Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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6. Deus e a Autoridade Ordenadora
Quando falo estamos é por que existimos no presente, na atualidade. Procuro saber como ocorrem as ligações da idéia com a matéria. Isto foi conseguido pelos pitagóricos, na geometria, ao relacionarem idéias de figuras geométricas com as formas sensíveis, materializadas através de elementos geométricos ( ponto, linha, plano)

A ordenação dos fatores - materiais e imateriais - pelos quais a vontade de constitui-se num processo, está sujeita às relações espaço-tempo-matéria-formas de pensar.

A vontade é uma idéia. O objeto da vontade, aquilo que desejo, pode ser uma idéia, uma forma de pensar, uma coisa, um objeto, um corpo, uma ação, um processo, um vir-a-ser ou um tornar-se. Pode ser algo físico, material e concreto, mas também pode ser uma idéia, uma fantasia, um ser abstrato ou irreal.

A ordenação, que precede o processamento da vontade, faz supor duas existências anteriores: a) que existam os elementos a partir de cuja combinação possa realizar-se a idéia contida na vontade, b) um ser ordenador que procede à ordenação dos elementos.

Se ao meio-dia eu digo quero almoçar, posso analisar esse desejo como fenômeno ético e dividi-lo em várias partes:

quanto ao sujeito: eu

quanto ao tempo: hora do almoço

quanto à idéia : comer

quanto ao objeto: alimento

O objeto comida preparada na hora do almoço pressupõe outra decomposição:

objeto: alimentos

poder ordenador: cozinheiro

instrumentos: utensílios domésticos, fogão etc.

condimentos: temperos

processos: preparar, cozinhar e servir

O fogão não é, por si só, um fenômeno ético, mas um objeto, um utensílio que serve à ética culinária. Ou seja, é útil ao homem para realizar seus propósitos culinários.

As idéias formam linhas que dão suporte a formas de pensar. Quando levadas a nível de maiores grandezas, como seja a criação do homem ou dos demais seres que integram o universo, essas formas se compõem, formam um tecido de linhas de pensar. A ação de compor idéias induz-me a aceitar a existência de uma Autoridade Ordenadora. Esta Autoridade ou Poder Ordenador pode ou não ser a mesma Autoridade Idealizadora em que foi concebida a idéia que deu origem à vontade.

Compor novos seres, novas idéias, novas entidades, a partir de elementos abstratos ou concretos, implica em ordenação das idéias neles contidas. Por intuição sou levado a acreditar que cada idéia contém o sinal dos elementos a partir dos quais pode ser materializada. Aqui se verifica a existência de potencialidades que propiciam o surgimento do indivíduo, quer seja humano ou de outra espécie viva.

A tradição oral e escrita, quer seja literária ou histórica, contos, lendas ou fantasias, integrada por fatos ou sonhos, reporta-se, desde tempos imemoriais, a deuses e divindades ligados às idéias dos elementos.

Muitos pensadores referem-se a quatro elementos fundamentais: água, terra, ar e fogo. A cada um desses elementos corresponde, na tradição mitológica, um deus. A tradição, os costumes, as cosmogonias, são fenômenos éticos que procuraremos estudar ao longo deste percurso. O conhecimento e a abordagem dos temas místicos, religiosos, históricos, lendários, científicos ou filosóficos são, em si mesmos, fenômenos e procedimentos de natureza ética.

Esses fenômenos, como linhas de pensar lançadas sobre o intelecto, influenciam de maneira fundamental as minhas convicções.

Procuro, nos relatos cosmológicos e teogônicos herdados das mais diversas culturas e tradições intelectuais, a idéia de um Deus Universal e Único. Essa Idéia contida em Deus não se iguala nem confunde com a idéia de que Deus é a essência do Universo. Nem implica em que seja a mesma que corresponde à Autoridade Anterior ou ao Princípio Ordenatório do Universo.


A palavra Cosmologia, é originada do grego kosmologos que traduz a idéia da ciência dedicada ao estudo do universo, suas leis e seus fenömenos. É ciência afim da astronomia. Teogonia é o conjunto de procedimentos que tem por objeto o estudo da origem dos deuses.
O exercício das formas de pensar traduz uma experiência acumulada ao longo da História. Recebo das tradições intelectuais e dos costumes a idéia de construir pensamentos recorrendo a enunciados dualísticos. Os costumes também são assimilados através da utilização das formas de pensar.

Fui ensinado a pensar dividindo as idéias em dois significados opostos. É o pensar dualistico que surge da herança ética, através dos usos, costumes, tradições e conhecimentos. Essa herança intelectual foi assimilada no mundo abstrato em que exercito as formas de pensar. Sim ou não. Justo ou injusto, Luz e trevas. Bom ou ruim. Tudo ou nada.

Esta não é uma forma racional de pensar, mas é tradicional, usual e costumeira. Repito para mim mesmo que o dualismo é um procedimento assimilado pelos usos e costumes que enriquecem e, muitas vezes, embrutecem a mente.

A vida prática, no mundo físico, mostra que os opostos, de fato, coexistem apenas abstratamente. Entre os limites traduzidos pelo seu significado, não existe o radicalismo exposto no mundo das idéias dualísticas. Tudo ou nada, em física, significa a existência de zonas intermediárias de muito e pouco. O dualismo teórico entre luz e trevas, trazido ao mundo físico, é contrariado pelos ensinamentos da razão prática que nos mostram os mundos das sombras, das muitas e poucas luzes, das muitas e poucas trevas. As idéias relativas a qualidades e a quantidades admitem infinitas manifestações intermediárias.

Se adoto a idéia do deus-essência, a prática haverá de mostrar-me uma escala de hierárquica de deuses, que inclui o deus-muita-essência, o deus-pouca-essência e o deus-não-essência.

A tradição oral ensina que a teoria na prática é outra...

O exercício dessas formas de pensar, reunindo ou excluindo idéias, é um procedimento ético, possivelmente de natureza religiosa, que busca re-ligar a mente humana ( por que não dizer alma?) ao sistema de forças que lhe deu origem.

Surge naturalmente a pergunta, provocada pelo racionalismo:



- Tenho necessidade de Deus para estudar a Ética?

De maneira intuitiva, imediata, sem interferência de razão ou informação intermediária, de dentro de mim, emerge a resposta:



- Claro. Para mim é essencial que haja um Deus nas relações que integram o campo da Ética!.

- Por que?

O conhecimento intuitivo não depende nem responde a porquês. Mas, como pretendo avançar no conhecimento e nos estudos, assimilo a proposta intuitiva com a validade de uma opinião. E, como de opiniões não se constróem juízos nem conhecimentos, o pensamento racional passa a exigir explicações. .

As formas de pensar que induzem ao pensamento dualístico trazem-nos, pela tradição intelectual e cultural, os primeiros trabalhos sobre a Teogonia. Reportam-se à existência de seres superiores, de deuses, anjos ou santos, demônios, seres inferiores, de pecadores e malfeitores. A divinização das idéias carrega conceitos, de essência e não essência, de bem e mal, de unidade e pluralidade, de verdade e mentira, de justo ou injusto.

Assim, quando uso a palavra essência sou levado a admitir a não-essência. Se deifico, tomando por deus a idéia da essência, passo a considerar a idéia de um deus-essência ao qual se opõe a idéia de um deus-não essência.

A idéia de um Ser Superior, anterior e criador de todos os demais deuses, é-nos trazida pelas tradições religiosas védica, budista, zoroastrista, judaica, cristã e muçulmana, bem como dos filósofos eleatas. Este ser é único e universal. Por isso constato, inicialmente, que a idéia que tenho de Deus é de um Deus Uno, que inclui a essência e a não-essência.

Trabalho com idéias. A idéia de um deus-tudo enfrenta a idéia do deus-nada. Por isso não aceito que o meu Deus possa ser a idéia de todas as coisas. Se tenho um deus-idéia, o pensamento dualístico me induz a admitir um deus-não-idéia. Posso admitir o Deus que venero contendo a idéia de todas as coisas e de todas as não-coisas. Mas não subordino a idéia do meu Deus à idéia desse conjunto abstrato.

Da mesma forma, se admito um deus-luz devo admitir um deus-trevas. Talvez ambos existam. Mas não posso conter-me aceitando a existência apenas de um deus-do-bem, pois acredito que, a partir daí, caberá aceitar a existência de um deus-do-mal.

O Deus que venero é o Deus-da-idéia e da não-idéia, da luz e das trevas, do bem e do mal, do tudo e do nada, da essência e da não-essência, da ordem e do cáos, do limitado e do ilimitado, do princípio e do fim. Repito a pergunta:

- Tenho necessidade de Deus?

Quero saber qual a razão pela qual sinto esta necessidade de firmar a noção de Deus para dar os passos iniciais no campo da Ética, quer seja como ciência ou filosofia. A resposta continua sendo intuitiva.

Passo à observação das idéias que integram essa relação entre Deus e eu. Quando exercito minhas formas de pensar de natureza ética procuro achar, entre as várias hipóteses, a que me pareça melhor, mais própria e mais segura.
- O que quer dizer necessidade?
A palavra necessidade traz o signo de pelo menos seis idéias diferentes, a saber: 1.ª) o que é inevitável; obrigação; fatalidade; destino; legal; fatal; 2.ª) o que é indispensável à pessoa; 3.ª) exigência natural; imperativo que resulta da natureza das coisas; 4.ª) estado de necessidade; situação crítica; apuros; 5.ª) estado de indigência; extrema pobreza; 6.ª) força que decorre dos laços de parentesco ou amizade; a idéia de parentesco é uma necessidade, uma fatalidade, que decorre das relações sanguíneas entre pais, filhos e seus descendentes.
A locução necessidade moral, na Ética, traduz a idéia da força que decorre do que é moral, legal ou convencional. A obrigação moral decorre dos usos, costumes, tradições, inclusive religiosas, e conhecimentos. A obrigação legal tem origem nas leis que obrigam, são imperativas e prescrevem sanções. É obrigação convencional quando é ajustada nos contratos e relações de compromissos.

Necessidade moral contém ainda a idéia de obrigação, de imposição, de força que vem de fora do contexto e é dirigida aos seres inteligentes. A obrigação moral impõe ao indivíduo escolher sempre a melhor dentre diversas possibilidades. Isso exige compreender e distinguir qual é a mais conveniente.
A palavra conveniência transporta pelo menos quatro idéias similares. 1.ª) Utilidade; proveito; interesse. 2.º) Vantagem; comodidade. 3.º) Favorabilidade; propriedade; oportunidade. 4.º) compatibilidade; ajuste ao contexto; decência; decoro. 5.º) Convergência entre o que se pretende e o que se pode. 6.º ) no conteúdo ético traz a idéia de melhor escolha; de propriedade na escolha.
Um processo de escolha implica na preexistência de idéias referenciais.

O processo de escolha é onde, na vida real, se dá a manifestação dos conhecimentos éticos. É princípio ético que a escolha deve dar-se pelo melhor, pelo mais conveniente, pelo mais próprio e mais oportuno. Para escolher dependemos da preexistência de padrões, que nos sirvam de referência. São os limites que nos apontam os extremos entre o melhor e o pior, entre o mais e o menos conveniente, entre o mais e o menos oportuno.

Padrão é o que nos serve de base ou de norma para avaliações e valorações qualitativas e quantitativas.

Há padrões temporários e padrões duradouros. Há padrões menores e maiores, compatíveis e incompatíveis. Posso ter milímetros e anos luz. Com anos luz não meço as figuras de uma folha de papel, e com milímetros também não meço a distância entre estrelas. Um ser vivente, como padrão, serve por algum tempo. Como ser vivo, nasce, cresce, envelhece e morre, é sempre temporário.

Uma idéia não depende do espaço, do tempo e nem da matéria. A idéia contém, em si mesma, por natureza, a condição de estar fora da relação espaço-tempo-matéria. Daí porque é justo é afirmar que as idéias só podem ser amarradas às linhas e formas de pensar, que são sempre abstratas.

Nos estudos de Ética lidamos fundamentalmente com idéias referenciais. Os padrões éticos são idéias sugeridas pelos usos, costumes, tradições e conhecimentos. As tradições míticas, religiosa e místicas nos transmitem idéias-padrão, designam deuses. Essas idéias fundamentais associam-se a conceitos de vícios e virtudes, de bem e mal, de justo e injusto, de certo e errado.


Padrão é vocábulo derivado do latim patronus, de pater, ou seja, do pai que dá origem a outrem. No sentido literal traz o sinal de coisa originária, primitiva, que serve de modelo a todas as demais. Na terminologia jurídica padrão designa o modelo oficial de pesos e medidas válidos e que devem ser adotados nas práticas em sociedade. Antigamente, a palavra padrão era empregada no sentido de marco, sinal de posse.
Marx desprezou os padrões morais trazidos pelas tradições, usos e costumes de seu tempo. Os valores éticos que adotou passaram a ser definidos como as regras e normas que emergem das lutas de classes. Bom e ruim, certo e errado, justo e injusto são conceitos que o materialismo histórico reduziu a relações de conveniência e inconveniência na luta de classes. Por isso o marxismo não suportou mais que setenta anos de vida prática. Continua existindo como idéia, mas faltaram-lhe os padrões morais essenciais, e sobretudo, um ponto de referência que reuna a idéia fora da relação espaço- tempo-matéria. À prática marxista faltou venerar a idéia de Deus.

Posso fazer de um objeto qualquer um fetiche, atribuindo-lhe poderes e forças sobrenaturais, que eu nem sequer sei se existem ou não. A atribuição de qualidades às idéias pode ser feita, sem limites e fora do racional, pois tudo é abstrato, tanto o processo de atribuir, como o que se atribui. Não devo atribuir a um relógio, eleito como fetiche ou amuleto, o poder de fazer-me voar ou navegar.

O relógio conceitualmente é instrumento que dá valores à grandeza tempo (horas, minutos e segundos). O relógio não mede a idéia( em si mesmo abstrata) do tempo mas fragmentos do tempo (tomado como grandeza física). Se eu lhe atribuir poderes diferentes daqueles que lhe são próprios, e pedir que atenda minhas pretensões com base nesses poderes, certamente não poderei ser atendido. Tenho consciência disso. O relógio, por isso, não me serve, nem mesmo como padrão da idéia de tempo, por que não marca a idéia do tempo universal, mas tão somente segmentos da grandeza tempo de natureza física, por horas, minutos e segundos.

Posso atribuir à montanha poderes mágicos. Também posso fazê-lo em relação a animais, tomando-os por sagrados. É o caso dos touros, leões e outros animais endeusados. Tenho o poder de atribuir idéias a outras idéias. Tenho o poder mental de atribuir qualidades aos seres, mesmo que só em nível de abstrações.


Xenófanes em seus versos, dizia que se os cavalos adorassem um deus, certamente adorariam um deus com a forma de um cavalo. Se os bois, por sua vez, adorassem deidades, esses deuses teriam a forma de bois.
Posso imaginar seres aos quais correspondam idéias de experiências vivenciadas tanto no mundo sensível como no abstrato. Posso divinizar coisas, animais, plantas, pessoas ou acidentes geográficos. Também me é possível deificar o sol, a lua e os planetas. Muitos povos do passado e do presente têm-no feito. O endeusamento de fetiches, coisas ou acidentes geográficos é muito comum nos povos de todos os tempos. Também é comum encontrar esse processo de divinização e de culto religioso a deuses planetários, ao longo dos estudos de história, filosofia e ética. Há um poder de deificação que é inerente ao intelecto humano. Ou porque foi concedido ou faz parte da natureza do homem.

Exerço essa possibilidade, mentalmente, porque ela responde à minha necessidade de assimilar a idéia de um centro de referências que possa dar fundamento às definições que procuro em idéias, linhas, formas de pensar, vontades, atitudes e procedimentos.

Há portanto explicações vindas pela tradição, pelos usos, costumes e mesmo conhecimentos, que justificam, a afirmação de que a idéia de Deus ou deuses, é necessária, essencial e insubstituível para o estudo da Ética.

Pelo menos parece essencial, para o desenvolvimento destes estudos, que o campo da Ética seja relacionado a um padrão, forçosamente originário, a partir do qual possam ser abordados e explicados usos, costumes, tradições e conhecimentos.

Procuro linhas de pensar que me induzam ao conceito de um padrão o fora dos limites tempo-espaço-matéria-formas de pensar. Quero ter como padrão a idéia de um Deus Eterno, de uma Autoridade Anterior ou de um Ser Criador, de um Princípio e de um Fim em Si mesmo.

Estas idéias deverão marcar o ponto de referência ao qual ficarei ligado e a partir do qual assimilarei o Universo e os seres que o integram. Constato que não existem linhas com uma única extremidade. Se uma das pontas sou eu, devo procurar a outra. Busco as idéias de eternidade e universalidade que possam conter todas as necessidades mentais. Será a maneira de estender a linha de pensar em que posso afirmar a minha identidade dentro do universo.



- Como sei que existo?

Diante de mim mesmo e do que se passa ao meu redor conscientizo que sou temporário. Meus cabelos crescem, ficam brancos, caem. Minhas forças diminuem. Sinto a ação do tempo. A tradição hebraica nos aporta palavras do Pregador, no Velho Testamento:


1. Lembra-te do teu Criador, nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer;

2. antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as nuvens ,depois do aguaceiro;

3. no dia em que tremerem os guardas da casa, os teus braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os moedores da tua boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas;

4. e os teus lábios , quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não puderes falar em voz alta, te levantares à voz das aves , e todas as harmonias, filhas da música, te diminuírem;

5. como também quando temeres o que é alto, e te espantares no caminho, e te embranqueceres, como floresce a amendoeira, e o gafanhoto te for um peso e te perecer o apetite; porque vais à casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;

6. antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço;

7. e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

8.Vaidade de vaidade, diz o Pregrador, tudo é vaidade. (Eclesiastes, 12:1-8).
Imponho-me a questão:

- Deixarei de ser eu após a morte?

Nada sou se comparado apenas a mim mesmo. Preciso de um padrão para estabelecer relações entre o Ser Padrão e o que sou e como estou. Sem termo de comparação, sem fixar um elemento exterior a mim mesmo com o qual eu possa ligar a linha e as formas de pensar, não tenho condições de prosseguir.

Meus pensamentos não dispõe do elemento essencial se eu não tiver referências externas a mim mesmo. Comparar-me a mim mesmo seria afirmar que sou tudo ou nada. Só, diante do meu eu, sou e não-sou. Nada posso afirmar, negar ou concluir se não há outra extremidade à qual prender a linha de pensar fundamental. Sem ligação a outra idéia, a idéia de mim mesmo nada sinaliza ou significa. Procuro um ponto de referências. Tudo o que vejo e percebo à minha volta também é transitório. Não consigo encontrar alguma idéia de fato, coisa ou pessoa, que seja imutável e possa servir de referência. A partir da idéia do Deus Único, que não admite o deus-zero, diante da idéia do Deus Eterno, que não admite o deus-temporário, avanço para a idéia de Deus Onipresente, que está em todos os processos e em todas as coisas e mundos. A idéia do Deus que venero é de um Ser pensante, e que por isso é Onisciente. Sabe tudo que ocorre em relação a todos os mundos.

Com esta combinação de linhas de pensar posso lançar-me e ligar-me tanto ao microcosmos, aos átomos e moléculas do infinitamente pequeno, como ao macrocosmos, ao infinitamente grande.

Descartes afirmou: cogito, ergo sum, ou seja, penso, logo existo. Para Spinoza e os Panteístas, que acreditam que Deus é a Natureza com tudo que nela se encontra, o homem existe por que tem sensações e paixões de alma.

Para mim, tenho consciência que existo por que acredito em Deus. E por que acredito em Deus sou eterno, universal e nada pode me acontecer fora das regras divinas.



Acreditar é um verbo que exprime ação imaterial dentro das formas de pensar e traz a idéia de ter como verdadeiro. É uma ação específica do intelecto, que amarra e prende o sujeito que acredita à idéia de verdade contida no ser acreditado. É ação interna, que ocorre no interior de quem acredita. Pode ser chamada ação de alma. A locução acredito em Deus firma-se como ação do intelecto, ou seja, uma linha de pensar que liga a Deus. E como Deus é Uno, sinto-me incluído nessa Unidade. Daí por que sou levado a crer em um Deus que não é nem tem essência.
Este pensamento satisfaz a intuição e é compatível com as formas de pensar sugeridas pela moral, pela tradição e pelos costumes do meio em que vivo.
A palavra intuição traduz várias idéias, que entre si estão centradas como sendo uma forma ou processo de conhecimento: 1.ª) percepção imediata, ou seja, conhecimento do contexto independentemente da intermediação da experiência anterior ou das formas racionais e experimentais de abordagem; 2.ª) ato ou capacidade de pressentir, ou seja, o que se percebe antes da experiência e antes de ser apontado pela razão; 3.º) e em filosofia, como na Ética, processo pelo qual se atinge em toda a plenitude uma verdade que chega independente da formas racionais discursivas, numéricas ou simbólicas.

7. A essência e a idéia
Sem fixar e conceituar as idéias que estão contidas na palavras não consigo pensar de forma satisfatória. O uso de palavras cujas idéias mantêm-se envoltas em brumas dá-me a impressão que estou andando em chão escorregadio. Quero firmar-me sobre conceitos mais precisos. E agarro-me ao processo de amarrar as idéias às palavras. Essência e idéia não são a mesma coisa. A essência contida em um copo com água é a água que está dentro dele.
O vocábulo essência sinaliza com pelo menos seis idéias conexas: 1.ª) do que constitui a natureza das coisas; 2.ª) do que tem existência no mundo real, ou seja, do que é sensível; 3.º) idéia principal a partir da qual compõem-se as demais; 4.º) espírito; idéia central; 5.º) o que constitui a natureza de um ser independentemente da constatação de sua existência ; 6.º) na química, corresponde à idéia do soluto diante do solvente; ou a idéia que define a fórmula da substância.
Abordo os conhecimentos que me vêm pela experiência. diária. A idéia de um copo com água é uma idéia composta de duas idéias, copo e água. Portanto, a idéia de um copo com água não é nem só a água nem só o objeto-copo. A idéia do copo, mesmo quando ele se quebra, sobreexiste. O objeto fica quebrado, mas a idéia não se quebra. A idéia da água permanece, mesmo quando a água for esparramada para fora do copo.

Posso ver que a idéia e a essência do que nela se contém não são a mesma coisa. O conceito de essência, parece estar ligado à matéria, tanto como o líquido ao vaso que o contém. A essência é o líquido, o conteúdo, e a não-essência é o frasco, o continente. Ambos são de natureza material, sensível, empírica. Despertam-nos sensações e podem ser conscientizados através das percepções. A essência pode ser definida em fórmulas químicas. A idéia não.

Os seres materializados têm massa e ocupam lugar no espaço. Para medir-lhes a existência nós recorremos às idéias contidas nas dimensões tempo-espaço-matéria. Por vezes recorremos às posições relativas, fixando pontos de referência arbitrários. A essência dos seres materiais não expressa a forma pela qual esses seres se manifestam aos meus sentidos. É possível que a cada um deles corresponda uma fórmula discursiva ou matemática, que possa expressar a sua essência.

Conheço fórmulas utilizadas pelas ciências físicas e químicas, tanto na estática, e na dinâmica como na eletricidade e na ótica. Os economistas usam fórmulas matemáticas com que pretendem explicar ocorrências em sociedade. Certamente será popularizado, nos próximos anos, o uso de fórmulas matemáticas nos trabalhos intelectuais que buscam identificar idéias com os seres a que elas se referem. Por enquanto essa atividade é dominada pela linguagem discursiva.



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