Iniciação pessoal ao estudo da Ética



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Gustavo Korte


Iniciação


à

Ética

Índice

Introdução

Capítulo I - Formas e Conceitos de Relacionamento
1. A Autoridade Anterior e outros conceitos

2. Noções de tempo passado e futuro.

3. Noções de forma e tamanho.

4. Sugerindo princípios.

5. Idéia e vontade

6. Deus e a Autoridade Ordenadora

7. A essência e a idéia

8 - Novamente o tempo

9 - A criação

10 - Logos e a palavra-idéia

11 - O relacionamento ético.

12 - O instinto de sobrevivência



Capítulo II - A palavra e o estudo da ética
13 - Linhas e formas de pensar

14 - A palavra escrita

15 – A mitológica distinção entre verdade e mentira

16 - O dualismo mitológico

17 - Alma individual e nacional

18 - Código ético genético ou arquivo biológico

19 - Conhecimento do bem e do mal

20 - Do século VII ao VI a. C.

21. O objeto da ética teórica

22. Incursões sugeridas pela prática

23. Passagem do abstrato para o concreto

24. Uma clareira na selva das abstrações

25. Trilhas que avançam entre as indagações tortuosas.

Capítulo III - Heranças éticas
26. Aproveitando Pitágoras e um pouco da experiência alheia

27. Código ético genético.

28. Destino e seus limites

29 - Erros e acertos na natureza

30 - Potencial não é destino.

31 - Vícios e virtudes

32. Indagações éticas.

33. Delimitando os objetos de estudo.

34. Indivíduo, dualismo e contexto.

Capítulo IV - Natureza e Objeto da Ética
35. Ética como Ciência.

36. A Ética como atividade filosófica.

37. A ética prática

38. Ética especulativa e normativa

39. A ética descritiva

40. Ética nas Ciências

41. Ética, moral e costumes

42. Metaética.

43. Naturalismo

44. Cognotivismo

45. Intuicionismo

46. Subjetivismo

47. O emotivismo

48. O imperativismo

49. O ceticismo

50. Relativismo

51. A Ética teleológica (Kant)

52. Hedonismo


53. Ética utilitarista

54. Perfeccionismo

55. Ética deontológica e Santo Agostinho

56. Egoísmo.


Capítulo V - Abordagem da ética em sociedade
57. Ética social.

58. Ética e Política.

59. Vontade social.

60. Opinião pública.

61. A ética de governar

62. Aristocracia

63. Monarquia

64. Do direito à revolução

65. A república no Brasil

66. Marx e seus ensinamentos

67. O trabalhismo

68. O conservadorismo

69. O liberalismo

70. Formulando proposições


Capítulo VI - A ética e as profissões
71. O que é profissão?

72. Profissão: meio ou finalidade de vida?

73. Subjetivamente e Objetivamente

74. Individualmente e Coletivamente

75. Abrindo novos horizontes

Introdução
O estudo da ética corresponde ao estudo dos fenômenos éticos. As possibilidades de abordagem para estudo do que podemos designar por fenômenos éticos são muito diversificadas.

Quando estudamos um fenômeno, seja ele ético, químico, físico ou biológico, procuramos estabelecer as causas que o produziram e os efeitos que dele resultam. Fixamos nossas atenções no contexto em que ocorrem, e procuramos enunciar as leis que regem esse fenômeno. Os corpos caem - é a expressão de um enunciado físico. Os estudos efetuados em torno da idéia contida na queda dos corpos levaram ao enunciado das leis gravitacionais e inúmeros outros resultados. Um vaso foi atirado sobre minha cabeça - esta expressão se refere a um fenômeno físico - o vaso deslocou-se - e a um fenômeno ético - foi lançado por alguém, atendeu a um impulso humano, respondeu à vontade do agressor.

Posso observar que, na maioria das vezes, os fenômenos éticos ocorrem simultaneamente a fenômenos de outra natureza, sejam abstratos ou concretos, morais, intelectuais, químicos, biológicos ou físicos.

- Vou à igreja para comungar - é uma explicação de conteúdo ético religioso.

- Herdei de meu pai a honra e a coragem.- é expressão que revela um fenômeno ético moral, relacionado à transmissão do que me parecem ser virtudes.

- Casei-me segundo os costumes e as leis. - informa o fenômeno ético de natureza moral (mos,moris = costumes) e jurídica (segundo as leis).

- O cientista trabalha em laboratório. - é uma afirmação que revela vários fenômenos éticos pois, fala de alguém que estudou e realizou sua vontade de tornar-se cientista, ou seja, cumpriu um processo ético de formação e preparação do intelecto; de alguém que trabalha e cumpre uma função social, ações que envolvem fenômenos éticos de natureza subjetiva e social. E, ao esclarecer o local do trabalho, ou seja, o laboratório, pressupõe a conclusão de todo o processo de localização, construção e utilização do contexto físico.

- A cigana, como de costume, leu-me a mão - é o relato abreviado de um fenômeno ético. Relaciona, da parte do consulente, a expectativa de saber da sorte, de novidades sobre o futuro, conhecimento do destino e outras que tais. Da parte da cigana, ocorre a materialização de uma tradição das mulheres de seu povo, que é a adivinhação, associada à expectativa de remuneração. Saber a sorte, adiantar novidades sobre o futuro e conhecimento do destino são posturas de natureza ética, tradicionais e costumeiras, freqüentes em todos os povos. Ocorrem como fenômenos éticos morais.

A materialização de uma tradição corresponde à execução física de uma idéia, pois a materialização integra um fenômeno físico e a tradição é uma idéia de natureza essencialmente ética. As ações e procedimentos humanos, individuais ou coletivos, isolados, grupais, nacionais ou internacionais, são fenômenos éticos.

Sendo um campo do conhecimento destinado ao estudo das relações éticas entre o homem e tudo que integra o seu contexto, precisamos, em primeiro lugar, definir qual é o ponto de referência em torno do qual situaremos nossos conceitos. A temperatura ambiental não é objeto da ética. Mas o homem deixar-se queimar ou congelar é um fenômeno ético. Relaciona vontades e idéias.

Há elementos éticos que se assemelham aos elementos geométricos. Enquanto o ponto, a reta, o plano, servem à geometria, a idéia, a linha e a forma de pensar servem à ética. Quero introduzir-me no mundo da ética. Percebo que devo usar idéias, palavras, frases, linhas e formas de pensar. Vou servir-me da linguagem discursiva, embora não ignore as outras formas de comunicação. Cada linguagem é, em si mesma, um fenômeno ético. Na vivência de cada minuto ocorrem ao meu redor seqüências de fenômenos éticos. Mesmo se paro de pensar, os fenômenos continuam acontecendo. Antes que eu nascesse e depois que vier a morrer, a ocorrência desses fenômenos seguirá normalmente. Os fenômenos éticos podem ser interpretados de maneira subjetivo, mas não posso negar que eles são objetivos, que independem de mim ou da minha existência..

Percebo que tudo que acontece no mundo tem por elementos idéia, vontade, criação, arte, construção, nascimento, desenvolvimento, religião, poesia, sentimento,. paixão, conhecimento, saudades, tristezas, amor, ódio, vícios e virtudes. Esse conjunto integra o rol dos fenômenos éticos. Tem abstrato e concreto. Até a ficção integra o universo das idéias. O tempo corre, afeta o homem em todas as suas relações. Em si mesmo, o tempo não é um fenômeno ético, mas a compreensão do tempo é de natureza ética. Por que a compreensão é um ato de conhecer. Conhecer é saber enunciar a relação causa-efeito que rege e define o fenômeno..

Para a iniciação que nos propomos devo partir de mim mesmo. Tenho, como ponto de partida, a idéia do que vou fazer. Procuro estender a primeira linha de pensar até o principal apoio do intelecto. Nele amarrarei a outra ponta desta linha. Entendo que a iniciação individual nas trilhas do conhecimento é um processo pessoal. Deve ser desenvolvida através de abstrações e também nas relações materiais, pois através das experiências pessoais o indivíduo pode chegar a perceber o que ocorre em seu contexto.

A ética abrange todas as relações entre o indivíduo e o universo. Ser-nos-á inadmissível negar os progressos científicos, tanto na abordagem do microcosmos como do macrocosmos.

Sugiro, aos que querem iniciar-se por estas trilhas do conhecimento ético, que me acompanhem no uso da forma individualizada de comunicação. A possibilidade de conjugar verbos na primeira pessoa do singular facilita o percurso do intelecto. Por este meio fica mais fácil traçar um roteiro que nos leve à visão e ao entendimento dos magníficos cenários em que ocorrem os fenômenos éticos. Daí por que esta narrativa fala de uma iniciação e não de uma introdução. O iniciado segue, passo a passo, percorrendo e descobrindo, pessoalmente, onde pode avançar, com segurança, para o passo seguinte.



Esta é uma experiência extremamente pessoal, que cada um pode vivenciar com a velocidade que sua individualidade permite, sem exaurir, de uma só vez, todas as suas possibilidades. Cada passo pode ser de progresso ou retrocesso. Progresso e retrocesso são idéias também ligadas às noções do tempo. Cada movimento pode ser propício a um avanço. A iniciação intelectual pelo campo da Ética pode ser repetida quantas vezes convier ao estudioso e, em cada vez, existe a possibilidade de fazê-lo por trilhas diferentes. O intuito deste convite é que o interessado dê os primeiros passos e, em seguida, avance por si mesmo, o mais possível. O esforço intelectual dos pensadores é direcionado para que possamos chegar mais perto da Verdade.

Gustavo Korte


Capítulo I

Formas e Conceitos de Relacionamento

1. A Autoridade Anterior e outros conceitos. 2. Noções de tempo passado e futuro. 3. Noções de forma e tamanho. 4. Sugerindo princípios. 5. Idéia e vontade. 6. Deus e a Autoridade Ordenadora. 7 A essência e a idéia. 8 - Novamente o tempo. 9 - A criação. 10 - Logos e a palavra-idéia. 11 - O relacionamento ético. 12 - O instinto de sobrevivência

1. A Autoridade Anterior e outros conceitos
A Ética estuda as relações entre o indivíduo e o contexto em que está situado. Ou seja, entre o que é individualizado e o mundo a sua volta. Procura enunciar e explicar as regras, normas, leis e princípios que regem os fenômenos éticos. São fenômenos éticos todos os acontecimentos que ocorrem na relações entre o indivíduo e o seu contexto.

Os estudos de Ética excluem de seu campo de atividades os fenômenos químicos, físicos e biológicos, mas incluem todos os fenômenos sociais de que o homem faça parte. Estuda o homem como ser incluído e relacionado com o Universo.

Os fenômenos éticos são enunciados através de idéias, linhas e formas de pensar, e tornam-se concretizados em atos, fatos, ações, relações e procedimentos.

Desde há muito estabeleci como fundamental, nas minhas relações, o respeito à natureza e aos indivíduos. Isso ocorre nas vivências diárias com pessoas, animais, plantas e todos os demais seres ou entes cujas existências chegam aos meus sentidos e à minha percepção.



Respeitar corresponde à idéia de uma regra para o meu relacionamento com tudo que se encontra no contexto onde estou situado.
O verbo respeitar tem origem no latim re-specto,avi, tum,are , que trás a idéia de olhar para trás; olhar para alguém; fugir; voltar-se para olhar; ter os olhos em; prestar atenção a ; ocupar-se de. O significado contido em respeitar que mais me sensibiliza é o de dar atenção ao mundo à minha volta, com espírito de observação, identificação e apreensão das idéias que estão contidas nos acontecimentos.
Trago, durante este trajeto intelectual, lembranças de Confúcio e das suas sete palavras fundamentais: fidelidade, altruísmo, humanidade, justiça, decência, sabedoria e sinceridade. Cada uma destas palavras contém a idéia que liga o indivíduo ao processo de vida que pretende desenvolver.

Com mais repetição e mais presença, também estão presentes em minha memória os dois mandamentos fundamentais do cristianismo: ama Deus sobre todas as coisas e ama o próximo como a ti mesmo. Tais mandamentos induzem os cristãos a uma ligação de amor, direta, com Deus e os seres humanos que lhe estão próximos.

Recebo os mandamentos pela tradições, pelos costumes e também pelo conhecimento.. Em cada mandamento está pelo menos uma idéia, uma vontade e uma ordenação. Ora, se há mandamentos, eles são expressos ou fixados através de palavras de ordem ou por indução, através de outras linguagens que não somente a discursiva. Se há palavras de ordem, há evidentemente um Princípio Ordenatório do Universo.

Impulsionado pela intuição, admito que há uma Autoridade Anterior que enuncia, dita e ordena os elementos e os procedimentos. Tais manifestações ocorrem através das palavras de ordem ou por outras formas de induzimento e resulta em que sejam respeitados os princípios ordenatórios .

Muitos, a imensa maioria da humanidade, deificam essa Autoridade Anterior, desde os mais remotos tempos e desde os mais elementares sinais de vida do homem sobre a Terra. É designado por Jahveh, Alah, Ormuzd, Brahma, Grande Arquiteto do Universo e muitos outros nomes. No linguajar mais usual, é para a imensa maioria dos povos da atualidade, a expressão de Deus, entendido como sendo Único, Senhor do Universo, Onisciente, Onipresente e Eterno. Procuro captar e conscientizar o que parece estar contido nessa designação. Observo que o princípio da ordem que rege a natureza antecede a existência de todo ser vivo. O conteúdo dos cromossomos e genes que compõem as nossas células segue esse ordenamento. Meu intelecto aceita como verdade que há uma seqüência: idéia - vontade - ordenamento - criação - nascimento.

Intuo que há uma Ordem Natural e Universal que rege coisas, pessoas, ações, processos e idéias. Esse Princípio Ordenatório não atua somente no planeta Terra ou no Sistema Solar. Mas intuo, também, que há uma ordem natural que só se aplica ao planeta Terra e aos seres e coisas que o integram.



2. Noções de tempo, passado e futuro.
Recebo, por tradição, a idéia de que o ordenamento fundamental das coisas e dos pensamentos se prende a uma noção de tempo. Esta noção serve ao homem e às suas formas de pensar, pois sua experiência de vida se manifesta numa relação antecedente-atual- conseqüente ou primeiro-segundo- terceiro. E assim por diante.

A ordenação das coisas, conduzida pelo espírito do homem ou pelos princípios que regem o Universo, usa do fator tempo para realizar-se. Esta é uma constatação minha, que conscientizo, desenvolvendo meu potencial humano, através das formas de percepção, excitadas pelos sentidos. O que designamos tempo atua sobre nós, age sobre nosso organismo e presencia nossas transformações físicas e mentais. O tempo se faz sentir. O tempo não se interrompe. Os números que posso atribuir à grandeza primitiva tempo são infinitos e levam ao conceito do que chamamos eternidade. Quando atribuo quantidades à grandeza tempo, elas podem trazer um sentido negativo, representado por um sinal (-) menos, e então se referem ao que chamamos passado. Tais quantidades também podem ser representadas antecedidas por um sinal positivo, (+) mais, e então querem significar o que designamos por futuro. Tempo presente é este em que estou vivo, tenho sensações e percepções, e em que exerço as minhas faculdades de pensar, querer e agir. A experiência do tempo presente é característica dos seres vivos. Para nós, seres humanos, vivenciar o tempo significa existir no mundo da realidade sensível. O tempo passado sugere respeito à Natureza. Pergunto-me:- Para quem existe o tempo futuro?


3. Noções de forma e tamanho.
Uma idéia prende-se às minhas convicções: o princípio de ordenação do potencial de desenvolvimento de qualquer ser ou entidade antecede a sua criação e o seu nascimento. Intuo que esse princípio ordenatório está contido no código genético recebido por cada indivíduo que se reproduz. A idéia de reprodução sugere seres vivos.

Posso admitir que o princípio ordenatório do Universo possivelmente exista na idéia de cada ser, ação ou entidade. Sejam tais entes animados ou inanimados. Não faço muita distinção entre o que está em constante transformação e a idéia do que se transforma. Ser e tornar-se são palavras que diferem muito nos seus significados, mas que estão intimamente vinculadas entre si. A idéia de ser não depende do tempo, enquanto a idéia de tornar-se contém, em si mesma, a manifestação do tempo. Tornar-se , pois indica o que designamos por um processo, que ocorre durante o curso do tempo.


Entre a borboleta e o casulo não sei dizer em que momento um se constitui em indivíduo diferente do outro. Quem é o anterior e quem é o posterior? A pergunta vale tanto como a de quem quer saber se a galinha existiu antes do ovo. Observo que o peixe já nasce munido de um conjunto de regras para adaptação e desenvolvimento no seu mundo de águas. As aves nascem com as potencialidades que lhes possibilitam o vôo. Os demais seres vivos são materializados trazendo um potencial de desenvolvimento determinado por sua estruturação genética.
Ou seja, sou induzido a crer que o conjunto de regras para a adaptação e desenvolvimento de cada indivíduo antecede a sua criação. Passo a aceitar como verdade que há um Princípio Ordenatório do Universo na medida em que me refiro ao Universo existente. Em conseqüência, sou levado a admitir que há uma Autoridade Anterior que enuncia, dita e estabelece esse princípio ordenatório.

Volto-me para os pensadores que encontraram esta trilha de relacionamento do homem com os seres à sua volta, e procuro algumas das orientações para encontrar os conceitos que me faltam. Chego à conclusão de que a Ética estuda os fenômenos de relacionamento do indivíduo a partir da sua geração e concepção. Justo é pois o entendimento que a Ética deve abranger inclusive o estudo das relações entre a idéia do ser que vai ser gerado e os fatos que propiciam a sua geração.

Quando falamos da geração e da concepção de um indivíduo humano sou levado a crer que há pressupostos éticos que devem ser considerados, por exemplo, se há amor entre os pais; se a geração ocorreu por atos de violência ou desequilíbrio; se houve vontade de gerar e conceber. E pergunto-me se, isoladamente, a vontade de gerar pode ser contrariada pela vontade de não conceber. Ou ainda, se a vontade de conceber pode prevalecer sobre a vontade de não gerar. Sem dúvida, este é um dos problemas éticos mais freqüentes, na atualidade.

Responder às dúvidas éticas sem procurar saber o conteúdo das palavras que compõem as respostas é ato leviano, irresponsável e destituído de bom senso.

Por isso que, na abordagem dos fenômenos éticos, como nas demais ciências e campos do conhecimento, os primeiros momentos devem ser de reflexão profunda visando captar todas as informações possíveis, tanto sobre o contexto como do fenômeno em si mesmo. Este procedimento implica em saber reconhecer idéia do que se observa. Para que a observação possa ser registrada eu devo recorrer à palavra-idéia que identifica o que eu percebi e gravá-la no contexto de uma linguagem.

Os estudos que nos levam à abordagem dos fenômenos éticos devem ter em conta a possível existência de um código genético individual. Este pode conter as regras básicas para tornar possível o relacionamento do homem com seus semelhantes e com os demais seres e entidades do universo.


4. Sugerindo princípios.
Quando estudamos as Ciências Físicas recebemos a idéia de que princípio é a afirmação que aceitamos como verdadeira e que não depende de demonstração. Princípio não é tese, nem hipótese. Princípio não se demonstra.

Assim, aceitamos sem discutir que, no mundo em que vivemos, os corpos caem. Este é o enunciado do princípio da queda dos corpos.

Tudo que existe sofre o efeito do tempo. Aceito naturalmente, por costume ou necessidade, que fazer qualquer coisa, agir ou praticar qualquer ato, custa e leva tempo. Em si mesmo o consumo do tempo pelo ser humano é um fenômeno de natureza ética.

Antes de firmar conceitos acerca do que são e como ocorrem as idéias nas estruturas do pensamento não posso adotar ou aceitar princípios que me são trazidos por idéias, linhas e formas de pensar. Para prosseguir pela trilha do conhecimento procuro conceituar, inicialmente, o que entendo por idéia, por logos e por palavra.

A série idéia>vontade>ordenação>criação>nascimento revela uma seqüência cronológica. A palavra idéia quer designar um ente, um ser, uma potencialidade, algo que pode vir a ser, tanto no universo das abstrações como no mundo das realidades sensíveis, de coisas e seres materiais. O impulso da vontade sobre a idéia corresponde à ação de uma força imaterial sobre um ente, também de natureza imaterial.

O resultado pode vir a ser produzido, materialmente ou não. Se for um corpo, estará concretizado e materializado. Se for uma idéia ou um conjunto de idéias, estará produzido mas não materializado.


No latim usava-se o adjetivo concretus,a,um em pelo menos seis significados diferentes: concreto = 1.º) formado; 2.º) espesso, condensado, congelado; 3.º) escurecido, apagado, carente de luz; 4.º) inveterado; envelhecido pelo uso; 5.º) produzido, causado e 6.º ) nas locuções como ar espesso; dor sem lágrimas.
5. Idéia e vontade
Percebo que, neste momento, integrando um processo ainda não desvendado diante do meu intelecto, a vontade ( que corresponde à idéia de uma força), atende ao que lhe é indicado pela idéia-logos e passa a ordenar os elementos disponíveis, tanto no mundo das abstrações como no das coisas sensíveis.
A palavra mundo, derivado do latim mundus, i, que vamos usar muitas vezes ao longo desta trilha, contém na sua raiz várias idéias correlatas: 1.ª) o firmamento; a abóboda celeste; o conjunto dos corpos celestes; 2.ª) o mundo; o universo; a criação; 3.ª) o globo terrestre; a Terra; as nações; 4.ª) o mundo contextual seja ele nacional, regional ou familiar; o mundo romano; o império romano; 5.ª) o mundo considerado como um deus, ou uma idéia; 6.ª) e também como nome próprio dado a um deus ou a um homem.
Por esse processo de ordenação a vontade procura compor o conjunto dos elementos a partir dos quais operar-se-á a criação.
A palavra vontade vem do vocábulo latino Voluntas, atis, que serve a pelos cinco idéias, entre si relacionadas: 1.ª) boa vontade; boas disposições; 2.ª) benevolência; favor; afeição; 3.ª) vontade, poder ou faculdade de querer; desejo; intenção; objetivo; mira; plano; 4.º) disposição (ou atenção especial) para com alguém; 5.ª) vontade expressa; escolha; voto; sufrágio; livre escolha.

A palavra ordenação está estreitamente ligada à noção de tempo. Tem raiz nas idéias contidas na palavra ordem, que em latim é ordo, inis. Pelo menos dez idéias estão relacionadas com esta palavra: 1.ª) ordem, que etimologicamente se refere à colocação dos fios na teia do tecelão ( urdideiras são as que põe ordem nos fios; as tecelãs); 2.ª) ordem, boa ordem; disposição; 3.ª) sucessão; série; encadeamento; alinhamento; 4.ª) classe; categoria; condição; 5.ª) fila de soldados; linha; ordem de batalha; 6.ª) corpo de tropas; centúria; 7.ª) comando; ( em referência à autoridade que dá a ordem); 8.ª) o senado romano; os órgãos do governo; a autoridade constituída; a ordem jurídica; 9.ª) o que comanda, o governante; o legislador; 10.ª) versão; a maneira pela qual os fatos são narrados; a ordem dos fatos históricos.

Criação tem origem no radical do verbo criar, que em latim é creo, avi, tum. Cinco idéias básicas nos chegam desse radical: 1.ª) produzir; fazer brotar; fazer crescer; fazer nascer; dar à luz; 2.ª) Criar, procriar; 3.ª) elevar a um cargo, a uma autoridade; nomear; eleger; 4.ª) criar; fazer nascer do nada; 5.ª) causar; ocasionar.
A criação é também entendida como sendo a materialização da idéia (logos), contida na palavra que a designa. A idéia e a vontade manifestam-se nos pensamentos através das palavras, das linhas e das formas de pensar.

Há idéias e vontades não discursivas, cuja manifestação pode dar-se por outros meios. Assim, por exemplo, apetites, gestos, odores, sons, formas, cores e tantas outras. A linguagem discursiva é, obviamente, usada e manifestada através dos idiomas. Por esta via idiomática foi gerada a possibilidade de transmitir a significação dos vocábulos, ou seja o sinal das idéias contidas nas palavras, de tal forma que outros recebam e possam interpretar esse sinal.


Procuro no dicionário a idéia contida no vocábulo significar. Francisco Torrinha em seu Dicionário Latim-Português, Ed. Gráficos Reunidos Ltda., Porto, Potugal mostra a raiz etimológica do verbo latino significo, as, avi,atum (signum+fico< facio). Fico traduz a idéia do que está feito, por conjugação do verbo facio=fazer. Signum contém a idéia de sinal, marca. Segundo o Novo Dicionário Aurélio, Ed. Nova Fronteira, significar traduz as seguintes idéias:1ª) Ter o sentido de querer dizer; dizer. 2ª) Querer dizer; expressar; exprimir. 3ª) Ser sinal de; denotar. 4.ª) Dar a entender, mostrar. 5.ª) Ser, constituir. 6.ª) ser o símbolo ou a representação 7.ª) fazer conhecer; informar participar.
Significar é o mesmo que transmitir o sinal que identifica a idéia. Daí por que posso afirmar que a palavra tornou-se um sinal, um signo, que expressa a idéia. A palavra é o meio de comunicação de que nos servimos para transmitir a idéia.

Os sons, que emitimos quando pronunciamos palavras e falamos, constituem matéria ou energia, ou ambas. O papel e a tinta com que escrevemos são também matéria e energia. Mas a idéia contida na palavra, seja escrita ou falada, parece corresponder à designação de algo imaterial, que não está e não é sujeito ao tempo, nem às posições relativas, nem às cores, nem às vibrações sonoras, nem às experiências gustativas ou olfativas, nem ao espaço e nem à matéria em que se corporifica.

A intuição me leva a entender a vontade como uma força, que se desloca, atua, pressiona, causa formas e deformações, produz movimentos, ações e reações.

E, na medida em que a vontade ordena elementos, sou obrigado a aceitar que antes da manifestação de vontade existem, potencialmente, os elementos que possibilitam sua realização, ou seja, sua transformação em matéria ou seu aproveitamento para a formação de conjuntos.



Elemento é palavra que deriva do latim elementum, i, usada geralmente no plural. Traduz pelo menos cinco significados. 1.º) princípios, elementos; partes constitutivas; 2.º) conhecimentos elementares; rudimentos; 3.º) letras do alfabeto; alfabeto; 4.º) os quatro elementos fundamentais: terra, água, ar e fogo; 5.º) princípio, começo.

Na atualidade a palavra elemento anuncia muitas outras conotações, das quais algumas nos interessam mais, a saber, na geometria, os elementos geométricos são o ponto, a reta e o plano.

Em sociedade a idéia de elemento corresponde, muitas vezes, a um contexto de conveniências ou inconveniências. É costume dizer-se: o jovem está feliz por que está em seu elemento, numa referência direta ao contexto social para o qual está preparado ou para o qual foi produzido. Como também se ouve: ele se deu mal por que está fora do seu elemento.
Os elementos fundamentais a partir dos quais posso estruturar a linguagem discursiva são a palavra-idéia, as linhas e as formas de pensar. Devo reconhecer que no mundo material há elementos pré-existentes até mesmo à idéia de cada ser. Isto por que a idéia a ser materializada deve ter referência e conexão com os elementos materiais que a tornam possível. Tais elementos possibilitam a criação, a recriação, as combinações e re-combinações materiais.

Adoto como princípio o enunciado de Lavoisier, ao afirmar que no universo nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Mas, de outro lado, sou induzido a reconhecer que, como ser humano, limitado nos contornos de espaço-tempo-formas de percepção, não tenho meios para confirmar, negar ou apurar se o enunciado de Lavoisier é ou não verdadeiro em termos de Universo e Tempo.



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