
Tenho noção vaga acerca de conceitos éticos da mais alta importância. Tais conceitos correspondem a palavras cujas idéias não estão nítidas e impedem que as linhas de pensar tenham base racional. Sem base racional não posso evoluir no campo do conhecimento. Preciso clarear estes conceitos.

Observo palavras diferentes para corpo, alma e espírito. Suponho que as idéias, embora relativas ao mesmo ser, também sejam diferentes. Avanço e procuro definir o que é corpo.

Corpo tem massa e ocupa lugar no espaço, o que significa, compõe-se de matéria. Se eu admitisse o corpo humano somente composto de matéria, dar-me-ia por satisfeito com os estudos bio-físico-químicos desenvolvidos pela medicina e ciências afins..

A Ética lida com corpos e conceitos.

Há, tradicionalmente, recebida por herança ética de usos, costumes, tradições e estudos, a suposição de que o ser humano seja integrado por corpo, alma e espírito.

Isto é o mesmo que afirmar que somos compostos por elementos concretos e abstratos. Muitos ousam dizer elementos materiais e imateriais. Outros referem-se a elementos físicos e anímicos.

Dentro do que recebo como herança intelectual, sinto-me razoavelmente seguro quando atribuo à alma e ao espírito a idéia de que são elementos abstratos. Justifico esta segurança, pois, sem formas intuitivas de abordagem, recorro às mensagens que nos foram deixadas pelos povos que nos antecederam e que lastreiam a experi6encia humana sobre a terra.

A leitura de inúmeros textos trazidos pela tradição mítica, mística e religiosa, leva-me a intuir que a alma é a individualidade do ser dentro do universo.

De outro lado, também me é sugerido pelas leituras, que o espírito é a presença do universo em cada indivíduo. Muitos afirmam que a alma é do homem e o espírito é de Deus. Para chegar a esses conceitos, não recorro só a religiosos, mas também a filósofos. Alma, espírito e corpo são palavras muito usadas na linguagem discursiva.

Por isso que a idéia da punição da alma não tem correspondência com a idéia de punição do corpo. O espírito, por que é divino, escapa de punição. Estes conceitos geram formas de pensar de natureza ética.

O ser humano preocupa-se em buscar a prática religiosa. Através dela intenta uma re-ligação, um reencontro com as Formas Superiores. Alimenta, muitas vezes, a pretensão de re-ligar-se diretamente ao Criador do Universo. Este é o procedimento pelo qual pretende assimilar energias e adquirir forças superiores, através das quais possa controlar e dominar as adversidades.
As relações entre o homem e as divindades que procura constituem fenômenos éticos, tanto se estabelecidas na realidade, seja ela concreta, abstrata ou simples imaginada.

Todavia o conceito de alma individual, que de forma genérica é muito próximo do que designamos por idéia do indivíduo, permite ampliações. Da mesma forma que em sociedade os homens se reúnem, suas almas podem associar-se e, então, passam a integrar a alma do núcleo social. A alma nacional de um povo surge da integração dos diferentes núcleos sociais, muitas vezes vinculados entre si pela força do idioma comum,.

Esse poder de aglutinação, que resulta da mesma palavra-idéia fundamental, vai sendo codificado, através dos costumes, da moral e da religiosidade. Segue marcando traços e definindo características cujo conjunto, ao longo de séculos, é reconhecido como nacionalidade. Muitas vezes nacionalidade e território nada têm em comum. Em outras constatações históricas as raízes são tão fortes que permanecem vinculados ao longo de milênios. Israel, Egito, Índia, China e Grécia são apenas alguns exemplos.

A palavra-idéia traz, dentro de si, um potencial fantástico de alma individual, social ou nacional, mas revela, também, um princípio ordenatório, acentuado por um comando. Este comando impulsiona o homem para a retomada de contatos com os Seres Superiores. Pode-se até designá-lo por um instinto de religiosidade inata.

Este é outro dos pressupostos éticos que aceitamos, independentemente de demonstração. Integra as tradições, os usos e costumes da maioria absoluta dos povos conhecidos.
18 - Código ético genético ou arquivo biológico
Posso designar os elementos de constituição e afirmação de nacionalidades entre os povos, como elementos componentes do código genético da nacionalidade.

Por isso entendo razoável usar a expressão código ético genético quando me refiro a uma consciência nacional.

Da mesma forma, quando tais elementos são comuns aos indivíduos, compõem a idéia de um conjunto de idéias a que, muitas vezes, as pessoas se referem como sendo sua consciência individual.

Pergunto-me se a consciência é um arquivo genético, biológico, que inclui a natureza ética. Associo esta linha de pensar ao que entendo por intuição.

Penso que não é falso proceder em respeito aos ditames da consciência, seja ela de amplitude individual, social ou nacional.

Em determinadas situações o procedimento intuitivo que me é ditado pela consciência afigura-se o uso de um arquivo de caracteres adquiridos de forma imprecisa, mas que são gerados pela razão (logos) e pela experiência pessoal (ou social) de cada um (nous).

Não tenho resposta convincente, mas, intuitivamente, sou levado a crer que é mais aceitável e fácil de entender a existência de um arquivo biológico genético, transmissível de geração em geração e de espécie em espécie.

Não tenho elementos experimentais, científicos ou racionais em que possa basear esta afirmação. Sinto tal manifestação do intelecto pela forma intuitiva. Talvez esse arquivo biológico, ético e genético tenha sido herdado em uma dessas combinações mitológicas de deuses com seres mortais, humanos ou não.

Intuo que a noção de ordem existe dentro de cada um de nós também por herança genética.

Kant chegou a questionar se o enunciado da relação causa-efeito que nos é imposta pelo pensamento racional não seria uma decorrência da estrutura biológica de que somos dotados. Imaginou que é admissível afirmar que pensamos racionalmente por que a nossa estrutura biológica não nos permite outra forma de pensar.

Aceito como provável que a exigência racional de elucidar a relação entre a causa e o efeito seja uma determinação biológica, imposta pelo corpo à alma.

O uso e a aplicação das formas de pensar impõem-nos seqüências cronológicas definidas no eixo dos tempos na relação antecedente-conseqüente. E exigem definições de posições relativas, para que possam ser localizadas no eixo dos espaços. Pedem regras para a ordenação dos pensamentos. Levam à vontade de conhecer racionalmente.

Não posso excluir a idéia de que estas manifestações mentais podem ser de natureza bio-genéticas. Como são elementos que necessariamente integram os fenômenos éticos, convém torná-las objeto de estudos durante esta iniciação.

Tais fenômenos éticos são seqüenciais, respondendo a forças e potencialidades, conveniências ou inconveniências, compatibilidades ou incompatibilidades, de oportunidades ou inoportunidades, propriedades ou impropriedades e estão sujeitos à ação de nossa vontade.

Por esta trilha consigo assimilar a natureza ética bio-genética do texto encontrado na Bíblia, no Livro de Números, em que Jehová determina a quem caberá cumprir, de forma exclusiva, a missão auxiliar do ministério sacerdotal, destinando-a aos descendentes de Levi.

Dentre os Levitas devem ser escolhidos os obreiros da tenda da congregação e não os sacerdotes! E o fato de que tais auxiliares devem ter pelo menos trinta anos de idade, induz-me a pensar que, a partir dessa idade, novos caracteres genéticos se manifestam, dando origem às condições mínimas para que possam realizar os trabalhos a que estão comissionados.


O texto bíblico usa destas palavras para transmitir a idéia da missão determinada:

Farão o serviço que lhes é devido para contigo e para com a tenda; porém não se aproximarão dos utensílios do santuário, nem do altar, para que não morram, nem eles, nem vós. (Num.18:3)
A idéia de missão é de conteúdo manifestamente ético. E quando se trata de missão religiosa, decorrente de uma relação mítica entre a divindade e o indivíduo, os efeitos éticos de natureza extensiva e quantitativa chegam a ser incalculáveis.

Veja-se, pelo mundo, a quantidade de Hinduístas, Budistas, Cristãos e Muçulmanos reunidos em torno de suas crenças. Quanta força de aglutinação e de integração se concentra nessas religiões! É maravilhosa esta herança ética que está à disposição de nossas formas de pensar. Não se pode negar que este patrimônio cultural e nos dá potencial real para o estudo dos fenômenos éticos.



19 - Conhecimento do bem e do mal

Sou levado a conscientizar que não tenho formada a idéia nítida do que é o Bem ou o que é o Mal. Condicionado à tradição dualística, percebo idéias próximas de conveniente e inconveniente.

Trago das observações colhidas junto às tradições mitológicas de muitos povos como idéias de verdades, ou seja, de seres ou entidades, que a idéia do bem e a idéia do mal correspondem, cada uma por si, a processos mentais de ordenação de idéias que formam, sucessiva e ininterruptamente, combinações correspondentes entre idéias opostos.

Não recebo essa distinção como conhecimento porque não sei enunciar a relação causa-efeito que identifique racionalmente, o que é o bem e o que é o mal.

Constato, pela experiência, pelas tradições, pelos usos e costumes, que a idéia do bem e do mal foi herdada sem outra explicação. A idéia de Luz é-me transmitida ligada à idéia de Bem. Mal é idéia ligada à de trevas. Não consigo explicar quando, como e porque surge essa relação de Bem, como idéia, portanto imaterial, com Luz, fenômeno de natureza física, portanto, material. Há um ponto comum: ambos ocorrem no mundo natureza e podem ser reconhecidos por nós, ou através das percepções sensoriais ou das conceituações mentais.

Nas relações humanas, e via de conseqüência, nos Estudos compreendidos pela Ética, fala-se em princípio do bem e do mal. A diferença é portanto adotada como um princípio, que não se demonstra. Assim como na física adotamos o princípio da queda dos corpos; e em química temos o princípio da conservação da matéria , em Ética adotamos o princípio do bem e do mal.

Observo que as idéias contidas nesses princípios são constatáveis, indicadas pela experiência sensível. São idéias objetivas, que servem a todos.

Mas a herança intelectual que nos chega pelo Hinduísmo critica as amarras do dualismo. Ela sugere a libertação também das peias a que somos levados pelos sentidos, especialmente os desejos que induzem a idéia da luxúria, do poder e dos ganhos materiais como um bem .


Chego-me a uma tradução do Gita, para o português, feita pelo Suami Prabhupada, editora Bhaktivedanta,1986, cujo texto original está em sânscrito. Refere-se ao texto 45 do Resumo do conteúdo do Gita. As palavras teriam sido dirigidas por Krishna a seu dileto Arjuna, e contêm uma referência específica à libertação do homem das amarras do pensamento dualístico: Os vedas tratam principalmente do tema dos três modos da natureza material. Eleve-se acima destes modos, ó Arjuna. Seja transcendental a todos eles. Liberte-se de todas as dualidades e de todas as ansiedades por ganho e segurança, e se estabeleça no Eu..
Não preciso deixar-me sufocar pelo dualismo mental que domina o pensamento discursivo e recorro aos campos de estudos éticos para entender o que são o bem e mal. A tradição, os costumes e os usos nos ensinam que entre o bem e o mal, tanto no mundo das abstrações como no das realidades sensíveis, há muitas ocorrências intermediárias. No mundo da física há experiências que sugerem que os corpos não caem, por exemplo quando um balão sobe. Na química, a queima de madeira sugere que a matéria se perde, ou seja, que há perda de matéria quando o fogo a consome. A experiência ensina que entre luz e trevas existem sombras e tonalidades, o que corresponde a dizer que, entre as idéias de luz e de sombra absolutas, há mundos ou situações intermediárias.

Da mesma forma, no mundo da ética, há muitas idéias, situações e processos intermediários que nos levam a admitir idéias de meio-bom e meio-ruim, mais ou menos conveniente, mais ou menos próprio.

Nestes casos, importa saber qual é a relação entre o fenômeno ético e o observador, para que possamos fixar como deve ser concluída a observação.

Embora essa definição circunstancial se faça necessária, podemos entender que é possível chegar ao enunciado de regras objetivas a partir de observações subjetivas. Como normas ou regras de procedimento, elas podem ser reunidas, sistematizadas e identificadas como regras objetivas, que estão presentes em todos os fenômenos de iguais características. Este é um dos objetivos fundamentais da Ética Normativa.

Devo chamar a atenção dos que hão de prosseguir por esta trilha iniciática: esta é principal utilidade dos conhecimentos que nos vêm através do estudo dos fenômenos éticos.

A ética pode guiar-nos, diante das dificuldades que nos propostas ao longo da vida, facilitando e fornecendo as decisões mais compatíveis com os nossos objetivos, ajustando-os aos usos, costumes, tradições e conhecimentos!

Percebo que as distinções entre Bem e o Mal, no pensamento de judeus e cristãos, têm as raízes no mito da árvore do conhecimento do bem e do mal, cuja tradição começa a ser compilada em documentos escritos por volta dos séculos VII e VI a. C.

Conta-nos o Velho Testamento:



E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, da banda do oriente: e pôs ali o homem que tinha formado.

E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista e boa para a comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. (Gênesis, 2:8-9)
No Budismo, iniciado por volta do séc. VI a. C., também o conhecimento – que não é somente do Bem e do Mal - liga-se à idéia da árvore sagrada Bodhi. Budha procura a situação de equilíbrio e equidistância.

No judaísmo, cristianismo e islamismo, a tradição nos relata o episódio mitológico em que Adão comeu do fruto da árvore do bem e do mal. E, a partir daí, passou a diferenciar o bem do mal.

Não sou levado a aceitar, necessariamente, a existência de forças místicas ou espíritos que, misteriosamente, flutuam no ar ou atuam sobre as sociedades humanas. Nem me vejo forçado a receber como imposição as doutrinas religiosas dos diferentes povos. Estou seguro que me é dado o livre arbítrio de escolher o que me parece melhor ou mais conveniente

Parece razoável, por outro lado, dar atenção às formas usuais de comunicação entre viajantes, peregrinos, terrestres ou extraterrestres, mesmo entre comerciantes que se infiltram, ao longo de séculos e milênios, nas mais diversas culturas e nações, aportando-lhes idéias, histórias e tradições. É por sua originalidade e fascínio que esses relatos passam a integrar a própria história. Assim como as lendas, a história fica encampada e integrada às tradições orais dos povos.


Colho dos usos e costumes expressões freqüentes de inegável conteúdo ético:

- Aquilo era bom, agora não é mais. O que me parecia um bem, tornou-se um mal. Errei por que julguei bom o que era ruim. Acertei por que tomei a verdade por mentira, o que era pelo que não era. Errei por que escolhi o falso pensando que fosse o verdadeiro.
É eticamente recomendado que, antes de agir, emitir juízos, opiniões, tomar atitudes ou firmar posições, durante o processo de escolha de opções, cada um de nós ordene as idéias, as linhas e formas de pensar, por comparação aos elementos que nos são trazidos pelos usos, costumes, tradições e conhecimentos.

Só através desse processo de ordenação consciente das idéias, linhas e formas de pensar, devem ser reunidos os fundamentos das decisões. A partir daí pode e deve ocorrer a manifestação da vontade. Esta regra ética vale para o indivíduo e também para a coletividade.

Como sugestão de regras morais úteis, que podem nos auxiliar e dirigir nos processos de decisão ou de eleição de soluções vale a leitura das palavras atribuídas a Cristo, que compõem o Sermão da Montanha, como também na maioria dos Livros sagrados dos povos orientais.

Por estar vinculada a nossa dominante tradição religiosa e cultural, transcrevo abaixo as palavras iniciais do Sermão da Montanha, encontrado nos capítulos 5 e 6 do Evangelho segundo Mateus.


Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

Bem-aventurados os limpos de coração; porque eles verão a Deus;

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo disserem todo o mal contra vós por minha causa.

Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. (Mateus, 5:3-12)
A leitura integral de todo o sermão é recomendável para os estudos de ética, pois é abrangente, contém idéias de conteúdo moral, e servido de orientação para a formação cultural de toda a civilização ocidental de nossos tempos.

20 - Do século VII ao VI a. C.
Os dados históricos disponíveis acenam com um período privilegiado da história intelectual da Humanidade, situado inicialmente entre os séculos VI e IV a . C., em que Pitágoras, Heródoto, Platão, Aristóteles, Budha, Zoroastro e Confúcio deixam traços marcantes de sua passagem, posteriormente com a advento do Cristianismo e, mais tarde, com a divulgação das palavras de Maomé, no Corão.

Não importa, por agora, saber de quem foram recebidos ou herdados esses legados. Existem, são reais e vivemos na projeção do que eles representam. Segundo algumas hipóteses podem mesmo ter sido trazidos à Terra por extraterrestres...


Há tradições orais dos persas que nos chegam, agora por escritos antigos, contando da existência de uma tribo de magos. Os judeus transmitiram na Torá e em outros escritos fundamentais, especialmente os proféticos, vigorosas mensagens de conteúdo ético, que não podem passar despercebida a quem se interesse pela busca da Verdade. Da mesma forma o Budismo e o Hinduísmo nos trazem preciosíssima colaboração ética, que será apreciada mais adiante. O Velho e o Novo Testamento, adotados pelos cristãos, para nós parecem-nos fundamentais tanto para o entendimento dos fundamentos de nossa cultura e civilização, como e sobretudo, para o enriquecimento de nosso eu. O Corão e o Islamismo nos acenam com muitas trilhas que nos possibilitam religar-nos ao Criador.
Procuro formular conceitos próprios sobre a Tribo dos magos, que teria vivido na antiga Pérsia, situando-os num ordenamento de tempo, espaço e idéias. Não me causa surpresa a hipótese de que, no futuro, por abordagens mais meticulosas e precisas, venha a ser confirmado que os magos do oriente que visitaram o berço de Cristo, em Belém, tenham sido os embaixadores designados para fazê-lo em nome do povo da Tribo dos Magos ou de alguma tribo de extraterrestres, remanescentes de alguma viagem espacial sem retorno.

O Corão dirige, com impressionante eficiência e insubstituível religiosidade, a mente de centenas de milhões de pessoas. Afora o aspecto quantitativo do seu alcance social no mundo moderno, é também um livro indispensável aos que procuram, com método e humildade, encontrar a Verdade.

Aos que quiserem aprofundar-se no estudo do que ocorre no mundo moderno é recomendável o percurso das trilhas deixadas pelos pensadores mencionados. A partir do século VII a.C. a mente humana faz demorado e penoso esforço que marca o início da sistematização do conhecimento, tanto científico, como filosófico, religioso, mitológico e ético.
21. O objeto da ética teórica
A idéia do coletivo atrai e agrada. Percebo que sou um ser gregário. Verifico contudo que a força resultante do interesse coletivo é sempre de menor intensidade do que a resultante do interesse individual. O que significa que o que importa à coletividade prevalece, é respeitado e preservado, na medida em que não conflita com o interesse e a vontade do indivíduo.

A massificação destrói a individualidade. A mim agride e desagrada. Sinto necessidade de mais elementos. Meu intelecto está insatisfeito. Faltam-me conceitos e idéias nítidas. Alimento a possibilidade de compatibilizar a idéia, a vontade e o contexto através de uma ordenação de palavras, razões (logia= logia) e argumentos.

A ordenação de idéias e vontades se dá no campo do abstrato, ou seja, no campo do logos, ao qual chego apenas pelo contínuo esforço de procurar conhecer o contexto em que estou situado. Conhecer é estabelecer linhas de pensar, ou seja relações abstratas, entre o meu eu e os seres ou idéias que integram o mundo ao meu redor. E isto se dá através da aprendizagem intelectual.

As relações abstratas entre mim e o universo a que estou integrado só podem ser consideradas como fenômenos teóricos. Intuo e passo a aceitar que os fenômenos de natureza intelectual que se manifestam nas relações físicas ou por comunicação de idéias, linhas e formas de pensar, podem tornar-se o objeto da ética teórica.

Posso afirmar que a Ética Teórica procura estudar as idéias, linhas e formas de pensar que se relacionam à natureza abstrata e imaterial do que nos é revelado nos fenômenos éticos. Por estas paragens do conhecimento a Ética Teórica e a Filosofia caminham juntas, confundindo-se muitas vezes como um único campo do saber.

22. Incursões sugeridas pela prática
A ordenação dos componentes materiais se dá no campo da realidade sensível, no mundo das coisas. A etimologia ensina que res, rei, em latim, significa coisa. Realidade é portanto a idéia contida na afirmação das coisas que existem. Raios cósmicos ou abóboras são reais, pois correspondem a coisas (res). São compostos de matéria e energia, que se manifestam em combinações variáveis. Porém, as idéias de abóboras ou raios cósmicos são abstratas, não integram o mundo da realidade, do que é fisicamente sensível, mas nem por isso, deixam de verdadeiras.

Convém ressaltar que a ciência nos mostra uma realidade sempre em movimento. Os mundos cósmicos, constituídos por átomos, moléculas, fótons e quanta, sugerem eterna movimentação, infinitas seqüências de corpos, com matéria e energia em infindáveis trocas num interminável processar de existências. No universo físico, os fenômenos ocorrem ininterruptamente. Tudo está sendo transformado.

Como temos visto, a idéia da verdade acompanha esse dinamismo cósmico. Também é um processo em que conceitos e idéias estão sendo concebidas, transformadas, recombinadas. num constante vir a ser.

Mas nem por que estas razões atuam com força decisiva sobre a minha mente deixo de admitir a possibilidade de uma verdade estática. Aceito também como verdadeira a idéia que corresponde a uma Verdade Imutável. O poder de atribuir idéias a outras idéias, seres, relações e processos, dá-me esse direito e propicia a possibilidade de trabalhar e pensar. É o que ocorreu com Parmênides de Eléa, ao firmar a idéia do Ser Uno e Imutável, e com Pitágoras, ao conceituar a idéia da Mônada.

Percebo que os paradoxos gerados pela linguagem discursiva não me devem levar ao extremo de opor-me à possibilidade de existirem verdades discursivamente contraditórias.
Paradoxo, ensina-nos a etimologia, tem origem no vocábulo grego parádoxon (), e contém as idéias de: 1.º) a opinião que ocorre à margem ou em oposição ao senso comum; 2.º)absurdo; 3.º)estranho; 4.º) manifestação singular; 5.º) extravagante; 6.º)incrível; 7.º)inopinado. A decomposição da palavra por suas raízes sugere para, ao lado de, à margem de, e doxa,es, que contém as idéias de dogma, opinião, fé, fama, crença, idéia, honra, plano, luxo.
É neste mundo sensível de idéias, opiniões, crenças, coisas e sentimentos, de indivíduos e pessoas, de ações e reações, de linhas e formas de pensar, que ocorrem os fenômenos éticos. Essa diversidade e multiplicidade de fatores enriquece nossa vivência de cada dia.

Muitas vezes esses fenômenos nos são evidenciadas pelos sentidos. Assim ocorre com os raios de luz compreendidos entre o infravermelho e o ultravioleta. Outras são captadas pelas formas de percepção que nos chegam através dos instrumentos. É que se dá com o uso de aparelhos que identificam os efeitos ultrasom sobre partes do corpo. Mas há também as relações de amor e ódio, carinho, ternura, agressão, fome, sede, angústia, manifestação de opiniões, conhecimentos, competências, incompetência, vícios, virtudes, verdades, mentiras e tantas outras. Estes fenômenos, que ocorrem nas práticas da vida, são objeto da ética prática.




23. Passagem do abstrato para o concreto
Verifico que, para passar da vontade abstrata, teórica, insensível, à criação de coisas materiais, é preciso ordenar o contexto das idéias abstratas e chegar ao cenário em que as coisas tem existência.

Ocorre-me a pergunta:

- Existem coisas imateriais?

- Posso passar do que não é material para o que é material?

- Posso ligar o abstrato ao concreto?

A resposta me parece óbvia: se a Física, na equação de Einstein E= mc2, ensina que passo da energia para a matéria e da matéria para a energia, é claro que posso passar, aproveitando-me das mesmas razões, do que designo por concreto para o abstrato.

Abstrato e concreto integram o Universo em que vivo, fazem parte da realidade em que estou situado. Concreto e abstrato co-existem, sem fronteiras, no mesmo contexto. Posso propor-me diferenciá-los. Mas sou eu que estabeleço as diferenças com base nas minhas percepções. Concreto e abstrato fazem parte do mesmo universo em que existo.

Por esta passagem do abstrato ao concreto, das formas ideais para os objetos, a idéia e a vontade assumem uma existência possível.

No mundo das idéias tento ordenar os pensamentos. No mundo restrito que me chega pela realidade transmitida pelos sentidos - visão, tato, gustação, audição e olfato, ou seja, pelo mundo sensível - tento vivenciar as relações com os demais seres. Tentarei compatibilizar ideais e idéias com as possibilidades materiais de vida e vivência.

24. Uma clareira na selva das abstrações

A trilha pela qual podemos prosseguir mostra-se nítida: parece conduzir a uma clareira em plena selva.

O objetivo agora é dar os contornos da idéia contida na locução é ético o que é próprio da natureza do homem. Ou seja, procuro reduzir o campo das observações ao mundo restrito em que o homem mantém relações contextuais, nítidas e passíveis de verificação. Sem excluir a potencialidade de estudo de uma Ética Universal, por uma questão de viabilidade física e mental da abordagem, contenho-me nos estudos da Ética Humana. Isto porque, mesmo sonhando com estrelas, sou obrigado a reconhecer que estou pisando o chão do Planeta Terra, nos limites e contornos deste pequeno lugar em que me encontro.

Quero descobrir, nesse processo, as regras para melhorar as relações da vida prática, no presente e no futuro, de governantes e governados. Aprender a ser empregador ou empregado. Quero saber como tornar-me bem-sucedido na riqueza, no trabalho, nas atividades intelectuais sem prejuízo das virtudes que podem acompanhar-me nesse processo. Quero saber como assumir lideranças e também realizar-me como liderado. Não preciso sonhar ser comandante se me é possível ficar satisfeito como subordinado.

Esta trilha parece indicar como ficar satisfeito e consciente, tanto sendo o sujeito ativo como o passivo na conjugação dos verbos Estar e Ser.

Ser, estar, parecer, permanecer e ficar são os cinco verbos de ligação do idioma português.

- Ligam o que com quê?- pergunto-me.

- Afinal, qual é a diferença essencial entre o sentido e a compreensão dos verbos Estar e Ser?

- Eu estou e eu sou são idéias particulares ou coletivas; são manifestações diferentes da minha individualidade?

- Quando falo sou, quero dizer sou absoluto?

- E quando digo estou, esta afirmação é relativa ao tempo e ao espaço?

- Posso ser sem estar? Ou posso estar sem ser? Posso parecer sem ser, ou permanecer sem ficar?

- Estar vivo é o que define a necessidade do meu relacionamento ético com o Universo, ou é por ser vivo que preciso relacionar-me com os seres que existem?

25. Trilhas que avançam entre as indagações tortuosas.
Nas formas de relacionar-me com o mundo estão as bases da comunicação que procuro através deste roteiro. Vou abordar a Ética Teórica e a Prática para ver qual servirá melhor para solucionar problemas atuais, sem criar outros mais graves.

A Ética na política procura explicar as relações entre governantes e governados, estabelecendo suas causas e conseqüências, mas só isso não basta. Esta é uma Ética que serve temporariamente para quem está na política, e não para quem é político.

A Ética na Filosofia preocupa-se com as causas primeiras das relações humanas, tanto na teoria quanto na prática e também me parece insuficiente. Procurando atravessar o mar a nado para saber de onde vem as águas morrerei afogado...

A Filosofia pode dar a receita, mas a comida quem faz é a prática. E essa prática há de ser entendida na política, na agricultura, nos negócios e na vida comum.

A vida física, somada às trilhas percorridas em viagens pelo mundo das idéias, pode mostrar-me, através da experiência reunida, horizontes mais claros.

Observo que as tradições, os usos, costumes e conhecimentos que integram a história e a vida do contexto em que vivo, são a soma de experiências já vividas e que integram, o patrimônio hereditário da sociedade em que vivo. ,

Parece que algumas nuvens se dissipam e vai tomando forma um roteiro que me convém. Acredito, e não ponho em dúvida, que é possível encontrar, usando dessa herança cultural, de costumes, usos e tradições, as formas de pensar com as quais possa compor o que estou buscando.

- Mas por que esta composição de idéias só deve ocorrer no final desta somatória e não ocorre em meio da caminhada?

- Qual é a razão que me faz crer que só depois de completar todo o trabalho intelectual captarei a mensagem que ele me aporta?

- Será só depois de chegar ao final da experiência, que eu chamo vida, estarei apto a saber a causa ética da minha existência?

O procedimento de soma é externado pela agregação de valores aos já obtidos. Passo a passo, degrau por degrau, unidade por unidade. Dessa maneira, de sub total em sub total, poderemos aspirar chegar ao resultado global, à soma final. Mas até lá, é preciso ordenar as parcelas. E esta regra vale também no campo do conhecimento ético.

Percebo que os subtotais são muito diferentes entre si. A soma dos subtotais deve levar-me a um resultado final mais diverso ainda. Os subtotais são os trechos de uma trilha sinuosa, cujo traçado difere da direção final, podendo, nos momentos intermediários, ser ou não coincidente com o ponto de chegada.


Capítulo III






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