Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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53. Ética utilitarista
Vejo ainda que os estudiosos falam de uma ética utilitarista (Jeremias Bentham, J. Stuart Mill, Karl Marx e Engels), em que os fins justificam os meios, sendo que, para estes, se o bem é possível para muitos, deve prevalecer acima daquele que, embora certo, só beneficia poucos. Ou seja, o hedonismo em Marx e Engels, quando leva em conta o prazer da maioria, é quantitativo em relação ao número de pessoas beneficiadas pelo procedimento. O ideal hedonista no utilitarismo sustenta que o indivíduo deve agir respondendo ao contexto, de forma a encontrar o bom mais extensivo possível, que sirva o maior número de pessoas em cada oportunidade.

Quando falo utilidade do conhecimento admito que o conhecimento tenha destinação, possa ser usado para determinar ações e fenômenos.

A utilidade dos conhecimentos sobre energia atômica levou à hecatombe de Hiroshima e Nagasaki mas também conduziu ao abastecimento enérgico de grande parte do mundo desenvolvido.

Portanto a utilidade do conhecimento ético tanto pode ser dirigida para uma direção como para outra. Assim, tendo conhecimento das leis e relações éticas a humanidade assistiu a diferentes formas de liderança: Ghandi conseguiu a independência da Índia. Os seus conhecimentos foram utilizados em favor de seu povo e seu país. Napoleão realizou conquistas de guerra de inúmeros territórios. Até hoje tenho dúvidas e seus conhecimentos éticos foram em benefício ou malefício de seu povo e seu país. Adenauer soube reconduzir o povo alemão no pós-guerra, da mesma forma que De Gaulle fez na França na década de sessenta. Ou seja, utilizando conhecimentos éticos nações e povos podem ser conduzidos, liderados, desenvolvidos ou aniquilados .

E a utilidade dos conhecimentos éticos, como em todos as outras atividades humanas, depende muito das tradições, dos usos e costumes.

Quando falo em utilidade das ciências matemáticas - ou seja, das linhas de pensar de que se socorrem os matemáticos a idéia me parece estranha. Conhecer visando uma utilidade sempre me pareceu um procedimento intelectual pobre, pequeno, mesquinho. Mas a tradição do conhecimento indica que, na maioria das vezes, o homem quer conquistá-lo para que possa ser útil, respondendo à causa final utilidade.


54. Perfeccionismo
Rival do utilitarismo social é a ética da suprema auto-realização ou perfeccionismo sustentada por Aristóteles, que tem por objetivo final o aperfeiçoamento do indivíduo. O utilitarismo social é por natureza teleológico mas não hedonista, na medida em que não procura fundamentalmente o prazer. Assim, para o perfeccionista, o fim último é o desenvolvimento completo, ou a perfeição por si mesma, como objetivo final da ação do homem. É uma teoria teleológica, mas não hedonista, pois a perfeição é um bem, de natureza substantiva, que não é necessariamente o bom, de natureza adjetiva, contido na idéia do prazer.
55. Ética deontológica e Santo Agostinho
Há ainda uma ética deontológica que situa Deus como o ordenador principal dos mandamentos éticos. Ou seja, o Ser Criador é a causa-origem da moralidade da ação, e portanto, Ele é a causa inicial da ação. Ou seja, o Criador é quem determina e dá causa à moralidade dos atos do indivíduo. É a ética da obediência, revigorada por Santo Agostinho:

"A moralidade de um ato não depende de suas conseqüências nem das suas causas, nem da sua natureza, mas somente de que esteja de acordo com a vontade de Deus."
Esta teoria teve larga aceitação e correspondeu ao que muitos religiosos afirmaram, ao longo de séculos, como sendo a verdade moral, não sujeita a críticas ou reflexões. As teorias sobre a ética teleológica variam na determinação de quais conseqüências são relevantes para que possam ser consideradas como causas finais do procedimento, e como tais avaliadas. Todas as teorias teleológicas interpretam os julgamentos morais como dependentes de valores e avaliações. Há uma nítida convergência dos estudiosos em sobrepor as teorias teleológicas às teorias de valor.

Tendo em vista a sua natureza, as teorias teleológicas são classificadas como hedonistas ou não hedonistas.

A religião, embora não necessariamente, liga-se à teoria da moral teleológica finalista, que recebe muitas críticas tanto de teólogos teístas como não teístas. Na ética religiosa teleológica a causa final da ação se confunde com a vontade final de Deus, ou seja, fazer cumprir a vontade de Deus.

O utilitarismo teleológico sustenta que a maior felicidade para o maior número de pessoas pode ser apurada através do teste do que, para essas pessoas, parece certo ou errado, bom ou ruim; e é hedonista porque prefere a felicidade ao sofrimento.

O utilitarismo deontológico sustenta que a idéia deve ser utilizada por que é boa em si mesma, vem de origem boa.
56. Egoísmo.
O egoísmo (em Hobbes, especialmente) sustenta que uma ação é certa somente se for praticada no interesse do agente. É, portanto, óbvio que a moralidade do egoísmo é de natureza utilitarista e subjetiva.

A abordagem da ética pelo egoísmo leva em conta apenas o indivíduo.

A resposta da ética egoísta é dada a estes tipos de proposições: por que eu deveria ser moral? O que tem na moral para mim? Ou seja, se não houver vantagem individual e pessoal no procedimento não há razão individual para a ação. As contestações à moral do egoísmo resultaram em várias proposições que chegam às bases das motivações humanas: aplicação de sanções para a imoralidade (moralização); a possibilidade da ação desinteressada (altruísmo) e a própria organização da sociedade.
Capítulo V
Abordagem da ética em sociedade
57. Ética social.
Segundo Aristóteles, a ação responde à percepção. Situações éticas, que têm suscitado debates na atualidade, demandam que a moralidade de uma ação depende da situação e do contexto em que se encontra o agente, e não de lei específica para esse caso. Esta é uma forma de análise e abordagem pela ética intuicionista, em oposição à utilitarista, à kantiana e à teleológica.

Sua idéia original remonta a Aristóteles, que sustenta que a decisão no caso particular repousa na percepção.

Os moralistas religiosos sustentam que não há moral sem Deus, porque sem Deus não há razão para ser moral.

Em oposição aos religiosos, Kant e Stuart Mill sustentam que a religião se baseia na moralidade, pois a religião depende da maior ou menor diferença entre o bem e o mal, que são conceitos éticos.

Esta afirmação de Kant não pode ser julgada totalmente procedente, pois para os panteístas (Deus é a Natureza), não existem o bem e o mal como conceitos religiosos.

A Ética Social tem relação direta com a Política, a Economia, a Produção, o Consumo e a Filosofia do Direito. Questão relevante para a Ética Social é a contida na proposição de John Rawl (Teoria da Justiça, 1971):


"A estrutura básica da sociedade, como o objeto mais elementar da justiça, visa a derivar as leis para a conduta individual das normas que atendem às instituições, ou seja, a filosofia da moral corresponde à filosofia das leis."
As mudanças sociais, quanto à ordem, aos objetivos e à própria sobrevivência do indivíduo em sociedade, fizeram surgir novas questões relativas ao campo de atuação da Ética Normativa.

Um desses aspectos é o relacionado ao exercício das profissões regulamentadas. Na maioria, senão em todas estas profissões regulamentadas por lei, há sempre uma referência expressa ao código de ética que normatiza os procedimentos no exercício da profissão.

O juramento de Hipócrates - salvar a vida, curar as doenças e atenuar o sofrimento - está conflitando com vários aspectos e procedimentos da medicina moderna.

Se atenuar o sofrimento implica em praticar a eutanásia, qual dos dois deve prevalecer? E a doação de órgãos intervivos? E a moralidade ou imoralidade do aborto? São eticamente positivas as experiências laboratoriais com seres vivos? Também em seres humanos? Basta perceber que o transplante de órgãos já excede os campos de atuação das ciências médicas e seus conexos.


58. Ética e Política.
A Política, como Ciência, está incluída no campo das Humanidades, ou seja das Ciências que tem por objeto o estudo dos fenômenos a partir do relacionamento humano com o mundo sensível.

A Política, como Arte, como elaboração da vontade humana, além de ser estudada pela Sociologia, pela Psicologia Social, pela Psicologia Gestáltica e Experimental, pela Economia e outros campos do conhecimento, deve ser também estudada sob o ângulo da Ética, na medida em que define suas forças de ação no campo das relações entre o homem e seu contexto.

E, sobretudo, na medida em que atua diretamente sobre as projeções futuras em que serão lastreadas as relações do indivíduo com o mundo ao seu redor, especialmente com seu contexto social. Essencial, pois, para o político, é também a compreensão e o estudo dos fenômenos éticos.

Já vimos o que entendemos por Ética. Mas o que entendo por Política?

Derivado do latim politike, oriundo do grego politike, possui na acepção jurídica o mesmo sentido que encontra na Filosofia: é a Ciência de bem governar um povo.

No sentido jurídico mais estrito refere-se ao governo do povo organizado como Estado. Sem dúvida, o sentido genérico é mais abrangente e faz objeto das Ciências Políticas tanto o estudo das técnicas e das artes de governar, como também o estudos dos princípios e das razões que determinam os fatos e os procedimentos políticos.

Como Ciência, a Política tem, entre outros, dois objetivos: o primeiro, de natureza teórica, é o estudo e avaliação das doutrinas, das idéias, dos programas e das ações do povo e do governo, visando a compatibilizá-las entre si e também com a vontade social do povo ou Estado em que se aplica; o segundo, é viabilizar as soluções propostas para a necessidades sociais. Ou seja, inicialmente, o político forma sua idéia acerca das situações que ocorrem na relação governantes-governados e emite seu diagnóstico da situação social indicando soluções que levam em conta os objetivos sociais; em seguida, o político ordena os recursos e meios disponíveis para dotar e implementar essas soluções.

Há pois uma relação nítida entre a atuação política e a vontade social. Daí porque a Política que serve a uma nação ou país, pode não servir a outro país.

A Política que serve a um determinado Estado, pode não servir a outro; a que é boa para um município pode ser lesiva a outro. Sobressai da idéia da ação política positiva o sentido de harmonizar interesses e de viabilizar ações e procedimentos que os atendam.

Também é da ação política que surgem simultaneamente as idéias antagônicas: harmonia e guerra; ação e reação; desenvolvimento social e involução social.

Quando abordei a Ética, percebi desde logo, mais pela intuição do intelecto do que pelos sentidos, que há uma seqüência idéia> vontade> ordenação> criação> nascimento.

Por outro lado, notei que há uma relação nítida entre a atuação política e a vontade social. Por vezes a vontade é interpretada pelo dirigente em função exclusiva de sua sensibilidade pessoal. Outras vezes, essa vontade é exposta através de manifestações públicas, de apreço ou revolta.

Dimensionar a força dessa vontade e os projetos e recursos para viabilizá-la é uma das funções do político, tanto do que exerce o governo como o que a ele se opõe. O moderno estudo da Política como Ciência apoia-se no behaviourismo que, por sua vez, enfoca o estudo do comportamento dos indivíduos e coletividades, tanto nos processos políticos vivenciados, como no seu desempenho diante dos problemas e das soluções adotadas.

Assim, o laboratório em que se dão as observações da Ciência Política tem sido as próprias comunidades, os Estados e as Nações. Lidar com fatos concretos, fenômenos vivos e vivenciados, e só daí partir para as considerações e análises científicas é, sem dúvida, um procedimento não experimental, embora de natureza empírica, e como tal baseado na observação, nos sentidos e na interpretação que nem sempre são suficientemente objetivos.

Por outro caminho, a Ciência Política tem emprestado de outras ciências como Sociologia, Antropologia, Psicologia, Economia e Ciências Naturais, muitas de suas premissas.

A partir dos resultados sociais negativos, obtidos nos EUA durante a década de 1960, quando aquele povo teve de enfrentar a lamentável Guerra do Vietnã e suas conseqüências internas e externas, os políticos norte-americanos sofreram a crítica de que haviam racionalizado e desenvolvido políticas erradas.

Os estudiosos entenderam terem sido esses erros políticos a causa do aumento da violência nas cidades, dos atentados contra seus governantes e dos desequilíbrios psico-sociais por eles internamente sofridos. Partiram assim os cientistas políticos dos EUA a reclamar uma renovação enfática dos valores morais, com maior responsabilidade ética nos procedimentos políticos.

Os estudos mais recentes combinam, com ênfase sem precedentes, a responsabilidade ética dos políticos e líderes para com a paz, a educação, a abolição da fome e da doença, a busca da justiça e a fixação de um patamar mínimo de direitos humanos.


59. Vontade social.
O ideal democrático me parece ser governar pela vontade social, atendendo-a, respeitando-a e acatando-a. Mas, o que vem a ser a vontade social? Usualmente, a vontade social é expressa pela opinião pública, e esta se manifesta através dos votos de seus cidadãos. Todavia, o que usualmente se afirma, como acima, é na realidade, uma farsa.

O que é a vontade? Quem não tem consciência da sua vontade é livre para exercê-la? Para mim, homem livre é o que tem consciência de sua vontade e o direito de exercê-la. Se a ação resulta de outra força que não seja decorrente da vontade do indivíduo, o que se manifesta não é, de fato, vontade individual. O mesmo ocorre com a ação da sociedade.

Só se pode considerar livre a sociedade que tem consciência de sua vontade e o direito de exercê-la. Sem consciência não há vontade. Pode haver impulso inconsciente, instinto, coerção, condução de opinião, mas não há vontade. E o que é a vontade social? Como se apura?

Aristóteles dá início ao Livro I da Ética A Nicômaco, com a seguinte afirmação:


Toda arte e toda pesquisa, da mesma forma que toda ação e toda deliberação refletida, tende, ao que parece, para algum bem.

E mais adiante prossegue:


Se é certo que existe alguma finalidade em nossos atos é evidente que esse fim último pode ser o bem e até o bem supremo. Não é certo então que, em relação à vida humana, o conhecimento deste bem tem uma importância considerável e que ao possuí-lo, como arqueiros que têm sob os olhos o alvo a atingir, nós teremos possibilidades de descobrir o que é conveniente fazer? Se isso ocorre, é preciso nos esforçarmos para conceituar, ainda que de maneira sumária, a natureza desse bem e dizer de que ciências ou meios de ação ela se edifica.
A opinião individual é sempre um juízo formado dentro do indivíduo ao considerar suas experiências, suas idéias anteriores e seus princípios.

Cada um sabe julgar bem aquilo que entende.

Assim, quando alguém é instruído sobre um assunto particular, quando estudou esse assunto dentro de suas possibilidades e habilidades, pode-se dizer que acerca desse assunto tenha condições de emitir uma opinião competente. Isto não implica em que a opinião seja certa ou corresponda à realidade dos fatos ou à verdade da concepção teórica, mas ela é competente, ou seja, ao que pretende através do seu trabalho conhecer o assunto, compete emitir sobre opiniões.

O indivíduo reuniu alguns elementos que cooperam e o levam a pensar da forma em que se expressou.

Há opiniões mais ou menos fundamentadas; há opiniões ou juízos que são produto de maiores ou menores estudos; de maior ou menor ação do espírito.

Pode-se porventura admitir que o indivíduo tenha vontade do que não conhece? Ou seja, pode-se compreender que para ter vontade de alguma ação ou de alguma coisa é preciso antes saber a que se relaciona essa ação ou o que é essa coisa.

Há uma vontade consciente, que é resultado de uma elaboração do pensamento.

Há uma vontade inconsciente, que nem por isto é mais fraca, e que não resulta necessariamente das formas de pensar. Da mesma forma, há uma opinião consciente, que resulta de formas de pensar deduzidas de premissas ou princípios adotados como tais, através das regras de raciocínio.

Em geral, posso admitir que a opinião consciente decorre de uma opinião competente.

Mas, se a opinião competente não segue o pensamento racional, só por ser competente ela não se torna consciente.

E há uma opinião inconsciente, que não obedece aos critérios e exigências da razão.

Levando em conta as exigências para adotar como competente a opinião individual, da mesma forma procedo para aceitar como competente a opinião pública sobre determinado assunto; ou, em outras palavras, que ela resulte de instrução e informação mínimas para a composição de um juízo sobre esse assunto particular. Só depois de ter recebido essa instrução e essa informação pode-se dizer que, acerca desse assunto, o público tem condições de emitir uma opinião competente.

A vontade social não é a opinião pública.

A vontade consciente, segundo observo, depende do conhecimento do que se quer.

A opinião é um juízo.

Portanto, a vontade pública nem sempre é a opinião pública, porque sobre muitas coisas se emitem opiniões, mas nem todas as coisas nós queremos para nosso contexto, ou nem sobre todas as coisas nos convém emitir opiniões.

Assim, a resposta ao que quer o povo não é igual à resposta ao o que pensa o povo.

Podemos pensar na guerra, sem querer a guerra. Podemos querer a paz, sem pensar como obtê-la.

O problema quanto à opinião pública majoritária é que, de fato, ela é ainda inverificável.

Pode ser que, mais adiante, com a modernização e desenvolvimento dos processos de apuração da vontade ou da opinião, venhamos a ter um resultado que realmente identifique a vontade ou a opinião pública.

E essa vontade pública - o que o povo quer - pode ser no futuro, para ser mais definida, apurada através do voto, não na sua forma alternativa simplificada de hoje - sim ou não, sem justificação - mas através do seu conteúdo - o voto justificado, o que e por quais razões o povo quer. Se as razões não levam ao objeto da vontade, o voto é contraditório e deve ser anulado.
60. Opinião pública.
Existem diferentes públicos.

Nós temos diante de nós, compondo a Pátria, públicos distintos e diferenciados, que se comportam diferentemente, e que jamais respondem aos apelos fáticos em uma só voz.

Quando vamos medir a opinião pública, ela fica circunscrita ao público em que estamos particularmente interessados. Vamos ver qual é, na prática, o papel da opinião pública.

Nos países totalitários, ou não-democráticos, a opinião pública pode resultar de manipulações decorrentes do uso dos meios de informação, cultura e propaganda, visando a formação de uma determinada opinião, que então não é a do público.

Nos países ditos democráticos, incumbe-se a iniciativa privada de difundir as informações e opiniões.

Assim, onde há imprensa livre e direito de acesso a todos os órgãos de divulgação, informação e notícia, pretende-se que exista uma opinião pública consciente de sua vontade.

Interessa-nos, nesta oportunidade, avaliar sobretudo a opinião política do público, ou seja, a opinião sobre fatos que externam causas e efeitos nas relações governante-governados.

Pergunto-me: será que o eleitor é o porta-voz da opinião pública?

A Ciência Política tem constatado que há um público eleitor, que é receptivo às idéias e às manifestações políticas. A dimensão desse público eleitor pode ser reduzida ou ampliada em face dos interesses mais próximos ou mais distantes e que se situam em uma eleição específica. O grande público é muito diferente e comporta-se dentro de parâmetros distintos daqueles que são observados pelo público restrito.

Os políticos percebem esse fato e quando falam a grupos sociais distintos, ou a públicos diversos, dão mensagens distintas, tendo como causa desse procedimento quem os ouve. E não se pode criticá-los por isso, eis que esse é o procedimento esperado por ambos, tanto orador quanto ouvinte.

Há ainda, integrados em públicos específicos, grupos que atuam em função de interesses específicos, constituídos por cidadãos que se relacionam e cuidam de áreas especificas da atividade social.

Por essa forma de constatação, verifica-se que nos últimos anos, em relação a temas como aborto, homossexualismo, controle de armas, poluição, proteção ao meio ambiente, ecologia, intervencionismo supranacional, desarmamento nuclear e tantos outros ainda mais específicos, emergiram várias associações, representando milhares e milhares de seguidores.

E, em continuação, posso afirmar que a presença e a discussão de temas públicos como esses colocam questões importantes a serem respondidas e resolvidas pelos políticos no exercício do governo.

Ocorre que, como conseqüência natural de sua ação e atividade, os grupos sociais mais ativos e interessados obtém, como reciprocidade da sua atuação junto aos governantes, resultados que satisfazem suas pretensões, sem que sejam levadas em conta tanto a veracidade de suas informações como a legitimidade de representação.

E a imensa maioria dos governados, omissa, silenciosa e desinteressada, sofre as conseqüências da ação desses grupos, e, mais do que tudo, de sua omissão política.

Ou seja, os poucos atuantes são satisfeitos, e os omissos, porque não participam das discussões e deliberações, ao final aceitam como vontade da maioria a deliberação das minorias atuantes.

Estas manifestações de vontade, evidentemente, não tem nada a ver com democracia. Esta é uma constatação, nem é uma crítica ou uma sugestão: é um fato comprovado por inúmeros estudos recentes, elaborados em diversas universidades norte-americanas, que tiveram por objeto a ação política em todo o mundo.
Pode-se ter amizade para os amigos e para a verdade; mas a moralidade consiste em dar preferência à verdade. (Aristóteles, Ética a Nicômaco, capítulo VI)
O homem instruído e informado acerca de um determinado assunto exige apenas que haja compatibilidade entre a proposição e a sua opinião ou o juízo que faz acerca desse assunto. Cada um, como já dissemos, pode julgar bem aquilo que sabe; aí ele se mostra um bom juiz. Para se tratar de uma questão social conjuntural é preciso ter um mínimo de conhecimentos acerca da sociedade e da conjuntura.

As diferentes teorias políticas têm incluído, em função das épocas em que são enunciadas, como diz Arnold Brecht, em Teoria Política:


... afirmações pretensamente científicas, sobre quais os fins e meios da vida humana organizada em sociedade; por exemplo, os Estados e governos deviam servir aos interesses dos indivíduos ou do maior número deles; todos os homens deviam ser tratados como iguais, porque nasciam iguais; todos devíamos preencher alguma função útil na sociedade; os Dez Mandamentos deviam ser obedecidos; os Estados, assim propriamente chamados, deviam ser soberanos; e muitas outras máximas deste gênero. Enquanto algumas delas surgiam, repetidamente em todos os escritos, outras apareciam com diferença, segundo as teorias particulares de cada autor. A doutrina de que o Estado e o Governo deviam servir ao indivíduo cederia o lugar, freqüentemente, à mais antiga máxima de que os interesses do indivíduo deviam estar subordinados aos do grupo. Os Dez Mandamentos foram ignorados por alguns, ou foram considerados princípios que, em dado momento, tinham de curvar-se, em certa medida, aos interesses do Estado, e à raison d'État; embora nem todos os autores o dissessem explicitamente, não poucos o fizeram implicitamente.
Falando de quem governa, pode-se afirmar que há um momento crítico na atuação política: é definir qual a vontade a ser satisfeita: se a vontade individual do governante, ou a social, dos governados? Ou, o que ainda é mais difícil de responder: Devem os governantes atender à opinião pública da maioria desinformada, indiferente, omissa e desinteressada, ou à opinião da minoria numérica, mas bem-informada, interessada e atuante? Se todo conhecimento e toda decisão tomada livremente buscam algum bem, qual é o objetivo que podemos atribuir à política e qual é o bem maior dessa atividade? O povo quer a felicidade, tanto a massa quanto a elite. Para ambas, viver bem e ser bem-sucedido são sinônimos de vida feliz.

Não há consenso sobre a natureza da felicidade, nem entre estudiosos e ou entre analfabetos; também não convergem os conceitos de felicidade entre a explicação dos letrados e as razões do povo em geral: há sempre uma sucessão de desacordos. Há alguns estudiosos para os quais a felicidade é um bem evidente e visível, tal como o prazer, a riqueza, as honrarias. Para outros a resposta é diferente. Assim, enquanto o doente afirma ser a saúde o bem supremo; o pobre diz que é a riqueza.

Para fixação dos procedimentos políticos, ou seja, para que saibamos optar politicamente pelas soluções mais cabíveis, devemos estudar o que se entende em geral por bem, e em que consiste esse bem.

A maioria dos eruditos parecia, no começo deste século, estar de acordo sobre os princípios que deveriam regular as sociedades humanas. Porém, após a enumeração desses princípios, davam-lhes significações diferentes. Justiça, segurança, ordem e bem-estar geral foram enumerados como os fins próprios do Estado e do governo. Alguns adicionavam a estes princípios os ideais de liberdade e igualdade. Mas os significados que atribuíam a cada uma dessas idéias eram diferentes, entre si contraditórios, e partiram desde os mais conservadores aos mais revolucionários.

As conseqüências se fizeram logo notar: a Primeira Guerra Mundial, e as grandes crises econômicas e morais que se sucederam.

Penso no jovem, a experiência e a política. Na juventude, o ser humano guia-se mais pelas suas paixões e emoções, salvo poucas exceções, não dando muita atenção aos estudos sociais aprofundados, balizados na experiência de vida, pois entende que a política não é uma Ciência que visa ao conhecimento puro, mas que se satisfaz, na prática, com soluções superficiais, transitórias e apenas conjunturais. De fato, essa percepção política da juventude é apenas o eco recebido das reiteradas e contínuas experiências da maioria dos cidadãos.

Aristóteles foi o principal preceptor e conselheiro de Alexandre, o Grande, que morreu com cerca de 32 anos de idade, e havia conquistado militarmente todo o mundo de sua época. Foi certamente levando em conta suas experiências pessoais no trato com o Imperador, e levando em conta o tempo de vida, as ações de governo e de conquista militar, o interesse pelos problemas sociais e suas soluções, e que a política é sobretudo uma atividade prática, que Aristóteles escreveu:
Por essa razão, o homem jovem está pouco apto a estudar a ciência política, pois lhe falta experiência sobre a prática da vida... Como, ademais, ele segue voluntariamente suas paixões, ele não emprestará a estes estudos senão uma atenção vã e sem proveito, porque para ele, o objetivo da política é não o conhecimento puro, mas a prática. Pouco importa, todavia, que seja jovem pela idade ou muito jovem no caráter, porque este defeito de atenção não é fator do tempo, mas conseqüência de uma vida pelas paixões e obediente aos impulsos. Para este tipo de pessoas, o conhecimento não tem utilidade, da mesma forma que também não é útil para os que não têm controle de si mesmos. Mas para aqueles que regulam suas ações sobre a razão, o conhecimento destas questões pode ser de muito proveito.



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