Há muitos, muitos anos, existia num reino à beira-mar



Baixar 0,8 Mb.
Página1/11
Encontro30.07.2018
Tamanho0,8 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11

UM REINO À BEIRA-MAR

ANNABEL LEE

“ Há muitos, muitos anos, existia

num reino à beira-mar,

uma virgem, que bem se poderia

Annabel Lee chamar.

Amava-me, e seu sonho consistia

em ter-me para a amar.


Eu era criança, ela era uma criança

no reino a beira-mar;

mas nosso amor chegava, ó Annabel Lee,

o amor a ultrapassar,

amor que os próprios serafins celestes

vieram a invejar.


Foi por isso que há muitos, muitos anos,

no reino à beira-mar,

de uma nuvem soprou um vento e veio

Annabel Lee gelar.

E seus nobres parentes se apressaram

de mim a afastar,

para encerrá-la numa sepultura,

no reino à beira-mar.


Os anjos, que não eram tão felizes,

nos vieram a invejar.

Sim! Foi por isso (como todos sabem

no reino à beira-mar)

que um vento veio, à noite, de uma nuvem,

Annabel Lee matar.


Mas nosso amor, o amor dos mais idosos,

de mais firme pensar, podia ultrapassar.

E nem anjos que vivam nas alturas,

nem demônios do mar,

jamais minha alma da de Annabel Lee

poderão separar.


Pois quando surge a Lua, há um sonho que flutua,

de Annabel Lee, no luar;

e, quando se ergue a estrela, o seu fulgor revela

de Annabel Lee o olhar;

assim, a noite inteira, eu posso junto a ela,

a minha vida, aquela que amo, a companheira,

na tumba à beira-mar,

junto ao clamor do mar.”


-Edgar Allan Poe-



CAPÍTULO UM

Capri é um paraíso!” Foi com estas palavras que Gerald convenceu-me a atrasar minhas férias naquela temporada e também porque, após uma semana de trabalho, as três seguintes estariam por sua conta, ou melhor, por conta da revista. No convés do navio que nos conduzia a Capri, nenhum pensamento pessimista ou arrependimento ameaçava cercar-me.

-... e então, durante a segunda metade da idade média, os monges beneditinos dominaram Capri, cedendo lugar a Rogério, da Sicília.

-Tenho certeza de que inúmeros conquistadores passaram por aqui, Gerald.

-Sem dúvida! Elíseo Arcuccio, que foi almirante do Imperador Frederico II, assim como membros das casas de Anjou e Bourbon... querida, isso me faz recordar que estou a morte por um cálice de vinho.

Tive que rir de tal associação, tão característica de Gerald.

-Não seria melhor esperar para saborear sua garrafa de “Lágrimas de Tibério”?

Indaguei, me referindo ao vinho branco que a ilha produzia. Gerald revirou os olhos comicamente, tirando o lenço do bolso de sua calça de micro-fibra creme e passando-o na testa.

-Vou apostar com você que Lance estará nos esperando com os acompanhamentos necessários para uma manhã quente e agradável.

Permaneci em silêncio, apreciando os momentos finais de nossa viagem de ida. Fora agradável estar na companhia de Gerald, apesar de ser a trabalho. Gerald se decidira por Capri, como matéria de capa e estava convencido de que eu deveria ser a fotografa a realizar a parte ilustrada. Geralmente ele se satisfazia com minhas fotos e então, sem escapatória, logo navegávamos com destino a ilha paradisíaca de Capri com um bom suprimento e filmes.

Inicialmente ficaríamos em um dos grandes hotéis, mas a idéia foi posta de lado no exato momento em que, entrando em contato com um antigo amigo, Gerald recebera o convite para ficar na Villa deste amigo. Eu sabia pouca coisa sobre Lance Hericksen; ele e Gerald haviam sido colegas na universidade, Gerald fora apaixonado por Lynneth, irmã de Lance... Lance fora casado – eu não sabia se ele enviuvara ou divorciara – e tinha uma filha chamada Corine, de 16 anos. Nada disso parecia importante naquele momento.

-Você bem que está precisando desta temporada em Capri, querida. Tem andado muito tensa ultimamente.

-Não estou tensa, estou apenas cansada. Preciso de férias.

-Pois você terá as suas férias, mesmo trabalhando.

-Gerald, o homem paradoxo!

Ele ignorou minha nada sutil ironia e, colocando ambas as mãos nos bolsos da calça, ficou contemplando a paisagem de azuis que surgiam à medida que o nevoeiro da manhã ia dispersando, assim como as manchas verde e rosa dos pessegueiros e amendoeiras em flor.

-Sem dúvida alguma vou gostar de Capri!

Exclamei ao observar alguns dos terraços de gerânios e mimosas floridas, abraçando o mar a medida que nos aproximávamos da Marina Grande. Gerald ria de meu entusiasmo, enquanto eu registrava aqueles momentos com a máquina fotográfica em punho.

-Deixe-me tirar uma fotografia sua, Gerald, encostado na amurada do navio, com ar blasé e o mar azul servindo de moldura.

-Noto mudanças favoráveis em você, Miranda. Está fazendo uso da poesia antes mesmo de pisar no solo mágico de Capri.

-Estou navegando na água mágica... deve dar no mesmo.

Retruquei fotografando-o, em seguida desviando a câmera para a escada que dava acesso ao convés, vindo da marina. Eu não o vi de imediato, eu o percebi. Ele estava subindo a escada e exalava tanta confiança, que poderia ser o dono do navio... ou de toda Capri. Quando voltou-se em nossa direção olhando além de nós, fiquei de frente para o mar, envergonhada. Havia batido pelo menos seis fotos antes disso. As outras pessoas se agitavam a nossa volta, prontas para desembarcar.

-Acho que essa é a nossa deixa, Miranda. Você carrega as malas e eu a guio para a terra.

Tampei a câmera, seguindo Gerald de perto. Quando passamos ao lado do desconhecido que eu fotografara, examinei apressadamente a pessoa com quem ele falava; era uma mulher de seus 45 anos, e os dois pareciam muito animados juntos. Ele era realmente bonito; alto... 1m e 80cm, talvez. Cabelos castanhos, lisos e curtos, caídos sobre a testa. Olhos verdes atrás de pálpebras sedutoramente semi-cerradas, um ar arrogante e de superioridade. O maxilar formava um quadro anguloso, porém equilibrado e ao sorrir, duas covinhas surgiam em suas faces, aos lados dos lábios sensuais.

Senti uma excitação tola ao observá-lo. Era como se eu estivesse a espera de que ele, romanticamente, voltasse o rosto na minha direção, procurando com os olhos pelos meus e tendo um sorriso brincando nos lábios. Gerald nada percebeu. Deixei para trás aquele que poderia ser o homem da minha vida e desci para a Marina Grande, no meio da multidão, que empunhava maquinas fotográficas e bonés. Nossas malas foram acomodadas no carro que estava a nossa espera e, deixando os vendedores, marinheiros e crianças descalças para trás, fomos conduzidos a Villa de Lance Hericksen. O motorista respondia pacientemente as minhas perguntas, enquanto eu ia pulando no banco de trás, desejando ter mais de dois olhos para apreciar toda a vista.

-Esta experiência está começando e forma absolutamente divertida, Miranda. Há um bom tempo não vejo você tão entusiasmada.

-Estou despertando para a magia de Capri, Gerald. Na descida do navio molhei-me acidentalmente com a água enfeitiçada deste lugar. Estou perdida!

-Quem vem a Capri pela primeira vez, senhorita, não deseja mais partir e quem aqui esteve, nunca terá paz novamente se aqui não retornar.

-O que você fala parece um sortilégio.

Retruquei, observando o rosto do motorista italiano refletido no espelho retrovisor. Ele sorriu, os olhos fitos na estrada.

-Pode ser que sim, senhorita, mas isto aconteceu comigo, minha família e muitas outras pessoas. Capri cobra um preço daqueles que aqui ousaram vir: fidelidade!

Eu apenas ri, sem saber o que falar diante de tais palavras. Sentia sede e um grande entusiasmo e, além disso, pensava em como poder encontrar o homem do navio novamente, sem passar por tola.

O motorista reduziu a velocidade, estacionando diante da casa da Villa e tanto eu quanto Gerald saímos do carro, apreciando a arquitetura do lugar e tudo o mais que fazia parte do quadro. Um homem descia os degraus da entrada casualmente. Usava uma calça azul marinho e uma camisa alguns tons mais clara, com o vento agitando-lhe os cabelos castanhos e ele sorria cordialmente. Gerald avançou saudando-o, enquanto eu pegava a bolsa e afastava os cabelos do rosto com as mãos.

-Lance, esta é Miranda, a minha corujinha. Ela é uma fotógrafa espetacular, embora pareça muito jovem para isso.

Estendi a mão para nosso anfitrião e sorri envergonhada. Eu jamais conseguiria descrevê-lo. Ele poderia ser apenas ele mesmo, mas não era. Tinha olhos que poderiam parecer frios, impenetráveis ou então transmitir tamanha melancolia que me entristecia. Seu rosto era marcado pelo tempo, com rugas profundas cortando-lhe as faces, cercando os lábios estreitos e acompanhando os olhos, mas quando sorria, e o sorriso chegava os olhos, era quase impossível não sorrir também. Ele não era um homem bonito, mas era sedutor e charmoso. Sua voz, grave e profunda, aqueceu meus ouvidos. Mais tarde eu descobriria que o efeito dela nas outras mulheres não era diferente do que ocorria em mim.

-Quando conversamos por telefone alguns dias atrás, Gerald disse-me que você era a mais promissora das fotógrafas, Miranda. Eu adoraria dar uma olhada no seu trabalho.

-Sorria, os olhos avaliando os meus, mas nada me revelando e seus dedos quentes envolviam os meus num cálido abraço. De repente senti-me imensamente constrangida, como se ao invés de estar tocando meus dedos com os seus, ele me beijasse, devorando-me com cada beijo. A visão, assim como surgiu, desapareceu e eu vi-me livre do toque dele, seguindo atrás dos dois homens para dentro de casa.

-Você tem um belo esconderijo por aqui, meu amigo.

Comentou Gerald, apreciativo. Lance sorriu, concordando.

-A casa é grande o suficiente para que minha irmã, meu sobrinho e minha filha possam ter privacidade sem me atrapalhar.

-Como vai a bela Lynneth? Não a vejo desde o casamento e isto foi há uns 28 anos.

-Lynneth casou, enlouqueceu o marido com seus caprichos, enviuvou e retornou a minha vida com o filho, Joaquin. Ele é um belo rapaz. Tem 26 anos e da mãe só herdou a beleza. Apesar de tudo os dois se dão bem e minha filha, Corine, é louca por ele.

Voltou-se para mim ainda sorrindo e eu senti-me uma perfeita adolescente.

-É sempre tão silenciosa, Miranda?

-Miranda não passa de uma criança tímida.

Fiquei mortificada com a observação de Gerald, mas ele riu e me abraçou paternalmente.

-Reservei o quarto ideal para a sua corujinha, Gerald. Espero que esteja do seu agrado, Miranda. Acredito que o quarto será perfeito para você.

Apesar da zombaria, eu gostei de suas palavras. Com um gesto imperioso chamou o silencioso empregado, que até então nos observara, indicando as malas que o motorista depositara no chão.

-Marco levará vocês aos seus quartos. Estarei no jardim, esperando-os para umas bebidas geladas antes do almoço.

Um ultimo sorriso e ele ficou ao pé da escada, nos observando subir. Marco mostrou meu quarto em primeiro lugar e depois continuou pelo corredor com um comportado Gerald. Respirei aliviada assim que a porta foi fechada por completo e rapidamente me aproximei dela, girando a chave na fechadura para finalmente sentir-me segura. Só então prestei atenção ao quarto, arregalando os olhos com agradável surpresa. Ele era realmente adorável. O recanto de Miranda!

Fui até a janela aberta e aspirei o ar. Enquanto apreciava a paisagem tirando os sapatos, ocorreu-me que, ao conversar com Lance Hericksen, algo nele me parecera familiar. Alonguei o corpo começando a desabotoar a blusa de mangas curtas, desta vez me afastando da janela e indo para o banheiro. Tomei um banho rápido e no exato momento em que voltava para o quarto escovando os cabelos, bateram a minha porta. Era Gerald.

-Gerald, este lugar é incrível!

Exclamei no mesmo instante em que abri a porta pra ele.

-Toda a Capri é, meu amor.

-O que devo colocar para o encontro no jardim?

-Algo leve, floral e alegre. Lance parece ter gostado de você.

-Eu gostei dele!

Exclamei impulsiva. Gerald franziu a testa, examinando meu rosto com atenção.

-Miranda, não vá se deixar encantar por Lance.

-Ora, não seja tolo, Gerald!

Retruquei zangada, desviando os olhos para as malas, pegando-as, abrindo-as e separado o que precisaria no momento. Enquanto eu fazia isso os olhos de Gerald me acompanhavam.

-Que tal?

Perguntei erguendo uma blusa verde de mangas curtas e uma saia branca.

-Perfeito!

Sorrindo para ele rumei para o banheiro carregando minhas coisas.

-Vejo você no jardim, Gerald.

-Até mais, querida.

Com um suspiro de resignação Gerald saiu do quarto e eu decidi que de forma alguma tornaria a ser tão veemente em uma afirmação.

Não me apressei ao encontro deles no jardim quando desci. Vagueei um pouco pelo andar de baixo apenas observando o que estava ao meu alcance e acabei por encontrar Corine em uma das salas. Eu teria me afastado silenciosamente caso ela não houvesse me visto e chamado para a sua companhia. Era uma garota simpática de rosto oval, olhos verdes e cabelos escuros em cachos. Tínhamos praticamente a mesma altura, embora eu fosse dez anos mais velha.

-Olá. Você deve ser a moça que vai se hospedar aqui com um amigo de meu pai.

-Meu nome é Miranda.

-Eu sou Corine.

Apertou-me a mão direita com certa languidez, pedindo desculpas pela confusão da sala.

-Eu estava fazendo alguns desenhos.

Principiou, dando de ombros. Pela mesa estavam espalhados vários esboços que me pareceram muito bons. Reconheci Lance Hericksen em alguns deles e outro rosto que me atraiu de imediato. Puxei uma das folhas olhando diretamente para o rosto que estava gravado no negativo que eu carregava.

-Ela melhorou bastante o original.

Com o coração acelerado voltei os olhos na direção da voz, já sabendo exatamente o que encontraria. Os olhos verdes do navio desta vez me fitavam, embora o sorriso que seus lábios ostentassem não fosse de todo agradável.

-Ela fez um trabalho muito bom.

Murmurei, largando a folha rapidamente.

-Este é meu primo Joaquin, Miranda.

-Miranda?

Repetiu erguendo a sobrancelha direita.

-É um nome interessante.

Completou. Corine sorria.

-Joaquin gosta de ler as obras de Shakespeare. Provavelmente está imaginando você como a virginal Miranda... gostaria de saber quem será Próspero.

-Seu pai, é claro.

Respondi constrangida. Desta vez os dois riram.

-Eu sei quem é Caliban.

Insinuou Corine e Joaquin estreitou os olhos, felino.

-Sem dúvida você não é Ariel.

Cortou, ácido.

-Sou Joaquin Bottom, Miranda, primo de Cora. Lance disse-nos que você é fotógrafa. Este é um assunto que me desperta o interesse. Se você puder mostrar algo de seu trabalho, ficarei agradecido.

-Assim que eu guardar minhas coisas.

-Não deixarei que você esqueça. Poso acompanhá-la até o jardim?

Anui acenando em despedida para Corine.

-Não o deixe assustá-la, Miranda. Às vezes Joaquin age como se fosse um rei.

-Não me assusto facilmente.

Retruquei, pensando que ele assemelhava-se mais a um nobre romano. Lindo e arrogante. Fazia com que eu me sentisse quase nada. Detestei-o por isso e exatamente por este motivo percebi que me apaixonaria por ele.

-Gostou do que viu até agora?

Sua pergunta era inocente, mas o tom de voz e o olhar que acompanharam tais palavras eram provocantes, maliciosas e cínicas. Resolvi ignorar mais esta provocação.

-Vi tão pouco que não pude formar uma opinião, mas, se continuar como está, logo, logo terei certeza do que penso.

Ele riu. Saíamos para encontrar Gerald e Lance, pisando no caminho calçado que nos conduzia ao lado do jardim.

-Se precisar de ajuda, pode contar comigo. Conheço alguns locais inesquecíveis aqui em Capri.

-Começo a pensar que tudo em Capri é inesquecível.

Murmurei, arrependendo-me destas palavras antes mesmo de proferir a ultima, quando encontrei-lhe os olhos repletos de malícia. Felizmente chegáramos onde Gerald e Lance deliciavam-se com bebidas geladas. Ambos ficaram em pé e só tornaram a sentar-se após eu me acomodar e Lance apresentar Gerald a Joaquin.

-O que deseja beber, Miranda?

Indagou Lance, atencioso.

-Um suco, ou água.

-Miranda não bebe nada alcoólico, meu caro. É adepta de uma vida saudável.

Zombou Gerald. Decidi que deveríamos ter uma longa conversa naquela noite.

-Meus parabéns pela sua disposição.

O cumprimento de Joaquin também não passou de uma zombaria e eu desviei os olhos para a casa, admirando-a, enquanto espera pela laranjada que Lance mandara buscar.

-Curiosa para conhecer melhor a ilha?

Voltei os olhos para Lance, sorrindo.

-Sem dúvida! Eu também gostaria muito de saber algo... “teórico”. Confesso que não sei quase nada sobre Capri.

-Posso ajudá-la superficialmente.

-Eu agradeceria.

-Vejamos... Capri pertencia aos napolitanos, antes de ser adquirida por Augusto, quando ele estava a caminho de Ischia.

-Você poderá encontrar as ruínas da Villa Jovis, uma das 12 que Tibério mandou construir nos seus últimos 11 anos de vida. Era de lá que Tibério mandava jogar seus inimigos.

Joaquin interrompeu o tio com uma piscadela maliciosa e Lance apenas sorrira, recostando-se na cadeira. Meus olhos pousaram sobre o rosto de Joaquin e eu ouvi a risada de Gerald.

-Que interessante!

Sorri para a moça que colocava o copo de laranjada a minha frente e peguei-o em seguida, sorvendo um gole da bebida gelada.

-Posso levá-la até lá, se quiser... ou qualquer outro lugar.

Ele me oferecia companhia pela segunda vez em pouco tempo. Fiquei curiosa para saber por quê, já que eu não era nenhuma beleza se comparada com muitas das moças de Capri. Antes que eu pudesse responder, Gerald manifestou-se:

-Será ótimo!

-Podemos ir a Gruta Azul, a Grande Caverna do Boi Marinho, as Grutas Branca, Maravilhosa, Verde e Mitramona. Espero que você tenha bastante filme na sua bagagem.

-Tenho mais rolos de filmes do que roupas, mas não gostaria de ser um... estorvo.

-Como se isso fosse possível. Lance, fale algo sobre as grutas para Miranda.

Lance inclinou a cabeça e pousou seus olhos cansados sobre os meus.

-Vou falar sobre a Gruta Azul para que você fique mais curiosa em relação as outras. A Gruta Azul fica na costa Norte e só é possível entrar pelo mar, em pequenos barcos. Entra-se por uma passagem de pouco mais de um metro de altura, que conduz a um lago interior de águas tranqüilas. Quando estiver lá você vai ver que as paredes, a água e até mesmo o ar tomam uma bela cor azulada, enquanto que os objetos que se encontram sob a água se apresentam em branco prateado.

Imaginei o que ele descrevia antecipando o prazer que iria extrair do momento.

-Vocês precisam nadar. Acredito que você vai gostar da experiência, Miranda... a água na gruta tem uma temperatura diferente, mas, por hora, devemos almoçar. A diversão ficará para depois.

Voltou-se para Joaquin, indagando:

-Onde se encontra sua mãe?

-Está visitando Amatrice.

-Então seremos apenas nós para o almoço. Espero que a refeição esteja do agrado de todos.

Ele ficou em pé e nós seguimos seu exemplo, seguindo-o para dentro de casa. Durante todo o percurso eu senti os olhos de Joaquin me acompanharem. Encontramos Corine a nossa espera na sala de refeições. Por todo o almoço eu comi pouco, enquanto Corine falava muito. Gerald parecia divertir-se com ela e Lance parecia divertir-se conosco.

Após o término da refeição, despedi-me e fui para o quarto. Uma agradável sonolência começava a tomar conta de mim e eu não resisti a ela. Troquei de roupa e deitei. Acordei quase três horas depois e ainda fiquei uns 10 minutos deitada, pensando no que faria. Eu já havia trocado de roupa novamente quando bateram à porta do quarto e Corine me chamou. Disse-lhe para entrar, o que ela fez de bom grado.

-Vim convidá-la para dar uma volta.

-O que você tem em mente?

-Levar você para comprar as famosas calças com o nome da ilha.

Dei uma risada e pegando a bolsa, saí do quarto com ela.

-Você também pode se interessar por alguma das lindas bijuterias ou xales; além disso, poderá fotografar os casarios brancos, a igreja, as pracinhas e os cafés. Podemos concluir nosso passeio na Piazzetta de Capri, que é o principal ponto de encontro da ilha.

-Parece perfeito! Você sabe onde Gerald se encontra?

-Saiu com meu pai. Foram visitar um conhecido... um pintor muito famoso, chamado Franco Peruccio. Você já ouviu falar nele?

-Sim. É amigo de seu pai?

-Pode-se dizer.

Sorriu para mim quando eu aspirei o ar repleto do aroma de laranjas em flor, ao sairmos da casa.

-Você gosta?

-Acho delicioso. Sempre venta assim por aqui?

-Huhum! O vento é constante.

Procurei ajeitar o melhor que pude o cabelo, colocando-o para trás e prendendo com uma fivela de madeira. Corine, que tinha os cabelos crespos na altura do queixo, não parecia se incomodar.

Enquanto caminhávamos e conversávamos, eu ia fotografando o que mais me chamava a atenção encantada com os pessegueiros e as amendoeiras em flor (verdadeiras manchas de verde e rosa impressionista), com os gerânios e as mimosas e o perfume dos limoeiros e das laranjeiras. Quando chegamos a primeira loja de roupas eu já estava no segundo filme. Corine começou a conversar com a vendedora, enquanto eu examinava o que estava a venda.

-Encontrou algo de seu gosto, Miranda?

Indagou alguns minutos depois, parando ao meu lado. Mostrei-lhe uma calça Capri xadrez de fundo branco e linhas verdes e outra preta.

-Que me diz?

-Parecem combinar com você. Venha, vamos experimentar algumas roupas. Você deve se cobrir do espírito de Capri.

Zombava de mim, mas eu ri e concordei.

Acabei comprando as duas calças e uma blusa vermelha, por insistência de Corine, além de um belíssimo xale de seda preta, pintado a mão com rosas escarlate.

-Estou me sentindo em férias, mas tenho certeza de que Gerald me trará de volta a realidade rapidamente.

Falei, algumas horas mais tarde, sentada a uma das mesas da Piazzetta de Capri, saboreando um suco de frutas com vinho e muito gelo.

-Fale-me de você, Miranda. Desculpe se sou indiscreta, mas adoro novidades e você tem um ar muito romântico.

Observei Corine atentamente, recostando-se na cadeira e permanecendo em silêncio por alguns segundos, antes de responder-lhe.

-Não creio que eu seja tão romântica quanto você julga.

-Sou muito curiosa!

Fez uma careta e eu me dei conta de que ela não era nada parecida com o pai.

-O que você gostaria de saber?

-O que você quiser contar...

-Sou uma pessoa de difícil convívio, segundo Gerald, que sofre com as estocadas de minha língua, mas que sobrevive, por adorar meu trabalho. Me formei em Designer Gráfico, mas sou realmente apaixonada por fotografia. Meus pais moram na Cornualha, adoro animais, gosto de ler, também sou curiosa e costumo viajar bastante. Satisfeita?

-Por enquanto. Agora, me diga, você já conhecia Joaquin?

Senti um certo ardor nas faces ao ouvir-lhe a pergunta.

-Eu o vi no navio em que cheguei.

-Oh, sem dúvida. Ele havia ido com a mãe buscar Amatrice.

-Sim?


-Amatrice é uma amiga de minha tia, que vem passar uma temporada aqui. Deve ter se hospedado em um dos hotéis. Você logo deverá conhecê-la. Ela é louca por meu pai.

Fiquei em silêncio, sem saber exatamente o que falar.

-Desde que minha mãe... se foi, há seis anos, Amatrice tem esperança de que meu pai caia em suas mãos. Ela sempre foi louca por ele. Você deve ter percebido que ele é do tipo charmoso, sem ser conquistador.

Dei uma risada ao ouvir-lhe a definição.

-Eu diria que ele é bem envolvente.

Enquanto eu murmurava estas palavras pensava no homem que era alvo deles; muito digno de atenção!

Conversamos mais um pouco antes de voltarmos preguiçosamente para a Villa e, ao chegarmos, encontramos Franco Petruccio reunido a Lance, Gerald e duas mulheres, das quais uma deveria ser Lynneth e a outra... Amatrice. Fui apresentada ao Senhor Petruccio (um agradável homem de seus 50 anos, com cabelos grisalhos e a galanteria italiana) a Lynneth (pouco parecida com Lance, três ou quatro anos mais jovem) e a Amatrice. Esta ultima prendeu minha atenção. Era loura e alta e muito elegante. Devia ter aproximadamente 35 anos e eu gostei dela. Parecia realmente interessada nas respostas que eu dava as suas perguntas e isso me agradou.

Pedi licença e fui para meu quarto, largar as compras e passar uma água no rosto. Fiquei por lá alguns minutos, desempacotando as roupas e colocando nas gavetas e cabides. Achei que não haveria necessidade de trocar de roupa, por isso apenas ajeitei os cabelos e passei um pouco de batom, acomodando minha máquina sobre o penteador. Duas batidas rápidas na porta depois, Joaquin enfiou a cabeça pelo vão que abrira e sorriu para mim, do seu jeito peculiar.

-Quer companhia para descer?

-Por que não?

Calcei os sapatos e saí para o corredor, caminhando ao lado dele. Reparei com o canto dos olhos que seu cabelo estava molhado e que ele exalava um agradável odor cítrico.

-Corine levou-a a lugares interessantes?

-Gerald me fez crer que todos os lugares são interessantes em Capri.

-Pena que ele não a levou a crer que todas as pessoas são interessantes em Capri.

Sorri para frente, me divertindo com o que ele dizia.

-Gostaria de dar uma volta após o jantar?

Antes que eu pudesse responder, Corine pulou do nada entre nós, assustando-me.

-Joaquin, deixe Miranda em paz! Ela veio para trabalhar, não para você lhe partir o coração.

-Cora, as pessoas não precisam que as outras façam isso por elas.

Falou com sarcasmo, pouco antes de entrarmos na sala de jantar, com Corine entre nós segurando nossos braços. Não pude dar minha resposta a Joaquin, mas percebi que ele olhava silencioso para mim, sem ao menos procurar disfarçar seu interesse, o que, de certa forma, me agradou, mas também constrangeu.

Comi pouco e, quando os outros passaram para a sala de estar, em grupos, sem temer ser rude, fui para meu quarto. Desejava ter saído com Joaquin, mas ele desaparecera da sala após o jantar e eu julguei que não desejava mais minha companhia. Duas horas depois eu ainda estava deitada em minha cama, lendo “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, quando bateram a minha porta. Meu coração deu um salto, mas meu entusiasmo arrefeceu quando Gerald entrou, sentando-se na cama.

-Então, querida, o que achou do seu primeiro dia no paraíso?

-Ainda não ganhei minhas asas.

Resmunguei, marcando a página do livro em que parara de ler e colocando-a sobre a mesinha de cabeceira.

-Às vezes você parece ter tão pouca imaginação...

-Desculpe! Devo estar precisando de uma grande experiência na vida para acabar com o tédio.

-Toda esta revolta é porque o rapaz não falou com você durante o jantar ou porque ele se desmaterializou após o jantar?

-Gerald!


-Miranda, ele não procurou ser nenhum pouco discreto e você... eu conheço você muito bem.

Dei de ombros.

-Ninguém me avisou que todo esse romantismo de Capri também se pegava ao respirar o ar daqui. Estou me sentindo uma tola e tudo parece romântico.

Gerald atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada que me levou ao riso.

-Gerald, ele me convidou para dar uma volta após o jantar, mas parece que se esqueceu.

-Você vai sobreviver, querida. Não parece que o jovem Joaquin seja do tipo que precisa correr atrás das mulheres.

-Sim... e eu não sou nenhuma beldade.

Gerald me deu um tapinha carinhoso na face esquerda.

-Não seja boba, Miranda.

Inclinando o rosto beijou-me a testa e após desejar boa noite saiu do quarto. Só depois me dei conta de que não havia pedido a Gerald para não me tratar como uma criança... pelo menos na frente dos outros. Aborrecida, apaguei a luz e me ajeitei sobre o travesseiro disposta a dormir.




  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal