Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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8 - Novamente o tempo
Por agora, meu intelecto exige a noção de tempo. Inicialmente a idéia parece corresponder a um artifício através do qual o homem procura conscientizar sua existência. Intuo que, antes de ser materializado e adquirir consciência, o indivíduo não conta e não conhece o tempo. Mas, independentemente de sermos ou estarmos conscientes, cada um de nós é marcado pela ação do tempo. Contam os relatos mitológicos gregos, que somos filhos do Tempo, representado na idéia do deus Cronos, e que, logo ao nascer, somos engolidos por ele.
Na mitologia helênica, Cronos, o deus do tempo, devorava todos os seus filhos. Sua mulher Réa, tentava evitar que os filhos fossem comidos pelo pai, mas não adiantava. Certa vez, contudo, ela conseguiu ludibriar o deus voraz e deu-lhe, no lugar do filho Zeus, uma pedra. Cronos vomitou os filhos anteriores e assim, seus filhos tornaram-se imortais.
Tomo como referência um eixo de cartesianas ortogonais. Designo a variação do tempo na abcissa. Marco um ponto zero, que significa o presente. Situo a quantificação do tempo numa escala de valores. As formas de pensar em linguagem discursiva ordenam-se numa relação anterior-presente-posterior, que tem semelhança à idéia de passado-presente-futuro e antecedente- atual-conseqüente. Em linguagem numérica, fixo o tempo, a partir do marco zero, por algarismos que indicam quantidades: +1, +2, +3... e -1, -2 -3...

Sei que as quantidades podem ser positivas. Mas qual o significado de uma quantidade negativa? Entendo que a idéia de quantidades positivas é abstrata. Assim também a idéia de quantidades negativas não corresponde ao mundo da realidade sensível. Os números que definem as quantidades, sejam positivos ou negativos, indicam abstratamente, quantidades imaginárias.


Os pitagóricos afirmaram que não existem qualidades, mas apenas combinações de diferentes quantidades de um mesmo elemento fundamental, a mônada. A mônada pitagórica contém tudo. A idéia do universo está contida na idéia da mônada.
Tais linhas de pensar permitem, portanto, que eu avance ou recue, no eixo dos tempos, pois tudo que eu fizer fora do presente é imaginário! Concluo que a idéia de tempo futuro ou passado é uma abstração do que chamamos presente. Mas, embora abstrata, intuo a idéia de seqüência cronológica de causa-efeito, em que a causa (presente) aparece como antecedente e o efeito (futuro) parece ser o conseqüente.

Também é possível, nesses avanços e recuos, admitir que há causas que por natureza são anteriores (deontológicas) e causas posteriores (teleológicas).

Há causas anteriores. Assim é a vontade de ver materializada idéia; fome, sede, angústia, revolta, passividade, etc. São causas deontológicas, que se referem à natureza do ser (onto significa ser). Simplesmente desejar um carro, corresponde a uma causa originária de ver materializado o desejo. Este se completa independentemente do carro ser usado. Mas se eu digo preciso de um carro, quero traduzir a necessidade, visando sua para utilização. A utilidade do carro é a causa final que me faz adquirir o carro. Portanto, utilidade é causa final, de natureza teleológica.

A idéia da obrigação que dirige os seres inteligentes, leva-os a formulação de juízos que resultam de causas deontológicas ou teleológicas. As causas finais e as causas primeiras quase se igualam. As linhas de pensar em que se formam são as mesmas. Lembremo-nos que uma reta é o menor segmento de uma curva. Linhas de pensar são como retas, cujas extremidades se encontram no infinito.


9 - A criação
A criação, depois do ordenamento, parece ocorrer tendo por causa anterior, causa primeira, deontológica, a vontade da Autoridade Ordenadora.

E esse processo sugere que é a vontade da Autoridade Anterior que liga a idéia (sempre abstrata) ao ser (concreto ou abstrato), que vai ser criado.

Assim o ser criado é lançado ao mundo dos seres concretos.

Pergunto-me se posso criar seres abstratos. Aceno positivamente, dentro de mim mesmo. Na medida em que os seres continuem abstratos e sejam contidos apenas nas linhas e formas de pensar sou levado a acreditar que posso criar idéias.



- Mas você tem poder criador? Você não diz que só Deus pode criar?

A palavra criar confunde-me os pensamentos. Contém a idéia de um processo, responde a uma prévia ordenação. Expressa um vir-a-ser, uma processo de transformação. Para mim criar é o resultado de um novo ordenamento. Nada se cria a partir do nada. Criar idéias significa, para mim, ordenar idéias que já existem, e formar , a partir delas, idéias de novos conjuntos ou combinações. No Universo nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Aceito a validade deste princípio de conservação da matéria também no mundo das idéias.


Criar tem pelo menos quinze significados. 1.º) dar existência: tirar do nada; 2.º) dar origem; gerar; formar 3.º) dar começo; produzir; inventar; imaginar; 4.º) fundar; estabelecer; implantar; 5.º) alimentar; cultivar; amamentar; 6.º)instruir; educar; 7.º) promover a reprodução; reproduzir; 8.º) contida na idéia de continuidade de um processo: acompanhar a cultura de plantas ou animais; 9.º) adquirir; ganhar; 10.º) desenvolver vícios ou virtudes; 11.º) vir a ter; fundamentar; 12.º) causar; dar causa; 13.º) transformar; assumir posturas; assumir relações; 14.º) fazer; instituir; 15.º) dar nascimento; nascer.
Acredito, fixando a noção, que tenho poder de formular novas combinações de idéias. A este processo designo criar. O que designo por novas combinações são conjuntos que eu não conhecia. Portanto criar seres abstratos é, na verdade, um processo de identificação de conjuntos de idéias que não constavam da minha memória. Posso formar imagens de monstros, posso criar monstruosidades, tanto no abstrato como no concreto. Ou seja, posso ordenar coisas e idéias segundo padrões contrários à tradição, aos usos, costumes e conhecimentos disponíveis. Este é o objeto de estudos da Teratologia.

Nós temos o poder de transformar em linguagem discursiva os elementos compreendidos nas idéias, linhas e formas de pensar. É o que se faz com sons, palavras e frases.

A utilidade da linguagem discursiva consiste em que ela propicia a outros indivíduos a condição de captar, fora dos sentidos físicos, as idéias do material e do imaterial que estão contidas na linguagem,

A noção de tempo sugere ligações estreitas com a noção de vida biológica. Faltam-me conceitos precisos. A trilha é estreita, íngreme, exige esforços da mente. Sem um efetivo labor do espírito não chegarei a lugar nenhum. É preciso ir adiante.



- O que significa a palavra? O que quer dizer logos? E o que me parece ser a idéia? Onde começa de fato a criação?- são questões cujas respostas tornam-se necessárias para que eu possa prosseguir.
10. Logos e a palavra-idéia
Procuro saber o que os pensadores gregos da Antigüidade entendem por logos. Assimilei que logos, (em grego escreve-se , significa mais do que a simples palavra, seja escrita ou falada, pois contém e carrega a idéia do ser, entidade ou ação.

Muitas vezes a idéia contida na palavra quer indicar o signo, ou seja, o sinal ou razão de existência do ser a que se refere. Neste caso expressa o enunciado da relação causa-efeito que corresponde ao ser designado.

Tal entendimento sugere que a palavra e a idéia contidas no logos carregam o potencial germinativo de cada ser.

Indo mais longe neste processo de abordagem, vejo que este potencial inclui a vontade de quem cria.

Através desta vontade, a palavra-idéia-logos manifesta a ordenação dos elementos que transmitem o potencial contido em cada ser, entidade ou conjunto. Assim, a realização desse potencial propicia a sua materialização e desenvolvimento.

A inclusão da vontade criadora dará, mais tarde, a idéia da responsabilidade de quem cria. Isto quer dizer, o criador estabelece ligação direta com a coisa (res) que põe no mundo, a que deu peso e existência.


O vocábulo latino res,ei traduz pelo menos oito idéias, das quais algumas nos interessam diretamente, a saber: 1.ª) idéia de coisas; bens; propriedades; 2.ª) utilidade das coisas; suas vantagens; interesse em torná-la objeto de discussão; 3.ª) assunto a tratar; questão judicial; processo; 4.ª) idéia do que existe no mundo material; do que nos é sensível ou revelado pelos sentidos; 5.ª) fato, realidade ou fenômeno materialmente apurável; 6.ª) conjuntura; contexto; ocasião; circunstâncias; 7.ª)coisa pública; negócios públicos; 8.ª) argumento; meio; prova; relação direta.
A ordenação estabelece as relações e os limites em que elas são possíveis. Objetiva que os indivíduos realizem o seu potencial.

A criação materializa a soma da idéia com a vontade. Ao nascer o ser assume a individualidade, identifica-se para o mundo sensível e, respondendo ao seu potencial, abre seus espaços e procura sobreviver.



11. O relacionamento ético.
A Ética procura estudar as relações entre o indivíduo e o contexto em que está situado. Ou seja, entre o que é individualizado e o mundo a sua volta. Sob este prisma, estuda o homem como ser incluído e relacionado com o Universo. Não tem por objeto o estudo de todos os fenômenos mas, fundamentalmente, visa os fenômenos éticos. Devo observar que os fenômenos éticos são enunciados através de idéias, linhas e formas de pensar, e tornam-se concretizados em atos, fatos, ações, relações e procedimentos.

A natureza dos seres em si mesmos pode concorrer para o estudo dos fenômenos éticos, mas não é o objetivo fundamental desse estudo.

Não fazem parte do campo de estudo da Ética as quantificações de coisas, seres ou pessoas. Assim medida do tempo é um procedimento da física. Mas o estudo do que ocorre nas relações de um homem com contexto, localizado no tempo, é objeto da Ética. Não constitui objeto da Ética o dimensionamento de seres, coisas ou objetos. Mas estão dentro do objeto da Ética o dimensionamento e a quantificação dos fenômenos que dizem respeito a ações, processos , atos e fatos alheios à vontade, à idéia, às linhas e formas de pensar e agir.

Quando idéia, vontade e ordenação são materializadas, o indivíduo segue abrindo e conquistando espaços que lhe são possíveis, visando levar adiante o seu projeto genético. Daí porque posso afirmar que o relacionamento ético é fenômeno integrado pela ordenação de elementos que impedem ou viabilizam o desenvolvimento dos indivíduos no contexto a que estão integrados..

A determinação genética inclui, em cada indivíduo, uma força chamada vontade de viver. Esta força é de dimensão e natureza que ainda não me são conhecidas.

Além da vontade de viver, existem outras vontades que se manifestam nos mais diferentes contextos. As vontades, à medida em que se revelam na mente do indivíduo, tornam-se fatos geradores das suas ações. Há vontades conscientes e inconscientes. Há vontades que resultam de causas interiores ou exteriores. Podem ser realizadas, afastadas ou anuladas. O exercício das vontades está presente em todos os momentos da vida humana. Seu estudo é um dos objetos da Ética.

Em direito aprendemos que o agente é capaz quando dispõe, conscientemente, da vontade. O ato jurídico inclui a vontade livremente manifestada como requisito essencial para sua validade.


12. O instinto de sobrevivência
A vontade de viver domina o indivíduo durante todo o tempo em que está vivo. Muitas vezes essa vontade se revela fora do pensar consciente. É o que entendemos por instinto de sobrevivência.

É essa vontade de viver e de lutar pela vida que nos leva a conquistar os espaços físicos que nos cabem no mundo material. No mundo do abstrato a vontade de viver nos faz lidar com idéias, linhas e formas de pensar.

Há também o que conheço por instinto de preservação da espécie. Além dos seres humanos, esta força tem como ponto de aplicação grande número de seres vivos de outras espécies.

Observo que o instinto de preservação da espécie alimenta o amor materno, a proteção dos pais e o amparo da sociedade e de seus integrantes em relação à gestação, aos nascituros, recém-nascidos, velhos e doentes.

O instinto de preservação da vida atua em nós quando nos relacionamos com outros seres vivos, sejam pessoas, plantas ou animais, mesmo que elas nos sejam desconhecidas.
A palavra instinto contém cinco idéias afins:1.ª) do latim instinctus,us, excitação, impulso; movimento; o que resulta da ação de uma força; está ligado à idéia contida no verbo instiguo, impelir, excitar; impulsionar; 2.ª) fator preexistente ao nascimento; qualidade inata que se atribui aos animais em decorrência de seu código genético e que os leva a agir independentemente da razão; neste sentido traz a idéia de motivação biológica que não depende da razão; 3.ª) a força inconsciente que responde às necessidades da espécie; 4.ª) tendência ou força inata que decorre da natureza de cada ser; 5.ª) assemelha-se à idéia da intuição por que ambas se revelam independentemente da razão, não surgem de um processo mental consciente.
As imagens de crianças ou pequenos animais, de mamíferos em gestação, de seres humanos ou animais, quando velhos e doentes, provocam respeito e despertam vontade de prestar-lhes ajuda.

Também a imagem de miséria, fome ou desgraça, em homens ou animais, provoca horror. A de famintos, nos provoca angústia; a de mendigos, nos constrange.

Constato que no código genético dos seres humanos manifesta-se um conjunto de vontades inatas, que busca a preservação da vida, das espécies e do próprio indivíduo. Há vontades motivadas por idéias de situações, coisas ou procedimentos que nos parecem agradáveis.

O código ético genético sugere a existência de instintos e de forças que atuam inconsciente ou conscientemente, nas relações do indivíduo com o contexto. Indicam posturas, ações e reações. Integram e atuam sobre a vontade consciente.

Tenho a intuição que o código ético genético existe e atua em cada indivíduo. Manifesta-se em alguns com mais e em outros com menos força. Creio que pode ser quantificado. Por vezes revela-se de forma tão acentuada que, embora trazendo, como nos seres humanos, a natureza do ser gregário, não o arrasta para a massificação.

Para que o homem seja submetido à perda de sua individualidade no contexto (idéia de massificação), torna-se necessário um aporte de potencial ético nos condicionamentos ministrados através da educação. Pessoalmente, tenho aversão à massificação. Ela destruir a individualidade, que procuro, por natureza, ver respeitada..

Embora por convicção eu me identifique intelectualmente com as correntes do pensamento socialista, defendo, intransigentemente, a preservação e o respeito às manifestações que definem os indivíduos, de tal forma que todos devem ter a possibilidade de desenvolver seu potencial, especialmente enquanto não agridam nem o contexto nem a coletividade. A alma individual deve cultivar a alma nacional, sem prejuízo do respeito à individualidade.
Capítulo II


A palavra e o estudo da ética


13 - Linhas e formas de pensar, 14 - A palavra escrita. 15 - Zoroastrismo e os efeitos da verdade e da mentira. 16 - Zurvanismo e Mazdeísmo. 17 - Alma individual e nacional. 18 - Código ético genético ou arquivo biológico. 19 - Conhecimento do bem e do mal . 20 - Do século VII ao VI a. C. .21. O objeto da ética teórica. 22. Incursões sugeridas pela prática. 23. Passagem do abstrato para o concreto. 24. Uma clareira na selva das abstrações. 25. Trilhas que avançam entre as indagações tortuosas.

13 - Linhas e formas de pensar
As idéias são fixadas a partir da atribuição de nomes aos seres e aos fenômenos. Há o que se pode designar palavra-idéia, com raízes no vocábulo grego logos. A idéia emerge do mundo abstrato, e podemos reconhecê-la na materialização daquilo que nela se contém. Para firmar o conceito de idéia, impõe-se exemplificar.
Primeiro exemplo: Em princípio, todos temos a idéia do que é o triângulo equilátero, pois é a figura geométrica plana e fechada, de três lados e três ângulos iguais. O triângulo equilátero não depende da medida ou tamanho do lado. Se o comprimento do lado tiver um centímetro ou um milhão de quilômetros, mas estiver satisfeito o requisito de igualdade dos lados e dos ângulos, a idéia que corresponde ao triângulo equilátero é a mesma.

A idéia do triângulo equilátero não depende das posições relativas da figura geométrica quando é materializada. Qualquer que seja a posição relativa do triângulo equilátero no contexto em que se encontra, a idéia que lhe corresponde será sempre a mesma. Há cinco mil anos, no dia de ontem, ou daqui a cem mil anos, a idéia do triângulo equilátero corresponderá sempre à mesma figura geométrica.


Objetivamente, posso concluir que a idéia do triângulo equilátero não depende do tamanho de seu lado (ou seja, do espaço); não depende do tempo e também não depende das posições relativas que a figura esteja assumindo, nem da matéria pela qual se torna sensível aos olhos ou aos demais sentidos.
A experiência ensina que quando o observador vê a figura de um triângulo equilátero de perfil, ele recebe sinais óticos diferentes do que lhe são revelados pela imagem plana do triângulo visto de frente. A épura nos mostra que a imagem do triângulo pode ser revelada como um traço, na medida em que se dá a representação da figura. Recebendo os raios refletidos na projeção do triângulo vemos, apenas, um simples segmento de reta ou, também é possível, a projeção pode nos assinalar a imagem de um triângulo não equilátero.
A visão de uma mesma figura nos indica que, na prática, o triângulo equilátero pode ser reconhecido pelo ser humano com características diversas das que estão contidas na idéia. Por isso que a teoria, que existe no mundo das abstrações é uma, e no mundo físico, em que ocorre a prática, é outra.

No contexto da realidade física os nossos sentidos captam as sensações óticas, gustativas, olfativas, sonoras e táteis. A partir daí o sistema nervoso compõe, através da percepção, as formas (físicas, geométricas ou de pensar) pela quais nós recebemos a idéia. Este processo depende do tempo, do espaço, das posições relativas que ocupamos em relação ao objeto da percepção, dos focos de luz, da temperatura, da matéria, dos centros de emissão de odores, gostos, sons, contatos, da nossa acuidade sensitiva e finalmente, da nossa habilidade mental para captar intelectualmente, formar juízos comparativos e então perceber o que nos é transmitido. Fica-me claro que as percepções dependem do ajuste de idéias, linhas e formas de pensar.

Uma das questões éticas que surge, na análise do que é representado pelo homem diante das formas e das sensações, é saber qual idéia é a mais verdadeira: se é a idéia do triângulo equilátero em si mesma; se a materialização dessa idéia ou se a maneira pela qual recebemos a forma material através de nosso sentidos.

Devemos levar em conta que o que recebemos é sempre a projeção da idéia no mundo físico em que estamos colocados.

A experiência indica que a análise do fenômeno ético não é um processo tão simples. Além das idéias que são, por natureza abstratas, devemos usar, na vida prática, a acuidade sensitiva e perceptiva. Só assim podemos captar convenientemente as informações que nos são dadas pela experiência.

A partir dessa coleta de dados, impõe-se comparar as informações aos padrões de relacionamento herdados pela tradição, pelos usos, costumes e conhecimentos disponíveis. Em seguida à composição de dados e informações devemos enunciar as regras que definem a relação entre a causa e o efeito.

A verificação do enunciado, mediante comprovação de sua validade para fenômenos semelhantes, nos leva ao que poderemos aceitar como sendo o conhecimento racional. O enunciado mal formulado não leva a nada. É como uma conclusão obtida fora das regras do silogismo.

A Ética nos proporciona o processo intelectual que leva à compreensão dos fenômenos éticos. Este é o sentido da expressão conhecimento ético. O Conhecimento Ético, enquanto conhecimento, tem a mesma validade dos conhecimentos físicos, químicos e matemáticos.


Segundo exemplo: Todos sabemos o que é um copo, pois em geral, usamos esse utensílio para beber. Tomo de um copo, encho-o de água e levo-o à boca. Nesse instante, alguém esbarra em mim, o copo cai e quebra-se. Quebrou-se o objeto, partiu-se o copo, mas a idéia do copo ficou intocada, a tal ponto que sou capaz de encontrar outro copo e servir-me dele. Neste caso, também a idéia da água permanece intocada. Quebrado o copo, a água destinada a ser bebida, derramou-se e desviou-se de sua utilidade. Mas a idéia da água para beber ficou intocada. Tanto é que, ao repetir a operação, volto a beber água num copo. Faço, neste momento, algumas observações.
Posso enfocar os fenômenos éticos dentro de um ponto de vista objetivo. Embora as descrições e interpretações sejam pessoais, é possível estudar os fenômenos éticos objetivamente. É possível reunir informações, definir elementos e enunciar regras pelas quais posso perceber, identificar, analisar e sintetizar os conhecimentos colhidos em torno dos fenômenos. Esta possibilidade conduz à afirmação de que, assim como nos demais campos do conhecimento humano, posso sistematizar dados, métodos de coleta de informações, descrever o contexto em que ocorre e enunciar as leis que regem o fenômeno ético. O estudo da Ética possibilita chegar a enunciados de natureza cognitiva que obedecem a relações de causa-efeito. A partir desses enunciados posso obter regras, normas e leis compatíveis com as necessidades objetivas do contexto.

Por óbvio que, quanto mais aprofundados os estudos, melhores deverão ser os enunciados. Quanto melhores os enunciados, mais convenientes serão as leis. Leis convenientes são as que respondem à vontade coletiva e individual que identificamos com a idéia de Justiça.

Importa fixar conceitos, sinalizando idéias, a partir dos quais o estudo dos fenômenos possa ser desenvolvido de forma sistemática.

- O primeiro machado era uma pedra lascada, amarrada por um cipó a um galho de árvore. Para chegar ao machado de aço, com a lâmina afiada e o cabo liso, levamos uns cem mil anos ou mais. – assim estimulava um dos professores da minha infância os seus alunos, diante das dificuldades intelectuais que vivíamos.

Portanto, ao iniciar-nos por um novo campo do conhecimento não tenhamos a pretensão de fazê-lo em horas ou dias. Meses e anos contar-se-ão às dezenas até que um conjunto razoável de idéias sistematizadas nos propiciem a abordagem segura dos problemas éticos. Individual e pessoalmente, por agora, neste trecho da trilha intelectual, vamos tentar, cuidadosamente, reunir os elementos fundamentais para prosseguir na ordenação e sistematização das informações que nos chegam.

A expressão materializada da idéia sofre a ação do tempo e das circunstâncias, pode quebrar ou perder-se. A semente germina. A planta cresce e se desenvolve. Observo que torna-se árvore, com raízes, tronco, galhos e folhas. Vejo-a, usando os meus olhos, sem saber o que ocorre no seu interior. Sem conhecer os elementos que compõe os vasos descendentes e os ascendentes. Não sei nem mesmo como classificar o que vejo. Mas observo que a planta adulta ganha e perde folhas. Um dia todas caem. Os galhos secam, o tronco definha e a árvore morre. Mas a idéia da árvore não morreu. Nem as idéias dos galhos, nem do tronco, nem das folhas ou raízes. As idéias permanecem.

- Permanecem mesmo? As idéias não dependem só das minhas atividades mentais? Elas não ficam extintas quando eu, o ser pensante, morro?- surge a indagação crítica.

O criticismo responde: quando quero atingir um objetivo devo tê-lo como centro das minhas ações. Não devo desviar-me do que quero. Esta pergunta é de natureza filosófica. Queremos avançar pelos estudos de ética. Ética e Filosofia são afins, e trabalham com idéias. As idéias compõem pensamentos. Não somos os únicos que pensam. A humanidade tem uma incomensurável herança literária, científica, filosófica e religiosa.

Outras pessoas usam das idéias, desde milhares de anos atrás. Atualmente, bilhões de seres humanos recorrem a elas, em cada fração de segundo. E bilhões de outras pessoas, quando as que vivem hoje estiverem mortas, continuarão recorrendo às idéias como elementos fundamentais das linhas e formas de pensar.

As idéias não são elementos subjetivos, através dos quais pensamos, compondo linhas e formas de pensar.

As idéias são elementos objetivos, que servem ou podem servir a todos os seres humanos. Os idiomas e as linguagens podem ter utilidade restrita. As idéias tem aplicação genérica. Não dependem de quem fala, nem de quem escreve. Nem de quem pinta, compõe música ou se dedica a culinária e perfumarias.

Pensar é, em si mesmo, um fenômeno de natureza ética. Se não quisermos pensar não fixamos idéias. Mas nós queremos pensar. Por isso, vamos adiante.

A idéia corresponde sempre a um ser, um objeto, uma entidade, uma relação ou uma ação. Quando ligo idéias, uma à outra, da mesma forma que posso unir pontos sobre uma folha de papel, obtenho a linha de pensar. Quando reuno e tranço linhas de pensar, chego às formas de pensar. As formas de pensar sempre me dão a idéia de um tapete voador, que me leva onde quero, e que foi urdido pelo Grande Tecelão.
Urdir tem a mesma raiz etimológica que ordenar. De fato, esta conexão é muito antiga. Antenor Nascentes, em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa nos ensina que o vocábulo vem do latim ordire, que significa começar, ordenar, por ordem. Mas especificamente referia-se ao trabalho inicial do tecelão, quando fazia as tramas. Segundo os dicionários modernos, a palavra traz ainda a idéia de tecer, entretecer, tramar, combinar, enredar, intrigar.

A comunicação gerada por idéias, linhas e formas de pensar, provocada de um indivíduo a outro, pode ocorrer de muitas formas. Linguagem é como são designadas as formas de comunicação.

Observo que, quanto à natureza a linguagem pode ser discursiva e, como tal, falada ou escrita. Quanto à extensão, pode ser particular ou plena. Quanto à instrumentação pode ser corporal, plástica, musical ou matemática, tátil, gustativa, sonora, visual e olfativa. Mas quanto à forma pode ser simbólica, alfabética, hieroglífica, cifrada ou aberta. Esta classificação tem apenas um sentido de tornar mais acessível a abordagem do que veremos pela frente servindo, por ora, para explicar o que estamos observando.
Em Subsídios para uma teoria da comunicação de massa, Luiz Beltrão e Newton de Oliveira Quirino esclarecem que são muito poucas as linhas de comunicação entre os especialistas da própria comunicação. Informam os ilustres professores que, no estudo da significação lingüística a dificuldade continua na relação entre significado e significante. E, citando Saussure, entendem que signo é a menor unidade dotada de significação, constante de duas faces distintas, como as duas páginas de uma mesma folha, ou os dois lados de uma medalha. Uma dessas faces seria o significante; a outra, o significado. O primeiro nada mais é do que a imprecisão psíquica de um som (a sua “imagem acústica”); o segundo, é o conceito ou a idéia “universal” que reúne, sob a mesma classe as coisas semelhantes.
Observo que as formas de comunicação podem ser geradas em linhas e formas de pensar não necessariamente discursivas. Procuro exemplificar o que a razão prática ensina.

O jovem vê a moça que o atrai. Ele sente a força de atração. Seus movimentos o fazem aproximar-se dela. Ele não precisa traduzir em pensamentos discursivos, no idioma em que se comunica usualmente, que gostou dela. Não precisa falar para si mesmo: gostei dela. Ele pensa, mas não traduz essa idéia em linguagem discursiva.

Posso observar que essa atitude gera uma relação ele-ela de natureza ética. É uma relação consciente e não discursiva. O olhar favorável da moça encoraja o jovem. O olhar repulsivo o inibe. Ocorre entre ambos a comunicação que independe da linguagem discursiva. Não trocam palavras. Este é um fenômeno ético que muitos têm vivenciado ao longo das suas experiências de vida. Não depende da linguagem discursiva mas relaciona-se às formas de pensar. Sou levado a admitir que há formas de pensar que independem da linguagem discursiva.

A Ética nos dá elementos para a escolha mais conveniente dentro do contexto. No campo do conhecimento dependemos muito dos condicionamentos educacionais, do que está contido nos livros, de tradições, usos e costumes. Estamos acostumados a pensar e desenvolver nossas relações intelectuais com o auxílio da linguagem discursiva.

Posso admitir formas de comunicação telepáticas, extrasensoriais, musicais, odoríficas, olfativas, e ainda de outras fontes e naturezas. Há possibilidade de comunicação indutiva, convencional, racional, discursiva, intuitiva, dedutiva, ou meramente simbólica. Todas essas formas são passíveis de abordagem através da linguagem discursiva.

Durante estes estudos vamos utilizar, basicamente, a linguagem discursiva. Impõe-se, portanto, conceituar o que entendemos por palavra.

A forma pela qual poderemos conduzir, com mais firmeza e segurança, os possíveis avanços na abordagem da Ética depende, essencialmente, do uso da palavra. Torna-se importante anotar algumas informações históricas sobre a palavra. Essa dependência da história decorre dos usos e costumes.



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