ImigraçÃo estrangeira sob a ótica do jornal a província do espírito santo (1882/1889)



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IMIGRAÇÃO ESTRANGEIRA SOB A ÓTICA DO JORNAL A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO (1882/1889)
Thiago Zanetti

Mestrando em História Social das Relações Políticas (UFES)



RESUMO:

O objetivo principal deste trabalho é identificar qual foi o tratamento dado pelo jornal A Província do Espírito Santo ao fenômeno da imigração estrangeira que estava em curso no século XIX. A idéia, portanto, é a de conhecer a construção do discurso do jornal A Província, através da leitura e interpretação daquilo que foi publicado sobre a imigração estrangeira. Esse estudo envolvendo o imigrantismo sob a ótica da mídia trata-se de uma iniciativa pioneira nos estudos do jornalismo espírito-santense. Sua contribuição é de significativa importância para a memória e para construção e compreensão de uma identidade regional. O presente trabalho coloca como proposta o levantamento e análise de um dos principais jornais da imprensa local que é um dos responsáveis pelo discurso jornalístico que vem sendo construído ao longo da história.


Palavras-chave: imigrantismo – jornalismo - história

O jornal: O jornal A Província do Espírito Santo surgiu no momento em que a imigração já era um ato corriqueiro. O periódico deu significativo destaque ao fenômeno da imigração que estava em curso e teve um tratamento que envolveu notícias, editorias, artigos, reprodução de cartas e publicação dos ofícios do governo central. Discussões e debates encheram colunas e renderam matérias. O jornal A Província foi um dos jornais mais importantes da imprensa capixaba do século XIX. Sua atuação crítica/contestadora em defesa do progresso do país foi reconhecida pela imprensa nacional. Joaquim Nabuco o qualificou de jornal admirável. (BASÍLIO, 1961). Foi fundado em 15 de março de 1882 por José de Melo Carvalho Muniz Freire e por Cleto Nunes Pereira. Com o advento da República, passou a denominar-se, Diário do Espírito Santo em 1889 e Estado do Espírito Santo em 1890.

Encontramos no jornal uma tendência de publicar matérias de jornais nacionais (principalmente do Rio de Janeiro e São Paulo) e internacionais (Itália, Alemanha, França, Inglaterra), bem como a transcrição de matérias de revistas estrangeiras, e de boletins de agências de notícia, como a da agência HAVAS1.

Muniz Freire se revelou um grande comunicador, um verdadeiro formador de opinião. Suas idéias ganharam eco nas páginas dos vários jornais onde colaborou com seus artigos, e nos jornais de que se tornou proprietário. Sua vocação jornalística se evidenciou muito cedo. Aos 10 anos de idade juntamente com um grupo de amigos, fundou em 1875, o jornal A Aurora, sendo o primeiro periódico do Espírito Santo nascido por iniciativa de estudantes. (PEREIRA, 1979, p. 65).



A Província fazia um jornalismo até certo ponto independente, fora dos ditames da chamada imprensa oficial (nascidas sob a égide do aparato do estado). As críticas ao governo imperial, estadual e aos órgãos governamentais, demonstraram que sua atuação não estava subordinada (de alguma forma) a esses poderes.

A imigração estrangeira para o Espírito Santo vai ganhar o apoio do jornal manifestado em matérias, artigos e editorias, agindo de forma a cobrar dos poderes competentes, ações concretas para garantir a entrada de imigrantes no país.

Imigração no Brasil: Na Europa da segunda metade do século XIX, o aumento demográfico, as mudanças decorrentes da industrialização e os problemas causados pelas unificações italiana e alemã geraram milhares de deserdados que escolheram a América como destino. Enquanto a miséria, o desemprego e o difícil acesso à propriedade fundiária provocavam a saída da Europa, a América seduzia com a promessa de trabalho e de terras, além do sonho de riqueza fácil. No Brasil Império, era intensa a demanda por mão-de-obra para a cafeicultura em expansão, numa época em que o tráfico negreiro fora proibido. A vinda de europeus atendia, portanto, a essa necessidade, também contribuindo para a ocupação territorial e o branqueamento da raça.

A imigração estrangeira para o Brasil cresce a partir das décadas de 1870 e 1880 e se estende até meados do século XX. Segundo Prado (1979, p.188-189) a partir de 1870 o governo imperial vai adotar duas políticas de imigração. O processo de recrutamento de fixação do imigrante passou a ser dominada “imigração subvencionada” (o imigrante era destinado as grandes lavouras), e “colonização” ao primitivo sistema de localização dos imigrantes em pequenos núcleos coloniais.

No Espírito Santo a falta de grandes lavouras, concentrando-se em maiores proporções apenas na parte sul, na região de Cachoeiro de Itapemirim – não imporá resistência à criação de núcleos de pequenas propriedades.

Segundo Martins (apud ROCHA, 2000, p. 24): “O fornecimento de mão-de-obra livre à grande lavoura vinculou-se a uma política de colonização”. Rocha (2000, p.26) é categórica quando diz que a criação de núcleos coloniais de pequenos proprietários tinha por objetivo “dissimular a estreita vinculação existente entre o movimento imigratório e a questão de substituição do braço pela mão-de-obra estrangeira livre”.

A política de imigração do governo imperial pode ser resumida em três momentos. Primeiro: até a primeira metade do século XIX, o interesse do governo em promover a imigração é embrionário, devido à oferta de mão-de-obra escrava. Segundo: as constantes pressões contra a escravidão impostam pela Inglaterra, o governo vai cogitar em usar a mão–de-obra do imigrante na grande lavoura. Terceiro: esse momento, fins do século XIX, é caracterizado, como vimos, pela imigração subvencionada, procurando o governo trazer o maior número de imigrantes que substituiriam os escravos na lavoura.

Imigração no Espírito Santo: Autores capixabas que tratam da imigração são unânimes em afirmar que a necessidade de mão-de-obra para a lavoura e o povoamento das terras virgens foram as principais causas da política de incentivo à imigração no Espírito Santo.

A política imigrantista do governo local fazia parte do programa nacional de colonização, que pretendia abastecer o mercado de trabalhadores europeus visando substituir a mão-de-obra escrava.

Embora alguns grupos de agricultores se demonstrassem resistentes em abolir a escravidão, o número de negros na lavoura, será ainda insuficiente para dinamizar a plantação de café. De outro lado, as sucessivas leis que determinavam o fim da escravidão tornará cada vez mais necessária à substituição do trabalho servil pelo trabalho livre no Espírito Santo.

Segundo Rocha (2000) entre 1882 e 1887, a segunda fase da imigração no Espírito Santo, o corte dos favores a serem prestados aos imigrantes, como o pagamento de passagem, fez declinar significativamente a entrada de imigrantes no Espírito Santo nesse período.

Um desses entraves foi a circular de 23 de dezembro de 1886 expedida pelo Ministro da Agricultura, Antônio da Silva Prado, estipulando que o pagamento da passagem integral do imigrante que se destinasse à grande propriedade agrícola só seria efetuado depois que o mesmo estivesse estabelecido. A circular determinava também que os imigrantes espontâneos teriam redução no preço das passagens. Essa legislação do governo imperial não trazia muitos benefícios aos agricultores capixabas, pois estes não eram constituídos por uma aristocracia poderosa como era o caso de São Paulo e Rio de Janeiro.

Diante desses entraves, o número de imigrantes que entraram no Espírito Santo entre 1882 e 1887 vai ser de 1.375, contra os 13.828 que entraram entre 1847 e 1881. (ROCHA, p.102). A situação só iria mudar a partir de 1888, em conseqüência da abolição da escravidão que afetaria em cheio as grandes lavouras do Espírito Santo que ficariam gradativamente abandonadas. Para solucionar o problema da falta de mão-de-obra negra, a entrada de imigrantes na Província aumentaria significativamente.

Os primeiro anos da década de 80 sob a ótica do jornal A Província do Espírito Santo: O século XIX visto pelas páginas da imprensa é um século sedento de construções, tanto no sentido físico – na construção de pontes, estradas, ferrovias, indústrias, vilas e cidades – quanto no sentido ideológico – na busca de um projeto de nação que tem como objetivo atingir a República.


Nesse século os partidos Liberal e Conservador vão definir a luta política no Brasil, revezando-se no poder, desde 1836 até o final do regime monárquico, em 1889. (ALBUQUERQUE apud ZORZAL, 1995, p. 62)2. Segundo Zorzal (1995, p. 64) no Espírito Santo o quadro partidário acompanhou a estrutura vigente a nível nacional.

Os principais episódios que renderam matérias e ocuparam os editoriais de A Província nos primeiros anos da década de 80, davam conta que no Espírito Santo os imensos vales desabitados estavam à espera do povo culto (os europeus) que pudesse fecundar a terra e produzir receitas.

Pequena propriedade e Imigração Espontânea: Os ofícios do Ministério da Agricultura que encontramos publicados no jornal A Província revelam que a política imigrantista do governo imperial estava concentrada em promover a imigração espontânea de trabalhadores europeus para o país, e destiná-los aos núcleos coloniais (pequena propriedade).

O governo imperial se comprometia em auxiliar a vinda dos imigrantes efetuando o pagamento da passagem da Europa para o Brasil. Mas justamente sobre o financiamento da passagem que um ofício do Ministro da Agricultura, Antonio da Silva Prado, de 27 de junho de 1884, publicado em A Província de 11/07/1884, vai informar que o governo “[...] não dispõe de muitos recursos [...] mas confia no auxilio das classes e dos cidadãos mais de perto interessados [...]”. Esse ofício foi dirigido aos presidentes de província do Brasil, a diplomatas e cônsules no exterior. O ofício dizia também que o governo imperial pretendia criar núcleos coloniais de pequenas propriedades para estabelecer o imigrante; esses lotes seriam localizados em pontos estratégicos, próximos a estradas-de-ferro e de rios navegáveis. O mesmo oficio solicitava aos proprietários agrícolas que facilitassem o quanto pudessem o acesso a terra aos imigrantes, alguns lotes poderiam ser cedidos gratuitamente ou mediante condições módicas: “[...] que, trasendo o trabalho e a industria, serão outras tantas forças poderosas para multiplicarem a produção [...]”.

Essas solicitações tinham razões de ser, pois a Lei de Terras de 1850 dificultou o acesso de imigrantes à pequena propriedade, pois a terra só poderia ser obtida pela compra, e não mais pela doação. E sobre a Lei de Terras, diz o ofício que o governo cogita “[...] solicitar do parlamento a alteração de lei das terras, no sentido de tornar mais facil acquisição das mesmas terras por parte dos colonos e imigrantes [...]”. A edição de A Província de 26/05/1885 informava que o Ministério da Agricultura (em aviso de 15/05/1885) “[...] autorizou a presidencia d’esta provincia a sustar a remessa de pedidos de passagens para immigrantes até nova ordem [...]”, a medida foi tomada, diz a notícia, por encontrar-se sem verba a Inspetoria de Terras Públicas e Colonização.

Na edição de 19 de novembro de 1885, o jornal publicava um outro ofício ainda do Ministro da Agricultura, Antonio Prado, dirigido ao Inspetor de Terras Publicas e Colonização, Joaquim Adolpho Pinto Pacca, que comunicava a suspensão dos serviços de medição de terras. A vinda do imigrante para o Espírito Santo se tornaria mais difícil depois da circular de 1886, que estipulava que o pagamento da passagem ao imigrante destinado às fazendas só seria efetuado depois que esses estivessem estabelecidos em seus destinos. Essa medida de certo não veio para atender as províncias dotadas de menos recursos, como era o caso do Espírito Santo. Sobre a circular de 23 de dezembro de 1886, Joaquim Adolpho Pinto Pacca (num relatório da Sociedade Espírito-Santense de Imigração, publicado em A Província na edição de 30/08/1887), diz que embora ela contribuísse no sentido de substituir o trabalho escravo na grande lavoura, ainda não tinha provocado os resultados condizentes com as reais necessidades da Província.

Esse relatório também revela que a Assembléia Provincial do Espírito Santo não estava colaborando com a política imigrantista. Diz o relatório que a Sociedade propôs a Assembléia Provincial um aumente de imposto para serem aplicadas no fomento a imigração, como no pagamento de passagem, estadia, entre outros auxílios, mas a Assembléia não atendeu a solicitação. Um outro pedido foi negado pela Assembléia, diz o documento, referente a uma solicitação da Inspetoria Especial de Terras e Colonização para pagamento de passagem e hospedagem aos imigrantes.

Diante dessas situações desfavoráveis, o Inspetor Pinto Pacca, vai demonstrar as dificuldades que enfrentam os imigrantes por não poderem contar com os auxílios tanto por parte de governo imperial quanto do governo local. [...] Durante o anno social recebeu a provincia apenas 243 immigrantes espontâneos, que a convite de parentes immigraram á sua custa para as colonias da provincia. Tendo despedido o resultado de suas liquidações na Europa, com passagens e mais gastos de viagem, e não recebendo da tutella do Estado mais que lote medido e viação, estes immigrantes assim estabelecidos, sem recursos para atravessarem o periodo difficil de estabelecimento em lote virgem de cultura formam uma colonização contra-propagandista da immigração para a provincia pois que os escassos recursos que obtêm do salário na construção de seus caminhos e estadas, si lhes evita o morrer de fome, não lhe poupa a miséria, em tal período, sempre acompanhada das moléstias inherentes á diversidade de climas e de costumes o maior desanimo na emigração para a provincia. [...] (RELATÓRIO DA SOC. ESP. DE IMIGRAÇÃO. A PRVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 30/08/1887).

Além desses 243 imigrantes espontâneos, o documento informa que mais 123 imigrantes entraram na província com destino a Itapemirim. Essa imigração aconteceu pelo auxilio da circular de dezembro de 1886, mas “[...] pouco, nada mesmo representa este facto um passo para a grande revolução economica que taes circulares deveriam já ter operado [...]”, diz o inspetor.

Sem os recursos que lhes foram negados pela Assembléia Provincial, e como a circular de 1886 de Ministério da Agricultura poucos benefícios trouxeram ao fazendeiro capixaba, o vice-presidente de Sociedade Espírito-Santense de Imigração, Joaquim Adolpho Pinto Pacca, diz que pouco poderia fazer para trazer o imigrante para a grande lavoura. Por outro lado, o engenheiro propõe que os esforços fossem direcionados para instalar o imigrante na pequena propriedade colonial. Pois, tendo o imigrante à possibilidade de ser tornar proprietário, dificilmente optaria por assalariar-ser, e diz o Adolpho Pacca: [...] Por sua parte os immigrantes na provincia do Espirito-Santo não offerecem ao grande proprietario agrícola a garantia de força estavel e continua indispensável á grande lavoura, porque sendo fácil aos imigrantes conseguirem lotes coloniais á baixo preço e existindo na provincia quatro colonias prosperas [Rio Novo, Castelo, Santa Isabel e Santa Leopoldina] em que observarão compatriotas relativamente ricos, em pouco tempo abandonarão as fazendas para o exemplo de taes compatriotas constituírem-se pequenos proprietarios agricultores. [...] (A PROVÍNCIA, 30/8/1887).

Para competir com as províncias mais adiantadas como era o caso de São Paulo – o principal centro de atração de imigrantes do país –, o Espírito Santo contava com a promoção da pequena propriedade agrícola, na qual o imigrante poderia ser o dono do seu lote. Num discurso de posse da nova diretoria da Sociedade Espírito Santense de Imigração, João Teixeira Maia declara: [...] nós temos um elemento a nosso favor, de grade valia, de que devemos aproveitar para diminuir as consequencias da poderosa acção da colossal competidora [São Paulo] [...] Em quanto ali o immigrante é trabalhador assalariado, elle na provincia do Espirito Santo póde ser immediatamente proprietário de terrenos uberrimos por preço módico, a praso longo [...] É necessario que os immigrantes saibam que aqui existe uma repartição de terras e colonisação, cujo fim principal é collocar nos prazos medidos ou requeridos aquelles que desejam fixar-se na provincia [...] (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 19/07/1888).

Com a imigração em massa para o país e a difusão da pequena propriedade, haveria maior procura pela terra, e conseqüentemente a formação do mercado imobiliário. (CAMPOS, 1998, p.171-172). Três linhas extraídas de um artigo de A Província (na edição de 17/02/1888) confirmam esse diagnóstico: [...] convencendo-se todos que o melhor meio de assegurar o valor do solo é repartil-o e vendel-o aos immigrantes para que n’elle se estabeleçam no regimem da propriedade effectiva. [...]. Ainda no mesmo artigo o articulista advoga em favor da pequena propriedade, menciona que em São Paulo o imigrante ao trabalhar em regime de parceria, encarava esse trabalho como uma forma de acumular dinheiro para poder comprar o seu lote posteriormente. [...] Como quer que seja, não é menos verdade que ainda no regimem do serviço a jornal ou da empreitada e parceria o elemento immigratório italiano é que está concorrendo para sustentar a lavoura de S. Paulo, conseguindo os immigrantes por este meio formar peculio avultado, habilitando-se a adquirir terreno próprio onde trabalhe por sua conta. Felizmente muitos proprietarios vão comprehendendo a vantagem da installação do immigrante em lotes que elles podem adquirir e comprar com o producto do seu proprio trabalho: e este pensamento é acolhido na Italia com alvoroço [...] (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO,17/02/1888).

Os acordos que estavam sendo firmados entre a Europa e o Brasil para a criação de núcleos coloniais eram aclamados com júbilo pelo jornal. Um artigo de A Província (15/08/1882) declarava sobre o tema: “[...] uma noticia que não póde deixar de ser-nos summamente agradável e que dá uma amostra do que se pensa a nosso respeito [...]”.

Imigrantismo sob a ótica do jornal A Província do Espírito Santo: Um dado importante a que chegamos ao analisar os oitos primeiros anos de vida do jornal A Província do Espírito Santo, foi que poucos editoriais se dedicaram ao tema da imigração.

Nos primeiros editoriais do jornal (no ano de 1882), encontramos algumas críticas feitas aos imigrantes, no entanto elas tinham um caráter mais educativo do que punitivo, isto é, no sentido de adverti-los que não pensassem em vir quem não tivesse intenções de trabalhar com ardor e respeito a terra.

Falando sobre os imigrantes que se dirigiam para os Estados Unidos e fazendo uma comparação aos que se dirigiam para o Brasil, o editorial de 15 de agosto de 1882, comenta: [...] E para honra dos americanos, este assoberbante contigente de estrangeiros identificam-se logo com os seus costumes, não concorre para perturbações intestinas, e não vai ao seu Paiz na esperança de dominal-os, bem ao contrário do que dá-se comnosco, que somos procurados apenas com o animo expoliador, que se alimenta na crença que tem de que somos uns botocutos. [...] (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 15/08/1882).

O jornal sustentava que a imigração espontânea podia ser fonte de notável utilidade, e para isso cobrou insistentemente do governo imperial o auxilio necessário ao imigrante como o pagamento de passagem da Europa ao Brasil, conforme a ajuda que o governo prestava a imigração.

Sem o subsídio do governo imperial, comenta o Jornal do Comércio (RJ) transcrito em A Província de 26/02/1884: [...] a causa da immigração para o Brasil teria de soffrer; o deplorável sucesso não tardaria a divulgar-se e a triste notoriedade influiria de certo desfavoravelmente no corrente immigratória [...] Por falta de auxilios que os amparassem nos primeiros dias e lhes proporcionassem transporte para os nucleos agrícolas, numerosos imigrantes permaneceriam em nossas cidades em escala superior ás exigências do trabalho urbano e este desequilíbrio, já patenteado nos grandes centros de população pelo enorme numero de braços inertes, aggravar-se-ia todos os dias [...] Imigração espontanea não quer diser immigração inteiramente abandonada a si mesma... (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 26/02/1884).

Por se tratar de uma iniciativa do governo central, a vinda de maior ou menor número de imigrantes para o Espírito Santo dependia de decisões de fora, do peso político da província e de sua capacitada de arcar com os custos dessa iniciativa. Procurando demonstrar a importância do auxilio a imigração, uma matéria do Jornal do Comércio descreve quem são os imigrantes e em quais condições eles emigram: [...] É preciso acceitar a immigração qual não póde deixar de ser. A grande maioria dos homens que emigram fasem-no á busca de trabalho por não o encontrarem na patria sufficientemente remunerador; são poucos, são raros aquelles que trasem comsigo algum pecullio de certa importancia; e estes mesmos teriam rasão para desgostar-se si, após a despesa de transporte maritimo, ainda fossem obrigados a outros gastos antes de poderem collocar-se definitivamente. [...]. (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 26/02/1884).

A Província dando voz ao Jornal do Comércio (RJ), o jornal carioca diz, referindo-se a política imigrantista do governo do Espírito Santo, que esta província: [...] está, persuadida, como nós, de que imigração espontânea não que diser completa cessação de favores a immigrantes, nem mesmo limitação de taes favores a alguns dias de agasalho e a transporte gratuito entre os portos de desembarque e os estabelecimentos coloniais. [...] (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 13/12/1883).

Estava sendo esperado da Itália o navio Duca de Galiera trazendo cerca de mil imigrantes com destino a diversos municípios da província, informa-nos uma notícia de 27/07/1888, sendo que a Inspetoria de Terras e Colonização procurando alojar esses estrangeiros, alugou um armazém localizado na rua 1º de março, na capital. Contra essa medida diz a notícia, que o local não ofereceria nenhuma estrutura para abrigar esse número de pessoas.

Foram muitas as edições que encontramos apenas pequenas notas informativas sobre a imigração. Passamos por várias edições sem que houvesse algo de significativo sobre a imigração, como um artigo que emitisse uma opinião mais contundente.

O jornal limitou-se, em alguns casos, a reproduzir matérias de jornais de outros centros. Sua cobertura até certo ponto foi parcimoniosa. As opiniões mais explícitas sobre a imigração que ocorria no país, foram dos relatórios da Sociedade Central de Imigração e da Sociedade Espírito Santense de Imigração.

Nos deparamos com muitas notícias sobre a imigração para os Estados Unidos. A maneira como o jornal noticiava a imigração para a nação americana, dizendo-se pasmo com as estatísticas de entrada de imigrantes, mostra a força que tinha esse país de promover a imigração em massa. A nação norte-americana, diz o editorial de 03/09/1882 “[...] é um prolongamento da grande civilisação européia [...]”. E nós “[...] Descendemos de um povo que cedo perdeu sua influencia maritima e colonial, nossa língua é pouco conhecida, e sobre todas as outras inconveniencias arrostamos com a concorrência de generosa patria de Washington [...]”. E ainda comentava: “[...] Contávamos [...] açular a emigração spontanea, a modo do que se dá nos Estados-Unidos, diariamente procurado por centenas de estrangeiros; mas não cogitamos da differença que vae entre um e outro paiz [...]”.

Um artigo publicado em A Província de 17/02/1888, sob o título “Imigração Italiana” destacava: [...] Somos apologistas da immigração italiana e fazemos ardentes votos para que essa immigração augmente e prospere no nosso paiz. Por sua indole, seu caracter ethenografico, sua adaptação ao nosso clima e costumes, sua iniciativa e instincto artístico, seu conhecimento especial de certos ramos da cultura que hão de ser no futuro as alavancas do nosso poder agricola – taes como a da vinha e a da sericultura, immigração italiana é a que offerece melhores condições para a sua assimilação no elemento nacional, tornando-se este no futuro homogeneo como convém que o seja. Ao observador, ainda o mais superficial, não terá certamente escapado o facto particularissimo de ter sido a immigração italiana, d’entre todas as outras recebidas no Brasil, a que mais rapida e efficazmente tem concorrido para a evolução social da nossa época, cabendo-lhe mesmo no campo das industrias urbanas a honra de ter cooperado de modo bastante sensível para muitos dos progressos realizados n’estes dois ultimos decênios. [...]. (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 17/02/1888).

Embora a maior parte das matérias e editorias que analisamos evidencia-se que a prática mais comum era a política de colonização, também encontramos matérias que informavam a entrada de imigrantes nas grandes lavouras do Espírito Santo. Dessa forma, percebemos que o jornal apesar de ter publicado na maior parte notícias em defesa da pequena propriedade, o mesmo jornal não se colocou contra a entrada do imigrante na grande lavoura.

Denúncias e defesas uma cobertura jornalística conflitante: O material que o jornal nos forneceu seja suas próprias notícias ou na publicação de matérias de outros periódicos, permite notar que nem tudo foi tranqüilo para o imigrante. As notícias revelam que esses trabalhadores tiveram que enfrentar maus momentos, tanto por parte do governo imperial e provincial no descumprimento de acordos, quanto dos órgãos tutelares da imigração e dos agricultores. Matérias dando conta de despejo, insultos, violências, contratos de posse de terras não cumpridos, agiram na tentativa de cobrar das autoridades, medidas que assegurassem os direitos dos estrangeiros.

As principais reivindicações do jornal eram com relação ao não pagamento de passagem aos imigrantes da Europa para as Províncias do Brasil.

A publicação de um artigo do jornalista Quintino Bocaiúva, contendo críticas contra uma ação de despejo sofrida por algumas famílias de imigrantes num núcleo colonial de Santa Catharina, ilustra uma parte das adversidades que tiveram que passar. Bocaiúva ataca o governo imperial e cobra que seja feita à recolocação desses imigrantes: [...] A politicagem, para não lhe dar outro nome que rima com esse, a politicagem eleitoral também se apoderou d’esse negocio, (a posse territorial) e taes factos têm occorido por esse mundo a dentro do nosso Brazil...e nos deshonrariam perante as nações civilizadas si até lá chegasse a noticia de alguns escandalos que conhecemos. Ahi está um dos pontos negros d’esta vital questão da imigração e da occupação util do nosso solo, o qual deve merecer os desvelos do governo de todos os que se interessam pelo futuro da patria. [...] (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 16/9/1886).

Uma matéria de 19/02/1887, de A Província, relata que o italiano Fachitte e sua mulher estabelecidos no núcleo de Timbuí (Santa Leopoldina) foram gravemente feridos em sua casa por três cearenses, “[...] resultando a destruição de orgãos que o priva de trabalhar effectivamente [...]”. Cobrando providências diz o jornal: “[...] Da promotoria publica esperam os offendidos e todos os imigrantes sevéra punição para que não hajam reprodução d’essas revoltantes scenas, que muito depõem contra o meio social [...]”.

Um grupo de 137 imigrantes destinados à fazenda do coronel Ribeiro Mascarenhas, localizada em São Torquato no município da Vila do Espírito Santo (antiga Vila Velha) e 20 com destino a fazenda do Dr. A. Guaraná, no município de Santa Cruz, segundo a matéria de A Província de 25/01/1888, ao desembarcarem no porto da capital não foram recepcionados adequadamente, sendo obrigados a “[...] ficarem expostos durante algumas horas à chuva torrencial que então cahia [...]”. E criticou o jornal: [...] O imigrante attrahido ao nosso paiz por promessas lisongeiras e acariciadoras de um bem estar, facilmente conquistavel por alguns annos de trabalho, não deve, logo ao aportar ás nossas plagas, ser tão desagradavelmente impressionado, como deveriam ter ficado os recém-chegados. [...] (A PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO, 25/01/1888).

No entanto, temendo que essas denúncias pudessem causar a impressão de que o jornal estaria tentando obstruir a entrada de imigrantes, o articulista da matéria procura esclarecer o verdadeiro sentido de suas críticas: [...] não visamos uma censura ao sr. coronel Mascarenhas, contractante ou introdutor do maior numero d’esses immigrantes, como poderá parecer a espirito menos justo, e sim a quem de direito devesse velar por tal serviço. Ao contrario, ao sr. Mascarenhas feliz sucesso em sua tentativa progressista.

O jornal A Província deu espaço a cartas de pessoas descontentes com a política imigrantista. Uma carta, que pode ser considerada uma das mais contundente criticas feitas ao governo imperial que encontramos no jornal, revela as mazelas que enfrentou uma família de imigrantes italianos em São Mateus, publicada na edição de 15/2/1889, diz à carta que um grupo de imigrantes italianos compostos de homens, mulheres e crianças “[...] esmolam pelas ruas d’esta villa [São Mateus] como já esmolaram pelas estradas do alto Castello [...]”. Esses imigrantes que tinham como destino a Província de São Paulo, foram desembarcados em Vitória e levados para uma fazenda em Itapemirim. Lá um membro da família chegou a falecer, e desgostosos da vida, se dirigiram à hospedaria de imigrantes de Vitória.

Tendências distintas: O jornal apresentou duas tendências distintas. Se por um lado o jornal deu visibilidade as notícias que denunciavam a difícil situação enfrentada pelos imigrantes. Por outro, o jornal agiu de maneira a rebater a críticas que eram feitas (sobretudo pela imprensa européia) em relação a esse mesmo governo. Notícias produzidas pela imprensa estrangeira (sobretudo na Itália e Alemanha) criticando a política do governo imperial e relatando maus tratos sofridos pelos imigrantes, imediatamente o jornal procurava por meio de argumentos contrapor o que foi publicado, na tentativa de desfazer a má repercussão que essas notícias poderiam causar na Europa e de algum modo inibir o fluxo emigratório para o país.

Percebemos que o jornal demonstrou preferência por publicar matérias (da imprensa estrangeira) que traziam abordagens positivas do Brasil.

Notamos que as notícias internacionais que criticavam a política de imigração do Brasil não tiveram por parte do jornal A Província o reconhecimento de que se errou e que as providências para corrigir poderiam ser tomadas, mas sim, uma atuação procurando desqualificar essas notícias, muitas vezes tachando-as de serem de infundadas e caluniosas.
Conclusão

O discurso produzido pelo jornal A Província do Espírito Santo através das opiniões compartilhadas e os seus próprios julgamentos em relação ao fenômeno imigrantista, não foi muito diferente do que a bibliografia sobre o tema vem abordando. O jornal A Província, pelo tom crítico que adotou, combatendo instituições, fazendo críticas a governos, seguiu um jornalismo que podemos classificar de independente em relação à imprensa oficial, aquela nascida sob a égide do aparelho do Estado.

As cartas dos leitores enviadas à redação do jornal na tentativa de se justificar ou acrescentar informações com relação ao que o jornal havia publicado, demonstrou que o jornal A Província conseguiu através de sua atuação jornalística provocar inquietações.

O jornal fez o seu papel, segundo a orientação política que representava, criticando, enaltecendo e promovendo, ou mesmo abstendo-se. Para A Província, o imigrante deveria ser o grande “motor” da economia do país, não importando se isso se desse na grande propriedade ou em núcleos colônias, importava ao jornal, que os imigrantes trouxessem receitas.

O jornal A Província sustentou que a imigração espontânea e tutelada era fonte de inesgotável utilidade.

Conforme as matérias que o jornal publicou pudemos perceber que a realidade para o imigrante foi bem diferente da visão mítica que se vendia na Europa sobre o Brasil. Por outro lado, vemos que o imigrante lutou, perseverou e consegui galgar seu espaço.

O jornal exigiu dos governos os auxílios que pudessem dar continuidade ao fluxo imigratório para o país. Os contratos que estavam para serem firmados entre Brasil e Itália, e outros países da Europa para a introdução de imigrantes no Brasil e na Província do Espírito Santo, foram aclamados com entusiasmo pelo jornal. O jornal A Província fez o que pode para defender a causa do imigrante, denunciando abusos e as adversidades sofridas. De um lado suas matérias agiram para cobrar dos poderes competentes os direitos dos imigrantes, de outro, o jornal procurou conter aqueles fatos que considerou que poderiam repercutir desfavoravelmente na Europa, e de algum modo obstruir o êxodo emigratório.
Bibliografia:
BASÍLIO, Marcello Antônio de Souza. A Vida e Obra de Moniz Freire.Vitória: [s.n], 1961.

BIBLIOTECA DO DEPARTAMENTO ESTADUAL DE CULTURA (Espírito Santo). A Província do Espírito Santo (1882-1889). Vitória, [19--]. 100 p.

CAMPOS JUNIOR, C.T. Imigração italiana e a constituição da pequena propriedade no espírito santo. In: CASTICLIONI, Aurélia H. [et.al.]. Imigração italiana no espírito santo: uma aventura colonizadora. Vitória: EDUFES, 1998, p.171-172.

PEREIRA, Heráclito Amâncio. A imprensa no Espírito Santo. Revista de Cultura Ufes, Vitória, ano 1, n.2, p. 54-109, 1979.

PRADO, Caio Júnior. História econômica do Brasil. 22ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1979.

ROCHA, Gilda. Imigração estrangeira no Espírito Santo: 1847-1896. Vitória: [s.n.], 2000.

SILVA, Marta Zorzal e. Espírito Santo: estado, interesses, e poder. Vitória: FCCAA/ SPDC, 1995.


1 É fundada na França, 1832/34, a primeira agência de notícias do mundo: a Agência Havas, criada por Charles-Auguste Havas. Ela transmite via pombo-correio informações financeiras da bolsa de Valores de Londres. Esse agencia surgiu para atender as necessidades dos periódicos do século XIX na obtenção de informação.

As notícias internacionais em A Província podiam ser lidas na seção “O MUNDO PELO TELEGRAPHO”, as notícias eram fornecidas pela HAVAS.




2 Segundo Marta Zorzal, desde a Independência do Brasil (1822) até a proclamação da República (1889), os partidos, que deram sustentação ao Governo Imperial, quase não mudaram suas bases constitutivas.





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