ImigraçÃo alemã e sociabilidades em rio claro nos séculos XIX e XX



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IMIGRAÇÃO ALEMÃ E SOCIABILIDADES EM RIO CLARO NOS SÉCULOS XIX E XX

Flavia Mengardo Gouvêa1



RESUMO


O presente artigo visa analisar a imigração alemã e sua rede de sociabilidades em Rio Claro no entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX. Os frutos das transformações culturais ocorridas no mundo chegaram ao Brasil, e principalmente, às cidades interioranas produtoras de café, como é o caso de Rio Claro, que sofreu um grande impulso urbanizador. Este processo começou a ocorrer na região de Rio Claro por volta de 1820-1830, propiciado principalmente pelas fazendas Ibicaba e Angélica, que pertenciam ao senador Vergueiro. Enfatizar-se-á a importância das correntes imigratórias européias, que chegaram ao município no período em questão, principalmente a alemã, e sua “adaptação” em Rio Claro (questões econômicas e políticas). Enfim, averiguar-se-á como a corrente de imigração de origem alemã se inseriu na cultura urbana e/ou agrícola de Rio Claro.


Palavras-chave: Imigração alemã; Rio Claro – São Paulo – Brasil; Séculos XIX e Século XX

ABSTRACT

This research aims to analyze the German immigration and its network of sociability in Rio Claro in the period covering the second half of the nineteenth century and the beginning of the twentieth century. The fruits of the cultural changes occurring in the world arrived in Brazil, especially, in the coffee-producing inland cities, such as Rio Claro, which has developed a great momentum of modernization. This process began to occur in the region of Rio Claro around 1820-1830, mainly provided by farms Ibicaba and Angelica, which belonged to Senator Vergueiro. Research will emphasize the importance of the European immigration, which reached the city in the period in question, mainly the Germans, and yours "adaptation" in Rio Claro (economic and political issues). Finally, it will examine how the immigration of German origin is included in the urban and/or agriculture culture in Rio Claro.
Key words: German immigration; Rio Claro – São Paulo – Brazil; 19th and 20th centuries.

As atividades político-econômicas, as relações de sociabilidade e os demais negócios urbanos ligados à cultura cafeeira entre o último quartel do século XIX e a Primeira República – a cafeicultura propriamente dita, a imigração européia, os bancos, as casas comissárias, as empresas de serviços públicos, as trocas de favores entre representantes do poder público municipal e estadual – configuraram os contornos de poder das elites paulistas e o caráter decisório de muitos de seus elementos, na promoção de uma mudança nos espaços agrícolas e urbanos do estado de São Paulo. Isto, pois, o município de Rio Claro foi, durante todo um século, um dos centros de produção de café em São Paulo, sendo:


[...] teatro de transições importantes: do regime colonial para o de sesmarias, do Império para a República (sua sede foi uma das primeiras a criar um diretório do Partido Republicano) e da escravatura para o trabalho livre. Seus fazendeiros encontravam-se entre os de maior influência política provincial e mesmo nacional. (DEAN, 1977:15).
Rio Claro foi em 1879 (FERRAZ, 1922:79; MAGALHAES, 2000:122) a terceira cidade do país a possuir energia elétrica, ficando atrás somente da então capital brasileira, Rio de Janeiro, e de Varginha, em Minas Gerais.
A economia capitalista, como não poderia deixar de ser, tornou-se global. Ela consolidou essa sua característica de forma mais intensa durante o século XIX, à medida que foi estendendo suas operações para regiões cada vez mais remotas do planeta, transformando assim essas áreas de modo mais profundo. Sobretudo, essa economia não reconhecia fronteiras, funcionando melhor onde nada interferia na livre movimentação dos fatores de produção. O capitalismo era assim não só internacional na sua prática, mas internacionalista na sua teoria. (HOBSBAWN, 1998: 8).
A hipótese proposta é a da produção cafeeira como sendo a catalisadora das modificações ocorridas no conglomerado de Rio Claro entre 1850 e 1930. Tal problemática de pesquisa foi levantada tendo em vista o contato com estudos feitos anteriormente sobre o surgimento e posterior desenvolvimento de outros municípios do interior paulista à época (a exemplo de Ribeirão Preto e São Carlos) tendo, como plano de fundo, as negociatas do café e todas as suas interações. “O café era o elemento definidor da dinâmica econômica e o verdadeiro lastro do crédito internacional do país”. (DOIN, 2001:324).

Assim, a pergunta central do artigo é: Rio Claro também se modificou com a instalação das fazendas cafeeiras na região no século XIX no que tange à inserção dos imigrantes europeus na cidade de Rio Claro?; e dentro dessa temática, estudar-se-á, principalmente, a chegada e a posterior incorporação de imigrantes alemães na região.

Como bem salienta Peter Burke, (BURKE, 2000:104-106) num escrito mais comum entre sociólogos e antropólogos, o estudo de “espaços mais precisos”, como os de uma aldeia, vila ou cidade, vem ganhando força entre as pesquisas com base nos fundamentos historiográficos. Com estes estudos, surge a necessidade de compreender as comunidades humanas existentes nestes locais, de modo que não se tratem quaisquer uns destes como se fosse uma ilha.

No final do século XVIII, a região sofreu um grande movimento de apropriação de terras com a disputa pela concessão de cartas de sesmarias, grande parte pertencente a famílias influentes que já estavam estabelecidas nas regiões de Piracicaba, Itu e Campinas (como é o caso do senador Nicolau de Campos Vergueiro, dono de terras em Campinas).

Em 1852 havia no município dez engenhos de açúcar e já nove estabelecimentos de café, e também diversas instalações voltadas para esse “ramo de cultura, que, principiando um, dois e três anos atrás, prometem para o futuro breve grande exportação”. (FERRAZ, 1922:39). A partir da segunda metade do século XIX, a lavoura em Rio Claro deixou de ser a da cana-de-açúcar, e passou a ser a do café; também deixou de usar o trabalho escravo, passando a utilizar o trabalho do imigrante europeu. Os fazendeiros investiam parte do capital acumulado nas propriedades em Itu e Campinas na produção em Rio Claro.

Já em julho de 1847, Vergueiro & Companhia, empresa do senador Vergueiro, fundou a colônia Vergueiro na fazenda de Ibicaba, localizada nos arredores de Rio Claro, onde foi empreendido a contratar imigrantes alemães e suíços para a lavoura cafeeira, numa experiência pioneira. (WITTER, 1982). A empresa de Vergueiro lucrava tanto com a “comercialização” de imigrantes como com a cobrança de supostas dívidas que os colonos adquiriam já na sua entrada no Brasil, além dos lucros advindos com a comercialização do café no Porto de Santos. Já em 1840, Vergueiro recebeu, em sua Fazenda Ibicaba, 90 famílias camponesas suíças (os primeiros imigrantes contratados para uma colonização particular).

Devido à falta de mão-de-obra escrava (lei de 1850 proibia o tráfico de negros entre as províncias), Rio Claro passou por uma séria crise de mão-de-obra, solucionada com a iniciativa de Vergueiro. “[...] felizmente, porém, no município vizinho foi estabelecida uma colônia (Ibicaba), que prosperando, reanimou os ânimos e alguns proprietários já tem seguido aquelle exemplo, e muitos se prepararão com grandes plantações para o mesmo fim”. (DINIZ, 1973:71)

A Empresa de Vergueiro, além de trazer colonos para as fazendas de sua propriedade, também colocava à disposição dos outros fazendeiros da região a sua “organização empresarial” que contratava os imigrantes, organização esta já estabelecida na Europa há algum tempo. Vergueiro também expandiu esses serviços às outras províncias.

Enfim, nessas negociações encabeças pelo senador, o governo brasileiro não se envolveu diretamente; apenas subvencionou os particulares. Em 1852, após muitas negociações, foi feito um contrato, de acordo com a lei nº 14, de 19 de julho de 1852, entre o governo provincial e a Casa Vergueiro, para a importação de colonos, renovado, posteriormente, em 1856. Por esse contrato, o governo concederia à casa importadora Vergueiro & Cia um empréstimo anual de 25 contos de réis, e esta seria obrigada a importar 1000 colonos por ano, sem contar os menores de idade. Desse montante, a Casa Vergueiro poderia reservar 400 desses para si, distribuindo os restantes pelas fazendas da Província.

Alemães e suíços1 advindos dessa intensa imigração que, posteriormente, passaram a morar na área urbanizada da cidade são o objeto de estudo principal desse artigo. Já em 1872, os alemães eram 50% da população estrangeira em Rio Claro. (DINIZ, 1973:34). Depois que a imigração alemã e suíça deixou de ser intensa devido a restrições dos respectivos governos, grandes levas de imigrantes italianos foram trazidas da Europa.

A utilização de mão-de-obra branca e imigrante, em substituição ao braço negro e escravo, foi um arrojado empreendimento que o senador realizou, já que, na época, somente se concebia o negro nos trabalhos rurais. A fazenda Angélica recebeu, em 1847, cento e quarenta e nove suíços e vinte e quatro alemães. Só em julho de 1847, (FORJAZ, 1924:51) foram trazidos, para Ibicaba, duzentos e vinte e sete alemães e trezentos e catorze suíços. Ambas as fazendas de propriedade de Vergueiro. (PEREIRA, 1978:89-90).

A remuneração, nessas colônias agrícolas, era baseada no resultado das colheitas; no chamado sistema de “parceria”, criado pelo próprio Vergueiro: “A remuneração era proporcional ao café obtido pela família colona, mas o pagamento do colono dependia da venda do café no mercado”. (BELGUELMAN, 1977:63). Depois, o sistema de parceria foi substituído pelo salário fixo.


Pelo contrato dos parceiros de Ibicaba, por exemplo, o colono recebia uma extensão de cafeeiros para cultura, colheita e melhoramento; participava na proporção da quantidade que colhesse, do trabalho de preparação do café a ser colocado no mercado; devia replantar as clareiras que se fizessem nos cafeeiros. Após a venda do café o fazendeiro receberia metade do lucro líquido e o colono a outra metade. O fazendeiro permitia ao colono tirar de lugares determinados de suas terras os produtos necessários à sua alimentação; o fazendeiro não tinha parte nos gêneros alimentícios que o colono produzisse para o seu consumo, mas recebia metade do preço excedente dos mesmos produtos vendidos. Quanto às dívidas contraídas com o fazendeiro (passagem, sustento nos primeiros tempos) metade no mínimo da renda líquida anual dos colonos seria destinada a compensá-las. (BELGUELMAN, 1977:62).
Os conflitos que ocorreram nas fazendas que utilizavam o sistema de parceria, como o conflito em Ibicaba (Revolta de Ibicaba, ocorrida em 1857), acabaram por levar ao fracasso de tal sistema, já que houve grande insatisfação por parte dos colonos no que tange às duras condições do trabalho rural, à inclemência tropical, à alimentação inadequada, à precariedade de assistência médica e espiritual. Como o sistema que vigia até o momento era o de Parceria, ao término dos contratos dos alemães e suíços, primeiros imigrantes europeus na região, estes, insatisfeitos, estabeleciam-se na parte “urbana” de Rio Claro.

Além de todos esses empecilhos, a maior parte dos trabalhadores, vindos da Europa, somente sabia desempenhar funções citadinas, eram tanoeiros, vidraceiros, alfaiates, carpinteiros e operários de fábrica; não possuindo, portanto, experiência na agricultura. Devido também a essa “inaptidão”, já em 1860, das vinte e nove colônias existentes no interior da Província que utilizavam o sistema Vergueiro (sistema de “parceria”), somente treze subsistiam, já que esse tipo de força de trabalho gerou uma série de queixas e conflitos.



Os trabalhadores das fazendas começaram a abandonar a lida no campo e procuraram estabelecer-se nos arredores. Como afirma Von Tschudi, “embora o sistema implantado por Vergueiro tivesse falhado, teve a vantagem de dar vida nova e impulsionar o progresso no triângulo formado por Rio Claro-Campinas e Piracicaba”. Ocorreu, então, uma intensa urbanização da cidade de Rio Claro, que foi possível devido à existência desses imigrantes na região: “Azevedo Marques revela que Rio Claro muito se beneficiou com a fixação desses elementos, que, vindos de países adiantados, levavam o progresso para onde iam”. (PEREIRA, 1978:89-90).
Assim, por exemplo, Tschudi em obra publicada em 1866 observava que a população da Vila de Rio Claro, então com cerca de 2.500 pessoas, contava com muitos estrangeiros, na sua maioria antigos colonos de parceria, que haviam se estabelecido como artífices. (BELGUELMAN, 1977:116)

[...] o imigrante, psicoeconomicamente equipado para aproveitar as brechas ainda não exploradas da economia urbana, nas atividades não-qualificadas, atuando no ritmo mais adequado ao seu objetivo de melhoria da situação sócio-econômica. (BELGUELMAN, 1977:117).
O café era um produto-mundo e articulava espaços e tempos humanos distantes, materializados em sociabilidades, culturas, regimes políticos, enfim, civilizações díspares. (BRAUDEL, 1995). “[...] no estudo do Mundo do Café as Relações Internacionais envolvem outros aspectos, tais como [...] a repercussão do tratamento dispensado aos imigrantes europeus em terras brasileiras, as estratégias e procedimentos desenvolvidos e desempenhados pelos agentes migratórios, entre outros.”2

A metade do século XIX marca o começo da maior migração dos povos na História. Seus detalhes exatos mal podem ser medidos, pois as estatísticas oficiais, tais como eram então, são falhas em capturar todos os movimentos de homens e mulheres dentro dos países ou entre estados: o êxodo rural em direção às cidades, a migração entre regiões e de cidade para cidade, o cruzamento de oceanos e a penetração em zonas de fronteiras, todo este fluxo de homens e mulheres movendo-se em todas as direções torna difícil uma especificação. (HOBSBAWM, 1977:207)
Devido a essa intensa saída de imigrantes das fazendas cafeeiras, por volta de 1870, um grande número de imigrantes estabeleceram-se em Rio Claro e modificaram os costumes: verificou-se, inclusive, uma mudança nos hábitos alimentares da população local.
[...] a distribuição dos homens do campo através do globo não pode ser negligenciada, é contudo menos surpreendente do que o êxodo da agricultura. Migração e urbanização andavam juntas [...] (HOBSBAWM, 1977:207) 3

Von Tschudi assinalou que, antes da chegada dos colonos teutos, os paulistas do interior se limitavam ao consumo do trivial, como arroz, feijão, farinha, carne de porco e toicinho, alimentação totalmente pouco adequada ao clima tropical. Os alemães enriqueceram esse invariável cardápio adicionando hortaliças, manteiga fresca, mel de abelhas, queijo, frutas e laticínios. (PEREIRA, 1978:89-90)
Já em 1873 era grande o número de alemães na região que, tão logo encerravam seus “contratos agrícolas” passavam a se dedicar àquelas atividades a que estavam acostumadas em seu país de origem, como o trabalho em pequenas indústrias, exercendo, também, funções como “alugadores de carros”. Para substituir a mão-de-obra agrícola alemã e suíça, em 1880 começaram a chegar grandes levas de imigrantes italianos para trabalhar na lavoura na região.
Mesmo entre os europeus, a migração de massa intercontinental estava confinada aos povos de relativamente poucos países, neste período, sobretudo ingleses, irlandeses e alemães e, a partir de 1860, noruegueses e suecos – os dinamarqueses nunca emigraram na mesma medida. [...] O grande período da emigração eslava, judaica e italiana para as Américas começaria em 1880. (HOBSBAWM, 1977:209)

Por falta de agentes apropriados na Europa, para cuidarem com interesse de tal assunto, sucederia que os colonos, em vez de serem homens aptos para a lavoura, seriam artistas, mecânicos e até literatos, e que por tal razão ou não se sujeitam aos trabalhos da lavoura ou permanecem mesmo nas fazendas, porém somente para darem prejuízo aos fazendeiros, em vez de proporcionar-lhes lucros [...] (BELGUELMAN, 1977:68)
Ao chegar em Rio Claro, o imigrante, distante de sua pátria, descobria um mundo novo e promissor, que podia ser alterado e transformado numa paisagem urbana, uma vez que esses colonos possuíam experiências adquiridas na Europa industrial e moderna. Dentre os vários estabelecimentos advindos da presença imigrante no município, pode-se citar: Mercearia e carpintaria a vapor João Oehlmeyer, Oficina de funilaria Mileo, Fábrica de calçados Vienna, Alfaiataria Cartolan, Fábrica de flores artificiais Miguel Fozato Filho, Cabeleireira e florista Cecília Reggiani Fosatto, Doceiro Inácio da “Geléia” (comercializava geléia de mocotó elaborada com vinho do Porto), Padaria Lotti, Modista Lavínia Colli, Barbeiro Adriano Pinto, Correios e Telégrafos, Escola de Pintura D. Lucia S. Lima, Escola de farmácia e odontologia de Rio Claro, Casa Castellano, Casa Farani, Collegio Minervino, Casa Pilla, Schmidt – Meyer & Cia, Cervejaria Rio Claro, Grande Hotel Stein. (FERRAZ, 1922:135-160).

Paulatinamente, as redes de sociabilidade tradicionais de Rio Claro também passaram a enfrentar problemas, visto que houve várias mudanças no contexto da cidade, ocorridas principalmente devido ao deslocamento das bases econômicas, políticas e sociais do eixo exclusivamente rural para o centro urbano. A integração dos imigrantes europeus no cenário de Rio Claro, ou seja, as suas redes de sociabilidade são objeto desse estudo. As eleições de 1904, nesse sentido, marcaram uma transição de poder no município, que contou com novos elementos: a presença do eleitorado urbano e dos imigrantes nessa esfera de poder.

A partir de 1904, o novo chefe político de Rio Claro pertencia a uma família imigrante alemã de classe média vinda do Rio de Janeiro, que se aliou à oligarquia local por meio dos laços de casamento: o Coronel Marcello Schmidt. Também no mesmo período, pode-se perceber a ascensão política de outros imigrantes alemães no município.

Um estudo realizado em sete cidades do complexo cafeeiro (RODRIGUES, 1991), e entre elas Rio Claro, mostra que houve uma ascensão significativa de imigrantes ao cargo de vereador, embora não se verifique o mesmo para o cargo de prefeito. Até 1930, a ocupação destes cargos era quase exclusivamente feita pelas famílias tradicionais da região.

A entrada dos imigrantes na política, além de não ser freqüente, era vista com restrições. A defesa dos antigos contra os novos (QUEIROZ, 1976) tem duas conseqüências fundamentais: uma relacionada à defesa dos habitantes mais antigos contra os estrangeiros, e a outra, à defesa dos já instalados na política contra os que desejam entrar, caracterizando-se por lutas entre grupos ou rivalidades regionais. Porém, tais estudos são muito escassos, motivo pelo qual esforços de pesquisa com esse tema devam ser feitos.

Também Fausto chama a atenção para o número reduzido de estudos sobre a participação política do imigrante no Brasil, que é uma das redes de sociabilidade nas quais o imigrante europeu poderia ser inserido em sua “nova realidade” no Brasil; para o autor, há muitas constatações que poderiam ser melhor aprofundadas, pois,


[...] tradicionalmente temos considerado que, no período da imigração em massa e nos decênios subseqüentes, os imigrantes estiveram à margem da política. Distantes das instâncias do poder, sem os mínimos requisitos de educação formal que lhes permitisse participar da vida pública, imigrantes de primeira e segunda geração estariam dedicados ao projeto de ascensão social pela via do mercado. O mundo político e as benesses dele derivadas, sobretudo sob forma dos cargos públicos, seriam chasse gardeé dos nacionais, funcionando inclusive como amortecedor das vicissitudes econômicas das famílias oligárquicas. Além disso, as restrições a estrangeiros assumirem cargos eletivos e cargos públicos em sentido estrito teriam contribuído para acentuar essa marginalização [...] [e observa haver] alguns indícios de que [a elite política oligárquica] foi menos impermeável do que se tem pensado. Seria ingênuo pensar que a oligarquia abrisse fraternalmente espaço a estrangeiros e seus descendentes. Mas ela não podia simplesmente voltar as costas a uma massa de pessoas cada vez mais implantadas na vida social [...] Sugiro que a penetração de imigrantes e seus descendentes no terreno político foi mais rápida e menos difícil nas regiões novas do Estado-no Oeste paulista, por exemplo-, onde o crescimento econômico e a urbanização foram praticamente concomitantes à imigração. (FAUSTO, 1991:42-44)
Houve, enfim, um grande impacto “urbanizador” causado por essa grande massa populacional estrangeira no município de Rio Claro - já em 1872, por exemplo, os alemães eram 50% da população estrangeira em Rio Claro (cerca de 400 pessoas). Em 1887, havia 333 alemães e suíços trabalhando nas colônias de Parceria de Rio Claro, num total de 540 trabalhadores que possuem diversas nacionalidades (brasileira, alemã, suíça, portuguesa e belga). Ou seja, entre as 108 famílias que trabalhavam na cafeicultura em Rio Claro, 68 eram de origem alemã e suíça. (BASSANEZI, 1992:40). Entre 1882 e 1885 saíram, da hospedaria dos imigrantes de São Paulo com destino a Rio Claro, 29 indivíduos de origem alemã. (BASSANEZI, 1992:42). Em 1892 já existiam 16 proprietários de terras estrangeiros, todos de origem germânica, que adquiriam as fazendas de café em decadência, entre eles Fritz, Heiderich, Helsdorf, Kappel, Schimidt e Drysbach.

A cidade de Rio Claro conseguiu, já no ano de 1886, um alto desenvolvimento econômico, visto que foi responsável pela produção de 9.000.000 quilos de café, sendo a terceira maior produção da província de São Paulo, segundo relatório apresentado ao Presidente da Província no mesmo ano. (DINIZ, 1973:14). Nesse período, a imigração na cidade foi predominantemente familiar e de suíços-alemães.4 Os portugueses eram a segunda nacionalidade com mais imigrantes no município após os alemães. (BASSANEZI, 1992:40).


Acresce que o pauperismo reinante em certas localidades européias levava muitas autoridades da Alemanha e da Suíça a estimular a emigração de elementos que se tornavam onerosos às administrações municipais. Várias municipalidades prontificaram-se mesmo a colaborar com os agentes de emigração adiantando ao emigrante as somas necessárias à passagem e sustento. É claro que isso podia prometer tudo aos nossos fazendeiros menos os homens ativos, morigerados e ordenados de que tanto careciam eles. Entre os colonos enviados a São Paulo por intermédio da Casa Vergueiro figuravam, segundo o testemunho insuspeito do D. Heusser, não só antigos soldados, egressos das penitenciárias, vagabundos de toda espécie, como ainda octogenários, aleijados, cegos e idiotas[...] (HOLANDA, PREFÁCIO IN DAVATZ, 1980:28-29).
Concomitante a esse movimento, a construção da ferrovia no município em 1876 (MATOS, 1974) e o conseqüente crescimento do núcleo urbano atraíram alguns estrangeiros advindos de outras regiões - diretamente da Europa - e também de algumas colônias do sul do país, assim como alguns antigos parceiros das fazendas da região de Rio Claro. Por volta de 1870, estabeleceram-se muitos suíços e alemães no município, entre eles: Jorge Helmeister, Mathias Hartmann, Adão Hebling, Mathias Pott, Jacob Witzel, Nikolaus Britsghy, Jacob Huber, João Bolliger, Fernando Hartung, Nokolaus Neubauer, os irmãos Schlittler, Carl Thim, os irmãos Kretti, Martinho Hummel, João Eichenberger, Felix Hoffmann, Bartli Iost, os irmãos Breternitz, Nokolaus Arnold, Samuel Blumer, Germano Muler, João Peter Linhardt, João Reiff, os Lahr, os Baungartner, os Bruckaiser, os Thielle, os Graner.

Já em 1872, o primeiro Censo nacional do país contou 818 estrangeiros em Rio Claro, que representavam 7,4% da população livre do município. Dessa quantidade, cerca da metade (45,2%) eram alemães; 31,3% eram portugueses; e 14,8% eram suíços. (BESSANEZI, 1992:41). Havia poucos italianos na região (3,1% do total dos imigrantes) e não havia imigrantes de origem espanhola.

Observa-se também a existência de ao menos duas cervejarias no município, em meados do ano de 1911, que nasceram como “fruto da imigração alemã na região”, que trouxe consigo o “saber-fazer” de tal iguaria, transformando Rio Claro em um pólo tradicional na produção de cervejas do estado de São Paulo até o final da segunda metade do século XX.
Cerveja Rio Claro. Marcas: Rio Claro – Sport – Extracto de Malte (clara, escura, preta). Premiada com Medalha de Ouro a mais pura e a melhor para a saúde. “Cerveja Rio Claro” Companhia Industrial.”

Fabrica de Cerveja Alemã. Das cervejas nacionaes econômicas, a melhor para a saúde, reconhecida e proclamada por todos os entendidos – Branca e Pretinha. Fabrico a systema alemão – Adolpho Wiechman – Rio Claro – Rua 1, n. 40.”5


Na educação local, já em 1873, a escola protestante – Colégio Americano – foi fundada por um português, que contava com muitos professores de origem germânica; e em 1883 teve início a escola alemã, futuro Colégio Koelle; e a partir de 1893, abriram-se outros grupos isolados, com professores alemães. Em 1883 fundou-se também a Igreja Luterana na cidade de Rio Claro, advinda da existência de um grande número de alemães na região que demandavam a construção de tal espaço de sociabilidade para a profecia de sua religião, visto que eram proibidos de exercê-la em outros espaços públicos da cidade.

A expansão cafeeira foi, segundo a hipótese proposta, a responsável pela presença de imigrantes estrangeiros no município de Rio Claro. Em linhas gerais, pode-se dizer que o café propiciou ao município a implantação dos trilhos da ferrovia, o desenvolvimento urbano e possibilitou ainda a transformação da malha fundiária. Com os imigrantes, tal expansão proporcionou não apenas uma oportunidade (quase sempre conflituosa) de trabalho nas grandes fazendas de café, mas, também, abriu um campo de possibilidades no núcleo urbano para a diversificação de suas atividades econômicas no local.

Isto posto, ressalta-se que os imigrantes europeus em Rio Claro responderam à demanda de mão-de-obra necessária à sustentação do desenvolvimento econômico do município no período, provocando igualmente um impacto muito grande na sua população e na vida local, que foram as questões formuladas nesse artigo. Esses imigrantes, portanto, deram a Rio Claro um perfil com acentuada característica estrangeira, que até hoje se faz sentir. Tais estudos devem ser melhor aprofundados em trabalhos subseqüentes, visto que a questão ainda não foi totalmente esgotada neste esforço de pesquisa.

Em Rio Claro, desde o Império, os imigrantes já participavam das Câmaras Municipais, embora de forma tímida. Tal participação na câmara de vereadores alargou-se durante a Primeira República, época em que se firmou a liderança política do coronel Schmidt, filho de imigrantes alemães. Essa temática de estudo aqui proposta deve ser melhor aprofundada em trabalhos futuros, visto que nem todas as fontes de pesquisa foram analisadas e também porque esforços de pesquisa nesse sentido são escassos na historiografia brasileira.

Enfim, a história da participação dos imigrantes europeus na política de Rio Claro e em outros locais de sociabilidade deve ser resgatada e reconstruída antes que tais dados sejam perdidos no Arquivo Público Histórico e Municipal de Rio Claro. Tal proposta de trabalho continuará a ser pensada em estudos subseqüentes, a fim de reconstruir a história da instalação dos imigrantes em Rio Claro e suas relações (econômicas, políticas) com o urbano local.

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1 Aluna do programa de pós-graduação (mestrado) em História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho", UNESP, campus de Franca.

1 No período a ser estudado, alemães e suíços são considerados teutos. Desse modo, torna-se difícil a descrição da origem exata dos imigrantes. Portanto, não se pode afirmar com certeza quais imigrantes eram realmente de origem alemã e quais eram suíços. Assim, procurar-se-á estudar tanto os alemães quanto os suíços na pesquisa.

2 Fragmento extraído de projeto de grupo temático A Belle Époque Caipira: modernidade e urbanização no Mundo do Café (1852/1930) apresentado pelo CEMUMC - Centro de Estudos da Modernidade e Urbanização do Mundo do Café –, cujo Coordenador Geral era o Prof. Dr. José Evaldo de Mello Doin (em memória), entregue a FAPESP em caráter de parecer, p. 19.

3 O que ocorre nesse contexto, na verdade, é um nomadismo, ou seja, uma ocupação do espaço ecúmeno.

4 Ao menos durante o início do século XX.

5 Informações obtidas nas duas páginas do folhetim O Alpha de Rio Claro, edição de 2 de julho de 1911. Tal exemplar encontra-se disponível para consulta no Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro.




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