Influência Negra no Brasil o samba



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Influência Negra no Brasil




O samba

Gênero musical binário, que representa a própria identidade musical brasileira. De nítida influência africana, o samba nasceu nas casas de baianas que emigraram para o Rio de Janeiro no princípio do século. O primeiro samba gravado foi Pelo telefone, de autoria de Donga e Mauro de Almeida, em 1917. Inicialmente vinculado ao carnaval, com o passar do tempo o samba ganhou espaço próprio. A consolidação de seu estilo verifica-se no final dos anos 20, quando desponta a geração do Estácio, fundadora da primeira escola de samba. Grande tronco da MPB, o samba gerou derivados, como o samba-canção, o samba-de-breque, o samba-enredo e, inclusive, a bossa nova. 


A Escola de Samba

Uma coisa é o samba. Outra, a escola de samba. O samba nasceu em 1917. A primeira escola surgiu uma década mais tarde. Expressão artística das comunidades afro-brasileiras da periferia do Rio de Janeiro, as escolas existem hoje em todo o Brasil e são grupos de canto, dança e ritmo que se apresentam narrando um tema em um desfile linear. Somente no Rio, mais de 50 agremiações se dividem entre as superescolas e os grupos de acesso.

O desfile das 16 superescolas cariocas se divide em dois dias (domingo e segunda-feira de carnaval), em um megashow de mais de 20 horas de duração, numa passarela de 530 metros de comprimento, onde se exibem cerca de 60 mil sambistas. Devido à enorme quantidade de trabalho anônimo que envolve, é impossível estimar o custo de sua produção. Uma grande escola gasta cerca de um milhão de dólares para desfilar, mas este valor não inclui as fantasias pagas pela maioria dos componentes, nem as horas de trabalho gratuito empregadas na concretização do desfile (carros alegóricos, alegorias de mão, etc.). Com uma média de quatro mil participantes no elenco, cada escola traz aproximadamente 300 percusionistas, levando o ritmo em sua bateria, além de outras figuras obrigatórias: o casal de mestre-sala e porta-bandeira (mestre de cerimônias e porta-estandarte), a ala das baianas, a comissão de frente e o abre-alas.

Primeira escola de samba: Deixa falar, fundada em 12 de agosto de 1928, no Estácio, Rio de Janeiro, por Ismael Silva, Bide, Armando Marçal, Mano Elói, Mano Rubens e outros sambistas (foi extinta em 1933).

Primeiro desfile oficial: Carnaval de 1935, vencido pela Portela. 

Capoeira

capoeira  é uma dança de luta, ritualizada e estilizada, que tem sua própria música e é praticada principalmente na cidade de Salvador, estado da Bahia. É uma das expressões características da dança e das artes marciais brasileiras. Evoluiu a partir de um estilo de luta originário de Angola. Nos primeiros anos da escravidão havia lutas permanentes entre os negros e quando o senhor de escravos as descobria, castigava ambos os bandos envolvidos. Os escravos consideravam essa atitude injusta e criavam "cortinas de fumaça" por meio da música e das canções, para esconder as verdadeiras brigas. Ao longo dos anos, essa prática foi sendo refinada até se converter em um esporte sumamente atlético, no qual dois participantes desfecham golpes entre si, usando apenas as pernas, pés calcanhares e cabeças, sem utilizar as mãos. Os lutadores deslizam com grande rapidez pelo solo fazendo estrelas e dando espécies de cambalhotas. O conjunto musical que acompanha a capoeira inclui o berimbau, um tipo de instrumento de madeira em forma de arco, com uma corda metálica que vai de uma extremidade à outra. Na extremidade inferior do berimbau há uma cabaça pintada, que funciona como caixa de som. O músico sacode o arco e, enquanto ressoam as sementes da cabaça, toca a corda tensa com uma moeda de cobre para produzir um tipo de som único, parecido com um gemido.


Candomblé

Festa religiosa dos negros jeje-nagôs na Bahia, mantida pelos seus descendentes e mestiços, é um culto africano introduzido no Brasil pelos escravos. Algumas de suas divindades são: Xangô, Oxum, Oxumaré e Iemanjá, representando esta, por si só, um verdadeiro culto.

As cerimônias religiosas do Candomblé, são realizadas de um modo geral em terreiros, que são locais especialmente destinados para esse fim, e recebem os seguintes nomes: Macumba no Rio de Janeiro, Xangô em Alagoas e Pernambuco. As cerimônias são dirigidas pela mãe-de-santo, ou pai-de-santo. Cada orixá tem uma aparência especial e determinadas preferências. O toque de atabaque, uma expécie de tambor e a dança, individualizam um determinado orixá. Os orixás são divindades, santos do candomblé, cada pessoa é protegida por um dos orixás e pode ser possuída por ele, quando, então ela se transforma em cavalos de santo. 

Pratos

No Nordeste a marca africana é profunda, sobretudo na Bahia, em pratos como vatapá, caruru, efó, acarajé e bobó, com largo uso de azeite-de-dendê, leite de coco e pimenta. São ainda dessa região a carne-de-sol, o feijão-de-corda, o arroz-de-cuxá, as frigideiras de peixe e a carne-seca com abóbora, sempre acompanhados de muita farinha de mandioca. A feijoada carioca, de origem negra, é o mais tipicamente brasileiro dos pratos.

Autoria: Erasmo Lopes

Danças, festas e instrumentos musicais de origem bantu

Artur Ramos
Dança e música de influência angola-congolense saíram das macumbas e se estenderam pelas festas profanas. Dos instrumentos musicais negro-brasileiros, que reconhecem a procedência da África bantu, temos em primeiro lugar os tambores, um pouco diferentes dos atabaques iorubas. Os tambores de origem angola-congolense não têm o couro distendido por cordas e cunhas. A sua fabricação é mais simples. Registrei no estado do Rio de Janeiro os chamados tambores de jongo, com duas variedades principais: os maiores, tambus, e os pequenos, a que dão o nome decandongueiros. [1]

Entre os tambores de origem bantu, temos ainda o ingono de Pernambuco e outros estados do norte, e que alguns estudiosos julgaram erradamente ser o nome de um deus ou fetiche. Já demonstrei que o ingono (também chamado ingomba) nama mais é do que o ngomba ou angomba congolense, descrito pelo padre Cavazzi ou oangoma dos Lundas, referido pelo major Dias de Carvalho [2]. Além do ingono, há ainda o zambê, que é um ingono menor, e que deu origem à dança coco de zambê, usada em alguns estados do Nordeste.

cuíca, já tão conhecida hoje em quase todo o Brasil, entrando mesmo na constituição de nossos conjuntos orquestrais típicos, é a mesma puíta angola-congolense, que toma outros nomes como roncador, fungador e socador, no Maranhão e Pará [3].

urucungo, também chamado gobobucumbumba e berimbau-de-barriga, é o mesmorucumbo dos Lundas. Hoje, na Bahia, os negros capoeiras (de Angola) usam oberimbau ou gunga. Edison Carneiro, que estudou recentemente os jogos capoeira entre os negros baianos, assim descreve esse instrumento:

"O berimbau nada mais é do que um arco de madeira, vibrado por uma vareta. A esse arco se junta a metade de uma cabaça, presa a ele por um cordão que atravessa o fundo da mesma.

A parte oca da cabaça serve de caixa de ressonância, ligada ao peito do tocador. Este instrumento chama-se, na Bahia, berimbau ou gunga. Antigamente, havia outra espécie de berimbau, o berimbau-de-barriga, no qual, em vez de se ligar ao corpo, a cabaça — cabaça inteira, — ficava dependurada da extremidade superior do arco. O tiocador segura o instrumento com a mão esquerda, três dedos na extremidade inferior do arco e os outros, mantendo, em posição horizontal, uma moeda de cobre, que se encosta à corda de vem em quando. E na mesma mão (direita) que empunha a vareta, o tocador enfia um pequeno saco de palha trançada, fechado, contendo sementes de bananeira do mato, a que chamam os negros mucaxixi ou simplesmente caxixi." [4]

É como se vê uma variante do urucungo ou berimbau-de-barriga.

Já procurei mostrar, em O negro brasileiro e em O folclore negro do Brasil, o contingente dos bantus na formação da música e dança negro-brasileiras. [5]

Do batuque angola-congolense surgiu, após sucessivas transformações, onosso samba, que toma nomes variados conforme as regiões. Certos nomes comoquimbetesarambequesarambusorongocaxambujongo... evocam nitidamente a origem bantu. Já descrevi fases de transformação. [6]

O folclore negro-brasileiro de procedência bantu é bem rico. Em primeiro lugar, temos as festas populares do ciclo dos congos ou cucumbis. São evidentemente sobrevivências históricas de coroação de monarcas, lutas dessas monarquias umas com as outras e contra o português invasor e episódio vários. Consagrei ao assunto todo um capítulo em trabalho anterior [7]. Os festejos populares dos quilombos em Alagoas são também uma sobrevivência histórica, mas aqui dos episódios do quilombo dos Palmares.

A sobrevivência totêmica dos povos bantus vamos encontrar em certos autos e festas populares negro-brasileiros, como cordõesranchos e clubes carnavalescos,confrarias negras, maracatus do Nordeste, elementos do bumba-meu-boi... [8] Com relação a este último auto, já mostrei o erro de alguns folcloristas, que o filiam apenas à tradição natalina do boi do presépio, de origem peninsular e ao ciclo dos vaqueiros de origem cabocla. O africano trouxe, ao meu ver, uma contribuição fundamental. O totemismo do boi é largamente disseminado, entre vários povos bantus (o boi Geroa, entre os Ba-Naneca, por exemplo). E toda a área oriental do gado não teria exercido uma influência decisiva entre os povos bantus, com toda a sua vida cultural girando em torno do complexo do gado?

Influências
Os quitutes do tabuleiro da baiana, os sons e cores dos blocos de afoxé, os movimentos das danças populares, os traços e formas da arte e os detalhes de nossas vestimentas provam o quanto estamos próximos da África. No programa ‘Influências’, quarto episódio da série ‘Mojubá’, entendemos como o nosso cotidiano foi enriquecido pela tradição religiosa africana e percebemos que a distância entre os dois continentes não é empecilho para a proximidade de suas culturas.

Há cerca de cinco séculos, os navios negreiros trouxeram ao Brasil bem mais do que negros africanos que serviriam como escravos aos senhores de engenho. Junto com este povo de riquíssima cultura vieram as matrizes da culinária, da música, das artes e da religiosidade brasileiras. E assim como o acarajé, o samba e os rituais do candomblé e da umbanda, diversos elementos da tradição africana povoam até hoje o cotidiano do país.


“A comida sempre desempenhou um papel de ligação deste mundo material com o mundo espiritual. Através da comida acontece, na verdade, uma espécie do aproximação entre os habitantes de ambos os mundos. Dar comida a santo é, simbolicamente, compartilhar com o universo dos orixás o estado de vida existente nesta terra”.


“Cada entidade tem uma comida especial que passou a constituir também um prato característico da culinária brasileira, entre eles o acarajé e o abará, assim como o dendê e a pimenta. O mais interessante é que o significado de qualquer alimento vai além do que podemos ver”.

É interessante notar como a cultura negra chegou no Brasil praticamente dentro do ser humano africano. Ele não trouxe fotos nem gravuras: Trouxe memórias e a partir delas fez a sua história. Toda tradição é oral, que corre de geração em geração e, nesse sentido, é difícil separar arte, religião e vida”.

Através da música, da dança e da espiritualidade, o candomblé expressa a harmonia dos ritmos do universo e faz circular as energias vitais. A força desta tradição se espalhou pelos quatro cantos do país, formando novas expressões culturais genuinamente brasileiras.


“Câmara Cascudo, nosso saudoso etnólogo, pesquisou e escreveu sobre a tradição dos festejos populares que vêm desde a época colonial, começando com as congadas, passando pelos cucumbis e chegando às modernas escolas de samba. Os desfiles carnavalescos de hoje evocam os cortejos dos reis banto que seguiam com suas embaixadas para visitar ou mesmo guerrear aldeias vizinhas, portando estandartes e tocando instrumentos. É toda uma tradição que veio desembocar em coisas que parecem distantes, mas não são”.


“Os ranchos são criados pelas negras baianas ligadas ao candomblé no final do século XIX. Elas fixam residência no Rio de Janeiro, então capital do país, e são muito festeiras. A partir de um determinado momento, o rancho, que antes circulava no Natal, passa a sair pelas ruas no Carnaval. A multiplicação desses ranchos, juntamente com os cordões - que eram blocos carnavalescos de negros, mas um pouco menos organizados – é, certamente, uma das principais origens da criação das escolas de sambas”.


“A sociedade brasileira é construída sobre uma revisão das civilizações africanas. A dinâmica da sociedade é a mesma há cinco séculos, mas as questões mudaram e hoje temos a lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira na rede escolar.

Congadas de Santa Isabel

Ruth Guimarães
Santa Isabel ficou na tradição paulista como a cidade onde prevalecem, por excelência, os ritmos negros. Tem assim um certo banzo, um certo ar de Bahia minúscula, com seus ritmos, seus mistérios e suas tradições, encravada e esquecida num cantinho do estado bandeirante.

Congadas se sucedem na pitoresca cidadezinha, em tardes de festa, é comum ver o Batalhão da Estrela, ou o Batalhão Branco e Preto, nome como designam os bandos de congueiros, descendo as ladeiras a partir do largo de uma das velhas igrejas e, depois, em evoluções coloridas em torno do jardim.

A tarde em flor se enche de longos rumores. Tambores ressoam; e o som das violas se casa à melodia dos refrões cantados em louvor de São Benedito e de Nossa Senhora, os clássicos padroeiros das congadas.

Um dos bandos canta, desfilando em passo de marcha batida, meio bamboleada, como que amolecida pela doçura insidiosa da música soturna e grave:


O sino já bateu

O relógio já deu hora

Vamos festejar com gosto

A Virgem Nossa Senhora


Nas ruas, que as blusas fortemente coloridas dos congueiros aviva, o sol põe cintilações nas pontas das espadas. Outro bando, este caprichado, em roupas de cetim, lança ao vento, na fala cabocla, um verso expressivo, em ritmo sincopado, marcado pela batida dos pés:
Louvemos meu São Benedito!

Louvemos meu São Benedito!

Ora viva, minha Santa Cruz

Nós cheguemo na porta da igreja

Recebê o coração de Jesus
Então as voltas dos dançadores parece que deliram. Evoluções bordam nas ruas arabescos complicados, em que entram blusas pretas e brancas e onde dançam estrelas, desenhadas com purpurina no peito e nas costas dos congueiros. A estas horas, eles cantam a plenos pulmões, excitados pelo tum-tum dos tambus e pela cachaça, e também talvez pelo calor do sol cegante:
Louvemo o altar

Louvemo o andor

Meu São Benedito

No meio da flor


Poetas rústicos, cheios de uma lírica devoção, os congueiros cantam versos como este:
Ai, bonita madrugada

Ai, ai


Oi lindo clarão do dia

Encontrei Nossa Senhora da Guia

Que Nosso Senhor Divino

Esteja em nossa companhia


E quando a noite desce, e ficam os dançadores meio indistintos na fofa penumbra, parece que se ouve melhor (talvez por causa da tristeza da hora), parece que se ouve melhor a mansa cantiga:
Batalhão das sete estrela

Traz bandeira da nação

Viva o chefe da congada

E toda a população

Viva o nosso rei do congo

Que comanda o batalhão


Anoitece e, com a noite, se intensifica o mistério. Reis do congo palpitam através da voz brasileira dos congueiros, na suavidade da sombra funda e imensa.

(Guimarães, Ruth. "Congadas de Santa Isabel". Correio Paulistano. São Paulo, 05 de novembro de 1950)



Como a lua chegou ao céu
Narrada por Mayuluaípu, índio taulipangue. Esta lenda foi publicada pela primeira vez em 1917, em alemão, na obra de Theodor Koch-Grünberg, Mitos e lendas dos índios taulipangue e arekuná.

Antigamente, Kapéi, a lua, não estava no céu, mas na terra. Aqui tinha uma casa. Ela pegou a alma de uma criança e a botou dentro duma panela, que ficou virada no chão. Então a criança ficou doente. Os pais chamaram um médico-feiticeiro e mandaram que ele soprasse [1] a criança, à noite. Kapéi havia brigado com aquela gente. De noite o feiticeiro soprou a criança.

Kapéi vivia com duas filhas já crescidas [2]. Ele tinha mais uma panela grande e escondeu-se nela, mandando que suas filhas a emborcassem no chão. Disse às filhas: "Não mostrem onde estou, quando chegar o médico-feiticeiro! Também não digam onde está a crianças!" A criança era bonita e ele queria ficar com ela.

Então o médico-feiticeiro chegou na casa e perguntou pela alma da criança. As filhas nada disseram. O médico-feiticeiro tinha um cacete. Entrou na casa e quis ver o que estava na panela. Sabia que a alma da criança estava naquela casa. Quebrou a panela com o cacete. Depois quebrou também a outra panela. Assim achou a alma da criança.

Achou também Kapéi, que estava escondido na panela. Depois de pegar Kapéi, mandou um Ayúg [3], que tinha vindo com ele, levar de volta a alma da criança, mas outros Ayúg, que ele também tinha trazido, ficaram. Surrou Kapéi e expulsou-o da casa, dizendo-lhe: "Não fiques mais aqui" Vai embora!" Então o médico-feiticeiro voltou para sua casa.

Kapéi ficou pensando em que iria se transformar. Ele disse: "Cutia se come! Anta se come! Porco do mato se come! Todos os animais de caça são comidos! Será que me devo transformar numa ave? Num mutum? Num cujubim? Num inambu? [4] Também estes são comidos! Vou para o céu! Lá é melhor do que aqui! Vou iluminar de lá os meus irmãos! [5] Vamos, minhas filhas, para o céu!"

Com um cipó, Kapeienkumá(x)pe [6], a lua e as filhas fizeram uma escada e mandaram um pequeno pássaro levar o cipó para cima e amarrá-lo no céu. O pássaro pegou uma ponta do cipó e o levou consigo, amarrando-o na entrada do céu. Kapéi e as filhas treparam pela escada para as alturas e chegaram ao céu.

Kapéi disse: "Ficarei aqui no céu! Vocês vão adiante, mais para cima, para iluminar o caminho! Ficarei aqui para iluminar os meus irmãos lá embaixo! Vocês devem iluminar o caminho [7] dos que morrem, para que a sua sombra [8] não fique no escuro!" Mandou uma das filhas mais para cima, para um céu mais alto. Mandou a outra filha para um céu ainda mais alto. Ele mesmo ficou no céu que está acima de nós [9].

E aqui termina esta história.

 

Notas

1. Quer dizer, para curá-la.

2. "Estas moças eram filhas de duas mulheres (planetas) com as quais ele andava. De cada uma ele tivera uma filha", explicou o narrador.

3. Ayúg é a sombra, a alma, de uma árvore, um dos mais fortes auxiliares dos feiticeiros nas curas.

4. Ave galinácea.

5. "Ele chama a gente de irmãos", explicou o narrador.

6. Planta trepadeira esquisita, parecendo uma escada, que se encontra pendurada nas árvores. Através dela o feiticeiro sobre para o céu, quando cura um doente. O nome desta trepadeira, Kapéi-enkuma(x)pe, significa: "A lua subiu nela".

7. A Via Láctea, o caminho dos mortos; representado por estrelas.

8. A alma dos mortos.

9. Por cima do nosso céu existem, na crença dos taulipangue, mais dez céus, um sobre o outro.

(Em Medeiros, Sérgio (org.). Makunaíma e Jurupari; cosmogonias ameríndias. São Paulo, Perspectiva, 2002 (Textos 13), p.78-80)



Cantando e dançando

Ademar Vidal
Ainda pode ser encontrada dentro da noite alguma casinha de palha com danças e cânticos no terreiro. Mas se trata de festa em torno de gente que morreu. O defunto está estendido por ali, esperando a hora de ser enterrado. É assim. Logo que se constata haver o campanha morrido mesmo, pega-se o cadáver e duas ou três pessoas (são tidos como os privilegiados, os mais amigos, aqueles que não faltaram no último instante) se encarregam de banhá-lo da cabeça aos pés, desde que a tradição ordena: "o finado não pode entrar sujo no outro mundo". E depois dessa operação triste lá vem a bebedeira coletiva. Todos se embriagam em homenagem ao companheiro que desapareceu dentre os vivos. Não se faz distinção: o costume atinge tanto à mulher como ao homem.

Ouve-se a cantoria mais desenfreada. Porém é a letra de samba que vem predominando ultimamente. Também do coco. Quem estiver de parte, olhando, não tem a menor desconfiança da existência de algum morto no salão — e muito menos que se esteja comemorando as "suas qualidades" reveladas quando tinha vida material. Por sua vez, a dança é alegre e rumorosa, juntando sereno com pessoas das redondezas que conheceram o defunto, não tinham dele nada que dizer de mau, até achavam ser "boa criatura que ia fazer muita falta à família".

Essa dança macabra entra pela madrugada e somente acaba no instante em que o cadáver é posto dentro da rede e levado com acompanhamento ao cemitério mais próximo. Se for rede branca, foi morte natural; se for rede encarnada, foi morte de faca ou foice.

Todo o singular espetáculo se desenrola em torno dos despojos. A música vem das originais orquestras do mato: cuíca, tambor e pandeiro. Instrumentos de corda e de sopro não são comuns, antes são muito raros.

A homenagem deve ter sentido. E qual será ele? Investigando aqui e ali, chega-se à conclusão de que não existe outra finalidade naquela barulheira toda, coisa mais de carnaval ou de festa de São João ou de fim de ano — Natal ou Santos Reis: "o defunto precisa ser feliz na outra vida". Ou, como desejam: "entrar lá com o pé direito". A impressão generalizada é de que há "outro mundo além deste" — e com inferno, purgatório e céu. Portanto, há imperiosa necessidade de preparar o freguês, a fim de que vá parar não no inferno, quando muito no purgatório e, se possível, no céu como o lugar de maior sedução para quantos têm a ventura de viver com a fé posta na religião.

As danças e cantorias em torno do cadáver não passam de ardentes augúrios de felicidade na hora da despedida definitiva.

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.434-435)

A zabumba

Valdemar Valente
No Nordeste, zabumba, além de ser o nome do bombo popular, designa também o conjunto musical típico, tradicionalmente mantido em cidades do interior. Conjunto geralmente formado de pifes (flautas de bambu), zabumba (bombo), tarol, popularmente chamado taró e, às vezes, um par de pratos.

Guerra-Peixe, grande estudioso do folclore musical nordestino, autor de vários trabalhos sobre o assunto, entre eles, o excelente Maracatus do Recife, vem de publicar no número 26 da Revista Brasileira de Folclore, interessante ensaio, baseado em pesquisa realizada na cidade de Caruaru, do agreste pernambucano, focalizando a zabumba, que é a orquestra típica nordestina.

Nesse estudo, o maestro Guerra-Peixe chama a atenção para aspectos diversos das zabumbas caruarenses.

Depois de acentuar que o nome mais generalizado é zabumba — por causa da importância do bombo com seu característico toque cadencial — registra outras denominações, entre as quais: tabocal (em virtude dos pifes serem feitos de tabocas), banda-de-pife (lembrando as flautas), terne (porque o grupo instrumental é composto de três parelhas: dois pifes, dois tambores e dois pratos), às vezes também chamado de terno-de-oreia (porque os músicos tocam de oitiva).

Entre as denominações, ainda: quebra-resguardo, para indicar conjuntos que executam mal, quebrando o sossego alheio; esquenta-mulher, em alusão à alegria contagiante da música do zabumba, numa espécie de convite frenético à dança.

Com seu vasto repertório, no qual predominam músicas próprias, criadas pelos instrumentistas, com enxertos de cantigas ouvidas nos alto-falantes e aparelhos de rádio, abrangendo ainda dobrados, marchas, choros, valsas, tangos (os antigos tangos brasileiros), xotes (schottisch), quadrilhas, baiões e também ritmos diversos, deles destacando-se o martelo, o galope, a mazurca. A zabumba nordestina — tão bem representada em Caruaru — desempenha no meio das populações do interior importante e variada função social. Não só na vida social do catolicismo popular (novenas, procissões, batizados, casamentos), como em festas cívicas, durante os carnavais e como simples entretenimento público, nas retretas dos sábados e domingos.

No seu bem documentado estudo sobre orquestras típicas de Caruaru, o maestro Guerra-Peixe fala dos pifes e das escalas, entra em minúcias sobre o zabumba, o tarol e os pratos, não esquecendo de fixar o opulento documentário rítmico-melódico.

 

Nota dos editores: Algumas partituras e MIDIs de temas extraídos do artigo de Guerra-Peixe estão disponíveis na seção Realejo. Ver >>

(Valente, Valdemar. "A zabumba". Diário de Pernambuco. Recife, 23 de agosto de 19[??])


Beleza
Até a primeira metade do século XX, uma estética branca determinava os padrões de beleza em praticamente todo o mundo. Os meios de comunicação, amplificando uma postura de boa parte da sociedade, fizeram o possível para ridicularizar e desvalorizar qualquer estética que remetesse aos africanos. O postulado que vigorava era de que o cabelo crespo dos negros é intrinsecamente feio. O racismo presente nessa estética branca teve efeitos perversos e duradouros para os afrodescendentes, que, a cada momento, precisam afirmar sua identidade.

A África nunca esteve distante do culto à beleza. Não apenas do corpo, mas também da beleza expressa nas diversas formas de arte. Na cultura africana, a concepção do belo está ligada ao bem e ao verdadeiro.


A Arte Africana

A arte é uma das marcas mais fortes dos povos africanos. Ela une utilidade e estética e está nos objetos, na música, na dança, na pintura corporal, no artesanato e nos rituais sagrados. A valorização da arte africana só aconteceu no final do século XIX, com a realização de uma exposição em Bruxelas, em 1897. A partir daí, ela se tornou fonte de inspiração para alguns dos principais artistas europeus, como Matisse, Braque e Picasso. Para essa cultura ancestral, todos os objetos do mundo estão ligados entre si e estão ligados ao corpo e ao espírito. A arte está sempre associada aos eventos e atividades da vida cotidiana, do nascimento à morte. Para o artista africano, nada é fixo ou estático, tudo é animado por um movimento cósmico.

A arte é conhecimento e não imitação da natureza.
Beleza Negra

Ao longo da história, os cabelos receberam atenção especial nas culturas africanas e de matriz africana no Brasil. Em especial, nas culturas de origem banta.

Em conjunto com o rosto, os cabelos definiam a pessoa e o grupo a que pertencia. É um complexo sistema de linguagem que pode indicar posição social, identidade étnica, origem, religião, idade. Principalmente a partir dos cabelos é possível resgatar memórias ancestrais.

O negro é lindo! Esta era uma das premissas do movimento Black Power, surgido nos Estados Unidos em 1960, na luta pelos direitos civis dos negros.

O movimento se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil.

Adornos multicoloridos, tranças, dreads e blacks dão um toque bonito em qualquer visual. Mas, vão muito além da procura pela beleza. Assumir o gosto e o respeito pelas diferentes formas da estética negra sinaliza um pertencimento e um orgulho dessa herança.

O corpo é o mais sagrado e completo instrumento de comunicação nas culturas africanas e afro-brasileiras de matriz banta. A linguagem corporal é compreendida tão claramente que a roupa não deve inibir nem privar seus movimentos, pois isto seria contra os princípios divinos. Assim como o corpo, a roupa mantém uma relação muito íntima com o sagrado.

O negro não se veste, simplesmente. Ele se produz. Por trás de cada gesto há um ritual que o mantém ligado à ancestralidade. Quando põe sobre o corpo ouro e metais; sementes e objetos de madeira, búzios, ossos, peles ou suas imitações, mesmo inconscientemente, está se conectando com os três reinos originais: o mineral, o vegetal e o animal.


 



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