Homem de deus



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Ir. Basílio Rueda Guzmán

HOMEM DE DEUS


Caderno 2

MARIA, CHAMPAGNAT, A IGREJA



Ir. Giovanni Bigotto


1

MARIA NA VIDA

E NO PENSAMENTO DE BASÍLIO


Em nossa Congregação é conhecido por sua Circular sobre a Mãe do Senhor, Um Novo Espaço para Maria. Vinha na hora exata, após os anos de hesitação que se seguiram ao Concílio, e a tendência crescente de marginalizar em nossa fé a Virgem Maria. Para muitos Irmãos Maristas essa Circular causou grande alegria, como se o céu marial voltasse à serenidade. Era o presente de Basílio no fim de seu primeiro mandato. Na sua intenção era realmente o regalo final, algo como Jesus que nos dá sua Mãe na cruz. Estava convencido de não ser reeleito, e suas malas estavam prontas. Essa Circular era também um ato de gratidão para com Aquela que permanecia “o Recurso Habitual”. No seu escrito ele queria mostrar tudo o que Ela havia feito durante seus nove anos de mandato,1 eco de Marcelino que dizia: “Ela fez tudo entre nós!”.



1.1. Na sua juventude
Mas voltemos a um Basílio mais jovem, aquele que ainda não encontrou sua vocação marista. Reconhece que não gostava das orações um pouco longas que se faziam na sua família. Em contrapartida, sentia prazer em rezar pessoalmente o rosário.2 É claro que isso é apenas um começo. Mas vários depoimentos confirmam que seu noviciado foi marcado por forte devoção marial.3 E quando foi responsável pelo movimento Mundo Melhor, no Equador, confidenciou a uma Irmã que trazia em si, prontinho, um livro sobre a Santíssima Virgem, mas faltava-lhe tempo para escrevê-lo.

1.2. Um tempo de confusão
Nisso vem o Concílio. Sabemos o que ele produziu mesmo em nossa Congregação marial. Em algumas comunidades, as estátuas de São José e da Santíssima Virgem Maria foram jogadas ao sótão. Contudo Basílio, que tinha conhecimento excelente e sadio dos textos e do espírito do Concílio, repetia em diversos meios e circunstâncias que o capítulo VIII de Lumen Gentium, sobre a Santíssima Virgem no povo de Deus, era uma jóia, um verdadeiro presente do Espírito: “Muitos Irmãos chegam a sentir certo mal-estar em sua vida marial. Ao meu ver, trata-se de um paradoxo: chegaram a questionar se almas especificamente chamadas ao apostolado marial e se um Instituto como o nosso ainda têm sentido hoje e se lhes resta algum trabalho a fazer na Igreja pós-conciliar. Pois bem, o Concílio jamais retirou de Maria seu lugar e sua grandeza, nem subestimou o amor que o povo cristão sempre demonstrou a Maria. Pelo contrário, a mensagem que mandou foi um apelo à purificação e à autenticidade dessa devoção; confirmou com sua autoridade (num documento sintético e sóbrio, se quiserem, mas sério e de grande valor) toda a grandeza de Maria e a essência e riqueza de nossa devoção à Mãe de Deus”.4 Basílio conclui que na Igreja nós temos “uma função especificamente marial”, mas o texto conciliar nos “impõe uma reciclagem”.5

1.3. Maria caracteriza os Maristas
Dessa função especificamente marial ele define qual é “de certa forma, a alma do Instituto; dá-lhe seu espírito e justifica sua finalidade”.6 Em outras páginas Basílio faz alusão ao Documento Marial que o Capítulo de 1967-68 tinha produzido e que, a seu modo de ver e pelos ecos que havia recebido, era dos melhores. Contudo, após um momento de atrativo, os Irmãos terminarão pondo-o de lado, deixando perceber a hesitação ou, melhor, a expectativa, a procura, que havia neles após o Concílio. Alegra-se porque os Irmãos do Brasil organizam um Congresso Marial e escreve-lhes: “Tenho a certeza de que vai ser uma bênção para o Brasil e estou certo de que uma das vocações particulares do Brasil Marista será reanimar, desafiar, reativar e fazer surgir no mundo marista a devoção a Nossa Senhora”.7

Acha particularmente feliz o lema do Congresso: “Do jeito de Maria”. Escreve aos Irmãos que nele trabalham: “Digo-lhes que não poderão em toda a história da humanidade escolher um modelo mais perfeito, mais admirável. Por dois motivos:



Porque dos dedos de Deus, desse artista soberano, jamais saiu um ser humano mais perfeito, mais belo, mais axiológico do que Maria... Essa mulher superdotada, moralmente superdotada, ontologicamente superdotada, com riqueza e ao mesmo tempo simplicidade, e vibração por toda a história da salvação...”.8 Outro motivo de alegria são as conseqüências pedagógicas e pastorais de tomarem como divisa ‘Do jeito de Maria’. “Que os Irmãos Maristas adotem essa divisa em suas relações, em seu modo de ver, de falar, de tratar, de transmitir Jesus aos jovens... Educar ‘do jeito de Maria’ será autêntica revolução copernicana na educação no Brasil”.9 Essa idéia de educar do ‘jeito de Maria’ entrará nas Constituições de 1986, no artigo 84: Maria educadora de Jesus.

1.4. O Magníficat
E ele não havia esquecido o livro já pronto que trazia no coração. Por vezes lhe escapavam uns trechos dele. Por exemplo, em sua primeira Circular, de 2 de janeiro de 1968, quando fala do Magníficat: “O desgosto manifestado por alguns Irmãos pela recitação dos Salmos não teria sua origem na primeira formação orientada para uma espiritualidade individualista, em que sua própria vida religiosa não chega a tomar jeito resolutamente? Por outra, esses religiosos não ignorariam também a vida de Jesus e da Igreja? Esse não foi o caso de Maria: seu Magníficat é como um concerto misturando sua própria história com a de seu Povo, e seu Povo canta nela... é necessário deixar-se moldar no contato da Palavra divina”.10

1.5. À procura de sabedoria
Nas primeiras páginas dessa Circular, com apenas três meses de Superior-Geral, é para Maria que se volta numa prece espontânea para pedir a prudência necessária para governar: “Desejo e peço ao bom Deus que meus desejos se tornem feliz realidade e que, para levar a bom termo esta tarefa delicada de governar, Nossa Senhora, Trono da Sabedoria, me alcance a virtude da prudência, virtude essencial ao Superior”.11

1.6. Sua maneira de rezar à Boa Mãe
Por meio de testemunhos diferentes – notadamente do Padre Manuel Portillo, seu colaborador em quase todos os retiros nos países de língua espanhola – sabemos como ele rezava o terço e quanta liberdade tinha nessa oração. Mas citemos antes outro testemunho: “É o resumo de uma conversa entre os Irmãos Mariano Medina, Hilário Schawb e eu, enquanto nos dirigíamos de carro ao Vaticano, no dia 19 de outubro de 2001. A conversa recaiu sobre o Irmão Basílio, e o Irmão Mariano a nos dizer: ‘Eis um pequeno fato: Eu voltava de Montecassino com o Padre Manuel Portillo, grande colaborador de Basílio. Em dado momento ele nos diz: ‘Por que não rezaríamos um terço, no estilo de Basílio?’. Esse terço comportava apenas dois mistérios, mas poderia durar até uma hora. O primeiro mistério consistia em rezar pelas pessoas que havíamos encontrado e com as quais havíamos trabalhado. Nas ave-marias, Basílio nomeava tal ou tal pessoa e ampliava a oração para lembrar à Mãe do Senhor as necessidades, as responsabilidades, as alegrias, as maravilhas dessas pessoas. Eram ave-marias bem personalizadas, brotando da vida e que revelavam não só a atenção, o coração e a memória de Basílio e sua grande liberdade na oração – flexibilizando-a e alargando-lhe a fórmula tradicional – mas também sua imensa confiança em Maria. As ave-marias tornavam-se imploração, gratidão, admiração, louvor.

O segundo mistério consistia em rezar pelas pessoas que iríamos encontrar, e continuávamos do mesmo jeito, a mesma generosidade e a mesma liberdade”.12 Enquanto estas linhas estão sendo escritas (12-2-2003), o P. Manuel Portillo está conosco em Roma. Fiz-lhe alusão ao terço do jeito de Basílio, e ele me disse: “Sim, era uma oração bem espontânea. Começava sempre por louvar a Virgem Maria: Virgem do Bom Conselho, Virgem da Prudência, Virgem da Alegria, Virgem que reflete, a pobre de Javé... Ele tinha uma primeira dezena de louvor, depois a da gratidão: agradecia-lhe todo o trabalho feito durante o retiro ou durante a visita... Depois tinha muito tempo para dezenas de intercessão”.13

Esse depoimento nos revela o que era Basílio na sua espontaneidade para com a Boa Mãe. Na mensagem que enviou aos Irmãos do Brasil para o Congresso Marial que estavam preparando, comenta a divisa ‘Do jeito de Maria’: “A companhia da Virgem nos fará descobrir um Cristo mais próximo, mais tangível, com quem podemos comer, sentar-nos a seu lado, que podemos tocar e anunciar, e isso, vindo de uma experiência espiritual, será extraordinário. No jeito de Maria, vamos sentir Deus como Pai, a maravilhosa paternidade de Deus”.14

1.7. O rosário
Já no retiro que pregara aos Irmãos da Província Norte, em 1972, havia convidado a essa liberdade na recitação do rosário: “De mais a mais, o rosário apresenta vantagens imensas. Por exemplo: Quem me obriga a tomar os mistérios, tais quais são propostos, como por obrigação? Posso perfeitamente tomar minha Bíblia de bolso (e nisso deve haver grande independência, devemos quebrar muitos formalismos) e se eu quiser impregnar a recitação do terço com a meditação da Epístola aos Romanos, leio uma passagem, rezo e releio. Assim ponho um conteúdo bíblico que me impregnará de São João ou de São Paulo, etc., e enquanto cultivo uma espiritualidade marial, dou-me também uma espiritualidade bíblica”.15

É assim que João Paulo II justifica a introdução dos cinco mistérios luminosos: rezar com toda a vida pública do Cristo. Não somente Basílio sentia-se livre na maneira de recitar o terço, mas não hesitava em dizer aos Irmãos, sobretudo àqueles para os quais o terço se tornara uma oração pesada: “Se há uma oração marial de qualidade melhor que o rosário, tomem-na tranqüilamente, sem preocupações, desde que rezemos verdadeiramente à Virgem Maria, a amemos e nutramos por Ela uma devoção profunda... Creio que chegamos a momentos de transição e devemos aceitar uma alternância de fórmulas para ajudar a espiritualidade dos Irmãos... Mas temos necessidade de um ritmo cotidiano de oração marial”.16



1.8. Um Novo Espaço para Maria
Tudo isso nos diz, seguramente, qual a relação que Basílio tinha com a Virgem Maria. Mas nada revela tanto a alma marial de Basílio do que sua Circular Um Novo Espaço para Maria: a teologia é das mais puras, mais avançadas e, ainda hoje, muito atual, baseada nas Escrituras, longe das devoções vacilantes (Basílio confessa não ser atraído por aparições, embora nada tenha contra, mas a Palavra de Deus ultrapassa todas as aparições). As afirmações exegéticas e as intuições espirituais se exprimem sempre numa linguagem que traduz o respeito e a afeição. Estamos em presença de um estudo marial, de uma mensagem para nossa família, mas também de um prolongado louvor: a reflexão se passa constantemente sobre o bulevar da oração. Essa Circular acolhe muitos depoimentos de Irmãos sobre seu amor à Boa Mãe, e isso dá um pouco a paisagem marial do Instituto, bem mais sadia do que se imaginava. Acrescentemos a nuança revelada pelo Irmão Gabriel Michel, que a primeira parte da Circular, aquela teologal, Basílio a teria ditado, sem parar, durante pouco mais de uma hora. Isso prova que ele trazia consigo, já prontinho, um livro sobre Maria: “Seja como for, um dia vai decidir escrever Um Novo Espaço para Maria. Milhares de Irmãos deram-lhe, por escrito, seu depoimento sobre o que Maria tinha sido para eles. Uma multidão de excertos será publicada; mas faz-se necessário um prólogo teológico para esse conjunto. Conforme seus princípios de prudência, reuniu um grupo de Irmãos estudantes que seguiram cursos de Mariologia. Durante uns quinze ou vinte minutos, faz-lhes perguntas, escuta-os e, depois, durante uma hora, põe-se a ditar sem interromper todo o prólogo da Circular. Ninguém o interrompia, tanto tinham certeza de que seu pensamento era claro, sobre o que iria dizer da Boa Mãe”.17 Basílio confirma esse depoimento nas páginas introdutórias: “Esta Circular foi concebida e realizada conforme o plano e a doutrina que eu trazia no coração antes mesmo que a equipe tivesse sido constituída”.18 Comentando essa Circular, o Irmão Cláudio Girardi escreveu: “Basílio foi para nós todos um mensageiro e um modelo de devoção marial do jeito marista. A bela Circular que escreveu sobre Maria... foi como que uma fonte”.19

Na mensagem que Basílio envia ao Congresso Marial do Brasil, 1982, ele dá uma das razões que o levaram a escrever a Circular: “Todos sabem que nestes últimos tempos houve uma crise marial, um esfriamento, ou melhor, um momento de perplexidade: perplexidade teológica, perplexidade devocional, pastoral, em nível de Instituto, para com a Virgem Maria. A Circular Um Novo Espaço para Maria eu a escrevi em parte exatamente por isso e como tributo à Virgem que esteve na origem de minha vocação”.20



1.9. Num clima de oração e fraternidade
Muito significativos são também o espírito e o clima em que a Circular foi escrita: “Acrescento ainda que esta Circular foi feita numa casa de retiro. Foi cercada de oração e de verdadeira comunicação de fé e caminhada marial. Às vezes o diálogo marial durava três horas e mais..., as orações participadas ou não duravam de meio hora a uma hora e meia. Por tudo isso agradeço à equipe que, com alegria e verdadeiro amor a Maria, se empenhou nessa iniciativa, representando nacionalidades, funções, mentalidades e idades diferentes; exatamente o que nos era preciso”.21 Alguns parágrafos adiante, escrevia: “Que o Espírito Santo que deu à Igreja Maria, essa criatura maravilhosa – antecipação e culminância da humanidade resgatada – e que deu ao Instituto a graça de ser particularmente encarregado de fazê-la conhecer e honrar, abençoe as palavras desta Circular... Convido os Irmãos a lê-la no mesmo espírito de amor, de alegria e de oração em que foi redigida”.22 Foi realmente assim que os Irmãos acolheram e leram a Circular, com emoção, num clima de oração e ufania. Essa Circular marca a volta pacífica, estável, da Mãe do Senhor na vida comunitária e no apostolado marial dos Irmãos: foi um momento de alegres reencontros.

1.10. A fé da Santíssima Virgem
Não faremos a análise desse escrito, muito rico, muito denso e do qual um dos principais fios condutores é o itinerário de fé da Virgem Maria. Essa fé Basílio vê-a emergir constantemente e subir para um conhecimento de seu Filho e adesão cada vez mais fortes. Maria não tinha uma fé estática, mas viva, que crescia e amadurecia a cada nova epifania de seu Filho. Por seu Sim, Maria não acolhe apenas um bebê no seu seio, mas o Verbo de Deus, a Palavra. E, quando mais tarde Jesus for adulto e que a Palavra de Deus se multiplicará nas estradas da salvação, Maria será ainda aquela que vai acolher essa Palavra que ressoa: “Tudo isso nos mostra em Maria uma caminhada de fé que a situa como Mãe do Senhor, não já por uma maternidade física que acolhe uma carne humana, mas por outra maternidade que vai se ampliando e que acolhe, por inteiro, a Palavra de Deus para dela fazer sua vida, seu alimento na fé”.23

Alguns parágrafos atrás, Basílio tinha lembrado o pensamento de Santo Agostinho, no final de uma das suas próprias reflexões: “Não é senão pela fé na Palavra e no cumprimento da vontade divina que ela teve acesso a Jesus, desde a Anunciação. Por que a maternidade divina é tão maravilhosa? E foi tão exaltada pela Igreja? Porque aquilo que é primeiro nela não é o laço biológico ou psicológico, mas o laço espiritual. É preciso que Maria conceba primeiro Jesus no seu coração para concebê-lo depois em seu seio: ‘prius mente quam ventre concepit’, diz Santo Agostinho”.24 Quando da ressurreição e, ante o silêncio dos evangelhos sobre uma aparição à Mãe, Basílio, fiel em seguir o caminho da fé, prefere ver Maria no grupo imenso dos fiéis do Filho, que são “felizes porque crêem sem terem visto”, e essa bem-aventurança junta-se à de Isabel: “Feliz de ti porque acreditaste!”.25 E eis aqui um parágrafo que condensa a experiência de fé da Virgem, após o sepultamento de Jesus, seu Filho: “Maria terá, pois, estado lá, em todos os momentos essenciais para fazer plenamente sua experiência de fé. Jamais outra experiência de fé terá sido menos nebulosa. Vindo do Pai, seu Jesus foi confiado à terra”.26 Cada etapa da vida de Maria é ocasião para que sua fé cresça, se rejuvenesça, torne-se novo dom a seu Filho, no amor. Basílio havia definido a fé desta forma: “Todo ato de fé é efeito da inteligência que ‘vê’, pela Palavra de Deus nas trevas do Mistério; mas é também e indissoluvelmente fruto de uma vontade que adere conscientemente e cordialmente ao desígnio e à Pessoa de Deus, sob a moção do Espírito Santo”.27 Essa maneira de insistir sobre a fé da Virgem Maria revela duas realidades importantes de Basílio: sua relação com a Mãe do Salvador não é só feita de sentimentos de respeito e de afeição, mas de uma maneira de viver em profundidade o mistério de Maria, como uma comunhão com a alma de Maria, com a verdade cotidiana da Mãe de Jesus. Mostra também qual era a familiaridade de Basílio com a fé: como ele a vivia e a compreendia, e como ele mesmo era homem de fé. Em quase todas as páginas da Circular emerge a fé da Virgem Maria, proclamada pela fé do Irmão Basílio. Eles estão em comunhão de fé. Esse aspecto mereceria, sozinho, todo um estudo que poderia tomar lugar num capítulo sobre a fé do Irmão Basílio.

Num parágrafo bastante denso da mensagem que Basílio envia, em 1982, ao Congresso Marial do Brasil, ele descreve, como num resumo, a fé da Virgem Maria: “É um fato que o coração da história de Maria se caracteriza por uma coisa: ‘A mulher colocada na sombra do Espírito Santo traz Deus ao nosso mundo, introduz a eternidade na História, vai historicizar Deus, ela vai andar durante sua vida, de sua fé judia à sua fé cristã, da sinagoga à Igreja... numa perfeita docilidade ao Espírito Santo”.28

Vários excertos serão propostos no final desta reflexão. Contudo é muito difícil não apresentar o que poderíamos chamar a Ladainha da Virgem presente na Circular. Ela fala alto do amor que o autor tem para com a Mãe do Senhor. Ele escreve e, ao mesmo tempo, o incenso do louvor se eleva de seu coração: sua reflexão é oração, sua oração é inspiração.



1.11. Ladainha na Circular
Maria, Mãe e modelo dos crentes (p. 161).

Maria, o mais belo fruto de Israel (p. 271).

Maria, a perfeita pobre de Javé (p. 272).

Maria, a favorita, a bem-amada de Deus (pp. 274-275).

Maria que fala, toma iniciativas, age, reflete (p. 275).

Maria, uma modesta Nazarena (p. 278).

Maria, a Virgem da reflexão (p. 279).

Maria, toda receptiva, vaso de eleição, primeira evangelizada (p. 279).

Maria, morada materna do Messias, do Emanuel (p. 280).

Maria, Virgem obediente (p. 281).

Maria, na vossa virgindade, sinal que fala da divindade do Filho (p. 285).

Maria, tenda do reencontro (p. 285).

Maria, iniciada progressivamente na descoberta da divindade de seu Filho (p. 286).

Maria, uma busca incansável de Deus (p. 286).

Maria, que experimenta o Espírito de Poder (p. 287).

Maria, a serva do Senhor.

Maria, que acolhe Jesus, bendito fruto do seu ventre (p. 288).

Maria, nossa representante, nosso porta-voz (289).

Maria, em quem se modela a Igreja, isto é, todos nós.

Maria, a que escuta a Palavra de Deus (p. 289).

Maria a jovem visitante (p. 292).

Maria, portadora da boa-nova da salvação (9. 292).

Maria, a primeira a receber e a representar a Nova Aliança (p. 292).

Maria, bendita sois vós entre as mulheres (p. 292).

Maria, bem-aventurada por ter acreditado.

Maria. ao mesmo tempo muito comunicativa (294).

Maria, aquela que canta: O Reino chegou (295).

Maria, conduzida pelo Espírito (p. 300).

Maria, vontade de oferta (p. 300).

Maria, mulher de alma traspassada (p. 302).

Maria, Mãe do Servo-sofredor.

Maria, irmã e discípula do Senhor glorificado (p. 306).

Maria, itinerante da fé (p. 306).

Maria, cheia de angústia pela perda do Filho (p. 309).

Maria, que não compreende seu Filho (312).

Maria, atenta à Palavra (p. 316).

Maria, Virgem que escuta (316).

Maria, que acolheu a Palavra com amor.

Maria, calma e serena no seu espírito (p. 316).

Maria, mulher aberta, que sabe ler os sinais dos tempos (p. 316).

Maria, que não hesita em aceitar a mudança, a novidade, o inesperado (p. 316).

Maria, mestra dos sentimentos (p. 316).

Maria, que espera, reflete, pesa, objeta, pede um pouco mais de luz (p. 316).

Maria, cuja presença traz a alegria de viver (p. 317).

Maria, cuja palavra comunica a paz do Senhor (p. 317).

Maria, que traz sempre o Verbo de Deus em seu coração (p. 317).

Maria, em contemplação da Palavra (p. 317).

Maria, ao mesmo tempo humilde, lúcida e luminosa (p. 317).

Maria, Mãe de Jesus (p. 318).

Maria, a primeira cristã (p. 318).

Maria, perfeita educadora do menino Jesus (p. 318).

Maria, cuja alma está cheia da sabedoria bíblica (p. 318).

Maria, totalmente abandonada à vontade de Deus (p. 318).

Maria, a primeira dos pequenos do Reino aos quais o Pai se compraz em revelar os mistérios (p. 318).

Maria, na carne que dais ao menino há a semente da cruz (p. 328).

Maria, a crente por excelência, a favorita de Deus, a que meditava tudo em seu coração (p. 328).

Maria, aquela que vivia à sombra do Espírito (p. 328).

Maria, que introduziu neste mundo as núpcias messiânicas (p. 334).

Maria, que dá o vinho da festa (p. 334).

Maria, que deseja que a festa continue (p. 334).

Maria, chamada mulher por vosso Filho (p. 336).

Maria, a humilde serva do Senhor, a crente por excelência (p. 339).

Maria, do grupo itinerante de Jesus (p. 340).

Maria, a feliz que trouxe e aleitou o grande profeta (p. 342).

Maria, presença silenciosa na Igreja (p. 343).

Maria, intercessão viva e atuante na Igreja (p. 343).

Maria, Medianeira (p. 344)

Maria, toda relativa a Jesus (p. 347).

Maria, espiga virginal da qual cai o grão que deve morrer,

Maria, que nos precede na ciência do Reino (p. 366).


Essa ladainha de Basílio, fruto de seu amor, pode muito bem tornar-se, às vezes, nossa oração, nosso tempo de intimidade com a Boa Mãe e habituar-nos à liberdade dum coração que ama.

1.12. Pedagogia da Circular
Essa Circular responde a uma necessidade real: a situação de incerteza quanto ao culto à Virgem que se instalara após o Concílio e contra a intenção do Concílio. Pois bem, em face dessa perturbação, Basílio procede com pedagogia notável para consolidar os Irmãos no seu amor Àquela que “tudo fez entre nós”. Parte dum estudo teológico sólido para colocar a Virgem Maria no mistério da salvação; continua com a tradição secular da Igreja; estuda a presença de Maria nas origens da família marista e notadamente no coração, na oração, nos ensinamentos e na atividade do Fundador; prossegue com a tradição marial de nossa Congregação, de Superior-Geral a Superior-Geral, mas sobretudo tem o estalinho do gênio de abrir a Circular aos testemunhos dos Irmãos de hoje. Esses testemunhos revelam como Maria é muito presente e ativa no coração e no apostolado dos Maristas. Nada melhor que isso para nos convencer de que Maria é acolhida e deve continuar no meio de nós a Mãe amada, invocada, celebrada, proclamada, inspiradora de nossa fé e de nossa presença junto à juventude. Por isso, a partir dessa Circular, o conjunto da Congregação voltou a uma devoção à Virgem, calma, espontânea, parte integrante e importante do carisma e da espiritualidade marista. Isso será consagrado nas novas Constituições que o afirmam claramente em todos os primeiros artigos e notadamente no artigo 7: “A espiritualidade legada por Marcelino Champagnat é mariana e apostólica...”. Basílio soube convencer os Irmãos quanto à necessidade da presença da Mãe em nossa vida de pessoas consagradas e de Maristas, sob o risco de perdermos nossa própria identidade.

1.13. Seu último Capítulo Geral
No Capítulo Geral de 1993, Basílio foi escolhido para ler a consagração da Congregação à Virgem Maria. A 18 de setembro realizou-se a entronização da estátua da Boa Mãe. Trouxeram a estátua em procissão, da Grande Capela à Sala Capitular. Uma oração de consagração concluiu a cerimônia. Basílio devia exprimir o pensamento dos capitulares. Vão aqui alguns extratos da oração: “Santa Mãe de Deus, reunidos em Capítulo, vimos hoje depositar em vossas mãos e em vosso coração de Mãe, nossa gratidão, nossas esperanças e nossos projetos para que vós os apresenteis a Nosso Senhor... Nosso mundo, nossa Igreja, nossa Congregação devem enfrentar graves problemas, necessidades urgentes. A tarefa que nos confiou o Espírito Santo, através do carisma de Champagnat, é mais apaixonante do que nunca. Ajudai-nos a descobri-la, situá-la, cumpri-la e a sermos como vós, para a juventude, sinais vivos da ternura do Pai e do coração maternal da Igreja”.29

1.14. Maria, quando lhe sobrevém a doença
O Irmão Léonard Ouellet esteve à cabeceira de Basílio durante sua última doença, fez-lhe companhia, rezou com ele e o viu morrer. No seu depoimento escrito diz: “Pediu-me que rezasse com ele. Conhecendo seus gostos marcados pela leitura do Evangelho de São João, os Salmos, a Salve-Rainha, alguns cantos religiosos em espanhol e em francês, o terço, acompanhei-o muitas vezes com orações diversificadas. No sábado, 20 de janeiro, sofreu muito. Estava semiconsciente... Com a presença de ex-noviços vindos do México para visitá-lo, cantamos a Salve-Regina perto de sua cama. Essa vez ele não participou devido à grande fraqueza... Domingo, dia da Ressurreição do Senhor, 21 de janeiro de 1996, às 9h45min, entregou em paz e serenidade sua bela alma a Deus. Um extraordinário homem de Deus, um santo nos havia deixado para reunir-se no amor, com seu Deus que ele amava ardentemente...”.30

1.15. Amigos falaram...
O testemunho do Irmão Ángel Goni Larendegui fala do amor que Basílio tinha a Maria: “Sua devoção à Virgem Maria também foi notável. Acaso poderia ter sido diferente para um Marista como Basílio que tanto amava sua vocação? Isso está claro na belíssima Circular Um Novo Espaço para Maria. Livro admirado e consultado pelos seus e por outros... A primeira parte revela o conhecimento profundo do tema e seu amor inflamado para com Maria, Rainha, Primeira Superiora e Recurso Habitual do Instituto Marista...”.31 Seus noviços, os que ele teve como discípulos diretos até seus últimos dias, falam dele como de “um homem de oração, de fé e de grande amor a Maria”.32 O Irmão Edouard Blondel, inscreve na série de seus agradecimentos a Basílio, o de nos ter dado a Circular Um Novo Espaço para Maria, e continua: “Obrigado, por ter salvo do esquecimento e do abandono o patrimônio marista de Nossa Senhora de l’Hermitage e por nos ter dado a ocasião de aí reencontrar para todo o sempre o Padre Champagnat, o Irmão Francisco e os primeiros Irmãos”.33 Um depoimento que cobre a amplitude da vida do Irmão Basílio, como marista, é o de José Ocaranza Sainz: “É como se eu o visse ainda postulante, no dormitório comum, ajoelhado ao pé da cama, antes de se deitar. Diante da imagem da Santíssima Virgem, mergulhava em fervoroso diálogo... Para mim isso era o começo de uma devoção muito profunda, sólida e também terna para com a Mãe de Deus e que iria manifestar-se de muitas maneiras na sua vida religiosa e na sua resposta ao Senhor.

Quando se encontrava no leito de dor, com exemplar resignação e o sorriso nos lábios, a todos, da família ou amigos, que íamos visitá-lo, ele nos aproximava do Senhor por seu exemplo de dom total à vontade de Deus. Agradecia-nos pelas atenções que lhe mostrávamos. Num espírito cheio de amor a Deus e à Vigem Maria, pedia-nos que rezássemos em voz alta e lhe cantássemos as velhas cantigas de amor à Mãe do céu. Com os lábios acompanhava a Salve-Regina, o Sub tuum, o Toujours, toujours e todos aqueles cantos que nos colocavam nas mãos de nossa Mãe, de nosso Recurso Habitual para alcançarmos Jesus”.34



1.16. E as Constituições?
Como todas as Congregações, a convite do Concílio, a nossa também escreveu suas novas Constituições. Elas têm as características que Basílio via para o novo estilo de vida religiosa: mais evangélico, mais espiritual, que fale ao coração, que apele à intimidade com Deus. Nessas Constituições é curioso verificar como os artigos sobre a Santíssima Virgem Maria têm o mesmo tom que as reflexões de Basílio em Um Novo Espaço para Maria e atestam fortemente a caminhada de Maria na fé. Foram publicadas pelo Irmão Charles Howard, em 1986, mas haviam sido pensadas e escritas quando Basílio era Superior. Há muita coisa dele nessas Constituições e seria interessante fazer um estudo paralelo dos dois textos: Circular e Constituições. Os pontos de convergência são muitos. Maria, nessas novas Constituições, está presente em todas os capítulos, porque ela deve estar presente em toda a vida, porque presente esteve na vida de Marcelino e na de Basílio. Não há um capítulo especial das Constituições sobre a Virgem Maria, mas uma constante presença discreta. É uma das características da Espiritualidade Apostólica Marista.
TEXTOS

1. Qual devoção?

Outra linha importante do Capítulo Geral foi sua atitude corajosa sobre nosso caráter marial. O Documento Marial não é somente um trabalho de profundidade e de qualidade, mas foi recebido com entusiasmo pelos Irmãos, depois de aprovado na Sala Capitular por maioria impressionante (quase unanimidade). Acho útil fazer aqui duas observações:

Pelo que pude observar, o documento está muito longe de ter levado nossos Irmãos a renovar sua espiritualidade marista nas diferentes Províncias. Estamos longe de sentir essa alegria marial que brilhava no Capítulo. Também não se percebe uma verdadeira renovação da catequese e da espiritualidade mariais.

É claro que o Concílio e o Documento Marial, ao centrarem o mistério de Maria, não tanto sobre suas prerrogativas e suas aparições, mas sobre:

sua maternidade divina e espiritual,

sua vida como peregrinação e crescimento na fé,

seu lugar na Igreja,

sublinharam na figura de Maria tudo quanto lhe é essencial. As afirmações cômodas acerca de Maria, nascidas somente da devoção e que eram multiplicadas outrora, hoje já não falam a muitas pessoas, não que estas não amem a Virgem, mas porque esses argumentos não têm solidez.

Então, ou se empreende uma verdadeira formação sobre o mistério de Maria, estudada sob um ângulo novo, ou então o documento ficará ainda por muito tempo sem ser assimilado e sem dar o fruto que dele se esperava, adiando assim lamentavelmente uma das mais calorosas e entusiásticas contribuições do Capítulo Geral que desabrochou largamente nas próprias Constituições...

Mas deve-se evitar que nossos jovens Irmãos vivam uma espiritualidade marial em desacordo com os textos do Concílio e assim a transmitam à juventude de nossas escolas. Também os Irmãos mais idosos devem compreender que trabalham em vão se tentam transmitir certa devoção marial tal como a puderam sentir ou viver, sem a rejuvenescer pela meditação de Lumen Gentium e de nosso Documento Marial. Não se deve falar uma língua que nosso interlocutor não entende... (Méditation à haute voix, pp. 372-375, 1971).



2. Visitação: primeira missão gozosa cristã


“Eis que Isabel, tua parenta, concebeu também um filho... porque nada é impossível para Deus.” Esse sinal relacionava-se à concepção virginal de Jesus. Não era, em absoluto, um pormenor insignificante, como um suplemento de informação. Não. Era um presente de Deus para Maria, acompanhando a mensagem. E Maria nele descobriu secreto convite a ir ver Isabel. Para prestar-lhe serviço? Fora de dúvida... Entretanto, além da virtude adquirida da disponibilidade, existe outra motivação na presteza de Maria. Ela traz o filho no seio, mas é Ele quem a dirige por meio daquele Espírito que já repousa nele. “Na Visitação, Maria está, por conseguinte, ao inteiro serviço da missão do Filho, que nela se encarnou... Deus lhe acenou com a notícia da maternidade de Isabel, é preciso dar-lhe fé, não uma fé indiferente, morta; ao contrário, é preciso comungar com esse sinal, dar graças ao Senhor, entrar na alegria e ação de graças da parenta, como verdadeira pobre de Javé. Convidada pelo anjo à alegria messiânica, alegria a ser partilhada na fé, Maria colhe a ocasião que se apresenta para comunicar sua alegria àqueles piedosos israelitas. Eles também aguardavam na oração a na esperança a vinda do Salvador...

Como poderia guardar para si o cântico jubiloso do seu coração e a alegre notícia da nova criação inaugurada em seu seio virginal? Indubitavelmente, a pressa era conatural a essa donzela simples e espontânea. E seu coração regurgitava de entusiasmo, impaciente de poder louvar a Deus na comunhão fraterna. Ei-la a caminho, portadora da Boa Nova da salvação que nela palpita, aberta para a comunicação no Senhor! Dirige-se à casa da última estéril da Antiga Aliança, tornada fecunda pelo poder do Senhor, aquela que fora a primeira a receber e a apresentar a Nova Aliança. (Circular Um Novo Espaço para Maria, pp. 34-36, 8-9-1976).

3. Teu Filho, sinal de contradiçao; Tu mesma terás a alma traspassada por uma espada.

Existe algo ainda mais estranho nessa profecia que segue um “crescendo”. É que seu ponto culminante se atinge na pessoa de Maria. Era natural que evocasse explicitamente a morte do Messias contestado, sofredor, perseguido. Não. A ferida do gládio mortal, Simeão a transfere para a alma de Maria. “Uma espada te traspassará a alma!”. A compaixão ou transfixão dolorosa de Maria será, pois, o véu profético através do qual nos vai chegar o primeiro anúncio da morte redentora de Jesus. Seria possível demonstração mais profunda da íntima comunhão e participação de Maria à missão redentora de Jesus? Sem dúvida, Maria será atingida no mais íntimo de seu ser... Essa dor, porém, é muito diferente do mero sofrimento moral da mãe à cabeceira do filho moribundo. É a própria dor do Cristo repercutindo no coração imaculado e materno de Maria. Quão perfeita será a união de Maria com Jesus no mistério de seus sofrimentos e de sua morte!

Por isso, a compaixão de Maria aparece tão vinculada à manifestação dos segredos dos corações. Nossa Senhora não será apenas co-vítima de Jesus na oposição dos homens ao Messias, mas de certo modo também estará implicada no próprio julgamento e execução do Messias no cimo do Calvário...

Doravante a jovem mãe vai viver na perspectiva de sua íntima associação ao destino doloroso e misterioso do Filho. Talvez ela começará a vê-lo com outros olhos. Ele não é somente o Messias-Rei; é também o Servo sofredor de Javé. Quanto a ela, sua vocação consistirá em partilhar no coração do duplo destino que se abre para Ele: morte – glorificação. (Circular Um Novo Espaço para Maria, pp. 43-44).



4. À escuta de Deus que fala pela boca dos homens

Reparemos ainda nesta constante na revelação progressiva do Mistério de Jesus a Maria, sua Mãe. Deus serviu-se de intermediários para ir desvelando aos olhos da Virgem os diversos aspectos da personalidade de seu Filho: Gabriel, Isabel, Simeão, Ana, os pastores, os magos... Cada um deles pôde instruí-la sobre algo de Jesus que ela ainda não sabia. É a dimensão social da fé. Nem mesmo a Mãe de Deus ficou dispensada das mediações da Igreja. A partir da Idade Média, houve tendências em se imaginar a perfeição da Santíssima Virgem como estática, algo arrematado desde o princípio. De modo algum. Outra coisa é o que nos ensina o Evangelho. Maria não foi aquela que sabia tudo, tinha tudo e dava tudo aos outros, sem precisar receber deles coisa alguma. Antes, ela foi aquela que viveu sempre à escuta de Deus a lhe falar pela boca dos homens. Mais tarde, encontrá-la-emos no Cenáculo, entre os discípulos de Jesus, sob a orientação de Pedro e dos Apóstolos. Irmã e discípula do Senhor glorificado. Como nós, Nossa Senhora, aqui na terra, terá sempre que aprender.

(Circular Um Novo Espaço para Maria, pp. 44-45).

5. Retrato de Maria

Na meditação constante do Evangelho é que devemos achar o melhor retrato possível da Santíssima Virgem. Sem sombra de dúvida, é um retrato pintado pelo próprio Espírito Santo. Retrato inesgotável: todas as gerações contemplaram-no com alegria e descobriram algum traço novo nessa sublime simplicidade. Pois a simplicidade é a característica fundamental de Maria. Nela tudo é simples, tudo é sublime: “é o semblante que mais se parece com o de Cristo – para dizê-lo nas palavras de Dante.

De que modo os evangelistas divisaram a fisionomia psicorreligiosa de Maria? Antes de tudo, Maria é atenta à Palavra de Deus (a Virgem da escuta). Com amor sabe acolher a Palavra que tantas vezes transtorna seus projetos de vida, punge-lhe o coração, mergulha sua alma na perturbação, na ansiedade, na incompreensão. Maria observa fielmente essa Palavra, encarnando-a em sua vida. É a serva de Javé, previamente de acordo com a vontade do seu Senhor.

Atraente, sua personalidade humana. Calma e serena, dialoga com Deus e com os homens; questiona e responde oportunamente. Com abertura de espírito, ela sabe ler os sinais dos tempos, e não vacila em aceitar a mudança, a novidade, o inesperado. Dona dos próprios sentimentos, não se deixa empolgar por aquela notícia capaz de tornar louca de entusiasmo qualquer mocinha judia de seu tempo: a maternidade messiânica. Maria espera, reflete, pondera, faz objeção, pede mais luzes. Uma vez, porém, que se certifica da vontade de Deus, entrega-se confiante à missão proposta, crendo que Deus é o Senhor do impossível, e abandonando-se à ação do Espírito Santo. Quantos valores humanos no consentimento lúcido, livre e amoroso de Maria à Encarnação!

(Circular Um Novo Espaço para Maria, pp. 51-52).

6. Retrato de Maria (continuação)

Humaníssima em todo o seu ser e no agir, alegra-se com os que gozam, e se compadece com os que sofrem ou estão para ter alguma necessidade premente. E essa compaixão é operante, levando-a a colocar-se ao serviço de uns e de outros. Previdente, delicada, humilde, modesta e generosa, Maria sabe traduzir sua imensa caridade em gestos de amizade e de ajuda fraterna. É-nos fácil imaginá-la sorridente e simpática, afável e acessível a todos. Sua presença dava a alegria de viver; sua palavra comunicava a paz do Senhor e, em alguns casos, atraía o Espírito Santo sobre os seus interlocutores, pois ela mesma trazia sempre o Verbo de Deus no coração, após tê-lo trazido, durante nove meses, em seu seio virginal.

Apesar de tudo, Maria é mulher de silêncio, recolhida, oculta, quase desconhecida, vivendo como tantas outras em sua cidadezinha de Galiléia, ou entre o povo em Jerusalém, ou ainda quase anônima, em meio dos discípulos de seu Filho... Toda a sua vida está concentrada na contemplação da Palavra e dos sinais de Deus, bem como no amor maternal a Jesus e à humanidade... Até o fim de seus dias prosseguirá, então, na peregrinação de fé.

Uma fé que com ser humilde, nem por isso é menos lúcida, luminosa: fundamenta-se, verdadeiramente, na simplicidade de Maria e em seu trato materno com Jesus. De coração tranqüilo e agradecido, Maria aceita as superações a que seu Filho convida amiúde com palavras que soam o tom rude dos oráculos messiânicos e que, aos poucos, a vão introduzindo no mistério da Cruz. Mas foi no Calvário que Maria experienciou o maior despojamento que se pode pedir a uma mãe: sob a palavra de Jesus, trocar sua maternidade carnal e humana por outra espiritual e universal. (Circular Um Novo Espaço para Maria, pp. 52-52).

7. Na carne tomada de Maria havia a semente da cruz

Ao dar-lhe nossa carne passível e mortal, Maria comunicou ipso facto ao Filho de Deus a necessidade intrínseca de morrer; trazendo-O ao mundo, coloca-O no caminho que levava necessariamente para a Cruz que, por ser salvífica, seria igualmente pascal. Explico-me:

De acordo com certa filosofia, o homem, lançado na história, vem do nada e vai para o nada. Aos olhos da fé, porém, as coisas não são assim. Viemos de um amor preferencial de Deus, que nos escolheu no Bem-amado e destinou a participarmos da glória eterna de seu Filho. Sobretudo o Cristo não veio do nada, Ele que existia desde sempre “no seio do Pai”. Enviado por este Pai, encarnou-se, por obra do Espírito Santo, nas entranhas de Maria, e se fez homem. Ora bem, a humanização do Verbo concerne a todos os homens, cuja sorte eterna dele depende.

A Encarnação é Deus tornando-se carne, Deus entrando na História, Deus assumindo nossa temporalidade, nossa mortalidade. Repitamos, a morte não sobrevém a Jesus por causas extrínsecas, pela vontade dos homens, nem mesmo por algum decreto exterior lavrado por seu Pai que o teria entregue a um pretenso sacrifício expiatório. Absolutamente não. Sua encarnação já continha, naquela carne tomada de Maria, a semente da Cruz....

O Calvário será a plenitude de Nazaré e de Belém, assim como a Ressurreição constituirá o remate e o coroamento normal e necessário da morte na cruz. Pois se o Cristo não ressuscitasse, como permaneceria sua encarnação? Que sentido teria sua solidariedade redentora com os homens votados à morte e indigentes de ressurreição? (Circular Um Novo Espaço para Maria, pp. 59-60).

8. O reflexo da circular numa revista

E quando se trata da piedade marial, que podemos dizer desse monumento erguido a Nossa Senhora com a Circular Um Novo Espaço para Maria? Aqui o coração do Irmão Basílio rompe os diques e lança aos quatro pontos cardeais o amor que estava no seu coração para com a divina Mãe a fim de que inunde com suas águas frescas todos os recantos do Instituto.

Aqui nos vemos todos comprometidos. Ele quis que seus Irmãos participassem na composição desse hino universal à Virgem Maria. Sobre seu escritório de Superior chegam cartas em todas as línguas para dizer: “Eu também quero participar desse concerto; imprima meus sentimentos por Nossa Senhora, não me deixe à margem dessa bela Circular; eu também tenho algo a dizer para a honra e para a glória de minha Mãe”.

Essa, sim, é uma Circular coletiva. Nosso chefe a estruturou, deu-lhe corpo, mas nós também lhe demos vida, depositamos nossa flor aos pés de Nossa Senhora, adornamos sua imagem e nos sentimos felizes desse canto universal à Virgem, interpretado pelos filhos de Marcelino Champagnat, sob a batuta mágica do Irmão Basílio Rueda. (Madrid Marista, número especial, dezembro de 1985, p. 9).


2
BASÍLIO E

O PADRE CHAMPAGNAT

2.1. Um outro Champagnat
Um livrinho de uma centena de páginas, que oferece depoimentos sobre Basílio e excertos de seu pensamento, traz como título: Basílio, outro Champagnat.35 O título não foi dado para fazer bonito, mas porque há realmente muitos pontos comuns entre Basílio e Marcelino. De certa forma, Basílio foi uma versão atual de Marcelino. Isso supõe a compreensão em profundidade do Fundador, de sua pessoa, seu pensamento, seu carisma, sua missão e, sob outro ângulo, a aptidão para medir a grandeza de ser educador: promotor de vida, de fé e humanidade junto aos jovens. A 6 de junho de 1981, por ocasião do encerramento do Ano Champagnat, Basílio faz, em La Valla, uma conferência em que mostra bem como ele compreende Marcelino em profundidade e nos ajuda, por isso, a admirá-lo: “Champagnat é homem que sabe escutar dinamicamente, ... um coração em que ressoam as vozes da ignorância religiosa e o clamor de uma pedagogia deficiente, ... um grande artista espiritual que sabe sondar os corações, ... um formador de discípulos, ... que sabe comunicar o sentido da Igreja, ... É homem que nos lança apelos profundos para a ação... Ser fiéis a Marcelino é ser fiéis à convicção profunda que as situações dramáticas do mundo nos desafiam a darmos resposta pronta e de valor”.36 Basílio fizera sua a alma do Fundador.37

2.2. Pontos de semelhança
Os pontos de semelhança são muitos. O primeiro é a certeza que os acompanha, por toda a vida, de serem amados por Deus e pela Virgem Maria. É uma experiência que os dinamiza para o dom total de si mesmos e para uma vida de grande intimidade com Deus e a Boa Mãe. É, por assim dizer, o seu motor interior. Dessa intimidade com Deus e da força que lhes advém daí, nasce a convicção de que a oração é o ponto capital, e ambos vão lembrá-lo com insistência aos Irmãos para que também eles se dessedentem nessa fonte de energia e de amor inesgotável. Ambos vivem igual paixão pela vontade de Deus que é busca amorosa do querer de Deus e disponibilidade total. Sua obediência é nova cada dia, ela é mais que um voto, é uma vida. Marcelino estava pronto a renunciar aos Irmãos, se Deus lho pedisse claramente; Basílio aceitou como vontade de Deus sua reeleição, mesmo que ela fora descartada de suas previsões. Numa palestra aos Irmãos, disse que, se as circunstâncias o exigissem, estava pronto para sacrificar a Congregação – que ele amava visceralmente – pelo interesse da Igreja.38 Quando Basílio fala da obediência de Champagnat, revela também sua convicção profunda: “Ter o senso de Deus, do jeito de Marcelino Champagnat; ter sua paixão pela glória de Deus, a atenção e o respeito por sua presença – pela presença eucarística especialmente – a confiança na sua ação, a convicção de sua primazia sobre todas as coisas e sobretudo o amor da sua vontade e a docilidade para cumprir essa vontade como objetivo único nos acontecimentos pequenos ou grandes”.39 Dessa certeza de serem amados, ambos tiram certa liberdade humanizante. Marcelino é libertado dos rigores e dos terrores jansenistas: a formação que dá aos Irmãos insiste sobre a paternidade de Deus, sobre a alegria de ter Maria por Mãe. Basílio procura libertar a Congregação de certo formalismo na oração e o dever a cumprir, para substituí-los por um espírito mais evangélico, uma oração mais lenta, mais verdadeira, mais ligada à vida, e esta dinamizada pelo amor. Em todo o caso, para Marcelino Champagnat e para Basílio, resulta daí uma vida unificada ou, como encontramos escrito numa frase inflamada: “Uma existência absorvida, unificada e transformada em proveito do único Senhor!”.40 Na terceira conferência que fez aos capitulares de 1985, sobre o tema da Espiritualidade Apostólica, Basílio volta seguidamente sobre o Padre Champagnat. Entre outras reflexões que se estendem por três páginas, escreve: “O amor era o segredo da vida notavelmente robusta, ao mesmo tempo contemplativa e apostólica de Marcelino Champagnat, que vivia continuamente na presença de Deus e que ardia de fogo apostólico, primeiro na sua paróquia e, mais tarde, na sua Congregação”. Em Basílio essa vida absorvida, unificada e transformada no serviço do único Senhor se cristaliza no seu ideal: “Queimar a vida por Cristo e queimá-la pelas duas pontas”. Um mês antes de sua morte, confessa a seus amigos que o ideal chega ao seu fim e a chama está prestes a se apagar.

Vimos os vínculos de Basílio com a Boa Mãe; estavam na trilha dos de Marcelino: o mesmo amor simples, denso, o mesmo zelo para fazê-la conhecer e amar. Na sua última conferência como Superior-Geral, sobre a Espiritualidade Apostólica, ele se detém em algumas páginas a contemplar o amor e a confiança de Marcelino pela Virgem: A espiritualidade de Marcelino Champagnat, a mais cristocêntrica do grupo dos primeiros maristas – como diz o Padre Coste – é inegavelmente muito marial... Nisso não há nada que deva nos surpreender. Como diz um teólogo da Escola Francesa de Espiritualidade do século XVII, “Maria é o sacramento da ternura maternal de Deus”. Alguns parágrafos mais adiante, ele lembra a carta que Marcelino escreveu a Dom Pompallier, em 1938: “Maria, sim, somente Maria é nossa prosperidade; sem Maria não podemos nada e com Maria temos tudo, porque Maria tem sempre seu adorável Filho ou nos seus braços ou no seu coração”.41

O mesmo amor também por tudo o que é marista. Para Marcelino era o dom precioso do Espírito, para Basílio o dom precioso do Fundador e de sua família. E esse amor tornava-se ternura para os Irmãos, atenção, acolhida, escuta, encorajamento, discernimento. Em Marcelino, cada Irmão tinha um lugar em seu coração: “Vocês sabem o quanto os amo” – dizia. Basílio não media tempo, nem energias, nem dinheiro, quando se tratasse de acolher um Irmão, escutá-lo e consolidar sua vocação. Nesse domínio os depoimentos são muitos; vamos dar-lhes bom lugar no capítulo: Basílio, o Irmão.

Isso, em ambos, vai paralelo com um senso agudo de responsabilidade que os leva a fazerem o máximo para que a família cresça sadia e santa e que cada Irmão seja expansivo, portanto oferecer as reflexões, os conselhos, as perspectivas que orientam no sentido do carisma e da vontade de Deus. Conhecemos também a ambição de Marcelino: “Todas as dioceses do mundo entram em nossos planos!”. Podemos dizer que ninguém melhor que Basílio realizou essa ambição do Fundador: seu serviço à Igreja e à Congregação realmente não teve fronteiras. Ninguém tampouco deu à vocação do Irmão a dimensão que ela adquiriu na vida de Basílio. Restam-nos um desafio, um convite a romper os limites que falsas tradições nos deixaram, notadamente um campo de apostolado exclusivamente escolar. Ambos estiveram atentos aos pobres e às missões e impulsionaram os Irmãos a essas duas fronteiras de apostolado.

Basílio e Champagnat e Champagnat se assemelham também em vários pontos de seu caráter. Ambos eram simples, achegados às pessoas com as quais viviam; tinham o dom de conquistar amigos e de se fazer amar. Ambos tinham caráter alegre e otimista e gostavam de chistes. Ambos se dedicavam facilmente a trabalhos manuais. Basílio não será um construtor de casas; tinha tarefa bem mais ampla, mas gostava de lavar a baixela, carregar as malas dos Irmãos, preparar os quartos, varrer, lavar sua própria roupa. Isso permitirá a ambos conquistarem facilmente amigos, se afeiçoarem às pessoas e se tornarem confidentes e diretores espirituais de muitos.

Essa semelhança é tão-somente esboçada aqui, porque outras páginas darão espaço maior a esse ou àquele aspecto.



2.3. O Fundador nos escritos de Basílio
Em Basílio essa semelhança com Champagnat é um fato de natureza, de graça, mas também de esforço pessoal para compreender o Fundador e assimilar seu espírito. Quando se lêem certas passagens de Basílio, fica-se surpreendido com a acuidade do seu olhar sobre Marcelino. É o efeito da inteligência e da intimidade com o Fundador: o coração assimilou os valores maristas que a penetração intelectual havia captado. Essa impressão não deriva de Circulares ulteriores, mas da primeira, escrita em 2 de janeiro de 1968. Isso nos diz que Basílio chega ao cargo de Superior com o coração totalmente tomado por Marcelino. O quinto capítulo dessa Circular leva como título: Os Apelos da Igreja e do Fundador. Com o quanto: Os apelos do mundo, constitui a parte mais rica, mais dinâmica, a mais tonificante e moderna da Circular. Basílio reserva quase 200 páginas aos apelos do Fundador.42

Em três outros escritos oficiais Basílio vai fixar o olhar sobre o Fundador e propor-nos a sua visão. Se o faz é porque sabe que Marcelino é o modelo que o Espírito forjou para nós, o homem a integrar para termos o Espírito Marista. Esses três escritos, na sua ordem cronológica, são: O espírito do Instituto, em 1975; Um Novo Espaço para Maria, em 1976, e 1980, o Ano Champagnat. Em O espírito do Instituto, após reflexões introdutórias, Basílio se detém em algumas páginas (129-133) para estudar as relações que há entre nosso espírito e o Fundador, depois retoma da página 183 à página 186. Poderia ele falar da humildade, da simplicidade, da modéstia, sem compreendê-las na perspectiva do Fundador? Um novo espaço para Maria reserva uma seção inteira, de 399-408, para estudar a presença de Maria na vida de Marcelino. A breve Circular: 1980, o Ano Champagnat conta apenas 13 páginas. Foi escrita por ocasião do 25.° aniversário da Beatificação. Entretanto anuncia tudo o que se dirá no momento da Canonização. A Beatificação é a autenticação da santidade pessoal de Marcelino, de seu carisma e do programa de vida e de apostolado que ele traça. Nessas poucas páginas Basílio diz de nosso Fundador coisas bem profundas: “O olhar de ontem e de hoje nos permitiram descobrir nele um Fundador excepcional... Sua força e seu peso se encontram exatamente na sua dimensão ‘doméstica’. Sim, é um homem que foi suscitado por Deus, conduzido por seu Espírito, para fundar, formar, desenvolver e consolidar uma família religiosa. Era essa a sua missão bem específica, e sua personalidade estava à altura dessa missão”.43

A partir do momento em que Basílio sabe que Marcelino é o homem de Deus para nós, não poderá escrever nenhum texto sério sem fazer referência ao modelo. Poderia ele convidar-nos a elaborar um Projeto comunitário ou um Projeto de Vida Comunitária sem nos pedir que olhássemos o Fundador? Essa presença pode ser em filigrana, discreta, mas constante, como nas Circulares sobre A Obediência, A Vida Comunitária, a Prática sobre a Oração, um bom número de conferências e na sua última Circular: A Fidelidade.

Esta nos permite vermos em muitos depoimentos o esplendor do rosto do Fundador no coração dos Irmãos. Basílio queria justamente fazer emergir esse retrato do Fundador, ao mesmo tempo que a graça sempre em ação nas vicissitudes de uma vida religiosa.



2.4. E l’Hermitage?
Era o sonho de Basílio que todos os Irmãos pudessem fazer uma experiência profunda e direta do Fundador e das origens maristas. Seu estalo genial consistirá em fazer de l’Hermitage o santuário marista: lugar de oração, de contato e de formação. No seu generalato, para os Irmãos que seguem sessões de formação: Segundo Noviciado, Ano Champagnat, os 2 meses da Terceira Idade... estabeleceu-se o costume de passar ao menos duas semanas em l’Hermitage, para se encontrarem nas fontes do espírito marista. Isso foi tão bem aceito que até os antigos alunos maristas e os membros do Movimento Champagnat da Família Marista para lá se dirigem. Hoje a missão essencial de l’Hermitage é ser um santuário marista que acolhe os que pesquisam o espírito das origens.

A partir desse elã inicial de Basílio, e a seu convite, alguns Irmãos vão empenhar-se numa pesquisa mais sistemática do Fundador, de seu espírito e do que o caracteriza: os Irmãos Zind (mas ele havia começado bem antes), Gabriel Michel, Alexandre Balko, Juan María, Frédéric Mc Mahon e, mais tarde, André Lanfrey, Aureliano Brambila, Alain Delorme... Essa iniciativa, Basílio não espera ser Superior-Geral para lançá-la. Ele tinha o costume de ir a l’Hermitage com seus segundos noviços, portanto, desde 1965. Eis um depoimento: “O primeiro contato que tive com o Irmão Basílio foi em l’Hermitage, em junho de 1965. Ele dirigia um Curso de Espiritualidade a um grupo de Irmãos de língua espanhola e portuguesa no El Escorial, e estavam fazendo uma peregrinação naqueles lugares históricos do Instituto. Admirei seu profundo conhecimento da vida do Padre Champagnat e dos primeiros Irmãos e o amor profundo que votava ao Bem-aventurado Padre Fundador e à Congregação. Admirei também seu espírito de família, de oração e de serviço que se manifestavam claramente nessa visita aos lugares históricos, tão ricos de sentido para os verdadeiros filhos do Pai Champagnat... Esse encontro com ele me fez muito bem”.44 Nos Anais do El Escorial, de 1965 a 1967, encontram-se muitos depoimentos das peregrinações dos grandes noviços a l’Hermitage, da preparação meticulosa, da estada e do conteúdo, sob a direção de Basílio.

2.5. E o Ano Champagnat?
Conjuntamente ele lançou também esse tempo especial de formação, chamado “O Ano de Espiritualidade Champagnat”, que funcionou durante alguns anos e cujo conteúdo central era o conhecimento do Fundador e a assimilação de seu espírito, o estudo de seu tempo, seu trabalho, suas cartas, seu tino em formar os Irmãos.

É um pouco dessas duas iniciativas que vai nascer o Patrimônio Marista, cuja finalidade é compreender o espírito do Fundador e o quadro histórico das origens, para esclarecer nossa realidade marista. Esse trabalho ajuda os Irmãos a viverem com consciência mais nítida a espiritualidade marista.

Marcelino estará sempre presente, mesmo quando Basílio não será mais Superior-Geral, porque permanecerá formador toda sua vida. Em 1987, sua Província pede para que seja mestre de noviços; depois é a Congregação, em 1990, que lhe suplica de assumir a responsabilidade de formar os formadores, os futuros mestres de noviços. Terminada essa tarefa, ele se reencontra, no México, mestre de noviços das duas Províncias que haviam unificado seu noviciado. Durante esse período, também o Irmão Charles Howard, seu sucessor, pede-lhe que lance, organize e dinamize a Família Marista no México. Um formador não pode sê-lo senão por assimilação do espírito do Fundador. Basílio é o caso típico.

Este paralelo entre Marcelino e Basílio não quer significar que a semelhança seja total. Estamos em presença de duas personalidades típicas: Basílio mais intelectual, Marcelino mais dotado para tudo o que é prático; Marcelino de constituição robusta, Basílio de saúde mais frágil; Marcelino, o fundador, o homem das origens; Basílio, o discípulo que procura conhecer e valorizar as origens para um mundo bem diferente; Marcelino o homem da campanha e da França, Basílio o homem da cidade e do mundo; Basílio é um Champagnat que cresceu. Marcelino pode reconhecer em Basílio um verdadeiro filho, seu retrato de hoje.





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