História Universal da Destruição dos Livros Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque Fernando Báez



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História Universal da Destruição dos Livros

Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque
Fernando Báez
Tradução

Léo Schlafman


2004
Ediouro
Prólogo
Incêndios, enchentes, terremotos. Guerras e regimes autoritários causaram a morte de milhões de pessoas. Mas nesta notável obra temos a chance de conhecer uma história nunca antes contada de forma tão minuciosa: a da destruição de livros. O autor venezuelano Fernando Báez nos leva de volta ao Mundo Antigo para acompanhar, desde o início, a trajetória dessa prática que teve entre seus adeptos não só homens ignorantes ou perversos, mas também grandes filósofos, eruditos e escritores, como Descartes, Platão e Heidegger. Alguns porque acreditavam que, eliminando os vestígios do pensamento de uma determinada época, estariam promovendo a superação do conhecimento humano. Outros, mais modestos, lançavam ao fogo suas obras simplesmente por vergonha do que haviam escrito. No entanto, os principais destruidores de livros sempre tiveram como maior motivação o desejo de aniquilar o pensamento livre. Os conquistadores atribuíam à queima da biblioteca do inimigo a consagração de sua vitória.

E assim o autor nos conduz através dos tempos e pelos mais diversos continentes para refazer o percurso dessa pesquisa dolorosa, mas que ironicamente ameniza o nosso sofrimento. Afinal, ao remontar à perda de incontáveis obras, idéias, conhecimentos e memórias, é possível reconstruir lendas e mistérios que envolveram essa história de horror que parece não ter chegado ao fim.

Em 2003, a guerra levou à extinção mais de 1 milhão de livros e 10 milhões de documentos da Biblioteca Nacional do Iraque, berço da Civilização Ocidental. Inertes, assistimos em tempo real a um verdadeiro genocídio cultural, cujas conseqüências para as próximas gerações serão irreparáveis.
Sumário
17 Introdução

17 O enigma de Bagdá

19 Entre livros destruídos

21 Mitos apocalípticos

24 A eliminação da memória

26 As formas do fogo

27 A cultura da destruição

27 Pós-Escrito, 2004

PRIMEIRA PARTE

O Mundo Antigo


CAPÍTULO 1

31 Oriente Médio

31 A destruição de livros começa na Suméria

34 Ebla e as bibliotecas sepultadas da Síria

36 As bibliotecas da Babilônia

38 A grande biblioteca de Assurbanipal

40 Os livros dos misteriosos hititas
CAPÍTULO 2

43 Egito


43 O Ramesseum do Egito

44 A queima de papiros secretos

45 As Casas da Vida no Egito

46 Os escritos proibidos de Tot

CAPÍTULO 3

49 Grécia

49 Entre ruínas e fragmentos

54 A destruição dos poemas de Empédocles

54 Censura contra Protágoras

55 Platão também queimou livros

57 A destruição do templo de Artemisa

58 Um antigo médico grego

59 Dois biblioclastas

CAPÍTULO 4

61 Apogeu e fim da biblioteca de Alexandria
CAPÍTULO 5

75 Outras antigas bibliotecas gregas destruídas

75 A biblioteca de Pérgamo

76 O desaparecimento de centenas de obras de Aristóteles 84 Mais bibliotecas em ruínas


CAPÍTULO 6

87 Israel

87 A Arca e a destruição das Tábuas da Lei

88 O livro de Jeremias

88 A adoração do livro hebraico

89 Os manuscritos do Mar Morto

90 Os profetas bibliófagos
CAPÍTULO 7

93 China


93 Shi Huandi, o Destruidor

95 A perseguição aos textos budistas

CAPÍTULO 8

97 Roma


97 Censura e perseguição no Império

99 Um mundo de bibliotecas perdidas

103 Os papiros queimados de Herculano

CAPÍTULO 9

105 As origens radicais do cristianismo

105 São Paulo contra os livros mágicos

106 Os livros de Porfírio contra os cristãos

106 Os textos dos gnósticos

107 A heterodoxia dos primeiros anos

108 O assassinato de Hipátia


CAPÍTULO 10

111 O esquecimento e a fragilidade dos livros

111 Quando o desinteresse destrói

113 O idioma como domínio


SEGUNDA PARTE

Da Era de Bizâncio ao Século XIX


CAPÍTULO 1

117 Os Livros Perdidos de Constantinopla


CAPÍTULO 2

121 Entre monges e bárbaros

121 Quando as bibliotecas ficaram fechadas como túmulo

122 Os manuscritos da Irlanda 125 Os mosteiros

125 De palimpsestos e outros paradoxos

126 Os defensores dos livros

CAPÍTULO 3

127 O mundo árabe

127 Alamut e a biblioteca dos assassinos

128 Hulagu e a destruição dos livros de Bagdá


CAPÍTULO 4

131 Um confuso fervor medieval

131 Os livros proibidos de Abelardo

131 Eriúgena, o rebelde

132 O Talmude e outros livros hebraicos

133 A censura a Maimônides

134 A tragédia de Dante

134 Heresias


CAPÍTULO 5

137 Espanha muçulmana e outras histórias

137 As queimas de Almançor

138 Os versos proibidos de Ibn Hazm

138 A destruição do Corão na Espanha da Reconquista
CAPÍTULO 6

143 Os códices queimados no México

143 A eliminação sistemática de códices pré-hispânicos

146 A destruição de livros pelos indígenas


CAPÍTULO 7

147 Em pleno Renascimento

147 O desaparecimento da biblioteca de Matias Corvino

148 A destruição da Bíblia de Gutenberg

149 Miguel Servet, o herege

152 Os anabatistas de Münster

153 A biblioteca de Pico delia Mirandola

154 Perseguições e destruições

156 Dois trechos curiosos

CAPÍTULO 8

159 A Inquisição

159 O Santo Ofício e a censura de livros

163 A Inquisição no Novo Mundo
CAPITULO 9

167 A condenação dos astrólogos

167 A destruição da biblioteca de Henrique de Villena

168 Uma obra misteriosa: a "Esteganografia"

169 O livro proibido de Nostradamus

169 A biblioteca secreta de John Dee


CAPÍTULO 10

173 A censura inglesa

173 Os delitos da ortodoxia

174 O censor perseguido

174 As lutas religiosas inglesas
CAPÍTULO 11

177 Entre incêndios, guerras e erros

177 O grande incêndio de Londres

178 El Escorial e a queima de manuscritos antigos

180 Isaac Newton entre livros destruídos

181 A biblioteca de Arni Magnusson

182 Séculos de acidentes e desastres

192 A biblioteca de Pinelli

193 Naufrágios célebres

194 A batalha contra os livros

196 A queima da biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

197 Os textos de Cotton

199 A biblioteca do Colégio Seminário de Mérida (Venezuela)
CAPÍTULO 12

201 De revoluções e provocações

201 A hostilidade contra o pensamento livre

203 Ataques contra intelectuais na França

204 A destruição de livros durante a Revolução francesa

205 O despotismo ilustrado e colonial

206 A Comuna de 1871

208 Guerras de Independência e Revolução Hispano-Americana


CAPÍTULO 13

213 Em busca da pureza

213 Jacob Frank

214 Nachman de Bratislava

215 Os manuscritos obscuros de Burton

216 Livros queimados por imoralidade

217 Darwin e seu livro polêmico

217 Um inquisidor em Nova York


CAPÍTULO 14

219 Alguns estudos sobre a destruição de livros

TERCEIRA PARTE

O SÉCULO XX E O INÍCIO DO SÉCULO XXI


CAPÍTULO 1

229 Os livros destruídos durante a Guerra Civil Espanhola


CAPÍTULO 2

241 O bibliocausto nazista


CAPÍTULO 3

253 As bibliotecas bombardeadas na Segunda Guerra Mundial


CAPÍTULO 4

261 Censura e autocensura literárias modernas

261 Os ataques a Joyce

262 Outros escritores com livros destruídos

262 A censura estatal nos Estados Unidos

263 Escritores perseguidos

264 Salman Rushdie diante do fundamentalismo

266 Quando os autores se arrependem


CAPÍTULO 5

271 Um século de desastres

271 Hanlin Yuan e a Grande Enciclopédia do Mundo

272 Quando a memória está em perigo

277 Dois grandes incêndios de bibliotecas: Los Angeles e Leningrado

CAPÍTULO 6

281 Os regimes do terror

281 Confisco e censura no Báltico

282 Regimes censores

285 A Revolução Cultural na China

286 A ditadura na Argentina

289 Fundamentalistas

290 Cuba: o duplo discurso

290 Palestina, um país em ruínas


CAPÍTULO 7

293 O ódio étnico

293 O livrocídio sérvio

299 A Chechênia sem livros


CAPÍTULO 8

301 Religião, ideologia, sexo

301 Expurgos sexuais

302 Os expurgos culturais

303 Os estudantes e seu ódio pelos livros didáticos

305 O caso "Harry Potter"

CAPÍTULO 9

307 Entre inimigos naturais e legais

307 Sobre os inimigos naturais dos livros

309 Papéis autodestrutivos

313 Exemplares únicos

314 Quando as editoras destroem livros

315 O caso das alfândegas

CAPÍTULO 10

317 O terrorismo e a guerra eletrônica

317 O terrorismo contra as bibliotecas

318 O ataque ao World Trade Center

318 O caso dos livros-bomba

319 A aniquilação de livros eletrônicos
CAPÍTULO 11

323 Os livros destruídos no Iraque

343 Notas

377 Bibliografia

418 Agradecimentos
Onde queimam livros, acabam queimando homens.

HEINRICH HEINE

Almansor, 1821
... Cada livro queimado ilumina o mundo...

R. W. EMERSON

Essays. First series, 1841


Notas da Tradução
A escolha da palavra tableta para designar, em português, o equivalente à tablilla, do espanhol, passou por um processo longo. Optou-se por tableta (de argila) depois de considerar tabuinha, plaqueta, tabuleta, lâmina de argila e até as tábuas de pedra mencionadas no Velho Testamento, especialmente no episódio da elaboração das Tábuas da Lei, no Êxodo.

A expressão tableta surgiu pela primeira vez na tradução de Guinara de Morais Lobato do primeiro volume da História da Civilização, de Will Durant, Companhia Editora Nacional, ainda nos anos 1950. Não constava, e continua não constando, dos dicionários utilizados no Brasil, mas foi escolhida por sua adequação ao contexto, pela facilidade de pronúncia e melhor visualização do que foi o primeiro tipo de livro (ou o seu antepassado mais remoto) surgido na Suméria, na região onde hoje se localiza o Iraque.

A tradução literal usada no Velho Testamento, "tábuas de pedra", (Êxodo, 34, 1), parece indicar uma contradição: ou as tabletas trazidas por Moisés após seu encontro com Javé são de tábua (madeira) ou de pedra. No entanto, como a expressão Tábuas da Lei, contendo os Dez Mandamentos, é de uso comum, manteve-se sua forma.

Veja-se a contradição contida na expressão "tábuas da lei" no Capítulo Seis, desta História universal da destruição dos livros, quando o autor, para comprovar sua afirmação de que Moisés foi um "destruidor de livros", menciona que, ao descer da montanha, com a primeira versão dos Dez Mandamentos, irado porque o povo estava adorando um bezerro de ouro, "atirou as tábuas e as rompeu ao pé da montanha". De madeira (tábuas) ou de pedra, dificilmente se romperiam com tanta facilidade, a não ser que fossem mesmo uma espécie de tabletas de argila que mais tarde, não mais na era bíblica, originaram a extraordinária história do livro. Fica evidente que nenhuma bíblia, por seu conteúdo que diz mais respeito à fé do que à interpretação lógica e histórica, pode ser lida literalmente em boa parte dos incidentes nela relatados. Em todo o caso, Moisés retificou seu ato voltando ao monte e trazendo, debaixo do braço, como na estátua de Michelangelo, as novas tabletas com a versão definitiva dos Dez Mandamentos.

A propósito, utilizou-se, no presente volume, o texto das passagens bíblicas da grande tradução brasileira da Bíblia feita pela Liga de Estudos Bíblicos, diretamente dos originais hebraicos, aramaicos e gregos, publicada, em 1956, em volumes separados de cada livro bíblico, pela Livraria Agir Editora, e reeditada, em fascículos vendidos em banca, em 1965, pela Editora Abril.

Da mesma forma, se manteve a tradução, já consagrada, do trecho do Dom Quixote de La Mancha, feita por Almir de Andrade e Milton Amado, publicada pela Livraria José Olympio Editora, em 1958.

E, para comodidade dos leitores, seguindo uma praxe editorial e jornalística, usou-se sempre a expressão Oriente Médio para caracterizar toda a região localizada entre Europa, Ásia e África, que é o berço das três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. A rigor, segundo a enciclopédia Historianet, o Oriente Médio tem como referência o Mar Mediterrâneo e inclui os países da costa do Mediterrâneo Oriental (da Turquia ao Egito): Jordânia, Iraque, Península Arábica, Irã e, em geral, o Afeganistão. De forma mais ampla, inclui também o conceito de Oriente Próximo, cuja área não é precisa, abrangendo normalmente a península de Anatólia, Síria, Líbano, Israel e Palestina; algumas vezes se integram nela ainda países do subcontinente indiano (principalmente o Paquistão). Trata-se de uma das áreas mais instáveis do mundo, que se caracteriza pela abundância de petróleo e escassez de água. A maioria de seus Estados surgiu após a Grande Guerra, de 1914-18 e as tensões na região continuam devido às guerras recentes e ao conflito árabe-israelense. (L.S.)

Introdução
1. O enigma de Bagdá
"Nossa memória já não existe. O berço da civilização, da escrita e das leis foi queimado. Só restam cinzas." Escutei esse comentário de um professor de história medieval em Bagdá, detido poucos dias depois por pertencer ao partido Baath. Quando o disse, abandonava a moderna estrutura da Universidade, de onde saquearam, sem exceção, os livros da biblioteca, e destruíram salas de aula e laboratórios. Estava sozinho, ao lado da entrada, coberto por uma sombra, e por acaso pensava em voz alta, ou não pensava, mas sua voz também era parte desse extenso, interminável e sucessivo rumor que é às vezes o Oriente Médio. Chorava ao me olhar. Creio que esperava alguém, mas, quem quer que fosse, não veio e, em poucos minutos, vi-o se afastar, sem rumo, andando pela borda de uma enorme cratera aberta, junto ao prédio, por um míssil.

Horas mais tarde, no entanto, um de seus estudantes de história deu sentido à sua frase quando se aproximou e me abordou, com esse ar de autoridade próprio do sofrimento. Vestia uma túnica marrom, sandálias, usava óculos e, apesar da barba aparada, era bastante jovem, talvez uns 20 ou 22 anos, uma excelente idade para se lamentar. Não olhava à frente, nem para os lados, e de fato sequer sei se olhava. Perguntou-me por que o homem destrói tantos livros.

Colocou a questão com calma, prosseguiu com uma citação que não parecia lembrar bem, até que se esgotaram os advérbios e disse que durante séculos o Iraque sofrerá espoliação e destruição cultural. "Você não é especialista?", perguntou-me com ironia.

Chamava-se Emad e, na mão esquerda, segurava o volume gasto de um poeta persa, com um ramo seco de palmeira como marcador de página.

Quanto ao resto, confesso, eu não soube o que dizer e me retirei. Havia discussões nos corredores e quis evitar a polêmica. De qualquer maneira, minha confusão me serviu para revisar algumas idéias, já no quarto do hotel, e o tempo se tornou único espaço, única passagem, estreita e necessária, até inevitável.

Não sei por que me senti tão impotente e por que agora, passados os meses, aquele incidente persiste na minha memória, o que, no fundo, reforça o argumento de que nada entendi e de que todo o esforço de raciocinar diante do horror é inútil e ambíguo. Porém, mesmo assim, penso que deveria tentar esboçar uma justificativa que recupere o valor da pergunta do estudante de Bagdá a partir de minha própria experiência. Esta introdução não pretende nada mais. Nem nada menos.

Basta dizer que quando cheguei a Bagdá, em maio de 2003, conheci uma nova forma, indireta, oblíqua, de destruição cultural. Depois da tomada da cidade pelas tropas americanas, começou um processo de aniquilação por omissão, vacilante e superficial, que transgredia as cláusulas da Convenção de Haia de 1954 e os Protocolos de 1972 e 1999. Os soldados americanos não queimaram os centros intelectuais do Iraque, mas tampouco os protegeram, e essa indiferença deu carta branca aos grupos criminosos. A esse vandalismo profissional se somou outro, mais ingênuo, o das multidões de saqueadores, movidas por uma propaganda que estimulava o ódio aos símbolos do regime de Saddam Hussein. Convém lembrar que museus e bibliotecas se identificavam com a estrutura de poder que existia nessa nação. E quando foram arrasados pelo fogo, o silêncio legitimou a catástrofe.

No dia 12 de abril de 2003, o mundo recebeu a notícia do saque ao Museu Arqueológico de Bagdá. Trinta objetos de grande valor desapareceram, mais de 14 mil peças menores foram roubadas e as salas destruídas. Em 14 de abril, um milhão de livros foram queimados na Biblioteca Nacional. O Arquivo Nacional também ardeu, com seus mais de dez milhões de registros do período republicano e otomano, e em dias sucessivos a situação se repetiu com as bibliotecas da Universidade de Bagdá, a biblioteca de Awqaf e dezenas de bibliotecas universitárias em todo o país.

Em Basra, o Museu de História Natural foi incendiado, da mesma forma que a Biblioteca Pública Central, a Biblioteca da Universidade e a Biblioteca Islâmica. Em Mossul, a Biblioteca do Museu foi vítima de especialistas em manuscritos, que selecionaram certos textos e os levaram. Em Tikrit, as bombas atingiram a estrutura do museu e facilitaram os saques, ao provocar a fuga dos guardas de segurança.

Somando-se a essa catástrofe tão inesperada, milhares de sítios arqueológicos se viram em perigo devido à falta de vigilância. O tráfico ilícito e transnacional de peças arqueológicas começou numa escala sem precedentes. Na data atual, apesar do esforço das tropas italianas, nem um só lugar histórico do Iraque está seguro. Bandos armados com AK-47 percorrem lugares como Hatra, Isin, Kulal Jabr, Nínive, Larsa, Tell el-Dihab, Tell el-Jbeit, Tell el-Zabul, Tell Jokha, Ur, Tell Naml, Umm el-Aqarib... Depois que passam os helicópteros e as patrulhas, os ladrões retornam, desenterram objetos sem qualquer cuidado e derrubam paredes. Algumas peças são levadas até o Kuwait ou para Damasco e dali são transportadas para Roma, Berlim, Nova York e Londres, onde os colecionadores particulares pagam o que lhes pedem.

Por que ocorre esse "memoricídio" no lugar onde nasceu o livro?
2. Entre livros destruídos
O que encontrei no Iraque me fez recordar a primeira vez que vi um livro destruído. Eu tinha 4 ou 5 anos e vivia numa biblioteca, não porque fosse minha casa ou por bondade de algum parente generoso. A verdade é que meu pai era um advogado honesto, isto é, desempregado, e minha mãe, nascida em Las Palmas de Gran Canária, devia trabalhar o dia todo numa mercearia, o que a obrigava a me deixar na biblioteca pública de São Félix, na Guayana da Venezuela, onde contava com o apoio de sua prima, a jovem secretária do local.

Assim, passava o dia inteiro sob a proteção indiferente dessa moça, entre estantes e dezenas de volumes. Ali descobri o valor da leitura: soube que devia ler porque não podia não ler. Lia porque cada boa leitura me dava motivos mais fortes para continuar lendo. Lia sem me preocupar com manuais, fichários, guias, seleções críticas como as de Harold Bloom, etiquetas de "clássicos", recomendações de fim de semana. Interessavam-me demais os livros porque eram meus únicos amigos. Não sei se então era feliz. Pelo menos sei que quando folheava páginas tão íntimas esquecia a fome e a miséria, o que me salvou do ressentimento ou do medo. Enquanto aprendia a ler, desprezava a solidão tremenda em que me encontrava, hora após hora.

Essa felicidade foi interrompida bruscamente, porque o rio Caroni, um dos afluentes do Orinoco, cresceu sem aviso prévio e inundou a cidade, levando consigo os papéis que constituíam o motivo de minha curiosidade. Acabou com todos os volumes. Dessa forma, fiquei sem refúgio e perdi parte de minha infância na pequena biblioteca, completamente arrasada pelas águas escuras. Às vezes, nas noites seguintes, via em sonhos como afundava A ilha do tesouro, de Stevenson, e flutuava o exemplar de alguma peça de Shakespeare.

Nunca me recuperei dessa terrível experiência. Estranhamente, não foi a única. Aos 17 anos presenciei como meus companheiros de classe no secundário, ao concluir o curso, queimaram seus livros didáticos. Frenéticos, não houve maneira de dissuadi-los e minha tentativa de apagar o fogo foi objeto de zombaria. Aos 19, quando me tornei vendedor de enciclopédias, o pesadelo se repetiu porque um incêndio destruiu a livraria do velho que eu costumava visitar. Ainda conservo intacta a imagem do livreiro, com as mãos queimadas, os olhos fechados e a cara descomposta. Em 1999 visitei, com uma equipe de trabalho, Sarajevo e vi Vijecnica em ruínas. Ali conheci uma bela poetisa, cujo nome devo ignorar, que me disse: "Cada livro destruído é um passaporte para o inferno." No mesmo ano presenciei como um aluvião destruiu as bibliotecas do litoral venezuelano. Em 2000 percorri várias cidades da Colômbia cujas bibliotecas foram destruídas pela guerra civil que assola o país...

Consciente ou inconscientemente, o tema chegou a me obcecar e, um belo dia, me dei conta de que preparava um livro em que narrava esses acontecimentos. Em 2001, não sem a habitual surpresa, recebi uma pesada caixa que veio a ser a pedra fundamental de minha pesquisa. O carteiro, depois de me estender o recibo de entrega, informou-me que procedia de Caracas. Do lado de fora tinha um envelope com um papel, conciso e com assinatura ilegível, onde se insinuava que se tratava de livros, os únicos bens de meu avô Domingo, que, ao morrer, legou-os a mim em seu testamento, mas também explicava que foram conservados por um tio que acabara de morrer. O incrível é que eu jamais conheci meu avô paterno, um prestigioso sapateiro, e as referências que tinha dele eram apenas os relatos simples de minha família.

Na caixa, manchada de óleo e cinzas, contei uns quarenta volumes. Passei adiante alguns que não me atraíam, mas fiquei com Os inimigos dos livros (1888), de William Blades, que continha uma exposição amena sobre as causas da destruição de textos.

Ainda comovido, e convencido de que era um sinal, fui visitar meu pai. Aposentara-se, vivia com minha mãe, e sofria do mal de Parkinson. Falei-lhe de minha estranha herança. Como de costume, não mostrou qualquer emoção. Ao contrário, disse-me que meu avô costumava conversar com ele sobre a biblioteca de Alexandria, seu enigma histórico favorito. Quando eu já saía, abraçou-me. Senti que esse gesto era definitivo.

Desde que tenho memória, senti horror pela destruição de livros. Notei que palavras como "Alexandria", "Hipátia" (mulher que contribuiu no século III para o desenvolvimento da matemática e que foi assassinada por se negar a se converter ao cristianismo) ou "censura" tendem a despertar meu temor. A pergunta do jovem da Universidade de Bagdá me serviu para entender que devia apressar a conclusão deste escrito e mostrar ao mundo uma de suas maiores catástrofes culturais. Há 55 séculos se destroem livros, e mal se conhecem as razões. Há centenas de narrações históricas sobre a origem do livro e das bibliotecas, mas não existe uma única história sobre sua destruição. Não é uma ausência suspeita?


3. Mitos apocalípticos
Em busca de uma teoria sobre a destruição de livros, descobri, por acaso, que são abundantes os mitos que relatam cataclismos cósmicos para explicar a origem ou anunciar o fim do mundo. Observei que todas as civilizações entendem sua origem e seu fim como um mito de destruição, contraposto ao da criação, num modelo cujo eixo é o eterno retorno. A apocatástase (restauração) tem sido um recurso para defender o fim da história e o início da eternidade. Nas mitologias antigas encontramos centenas de narrativas em que se descreve como a água, o fogo ou algum outro elemento purificou a maldade humana ou a purificará num futuro adiado constantemente.

Portanto, os períodos de destruição e criação seriam as duas únicas alternativas do universo. Essa crença sempre esteve presente nas concepções hebraicas, iranianas, greco-latinas e centro-americanas. No masdeísmo e no zervanismo o fim do universo tem data marcada. Entre os astecas, os deuses se sacrificaram para oferecer sangue e coração ao Sol, e esse ritual se manteve graças à guerra, que condicionava os homens a repetir perpetuamente esse momento. A ragnarök germânica, ou grande conflagração, sintetizou os mitos orientais e autóctones como fonte de consolo. Os oráculos sibilinos anunciavam constantemente o fim de Roma e o nascimento de um mundo novo.

O cristianismo recuperou esse mito e acrescentou ao livro do Gênesis, do Antigo Testamento, o Apocalipse no Novo Testamento. O apocalipse seria um cataclismo capaz de revelar a verdade das coisas e resgatar a pureza perdida. De fato, a palavra grega apocalipsis se traduz como "destruição", mas também como "revelação". Há apocalipse onde há revelação. A mensagem final, no entanto, viria a ser a mensagem de um novo tempo.

Além de ter caráter cosmogônico e escatológico, o mito da destruição se incorporou à essência dos deuses, que, ao mesmo tempo, deviam ser criadores e devastadores. Também se considerou o instrumento de destruição como sendo sagrado. O fogo era um deus. A água era um deus. Os cretenses adoravam o touro porque atribuíam à sua cólera os terremotos e freqüentes tremores da ilha de Creta. Nergal, o deus sumério da destruição, era descrito como um jovem investido do poder da tempestade. A espada era atributo divino, com nome próprio.

Nesse mesmo sentido, conhecer o mito de cada elemento destrutivo proporcionava a salvação. No Kalevala, por exemplo, só se pôde ajudar o ancião Väinämöinen, gravemente ferido, quando a origem sagrada do ferro foi lembrada e sua história declamada. Na maior parte das vezes um homem destruidor era visto como iluminado, deus ou demônio em potência, capaz de curar e de saber tudo. Os berserkires, por exemplo, desencadeavam sua fúria para se integrar aos modelos arquetípicos da fúria sagrada dos deuses. O bom rei sempre era um destruidor que repetia as ações dos deuses.

Essa inquestionável sobrevivência de mitos de aniquilação na morfologia religiosa e mitológica contém, no meu entender, a chave para introduzir o leitor nas minhas conjeturas. Essencialmente me atreveria a dizer que esses arquétipos de extermínio refletem antes de tudo uma convicção em torno da natureza mais visível e dilacerante do homem. Os mitos identificaram o cenário a partir da crença na semelhança entre o que sucede numa ordem cósmica e na vida cotidiana, que supõe um modelo de patrocínio ritual que consolida o esquema da conduta coletiva ou individual. O macrocosmo e o microcosmo se justapõem assim e se relacionam com o plexo da imanência em seu sentido mais puro. Viver em uma época racionalista não impediu que as premissas do pensamento e da ciência sejam outra coisa que mitos disfarçados.

Os que atribuem a causa da destrutividade a um instinto não estão muito longe do homem primitivo que a atribuía a um demônio ou a um elemento da natureza. A localização desse instinto tem estado vinculada à hipótese neurológica mais recente: ou no hipotálamo do cérebro, ou no sistema límbico, ou no lóbulo pré-frontal. Parece, portanto, inegável que a violência humana se manifesta por expectativas sociais: na era da visão teológica, os deuses nos possuíam, e na era da visão atômica somos determinados por unidades mínimas cuja estrutura genética impõe uma herança de reação e luta. Se há algo claro nessa histeria de extrapolação é que a teoria do instinto se inscreve num mito de libertação característico do homem: seu intento de se livrar da responsabilidade direta sobre sua atividade destrutiva.

À questão de que se há nos mitos antigos uma razão que explique a capacidade de destruição humana, devo oferecer uma resposta positiva, afastada do campo do reducionismo ideológico ou cientificista. O mito faz do humano e do universal uma exigência prática associada à aspiração de religar o sagrado e o atual. Visto assim, passado, presente e futuro se articulam numa cronologia transparente e imediata. O mito, nesse particular, pressupõe a dinâmica de expectativas em pleno exercício de fundação, normatividade e conservação. O relato apocalíptico projeta a situação e a angústia humana: em cada um, a origem e o fim interagem em inevitáveis processos de criação e dissolução.

Ao destruir, o homem reivindica o ritual de permanência, purificação e consagração; ao destruir, atualiza uma conduta movida a partir do mais profundo de sua personalidade, em busca de restituir um arquétipo de equilíbrio, poder ou transcendência. Ao mobilizar um sistema de disposição biológica ou social, a reafirmação tem um único objetivo: a continuidade. O ritual destrutivo, como o ritual construtivo aplicado à construção de templos, casas ou de qualquer obra, fixa padrões para devolver o homem à comunidade, ao amparo ou à vertigem da pureza.

À medida que aumentaram os riscos à preservação do homem, ou pelo incremento na produção de representações que deslocaram o sentido natural do homem, ou pela aparição de tendências demográficas descontroladas ou pelo fechamento de espaços de ação, foi maior a afinidade mítica com a restauração de uma ordem pela eliminação da ameaça.

A autonomia convergiu para o mito da destruição e transferiu conteúdos para estruturas psíquicas cujo desejo mais obscuro e arcaico consistia numa epifania em torno de um centro que é a morte. Destruir é assumir o ato simbólico da morte a partir da negação daquilo que é representado.
4. A Eliminação da Memória
Defendo que a teoria de que o livro não é destruído como objeto físico, e sim como vínculo de memória. John Milton, em Aeropagitica (1644), sustentava que o que se destrói no livro é a racionalidade que ele representa: "Quem destrói um bom livro mata a própria Razão." O livro dá consistência à memória humana. Não se deve ignorar que para os gregos a memória era a mãe das nove musas e se chamava Mnemósine. A idéia era a de que a memória era mãe das artes. Do termo grego ao latino o matiz se conserva porque memória provém de memororis, que vem a ser "aquele que recorda".

Esse vínculo poderoso entre livro e memória faz com que um texto deva ser visto como peça-chave do patrimônio cultural de uma sociedade e, certamente, de toda a humanidade. É interessante observar que a palavra patrimônio vem do grego e alude ao pai e ao verbo moneo, que se traduz como "fazer saber, fazer recordar". Sendo assim, patrimônio é literalmente "o que recorda o pai", à diferença do matrimônio, que seria o que recorda a mãe. Deve-se entender que o patrimônio cultural existe na medida em que o cultural constitui o patrimônio mais representativo de cada povo. Em si mesmo, o patrimônio tem capacidade de promover um sentimento de afirmação e pertencimento, pode sustentar ou estimular a consciência de identidade dos povos em seu território; é como uma carteira de identidade que permite preservar ações culturais propícias à integração.

Um livro é destruído com a intenção de aniquilar a memória que encerra, isto é, o patrimônio de idéias de uma cultura inteira. Faz-se a destruição contra tudo o que se considera ameaça direta ou indireta à um valor considerado superior. O livro não é destruído por ser odiado como objeto. A parte material só pode ser associada ao livro numa dimensão circunstancial: a princípio foi uma tableta entre os sumérios, um osso entre os chineses, uma pedra, um pedaço de couro, uma prancha de bronze ou ferro, um papiro, um códice, um papel e, agora, um CD ou um complicado dispositivo eletrônico.

Ao estabelecer as bases de uma personalidade totalitária, o mito apocalíptico estimula em cada indivíduo ou grupo o interesse por uma totalidade sem obstáculos. Cada cultura da totalidade, com efeito, repudia a totalidade de outra cultura. Entre alguns dos sinais facilmente identificáveis no totalitarismo apocalíptico poderíamos enumerar: a tentação coletivista, o classismo, a formação de utopias milenaristas e o despotismo preciso, burocrático, servil. Até sociedades democráticas podem ser extremamente totalitárias e procurar a destrutividade fortalecendo a negação da própria identidade.

Curiosamente, os destruidores contam com um elevado senso criativo. Os biblioclastas (termo com que são designados os destruidores de livros) possuem seu próprio livro, que julgam eterno. Como prescreve o ritual destrutivo antigo, arrasar pode tirar o involucrado da circunstancialidade e devolvê-lo à eternidade. Quando o fervor extremista apriorístico atribui condição categórica ao conteúdo de um livro (chame-se Corão, Bíblia ou o programa de um movimento religioso, social, artístico ou político), é para legitimar sua procedência divina ou permanente (Deus como autor, ou, em sua ausência, um iluminado, um messias).

Em 213 a.C., o imperador Shi Huandi mandou destruir qualquer livro que pudesse remeter ao passado. George Orwell, em seu romance 1984, apresentou um Estado totalitário em que um departamento oficial se dedicava a descobrir e apagar todo o passado. Os livros eram reescritos e os exemplares originais destruídos em fornos escondidos.

O destruidor de livros é dogmático, porque se aferra a uma concepção do mundo uniforme, irrefutável, um absoluto de natureza autárquica, auto-fundamentada, auto-suficiente, infinita, atemporal, simples e expressa como pura atualidade não-corruptível. Esse absoluto implica uma realidade absoluta. Não se explica: apreende-se diretamente por revelação.

De maneira natural, quando algo ou alguém não confirma a postura descrita, sobrevém uma imediata condenação, supersticiosa e oficial. A defesa teológica de um livro considerado definitivo, incontestável e indispensável não tolera discrepâncias. Em parte porque o desvio ou reflexão crítica se iguala à rebelião; em parte porque o sagrado não admite conjeturas nem aspas: supõe o céu para seus gendarmes e o inferno com um quê de pesadelo combustível para seus transgressores.


5. As Formas do Fogo
Uma boa pergunta a ser considerada pelo leitor é por que o fogo tem sido o fator predominante na destruição de livros. Há, sem dúvida, várias explicações para esse fenômeno. Limito-me a propor apenas uma: o fogo foi o elemento essencial no desenvolvimento das civilizações e o primeiro elemento determinante na vida do homem, por motivos de alimentação e de segurança coletiva.

O fogo, em suma, serviu para salvar e, pelos mesmos motivos, quase todas as religiões consagram fogos às suas divindades. Esse poder de resguardar a vida também é, vale a pena assinalar, poder destruidor. Ao destruir com fogo, o homem brinca de ser Deus, dono do fogo da vida e da morte. E dessa maneira se identifica com um culto solar de purificação e com o grande mito da destruição, que quase sempre ocorre por ecpirosis (consumação de todas as coisas pelo fogo).

A razão do uso do fogo é evidente: reduz o espírito de uma obra a matéria. Se se queima um homem, ele é reduzido aos seus quatro elementos principais (carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio); se se queima o papel, a racionalidade intemporal deixa de ser racionalidade para se converter em cinzas. Além disso, há um detalhe visual. Quem viu algo queimado reconhece a inegável cor preta. O claro se torna escuro.

Em 1935, Elias Canetti condenou seu personagem de Auto-de-fé a morrer queimado com toda a sua biblioteca. A frase final assinala: "Quando as labaredas finalmente o alcançaram, soltou uma gargalhada tão estrondosa como nunca soltara em toda a sua vida." Em 1953, Ray Bradbury imaginou em Farenheit 451 um futuro no qual um corpo de bombeiros era encarregado de queimar os livros para evitar que perturbassem a ortodoxia do sistema dominante.

O poeta romano Públio Papínio Estácio, quando seu pai morreu, pediu que evitassem a eliminação de seus escritos pelo fogo. Essa ambição se converteu em lugar-comum na poesia. Ovídio, no epílogo das Metamorfoses, declarou interesse em salvar sua obra do fogo, da espada, da mão divina ou do tempo.
6. A Cultura da Destruição
É erro freqüente atribuir as destruições de livros a homens ignorantes, inconscientes de seu ódio. Depois de 12 anos de estudo, concluí que quanto mais culto é um povo ou um homem, mais disposto se mostra a eliminar livros sob pressão de mitos apocalípticos.

Sobram exemplos de filósofos, eruditos e escritores que reivindicam a biblioclastia. René Descartes (1596-1650), seguro de seu método, pediu aos leitores que queimassem os livros antigos. Um homem tão tolerante como o filósofo escocês David Hume não hesitou em exigir a supressão de todos os livros sobre metafísica.

O movimento futurista, em 1910, publicou um manifesto em que preconizava o fim de todas as bibliotecas. Os poetas nadaístas colombianos queimaram exemplares do romance Maria de Jorge Isaacs, em 1967, convencidos de que era necessário destruir o passado literário do país. Vladimir Nabokov, professor das Universidades de Stanford e Harvard, queimou o Quixote no Memorial Hall, diante de mais de seiscentos alunos. Martin Heidegger tirou de sua biblioteca livros de Edmund Husserl para que seus estudantes de filosofia os queimassem em 1933.

Aqui subjaz certamente um ritual, em que se concebe a reiteração de um mito cíclico. Borges, em "O congresso", conto incluído em O Livro de Areia (1975), fez um de seus personagens dizer: "A cada tantos séculos há que se queimar a biblioteca de Alexandria [...]." É disso que se trata: queimar o passado é renovar o presente.


7. Pós-Escrito, 2004
Nesta história da destruição de livros se observará que a destruição voluntária causou o desaparecimento de 60% dos volumes. Os restantes 40% devem ser atribuídos a fatores heterogêneos, entre os quais se destacam os desastres naturais (incêndios, furacões, inundações, terremotos, maremotos, ciclones, monções, etc.), acidentes (incêndios, naufrágios, etc.), animais (como a traça, os ratos e os insetos), mudanças culturais (extinção de uma língua, modificação de uma moda literária) e os próprios materiais com os quais se fabricou o livro (a presença de ácidos no papel do século XIX está destruindo milhões de obras). Além disso, deve se perguntar quantos livros foram destruídos por não serem publicados, quantos livros em edições particulares foram perdidos para sempre, quantos livros deixados jogados na praia, no metrô ou no banco de um parque chegaram ao fim. É difícil responder a essas inquietações, mas o certo é que neste mesmo momento, quando você lê estas linhas, pelo menos um livro está desaparecendo para sempre.

PRIMEIRA PARTE

O Mundo Antigo
CAPÍTULO 1

Oriente Médio
A destruição de livros começa na Suméria
Os primeiros livros da humanidade apareceram na ignota e semi-árida região da Suméria, no mítico Oriente Médio, na Mesopotâmia (hoje sul do Iraque), entre os leitos dos rios Eufrates e Tigre, há aproximadamente 5.300 anos, depois de um sinuoso e arriscado processo de aperfeiçoamento e abstração. De maneira estranha, no entanto, esses mesmos livros começaram a desaparecer de imediato, em parte por seu material, a argila, em parte por desastres naturais, como as inundações, ou pela mão violenta do homem.

Esse paradoxo singular da civilização foi raramente considerado com atenção, apesar de ser a chave de toda nossa história. Até o momento, não se conhece a quantidade de livros destruídos na Suméria, mas não é despropositado supor que supera os cem mil, devido aos conflitos bélicos que assolaram a região. Um achado arqueológico de 1924 revelou a existência dos livros mais antigos conservados até agora. A exploração da camada IV do templo da temida deusa Eanna, na cidade de Uruk, desenterrou várias tabletas de argila, algumas inteiras, mas outras em fragmentos, pulverizadas ou queimadas, que podem ser datadas entre os anos 4100 a.C. ou 3300 a.C. Essa descoberta, que não é definitiva, porque a arqueologia não é religião nem insulto, apresenta-nos um dos grandes paradoxos do Ocidente: a prova do início da civilização, da escrita e dos livros é, também, a de suas primeiras destruições.

Esse estrago não foi natural, espontâneo ou imediato, e sim provocado, premeditado e lento, pois as guerras entre cidades-Estado provocavam incêndios e, em meio ao ruído dos combates, as tabletas caíam de suas estantes de madeira e se partiam em pedaços ou ficavam ilegíveis. O Hino a Iishbierra estabelecia como objetivo de um ataque: "Além da ordem de Enlil de reduzir a ruínas o país e a cidade de..., havia como destino aniquilar sua cultura." Outro elemento destrutivo foi a técnica de reciclagem: as tabletas danificadas eram usadas para construir azulejos ou pavimentar cidades. O outro fator realmente nocivo foi a água. As inundações causadas pelos rios Tigre e Eufrates acabaram com povoados inteiros e, certamente, com seus arquivos e bibliotecas. Não é estranho que na Mesopotâmia, onde a água era considerada uma divindade incontrolável e caprichosa, inimiga dos deuses da memória, surgisse o mito do dilúvio universal.

Esses fatores aceleraram o desenvolvimento de meios mais eficazes de preservar a qualquer custo os textos. Os sumários, ou cabeças negras, acreditavam na origem sobrenatural dos livros e atribuíam a Nidaba, a deusa dos cereais, sua invenção. Para se ter idéia da importância que a escrita teve para eles, convém lembrar a lenda de Enmekar (2750 a.C.), rei da cidade de Uruk, herói respeitado e temido, condenado a beber água putrefata no inferno por não ter deixado escritas suas façanhas. Outro mito fala de um rei de Uruk que decidiu inventar a escrita porque seu principal mensageiro fez uma viagem muito longa e, ao chegar ao destino, estava tão cansado que não pôde dizer nada. Desde então se considerou mais adequado enviar as mensagens por escrito.

Os escribas, casta de laboriosos funcionários palacianos, oravam à deusa Nidaba antes e depois de escrever. Formavam uma escola que transmitia os segredos dos signos por intermédio de uma religião secundária. Tinham a disciplina da magia, e a ascensão na casta supunha um longo aprendizado. Conheciam de memória a flora, a fauna e a geografia de seu tempo, as matemáticas e a astronomia. Nada lhes era alheio, como demonstrou a tradução dos textos de Nippur. O primeiro grau era o de dub-sar (escriba); seguia-se, depois de vários anos de ofício, o de ses-gal (grande irmão); e culminava como um mi-a (mestre), uma grande distinção. Esse grau liberava o escriba de qualquer culpa.

Por volta de 2800 a.C., os reis, não sem algum temor, delegaram aos escribas o poder absoluto sobre a custódia dos livros. Dessa forma, as mudanças políticas não alteraram a condição histórica dominante. Os arquivos se converteram em refúgio e garantia da continuidade ontológica do povo. Os acadianos, por exemplo, quando conquistaram os sumérios, reformaram os códigos e os costumes, mas subjugaram os escribas e os obrigaram a ensiná-los a escrever. Os assírios, os amoritas e os persas fizeram o mesmo. De fato, os mesmos signos de escrita serviram para a exposição dos mais diversos sistemas de idiomas.

É curioso que os zigurates, ou templos escalonados da Suméria, tenham sido construídos com o mesmo material com que se fabricaram os primeiros livros, isto é, com argila. Portanto, ambos deviam ser úteis ou mágicos. Os templos eram arquivos e organizavam a administração precisa da cidade; os livros eram uma metáfora do templo. As tabletas eram feitas com uma argila aquecida até adquirir condição própria para a escrita; algumas tabletas eram pesadas, motivo pelo qual muitas vezes duas pessoas participavam de sua composição: um segurava a tableta, o outro redigia.

O estilo da escrita era cuneiforme, isto é, gravado em forma de cunha ou incisões. Escrevia-se com um cálamo de cana ou de osso. No início, essa escrita, que tinha função estritamente mnemônica, era pictográfica e logo se tornou tão complexa que os signos, ao adquirir uma condição fonética, reduziram-se de dois mil a menos de mil. A língua era (assim se determinou) aglutinante, isto é, construída sobre uma raiz invariável a que se justapunham outras palavras para lhe dar sentido. Um texto começava no canto superior direito e a direção da escrita seguia, ainda que nem sempre, uma orientação vertical.

Uma vez concluído o período conhecido como Uruk IV, por volta de 3300 a.C., sobreveio o período Uruk III e aumentou consideravelmente a elaboração de tabletas e a criação das primeiras bibliotecas, cujas prateleiras incluíam registros econômicos, listas lexicográficas e catálogos de flora, fauna e minerais. Em Ur e Adab foram encontrados restos das tabletas de duas bibliotecas ativas, em torno dos anos 2800 a.C.-2700 a.C. Entre 2600 a.C. e 2500 a.C., houve várias bibliotecas em Fará, Abu Salabik e Kis, com os consabidos registros econômicos e as listas genéricas, mas também com textos de poesia, magia e escritos paremiológicos (ou de provérbios). O mais parecido a um livro atual procede dessa época, quando os escribas desenharam textos em cuja parte superior indicavam os nomes do redator e do supervisor, uma inovação memorável.

A biblioteca de Lagas, cinqüenta ou cem anos depois, continha inscrições históricas, a chamada Estela dos Abutres, e documentos historiográficos. Por volta de 2200 a.C., o príncipe Gudea criou uma biblioteca com textos históricos e poemas da primeira escritora conhecida do planeta, Enkheduanna, filha do famoso Sargão de Akkad. Esses poemas eram hinos à terrível deusa Inanna. Havia também rolos com textos. Um desses cilindros era dividido em duas partes. Uma delas indicava que era a metade, enquanto a outra se referia ao fim da composição.

Nos anos 2000 a.C.-1000 a.C., havia bibliotecas ativas em Isin, Ur e Nippur, as duas primeiras nos palácios reais das cidades e a última na área onde habitavam os escribas. Em Ur (hoje Muqay-yar) são conhecidas as ruínas de casas que foram devastadas e, em seu interior, se desenterraram tabletas de arquivos familiais que datam de 1267 a.C., aproximadamente, isto é, em pleno período casita, que oscilou entre 1595 a.C. e 1000 a.C.

Em Ur foram achados arquivos e bibliotecas do período elamita, particularmente em Kabnak (hoje Haft Tepe), e também arquivos num palácio de Anshan (Tall-e-Malyan). A maior parte das tabletas, que no caso dos achados de Nippur superam as trinta mil, repetia os esquemas econômicos tradicionais. De um lado, incluíram os primeiros textos em língua acadiana; de outro, apresentaram os primeiros catálogos de biblioteca, umas listas com os títulos das obras e a primeira frase do escrito. Dessa época procedem novos gêneros: a himnografia dedicada a reis, as listas reais, as cartas, e a própria caligrafia deu um salto. As bibliotecas recebiam o nome autóctone de e-dub-ba (casa das tabletas). Nos achados de Nippur (hoje Niffer), a sudeste da Babilônia, descobriu-se uma região com milhares de tabletas em pedaços, ou completamente desfeitas; e do período casita se acharam umas 12 mil tabletas e milhares de fragmentos de outras.

Além das mencionadas, houve outras dezenas de bibliotecas em toda essa faixa, ainda sepultadas, ironicamente saqueadas depois da invasão do Iraque em 2003. Mas o fator predominante é o mesmo em todos os casos: as primeiras bibliotecas do mundo estão em ruínas e mais da metade de seus livros foi destruída.
Ebla e as bibliotecas sepultadas da Síria
Em 1964, o arqueólogo orientalista Sabatino Moscati, da Universidade de Roma, empreendeu a exploração de uma colina artificial localizada em Tell Mardik, a 55km a sudoeste de Alepo, na Síria. No início, só encontrou uma porta, restos de uma muralha, templos e casas, mas em 1968 apareceu o torso da estátua de um rei cuja inscrição assinalava expressamente "soberano de Ebla", o que permitiu identificar o assentamento como a antiga cidade de Ebla, talvez a mais importante região paleossemita da Síria. No terceiro milênio antes de Cristo, esse enclave teve 250 mil habitantes e mais de 1,2 mil funcionários administrativos.

Em 1974, o assiriólogo Giovanni Pettinato foi convidado a decifrar tabletas escritas em cuneiforme, numa língua desconhecida. No mesmo ano foi descoberto o palácio real. Mas o grande achado se produziu em 1975. No início do ano apareceram mil peças, entre tabletas e fragmentos; em setembro, o arqueólogo Paolo Matthiae e um grupo de colegas italianos escavaram cuidadosamente dois ambientes do palácio G do período Ebla IIb, dentro do pátio de audiências: no chamado L. 2712, por exemplo, foram encontradas milhares de tabletas e uma sala utilizada como biblioteca. O artífice dessa descoberta comentou:

No primeiro dos ambientes (L. 2712), sem dúvida um pequeno depósito, encontraram-se mil tabletas e fragmentos no monte de azulejos crus resultantes dos desmoronamentos subseqüentes ao incêndio e à destruição [do palácio]. Evidentemente, no momento da destruição, quando o teto de madeira caiu no interior da peça e se produziram os desmoronamentos das altas e grossas estruturas que em três dos lados delimitavam o depósito L. 2712, as tabletas caíram sobre o pavimento e entre os escombros, reduzindo-se a fragmentos [...].

A organização da biblioteca de Ebla leva a pensar que seus encarregados usaram técnicas avançadas. Na sala L. 2769, que media 5,10 x 3,5m, as tabletas lexicográficas ocupavam a parede norte; as tabletas comerciais, a parede este. As tabletas eram transportadas em tábuas largas. As estantes de madeira sustentavam as tabletas e eram apoiadas em suportes verticais; o conjunto de estantes tinha pelo menos duas prateleiras. As tabletas eram depositadas em cada estante seguindo um ângulo reto. Nessa sala foram encontradas 15 mil tabletas, algumas inteiras e outras, infelizmente, em fragmentos. Uma sala adjacente à biblioteca servia para a escrita dos documentos.

As tabletas, às vezes com 30 cm de comprimento, eram escritas em ambos os lados e divididas em colunas verticais com linhas de registro. Tinham um colofão no fim e um resumo do conteúdo da obra. Havia textos administrativos de uma precisão surpreendente. Da mesma forma, textos históricos com tratados, listas de cidades conquistadas, comunicados oficiais, ordenações do rei e diferentes disposições legais. Apareceram também os primeiros dicionários bilíngües, abundantes listas com palavras em sumério e seu correspondente significado em eblaense, o que demonstra, como assinalou Pettinato, que por volta de 2500 a.C. se fazia em Ebla pesquisa filológica.

Abandonou-se essa biblioteca quando o palácio real de Ebla foi atacado e incendiado e milhares de tabletas reduzidas a fragmentos. O fogo foi devastador e os saqueadores não hesitaram em subtrair o ouro e os objetos de mais valor, deixando unicamente as tabletas feitas em pedaços. Atribui-se ao rei acadiano Naramsin (2254 a.C.-2218 a.C.) esse feito, mas Paolo Matthiae, o primeiro partidário dessa versão, agora afirma que foi o rei Sargão.

Havia outra biblioteca da Síria antiga, ainda que de menor importância, no palácio de Zimri-Lim, em Mari, uma cidade descoberta em Tell Hariri, perto do curso médio do Eufrates. Pelo que se sabe, era o ponto de controle das caravanas comerciais rumo ao golfo Pérsico e sua biblioteca continha minuciosos registros administrativos, conservados apenas em parte.

O porto mais importante da Síria foi Ugarit, num promontório chamado Ras Shamra, no sul de Latakia. A principal biblioteca da cidade era multilíngüe e subsistiu até a destruição do local em 1190 a.C. As tabletas do palácio real, preservadas em grande número, revelaram uma mitologia e religião próprias dos cananeus, e o uso multilíngüe de diversos textos demonstra que esse centro era fundamental como ponto de encontro de diversas etnias.


As bibliotecas da Babilônia
Provavelmente por volta do ano 2000 a.C., a queda da dinastia de Ur III, nas mãos de um grupo étnico de amoritas, pressupôs o estabelecimento de nova força política sobre as planícies do que é hoje o sul da moderna Bagdá.

No período de 1792 a.C. a 1750 a.C., sobressaiu-se uma cidade que viria a ser conhecida como Babilônia, e seu rei, Hamurabi, sexto membro de uma família sanguinária, dedicou-se a organizar seu império. Impôs uma teologia que postulava a existência de Marduk, o deus dos cinqüenta nomes. Cada guerra de conquista lhe permitia saquear arquivos e transferi-los para a grande biblioteca de seu palácio. A língua que adotou era um dialeto do antigo acadiano; a escrita, com certeza, assimilou a escrita cuneiforme.

Eram tempos de unificação, e Hamurabi optou por compilar um código temível, baseado na pena de talião, já conhecida com esse nome. Pode-se compreender a idéia do talião conhecendo a regra 196 do código: "Se um homem arrancou o olho de outro, será arrancado o seu olho."

Nesse conjunto de normas se encontra uma das primeiras referências à destruição de uma tableta: "Se um homem comprar o campo, o horto ou a casa de um soldado, pescador ou arrendatário, sua tableta será quebrada e perderá a propriedade. Não eram poucas as tabletas que continham advertências para impedir seu dano por parte de usuários imprudentes: "Quem teme Anu e Antu a cuidará e respeitará."

As leis eram guardadas, juntamente com milhares de obras literárias, matemáticas, astronômicas e históricas, na biblioteca do rei. As primeiras traduções interlineais datam desse período, e também os primeiros manuais para aprender a língua suméria.

Encontraram-se restos de outras duas conhecidas bibliotecas do império babilônico, em Shaduppum e Sippar. A biblioteca de Sippar, hoje Abu Habba, foi o achado mais sensacional de 1987. Arqueólogos iraquianos, dirigidos por Walid al-Jadir, da Universidade de Bagdá, escavaram nas cercanias do templo do deus solar de Sippar, construído no tempo de Nabucodonosor II, e descobriram a biblioteca, mencionada pelo sacerdote Beroso em seu livro perdido sobre a Babilônia. Três paredes de uma sala de 4,40 x 2,70m, na sala de número 355, tinham bancos de tijolo com nichos de 50 cm de largura por 80 cm de profundidade. Anexo se encontrava um quarto de leitura. Ao todo foram recolhidas oitocentas tabletas, classificadas pelos especialistas em administrativas, literárias, religiosas e matemáticas, em línguas acadianas e sumérias. Não faltou, como em muitas outras bibliotecas da Mesopotâmia, uma versão do Poema de Gilgamesh, o Enuma Elish e Lugal.

Durante a dinastia dos casitas, que chegaram ao poder na Babilônia por volta de 1595 a.C., havia uma intensa atividade nas bibliotecas. O rei Nabucodonosor I (1124 a.C.-1103 a.C.), tendo vencido os habitantes de Elam, recuperou a estátua do deus Marduk e ordenou a preservação do texto sobre ele. O poema, apesar de uma quantidade de linhas perdidas, pode ser lido hoje sob o título de Enuma Elish, em sete cantos, com cerca de 1.100 versos. Além dos textos sobre sabedoria popular, preparou-se uma edição completa do Poema de Gilgamesh, em 12 tabletas, com um surpreendente colofão que atribui sua redação ao misterioso Sin-liqi-unninni. Esse escriba era conhecido como "mashmashhshu" ou "exorcista".

Em 689 a.C., as tropas de Senaquerib arrasaram a cidade de Babilônia; seu neto Assurbanipal fundou uma das bibliotecas mais famosas dessa época, em Nínive, cidade devastada anos mais tarde, em 612 a.C. Em cada um desses acontecimentos, milhares de tabletas desapareceram, roubadas, confiscadas ou simplesmente reduzidas a escombros. Não eram, como não são hoje, bons tempos para a cultura.


A grande biblioteca de Assurbanipal
Assurbanipal, soberano assírio de 668 a.C. a 627 a.C., perdeu as terras do Egito, conquistadas a sangue e fogo por seu cruel pai Asarhaddon. Lutou contra seu irmão até derrotá-lo e passou seus últimos anos em guerra. Seu reinado foi difícil, mas ele, primeiro rei a obter instrução necessária para escrever tabletas, esmerou-se em estimular uma atividade cultural e religiosa que preservasse seu nome do esquecimento. Provavelmente foi o primeiro governante a combinar a espada à escrita e à leitura.

A partir de 1842, arqueólogos ingleses, sob a coordenação de Henry Layard, encontraram as ruínas da biblioteca do palácio de Assurbanipal, na antiga cidade de Nínive (a moderna Kuyunjik). Tiraram 20.720 tabletas com milhares de fragmentos de outras e as depositaram no Museu Britânico. Alguns anos depois, se conheceu com precisão a organização da biblioteca. Confirmou-se que Assurbanipal foi o primeiro grande colecionador de livros do mundo antigo. Antes dele, o único rei de quem se tem memória com a mesma afeição foi Tiglah Pileser I, rei da Assíria de 1115 a.C. a 1077 a.C., ainda que em menor escala.

Assurbanipal se gabava de sua paixão:
[...] O melhor da arte do escriba, que nenhum de meus antecessores conseguiu; a sabedoria de Nabu, os signos da escrita, todos os que foram inventados, escrevi-os em tabletas, ordenei-os em série, colecionei-os e os coloquei em meu palácio para minha real contemplação e leitura [...].
Os escribas trabalhavam dia e noite e copiavam todos os escritos de todas as culturas. Não é raro, portanto, reconhecer em algumas tabletas o Código de Hamurabi, o Enuma Elish e o Gilgamesh; também continham descrições exatas de viagens ao inferno e fórmulas para a vida imortal. Hoje em dia o número de tabletas descobertas nessa área aumentou e alcançou a cifra de trinta mil, e pelo menos cinco mil são textos literários, com colofão.

De certo modo, a destruição de tabletas não devia ser rara já que foram encontradas inscrições como esta: "Quem quebrar esta tableta ou a puser na água [...] Asur, Sin, Shamash, Adad e Ishtar, Bel, Nergal, Ishtar de Nínive, Ishtar de Arbela, Ishtar de Bit Kidmurri, os deuses dos céus e da terra e os deuses da Assíria, podem todos amaldiçoá-lo."

Os ingleses, nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, se deparam com os restos do palácio de Assurbanipal II e de seu filho Salmanasar III. Enquanto revistavam um poço, encontraram 16 tabletas de madeira, de 45 x 28 x 1,7 cm. Ao lado, havia umas dobradiças de metal. Uma vez decifradas, pôde-se ler o maléfico oráculo de Enuma Anu Enlil. Para surpresa dos especialistas, os assírios tinham livros com as páginas frente a frente unidas por dobradiças. Além da célebre biblioteca de Assurbanipal, houve outras duas em Nínive: a primeira se encontrava nas salas XL e XLI do palácio sudoeste, construído pelo rei Senaquerib, e a outra, provavelmente, a do templo do deus Nabu, o deus da escrita e do conhecimento dos assírios.

Até o ano 612 a.C., desgraçadamente, babilônios e medos destruíram Nínive e arrasaram suas bibliotecas. Frazer deu a seguinte versão a esse fato:


[...] A biblioteca se encontrava num dos andares altos do palácio, derrubado durante o último saque da cidade envolto em chamas, e sua queda reduziu a pedaços as tabletas. Muitas delas se encontram ainda rachadas e tostadas pelo calor das ruínas abrasadas. Mais tarde, as ruínas foram saqueadas por antiquários da espécie de Dousterswivel, que procurou nelas tesouros enterrados, e não o conhecimento, e sim ouro e prata, e com sua cobiça contribuíram ainda mais para destruir e desfazer as preciosas recordações. Para completar a destruição, a chuva, que penetra no solo todas as primaveras, empapa-as na água que contém em dissolução diversas substâncias químicas, cujos cristais, depositados nas fendas e fraturas, rompem, ao crescer, em fragmentos ainda menores, as já destroçadas tabletas.

Convém observar que, no período que vai de 1500 a.C. a 300 a.C., em pelo menos 51 cidades do Oriente Médio existiram mais de 233 arquivos e bibliotecas. Duzentos e vinte e cinco eram propriamente arquivos, e só 55 bibliotecas. Dessas bibliotecas, 25 foram do período de 1500 a.C. a 1000 a.C. e trinta do período de 1000 a.C. a 300 a.C. E todas estão em ruínas.




Os livros dos misteriosos hititas
Os hititas, habitantes do influente reino de Hatti, acreditavam num deus que de tempos em tempos, sem aviso prévio, desaparecia sem deixar rastro. Suspeitavam que, quando isso acontecia, os amigos do deus logo o buscavam, porque do contrário o mundo podia se acabar. O próprio destino dos hititas herdou esse traço, pois sua civilização foi aniquilada e o pouco que conhecemos dela é sempre fragmentário ou à margem, fugaz e escasso. Seus admiradores têm tentado encontrar esses restos, certos de obter respostas a grandes enigmas da história.

A capital do império hitita foi Hattusa, hoje Bogazköi, e se encontra a leste de Ancara, na Turquia. De 1800 a.C. a 1200 a.C., foi uma cidade organizada, complexa, e nela se consolidou, durante seiscentos anos, uma das civilizações mais importantes da Ásia Menor, detentora do mais apreciado segredo industrial do mundo antigo: a fabricação do ferro. O primeiro dos reis se chamava Hattusili I; não sabemos quem foi o último. Trácios e frígios invadiram essas terras por volta de 717 a.C., e Sargão II condenou todos os hititas a um processo de eliminação.

Os hititas estabeleceram em Hattusa uma biblioteca na cidadela de Büyükkale, com textos cuneiformes em língua hitita (indo-européia). Três tabletas, uma das quais se perdeu, compendiavam mais de duzentas leis. Entre 1906 e 1912, duas expedições de arqueólogos acharam mais de dez mil tabletas, escritas em pelo menos oito línguas diferentes. Nos textos, havia não apenas leis, mas também reproduções multilíngües do Poema de Gilgamesh, e orações para combater a feitiçaria ou a impotência sexual. Do mesmo modo, centenas de tabletas estavam fragmentadas. No Templo de Nisantepe, a sudoeste da cidadela, havia um arquivo com tabletas reais que sofreram com os ataques ao local.

As escavações também revelaram a existência de um arquivo administrativo em Tappiga (hoje Masat Hõyük), destruído em 1400 a.C, e de bibliotecas em Sapinuwa (hoje Orataköi) e Sarissa (Kusakli). Na área de influência hitita se sabe que houve respeitáveis bibliotecas em Emar (hoje Meskene) e Ugarit (Ras Shamra).


CAPÍTULO 2

Egito
O Ramesseum do Egito
Os gregos chamaram Ramsés II (1304?-1237 a.C.) de Osimandias e o mitificaram; os egípcios o adoraram com o nome de User-maat-Re. Acreditava-se filho direto de Amon, deus do Oculto. No terreno humano, era filho natural de Seti I e da rainha Tuya, e, depois de uma infância desinteressante, chegou a se distinguir como monarca desmesurado. Por demagogia ou sinceridade, foi amante de mais de duzentas mulheres, pai de cem filhos, sessenta filhas, e conquistador dos hititas, feito que seus aduladores divulgaram em centenas de estelas. Governou por 76 anos, mas o motivo de sua menção nesta história é que foi o fundador de uma das primeiras bibliotecas, composta exclusivamente de papiros, destruída prematuramente. Esses papiros, relacionados, segundo uma tradição, com a palavra egípcia Pa-pa-ra ("pertencente ao rei"), procediam de uma planta da família das ciperáceas, o Cyperus papyrus. Dessa planta se retiravam os filamentos internos e, depois de um longo processo de secagem, originava-se uma espécie de folha sobre a qual se podia escrever. O método devia ser complicado, porque uma vez esquecido só voltou a ser entendido no século XX.

No início do segundo ano do reinado, Ramsés II ordenou a construção de um templo para abrigar seus despojos na cidade de Tebas; as obras se prolongaram por vinte anos. Nesse templo, chamado Ramesseum, havia uma biblioteca com dezenas de rolos de papiro. O historiador Diodoro Sículo, em sua Biblioteca de histórias (I, 49, 3), mencionou a descrição feita por Hecateu de Abdera, e destacou "a biblioteca sagrada, na qual estavam escritas as palavras: Lugar da Cura da Alma". É bonito pensar nessa denominação para uma biblioteca, mas os egípcios procederam dessa forma por motivos médicos e não estéticos. Os papiros tratavam em sua maioria de temas farmacológicos.

Várias gerações de arqueólogos, estimuladas pelas palavras de Diodoro Sículo, tentaram desde o século XIX encontrar o alojamento da biblioteca, sem êxito. Jean-François Champollion, aquele que decifrou a escrita hieroglífica, acreditava tê-la encontrado perto das figuras de Tot e sua irmã Seshat, duas divindades relacionadas ao conhecimento, mas a falta de indícios acabou por convencê-lo de que o aposento fora destruído. Fritz Milkau escreveu: "[...] Não é possível encontrar a biblioteca do Ramesseum [...]."

De qualquer maneira, as hipóteses não cessaram. Tampouco os enigmas. Rainer Stadelmann insistiu em que a biblioteca sagrada estava na parte de trás, no primeiro hipostilo (teto sustentado por colunas). Luciano Canfora supôs que as estantes da biblioteca se localizavam num espaço contíguo ao aposento onde repousava o triclínio. Creio poder afirmar, depois de uma revisão dos planos de Quibell e de Christian Leblanc, atual diretor da Missão Arqueológica francesa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), que a biblioteca esteve sempre na parte final do templo e é possível ver na inscrição Lugar da Cura da Alma uma definição do aposento onde os médicos evitavam que o Ka, ou alma, saísse do corpo. É estranho, insólito e perverso ignorar o papiro Anastasi I, cujo conteúdo alude à biblioteca ao dizer: "A casa dos livros está oculta, não é visível." Os livros do templo de Ramsés II, se aceitamos o papiro citado, eram fontes esotéricas, temidas e veneradas.

Infelizmente, os saques dos etíopes, dos assírios e dos persas acabaram com o Ramesseum e os livros desapareceram, tal como aconteceu com muitos dos primeiros escritos egípcios. No século I d.C., o templo, tomado pelos cristãos, converteu-se numa igreja, mas a biblioteca já não existia.
A queima de papiros secretos
O leitor deve se lembrar do mito egípcio de Ra e Ísis. O deus Ra tinha um nome secreto e decidira ocultá-lo dos outros deuses, talvez por bons motivos, mas a picada de um escorpião colocado por Ísis o deixou numa situação difícil: se não dissesse seu verdadeiro nome sofreria terríveis tormentos; se dissesse, Ísis dominaria sua vida. Saber o nome, naquela ocasião, era ter poder sobre o nomeado. De alguma maneira, os papiros tinham esse poder e só podiam ser lidos por um grupo de sacerdotes cujo medo aos castigos divinos era superior ao desejo de obter triunfes graças à aplicação de seus conhecimentos.

A conspiração contra Ramsés III, bem documentada por fontes diversas, oferece ao leitor uma explicação dessas crenças. O rei, depois de seu assassinato [sic], ordenou, por meio de uma mensagem do além, que se iniciasse uma investigação cujos pormenores revelaram os nomes de todos os conspiradores. Um dos rebeldes confessou ter conseguido alcançar seu objetivo por possuir um rolo mágico de papiro cuja leitura o convertia num verdadeiro deus, tão poderoso quanto o próprio faraó.

Akhnaton, como bom monoteísta, foi um dos primeiros a queimar livros. Mandou destruir os textos secretos no afã de consolidar sua religião, como relatou o historiador A. Weigall:
"[...] Akhnaton lançou todas essas fórmulas nas chamas. Duendes, espectros, espíritos, monstros, demiurgos e o próprio Osíris, com toda sua coorte, foram consumidos pelo fogo e reduzidos a cinzas! ...]."

O resto é conhecido: como vingança, seus sucessores apagaram até seu rosto das pedras, seu nome, e restituíram de memória o conteúdo de muitos dos papiros antigos.


As Casas da Vida no Egito
A biblioteca do templo conhecido como Casa da Vida servia para proteger, copiar e interpretar textos divinos. Um dos arquitetos do templo de Luxor consultava os escritos sagrados nesse centro para conhecer a vontade dos deuses. Isso não era excepcional: Ramsés IV consultou os papiros para empreender a construção de seu túmulo e, ao que tudo indica, ordenou a um dos escribas da Casa da Vida ir em missão às minas de Wadi Hammamat. A duração desse lugar se manteve, porque o Decreto Canópico, preparado no reinado de Ptolomeu III, atrevia-se a pôr na boca do sacerdote as palavras: "Entrarei na Casa da Vida para desvendar as emanações de Ra e ser guiado por elas."

É possível que, além do Ramesseum, um dos antecedentes da biblioteca de Alexandria fosse a Casa da Vida, localizada no templo dedicado a Hórus em Edfu. Esse lugar foi construído pelos faraós e reconstruído por Ptolomeu Evergetes. Entre outras coisas, o trabalho dos sacerdotes bibliotecários não se limitava à parte medicinal; podiam prestar conselhos práticos ou mágicos. O sacerdote principal de Ptah, em Mênfis, era chamado pelo povo, segundo o papiro Vienna, de "Profeta da Biblioteca Sagrada, Escriba da Biblioteca Sagrada [...] que avalia os conteúdos da Biblioteca Sagrada, aquele que restaura o que caiu pelas emanações de Ra".

Uma das paredes da biblioteca de Edfu expõe, além da imagem de Seshat, deusa da escrita, 37 títulos fascinantes: Livro da proteção mágica do rei em seu palácio, Livro do conhecimento dos segredos, Livro do conhecimento das forças de Deus, etc. O papiro Salt 825 (B. M. 10051), do século IV a.C., fala dos livros como se fossem emanações de Ra e considera esses textos sagrados a soma de todo o saber antigo.

Os textos eram abertos ao público ou proibidos. O papiro Bremmer-Rhind, da época ptolemaica, refere-se a um livro secreto na Casa da Vida nunca visto por olho algum. Não se tem idéia de qual era o livro, porque foi destruído juntamente com o resto dos tesouros da biblioteca quando os cristãos atacaram monumentos pagãos do Egito.


Os escritos proibidos de Tot
Como se sabe, Tot foi a divindade encarregada de inventar a escrita entre os egípcios. Exerceu, também, o cargo de secretário das mais obscuras divindades maiores e menores. Naturalmente em algum momento se imaginou Tot como autor de um volume em que todas as coisas estavam explicadas e cada situação humana predeterminada. Seu livro era um compêndio de medicina, filosofia e magia. Acredita-se que o papiro usado pelos assassinos de Ramsés III foi o Livro de Tot: a cópia, ao que parece, ficou destruída. Outros exemplares provocaram estragos em vários lugares do Egito: ao longo dos séculos, esses exemplares desapareceram com regularidade.

Um papiro escrito há 33 séculos conta como Nefer Ka Ptah encontrou o Livro de Tot submerso num rio e protegido por serpentes. Copiou-o e encharcou um exemplar na cerveja para logo depois bebê-lo: adquiriu instantaneamente todo o saber do mundo, tudo quanto é dado saber a um deus. Tot, ao se inteirar do roubo de seu livro, regressou dos umbrais do tempo e, sem dizer palavra, assassinou-o e recuperou o volume. O papiro pode ter sido destruído por volta de 360 a.C.

Em Alexandria, Tot se converteu, se já não era, em Hermes Trismegisto. Depois dessa identificação, aumentaram o número de cópias e, como se pode imaginar, as queimas.
CAPÍTULO 3

Grécia
Entre ruínas e fragmentos
I
A primeira imagem que qualquer pessoa tem da arte grega se refere a algum fragmento ou templo em ruínas. É freqüente ver fotos de turistas se deleitando entre colunas derrubadas, entre escombros e lugares abandonados, espoliados e convertidos em símbolos culturais. Sucede o mesmo com a literatura antiga. Segundo as estimativas mais otimistas, 75% de toda a literatura, filosofia e ciência grega antiga se perdeu. Um historiador pouco nostálgico como K. J. Dover se atreveu a comentar: "[...] De tudo o que os gregos escreveram só se conservou uma pequena porção. Temos os nomes de uma centena de historiadores gregos, mas apenas possuímos as obras de três deles pertencentes ao período clássico e algumas outras pertencentes a tempos posteriores. Em Atenas foram representadas mais de duas mil peças teatrais de 500 a.C. a 200 a.C., mas apenas podemos ler ou representar [...]."

O mais antigo fragmento de um livro grego conservado até agora é o chamado Papiro Derveni, datado do início do século IV a.C., parcialmente carbonizado, com vestígios de uma extensa interpretação alegórica e filosófica de um poema atribuído a Orfeu. Este dado é aterrador: se os primeiros livros gregos, difundidos por meio do papiro importado do Egito, foram compostos no século IX a.C., e só temos um papiro fragmentário do século IV a.C, estamos diante de quinhentos anos de obras perdidas. Os primeiros livros gregos desapareceram em sua totalidade.

Algumas das maiores perdas são da época helenística, isto é, dos séculos III a.C. a I d.C. A compilação Die Fragmente der griechischen Historiker (Os fragmentos dos historiadores gregos) do grande erudito Felix Jacoby ilustra esse aspecto, porque contém os fragmentos de mais de oitocentos historiadores de língua grega do período helenístico cujas obras se perderam.
II
Convém precisar que o livro era então uma folha de papiro apresentada como um rolo, de extensão variável. Quando uma obra ocupava o equivalente a dois volumes ou dois tomos dizia-se que tinha dois rolos. O livro era chamado de biblos, em homenagem à cidade fenícia de Biblos. O ato de ler era denominado anagnoosis, que significa "leitura", mas sobretudo "leitura pública". A leitura, além disso, fazia-se da seguinte forma: com a mão esquerda se desenrolava o papiro e com a direita se segurava o resto do rolo. Para esse ato de desenrolar se usava o verbo anelittoo.

Muito antes de escrever sobre papiros ou de assumir o alfabeto fenício, os gregos de Creta escreveram em tabletas de argila, como os sumérios, utilizando uma escrita silábica, denominada Lineal B por seus descobridores. Tratava-se de inventários e listas de alimentos e animais, mas não de textos literários; correspondiam ao arquivo do rei. Esse fato, vale o comentário, foi exibido pelos defensores de Creta para provar o equívoco daqueles que atribuíam ao mítico Cadmo a introdução das letras fenícias na cultura grega. De qualquer maneira, essa tese não teve sorte e hoje se aceita unanimemente o abandono do cretense pelo alfabeto fenício e, nesse sentido, há testemunhos históricos nas páginas de Heródoto,'" de Sófocles" e de Aristóteles.

Não sabemos o que ocorreu exatamente no século IX a.C, mas, por um lado, o alfabeto foi transformado, sob a pressão inovadora da poesia hexâmetra grega, e adotou vogais regulares fluidas; de outro lado, o papiro acabou por ser aceito como único instrumento para salvar a memória da população e, até o século V a.C., escrever e ler eram atividades comuns nas cidades.

Houve, é claro, e isso se sabe em detalhe, outras formas de difundir os escritos, mas limitadas, como o couro, as tabletas de madeira ou as pedras. Pausânias leu no Monte Hélicon uma versão de Os trabalhos e os dias de Hesíodo, numa placa de chumbo bem deteriorada naquele momento. Disso quase nada resta.

A fixação das leis por escrito foi um passo determinante na organização do mundo grego. Esquines elogiava a existência dos arquivos públicos porque fortaleciam o poder do povo ao possibilitar a verificação de uma mentira. De fato, os tratados ou convênios entre cidades se faziam por escrito para evitar mudanças de opinião dos contratantes. Há uma tábua do ano 500 a.C. com um tratado entre Elis e Heraia onde se pondera a escrita e se adverte que quem danificar o escrito será punido com multa."

O século V a.C. foi decisivo na Grécia: uma revolução cultural começou quando a cultura escrita se impôs sobre a cultura oral. As leituras se faziam em geral em voz alta, uma lembrança indiscutível dos tempos orais, embora haja provas irrefutáveis de leitura silenciosa nessa mesma época. A paixão pelos livros provocou o aparecimento do primeiro comércio de livros. Sócrates zombava de seus juízes ao dizer-lhes que no mercado da agora se podia comprar os livros do ateu Anaxágoras por uma dracma. Existia certamente venda de livros no mercado. O comediógrafo Eupolis de Atenas (por volta de 446 a.C.-411 a.C.) mencionou-a:


[...] Percorri o mercado, o alho e a cebola

E o antro de incensos e perfumes

E onde estão as vendas de livros [...].
O erudito Pólux chamou de bibliotheekai essas vendas de livros. Os copistas gregos, quase sempre escravos, não tinham, como no Egito, prerrogativas. Eram, de qualquer maneira, trabalhadores indispensáveis: seu método de escrita, às vezes não muito fiel aos manuscritos, consistia em escrever com um instrumento de cana afiado na ponta, chamado cálamo, e uma tinta obtida da mistura de cola com fuligem. No início, escrevia-se o texto sem divisões, sem pontuação e sem minúsculas. Redigia-se em colunas. A coluna de um texto em prosa podia abarcar oito centímetros e, no gênero poético, a métrica estabelecia a largura do texto. Com sorte, o copista conseguia de uma a quatro dracmas para livros comuns e, quando era um trabalho excepcional, o pagamento podia salvar sua vida da pobreza. Um livro se considerava publicado se fosse lido em público por um criado, chamado leitor, ou pelo próprio autor. Uma vez terminada a leitura pública, os ouvintes podiam fazer perguntas.

Na Grécia foram editados livros com ilustrações. O primeiro de que temos notícia foi o de Anaxágoras: Anaxágoras foi o primeiro a publicar um livro com desenhos. Havia também edições de grande beleza. A Vida guerreira, à diferença dos três catálogos conservados dos títulos das obras de Aristóteles, incluiu uma edição luxuosa da Ilíada para Alexandre Magno, que poderia ter sido a mesma levada pelo conquistador em suas viagens, numa caixa cheia de enfeites procedente do botim do persa Dario. Plutarco disse que Aristóteles foi o autor dessa edição da Ilíada, que se perdeu ou foi enterrada com seu dono, o que vem a ser a mesma coisa, porque a tumba de Alexandre Magno nunca apareceu.


III
É difícil separar o perdido do destruído na história dos livros, porque em certas ocasiões as obras se perderam devido à sua destruição ou foram destruídas porque simplesmente desapareceram. Em todo o caso, os textos já não existem e, salvo o milagre de um achado numa tumba ou depósito, há poucas probabilidades de recuperar centenas de milhares de escritos desaparecidos na antigüidade.

Basta assinalar que, das 120 obras incluídas no catálogo do prestigioso Sófocles, hoje só existem sete em estado integral e centenas de fragmentos. Safo de Lesbos, a grande poetisa, deixou uma obra reunida em nove livros, mas hoje só temos duas odes quase completas e meros fragmentos. Os cinco livros de Corina de Tanagra, a segunda poetisa relevante da poesia grega, competidora de certames em que venceu Píndaro, hoje estão reduzidos a um grupo de fragmentos incoerentes. Das 82 tragédias de Eurípedes só temos 18, um drama de Sátiros e abundantes citações.

O horror é ainda maior. Todos os pré-socráticos e todos os sofistas estão em fragmentos. Sempre será surpreendente que não tenhamos conservado Sobre o não ser ou Sobre a natureza de Górgias de Leontini, onde provou que nada existe.

A perda de textos se estende a todos os períodos da literatura, ciência e filosofia da Grécia. Citado por Platão, admirado por Sócrates, Agaton de Atenas, poeta trágico, escreveu obras de uma perfeição quase compulsiva, que não existem mais, salvo em forma de débeis fragmentos. Os Partenion, coleção de poemas em seis livros, escritos por Alcmano de Sardes, perderam-se. Um encantador texto seu - número 40 da antologia de Page -, muitas vezes citado, exprime: "Conheço o canto de todos os pássaros.

Um caso particularmente delicado é o de Aristófanes de Atenas,'" o comediógrafo. De quarenta comédias autênticas apenas sobreviveram 11, mais uns mil fragmentos preservados graças a papiros descobertos e citações de lexicógrafos. Não é insólito? Perderam-se as 101 comédias de Difilo de Sínope, as cem comédias de Eubulo de Atenas e as 250 comédias de Alexis de Turi.

Todos os escritos dos cínicos, pirrônicos, céticos e estóicos se reduziram a uma miscelânea fragmentária. Tampouco teve sorte Zenão de Cício, que escreveu uma República que era mais lida do que a de Platão. Dos mais de quinhentos livros de Crisipo de Solos, só há fragmentos.

Como se não bastasse, desapareceram os trinta livros das Memórias do historiador Arato de Sicião, talvez o inventário de detalhes mais extravagantes sobre o mundo antigo. Nada lemos - a não ser uns minúsculos segmentos - dos 9.500 versos escritos por Aretino de Mileto. Pelo menos 13 livros de Píndaro se perderam.

Das quinhentas tragédias de Prátinas de Fliunte, só existem fragmentos. As 250 tragédias de Astidamas se perderam. Isso sem falar do prestigioso Aristarco de Samos, astrônomo e matemático que mediu a Terra e escreveu dezenas de tratados sobre diversos tópicos, hoje inexistentes. Pode parecer incrível, mas há mais de cem livros perdidos de Plutarco de Queronea. Segundo o Catálogo de Lamprias, de 227 obras em 278 rolos, só se conservam 83 obras em 87 rolos.

De Espeusipo de Atenas, que revelou os segredos de seu tio e mestre Platão, não sobrou um só livro completo. O reconhecido Duris de Samos, favorito do público culto da Grécia, reduziu-se a um monte de parágrafos e frases soltas. Os 47 livros das Memórias históricas de Estrabão de Amasia, autor da Geografia, perderam-se totalmente. É uma verdadeira lástima que se tenham perdido os escritos de Beroso de Belos. Hoje restam apenas epítomes e fragmentos de sua monumental História da Babilônia (escrita cerca de 280 a.C., em três livros divididos em três períodos).

Esta lista, como o leitor pode presumir, é extensa (compilei três tomos de duas mil páginas cada um), esmagadora, opressiva. O número de obras que perdemos em acidentes, desastres, queimas ou por indiferença é incalculável.



A destruição dos poemas de Empédocles
O primeiro testemunho conhecido da destruição de uma obra literária na Grécia antiga aparece, ironicamente, num fragmento conservado de um livro perdido de Aristóteles intitulado Sobre os poetas:
[...] Aristóteles [...] em Sobre os poetas diz que [Empédocles] foi homérico e hábil no uso das frases, metáforas e outras figuras do discurso poético. E que entre outros poemas escreveu Marcha de Xerxes e uma Introdução a Apolo, tudo queimado por uma irmã - ou pela filha, como diz Jerônimo -; a introdução foi queimada contra sua vontade, mas o que se referia à Pérsia voluntariamente, por ser obra incompleta. Também diz que escreveu tragédias e tratados de política [...]."
Não li qualquer comentário sobre essa estranha citação; o texto, no entanto, permite supor graves afirmações religiosas. O filósofo Empédocles (492 a.C.-432/431 a.C.), pouco modesto, acreditava-se um deus feito homem, usava vocábulos insólitos e não é despropositado suspeitar que sua Introdução a Apolo fosse vago, irreverente, direto e profético, capaz de atemorizar a própria irmã do autor.
Censura contra Protágoras
A eliminação dos poemas de Empédocles ocorreu no século VI a.C. e foi um episódio familiar, por assim dizer. Mas no século V a.C., Protágoras de Abdera (490 a.C- 420 a.C), sofista renomado, foi vítima de censura política e religiosa coletiva. Fez, ao que parece, uma leitura pública de seu tratado Sobre os Deuses e Pitodoro (ou seu discípulo Evatlo) o acusou de crueldade num julgamento público. Segundo Laércio e Hesiquio, o livro foi queimado e os exemplares confiscados de casa em casa. Timão de Fliunte, poeta cético, diz em seus Silos:
[...] e os escritos de Protágoras queriam reduzir a cinzas, porque dos deuses constatara não saber nem poder perceber quais foram nem se ainda existiam, mantendo extrema precaução de medida. Mas isso não o ajudou, e teve que refrear a caminhada, a fim de não ir ao Hades por beber a fria poção socrática [...].
Eusébio reforçou o argumento ao afirmar: "[...] Protágoras, cujos livros foram queimados pelos atenienses em virtude de um decreto [...]. Protágoras sofreu, como Sócrates, pelo seu relativismo epistemológico. Morreu, acredita-se, perseguido por uma maldição sobrenatural, pois seu navio naufragou durante viagem à Sicília. Tinha, nas mãos, o último exemplar completo de sua obra.
Platão também queimou livros
Em 388 a.C. ou 387 a.C, o filósofo Platão (429 a.C.-347 a.C.), cujo verdadeiro nome era Aristócles, escolheu um terreno sagrado ("temenos") para fundar um templo apara as musas ("Museion"), num bairro dos arredores de Atenas dedicado ao herói Academos, exatamente no ginásio. A Academia, nome adotado por sua nova escola de filosofia, teve, com certeza, um destino excepcional na Grécia: de todas as partes chegaram alunos atraídos, como diz Olimpiodoro, "por saber o que havia em suas almas".

Na entrada da Academia havia um altar a Eros, e em seguida um quarto para ler e escrever, com dois cenários socráticos pintados nas paredes laterais procedentes do Protágoras e do Fédon. Nessa peça ficava o assento do mestre, cadeiras pequenas para os discípulos, um quadro-negro, um mapa do céu, um modelo mecânico de todos os planetas, um relógio construído por Platão, um globo terrestre e mapas com representações dos principais geógrafos. Em certo ponto, construiu-se um aposento especial para descanso. Seguramente havia uma biblioteca com os escritos dos pitagóricos, os escritos egípcios e mesopotâmicos, os Mimos de Sofron, obras de Homero, peças de Epicarmo de Cós e diversos papiros com os textos de numerosos escritores consagrados ou desconhecidos.

Laércio, que conhecia bem a bibliografia de Platão, acusou-o de ser biblioclasta por tentar acabar com os tratados de Demócrito, autor a que se negou a citar. Ao que parece, havia mágicas coincidências doutrinárias entre os escritos de Platão e o Grande Diacosmos, tratado filosófico democrítico com grandes segredos para os iniciados em filosofia. Para confirmar essa tendência piromaníaca em relação a certos textos, Laércio contou também que Platão, na juventude, ao sair de uma função do Teatro de Dionisos, conheceu Sócrates e queimou todos seus poemas.

É possível que Platão queimasse obras? Pois bem, ele queimou, e há motivos suficientes para pensar que chegou ao extremo de negar todo discurso que não fosse sustentado pela verdade (a verdade de seu sistema, é claro). Impediu a entrada de poetas em seu Estado ideal, sua República, e os qualificou de mentirosos e loucos. Não considerava livros os maiores bens. Um de seus alunos, devoto até a imitação absoluta dos ensinamentos do mestre, perdeu suas anotações num passeio pelo mar. Ao regressar, disse, com o tom de alegria das desculpas, que entendera finalmente o motivo pelo qual Platão insistia em que todos escrevessem as sentenças na alma e não nos cadernos.

Acredito que esse incidente pode ser apenas uma metáfora esotérica. De fato, admite-se hoje a perda da parte mais valiosa do pensamento platônico por não se contar com livros suficientes sobre sua doutrina oral. Em várias passagens, Platão diminuiu a importância da escrita, e no Fedro (27A e-275 b) falou de um mito egípcio para explicar que a escrita provocaria na humanidade uma omissão da memória.

Na Segunda Carta se opôs à divulgação de suas doutrinas e se referiu a um terrível segredo contado a Dioniso: "[...] Jamais escrevi qualquer coisa sobre isto; não há nem haverá escritos de Platão'. O que agora se chama assim é de Sócrates - de seus tempos de beleza e juventude. Adeus, e obedeça; uma vez lida esta carta, queime-a [...].

É importante ressaltar a expressão final: "queime-a". Para Giovanni Reale, as conseqüências dessa visão revelam um sistema hierárquico do conhecimento esotérico. O grupo de estudiosos de Tubinger analisou, com o propósito de recuperar uma nova faceta de Platão, textos como a Sétima Carta (o excursus 342 D) e outros, a exemplo de um em que Aristoxeno fala de desconcertante lição platônica particular intitulada Sobre o bem, perdida para sempre, ainda que seja possível que esteja diluída em certos diálogos existentes.

A destruição do templo de Artemisa
O mundo antigo foi um mundo de prodígios e maravilhas, mas a tradição arquitetônica helenística consagrou apenas sete monumentos. Um deles foi o templo de Artemisa na cidade de Éfeso, conhecido universalmente como templo de Diana, cuja construção começou com Creso, rei da Lídia, por volta de 550 a.C., e foi concluída, segundo Plínio, anos depois. O interessante de sua história é que cerca de 356 a.C., ano do nascimento de Alexandre Magno, um desconhecido chamado Eróstrato, segundo os cronistas, incendiou o templo para entrar na história e seu nome foi proibido.

Até aqui tudo foi divulgado, mas esse incêndio também queimou o único manuscrito original da obra completa do filósofo Heráclito de Éfeso, que acreditava protegê-lo depositando-o no templo onde costumava passar o tempo brincando com as crianças. Laércio disse: "[...] Como obra considerada sua está o denso Sobre a natureza, dividido em três discursos, um sobre o universo, outro sobre política e [outro sobre] teologia. Ele depositou este livro no templo de Artemisa [...]."

Houve dois bons motivos para que ele o depositasse no templo:

1. O estilo do livro podia ter origem na imitação deliberada das profecias délficas e esse detalhe, mais do que provável considerando que Heráclito era sacerdote em Éfeso, supunha sua inclusão num lugar adequado ao objetivo da revelação do logos.

2. Artemisa nasceu em Delos, era irmã de Apoio, filha de Leto e Zeus, conservou-se sempre virgem, e não é ilógico raciocinar que um pensador tão exigente como Heráclito a considerasse símbolo de seu próprio pensamento. Seguindo um costume oriental, nascido na Suméria e continuado no Egito, depositou seu livro num templo porque sentia que assim como o templo revela a verdade da deusa, seu livro era um mapa para alcançar uma verdade alheia às multidões. O fogo "sempre vivo" de sua doutrina é o fogo do interior do templo. Ocorre-me, por exemplo, que das dezenas de formas idealizadas para ler e entender seus fragmentos, uma delas, poucas vezes utilizada, é a de aceitar a existência de palavras e expressões absolutamente alusivas ao culto de Artemisa. Num fragmento ele se refere ao arco, objeto com que a deusa ia armada: "O arco tem por nome vida, e por obra morte.

A tendência a aceitar os fatos históricos sem discuti-los nos privou de uma teoria que explique como Eróstrato incendiou o maior templo da Antigüidade (80 x 130m), construído com materiais não-combustíveis, como o mármore. Na minha opinião, Eróstrato começou seu incêndio no interior do templo, na área dos registros escritos, onde estava o livro de Heráclito e onde repousavam diferentes objetos de madeira. Só assim não é absurdo pensar na derrubada do templo.

Um dos fragmentos de Heráclito anunciou: "Quando chegar, o fogo julgará todas as coisas e condenará todos." É irônico que seu manuscrito tenha sido destruído por uma irreverente devoção a esse aforismo apocalíptico.
Um antigo médico grego
Todos os médicos do mundo, ao completar os estudos, recitam, impacientes e eufóricos, um juramento ético, o denominado Juramento de Hipócrates. Atribui-se esse texto, ainda que haja indícios de que seja espúrio, ao pai da medicina grega, Hipócrates de Cós (por volta de 460 a.C.-377 a.C.).

Platão considerava Hipócrates um seguidor de Asclepíades Entre seus êxitos se destaca a organização sistemática dos sintomas das doenças e sua cura. Era empírico, mas também desconfiado, o que o levava a recomendar seus pacientes aos deuses. O corpo de sua obra, misturada com a dos discípulos, está reunido numa coleção de escritos que no início ocupava setenta volumes, contando hoje só sessenta, pois pelo menos dez desapareceram. O curioso é que todos os tratados estão redigidos em dialeto jônico, o que fez desse dialeto a linguagem da medicina.

Em determinado momento de sua vida, Hipócrates visitou o templo da Saúde de Cnido. Sentia-se desanimado porque havia descoberto que tudo era vão e que a morte e a vida representavam apenas uma metáfora esquecida da divindade. Botou fogo na biblioteca médica do recinto e fugiu. W. H. S. Jones, em sua tradução do Corpus Hippocraticum da coleção Loeb, acolhe essa lenda; a acusação procura apresentar Hipócrates como se se tratasse de um obcecado incapaz de aceitar a possibilidade de deixar em mãos profanas os grandes textos sobre os mistérios da vida e da morte.

Outra versão, menos complacente, é demolidora: Hipócrates destruiu os livros do templo para evitar possíveis acusações de plágio.



Dois biblioclastas
O filósofo Metrocles de Maronea queimou seus próprios escritos por considerá-los meras fantasias. Segundo outra versão, o que incinerou foram as lições de seu mestre Teofrasto. Verdade ou não, lembrou-se de umas palavras de Platão e, enquanto acendia os papiros, disse: "Hefesto, vem logo, Tetis necessita de ti."

O filósofo e poeta Bion de Borístenes (cerca de 335 a.C.-246 a.C.) foi, segundo fontes autorizadas, um dos pensadores mais escandalosos de seu tempo, qualidade com que competia acirradamente com outros hoje mais famosos do que ele. Pomposo, versátil, inepto em geral, forjou um estilo de vida e de escrita com base na variedade e no fausto.

Hoje não há um só escrito seu completo, mas há fragmentos e se conhecem os títulos de algumas de suas obras. Escreveu Comentários, Diatribes cínicas, Paródias e Sátiras. Iniciou todo um gênero em sua fase de adesão ao cinismo e estimulou o Spoudogéloion, em que as ambigüidades, as alegorias, as anedotas e as paronomásias entretinham os leitores que buscavam moralidades mais exaustivas.

Em algum momento da vida sentiu necessidade de queimar livros e o confessou abertamente numa carta irônica, conservada por Diógenes Laércio, que pode servir como autobiografia de sua juventude. Escreveu para o general Antígono: "E eu, que não era um jovem sem graça, fui vendido para certo orador, que, ao morrer, me legou tudo o que era seu. E queimei seus livros e recolhi tudo, vim para Atenas e me dediquei a filosofar."

Bion considerava que queimar os livros do orador era uma maneira de dizer que já os absorvera e que não necessitava deles em sua viagem a Atenas, onde se dedicaria à filosofia. De fato, foi um verdadeiro sábio. Uma de suas frases favoritas era: "O pior mal é não sofrer nenhum mal na vida."
CAPÍTULO 4

Apogeu e fim da biblioteca de Alexandria
I
Em 285 a.C., no Baixo Egito, um grego de pele bronzeada morreu depois de ser mordido por uma víbora. Chamava-se Demétrio de Falero. As autoridades locais encontraram o corpo no chão, mas nenhum médico se arriscou a afirmar que se tratava de suicídio por aplicação da serpente no pulso, de acidente ou de assassinato. Optou-se pelo silêncio: pelo menos duas das três hipóteses eram imagináveis porque o personagem caíra em desgraça ante o novo rei, Ptolomeu II, o Filadelfo, e fora expulso de Alexandria. Ao morrer, aparentava mais idade do que tinha, talvez 60 ou 70 anos. Foi enterrado sem honrarias no distrito de Busiris, perto da região de Dióspolis. Sua morte foi o comentário obrigatório durante várias semanas. Alguns escritores e filósofos se lamentaram muito, pois era um personagem excepcional. Escreveu dezenas de livros; foi aluno de grandes pensadores e líder político influente; mas, acima de tudo, contribuiu para fundar a mais famosa biblioteca do mundo antigo, a biblioteca de Alexandria. A partir de sua morte, o destino do centro intelectual ficou submetido ao vaivém da política real e das guerras de conquista. Daí a necessidade de iniciar este capítulo com um resumo da vida de Demétrio e da biblioteca, pois compreender suas ações é a melhor maneira de entender aquilo que se refere à origem e ao fim da célebre biblioteca.

Sabemos pouca coisa de Demétrio de Falero, mas podemos estabelecer alguns aspectos com certa precisão. Nasceu em 350 a.C. ou 360 a.C. no porto de Falero, filho de Fanóstrato, um escravo da casa do general Conon. Foi para Atenas e estudou no Liceu com o próprio Aristóteles de Estagira. Posteriormente continuou sua educação com Teofrasto. Tinha boa aparência e, como todos os favorecidos, era auto-suficiente, intuitivo e paranóico. Seus bons discursos e o apoio dos filósofos peripatéticos o levaram a ser designado por Cassandro líder da cidade, em 317 a.C., e nesse cargo permaneceu até 307 a.C., isto é, por dez anos.

Durante esse tempo realizou um recenseamento, redigiu leis, estabeleceu medidas fiscais e constitucionais oportunas que tiveram boa acolhida. Tornou-se popular, amigo de filósofos, poetas e dramaturgos. A fama era tanta que foram erigidas trezentas estátuas em sua homenagem. Seu governo acabou em 307 a.C., quando Atenas caiu diante de outro Demétrio, apelidado de Poliorcetes (sitiador de cidades). As estátuas foram derrubadas, converteram-se em mictórios e seu nome foi apagado de todos os registros.

Ao obter um salvo-conduto, partiu para Tebas, onde viveu de 307 a.C. até 297 a.C. Passava os dias lendo e escrevendo. Relia os poemas de Homero todos os dias. Quando se convenceu da impossibilidade de regressar a Atenas, recolheu as roupas e os manuscritos pessoais e se estabeleceu em Alexandria. Não esperava, naturalmente, encontrar uma cidade como aquela. Alexandria, chamada assim em homenagem ao conquistador Alexandre Magno, fora criada em 331 a.C. no oeste do delta do Nilo, junto ao lago Mareótis, e era obra do arquiteto Denócares de Rodes, que decidiu dar-lhe a forma de clâmide (manto dos antigos gregos preso por um broche ao pescoço ou ao ombro direito) com uma espécie de rebordo. As ruas e a população se dividiam em cinco zonas, de acordo com as cinco primeiras letras do alfabeto grego: alfa, beta, gama, delta, epsilon. Alguns viam nesses cinco signos um acrônimo em grego: "Alexandre Rei Nascido de Deus a fundou."

Demétrio, deslumbrado, introduziu-se no palácio real, no Bruquion. Era o ano 306 a.C. e Ptolomeu I Sóter acabara de assumir o reinado no território do Egito. Ptolomeu I nascera em 369/8 a.C. Filho de Ptolomeu Lago e de Arsinoe, foi um dos generais de Alexandre Magno; participou da marcha à índia e sua lealdade lhe valeu o apreço do conquistador. Recebeu o título de Sóter, ou Salvador, em Rodes, quando ajudou os habitantes da ilha durante as lutas de 304 a.C. Morreu com a avançada idade de 87 anos.

Como disse Plutarco, Demétrio aconselhou o rei a adquirir e ler livros sobre a monarquia, porque o que os amigos não se atrevem a dizer aos reis está escrito nos livros. Segundo Eliano, também elaborou leis e regulamentos. Demétrio, além disso, foi um grande escritor e naturalmente sua inclinação na corte de Ptolomeu se desviou para tarefas intelectuais. Era versátil e, como às vezes ocorre quando se perde o poder, eficaz. Dedicou a Ptolomeu um livro sobre a arte da política e o intitulou Ptolomeu.

Em determinado momento convenceu o rei a construir um prédio, dedicado às musas, com o nome de museu. Fez-se a obra, que se tornou parte do palácio real. A idéia do museu era extraordinária. De um lado, contribuía para substituir na região a cultura egípcia pela cultura grega e, de outro, serviu ao rei em seu objetivo de aumentar o prestígio de suas ações. Logo o museu contou com uma incrível biblioteca.

Inicialmente, Demétrio, formado na escola peripatética, seguiu em tudo um plano muito mais antigo para constituir a biblioteca. Ptolomeu I mandou chamar Teofrasto a Alexandria, mas ele não pôde atender ao convite e enviou em seu lugar Estratão de Lâmpsaco, que foi o tutor do futuro Ptolomeu II e recebeu por seu trabalho uns oitenta talentos. Demétrio, nesse contexto, pôde ser o liame do projeto de criar uma ramificação do Liceu em Alexandria.

Demétrio quis aumentar o número de livros da biblioteca, segundo a Carta de Aristeas a Filócrates, um registro do século II a.C.: "[...] Demétrio de Falero, estando a cargo da biblioteca do rei, recebeu grandes somas de dinheiro para adquirir, até onde fosse possível, todos os livros do mundo [...]."

O anseio de chegar a meio milhão de livros implicava uma mudança nas estratégias de cópia. A mesma Carta conta como Demétrio, ao saber dos textos judaicos do Antigo Testamento, quis ordenar sua tradução para o grego. Disse ao rei que eram necessários para incrementar a coleção. Ptolomeu I mantinha excelentes relações com a comunidade judaica, que habitava um bairro a leste de Alexandria. Não lhe pareceu, portanto, absurda a proposta de Demétrio e enviou uma carta ao sumo sacerdote Eleazar, residente em Jerusalém, pedindo-lhe um grupo de tradutores. Enviou também uma delegação. Pouco depois, 72 judeus chegaram a Alexandria e foram alojados na ilha de Faros. Num banquete, conheceram o rei Ptolomeu I e conversaram com ele sobre tópicos religiosos e políticos. Durante 72 dias, os eruditos trabalharam sob a direção de Demétrio até completar o trabalho. Todo o Antigo Testamento, desde o Gênesis até o livro de Malaquias, foi traduzido e copiado em papiros. Ao concluir o trabalho, os tradutores regressaram a Jerusalém cheios de presentes.



II
A única descrição preservada sobre o museu indica que era parte do palácio real, e contava com um átrio, um pórtico com bancos e uma grande casa onde se situava o refeitório. Constava de diversos corredores e pátios (no último estavam os gabinetes particulares e as estantes), com pinturas coloridas nas paredes mostrando alegorias e símbolos. Tinha, contíguos, um parque zoológico e um estranho jardim botânico. O valor do local não impediu que a má língua de Timão de Fliunte o considerasse a "jaula das musas".

A biblioteca, por casualidade, foi no início uma sala de consulta; em poucos anos mudou, graças às ampliações. Anos depois seria construída a biblioteca do Serapeum, talvez por problemas de espaço, a certa distância do museu. Convém lembrar que a biblioteca de Alexandria era dividida em duas partes. A primeira ficava no museu e a segunda, no templo de Serapis ou Serapeum. Ptolomeu I, e quanto a isso não há quase dúvida, encarregou-se, assessorado por Demétrio de Falero, de nutrir a doação de livros para o museu, embora Ptolomeu II tenha consolidado e prestigiado o centro. Quanto ao Serapeum, as descobertas arqueológicas de 1945, descritas por A. Rowe, provam que sua fundação se deveu a Ptolomeu III.

O Serapeum, segundo os comentaristas, foi construído para honrar Serapis. Em seu interior, o templo contava com uma peça para os sacerdotes e outra para a biblioteca. Uma lenda se refere à realização de banquetes sagrados nesse lugar; outra alude às pessoas que pernoitavam ali em busca de uma revelação.
III
Segundo Galeno, os Ptolomeus não pouparam esforços para elevar a reputação de suas bibliotecas. Uma prática habitual consistia em pagar direitos para obter originais e poder copiá-los. Nem sempre os devolviam. Ptolomeu I solicitou aos atenienses os papiros com as cópias oficiais das obras de Esquilo, Sófocles e Eurípedes em troca de dinheiro. Depois de transcritos, acreditava-se, seriam devolvidos, mas só as cópias voltaram para Atenas. Setenta e nove peças oficiais de Esquilo, 120 de Sófocles e 88 de Eurípedes se armazenaram assim nas estantes. Por lei, quem visitasse Alexandria devia doar uma obra.

A cópia e classificação dos textos em rolos de papiro ocuparam gerações inteiras formadas sob as normas metódicas da escola peripatética. Os bibliotecários, encerrados em seus gabinetes, atendiam à crescente demanda de leitores interessados em edições cada vez mais elegantes e comentadas. Em cada trabalho crítico os bibliotecários colocavam, nem sempre seguindo com bom critério, sinais destinados a alertar sobre características textuais: a atétesis (para indicar um verso faltante), a atétesis diplê (para indicar um verso maravilhoso e digno de consideração), o asterisco (para indicar um verso repetido de maneira incorreta), a estigmê (para indicar versos duvidosos), o obelos (traço horizontal para os versos espúrios), a antissigma (para indicar uma mudança na ordem dos versos), etc.


IV
Só se podia chegar a ser diretor da biblioteca por designação real. O diretor devia ser um sacerdote, e era fortemente vigiado devido aos receios e doenças da população autóctone. Vivia no palácio do rei e recebia toda espécie de incentivos econômicos para evitar possível suborno ou traição. Não pagava impostos. Exercia, sem poder se eximir, a tutela do filho do rei. É importante não esquecer esses fatos porque quase nunca se insiste em que os bibliotecários constituíam um tíasos, ou comunidade cultual eclesiástica. Nesse sentido, o museu conservou uma tradição oriental de colocar os livros em templos, o que parece lógico, dada a situação geográfica da biblioteca.

Uma das dúvidas mais razoáveis sobre os diretores da biblioteca tem a ver com a já mencionada dualidade desse lugar. Acaso o diretor do museu era também o diretor do Serapeum ou se tratava de dois diretores diferentes? Segundo alguns, o diretor do museu delegava a um erudito as funções do Serapeum. Mas talvez essa não seja a verdade. Agustin Millares Cario, por exemplo, achava que o diretor era o mesmo: "[...] Ambas as instituições, para efeitos administrativos, formavam uma única [...].



V
O primeiro diretor da biblioteca não foi Demétrio de Falero, e sim Zenódoto de Éfeso (325 a.C.-260 a.C.). Seu trabalho mais lembrado é a edição de clássicos como Homero. Rigoroso, marcava com sinais os versos duvidosos e orientava o leitor explicando o sentido das frases difíceis. Alguns autores consideram Zenódoto o responsável pela divisão dos poemas homéricos em 24 livros. Um de seus principais escritos foi uma Vida de Homero, em que discutia todas as lendas em torno do grande poeta épico.

Apolônio de Rodes (295-230 a.C.), poeta, sucedeu Zenódoto na biblioteca e, como bom discípulo, atacou-o violentamente em Contra Zenódoto, onde apontou os erros conceituais e gramaticais da edição de Homero. Inexplicavelmente, Apolônio foi destituído de seu cargo, apesar de ter sido tutor de Ptolomeu III Evergetes, que não expressou o menor agradecimento por ele e nomeou Eratóstenes como diretor.

Eratóstenes (276-195 a.C.) foi designado diretor depois da saída de Apolônio e modificou a imagem dos bibliotecários ao combinar sua atividade crítica com a científica. Era originário de Cirene e em sua juventude viajou a Atenas, em busca de conhecimento. Converteu-se ali em discípulo de Zenão de Cício e escutou os filósofos Ariston de Quios e Arcesilau de Pitana. Ávido de saber, aprendeu matemática na Academia, a escola de filosofia de Platão.

Ao assumir a direção da biblioteca, Eratóstenes empreendeu uma gestão que combinava a pesquisa científica com a literária. Surpreendeu a todos ao calcular a circunferência da Terra em 252 mil estádios (cerca de 39.690km). Hoje em dia, as medições, aperfeiçoadas com satélites e computadores, calculam a longitude da circunferência terrestre em 40.067,96km. Consciente de não ser um gramático como seus antecessores, Eratóstenes se chamou a si mesmo filólogo. Morreu por se negar a comer.

Calímaco de Cirene (310 a.C.-240 a.C.), para uns diretor e para outros simplesmente colaborador da biblioteca, enfrentou Apolônio e o ridicularizou em dezenas de engenhosos epigramas. Também atacou Platão e o considerou um péssimo crítico literário, inimigo da verdadeira poesia. O Léxico de Suda atribui a Calímaco a paternidade de oitocentos rolos de papiro,122 dos quais apenas restam uma coleção de seis hinos, 63 epigramas, algumas elegias e centenas de fragmentos compilados.

Calímaco demonstrou ser um escritor competente, mas foi como bibliotecário que contribuiu com um subsídio inestimável para a história dos estudos bibliográficos. Durante meses fez um catálogo biobibliográfico dos clássicos mais relevantes da biblioteca de Alexandria. O título desse trabalho, que ocupou 120 livros, era Catálogo de todos os que foram eminentes na literatura em todos os gêneros. O método consistiu em dividir os autores em gêneros: retóricos, legisladores, miscelâneos, filósofos, historiadores, médicos, poetas épicos, poetas trágicos e poetas cômicos. Segundo Ateneu, Calímaco tinha o hábito de concluir suas resenhas com o número de linhas das obras completas dos autores. Também deixou outro catálogo, intitulado Relação de escritores dramáticos organizados cronologicamente desde os primeiros tempos.

Calímaco teve seguidores. O mais conhecido talvez seja Hermipo de Esmirna (século III a.C.), historiador e filósofo. Além dele, Calímaco encontrou alunos diligentes em Istro de Cirene (século III a.C.), compilador de materiais históricos, e Filostéfano, geógrafo.

Aristófanes de Bizâncio (257 a.C.-180 a.C.) obteve o cargo de diretor da biblioteca em 195 a.C. Gramático respeitado, constituiu a escola analógica e editou Homero; conquistou, além disso, o direito de estabelecer os nomes dos clássicos obrigatórios em toda a Grécia. Seus léxicos de arcaísmos e sua revisão das Relações de Calímaco lhe garantiram adeptos incondicionais.

Aristarco de Samotrácia (220 a.C.-143 a.C.) ascendeu à direção da biblioteca apoiado pelo antecessor, para quem a continuação dos estudos gramaticais era questão de honra. Em oitocentos livros127 comentou os principais poetas e delimitou importantes problemas próprios da obra de Homero. Dele, como do resto dos mencionados (exceto Apolônio de Rodes), não sobreviveu sequer um tratado na íntegra.

Alguns ajudantes da biblioteca foram lembrados por terem sido, antes de tudo, notáveis escritores. Licrofon de Caleis (257 a.C.), assassinado com flechas, sobressaiu-se por sua dupla condição de criador e crítico. Afortunado, é um dos poucos autores de quem lemos um extenso poema na íntegra (Alexandra, em 1.474 versos), embora suas versões críticas não existam mais.

Outro notável autor da escola de Aristarco foi Dídimo de Alexandria (65 a.C-10 d.C), gramático apelidado de Calcentéreo por uns e Bibliólata por outros (devido à sua facilidade de esquecer o escrito ao terminar um livro), autor de uns 3.500 rolos completamente perdidos. Com base nos catálogos, escreveu comentários sobre cada um dos poetas e estudou exaustivamente a estrutura da prosa dos oradores.

O assassinato de Ptolomeu VII Neofilopátor, por volta de 144 a.C., desencadeou uma crise. Aristarco e todo seu grupo de seguidores, sem hesitar, fugiram de Alexandria. Ptolomeu VIII, a quem os contemporâneos odiavam, nomeou diretor da biblioteca um militar sobre quem desconhecemos absolutamente tudo. Desde esse momento nada mais se soube dos bibliotecários.


VI
O brilhante trabalho da biblioteca foi obscurecido por uma sucessão interminável de ataques. Júlio César, na guerra pelo trono do Egito, inclinou-se a favor de Cleópatra. Em conseqüência dessa escolha, sobreveio uma guerra civil em várias regiões, incluindo Alexandria. A 9 de novembro de 48 a.C., as tropas egípcias, comandadas por Áquila, cercaram César no palácio real da cidade e tentaram capturar os navios romanos no porto. Em meio aos combates, César mandou lançar archotes incendiários contra a frota egípcia, reduzindo-a a cinzas em poucas horas. Dion Cássio presumiu que o incêndio atingiu alguns depósitos no porto, onde se queimaram muitos livros. Sêneca, de fato, confirmou a perda de quarenta mil rolos nesse acontecimento, e Orósio reiterou que "quando as chamas invadiram parte da cidade consumiram quarenta mil livros depositados por casualidade nos prédios"

Esses quarenta mil livros pertenciam à biblioteca de Alexandria? Os eruditos ainda discutem os pormenores. O historiador Edward Alexander Parsons diz que não. Luciano Canfora também não acreditou e assegurou que se tratava de livros de um depósito para posterior conservação. De minha parte, arrisco-me a conjeturar que os quarenta mil livros estavam nesse depósito depois de chegar a Alexandria em barcos diferentes, isto é, eram aquisições recentes para a biblioteca do museu. Desgraçadamente, os conflitos impediram a chegada dos textos ao destino final.

Quase nunca se comenta, mas Cláudio, governante de Roma de 41 a 54, depois de escrever em grego uma obra sobre os etruscos e outra sobre os cartagineses, quis comemorar a escrita desses livros e criou um anexo do museu. De qualquer maneira, naquele momento Marco Antônio demonstrou seu amor por Cleópatra doando-lhe os livros da biblioteca de Pérgamo.

VII
Há uma polêmica, ainda vigente, sobre a destruição de livros por parte dos cristãos. Alguns historiadores acusaram o patriarca Teófilo de atacar o Serapeum em 389 e a biblioteca em 391, com uma multidão enfurecida. O historiador Edward Gibbon observou que "Teófilo executou a demolição do Templo de Serapis sem maior dificuldade que o peso e a solidez dos materiais [...]. A valiosa biblioteca de Alexandria foi saqueada ou destruída; e cerca de vinte anos depois a aparência daquelas estantes vazias ainda despertava a fúria e a indignação de qualquer espectador cuja mente não estivesse absolutamente obscurecida por preconceito religioso".

Ao concluir a conquista do templo, os cristãos encheram o ambiente de cruzes e demoliram as paredes. Teófilo era um homem ressentido, mesquinho e oportunista. Depois de ser leitor fanático dos escritos de Orígenes de Alexandria (185 d.C.-232 d.C.), passou a ser inimigo de tudo o que parecesse inspirado por sua obra e condenou-lhe os escritos no Concilio de Alexandria do ano 400.


VIII
O Serapeum foi destruído por ordem de Teófilo, mas não há consenso entre os historiadores sobre quem destruiu os livros do museu. Foram os romanos? Os cristãos? Ou talvez os árabes? Antes de responder devemos rever as provas contra os árabes, antes de continuar repetindo uma calúnia ou uma meia verdade.

Segundo Eutíquio, o comandante Amrou ibn al-Ass, ao consolidar a conquista do Egito, enviou uma carta ao segundo sucessor de Maomé, Omar I (586-644), apresentando o inventário de Alexandria: quatro mil palácios, quatro mil banhos públicos, quatrocentos teatros, quarenta mil judeus e 12 mil lojas. A carta terminava assim: "Os muçulmanos parecem aguardar impacientes o proveito dos frutos de sua vitória.

A carta omitiu a existência da biblioteca do museu, que era, sem dúvida, um monumento de Alexandria. No entanto, o cronista e pensador Ibn al-Kifti, admirador de Aristóteles, lembrou em suas páginas como o general

Amrou se encontrou com o comentarista João Filópono, que lhe pediu para tomar uma decisão sobre o futuro dos livros da biblioteca do museu e lhe advertiu que as atividades estavam momentaneamente suspensas. Amrou não se atreveu a responder e preferiu enviar outra carta com o propósito de saber o que o monarca pensava sobre esses livros.

Amrou recebeu a resposta e leu para Filópono, não sem pesar, a decisão de Omar: "Com relação aos livros que você menciona, aqui está minha resposta. Se os livros contêm a mesma doutrina do Corão, não servem para nada, porque são repetitivos; se os livros não estão de acordo com a doutrina do Corão, não há razão para conservá-los."

Amrou lamentou a decisão, mas não hesitou em cumprir a ordem, segundo o cronista árabe Abd al-Latif: "A biblioteca de Alexandria foi incendiada e totalmente destruída.""8 Os papiros, segundo Kifti, serviram para acender o fogo dos banhos públicos. Em lugar de qualquer outro material, os textos de Hesíodo, Platão, Górgias, Arquíloco, Maneton, Safo, Alceu, Alcmano e milhares de outros serviram de combustível durante seis longos e áridos meses.

Até aqui tudo parece bem, mas há eruditos que consideram esses dados apócrifos:

1. Não há testemunho contemporâneo dos fatos. Abd al-Latif e Ibn al-Kifti viveram nos séculos XII e XIII, isto é, pelo menos seis e sete séculos depois do incidente.

2. A biblioteca do museu continha livros de Aristóteles, o mais conhecido dos filósofos no mundo árabe. Basta recordar que o Aristóteles da Idade Média ocidental veio, em sua maior parte, das traduções árabes. Foram destruídos todos os seus livros?

3. É bem provável que os cristãos destruíssem os livros considerados heréticos da biblioteca do museu antes do século VI, quando os árabes conquistaram o Egito. Se os monges de Cirilo assassinaram sem escrúpulo a filha do bibliotecário Teão, chamada Hipátia, se destruíram o Serapeum, obviamente nada os impediria de reduzir a escombros a biblioteca, o que daria sentido ao fato de não ter sido mencionada no inventário destinado a Omar I.

4. João Filópono não pôde conversar com os enviados de Omar I porque viveu no século VI e não no VII.

APOGEU E FIM DA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA
E aqui tudo se complica ainda mais, pois ninguém soube explicar por que as fontes são árabes e não gregas, cristãs ou romanas. Abd al-Latif e Ibn al-Kifti, os dois historiadores, eram árabes doutos e conhecedores do pensamento aristotélico. Segundo alguns especialistas no tema, esses historiadores acusaram Omar I para deslegitimar assim sua corrente dinástica e apresentar ao mundo árabe Saladino (1137/38-1193), o herói das cruzadas, como um salvador, um sultão contrário a Omar I.

Abd al-Latif e Ibn al-Kifti na verdade conheceram e admiraram Saladino. No caso de Ibn al-Kifti (morto em 1248), formado no Cairo, há um aspecto controverso: seu livro intitulado Tarikh al-Hukama {Crônica de homens sábios) se conserva apenas num resumo feito por al-Zawzani em 1249, como assinalou A. Dietrich. Assim como se perderam 26 livros seus sobre medicina e filosofia, podem ter-se perdido informações determinantes no resumo hoje preservado.

De qualquer forma, a hipótese da destruição da biblioteca de Alexandria por parte dos árabes chegou ao Ocidente e começou a se fortalecer no século XVII. O orientalista inglês Edward Pococke (1604-1691) divulgou essa idéia em sua tradução de 1649 do livro Specimen historiae arabum de Bar Hebraeus. Em 1656, contribuiu para reforçar essa possibilidade quando apareceu sua edição dos Anais, de Eutíquio, em árabe e latim. Seu filho Edward (1648-1727) completou o quebra-cabeça do incêndio da biblioteca quando publicou a descrição do Egito de Abd al-Latif.

Edward Gibbon, na História da decadência e queda do Império Romano (1776-1788), contestou os historiadores árabes, por sua distância cronológica dos fatos e porque no mundo muçulmano a prática habitual era conservar os livros e não destruí-los.

A polêmica se manteve desde o século XVIII. No século XIX, o doutor Le Fort se atreveu a afirmar que foram os cristãos e não os árabes os causadores da destruição da biblioteca de Alexandria, diante de um auditório em Paris. O bispo de Orleans, monsenhor Dupanloup, desmentiu e acusou Le Fort de distorcer os dados. Um professor chamado Chastel publicou um artigo hesitante e apoiou a idéia de Le Fort. Na Espanha, a discussão interessou o padre Tomás Câmara, que revisou e refutou esse texto, sem provas, numa célebre e facilmente esquecível Contestação à história do conflito entre a religião e a ciência de João Guilherme Draper (Valladolid, 1880).

IX
Atualmente, a tese dos árabes perdeu força e deu origem a novas hipóteses. Limito-me a repassar três delas:

1. Os romanos. Durante uma rebelião em Alexandria ocorrida em 215, segundo disse Dion Cássio, as tropas romanas de Caracala saquearam o museu. Em 272, quando a rainha Zenóbia de Palmira atacou Alexandria, as perseguições contra bibliotecários e livros foram impiedosas. O historiador Ammiano referiu-se, ao descrever a época, ao "agora perdido lugar chamado Bruquion, duradouro domicílio de homens de prestígio".

Em Bruquion estavam os palácios reais e o museu. Em 273, Aureliano devolveu a cidade a Roma, mas seus soldados não respeitaram a biblioteca. Depois de Zenóbia, o imperador Diocleciano promoveu anos mais tarde o desaparecimento de todos os escritos de magia e alquimia até 297. Muito supersticioso, acreditava que os alexandrinos podiam aprender a converter metais em ouro com o objetivo de comprar armas. Diocleciano também perseguiu centenas de cristãos, como disse Anastácio, o Bibliotecário, e destruiu os livros sagrados com fogo. Diocleciano mandava destruir os livros no mercado. Um registro antigo relatou que a Acta Martyrum era bastante cara porque muitos exemplares desapareceram.

Chama a atenção a abundância de registros de censura e perseguição contra livros cristãos na África. Os textos eram confiscados. Segundo o testemunho de Zenófilo, em Cirta, cidade da Numídia, por volta do ano 395, os textos cristãos eram recolhidos para serem destruídos. Em Abitínia, o bispo Fundano entregou os livros sagrados ao magistrado, que ordenou sua queima, mas quando os soldados ergueram a fogueira pública choveu e as obras foram salvas.

2. Um terremoto. Pelo menos 23 terremotos assolaram Alexandria entre 320 e 1303. No verão de 365, um terremoto devastador acabou com muitos prédios. De fato, a equipe de Franck Goddio, do Instituto Europeu de Arqueologia Submarina, encontrou no fundo das águas do porto centenas de objetos e pedaços de colunas que demonstram que parte da cidade de Alexandria foi submersa.

3. A negligência. Os diversos embates políticos e militares resultaram na falta de orçamento e interesse pelas atividades da biblioteca. Os bibliotecários saíram em busca de cidades mais tranqüilas, como Roma, para nomear uma delas, e o trabalho de cópia foi progressivamente abandonado. Essa hipótese não é em absoluto descartável.




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