India: estratégia e política externa



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INDIA: ESTRATÉGIA E POLÍTICA EXTERNA
Amaury Porto de Oliveira
No quadro mundial aberto pelo fim da Guerra Fria tem-se tornado usual associar Índia e China, quando se deseja analisar o presente e o futuro próximo das relações internacionais. Isso decorre do peso crescente da Ásia nos parâmetros definidores do poder mundial, e da verificação de que esse peso é assegurado, antes de mais nada, pelo crescimento econômico daqueles dois gigantes. No rol dos países, Índia e China ocupam lugar à parte pelo tamanho das respectivas populações, pela extensão territorial e pela projeção cultural milenar que ambos carregam. Tal como a chinesa, a civilização indiana exerceu importante e permanente influência na história humana. Basta citar o Budismo, sistema de pensamento mais do que religião, como o Confucionismo chinês. Nascido na Índia, o Budismo praticamente desapareceu dali, mas se difundiu na Ásia aproveitando canais desbravados pelos chineses.

Nos dias de hoje, Índia e China estão convergindo política e diplomaticamente, graças à emergência de ambos como baluartes da economia globalizada. Mas nos mais de duzentos anos entre meados do século XVIII e o final do século XX, os dois países viveram separados, e até em antagonismo, pela ação de forças européias. A vitória dos ingleses na Batalha de Plassey (1757) levou à colonização do subcontinente indiano pela Inglaterra, começando pelo chamado “Estupro do Bengala”, período durante o qual a Companhia Britânica das Índias Orientais destruiu a indústria têxtil e as estruturas agrárias da Índia. Na continuação, os ingleses usaram o ópio, cuja cultura fora por eles monopolizada na Índia, para avassalar a economia da China, drenando suas reservas de prata e avançando, com as duas Guerras do Ópio, no sentido de também colonizar o país. Outros europeus intervieram na tentativa frustrada de partilhar o território chinês, até que no século XX invasores japoneses lograssem ocupar efetivamente, embora por pouco tempo, parcelas da China.

William H. Overholt, especialista em Ásia da RAND Corporation, acentua em livro recente1 como é útil comparar Índia e China, de forma sistemática, se se quer obter uma boa compreensão do comportamento de indianos e chineses, no mundo contemporâneo. As duas sociedades têm tradições bem diferentes sobre como governar-se. Na China, a tradição é privilegiar a meritocracia num quadro de governança altamente centralizada. Na Índia, acomodar os diversos estamentos sociais, dando a cada um lugar bem determinado na sociedade e na economia. A população dividiu-se em castas, com posições e tarefas preestabelecidas, sistema que ainda prevalece, apesar dos esforços legais por suprimi-lo. Essas diferenças na prática social, no julgamento do que é justo e nas estruturas do governo influenciam constantemente, observa Overholt, cada aspecto do desenvolvimento econômico e da política externa de Índia e China.

A elite indiana tem uma crença profunda na grandeza da civilização indiana e, também, no papel de grande potência que cabe à Índia. Do mundo se espera o reconhecimento desse destino manifesto. Jawaharlal Nehru, supremo representante desse pensamento, a quem tocou modelar a Índia nos primeiros dezessete anos da independência arrancada em 1947 dos britânicos, procurou claramente encaminhar o país para a obtenção de papel de liderança no sistema internacional, apesar de ter plena consciência dos limites de pobreza e atraso que o tolheriam. Há registro de momento em que Nehru, por assim dizer, caiu em si. Em 1962, Índia e China chocaram-se militarmente a propósito da definição de fronteiras. Nehru mantinha a posição de que fronteiras eram questão de costume e geografia, enquanto os chineses argumentavam que os limites entre os dois países vinham da era colonial e estavam, assim, sujeitos a correções. Gestos mal pensados de Nova Délhi provocaram a guerra fronteiriça, na qual os chineses impuseram forte derrota aos indianos, mas se retiraram unilateralmente para a linha costumeira, congelada até hoje. Num discurso da época, Nehru reconheceu que os indianos “estavam vivendo numa atmosfera artificial, de sua própria criação”2.

Na verdade, é impraticável explicar em termos de realismo ou idealismo a obra política de Nehru. Ele era um intelectual formado no mais alto nível do pensamento universitário inglês, ao mesmo tempo que cidadão impregnado de cultura indiana, determinado a situar seu país, reconhecidamente atrasado e pobre, no pelotão da frente do sistema internacional dos Estados. Sob a direção de Nehru, a Índia adotou (1949) uma Constituição ousada e complexa, instituindo Estado secular e democrático que procurou acomodar, em vez de assimilar ou suprimir, as grandes diversidades étnicas e sociais da população. Tendo também de adequar isso à preocupação de dividir para reinar, demonstrada pelo colonizador quando se tornou inevitável preparar a independência. Dois eleitorados distintos – hindu e mulçumano – foram adrede criados, sobre os quais viria a processar-se a fragmentação do subcontinente (Índia, Paquistão e Bangladexe), além do surgimento da área de definição até hoje não resolvida, do Caxemira. A Índia não se libertou do colonialismo através da violência revolucionária empregada pela China, mas o quadro de divisões que lhe foi legado segue trazendo morte e destruição para os habitantes.

Num quadro Westphaliano clássico, com o comportamento dos Estados reduzido a motivações de segurança econômica e militar, a Índia deveria figurar entre os países com que mais teria de preocupar-se a China. Não faltam, aliás, análises que mostram a Índia empenhada em não deixar que a China se torne a potência dominante na Ásia ou no Oceano Índico. É possível levantar, em revistas especializadas, análises nesse sentido, que inclusive encontram eco entre publicistas indianos. Assim também como, entre estrategistas dos EUA. Mas é interessante verificar que as análises chinesas do mundo multipolar não costumam incluir a Índia como pólo de importância. J. Mohan Malik mencionou o fato num bem documentado artigo de 19953, reportando-se a conversas com analistas chineses, para os quais a Índia simplesmente não dispunha de capacidade nos terrenos econômico, militar, tecnológico, político e diplomático, nos níveis julgados necessários, em Pequim, para a atribuição a um país da posse de “força nacional abrangente”.

Nehru foi o seu próprio Ministro do Exterior, e ele empenhou-se em buscar para a Índia um papel ativo e independente nas relações internacionais, tudo envolto em princípios morais e idealistas que contrastavam com a realpolitick praticada pelas grandes potências. Em vez de preparativos militares e sanções, a Índia pregava negociações. Em vez de contenção e destruição do comunismo, convivência pacífica. Em Washington, pelo menos, esse tipo de comportamento ecoava mal, e os arquivos americanos guardam um memorando, preparado em 1949 para o Embaixador itinerante Phillip C. Jessup, no qual se debate se é possível confiar na Índia: “Índia has emerged from World War II as the strongest power in Ásia. Its position of dominance will problably increase as its power potential is developed. We have no great assurance that India in the future will ally itself with us and we have some reason to believe that it might not. Pakistan, if given reasonable encouragement, might prove the more reliable friend.”4

Levados por esse tipo de análise, os EUA decidiram, em fevereiro de 1954, iniciar um programa de maciça ajuda militar ao Paquistão. Foi a primeira intervenção aberta de uma superpotência, no pós-Segunda Guerra Mundial, no subcontinente indiano, que estivera até ali fora do conflito entre blocos. A Índia reagiu, mas tentando ainda criar um equilíbrio de forças políticas, não militares. Nehru estreitou as relações com a União Soviética e a China, obtendo de Moscou forte apoio para os planos indianos de construção da indústria pesada. Graças a essa política de amizade sem alinhamento com o bloco soviético, a Índia animou Washington a botar em marcha um programa de ajuda econômica, com o fornecimento de substanciais quantidades de grãos. No Paquistão, enquanto isso, animavam-se os militares. Um golpe de Estado colocou-os no poder, em 1958, sem prejudicar a ajuda militar americana, que foi ao contrário reforçada, em 1959. Alarmada com o fluxo de armas para o vizinho e rival, a Índia foi mudando o tipo de relacionamento com a União Soviética, caindo na dependência dessa em matéria de armamentos e de produção de energia nuclear.

Em 1974, a Índia levou a cabo uma “explosão nuclear para fins pacíficos”, causando consternação mundial. Tornou-se patente que a Índia utilizara combustível reprocessado de reatores de pesquisa, cedidos pelo Canadá, verificação que foi um dos determinantes da criação do Grupo de Fornecedores Nucleares (GFN). Outra conseqüência da iniciativa indiana foi a decisão de Ali Bhutto, Presidente do Paquistão, de iniciar um programa clandestino para a construção da bomba atômica, usando também combustível irradiado nos dois reatores de pesquisa do seu país. O Paquistão possui minas de urânio, e isso lhe facilitou adotar a tecnologia dos reatores rápidos, sem necessidade de enriquecer o mineral, instalando apenas uma fábrica de água pesada. O salto para o enriquecimento do urânio não tardaria a ser dado, no entanto, com a instalação em Kahuta de usina de centrifugação, com tecnologia furtada da URENCO, na Holanda, pelo engenheiro paquistanês Abdul Qadeer Khan, que lá trabalhara entre 1972-75. Qadeer Khan se tornaria herói nacional, como “O Pai da Bomba Atômica Paquistanesa”, e os americanos deixaram esse programa avançar, nos anos 1980, preocupados que estavam em obter a cooperação do regime militar de Zia-ul-Haq para a expulsão dos soviéticos do Afeganistão. A situação mudaria em 1989, quando os russos abandonaram o Afeganistão. O Departamento de Estado deixou de súbito de fornecer ao Congresso, em Washington, a declaração anual de que os paquistaneses “não processavam explosivos nucleares”, e a ajuda militar cedeu lugar a sanções Abriu-se aí uma oportunidade para a China, que desde os anos 1950 mantinha bom relacionamento com o Paquistão, e pôde agora tornar-se fonte de material de defesa, em particular mísseis balísticos de curto e médio alcance

Vou dar um salto para maio de 1998, quando a Índia tornou pública sua reivindicação a potência nuclear, efetuando uma série de cinco explosões subterrâneas. O Paquistão logo replicou com suas explosões. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, do alto da exclusividade de potências nucleares que lhes dá o TNT, protestaram indignados, e o Congresso americano aprovou as Sanções Glenn contra os dois países infratores. Acontece que a Índia havia posto em marcha, desde 1991 e de comum acordo com o FMI e o Banco Mundial, um processo de liberalização das suas rígidas estruturas econômicas. Vinha igualmente avançando, sob o estímulo de mudanças na política imigratória dos EUA, o fortalecimento da colônia de imigrantes de origem indiana, que se tornariam ao longo dos anos 1990 uma das minorias étnicas mais ricas e profissionalmente mais bem sucedidas do quadro doméstico americano, com peso inclusive no plano eleitoral. Em outras palavras, crescia no contexto político dos EUA a margem de boa vontade para com a Índia, circunstância a ter presente na análise dos desenvolvimentos posteriores.

Um mês depois das explosões nucleares de 1998, o então Sub-Secretário de Estado Strobe Talbott começaria a encontrar-se, discretamente, com o Ministro do Exterior da Índia, Jaswant Singh. O próprio Talbott descreveu, em conhecido livro5, a série de catorze sessões que se estenderam até meados do ano 2000, e para as quais foram sendo chamados especialistas dos dois lados. O diálogo Talbott-Singh foi bem além dos problemas da proliferação nuclear, tendo avançado pelo terreno da cooperação estratégica e do combate ao terrorismo internacional. Serviu de preparação para a visita de cinco dias do Presidente Bill Clinton à Índia, em março de 2000. No regresso, ele faria uma parada de cinco horas no Paquistão, tornando claro que a Índia estava sendo escolhida para parceiro privilegiado dos EUA na Ásia Meridional.

O governo republicano de George W. Bush, instalado menos de um ano mais tarde, não se deixou ligar pelas opções da diplomacia dos democratas, e redescobriu a importância da cooperação com os militares paquistaneses, na luta contra os talibãs e o terrorismo em geral. O Paquistão iria ser mesmo distinguido como “importante aliado fora da OTAN”, e Washington endossaria as “explicações” de Islamabad, segundo as quais o amplo fornecimento de tecnologias e equipamentos para a produção de armamento nuclear, a países como o Irã, Coréia do Norte e Líbia, havia sido conduzido sem o conhecimento do governo, por uma quadrilha montada por Abdul Qadeer Khan. Ele fez ampla confissão pública e foi perdoado por Pervez Musharraf,

Mas a Índia não podia mais ser ignorada. Há um artigo na revista Survival (Autumn 2004)6, no qual um pesquisador indiano põe em realce três pressões de tipo estratégico que compelem EUA e Índia a cooperarem: (1) o fator China – setores ligados à defesa, nos dois países, vêem a China como ameaça às suas próprias visões da ordem internacional; os indianos não puderam nunca absorver a idéia da China como única potência nuclear da Ásia, com assento permanente no Conselho de Segurança; é, inclusive, possível ligar o timing das explosões nucleares indianas à aparência de uma identificação do governo Clinton com posições anti-proliferação de Pequim; (2) o aumento na interpenetração das economias de serviço dos dois países, especialmente sensível no terreno da Informática, mas estendendo-se à Educação, à mídia e à indústria do entretenimento; (3) o aprofundamento da cooperação intergovernamental nos setores de inteligência, coordenação militar e comunicações. A pressão desses diversos fatores foi mais forte que divergências partidárias, nos EUA e das oscilações na liderança política da Índia.

A esta altura, aliás, torna-se conveniente verificar como vinha evoluindo o quadro governamental indiano. A Constituição de 1949 pretendera criar, na Índia, um Estado leigo, sem divisões verticais de tipo religioso. Num quadro ideológico fortemente marcado pelas visões herdadas do colonizador britânico, coube ao Partido do Congresso, surgido no final do século XIX, instalar um equilíbrio – entre classes e castas; entre interesses nacionais e regionais – capaz de tornar a Índia governável. Era o Sistema do Congresso, que deu consistência ao exercício da democracia, em coexistência com alto grau de violência política. Esse paradoxo foi tornando cada vez mais difícil ao poder central impor sua autoridade, e nos anos de 1960 a filha e herdeira política de Nehru, Indira Gandhi (nome de casada, sem ligação com o Mahatma) buscou superar a dificuldade através de estratégias populistas, que reforçavam seu poder pessoal em prejuízo dos chefes políticos locais. Ela terminou sendo assassinada.

Indira e seu filho e sucessor Rajiv (que também seria assassinado) inspiraram-se nas práticas do colonizador de dividir para reinar, rompendo com a imparcialidade religiosa. Recorreram ambos à criação de “bancos de votos” com base em oposições de crenças, erodindo assim o secularismo constitucional. A casta e a religião adquiriram crescente importância na arena política, e ganhou força o Bharatiya Janata Parti (BJP), organização que se apresenta como expressão da hindutva, isto é, a “hindunidade”, essência do ser indiano. No ideário do BJP, a Índia é o país dos hindus, afirmação que deixa à margem da nação cerca de 200 milhões de habitantes, de religião mulçumana ou outras. Foi martelando isso com estridência que o BJP cresceu na vida política do país, a partir dos anos 1980. Em 1992, um dos seus dirigentes, L. K. Advani, liderou uma turba de partidários na demolição da famosa e bela mesquita de Ayodhya, sob a alegação de que fora a mesma construída, na época do domínio moghul, em sítio sagrado para os hindus. Milhares de mulçumanos e hindus se entremassacraram de lá para cá, em protestos e contra-protestos desencadeados pela demolição de Ayodhya.
Em meio a tudo isso, o Partido do Congresso foi perdendo força e, nas eleições gerais de abril-maio 1996, nenhuma das três principais formações políticas – Congresso, BJP e Frente Nacional Esquerdista – obteve clara maioria na câmara baixa. O Parlamento fragmentara-se num grande número de bancadas predominantemente regionais e a Índia ingressou em período de governos de coalizão. Em 1998, a NDA (National Democratic Alliance), com o BJP à frente de 22 partidos, assumiu o poder. No ideário do BJP, a fidelidade ao hinduismo mescla-se à determinação de construir uma Índia forte e poderosa, e assim foi que, apenas instalado no poder, decidiu o partido rasgar o véu de silêncio que o jogo internacional mantinha sobre a capacidade nuclear da Índia. Sobrevieram as explosões subterrâneas de maio de 1998. Segundo comentários jornalísticos da época, o velho líder do BJP e Primeiro Ministro Atal Behari Vajpayee estava convencido de que o mundo mudara com a Guerra do Golfo. A Índia precisava mostrar sua força, e resolver seu problema com o Paquistão diretamente, antes que os EUA lhes impusessem uma “solução americana”.

Depois do Onze de Setembro, Vajpayee apoiou abertamente Washington na luta contra o terrorismo e passou a estreitar laços de segurança com Israel, mas tendo o cuidado de não se prender demais a esses dois. Visitou Pequim, Moscou, Teerã e Damasco para desenvolver laços comerciais com outros parceiros e marcar a insatisfação do seu governo com a persistência de velhas desigualdades, no quadro da economia em processo de globalização. De especial importância foi a visita de Vajpayee à China, nos últimos dias de junho de 2003. Menos de um mês depois (14.07.03), o Gabinete indiano tomou a decisão de não enviar tropas para juntar-se à intervenção comandada pelos EUA no Iraque. O BJP buscava fortalecer o poderio nacional indiano, cooperando com Washington, mas sem enterrar a tradição terceiro-mundista e de não alinhamento, que caracterizara a Índia até a guinada de comportamento simbolizada pelas explosões nucleares de 1998.

Na verdade, o distanciamento da Índia das velhas definições começara em 1991, quando o governo de Narasimha Rao (Partido do Congresso), sufocado por grave crise financeira, teve de ceder à pressão do FMI e encetar a já mencionada liberalização das estruturas econômicas do país. O verdadeiro arquiteto da liberalização foi Manmohan Singh, que era Ministro das Finanças no Governo Rao. E o grande desdobramento permitido pela abertura da Índia às novas práticas da vida internacional, em sintonia com a globalização econômica dos 1990, foi a transformação do país na grande base mundial da terceirização eletrônica. No nível das firmas de alcance global, a terceirização (outsourcing) é a contratação de parceiro, que pode estar fisicamente nos antípodas, para a execução de tarefa antes executada pela firma contratante e para a qual volta o resultado do trabalho. A prática tem prosperado, em particular, no mundo anglo-saxão dos negócios, e a Índia, com seu importante segmento populacional de angloparlantes, tornou-se o paraíso da terceirização dos serviços de alto nível. Com a sua preocupação de preparar os indianos para “defenderem com inteligência o próprio interesse”, Nehru dera grande importância aos graus secundário e terciário da educação, e legou ao país uma rede de sete Institutos Indianos de Tecnologia com os correspondentes Instituto Indianos de Gerenciamento. Essa rede está formando, anualmente, cerca de dois milhões de profissionais (80% deles fluentes em inglês), uma boa parte dos quais é absorvida pela terceirização, com salários abaixo da prática internacional. Como, por outro lado, tenha a classe empresarial indiana fortes laços com a bem sucedida e rica diáspora de indianos nos EUA, consolidou-se o terreno para a fase de crescimento que está colocando a Índia entre os países de peso mundial.

Em abril-maio de 2004 realizaram-se eleições gerais na Índia e o BJP tentou manter-se no poder, como o artífice do êxito global do país. Os avanços internacionais da Índia não se estavam traduzindo, porém, em melhoras nas condições de vida para a maior parte da população. Tampouco havia efetiva modernização da infraestrutura material e dos sistemas de saúde e educação, e nem era correto atribuir ao governo central o mérito pelas conquistas que estivessem ocorrendo. Na medida em que pudesse haver participação do poder público, vinha da ação de quatro governos de Estados do Sul. Só o BJP deixou-se surpreender com a decisão dos eleitores de dar a vitória ao Partido do Congresso, à frente da UPA (United Progressive Alliance). A UPA levantou 220 cadeiras, das quais 145 detidas pelo Partido do Congresso, que no entanto ainda ficou na dependência de apoio externo à coligação para poder formar governo. A maioria governamental foi formada com o compromisso da Frente Esquerdista, detentora de 59 cadeiras (43 do Partido Comunista-Marxista), de apoiar a UPA por ocasião de votações no Parlamento. Cabia à viúva e herdeira política de Rajiv Gandhi, Sonia Gandhi, o direito constitucional de formar o governo, mas ela renunciou ao mesmo, a fim de cortar cerce as reações xenófabas provocadas pelo fato de ser italiana de nascimento. Sônia indicou para Primeiro Ministro o economista Manmohand Singh, que trazia a fama de arquiteto da reforma econômica de 1991.

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A rápida recapitulação acima feita, do primeiro meio-século de vida internacional da República da Índia, ajudará na compreensão das várias dimensões que se estão abrindo para a integração dos indianos no século XXI. As reformas econômicas de 1991 são um ponto de partida, por exemplo, do que vai sendo chamado “o retorno da Índia à Ásia”. As limitações da Guerra Fria haviam levado os governos indianos a rejeitar o modelo de desenvolvimento econômico puxado pelas exportações, predominante na Ásia Oriental, em favor da substituição das importações. Perdera vigor também, em Nova Délhi, a idéia de uma Grande Ásia como expressão do entendimento China-Índia, na linha da Conferência de Bandung de 1955. Mas com as reformas econômicas internas dos anos 1990, a Índia começou a atrair comércio e investimentos do Leste Asiático e, na altura de 2003, já havia políticos insistindo no “direito histórico” da Índia a integrar a Comunidade Asiática. Essa pretensão ecoou no Sudeste Asiático, e com a ajuda em particular de Cingapura, a Índia foi convidada a participar das duas cúpulas formativas da Comunidade: Kuala Lumpur, Malásia (dezembro de 2005) e Cebu, Filipinas (janeiro de 2007). Recuperando o “espírito de Bandung”, Kuala Lumpur e Cebu marcaram o esvaziamento da visão estratégica da Ásia-Pacífico, simbolizada pela APEC, e que procurara associar o Leste Asiático à orla pacífica das Américas, com os EUA no centro do processo. Reafirmava-se agora a visão da Ásia para os asiáticos, com a China como o fator de integração das várias Ásias: Oriental, Meridional, Central, Sudocidental... O entendimento China-Índia voltava a ser crucial7.

A reaproximação dos dois gigantes asiáticos começara em dezembro de 1988, quando Rajiv Gandhi tomou a iniciativa de visitar Pequim. As relações sino-indianas vinham geladas desde os anos 1970, em função do conflito ideológico China-URSS. Mas foi Mikhail Gorbatchov quem instigou Rajiv a quebrar o gelo, numa aplicação do congraçamento asiático que ele pregara no seu famoso discurso de Vladivostok (julho de 1986). Depois da pioneira viagem de Rajiv, não cessou a troca de visitas de alto nível entre Pequim e Nova Délhi, levando à já citada ida a Pequim do Primeiro Ministro Vajpayee (junho de 2003). Durante a mesma, os líderes chineses se comprometeram a enterrar décadas de guerra fria entre os dois vizinhos e a impulsionar “uma cooperação abrangente”. Essas boas intenções iriam ganhar contornos práticos dois anos mais tarde, já sob o novo governo do Partido do Congresso, quando o Primeiro Ministro Wen Jiabao efetuou visita de Estado a Nova Délhi (abril de 2005), evento saudado na imprensa indiana como um dos “mais importantes da década, na agenda diplomática da Índia”. O estreitamento do intercâmbio comercial foi o principal terreno impulsionado nas conversações bilaterais, mas dignas de nota foram a flexibilidade demonstrada pelos dois lados no encaminhamento dos litígios fronteiriços, a reafirmação pelos indianos do reconhecimento da soberania da China sobre o Tibete, e a aceitação pelos chineses do uso privilegiado, pela Índia, de antigas rotas comerciais no Sikkim. Em janeiro de 2005, um relatório do Conselho Nacional de Inteligência americano havia analisado a aproximação sino-indiana, predizendo para 2020 situação em que EUA, China e Índia estarão tendo de ajustar-se entre si, na definição da ordem internacional. E houve quem interpretasse os resultados da visita de Wen Jiabao como um primeiro passo, na superação do estado de coisas em que China e Índia ainda vêem as respectivas relações com os EUA, como mais decisivas do que o relacionamento entre elas.

O semanário The Economist registrou certa vez a opinião de ex-Embaixador da China na Índia, para quem era perfeitamente normal e até desejável a rivalidade entre os dois países. O importante – dizia o diplomata – é que seja uma rivalidade virtuosa, não viciosa. Exemplo deste segundo tipo foram as desavenças fronteiriças que provocaram o conflito armado de 1962, e exigiram mais de um quarto de século para a normalização das relações bilaterais. Em 1998, no entanto, Pequim mal comentou os testes nucleares indianos. Foi só depois que Vajpayee enviou uma carta ao Presidente Clinton, associando os testes “ao perigo do Norte”, referência à China tornada mais explícita em entrevista à imprensa do Ministro da Defesa indiano da época, que apareceram críticas verbais em Pequim, mas ainda assim mais preocupadas com rebater a insinuação de “ameaça chinesa” do que em contestar a oportunidade dos testes. A China aceitou tranquilamente a mudança de fato no equilíbrio militar na Ásia e não deixou que a mesma alterasse o novo clima de cooperação sino-indiano. Na edição de 12.11.98, a Far Eastern Economic Review noticiou, como “o primeiro encontro de importância de especialistas chineses e indianos, desde os testes nucleares do mês de maio”, um seminário acadêmico em Pequim em homenagem a Tan Yunshan, professor universitário dos anos 1920, que se notabilizara promovendo a amizade com a Índia

O já citado William Overholt, no seu recentíssimo estudo sobre a Ásia, apresenta um quadro bastante realista das contradições econômicas, políticas e estratégicas em que ainda se debate a Índia. Os efeitos da democracia sobre o desempenho econômico do país – acentua Overholt – vão muitas vezes num sentido inverso ao que prognosticam as teorias ocidentais. Numa sociedade onde a pobreza priva a maior parte da população da capacidade de compreender o jogo político e organizar-se para dele participar, a prática das eleições tende a dar vantagens injustas à elite, agravando os desequilíbrios sociais. Na Índia, por exemplo, segue lamentável a situação no nível da educação primária, com metade das mulheres e muitos homens analfabetos. Os professores do grau assumem, eles próprios, status de elite, mostrando-se acima de eventuais reclamações dos pais. Problemas desse tipo repetem-se na saúde e na construção da infraestrutura material do país. Apesar disso, as realizações econômicas da Índia são reais e o país está podendo firmar-se como a força predominante no subcontinente, não pelo poder das armas ou pelo tamanho, e sim através da sua estabilidade política e das vantagens econômicas que vai acumulando sobre o Paquistão e o Bangladexe. Mas a Índia ainda não superou a ânsia por preeminência militar. Seu comportamento na região, desde a independência, tem sido agressivo. Invadiu e absorveu Goa; firmou presença no Sikkim; conduziu duas guerras contra o Paquistão e esteve a passos de um confronto nuclear com este vizinho; interveio para assegurar a separação do Bangladexe do Paquistão; incitou a guerra civil no Sri Lanka e depois enviou uma força expedicionária para controlá-la.

Citando um estudo do Colégio de Guerra do Exército, dos EUA8, Overholt chama a atenção para o fato de que, ao contrário da China que não possui bases militares no exterior, a Índia construiu uma base aérea no Tadjiquistão e negocia facilidades logísticas e outros ajustes militares com o Irã, Tadjiquistão, Casaquistão, Uzbequistão, Malásia, Indonésia, Cingapura, Tailândia, Laos, Vietnam, África do Sul, Omã, Emirados Árabes Unidos e Mianmar. Nova Délhi teria requerido dos EUA o reconhecimento de que a Índia possui interesses militares numa “faixa estratégica” que se estende do Canal de Suez ao Estreito de Malaca. Essa pretensão indiana coincide, aliás, com visões estratégicas do Governo Bush-II. Seu relatório sobre a “National Security Strategy”, para 2002, explicitava: “partimos hoje da verificação de que a Índia está em vias de transformar-se numa potência global, com a qual possuimos interesses estratégicos comuns”. E é possível levantar em várias fontes que o Pentágono promove o conceito de um “arco estratégico” estendendo-se desde Suez ao Japão, claramente voltado para a contenção da China e tendo a Índia como um dos seus principais pontos de apoio. É a visão da Índia como baluarte desse arco que explica a decisão de Bush de ajudar o programa nuclear indiano, passando por cima de todas as objeções domésticas e internacionais a tal ajuda.

O anúncio feito pelo próprio Bush, em outubro de 2005, de que os EUA iam ajudar a indústria nuclear da Índia causou perplexidade e rejeição em vários círculos, tanto no interior do país quanto no plano internacional. Era um prêmio ao desafio indiano aos regimes multilaterais anti-proliferação e à repetida recusa de Nova Délhi de assinar os tratados pertinentes. Fácil de entender, no entanto, no contexto da política do Governo Bush na matéria, que fora elaborada por neo-conservadores radicais do peso de Robert Joseph e John Bolton. Rejeita a mesma as premissas fundamentais do TNT e parte da idéia de que o importante não é verificar se há intenção de obter armamento nuclear. Importa determinar o caráter, bom ou mau, de quem vai controlar o armamento. Os bons têm a via liberada, os maus devem ser barrados de chegar lá, se não puderem ser eles próprios suprimidos no caminho. Em outras palavras, a Índia, declarada “país responsável” no anúncio de Bush, pode levar adiante seu programa nuclear, mas não o Irã, membro do “Eixo do Mal”. As negociações que levaram ao acordo indo-americano no campo nuclear começaram ainda sob o Governo Vaypayee, com a criação em dezembro de 2001 de um Grupo bilateral de Planejamento e Defesa. Manmohan Singh elevaria as conversações a novo nível e, em abril de 2005, Condoleezza Rice visitaria Nova Délhi, precedida de declarações oficiais, em Washington, em que se lhe atribuía a missão de “ajudar a Índia a tornar-se uma potência mundial no século XXI”. Nesse espírito, os Ministros da Defesa dos dois países assinaram, em fins de junho de 2005, um acordo de dez anos, abrindo caminho para a produção conjunta de armas, cooperação em matéria de mísseis de defesa e suspensão do controle americano sobre vendas à Índia de tecnologias militares sensíveis.

Três semanas mais tarde, Manmohan Singh iria a Washington, a convite de George Bush, para negociar um acordo que daria à Índia acesso a tecnologia nuclear avançada dos EUA e abria a porta para a venda de reatores nucleares aos indianos. Esse acordo, que reverteu décadas de proibições americanas a transferências de tecnologia nuclear, veio a ser assinado em março de 2006, por ocasião de visita de Bush à capital indiana. Os embates finais giraram em torno da definição numérica dos dois setores reconhecidos ao trabalho nuclear da Índia, e o martelo só foi batido quando a Índia concordou em colocar catorze dos seus 22 reatores nucleares (oito ainda em construção) no programa civil, sujeito à inspeção da AIEA. Fora da lista civil foi, aparentemente, deixada a linha dos reatores experimentais a urânio natural, capazes segundo alguns cálculos de fornecer combustível para 50 bombas por ano. Três anos mais tarde, começam a completar-se os trâmites para a entrada em vigor do acordo. M. Singh obteve voto de confiança no Parlamento, contra a oposição da Frente Esquerdista à cooperação com os EUA. A AIEA aprovou o acordo (01.08.08), que será submetido ao GFN no dia 21, na corrida pela aprovação do Congresso americano ainda sob Bush.9

Não deve passar despercebido que a importante viagem de Wen Jiabao a Nova Délhi, em abril de 2005, ocorreu na esteira da estada lá de Condoleezza Rice. A Secretária de Estado americana fora impulsionar a cooperação estratégica com a Índia e o Primeiro Ministro chinês acorreu para, pelo menos, neutralizar esse trabalho. Enquanto os EUA vão impulsionando a Índia a posições mais contundentes no plano internacional, a China a puxa para fora do jogo geopolítico e a concentração no jogo econômico. A crescente necessidade de insumos energéticos na Ásia é um terreno em que aparece com força a divergência acima. Em círculos estratégicos de Washington e aliados vigora a idéia de uma organização regional, liderada pelos EUA, que encaminhe o problema em termos de segurança. A idéia não tem marchado, em parte por causa da obsessão americana de subordinar toda a problemática ao reforçamento da aliança militar EUA-Japão. Mesmo a cooperação nuclear com a Índia tende a ser posta no quadro dessa aliança, para susto dos indianos. A estes agrada, por certo, o empurrão recebido dos americanos no tocante à indústria nuclear, mas alarma-os a idéia de se verem envolvidos no complicado relacionamento EUA-China. Com os chineses, Nova Délhi prefere explorar a grande complementaridade que a globalização está trazendo para as respectivas economias. Quando Manmohan Singh visitou o Japão, em fins de 2006, o Primeiro Ministro japonês sugeriu que a Índia aderisse a um “concerto democrático quadrilateral”, que envolveria ainda os EUA e a Austrália. Em agosto de 2007, Abe Shinzo retornou a visita do colega indiano e voltou a insistir na idéia da cooperação quadrilateral. A Índia tem evitado comprometer-se, no entanto. No plano concreto, vem tomando iniciativas que a aproximam de posições chinesas e aborrecem os EUA. Como a compra de gás natural em Mianmar e no Irã, com a conseqüente negociação de gasodutos com países da lista negra de Washington. Em outubro de 2007, o Ministro do Exterior da Índia discutiu em Harbin (China), com seus colegas chinês e russo, a situação no Mianmar após a rebelião dos monges budistas. Expressaram os três apoio à missão do Enviado Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas, mas rejeitaram a imposição de sanções, “no presente estágio”10.

Embora as aspirações globais de China e Índia exibam boa dose de competitividade, as pressões nascidas da fase de acelerado crescimento dos dois países fazem com que se afirme uma competição virtuosa. Mesmo no tocante às tecnologias da informação (TI), consolida-se a divisão de trabalho entre a excelência da Índia no software e os avanços da China no desenho e produção de circuitos integrados e componentes eletrônicos em geral. Surgem parcerias e intercâmbio de unidades produtivas entre firmas dos setores correspondentes. Índia e China começam, também, a aliar-se em projetos energéticos internacionais, em particular na África. E os dois estabelecimentos militares vêm elevando o grau da cooperação entre si, com vistas à segurança do transporte de material energético no Oceano Índico e partes do Pacífico. Os dois países estão reforçando de forma sistemática as respectivas esquadras de alto-mar, e em novembro de 2003 realizaram um primeiro exercício conjunto ao largo da costa de Xangai. O ritmo da cooperação militar vai sendo mantido, e ampliado a operações terrestres, com a troca de visitas no nível de oficiais generais, missões de treinamento e exercícios conjuntos. Em maio de 2006, os dois governos assinaram um Memorando de Entendimento para o Aprofundamento da Cooperação de Defesa, com a primeira reunião de consulta vindo a ocorrer em dezembro de 2007, quando se realizou também o primeiro exercício militar sino-indiano. Antes disso, em outubro de 2005 e a convite da China, a Índia enviara observadores para exercício conjunto China-Rússia, no contexto da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla inglesa). Essa SCO, surgida como o Grupo de Xangai por iniciativa da China, vem-se tornando um dos principais polos de estruturação estratégica do continente asiático, numa perspectiva independente dos EUA. Além da China e Rússia, são membros quatro das cinco repúblicas da antiga Ásia Central Soviética, e já participam, como observadores, Irã, Índia, Paquistão e Mongólia.

Estudos do Banco Mundial, dedicados a acompanhar a intensificação no novo século dos fluxos internacionais Sul-Sul de comércio e investimentos, vêm realçando o crescimento maciço das trocas entre a Ásia e a África. Em meados de 2006, um desses estudos analisou extensamente o papel da China e da Índia nesse crescimento11. Os dois gigantes asiáticos têm um histórico de comércio internacional que remonta à famosa Rota da Seda. Mas é nos dias de hoje, com a rápida modernização industrial e o surto de classes médias ansiosas por consumo, que China e Índia estão efetivamente ajudando a recolocar a África no mapa econômico do mundo. A China começou mais cedo e tem a seu favor o trabalho de um Estado mais centralizado e eficaz, mas a Índia apóia-se na existência de considerável diáspora, descendente das levas de trabalhadores transportados na segunda metade do século XIX, no quadro do Império Britânico, para a edificação na África dos portos, estradas, etc., necessitados pelo colonizador. De todo modo, firmas indianas e chinesas, num tipo de competição virtuosa, vêm atuando como carreadoras de capacitação e avanços tecnológicos, bem como de equipamentos modernos para a nova África. Como as firmas chinesas e indianas obedeçam a modelos corporativos já adaptados ao trabalho internacional, graças aos vínculos com empresas e grupos estrangeiros instalados nos seus dois países, vêm elas podendo facilitar o entrosamento da modernização econômica da África com o mundo da globalização.

Apesar do peso específico que já alcançaram no quadro da economia global, e das projeções que lhes dão participação relativa ainda mais representativa num horizonte de duas ou três décadas, China e Índia continuam sendo economias médias, classificadas, numa categoria de uso recente, como países emergentes. .O jogo da globalização vem levando a que esses países ora se agrupem em torno de certos objetivos, ora se isolem na afirmação de algum interesse nacional. No quadro da Rodada Doha, por exemplo, constituiu-se o Grupo dos 20, com o objetivo único de obter um acordo favorável aos emergentes em geral. Outro exemplo foi o da firma consultora internacional que destacou Brasil, Rússia, Índia e China como potenciais figurantes entre as dez maiores economia do mundo, dando origem à sigla BRIC. Num encontro de seus Chanceleres em Genebra (16.05.08), esses quatro países decidiram assumir a posição de grupo de consulta, pronto a opinar nos assuntos ligados à segurança e estabilidade da economia global. Mais estruturado e com objetivos mais permanentes é o IBAS, agrupamento no qual Índia, Brasil e África do Sul vêm usando a coincidência de serem imponentes países da periferia do capitalismo mundial, com peso nos respectivos continentes, para impulsionarem em conjunto aspirações dos três. São enormes as diferenças que os distinguem entre si, mas é também grande a complementaridade nas suas cadeias produtivas e nos seus mercados consumidores, o que lhes permite adotar comportamento coordenado em foros internacionais. Em meio à grande ambigüidade que caracteriza o comportamento dos emergentes, a Índia poderá talvez firmar-se como um país-ponte, servindo de elo entre os países ricos e os países pobres; entre os EUA e a China, em especial12.



A fragilidade da cooperação entre os emergentes tornou-se patente, no mês de julho, quando se realizou em Genebra o que deveria ser a sessão de encerramento da Rodada Doha da OMC. O Grupo dos 20 não conseguiu manter a coesão de propósitos que lhe dera origem, e tomou corpo, na reunião, a equação EUA vs China-Índia, que parece destinada a estar no centro do grande jogo internacional, no século XXI. Os EUA, levados pelo peso dos interesses agrícolas em ano eleitoral, mostraram-se intransigentes em manter o direito de aumentar seus subsídios à agricultura, pressionando Índia e China a aceitarem importações americanas, mesmo subvencionadas13. Os delegados desses dois países retiraram-se da sala de negociações, e a sessão e a rodada terminaram em impasse.
Campinas, agosto de 2008.


1 Overholt,William H. Asia, America and the Transformation of Geopolitics. The Rand Corporation, 2008

2 cf. Zakaria, Fareed. The Post-American World. New York: W. W. Norton, 2008 - pg 149.

3 Malik, J, Mohan. China-India Relations in the Post-Soviet Era: The Continuing Rivalry. em The China Quaterly (June,1995).

4 cf. Nayar,Balden Raj & T. V. Paul. India in the World Order. Cambridge: Cambridge University Press, 2003 - pg 147.

5 Talbott, Strobe. Engaging India: Diplomacy, Democracy and the Bomb. Washington: Brookings Institution Press, 2004.

6 Sagar, Rahul “What’s in a name? India and America in the 21st Century” Survival vol 46.

7 São inúmeros os artigos acadêmicos que descrevem os desdobramentos da política externa da India nos anos posteriores à Guerra Fria. Destacareo três deles: 1) White, Huge. “Great Power Gambits to secure Asia’s Peace” em Far Eastern Economic Review. Hong Kong (Jan/Feb, 2007); 2) Pant, Harsh V. “India in the Asia Pacific: Rising Ambitions with an Eye on China” em Asia-Pacific Review, London: Routledge (May, 2007); 3) Desker, Barry “New Security Dimensions in the Asia-Pacific” em Asia-Pacific Review, London: Routledge vol 15 nº 1, 2008.

8 Blank, Stephen J. “Natural Allies? Regional Security in Ásia and Prospects for Indo-American Strategic Cooperation” Carlisle, PA: Army War College Strategic Studies Institute, 2005. Citado por William H. Overholt, cf. n1, pp 197-199.

9 Uma boa apresentação da problemática em causa é feita por Fitzpatrick, Mark. “US-India Nuclear Cooperation Accord: Implications for the Non-proliferation Regime” em Asia-Pacific Review London: Routledge vol 15, nº 1, 2008.

10 v. Center for Strategic & International Studies South Asia Monitor. Washington: www.csis.org

11 Broderman, Harry G. Áfricas Silk Road. Washington: The World Bank, 2006 v. tb. Winters, L. Alan et al. Dancing with Giants: China, India, and the Global Economy. Washington: The World Bank, 2007.

12 Dupas, Gilberto. “África do Sul, Brasil e Índia: divergências, convergências e perspectivas de alianças” em Índia, Brasil e África do Sul. São Paulo, 2006.

13 cf. Ricupero, Rubens. “China com Índia dá no quê?” em O Estado de São Paulo (03-Ago,2008)






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