Homilia: Gritem ao mundo que Jesus Cristo está presoi



Baixar 85,55 Kb.
Encontro02.07.2017
Tamanho85,55 Kb.



Homilia: Gritem ao mundo que Jesus Cristo está presoi.
Pe. Valdir João Silveira

Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária -CNBB.

Gritem ao mundo que Jesus Cristo está preso

As pessoas vão nos contestar: elas dirão que presos estão os bandidos e não Jesus Cristo!



E nós, que temos o compromisso de chamar o mundo para visitar Jesus, então falaremos dos crimes que Jesus cometeu, e o que os levou a ser preso, a ser torturado, a ser tratado com um dos maiores criminosos da sua época e como Jesus permanece preso até os dias de hoje.
Diremos que como os presos, em sua grande maioria, ele já foi gerado fora da Lei, gerado no ventre de uma mulher solteira, conforme Mt 1,18. A lei judaica, da época, castigava severamente a jovem que engravidasse antes do casamento. Toda relação sexual extraconjugal, do homem ou da mulher casados era condenada. Era um crime grave para a época, punido com a pena de morte, (Dt 22,23-24). Jesus foi gerado nestas condições, fora da Lei. Maria cometeu um crime, ao aceitar o convite para ser a Mãe de Jesus, pois ainda era uma jovem solteira. Seu noivo, José, pensou em abandoná-la quando soube que a mesma estava grávida, mas, graças a intervenção de um Anjo, isto não aconteceu, diz o Evangelho de Mateus 1,19-20. Este foi o primeiro crime que caiu sobre Jesus.
Jesus nasceu em uma cidade estranha, sua mãe grávida, não foi acolhida em nenhuma casa, ninguém quis dar pousada para um casal estranho com a esposa na eminência de dar à luz, (Lc 2,6-7). Jesus vai nascer em uma manjedoura, no campo, no meio dos animais. Longe das residências, longe das cidades.
As primeiras pessoas a visita-lo, foram os pastores. A imagem romântica dos pastores dos presépios não corresponde à realidade. Eles eram mal vistos pelo fato de não respeitarem as propriedades dos outros, invadindo-as com seus rebanhos, e cobrando preços exorbitantes pelos produtos dos rebanhos. Conforme o Talmud Babilônico, um pastor não podia ser eleito a cargo de juiz ou testemunha nos tribunais, por causa da má fama e do desrespeito à propriedade. É a um tipo assim de gente, que é dirigido por primeiro, o anúncio do nascimento do Salvador. E os pastores respondem ansiosamente a esse anúncio, indo apressadamente a Belém. (Lc 2,8-12). Vendo-o, contaram o que lhes fora dito a respeito do menino; e todos os que os ouviam ficavam maravilhados com as palavras dos pastores. (Lc 2,17-18).
Jesus ainda criança já é tratado como um fora da Lei, alguém perigoso, recém-nascido, recebe a pena capital, (Mt 2,13). Quando o Rei Herodes soube que Jesus tinha nascido, de imediato, decretou a sua morte. Este foi o presente que Jesus recebeu do Rei Herodes: a condenação. Seu segundo crime, ter nascido.
Jesus criança escapa da morte porque Maria e José fogem com ele (Mt 2, 13-14). Recém-nascido, condenado, perseguido, torna-se fugitivo da lei. Os policiais de Herodes o procuram e não o encontram. Herodes revoltado decreta a morte dos inocentes. Diz o evangelho de Mt 2, 16-18, que Herodes quando viu que tinha sido enganado pelos magos, ficou furioso e mandou matar em Belém e arredores todos os meninos de dois anos para baixo. Jesus conseguiu fugir, de noite, deixando atrás de si um rastro de sangue. Imaginamos Maria e José nesta fuga, como se sentiram e, como a comunidade de Belém, as famílias que perderam seus filhos sentiram-se ao verem as suas crianças serem assassinadas, devido à fuga de uma família suspeita, desconhecida. As Crianças são assassinadas por causa de Jesus, (Mt 2,17- 18). As mães choram desesperadas, sem consolo, a morte de seus filhos. “Cumpriu-se, assim, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Ouviu-se uma voz em Ramá, muito choro e gemido: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque já não existem”. Além da fuga e da perseguição noturna de Jesus Maria e José, carregaram para sempre esta lembrança. As mães choraram a dor da perda de seus filhos; Jesus cresce sabendo que o seu nascimento foi causa de morte para muitos inocentes. Terceira condenação.
Jesus passa a grande parte de sua vida morando em Nazaré, uma cidade que não tinha uma boa fama, um lugar onde viviam pessoas marginalizadas. O povo não via com bons olhos os moradores daquela cidade. Quando apresentam Jesus para Natanael, ele interroga indignado: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1,46). Assim como são os bairros e favelas onde são criados e de onde vem a grande maioria da população encarcerada. Quarto crime morar no meio e junto com os marginalizados. Agentes de Pastoral Carcerária gritem ao mundo que Jesus Cristo está preso!
Jesus, no inicio da sua Vida Pública, em um sábado à tarde, entrou em uma Sinagoga e leu o seu programa de vida, o que veio fazer neste mundo e todos escutaram com grande admiração: “O Espírito do senhor está sobre mim; porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor. Enrolou o livro, entregou-o ao servente e sentou-se. Todos na sinagoga olhavam-no, atento.” (Lc 4,16-21) Apresentou o seu programa de vida. Programa que assumiu, com todas as dificuldades do caminho, até o fim. Não desistiu, não abandonou, cumprindo-o na íntegra. Porem, após a leitura, Jesus sentou-se e já em seguida, ali mesmo na Sinagoga, onde acabara anunciar o seu programa de vida, o povo já tenta matá-lo. (Lc 4,29). Ele acabara de assinar a sua pena de morte, por querer evangelizar, libertar, curar, e anunciar o Ano da Graça do Senhor aos pobres, aos aprisionados, aos cegos e aos oprimidos.
A Vida Pública de Jesus foi muito difícil: perseguições, condenado várias vezes, expulso do Templo, da sinagoga e até de cidades; por todos os lugares tentavam prendê-lo e matá-lo.

No templo, por curar um homem em dia de sábado (Jo 7, 14-19), quando ensinava (Jo 7,28.30). Em vários momentos encontramos as autoridades e os Judeus irritados e querendo matá-lo. Mas não sabiam o que fazer, porque o povo todo ficava fascinado, quando ouvia Jesus falar (Lc 19,45-48).

Na Sinagoga, por curar um homem com uma das mãos paralisada, em dia de sábado, os fariseus fizeram um plano para matar Jesus (Mt 12, 9-14). Após a proclamação do seu projeto de vida levantaram-se, e arrastaram Jesus para fora da cidade e o conduziram até o alto do monte onde estava construída a cidade, para dali o precipitarem (Lc 4,29).

Nas cidades, Jesus é expulso, a população vivia harmoniosamente com os Demônios, mas não conseguiam viver com Jesus, suplicam que Ele a deixasse e, fosse embora, saísse do meio deles. Então toda a cidade saiu ao encontro de Jesus. Vendo-o, começaram a suplicar que Jesus se retirasse da região deles” (Mt 8, 34).

Em relação aos parentes, quando Jesus declarou que a vida estava acima da Lei, causou a revolta e a ira dos seus conterrâneos e ao povo da sua raça, os judeus. (Jo 5,15-18) ... Então as autoridades dos judeus começaram a perseguir Jesus, porque ele havia curado em dia de sábado.

A Vida Social de Jesus é com os fora da Lei, impuros e condenados. Jesus convive com os fora-da-lei do seu tempo. É criticado como “amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 9,10-13). Ao risco de parecer macular-se, faz com eles “comunidade de mesa”: com Zaqueu (Lc 19,1-10), com Mateus (Mt 9,10-11) e com os pecadores em geral (Lc 15,1-2). Em relação aos doentes: No tempo de Jesus, toda doença estava ligada ao pecado. A doença era vista como um castigo. A situação era mais evidente ainda no caso das possessões. Ora, Jesus vive rodeado de doentes. Marcos nos apresenta este quadro: “Ao anoitecer, após o pôr-do-sol, começavam a trazer-lhe todos os doentes e os endemoninhados. A cidade inteira estava aglomerada à porta” (Mc 1,32-33). Os samaritanos são semi-pagãos e, por isso, também desprezados (Jo 4,9). Mas Jesus aqui se torna amigo de todos eles. Quanto aos samaritanos, apresenta um deles como exemplo de amor ao próximo (Lc 10,36-37).

Jesus tinha uma vida de pobre e humilde; não tinha casa nem uma cama para repousar a cabeça. Lc 9,58. Tinha uma vida de caminhante, retirante, peregrino.

As perseguições com o tempo foram aumentando ao ponto de Jesus ter de viver na clandestinidade, escondido. Por medo dos Judeus, Jesus se esconde, porque queriam lhe matar. Retirando-se para uma região perto do deserto, para uma cidade chamada Efraim, ali ficou com seus discípulos (Jo 11,53-54). Quinto crime: colocou a vida acima da Lei. Agentes de Pastoral Carcerária gritem ao mundo que Cristo está preso!


Preso como um marginal perigoso, Mt 26,47. Jesus ainda falava, quando chegou Judas, um dos Doze, com uma grande multidão armada de espadas e paus. “O pelotão é enviado pela autoridade religiosa e pela civil (ver 26,3), e vem armados com as espadas e paus da policia do templo1. Preparados caso Jesus tentasse fugir, seria linchado, levaram além das armas e espadas, paus. Varas para bater. Crucificado, depois de ter sido flagelado: ferido, machucado, com sede, fome e dor, “ ... tão desfigurado estava o seu aspecto e a sua forma não parecia a deu um homem...” (Is 52,14), é insultado pelos que passavam em frente dele: os sacerdotes, os escribas, os anciãos e até mesmo, um dos bandidos que estava ao seu lado, crucificado o insulta, (Mt 27,39-44) diziam: “Ele salvou os outros, a si mesmo não pode salvar. É o rei de Israel!... Desça agora da cruz e acreditaremos nele! Pôs sua confiança em Deus, que Deus o livre agora, se é que o ama,.. e o insultavam”.
Na cruz sente-se abandonado até por Deus. Ele dizia que o seu alimento era fazer a vontade Pai, daquele que o enviou (Jo 4,34). Entregou-se totalmente ao Pai e, agora, sente-se abandonado até por Ele (Mt 27,46). Na cruz, aniquilado fisicamente, o corpo esvaindo-se em sangue; aniquilado moralmente, condenado à morte mais vergonhosa e humilhante da época, morte na cruz; sente-se aniquilado espiritualmente e em profundo abandono, grita: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

Nasceu fora das cidades e morre fora de Jerusalém. Foi rejeitado (Mt 8,34 ; 12,10), excomungado e executado fora dos muros da cidade (Jo 19,17-18). Jesus carregou a cruz nas costas e saiu para um lugar chamado Gólgota. E aí o crucificaram. Mais: morreu como um “amaldiçoado” (Gl 3,13), como um “excluído” pelo próprio Deus (Mc 15,34), como um abandonado nos infernos do sofrimento e da morte (1Pd 3,19-20).

Antes de Morrer dá o maior presente que alguém poderia receber neste mundo. Convida um colega de cadeia, o “Bom Ladrão”, junto com ele abrir a porta dos céus. (Lc 23,43) Jesus disse: Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso”. Aos pés da cruz estava Maria, sua mãe e o discípulo que ele amava (Jo 19, 25-27). Dias antes, na viagem que fez até Jerusalém, antes de ser preso, Jesus subiu à Montanha, Monte Sinai, com Pedro Tiago e João e conversou com o Patriarca Moisés e o Profeta Elias, ambos já falecidos há muito tempo (Mt 17, 3). Jesus poderia, muito bem ter convidado um deles para entrar no céu com ele, mas preferiu, alguém que estava preso e com ele carregou a cruz até o Calvário, até o fim. Um colega de cadeia entra com Ele no céu. Ajuda a abrir as portas do céu. Sexto crime, até a morte em tudo realizar a vontade do Pai, amando os não amados deste mundo. Agentes de Pastoral Carcerária gritem ao mundo que Cristo está preso!

Jesus ressuscitou fora do centro religioso do tempo (Mt 28, 1ss). Apareceu somente para aqueles que o seguiam. Jesus não foi aos locais e não conversou com as pessoas que o tinham rejeitado. Jesus Ressuscitado não vai à Sinagoga, no Templo, nos Palácios de Herodes e de Pilatos, apareceu às Mulheres, aos discípulos de Emaús, aos Onze, fora (na Galileia: Mt 28,10.16) e mandou em missão para fora, “até os confins do mundo” (At 1,8).

Mas o “condenado” da história torna-se o Senhor da história. Deus exalta o Humilhado. Jesus apresentou-se como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra, nos abismos. E toda língua proclame, para glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor (Fl 2,6-11). A verdade da divindade de Jesus é confirmada pela ressurreição. Ele tinha dito: «Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis que "Eu Sou"(Jo 8, 28). A ressurreição do Crucificado demonstrou que Ele era verdadeiramente Eu Sou, o Filho de Deus e Ele próprio Deus. (CIC, 653).
Nós cristãos temos como centro de nossa vida, vértice da vida da Igreja e do ministério sacerdotal a Eucaristia (Nº31 CARTA ENCÍCLICA ECCLESIA DE EUCHARISTIA, DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II, SOBRE A EUCARISTIA). A Eucaristia é o verdadeiro banquete, onde Cristo Se oferece como alimento (Idem nº 16). “Sob as espécies consagradas do pão e do vinho, o próprio Cristo, vivo e glorioso, está presente de modo verdadeiro, real e substancial, com seu Corpo e seu Sangue, sua alma e divindade” (Catecismo da Igreja Católica, 1413, 1418). Eucaristia: Carne e sangue de um prisioneiro. Na Eucaristia, comemos e bebemos o sangue de um encarcerado, morto na cruz, Jesus Cristo.

“Uma vez que Cristo em pessoa está presente no Sacramento do Altar, devemos honrá-Lo com culto de adoração. A visita ao Santíssimo Sacramento é uma prova de gratidão, um sinal de amor e um dever de adoração para com Cristo nosso Senhor. “(CIC, 1413, 1418)”. Estive preso e foste me visitar, (Mt 25,36). O Agente de Pastoral Carcerária realiza a adoração do Santíssimo visitando Jesus no Sacrário da Cela. A cela tornasse o ostensório de Jesus Cristo, vivo e encarnado, ali preso, desfigurado pelo pecado. Ele é o centro da adoração do Agente de Pastoral Carcerária. ( V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe Nº 393, 402).


E o povo ainda nos diz que Jesus Cristo nunca cometeu um crime, que atrás das grades estão os criminosos. De uma coisa podemos ter certeza: quem assim fala nunca leu a Bíblia, ou leu, mas não entendeu, não conhece Jesus Cristo que hoje continua vivo, escondido nos cárceres da vida, preso e pedindo que gritemos ao mundo que Ele está preso e, que está esperando, aguardando a visita de todos. “Eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’. Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que o fizeram’.... e, Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo (Mt 25, 31-46).

Pe. Valdir João Silveira



Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária – CNBB

1 Bíblia do Peregrino. Novo Testamento. Ed. Paulus. Ano 2000. Pag. 115.

i Santiago, Chile, Homilia na Missa do Encontro do Cone Sul da Pastoral Carcerária. Santiago, Chile. 22 de agosto de 2012.

Página de




©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal