Guy debord



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Guy Debord “A Sociedade do Espectáculo”

Francisco Palma,



Janeiro 2004
1 – A Internacional situacionista e a critica ao modernismo
A Internacional Situacionista foi fundada em 1957 em Itália, publicou o seu manifesto em 1960, e preconizava uma solução revolucionária para a transformação da sociedade, que os subscritores consideravam ser alienante e opressora. A solução apresentada pela Internacional Situacionista é não só política mas fundamentalmente de cariz cultural e artístico. Segundo os situacionistasi, a referida solução passava genericamente, por exigir uma nova cultura contra o espectáculo e a favor da participação total; contra a arte conservada e a favor do momento vivido directamente; contra a arte fragmentária e a favor de uma prática global, colectiva, anónima e universal; contra a arte unilateral e a favor de uma arte do diálogo, da inteiração entre os artistas e a sociedade; contra a arte do novo e a favor da coexistência de várias tendências, de várias experiências, e de "escolas” radicalmente diferentes e em simultâneo.
Guy Debord e a “Internacional Situacionista” assumem uma posição de ruptura com o modernismo de Greenberg, que dominou o modelo de análise das artes visuais no período posterior à II Guerra Mundial, acabando por integrar alguns artistas de grupos artísticos já existentes, como é o caso do grupo COBRA. O modernismo de Greenberg assumia para si a universalidade das suas formas e da sua definição de arte, representante das chamadas “vanguardas históricas” e apoiava a sua tese nas constantes rupturas e na sucessão do novo, na sucessão rotineira e progressiva de movimentos que iam desde a obra “Olívia” de Manet e que se desenvolvia até ao Expressionismo Abstracto nos EUA, integrando artistas como Jackson Pollock, entre outros do informalismo. Posteriormente, questionando este pensamento, e por oposição a uma certa generalização da abstração dos anos´50 cria-se um debate que marcou a agenda da história e teoria das artes visuais a partir dos anos' 60, onde Guy Debord se integra, afirmando com a sua obra artística, teórica e actividade politica, a sua crença num discurso e numa prática vitalista, ou seja o mundo existe agora, no presente, neste momento, portanto a situação é para ele o mais importante, que não pode ser integrado nem reduzido a movimentos, nem a manifestos estéticos, Debord propõe uma arte do tempo em que possam ser inscritas situações passionais.
Debord começa por criticar a exigência de que a arte tem de representar, ele critica a representatividade não só na arte, mas também na política e na sociedade em geral. Considerando a representação como uma forma de alienação, como uma atitude dominante do poder politico e também religioso.
Para Guy Debord a representatividade espectacular deve ser substituída pela situação, “ela é o tempo e o momento”. O mundo existe agora. Debord defende um pensamento que apela ao realismo, apela à situação do vivido, do real, do fragmento e da deriva. Propõe uma arte de afirmação de situações do presente. Debord afirma que o presente não pode ser apenas reduzido a uma prática estética, ao espectáculo. Criar situações, criar novos aspectos vitais nas relações com a sociedade, a procura do efeito do imediatismo, da vida é o objectivo dos situacionistas.
Dois dos conceitos e práticas mais importantes introduzidos pelos situacionistas e particularmente por Debord foi o conceito de deriva, de perder-se nos labirintos da cidade, e ao mesmo tempo criar novas situações onde o ser humano habitasse, este é o conceito de desvio.

2 – “A Sociedade do Espectáculo”

“A Sociedade do Espectáculo”, um texto que Guy Debord publica em 1967, no qual denuncia a actual sociedade como geradora de uma acumulação de espectáculos em que se perdeu a referência da realidade e onde se vive numa constante representação.

O consumidor real toma-se um consumidor de ilusões. A mercadoria é esta ilusão efectivamente real, e o espectáculo a sua manifestação geral”

2.1. A realidade e a imagem

“A realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espectáculo…a realidade surge no espectáculo, e o espectáculo é real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.” diz Debord. O real é importante para Guy Debord porque o real é capaz de afectar as pessoas, constitui uma forma intensiva de perceber, do real não nos conseguimos distanciar, temos que o confrontar, exige uma intensidade de afecção.

Em Debord a sociedade não é somente “…o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens…” mas é ainda mais, esta sociedade é “…uma visão do mundo que se objectivou”. A imagem em Guy Debord aparece apenas como um meio sem autonomia, com o papel de servir como elementos de uma construção espectacular. Debord chama a atenção para a importância do sentido visão e das imagens, que se tornaram “seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”. O sentido da visão é utilizado como meio privilegiado no espectáculo e na actual sociedade, referindo as suas características e possibilidades mistificadoras e abstratizantes, obviamente pretendendo assinalar a facilidade com que pode ser utilizado como objecto de manipulação e de alienação.

2.2 A mercadoria
Debord vai integrar todo o ideário marxista para compreender e explicar uma sociedade “onde reinam as condições de produção modernas”, onde o fundamental é compreender quem detêm os meios de produção.
A força de trabalho torna-se mercadoria. Tudo se transforma em mercadoria, a realidade, as imagens e arte são reduzidas ao valor de mercadoria com o fim em si mesmo. A mercadoria domina tudo o que é vivido. Na linguagem espectacular, diz Debord, a qualidade é subestimada em favor da quantidade.
Antes da técnica, a necessidade criava a mercadoria agora é a mercadoria que cria a necessidade. A necessidade humana esgota-se. A publicidade cria desejos que ela própria satisfaz.

2.3. O espectáculo
Na actual sociedade tudo é transformado em espectáculo, é o espectáculo da política, é o espectáculo da arte, defende Debord, “O espectáculo em geral, como inversão concreta da vida…”

Debord chama ainda a actual sociedade de espectaculista , segundo este autor, o que interessa hoje na sociedade não é o fim a atingir, mas que apenas pretende realizar o percurso no sentido de si próprio. O espectáculo é fascínio, é representação, simulação e anunciação. O espectáculo é algo que não se releva mas antes se anuncia, não é imediato. É simulação, porque é artificial. É representação, não é momento. É fascínio porque desperta o desejo e as paixões.



O espectador assiste passivamente e torna-se um receptor acrítico. Mistura-se hoje cada vez mais a cultura e a economia. Bens culturais transformam-se em bens de consumo. O espectáculo torna-se o factor de dominação económica, cultural, social e politica da actual sociedade.
Guy Debord apresenta no primeiro texto “ A sociedade do espectáculo” dois tipos de espectáculo, o concentrado, onde o autor diz que podemos identificar a ideologia de quem tem poder, quem tem os meios, característico dos estados totalitários, e o espectáculo difuso, que incita as massas a fazer uma livre escolha entre uma grande variedade de novas mercadorias, tendo como exemplo a americanização do mundo. No seu texto de “Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo” Guy Debord apresenta um outro tipo de espectáculo a que dá o nome de espectáculo integrado e que consiste na fusão do Difuso e do Concentrado, com base no primeiro que segundo o autor foi o que mais se impôs, e que tem a tendência de vir a impor-se mundialmente e acabou por se misturar amplamente com toda a realidade. Este, segundo Debord, caracteriza-se pela “renovação tecnológica incessante; fusão económico-estatal; segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente prepétuo”. O segundo tópico é aquele que mais se manifesta na actualidade.

3 – Considerações finais
Carlos Vidal, num texto sobre Debord chamou a atenção para o que este autor escreveu no prefácio à quarta edição italiana de “A Sociedade do Espectáculo”, onde se pode ler que “ não há que mudar uma só palavra a este livro...Orgulho-me de ser um assaz raro exemplo contemporâneo de alguém que escreveu sem ser desmentido pelo acontecimento…uma única vez.”ii
Neste texto, Carlos Vidal transcreve também um texto de Giorgio Agamben, que refere que quando Guy Debord ”publicou a Sociedade do Espectáculo, a transformação da política e de toda a vida social numa fantasmagoria espectacular, não tinha ainda atingido a figura extrema que se tornou hoje perfeitamente familiar. O que torna ainda mais notável a implacável lucidez do seu diagnóstico”.
Também alguma da arte mais recente, poderemos considerar serem resultados das teses de Guy Debord e dos situacionistas, principalmente em certas práticas apropriacionistas, que em vez de utilizar objectos originais que o artista produza, integram elementos e materiais já existentes, assim como movimentos artísticos que em simultâneo integraram na mesma obra de arte referências e experimentalismos de diferentes épocas históricas, de forma aberta e eclética, como no caso da arte da transvanguarda italiana desenvolvida na década de 90 do sec.XX.
Já outros autores, antes e depois de Guy Debord, tinham alertado para uma certa alteração da realidade, para uma possível alienação e controle das massas na actual sociedade, Walter Benjamin falou-nos da diversão e do seu fascínio, Greenberg nas afecções do Kitsch, Adorno na padronização da “indústria cultural”, Elihu Katz nos “acontecimentos mediáticos pela TV”, Habermas no espaço público e no seu “consumo passivo”, Baudrillard nos simulacros, mas nenhum deles transmitiu de um forma tão brutal e explosiva a necessidade de recorrer à noção vitalista do momento vivido, da situação, nenhum deles fez uma critica tão profunda a uma sociedade cada vez mais dominada pela estetização e pelo poder mediático.
Debord vem dizer-nos que a sociedade do espectáculo é a impossibilidade de se viver a realidade do quotidiano como uma experiência global, unitária e em liberdade.

4 – Um projecto artístico em torno de Guy Debord
Espectáculo, disseminação, deriva e exílio: um projecto em torno de Guy Debord”

Exposição colectiva em Beja, Março de 1985, com os artistas Fernando



Brito, João Louro, Paulo Mendes, Miguel Palma e Carlos Vidal.
Esta exposição centrou-se nas ideias do situacionista francês Guy Debord. Como escreveu o comissário da exposição, Jorge Castanho, no catálogo, esta exposição aborda a problemática “da lenta transferência dos antigos locais de escravidão – fábrica, oficina, herdade – para novas formas de exploração espectacular, como os hipermercados ou a televisão.” iii Esta exposição ainda segundo o comissário “não sai dos limites da arte e da estética”.
O espaço onde se realizou a exposição foi uma antiga fábrica abandonada, a Metalúrgica Alentejana. Uma das obras que participou nesta exposição, de autoria de Fernando Brito, era “um tractor agrícola engatado na 1ª velocidade e a funcionar ao relantiiv, tentando criar uma imagem da inactividade e inércia produtiva no Alentejo e no país.
Na opinião de um dos artistas participantes e também ensaísta, Carlos Vidal, o objectivo é questionar a representação e “dizer que a politica é uma forma de representação desprezível e espectacular, é pouco; é necessário dizer que a política profissional é fascista, corrupta: é o crime organizado”, referindo ainda este artista que “A politica das sociedades ocidentais são actualmente, o maior totalitarismo que já existiu ao de cima da terra”v.
Nos diversos textos desta exposição são ainda levantadas outras questões problemáticas das artes plásticas, como por exemplo que papel desempenha a critica da arte como factor de alienação e até que ponto é que os artistas se libertaram do totalitarismo da representação que faz com que “a arte seja sempre uma actividade falsificada, uma prótese”vi.
Ainda na sequência do pensamento de Guy Debord, estes artistas defendiam que “a construção de situações é o caso limite deste questionar. A consciencialização do vivido é encarada como arte. A situação é um momento deliberadamente criado, um movimento passional, que vai inscrever-se no Estado-Providência, que é a sociedade da morte, não pela fome, mas pelo tédio… É uma forma de retratar esta sociedade mistificadora e abjecta.”vii


4. Bibliografia

- Manifesto da Internacional Situacionista, Publicado na Internacional Situacionista 4, (1960). http://www.terravista.pt/IlhadoMel/1540/ismanifesto.htm


- DEBORD, Guy, Comentários sobre A Sociedade do Espectáculo, À memória de Gérard Lebovici, assassinado em Paris a 5 de Março de 1984, http://www.terravista.pt/IlhadoMel/1540/comentarioses.htm

- DEBORD, Guy, A Sociedade do Espectáculo, http://www.terravista.pt/IlhadoMel/1540/

- FARIA, Óscar, Jornal Público, Em torno de Guy Debord, 2 Abril 1995



- VIDAL, Carlos, Democracia e Livre Iniciativa-Política, Arte e Estética, Fenda Ed., 1996



i Manifesto Situacionista, 1960

ii Carlos Vidal, Democracia e Livre Iniciativa-Política, Arte e Estética, Fenda Ed., 1996, pp.54

iii Óscar Faria, Jornal Público, Em torno de Guy Debord, 2 Abril 1995, pp 31

iv 5 6 7 ibidem


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