História da Rádio Nacional do Rio de Janeiro



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História da Rádio Nacional do Rio de Janeiro
Estréia
Bom! Bom! Bom! Um gongo toca três vezes. Ao som da música “Luar do Sertão”, às 21h do dia 12 de setembro de 1936, ouvia-se “Alô, alô Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro”. Surge a PRE-8, a partir da compra da Rádio Philips que teria se dado por 50 contos de Réis.

O programa inaugural teve a participação da Orquestra do Teatro Municipal, sob a regência do maestro Henrique Spedini. Também estavam presentes Bidu Sayão, Maria Giuseppe Danise, Bruno Landi e Aurélio Marcatu, além dos pianistas Mario Azevedo e Dyla Josetti.

A segunda parte do programa foi realizada pela Orquestra de Concertos da Radio Nacional, sob a regência do maestro Romeu Ghipsman e com Radamés Gnattali ao piano. A emissora se torna líder de audiência desde a sua fundação. Mantém-se no topo até o aparecimento da TV, que dita os novos rumos da comunicação.
Política e entretenimento
Revolução nas comunicações. Revolução de 30. Era inevitável que essa coincidência transformasse o rádio num instrumento de primeira grandeza na luta política, a ponto de muitos, à época, considerarem-no tão importante quanto o fuzil para a construção de um Brasil moderno. Basta ouvir a marchinha Gê-Gê: “Só mesmo com revolução/ Graças ao rádio e ao parabellum/ Nós vamos ter transformação/ Neste Brasil verde-amarelo”.

Os programas esportivos, de humor, radionovelas e noticiários são transmitidos dos vários estúdios nos três últimos andares do edifício “A Noite”, número 7 da Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro. E viraram modelo para todas as rádios do país. A música “Luar do Sertão”, de João Pernambuco e Catulo da Paixão, baseada em uma cantiga folclórica, é tocada em vibrafone por Luciano Perrone e, em seguida, um locutor anuncia o prefixo da emissora: PRE-8.


Anos 30
O final da década de 30 marca a consolidação da emissora no imaginário do País. Ainda em 36, época da estréia, vai ao ar as primeiras cenas de rádio-teatro intercaladas com números musicais. Em 1937, é inaugurado o “Teatro em Casa” para a transmissão de peças completas semanalmente.

Em 30 de outubro de 1938, Orson Welles vai ao ar deixando milhares de pessoas em pânico com a certeza de que a Terra estaria sendo invadida por extraterrestres com a transmissão de “Invasão dos Mundos”, peça escrita por H.G. Wells. Em 1938, é criada a Voz do Brasil. A partir de 1939, com o início da Segunda Guerra Mundial, o rádio passa a ter um papel fundamental na transmissão de fatos diários e notícias do front.



Financiamento
Na década de 30, o Brasil assiste ao crescimento da sua economia que atraia, pela primeira vez, investimentos estrangeiros. As empresas multinacionais começam a se instalar no Brasil e com elas chegam aparelhos e tecnologia de última geração. É assim que as indústrias elétrica e fonográfica começam a crescer no país.

As multinacionais não são apenas donas da tecnologia, mas se tornam as primeiras empresas a utilizar o rádio como poderoso instrumento de publicidade. Na época, a legislação brasileira não permitia que textos comerciais ocupassem mais de 10% da programação, o que dificultava a sobrevivência financeira das rádios.

As emissoras não tinham intervalos comerciais, como se vê hoje, mas programas patrocinados por anunciantes. Esse é o caso, por exemplo, do programa “Clube Juvenil Toddy”, que se manteve no ar de 1950 a 1957, inicialmente na Rádio Mayrink Veiga e, a partir de 1951, na Rádio Nacional.

Essa foi também a estratégia escolhida pela Coca-Cola, quando laçada no Brasil. O refrigerante escolhe o rádio como melhor meio de propaganda e patrocina o programa “Um Milhão de Melodias”, que estréia na Rádio Nacional criado especificamente para o lançamento da Coca.

Em março de 1932, com o Decreto Lei 21.111, o governo regulamenta e libera a propaganda comercial pelo rádio. Nesse momento, o rádio já é visto como um setor economicamente rentável, tanto pelas empresas anunciantes como pelo governo.

O rádio passa a ser o maior veículo de comunicação e o melhor meio de promoção comercial. O aumento do número de anúncios permite o crescimento das rádios. Elas caminham tão bem que quando a Rádio Nacional passa a fazer parte do Governo Federal, em 1940, não é sustentada por recursos públicos. A rádio continua a sobreviver e a montar seus estúdios e malha tecnológica apenas com o dinheiro das propagandas.

Em 1942, a Rádio Nacional inaugura a primeira emissora de ondas curtas do Brasil e passa a transmitir seus programas para todo o país, o que a torna ainda mais atrativa para os patrocinadores.

Décadas de ouro
Em 1940, a Rádio Nacional passa a fazer parte do Patrimônio Nacional, a partir do decreto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas. A programação ganha novo formato sob a direção de Gilberto de Andrade e participação do radialista José Mauro, irmão do cineasta Humberto Mauro.

Decreto-Lei 2073, de Getúlio, cria as Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União que, entre outra, encampa a Rádio Nacional, de propriedade do grupo A Noite. Diferentemente do tratamento dispensado a outras emissoras estatais, a Rádio Nacional continuou a ser administrada como uma empresa privada, sendo sustentada financeiramente pelos recursos oriundos da venda de publicidade.

Em 1941, vai ao ar a primeira radionovela, “Em busca da Felicidade”. O programa durou três anos, quando cedeu lugar a “O Direito de Nascer”. Com a troca a radionovela torna-se uma febre. No mesmo começa o Repórter Esso, marco do jornalismo radiofônico. Três anos depois o locutor Heron Domingues passa a apresentar o programa.

Em 18 de abril de 1942 são inaugurados os novos estúdios, no 21º andar. Com 486 lugares, as novas instalações traziam inovações como o piso flutuante sobre molas especiais do palco sinfônico. No mesmo ano, a Rádio Nacional inaugurou a primeira emissora de ondas curtas do país passando a transmitir seus programas para todo o território nacional, o que a torna uma estação ainda mais atrativa para os patrocinadores. Também é lançada uma publicação semanal com a programação da emissora. A capa traz, na maioria das vezes, a foto de cantores ou cantoras da Nacional.


Em 1943, o programa “Um Milhão de Melodias” estréia sob regência do maestro Radamés Gnattali, tendo como patrocinador a Coca-Cola, que lança seu refrigerante no País. Radamés apresenta também “A história do Rio pela Música”, “Clube dos Fantasmas e Vida Pitoresca” e “Musical dos Compositores da Nossa Música Popular”. Para o programa foi criada a Orquestra Brasileira, sob a regência de Radamés.

Até meados de 50, o Rádio-Teatro Nacional já havia transmitido 861 novelas. A trajetória de crescimento segue pelas décadas. Até que, em 1954, a TV a cores, inventada em 1940, entra em funcionamento.


Celebridades
Nos anos 40 e 50, o rádio possuía glamour. Ser cantor ou ator de uma grande emissora carioca ou paulista era o suficiente para que o artista conseguisse sucesso em todo o país, obtivesse destaque na imprensa escrita e até mesmo freqüentasse os meios políticos (como um convidado especial ou mesmo como candidato a algum cargo eletivo).

Normalmente as turnês nacionais desses astros eram concorridíssimas. O maior sonho de muitos jovens de todo o país era o de se tornar artista de rádio - seria o correspondente ao desejo de hoje de se tornarem artistas de televisão. É o caso, por exemplo, de Emilinha Borba, que em 1953 é eleita a Rainha do Rádio e crava, definitivamente, seu nome na história da cultura brasileira.


Declínio
Chega ao fim o apogeu do rádio. Com a popularização da televisão, no final da década de 50, as rádios são obrigadas a rever seus programas e redefinir objetivos. O declínio da Nacional, que se iniciara com a inauguração da televisão, acentuou-se de forma definitiva com o Golpe militar de 1964 que afastou 67 profissionais e colocou sob investigação mais 81.

Nos anos 60, o rádio viveu tempos difíceis devido à concorrência mais ativa da televisão. Os profissionais receberam propostas milionárias para a época, para reeditar na telinha o sucesso do rádio. Foi uma década de esvaziamento do meio, que ficou mais pobre com o sumiço dos grandes programas.

Em 1972, os arquivos sonoros e partituras utilizadas em programas da Rádio foram doados ao Museu da Imagem e do Som (MIS). Durante as décadas de 1980 e 1990, o declínio da Nacional se acentuou devido à falta de investimentos e à concorrência cada vez maior da televisão e também das rádios FM.

A emissora foi perdendo audiência e deixando de disputar os primeiros lugares na preferência do público. Manteve, no entanto, durante todos esse anos, diversos programas tradicionais, apresentados por radialistas como Dayse Lucide e Gerdal dos Santos, que ainda conseguiam reunir a audiência de ouvintes fiéis e saudosos dos tempos de glória da emissora.



2004: a revitalização

A Rádio Nacional do Rio de Janeiro será reinaugurada no dia 3 de julho, quando terminam as obras de restauração feita por meio de contrato firmado entre a Radiobrás e a Petrobrás.

O trabalhou começou no dia 5 de janeiro de 2004 e custará R$ 1,7 milhão. A recuperação do famoso auditório, de estúdios de rádio e teatro, a construção de novos e a restauração do imóvel onde está instalado o parque de transmissores de Itaóca, no município de São Gonçalo, fazem parte da reforma.

Além das obras físicas, o convênio inclui a atualização da tecnologia da emissora com a aquisição de novos equipamentos, como um transmissor de 50 quilowatts que irá substituir o antigo, de quase 30 anos. O novo aparelho fará da Nacional a primeira rádio digital AM do país.

Será construído ainda o Museu Rádio Nacional e criada a Sociedade dos Amigos da Rádio Nacional, que será um instrumento para o desenvolvimento do museu. A idéia abrange também um restaurante que será um ponto de encontro de cariocas e turistas.
Rádio-novelas
As rádio-novelas inauguram tendências e fazem escola. Três meses depois da inauguração da Rádio Nacional, em 1936, são incluídos trechos de rádio-teatro entre os números musicais. Em 1937, é inaugurado o “Teatro em Casa” para a transmissão de peças completas semanalmente. Mas é em 1941, que vai ao ar a primeira rádio-novela, “Em busca da Felicidade”, que dura três anos.

“Em busca da felicidade” é uma história cubana escrita por Leandro Blanco e adaptada para o rádio por Gilberto Martins. A rádio-novela teria sido patrocinada pela “Standart Propaganda”, que escolhe o horário matinal para seu lançamento. Para captar os ouvintes, já que o horário normalmente é de baixa audiência, teria resolvido oferecer brindes a quem enviasse um rótulo do creme dental Colgate. Já no primeiro mês de programação, 48 mil ouvintes teriam enviado os rótulos. A história é contada ainda hoje e marca o uso de estratégias de marketing, não só no rádio, mas no país.

A segunda rádio-novela a ir ao ar pela Nacional é “O Direito de Nascer”, posteriormente adaptada à televisão. Com texto do escritor cubano, Félix Caignet, o romance muda horários e compromissos dos brasileiros, que não queriam perder nem um capítulo e se torna um dos maiores sucessos radiofônicos de todos os tempos.
Era o início dessa mania brasileira, eternizada pelas TVs. A televisão aprende com o rádio como fazer novelas. A versão da TV Tupi de “O Direito de Nascer”, que vai ao ar em 1965, teria alcançado 73% de índice de audiência no Rio de Janeiro. Anos mais tarde, já na década de 90, ainda se pode observar o quanto a televisão brasileira foi influenciada pelo rádio. Basta lembrar que a maior batalha dominical pela audiência é travada pelos apresentadores Silvio Santos e Fausto Silva, ambos ex-radialistas.

Outro destaque da programação da Rádio Nacional são os seriados "Gerônimo, o herói do sertão" e "O Sombra", inesquecíveis pelos truques de sonoplastia. Pela Rádio Nacional passam atores como Walter D`Ávila, Mário Lago, Oduvaldo Viana, Paulo Gracindo e Henriqueta Brieba. O escritor, compositor e ator Mário Lago é um dos maiores responsáveis pelas adaptações feitas na Nacional.



Depoimentos

Roberto Salvador

Roberto Salvador é professor de rádio e televisão da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e no Centro Universitário Moacyr Bastos, também no Rio de Janeiro. Mas foi na Rádio Nacional que aprendeu o seu atual ofício. Lá entrou aos 13 anos, exatamente no dia 18 de setembro de 1952. Inicialmente, como rádio-ator, fez papéis infantis no programa Clube Juvenil Toddy. Ficou até acabar o programa, em 1957. Foi, então, trabalhar nas rádio-novelas e, posteriormente, no noticiário Repórter Esso.



Estatal

“No mesmo prédio onde está a Rádio hoje, tinha um jornal matutino, que se chamava “A manhã” e um vespertino chamado “A Noite”. O edifício chama-se “A Noite” e a Rádio Nacional pertencia a esses jornais. No início, ela dava muito prejuízo. Mas Getúlio Vargas sabia do poder e da força do rádio. Como a Rádio estava em má situação, ele a incorporou ao governo. Colocou, na direção, Gilberto de Andrade e disse a ele: “o governo não quer dinheiro da Rádio Nacional. Ele quer o poder da Rádio, quer força, quer que a rádio seja o porta-voz da cultura brasileira”. Então, Gilberto reuniu os diretores da Nacional e disse assim: “olha, a partir de agora, vocês podem gastar dinheiro à vontade. Arranjem os anunciantes e tudo o que der de lucro é para ser reinvestido na própria rádio”. Então, a rádio começou a contratar tudo que existia de melhor, a comprar equipamentos mais modernos e se transformou, de imediato, na maior emissora da América Latina porque veio justamente para se produzir rádio e não para dar lucro ao governo”.



Rádio-novelas

“A Rádio Nacional tinha vários estúdios. Cada programa, dependendo do perfil e formato, era transmitido em um ou em outro. Então, tínhamos o “gongo eletrônico”. Quando entrava uma novela no ar, o locutor que passava para o estúdio de rádio-teatro tinha que dizer a seguinte frase: “Nesse ponto, a Rádio Nacional passa a transmitir diretamente de seu estúdio de rádio-teatro” e vinha o gongo eletrônico, “gooooo!!!!”. O gongo era uma solenidade especialíssima, que só a rádio tinha. Esse gongo era a senha para que os ouvintes do Brasil inteiro aumentassem os seus volumes porque ia começar uma atração de rádio-teatro. Era como uma senha, que ligava o Brasil inteiro em determinados horários para a apresentação dos capítulos de novelas”.



Decadência

“Trabalhei na Rádio até 1962. Neste ano, ela já estava em processo de decadência porque a televisão começava a levar não só os artistas. Os grandes anunciantes da Rádio Nacional migraram para a televisão e levaram também os seus grandes astros. O rádio estava passando por profundas modificações. Os programas de auditório já não tinham o apelo de antes e passaram a acontecer coisas muito desagradáveis porque o perfil dos freqüentadores começou a mudar. Aquela rivalidade saudável que tinha entre as cantoras Marlene, Emilinha, Ângela Maria e Dalva de Oliveira, por exemplo, era extremamente saudável e bonita na época. Mas começou a descambar, o termo é esse, para algo quase como um precursor dos momentos de violência que a gente foi viver nas décadas seguintes. A própria direção da Rádio Nacional temia perder o controle da violência no seu auditório. Os programas começaram a sofrer com isso e a direção já começava a perder o pulso sobre esses freqüentadores. E começou a haver então o esvaziamento dos próprios programas de auditório”.



Sonho de ser TV

“Um outro fator importante foi a perda do canal de TV que a Rádio Nacional contava com muito entusiasmo. Era o famoso Canal 4, que acabou indo para as mãos da TV Globo. A rádio perdeu seu canal e, progressivamente, seus patrocinadores e verbas publicitárias para televisão. Não podendo mais arcar com o pagamento de artistas, que passaram a emigrar para a TV, houve necessidade de se rever o perfil da Rádio. A Rádio Tamoio foi pioneira ao rever o seu perfil. Ela se transformou exclusivamente em música. Mas a Rádio Nacional custou a acreditar que ia cair de seu pedestal”.



Repórter Esso

“O Repórter Esso foi criado para dar notícias da guerra e também, na verdade, para atrair o povo brasileiro para a causa aliada porque o Getúlio, nesta época, estava ainda em cima do muro entre o nazifascismo e os americanos. Mas, depois, o Getúlio acabou se definindo contra o nazifascismo. Esse noticiário não era redigido na Rádio Nacional, que fica ainda hoje na Praça Mauá. Era redigido na Cinelândia, que fica seguramente aos três quilômetros de distância. Vinha um ciclista, um estafeta, subindo a Avenida Rio Branco e entregava o noticiário, no 22º andar do edifício “A Noite”, na Rádio Nacional, isso minutos antes do Repórter Esso entrar no ar. A última notícia vinha por telefone porque, nesta época, não existia fax.

Quando o Heron entrava no estúdio para ler o Repórter Esso, cinco minutos antes, a última notícia, às vezes, ainda estava sendo preparada. O locutor lia o noticiário de forma pausada e lia o comercial de forma pausada, que era de um produto Esso. Ele fazia ao mesmo tempo a revisão da última notícia que o redator havia depositado sobre a sua mesa no estúdio. Então ele parecia que tinha o cérebro divido em duas partes. A parte esquerda lia o comercial e a parte direita fazia a revisão da última notícia. Isso eu o vi fazendo”.

O fim da Guerra

Em 1945, quando a guerra acabou, os japoneses já estavam praticamente para se render. O Heron (referindo-se ao locutor Heron Domingues) mudou para a rádio, botou cama de campanha, levou escova de dente, roupa e ficou morando na Radiobrás. “Acabou a guerra! Acabou a guerra! Acabou a guerra!”. O Heron tinha este disco guardado, mostrou pra todo mundo e disse: “olha, se eu estiver lá fora, vocês botam este disco”. Assim foi, até que ele resolveu ir a um restaurante. Quando estava lá, escuta um foguetório na rua, chama o garçom e diz: “o que está acontecendo?”. Aí o garçom olhou pra ele, levou um susto: “Ué, o senhor não está sabendo!?. Acaba de dar no Repórter Esso que acabou guerra”. Ele saiu esbaforido, pegou um táxi e veio para a rádio e ai sim, em sucessivas edições extraordinárias, ele começou a dar detalhes da rendição japonesa.

Acontece, que na hora que vieram os telegramas dizendo que os japoneses tinham assinado a rendição, procura daqui, cadê o disco?. Nesta história toda, a Rádio Tupi, com o locutor Dércio Luiz, deu a notícia primeiro. Acontece que o povo não acreditou. Muita gente dizia “Olha, escutei na Rádio Tupi. Mas só acredito quando der no Repórter Esso”. Tamanha era a credibilidade do noticiário do Esso. Isso é histórico. Foi um fato marcante. Enquanto o Repórter Esso não deu, o público não acreditou. Isso, na época, foi muito comentado. Teve até um jornal que disse assim: “A guerra só acabou depois que o Repórter Esso noticiou”.

Luiz Carlos Saroldi

Professor, escritor e radialista, um dos autores do livro “Rádio Nacional: o Brasil em Sintonia”.



Um fenômeno

“A Rádio Nacional está muito ligada à emoção do brasileiro, não só pelo lado musical e das novelas, que eram lacrimogêneas, melodramas sem pretensão à grande literatura. Mas a Rádio Nacional capitalizou até mesmo o sentido de unidade nacional, de integração dos brasileiros com o Brasil e até dos estrangeiros com o Brasil porque usando ondas curtas, também mandou pra fora do país todo o seu som e tudo aquilo que fazia.A Rádio foi realmente muito importante, foi um grande fenômeno. Talvez o único fenômeno parecido com o da Rádio Nacional, foi o da Revista Cruzeiro, dos Diários Associados, que se preocupava com a fotografia, que mostrava muito o Brasil para os brasileiros. A Nacional mostrava o Brasil para os brasileiros de uma maneira até mais sugestiva porque era sem imagem, só o som”.



Nação

“Getúlio Vargas percebeu, antes mesmo de ser presidente, que a música popular era importante. Quando ainda era deputado, em 1928, fez uma lei, conhecida como Lei Getúlio Vargas, regulamentando o uso da música nos lugares públicos e defendendo os direitos autorais dos compositores. Antes mesmo que se fosse um grande assunto, que se falasse muito nisso, ele já estava se antecipando. Em 1931, Vargas lança o primeiro decreto que vai regulamentar as normas técnicas para a concessão de emissoras. Em seguida, em 32, lança um decreto regulamentando a publicidade no rádio, que não era permitida. A partir disso, é que o rádio realmente ganha força porque descobre que não pode viver só da contribuição dos sócios, que pagavam uma quantia de 5 mil Réis na época. E vão buscar, no mercado publicitário, patrocínios para as rádios poderem sobreviver e pagar algum tipo de cachê aos seus artistas”.



Anúncios

“Antes do decreto, os anunciantes não acreditavam muito no anúncio radiofônico, acreditavam mais na imagem, nos outdoors e no anúncio da revista. Quando o rádio começa a procurar o anunciante, esse anunciante fica meio indeciso, se vale a pena botar dinheiro numa coisa que é só falada. Mas ai, um homem aparece, e se torna um grande vendedor. Era Ademar Case, que começa pela Rádio Phillips e sai em campo procurando patrocinadores. Mas, onde a coisa vai tomar impulso e seriedade, é na Rádio Nacional, em 1936, quando ela é lançada pelo Jornal “À Noite”, no alto daquele prédio da Praça Mauá, que era sempre majestoso, um arranha céu, o primeiro da América Latina e o único da cidade. Ele se destacava quase tanto quanto o Pão de Açúcar. A Rádio Nacional vai tentar chamar a atenção para àquela emissora. E chamou até nas menores coisas. Um vidro enorme que eles compraram para botar no auditório era da Tchecoslováquia, chegou de navio e teve que subir pelo lado de fora, levantado por cabos e a multidão ficou olhando aquela coisa”.



Marketing

“Os anunciantes começam a botar dinheiro mas depois acharam que, em certos bairros, a Rádio não era ouvida. Então, começaram a retrair a publicidade. Getúlio Vargas, 4 anos depois, em 1940, nomeou como diretor, Gilberto de Andrade. Ele já sabia de todos os defeitos técnicos. A rádio ia futuramente partir para o mercado, procurar patrocinadores para ganhar dinheiro e reinvestir no crescimento e aperfeiçoamento da própria rádio. A primeira coisa que eles fazem é mudar os transmissores de lugar, botar antenas novas, conseguir dinheiro para colocar transmissores de ondas curtas e, dois anos depois, inaugurar o auditório de quatrocentos e oitenta e poucos lugares, ninguém tinha um auditório daquele tamanho. Com isso a rádio ganhou seriedade e uma administração inteligente, no sentido moderno, até de marketing. Montam um serviço de estatística para descobrir qual dos artistas do elenco recebiam o maior número de cartas, qual dos programas interessavam mais ao público porque não existia o Ibope naquela época”.



José Ramos Tinhorão

O jornalista José Ramos Tinhorão é um dos principais pesquisadores da música popular brasileira. Nascido em 1928, em Santos, Tinhorão reuniu um acervo de mais de 7 mil livros e revistas sobre música, além de 10 mil discos, entre 78 rotações e LPs. O pesquisador é autor de livros essenciais para entender a história da cultura do país, entre eles “A música popular no romance brasileiro”, “História social da música popular brasileira”, “E o samba agora vai...” e “Cultura popular: temas e questões”.



Função unificadora

“O papel da Rádio Nacional foi muito importante. Em primeiro lugar, como ela tinha mais potência do que as outras, ela era ouvida em todo o Brasil. Então começa por cumprir um papel de política cultural, ou seja, passa a ter um papel unificador. Dentro de um conceito moderno, ela não unificava o Brasil a partir de uma cultura regional e, sim, a partir de um produto de cultura de massa que eram as chamadas ‘músicas de sucesso’. Consagrava artistas em programas de auditórios que se tornavam ídolos nacionais, como Emilinha Borba e outras. Isso tudo quando já existia a influência da música estrangeira que se acentua com a Segunda Guerra Mundial. A Rádio Nacional mantinha programas com artistas brasileiros. Lançou toda a música brasileira produzida pelas fábricas, como RCA Victor e a Odeon. Esse papel ninguém pode tirar da Rádio Nacional. Ela marca um momento de consciência nacional das massas urbanas. Ela é ouvida nos núcleos urbanos já mais desenvolvidos que tinham luz elétrica, pessoas que podiam comprar aparelhos de rádio para ter em casa. A Rádio Nacional contribui para uma tentativa de criar um caráter nacional, que era o objetivo do Getúlio Vargas no Estado Novo, que deixava as políticas regionais da Primeira República para uma política centralizada. E a Rádio Nacional representa a contrapartida cultural dessa proposta de centralização do governo Vargas”.



Artistas

“Naquela época, esses chamados ídolos de massas na música popular eram chamados de ‘cartazes’. Por exemplo, Orlando Silva aparece como grande cartaz, Francisco Alves também. Lança, inclusive, ídolos fabricados, como Cauby Peixoto. É o extremo da profissionalização na área da música de consumo. Existiam programas com prêmios e às vezes os caminhões da Rádio Nacional iam fazer os programas nos bairros e nos cinemas. Eles congregavam a própria cidade. Não era um negócio isolado na Praça Mauá. tinha programas que iam para os bairros, faziam sorteios em cima do caminhão com equipamento transmitindo ao vivo. Foi uma coisa muito rica. O Brasil começa imitando o rádio americano e depois faz coisas que eles nunca fizeram como fazer o programa numa praça de um bairro”.



Programação

“Na época, a Rádio Nacional não era só vitrolão. Existiam os programas ao vivo com os cantores, como o programa do Francisco Alves ao meio dia de domingo. Havia orquestras diferentes para quatro maestros diferentes. Era o maior quadro de músicos contratados do Brasil. Você tinha uma orquestra sobre a regência do maestro Lazoli, outra sobre a regência dos dois irmãos Gnattali, era uma coisa fantástica, uma experiência única e irreproduzível”.



Arquivos

“Quando a Rádio Nacional entra em decadência, não havia essa mentalidade. O Sergio Cabral (jornalista e pesquisador musical) conta que um dia ele foi ao banheiro da Rádio Nacional e lá estavam pilhas de disco de 78 rotações. Eu pergunto: onde é que estão aquelas milhares de partituras manuscritas dos maestros da Radio Nacional? Se você pusesse em ordem cronológica os manuscritos do Radamés Gnattali e outros maestros da Radio Nacional, teríamos uma idéia da evolução dos arranjos e da instrumentação de musica popular para orquestra. Isso sumiu tudo. Existem algumas fitas, mas se você considerar que ela levou anos, fazendo horas e horas diárias de programação musical, isso praticamente é uma gota d’água no oceano”.

Emissora de Rádio criada no Rio de Janeiro em 1936 a partir da compra da Rádio Philips, por 50 contos de réis. Seu primeiro prefixo, "Luar do sertão", de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, era tocado em vibrafone por Luciano Perrone e em seguida um locutor anunciava o prefixo da emissora: PRE-8.

Nesse ano mesmo, começou a apresentar pequenas cenas de rádio-teatro intercalados com números musicais. Foi nos anos 1940 e 1950 a principal emissora do país e verdadeiro símbolo da chamada "Era do Rádio". Em 1937, foi inaugurado o "Teatro em Casa" para a irradiação de peças completas, semanalmente. Sua programação ao vivo passou depois a ser retransmitida para todo o país, o que a tornou uma pioneira na integração cultural do país. Seus programas de auditório, radionovelas, programas humorísticos e musicais marcaram a História do Rádio no Brasil.

Foi líder de audiência praticamente desde a fundação até que o aparecimento da TV ditasse novos rumos para a comunicação no país. Seus programas eram transmitidos diretamente dos muitos estúdios específicos, inclusive do auditório da Rádio, todos localizados nos três últimos andares do edifício "A Noite", Praça Mauá, 7, Rio de Janeiro. Se seus programas de humor, suas radionovelas, seus programas noticiários e os esportivos viraram modelo para muitas outras Rádios do país, foi fundamental também para o desenvolvimento da música popular brasileira. Os primeiro nomes de cantores a formar seu casting foram Sonia Carvalho, Elisinha Coelho, Silvinha Melo, Orlando Silva, Nuno Roland, Aracy de Almeida e Marília Batista. Segundo depoimento do radialista e compositor Haroldo Barbosa ao pesquisador Luis Carlos Saroldi, "Nos primeiros anos, a Rádio Nacional apresentava uma estrutura muito simples: uma seção artística e uma seção administrativa, nada mais que isso. A emissora contava com menos de 30 pessoas para cantar, executar músicas, contabilizar e realizar outras tarefas menores".

As rádionovelas da emissora marcaram época a partir da primeira transmitida em 1941, "Em busca da felicidade", que durou três anos, até "O direito de nascer", que chegou a mudar hábitos das pessoas que tinham compromisso marcado com as transmissões dessa radionovela, posteriormente adaptada para a televisão. Até meados da década de 1950, o Rádio-Teatro Nacional irradiou 861 novelas, as mais ouvidas do rádio brasileiro, segundo as mais seguras pesquisas de audiência. Pode-se observar que a música popular brasileira foi uma antes e outra depois da Nacional, que se transformou numa verdadeira criadora de ídolos através da realização de concursos como "A Rainha do Rádio", que consagrou diversas cantoras, como Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira e Ângela Maria.

Um dos cantores que ficou marcado como símbolo dessa era foi Cauby Peixoto, que enchia o auditória da Rádio em suas apresentações. Em 1936, Linda Batista foi eleita a primeira "Rainha do Rádio", permanecendo no posto por doze anos. Em 1938, Almirante estreou o primeiro programa de montagem, ou montado, que foi "Curiosidades musicais", sob o patrocínio dos produtos Eucalol. O mesmo artista lançou no mesmo ano o primeiro programa de brincadeiras de auditório, o "Caixa de perguntas". Outro programa de destaque na emissora surgido no mesmo período foi "Instantâneos sonoros brasileiros", produzido por José Mauro com direção musical de Radamés Gnattali, regente da orquestra. Em 1939, Lamartine Babo passou a apresentar o programa "Vida pitoresca e musical dos compositores".

Em 1940, a Rádio Nacional passou a fazer parte do Patrimônio Nacional, a partir de decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas, sendo então, dirigida por Gilberto de Andrade, que tratou de dar uma nova cara à programação da Rádio, no que muito foi auxiliado pelo radialista José Mauro, irmão do cineasta Humberto Mauro. No ano seguinte, passou a ser apresentado o noticioso "Reporter Esso", marco do jornalismo radiofônico e que passaria a ter como apresentador três anos depois o locutor Heron Domingues. O prefixo do "Reporter Esso" foi escrito pelo maestro Carioca e executado por Luciano Perrone na bateria, Carioca no trombone e Francisco Sergio e Marino Pissiani nos pistons.

A Rádio Nacional foi a primeira emissora do Brasil a organizar uma redação própria para noticiários, com a rotina de um grande jornal diário impresso. A emissora da Praça Mauá possuía construiu uma divisão de rádio-jornalismo com mais de uma dezena de redatores, secretários de redação, rádio- repórteres, informantes e outros auxiliares, além de uma sessão de divulgação e uma sessão de esportes completa, e um boletim de notícias em idioma estrangeiro, que cobria todo o continente. Em 18 de abril de 1942, foram inaugurados os novos estúdios da Rádio Nacional, no viségimo primeiro andar do edifício "A Noite".

Com 486 lugares, as novas instalações traziam inovações como o piso flutuante sobre molas especiais do palco sinfônico. Ainda em 1942, Almirante estreou o programa "A história do Rio pela música". Nesse ano iniciou-se uma publicação semanal com a programação da emissora e cuja capa na maioria das vezes estampava a foto de cantores ou cantoras ligados à emissora. Também nesse ano, as ondas curtas da PRE-8 passaram a ser ouvidas em vários países.

Em 1943, a programação da emissora tomou impulso com a estréia do programa "Um milhão de melodias", patrocinado pelo refrigerante Coca-Cola, que estava sendo lançado no Brasil. Para esse programa foi criada a Orquestra Brasileira, com direção de Radamés Gnatalli. O repertório do programa apresentava duas músicas brasileiras atuais, duas antigas e três músicas estrangeiras de grande sucesso. A Orquestra Brasileira de Radamés Gnatalli era formada pela mescla de grandes músicos como Luciano Perrone na bateria, vibrafone e tímpano, Chiquinho no Acordeão, Vidal no contrabaixo, Garoto e Bola Sete nos violões, José Meneses no cavaquinho, além dos músicos da velha guarda do samba carioca como João da Baiana no pandeiro, Bide no ganzá e Heitor dos Prazeres tocando prato e faca e caixeta.Também para atuar no programa foram criados os Trios Melodia e As Três Marias. Nesse ano, estreou com grande sucesso o programa "Trem da alegria", apresentado pelo Trio de Osso, formado por Heber de Bóscoli, Yara Sales e Lamartine Babo.

Entre as muitas inovações surgidas na Rádio Nacional e que influiram no próprio desenvolvimento da música popular brasileira estão os arranjos para pequenos conjuntos, trios e quartetos de Radamés Gnattali e os acompanhamentos rítmicos do baterista Luciano Perrone que causaram uma pequena revolução no samba orquestrado feito até então. Foi Luciano Perrone quem sugeriu a Radamés Gnatalli a utilização dos metais, até então com funções exclusivamente melódicas, como mais um elemento de função rítmica na interpretação dos sambas gravados. Na década de 1940, pelo menos três dos maiores cantores brasileiros eram contratados da Rádio Nacional: Francisco Alves, Sílvio Caldas e Orlando Silva. Ainda em 1943, estreou na Rádio Nacional o sanfoneiro Luiz Gonzaga que inspirado no sanfoneiro Pedro Raimundo que se vestia com trajes típicos do sul, resolveu vestir-se com trajes típicos do nordeste e dessa forma passou a divulgar a música e a cultura nordestinas. Em 1946, um dos maiores sucessos musicais foi o samba-canção "Fracasso", de Mário Lago gravado por Francisco Alves e tema extraído da radionovela com o mesmo título.

Nesse ano, a Rádio Nacional inovou na forma de transmitir partidas de futebol, adotando o chamado "sistema duplo", que dividia o campo de jogo em dois setores, cada qual com um locutor acompanhando de preferência o ataque de cada um dos times. O "sistema duplo" foi inspirado no então moderno método de arbitragem em trio, com os bandeirinhas colocados em ângulos opostos. A década de 1950 ficou marcada pela acirrada competição pelo título de "Rainha do Rádio" que envolveu em disputas memoráveis cantoras como Emilinha Borba, Marlene e Ângela Maria. Nessa década, os programas de auditório da emissora tornaram-se tão concorridos que era cobrado ingresso até para assistir os programas em pé. Outra disputa musical que marcou época no Rio de Janeiro, tendo a Rádio Nacional como centro, era a da divulgação de marchas e sambas carnavalescos, dos quais um dos muitos destaques foi o cantor e compositor Blecaute, sempre presente aos programas de auditório da Rádio.

Nesse período fizeram parte o "cast" da emissora artistas que marcaram a música popular brasileira como: Orlano Silva, Ataulfo Alves, Carlos Galhardo, Linda Batista, Luiz Gonzaga, Carmen Costa, Nelson Gonçalves, Nuno Roland, Paulo Tapajós, Albertinho Fortuna, Carmélia Alves, Luiz Vieira, Zezé Gonzaga, Gilberto Milfont, Heleninha Costa, Ademilde Fonseca, Bidu Reis, Nora Ney, Jorge Goulart, Neuza Maria, Adelaide Chiozzo, Jorge Fernandes, Dolores Duran, Lenita Bruno, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcânti, Vera Lúcia, etc.

Em 1948, Dircinha Batista foi eleita "Rainha do Rádio" substituindo a irmã Linda Batista. No ano seguinte, teve início a eletrizante disputa pelo título de "Rainha o Rádio" entre as cantoras Emilinha Borba e Marlene. Esta última, foi eleita no ano seguinte com o apoio da Companhia Antártica Paulista, que lançava o Guaraná Caçula e fez dela sua garota propaganda, tendo o total de 529.982 votos. Marlene repetiu o feito no ano seguinte.

Em 1952 e 1953, a Rainha foi Mary Gonçalves. Por volta de 1950 foi criado na emissora o Departamento de Música Brasileira, que obteve um de seus maiores êxitos no ano seguinte no programa "Cancioneiro Rayol" com a série "No mundo do baião", apresentada pelo radialista Paulo Roberto. A chefia do Departamento de Música Brasileira foi entregue inicialmente ao compositor Humberto Teixeira. Outro programa musical ligado ao departamento de Música Brasileira e que fez muito sucesso foi "Lira de Xopotó", apresentado pelo radialista Paulo Roberto e que incentivava as bandas do interior que apresentavam músicas com arranjos do maestro Lírio Panicali. Igualmente Programa marcante dessa época foi "Música em surdina", criado por Paulo Tapajós e apresentado em estúdio no final da noite por Chiquinho, no acordeom, Garoto, ao violão e Fafá Lemos ao violino, interpretando um repertório eclético e que deu ensejo ao sugimento do Trio Surdina.

O violinista Garoto por sinal, foi um dos artistas que se destacou na Rádio Nacional nos anos 1950, quando passou por diferentes grupos nos seus dez anos de permanência na programação. Atuou na Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali e pelo Bossa Clube ao lado de Luis Bittencourt, Luis Bonfá, Valzinho, Bide, Sebastião Gomes e Hanestaldo. Ainda na década de 1950, destacaram-se os programas "Sua excelência a música" e "Quando os maestros se encontram".

Esse último reunia cinco arranjadores da emissora, quase sempre os maestros Alexandre Gnattali, Lírio Panicali, Alberto Lazzoli, Léo Peracchi e Alceo Bocchino. Ainda no começo da década houve a tentativa frustada de criar o selo Nacional para gravação de discos que ficou apenas no primeiro, com Manezinho Araújo gravando o baião "Torei o pau", de Luiz Bandeira e a marcha "Um cheirinho só", de Manezinho Araújo e Armando Rosas. Destacaram-se também nessa década inúmeros programas mistos como "Coisas do Arco da Velha", de Floriano Faissal; "Gente que brilha" e "Nada além de 2 minutos", de Paulo Roberto; "Clube das donas de casa", de Lourival Marques; "Grande espetáculo Brahma", de Mario Meira Guimarães; "Hoje tem espetáculo", de Paulo Gracindo; "Música e beleza", de Roberto Faissal; "Nova Historia do Rio pela música" e "Recolhendo o folclore", de Almirante; "Passatempo Gessy", de Jota Rui; "Rádiosemana", de Hélio do Soveral; "Roteiro 21", de Dinarte Armando; "Seu criador Superflit", de Lourival Marques e "Todos cantam sua terra", de Dias Gomes. Entre os programas de Rádio-teatro merecem citação, "A vida que a gente leva" e "Boa tarde, madame", com Lucia Helena; "Consultório sentimental", com Helena Sangirardi; "Divertimentos Brankiol", com Ary Picaluga; "Edifício Balança mas não cai", com Paulo Gracindo; "Grande Teatro De Milus", com Dias Gomes; "Jararaca e Ratinho", com Joe Lester; "Marlene meu bem", com Mário Lago; "Os grandes amores da História", com Saint Clair Lopes; "Sabe da última?", com Rui Amaral e "Tancredo e Trancado", com Ghiaroni.

Em 1951, Paulo Tapajós criou o programa "A turma do sereno", de grande sucesso e no qual um repertório de serestas era apresentado por Abel Ferreira no clarinete, Irany Pinto no violino, João de Deus na flauta, Sandoval Dias no clarone, Waldemar de Melo no cavaquinho e Carlos Lentini e Rubem Bergman nos violões. ]

Segundo as palavras de Paulo Tapajós, o programa "Turma do sereno ocupava apenas um cavaquinho, uma flauta, um clarinete, um clarone e um violino, além dos cantores e outros solistas convidados. A "Turma do sereno" era o reencontro da música com a rua mal iluminada pelo lampião a gás, era o momento em que a gente imaginava que numa esquina de rua encontravam-se os velhos amigos para fazer choro, para cantar valsas e modinhas; era a oportunidade da gente tirar dos velhos baús alguns xotes, maxixes, polcas, já um tanto amarelados". Nos anos de 1953 e 1954, a cantora Emilinha Borba foi eleita "Rainha do Rádio". Nos dois anos seguinte, a consagrada foi Ângela Maria que chegou a obter o total de 1.464.996 votos. Em 1955, o radialista Almirante retornou à Rádio Nacional e criou os programas "A nova história do Rio pela música" e "Recolhendo o folclore". Por essa época, Renato Murce apresentou o programa "Alma do sertão", um dos maiores sucessos entre os programas sertanejos. Em 1959, o cantor e compositor Zé Praxédi passou a apresentar diariamente o programa "Alvorada sertaneja".

Um dos mais famosos programas da década de 1950 foi o "Programa César de Alencar", que comemorou os dez anos no ar com um show para 20 mil pessoas no Maracanãzinho. Outros programas com animadores ficaram também célebres, como os de Paulo Gracindo e Manoel Barcelos. Outro estaque de sua história, foi o estúdio para rádio novelas e seriados diversos , como "Gerônimo, o herói do sertão" e "O Sombra", onde os truques de sonoplastia ficaram célebres especialmente os truques do sonotecnico Edmo do Valle. Entre os programas de auditório apresentados na Rádio na década de 1950 podemos destacar: "Alegria, meus senhores" e "Este mundo é uma bola", apresentados por Fernando Lobo; "Alô, memória", "Dr. Infezulino" e "Enquanto o mundo gira", apresentados por Paulo Gracindo; "Ganha tempo Duchen", "O Cartaz da Semana" e "Parada dos Maiorais", com Hélio do Soveral; "Nas asas da canção", com Dinarte Armando; "Qualquer semelhança é mera coincidência", com Waldir Buentes; "Papel Carbono", Renato Murce e "Placar musical", com Nestor de Holanda Cavalcânti. Entre os programas musicais também merecem destaque, " A canção da lembrança", com Lourival Marques; "Audições Cauby Peixoto", apresentado por Mário Lago; "Audições Orlando Silva", com Ghiaroni; "Cancioneiro Royal", com Paulo Tapajós; "Cancioneiro romântico", com Rui Amaral; "Carrossel musical", com Ouranice Franco; "Clube do samba" e "Pelas estradas do mundo", com Fernando Lobo; "Fama e popularidade", com Oswaldo Elias; "Festivais G. E.", com Leo Peracchi; "Festivais de gaitas", com Cahuê Filho; "Horário dos cartazes", com Almeida Rego e "Preferências musicais", com Dinarte Armando. Dentre seus muitos locutores famosos está César Ladeira, uma das vozes de excelência de toda a história do Rádio no Brasil, especialmente lembrado com o programa "A crônica da cidade". O declínio da Rádio, que se iniciara com a inauguração da televisão acentuou-se de forma definitiva com o Golpe militar de 1964 que afastou 67 profissionais e colocou sob investigação mais 81.

Em 1972, os arquivos sonoros e partituras utilizadas em programas da Rádio foram doados ao Museu da Imagem e do Som, MIS. Durante as décadas de 1980 e 1990 o declínio da Rádio se acentuou devido à falta de investimentos e à concorrência cada vez maior da televisão e também das Rádios FM. A emissora foi perdendo audiência e deixando de disputar os primeiros lugares na preferência do público. Manteve no entanto durante esse tempo diversos programas tradicionais da emissora apresentados por radialistas como Dayse Lucide, Gerdal dos Santos e outros que ainda arrastavam atrás de si a audiêencia de ouvintes fiéis e saudosos dos tempos de glória da emissora. A partir de junho de 2003, passou a estar sob a direção de Cristiano Menezes, que iniciou um plano de revitalização da PRE - 8. Em 2004, foi assinado um convênio entre a Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e a Petrobras, que acertou a digitalização de todo o acervo de partituras da Rádio. Entre as obras estão raridades dos maestros Radamés Gnattali e Guerra-Peixe.


Nesse ano, a Rádio saiu do ar por 15 dias para passar por reformas que incluem a troca de transmissores e instalação de novos estúdios no antigo prédio da Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Além disso, a Rádio Nacional passará a ser a primeira Rádio Digital AM. Tudo dentro de um plano de revitalização da Rádio. O famoso auditório da Rádio será reformado e terá sua capacidade reduzida de 500 para 150 lugares e voltará a abrigar shows. Entre os novos programas estão previstos, o "Homenagem Nacional", no qual um sexteto permanente acompanhará a homenagem a um grande nome da história da música popular brasileira, com um astro atual interpretando sucessos do artista homenageado. Programa-se ainda o "Memória Nacional", que deverá ser apresentando ao vivo, reunindo nomes como Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas e Adelaide Chiozzo, que foram sucessos nos anos de ouro da Rádio Nacional. Ela ficou conhecida como "A escola do Rádio", o que por si só dá o tamanho de sua importância histórica.
BIBLIOGRAFIA CRÍTICA: CABRAL, Sérgio. A MPB na Era do Rádio. São Paulo: Moderna, 1996. MURCE, Renato. Bastidores do rádio - fragmentos do rádio de ontem e de hoje. Rio de Janeiro: Imago, 1976. SAROLDI, Luiz Carlos e MOREIRA, Sonia Virginia. Rádio Nacional - O Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: Funarte, 1984.



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