Gt 4 – epistemologia das práticas sociais a doutrina social da igreja católica e a açÃo educativa voltada ao trabalhador em recife (1937/1945)



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2. O Contexto Histórico da Década de 1930


  Para a compreensão das práticas e representações analisadas, é fundamental configurar a década de 1930, sobretudo devido as transformações, seja pelo momento de ruptura institucional, seja pela complexidade do quadro de transição. A respeito dessa questão, ressalta Mello (1985, p.191):

 

[...] a crise se fez sentir em toda extensão, [...] vinha da área política, afetada pela sucessão presidencial, deslocava-se para área militar com o tenentismo, para a área social com as inquietações operárias, as greves e o aumento do custo de vida, para a área cultural com a Semana de Artes Moderna e os movimentos literários regionalistas, e também para o setor educacional, onde existe toda uma fermentação que irá desembocar no Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, de 1932 [...].


Consolidava-se a necessidade de organização de um novo Brasil, urbano-industrial, como contraposição ao mundo rural. Externava-se uma insatisfação com a incapacidade do governo central em corrigir os males da economia agrícola baseada unicamente na produção do café – e voltada exclusivamente para a exportação. (MARTINS, 2001).

O principal referencial dessas transformações refletiu-se na ascensão de Vargas ao Governo Federal, como resposta de insatisfação às oligarquias agrárias, sob a égide de poder do “Café-com-Leite”.  Produto da insatisfação política, se opuseram à chapa governista, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba apoiando a chapa Vargas/João Pessoa que foi denominada de Aliança Liberal. Sobre esse processo, destaca Fausto (1997, p. 149):


A Revolução de 1930 põe fim à hegemonia da burguesia do café, [...] o episódio revolucionário expressa a necessidade de reajustar a estrutura do país, cujo funcionamento, voltado essencialmente para um único gênero de exportação, se torna cada vez mais precário.

 

A importância da crise desencadeadora da revolução de 1930 que consolidou a ascensão de Vargas ao poder pode ser refletida pela notícia veiculada pelo Jornal do Brasil, à época:



 

Getúlio Vargas é o novo dono do poder no Brasil. Ele assumiu interinamente a Presidência da República [...] o assassinato de João Pessoa, vice de Vargas, uniu os dois grupos em torno da revolução. Com a crise do café e o descontentamento com o Governo Washington Luiz, foi fácil organizar levantes em todo o país. [...].(Jornal do Brasil, Edição Especial, 2000, p. 9).

 

Vitoriosa a revolução, termina, assim, a “República Velha”, inaugurada em 1889. Portanto, uma transição de necessidade da renovação da política nacional.



3. A Realidade da Paraíba


 A Paraíba se constituiu num importante cenário dessa conjuntura. Ou seja, o Presidente João Pessoa, que travava uma disputa com o coronel José Pereira Lima27, representante do Partido Republicano Paraibano (PRP), aceitou fazer parte, como vice-presidente, na chapa de Vargas, constituindo, assim, a chamada “Aliança Liberal”. (RODRIGUES, 1981).

De acordo com Sylvestre (1993, p. 47), João Pessoa, apesar de pertencer ao epitacismo28, assume a condição de uma gestão  intervencionista na vida administrativa do Estado. Por via de regra, não demoraria a se conflitar com históricos aliados, A esse respeito, ressalta Bertolli Filho (1999, p. 51):

 

Desde o momento em que passou a integrar a Aliança Liberal, a Paraíba foi o estado oposicionista mais castigado por Washington Luís. Mesmo antes das eleições de 1930, o presidente havia incentivado os coronéis do interior daquele estado, chefiados pelo latifundiário José Pereira, da vila de Princesa, a se defrontarem com o governo estadual, colocando em dúvida sua autoridade política.



É importante reafirmar que a configuração política propagada pela Aliança Liberal, em toda parte do país, conseguiu a adesão de seguimentos urbanos na sociedade, descontentes com as oligarquias agrárias. Reforçando essa análise, ressalta Pinto (2003, p. 17):

O processo de urbanização, acompanhado do surgimento de camadas médias e operárias, criou um caldo de cultura para o aparecimento de novas formas de organização da sociedade: O movimento de mulheres parece ser um exemplo das formas que essa organização podia tomar e aponta e aponta para um aspecto importante: não se tratava apenas de um grupo que lutava diante das instâncias do Estado, ou que simplesmente buscava deputados para propor projetos de seu interesse, mas de uma estratégia mais complexa. O uso constante dos jornais, a presença em eventos públicos e até a realização de uma passeata mostram que essas mulheres não eram apenas exceções excêntricas em uma época de recato, mas pessoas que pretenderam ampliar sua base de apoio buscando formar uma opinião pública a seu favor.

 A verdade é que os ideais reformistas propagados pelos liberais, revestiram-se de uma forte amplitude popular, de um sentimento de participação de novos grupos sociais que estavam se constituindo naquele contexto. Sobre essa questão, assevera Fausto (1997, p. 134):

 

Sua base de apoio é representada por todas as forças sociais das regiões em dissidência e pelas classes médias dos grandes centros urbanos. O proletariado tem no episódio revolucionário uma “presença difusa”. Certamente não intervém na revolução como classe, tomada a expressão em sentido estrito, isto é, como categoria social composta de indivíduos que não só exercem papel semelhante no processo produtivo, mas têm objetivos definidos de ação, oriundos de uma consciência comum do papel que desempenham neste processo e na sociedade.



 

Na Paraíba, vários grupos urbanos, dentre os quais, destacamos as mulheres educadoras passaram a integrar os chamados comitês femininos pró-Aliança-Liberal. O apoio pode ser sintetizado na informação veiculada pelo Jornal A União, em 15 de maio de 1930: “Expressiva homenagem das alunas da Escola Normal ao presidente João Pessoa - uma revoada de moças ofereceu ao chefe do governo 300 cartuchos para o combate ao cangaceirismo”.29

Segundo Mello (1979, p. 204), “as mulheres atendiam dest’art à pregação feminista de Carlos Dias Fernandes e José Américo de Almeida”. Ainda segundo o mesmo autor, citando o Padre Eurivaldo Tavares:
Analice Caldas compreendeu o fenômeno que culminou na mobilização das moças da Escola Normal e campanhas dos mil réis liberal e arco do triunfo, todas em prol do presidente João Pessoa. Nesse sentido, não foi por acaso haver duas professoras da época – Adamantina Neves e Rita Miranda – liderando o movimento que culminou na mudança do nome da capital paraibana para João Pessoa e a institucionalização da nova bandeira do Estado.

 

A respeito da intensa participação feminina, reforça Aguiar (2005, p.19) que, de fato, eram as alunas da Escola Normal as principais apoiadoras e partidárias da Aliança Liberal. De acordo com o autor:



Elas estavam na maioria das vezes à frente das passeatas e meetings, como se dizia na época. Fardadas de azul e branco, entre seus 14 e 20 anos, as normalistas bem simbolizavam o total apoio do povo à reforma e renovação empreendidas no Governo pelo estadista conterrâneo. (AGUIAR, 2005, p.19)

 

O assassinato de João Pessoa, em 26 de julho, pelo então opositor João Dantas, na Confeitaria Glória, em Recife, foi o catalisador que faltava para encorajar manifestantes aliancistas, fato que fez acelerar a revolução, e vitoriosa no mesmo mês de 1930.  (SYLVESTRE, 1993, p. 122):



Portanto, em função dessa contingência histórica, a Revolução de 1930, fundamentada nas no ideário da nova elite urbana constituiu-se num marco irreversível da história brasileira do século XX.

 

4. A Fundação da Associação Paraibana pelo Progresso Feminino

O ano de 1922 é marcante para a afirmação do movimento de mulheres com a fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), cujo embrião foi a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, criada em 1919 por Bertha Luthz e Maria Lacerda de Moura, em prol da luta pelo voto feminino. Após participar da Conferência Pan-Americana de Mulheres em Baltimore, em 1922, Bertha Lutz volta ao Brasil imbuída de novas formas de ação e com o intuito de criar uma Associação Nacional que aglutinaria associações estaduais e locais, à luz da organização internacional.

A exemplo da FBPF, iam surgindo por todo o país várias associações com o mesmo caráter, como a Federação Bahiana pelo Progresso Feminino, criada em 1931, atuando em defesa dos direitos da mulher até 1937. Tinha entre suas principais representantes, dentre outras ilustres e distintas senhoras da alta sociedade baiana, a jornalista Edith Mendes, a feminista Lili Tosta, que escreveu exaustivamente nos jornais da época, em defesa do voto feminino, e Francisca Fraga Fróes, uma das primeiras médicas do Brasil. A Federação dava ênfase à profissionalização da mulher, realizava atividades de cunho filantrópico, graças á contribuição financeira de suas militantes, oferecendo gratuitamente cursos profissionalizantes e de idiomas para outras mulheres baianas.

Em Alagoas, no ano de 1932, toma posse a 1ª diretoria da Federação Alagoana pelo Progresso Feminino, fundada por Maria José Salgado Lages – Lili Lages, que dois anos mais tarde seria eleita deputada estadual pelo seu Estado. Constituída por mulheres da classe alta maceioense, solteiras ou casadas, essa associação seguia a proposta de Bertha Lutz, caracterizada pelo assistencialismo, a luta pelo voto e pela educação. Lili Lages defendia que a independência da mulher e qualquer de suas aspirações só se daria após a aquisição de uma boa educação. Em prol dessa aquisição, a associação oferecia cursos noturnos e conferências. (AMORIM, 1992)

Embora com uma distância de 11 anos da criação da Associação Nacional, em 11 de março de 1933, instala-se a Associação Paraibana pelo Progresso Feminino na sede da Escola Normal, em João Pessoa, após a realização de duas sessões preparatórias, uma no dia 6 e outra no dia 13 de fevereiro daquele ano. A diretoria era composta por mulheres de destaque na sociedade paraibana pela atuação no sistema educacional - Presidente, Lylia Guedes; Vice-presidente. Olivina Carneiro da Cunha; secretária, Alice de Azevedo Monteiro; oradora, Albertina Correia Lima; tesoureira, Francisca de Ascenção Cunha e bibliotecária, Analice Caldas:


Todos os nomes que formam a diretoria atual da novel sociedade, têm uma alta significação no seio do magistério e da sociedade paraibana. Nomes que são uma flâmula da vitória ganha na luta diária por um lugar de honra na vida humana. (MACHADO, Juanita B., 1933, p. 3)

Com freqüência, vão ser publicados textos dessa autora, articulista d’O Diário de Pernambuco, no jornal A União, geralmente versando sobre a APPF, suas associadas ou outros assuntos referentes às lutas femininas, uma vez que ela parece ter desempenhado o papel de assessora na fundação e implementação da Associação paraibana.

O ano de 1933 foi significativo para o movimento feminista: as militantes da FBPF se articulavam para participar na elaboração da nova Constituição. Bertha Lutz, escolhida para compor a comissão, sintetizou a proposta feminina num documento intitulado 13 Princípios Básicos. Sugestões ao Ante Projeto da Constituição, que abordava desde questões como a maternidade, a infância, o lar, melhores salários, licença remunerada, acesso das mulheres aos cargos públicos até a proteção da flora e da fauna. Merece destaque o VIII Princípio que trata da equiparação dos sexos justificada pela assertiva de que a mulher é diferente anatômico-fisiológicamente do homem e não inferior, como alguns cientistas preconizavam.

Observa-se através dos textos para os quais a APPF solicita publicação no jornal A União uma preocupação com o impacto que a criação daquela associação feminina poderia estar causando na sociedade paraibana, bem como faz questão de esclarecer que não havia intenção de insurgir-se contra a Igreja Católica ou contra a ordem governamental. É o que fica claro no texto seguinte, redigido por Lylia Gudes, presidente da APPF:

Sr Redator: Meus respeitosos cumprimentos. Rogo-vos a mímia gentileza da publicação, em vosso conceituado jornal, do seguinte esclarecimento que desejo às nossas patrícias, na qualidade de presidente da Associação Paraibana pelo Progresso Feminino, sociedade recém-fundada nesta capital.

Logo ao circular a notícia de nossa instalação, algumas associações católicas eram advertidas pelos seus diretores espirituais de que a Federação Brasileira pelo progresso Feminino, com sede no Rio de Janeiro, dirigida pela Dra Bertha Lutz – sociedade por cuja iniciativa fora fundada a nossa, pregava idéias contrárias ao catolicismo. Ora, a nossa única intenção foi reunir a família paraibana no laço da maior fraternidade, sem impor princípios que viessem ferir melindres religiosos, políticos ou mesmo regionalistas. A associação com suas sessenta e tantas associadas, em grande parte católicas[...] tendo como preocupação exclusiva o engrandecimento da mulher sem imposição ou restrição alguma às suas crenças que serão respeitadas de modo absoluto. Todas somos mulheres e é isto que nos une.

Apressei-me, pois, em pedir informações às filiadas da Federação, da maneira como tinham sido recebidas pela Igreja Católica e agora que me chega boa documentação sobre o caso, estou habilitada a dizer às minhas distintas consórcias e demais patrícias que a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, dirigida pela Dra Bertha Lutz, de cujo programa nos afastamos da parte que pleiteia direitos para a mulher – pela razão já divulgada pela imprensa, mas que se faz oportuno repetir, de ser a grande maioria de nossas patrícias indiferentes a tais conquistas – foi recebida nos Estados onde fundou filiais, com os maiores aplausos, por parte da Igreja Católica e em alguns parece até que a Igreja e a Federação comungam o mesmo ideal. (ASSOCIAÇÃO PARAIBANA, 1933, p.1)

Uma das primeiras atividades sócio-culturais organizada pela APPF teve como objetivo homenagear o interventor Gratuliano Brito, o cônego Mathias Freire e a Imprensa. Segundo foi noticiado pelo órgão oficial, a festa transcorreu no meio de aplausos e reconhecimentos recíprocos. O cônego falou em seu nome e no do interventor, agradecendo a homenagem bem como enaltecendo os “relevantes serviços” que a Associação vinha prestando à mulher pessoense. De parte da APPF, a escritora Juanita Machado foi a representante, pronunciando um discurso laudatório que enaltecia a generosidade das duas autoridades referidas acima, cuja principal ação parece ter sido a cessão do espaço da escola Normal para sediar a Associação.

Chama a atenção o agradecimento feito á imprensa paraibana, destacando sua grande contribuição para o desenvolvimento das civilizações:

O jornalismo nós o sabemos, vale pelas idéias que propaga, pelos incentivos que espalha, pela elegância da voz, clarim da mentalidade de um povo. Sua percussão fica reboando através dos tempos, como o sinal mais nítido de uma época; ele é o marco luminoso de propaganda de todas as tentativas, é enfim o gigante de botas de sete léguas, levando o facho das civilizações por esse mundo afora. Nós, que muito devemos ao jornalismo prestigioso e inteligente de João Pessoa, pedimos aos representantes dele, aqui presentes, que transmitam aos seus jornais o “muito obrigado” profundamente sincero da Associação Feminina. (MACHADO, 1933, p. 1)


Estariam as associadas, sutilmente, utilizando táticas para adentrar no espaço do outro, ao mesmo tempo em que conseguiam estabelecer alianças? (SOIHET, 2000) Ou seria apenas uma manifestação de “feminismo elegante?” (MACEDO, 2000).

Como a pesquisa está iniciando fica difícil fazer uma afirmação peremptória optando por uma ou outra posição. Todavia, é importante ressaltar que 5 dias após essa homenagem “Uma comissão de senhoras e senhoritas da referida Associação procurou o diretor desta folha, dr Samuel Duarte, pleiteando uma página quinzenal, para a necessária divulgação de trabalhos literários e de propaganda firmados por suas consórcias, sendo imediatamente atendidas”. (ASSOCIAAÇÃO PARAIBANA...1933, p.1)

O primeiro texto publicado pela APPF foi uma homenagem ao 3o. aniversário da morte de João Pessoa, tratando o paraibano citado como herói e mártir e a Paraíba como redentora do país:

Se algum dia, o destino implacável quebrasse os elos da nossa unidade [...] Bastava que, á semelhança dos gregos cativos em Siracusa, os teus filhos contassem aos pósteros a sublimidade dos teus martírios em prol de uma pátria livre e recitassem, para comovê-los, o sacrifício de João Pessoa.

Sim, porque então, como no dia de hoje, em que evocamos a memória do herói-mártir, será para ti, oh! Paraíba bendita, que se voltarão todos os filhos do Brasil, na confiança de que os redimirão. (O 3o. ANIVERSÁRIO...1933, p.1)

Embora preocupadas com as homenagens e com as justificativas de que a Associação não traria nenhum desajuste à sociedade paraibana, as mulheres procuravam, em seus textos sempre deixar claro a importância e a necessidade de ser oferecida educação para a mulher, a fim de transformá-la em elemento impulsionador do progresso: “Enfim, chegamos a resolução dessa vontade de ferro – fazer de nossas patrícias elementos sólidos com que a sociedade dispusesse de futuro para atingir a culminância do valor, da estética do espírito.”(EM TORNO DE..., 1933, p. 11).



5. A Associação Paraibana pelo Progresso Feminino: concepções educativas

O objetivo principal da FBPF era fazer com que fossem reconhecidos os direitos da mulher - o que só ocorreria pela elevação do nível de instrução feminina. Dessa forma, o primeiro ponto do Estatuto da Federação trata da promoção da educação da mulher, enfatizando que não avançaria em qualquer área se antes não lhe fosse dada a educação plena.

Salvas as particularidades, as filiais da FBPF tinham em comum principalmente dois pontos: a luta pelo voto e o direito á educação. Assim, a APPF em sua primeira sessão preparatória assevera que funcionará:

[...] mais ou menos nos moldes da ‘Federação Brasileira pelo Progresso Feminino’ cujos principais fins são: 1o. Promover a educação da mulher e elevar o nível da instrução feminina; 2o. Proteger a mãe e a infância; 3o. Obter garantias legislativas para o trabalho feminino; 4o. Auxiliar as boas iniciativas da mulher e orientá-la na escolha de uma profissão; 5o. Estimular o espírito de sociabilidade e de cooperação entre as mulheres e interessa-las pelas questões sociais e de alcance público. (A FUNDAÇÃO NESTA..., 1933, p.8)

Para desenvolver o programa acima, a APPF propõe fundar uma biblioteca, oferecer aulas de línguas e promover sessões literomusicais, como primeiras ações. E anuncia a necessidade da criação de vários núcleos: 1o. Literatura e cultura da língua materna; 2o. Brasilidade – geografia e história pátria; 3o. Francês; 4o. Inglês; 5o. Alemão; 6o. Italiano; 7o. Economia doméstica; 8o. Cultura Física; 9o. Prendas domésticas – Pintura; 10o. Jogos recreativos – Música; 11o. Beneficência; 12o. Educação Política – Social – Noções de Direito Usual.

A idéia era que a cada grupo de 5 sócias que estivessem interessadas, uma turma se formaria com professor habilitado; por outro lado havia a orientação de que as “mais adiantadas” ajudassem as mais atrasadas. A preocupação com a criação de uma biblioteca estava vinculada ao objetivo de oferecer “leituras sadias e instrutivas” que pudessem elevar mais e mais a alma feminina.

A página feminina que a APPF conquistou no jornal A União foi fundamental para divulgação do pensamento das associadas; não só as mulheres da direção escreviam, mas qualquer sócia poderia se manifestar sobre qualquer assunto, inclusive textos literários também eram publicados. Assim é que se encontram artigos versando sobre os mais diferentes temas: a família, o casamento, a posição da mulher perante as leis do país, Bertha Lutz, hóspedes e visitas, o lar e a mulher, a nossa terra, brinquedo de roda, Festa da Caridade, núcleo de brasilidade, o melhor amigo, definição do beijo, questões de etiqueta, receitas de utilidades, a Eva do século XX, a mulher e a evolução social, entre outros. Por sua vez, o jornal A UNIÃO estava sempre publicando notícias que fizessem referência à associação, a algumas de suas associadas, ou à mulher de forma geral. O fragmento seguinte é exemplo: “Já se acham organizados diversos ‘núcleos’ desta novel associação”. (ASSOCIAÇÃO PARAIBANA...,1933, p.1).

Não é possível analisar aqui todos os textos, mas pode-se afirmar que em todos eles o foco é a mulher e sua posição na sociedade, a educação que deve receber, a conquista de direitos, os aspectos que devem ser trabalhados para a sua formação, a necessidade de se desenvolver a caridade como forma de acabar com a mendicância, o trabalho desenvolvido pela Associação.

Desde as primeiras reuniões para a fundação da Associação, a caridade é apontada como indispensável, juntamente com a ciência e o dever: “Estava lançada a pedra fundamental deste alicerce que sustentará a obra secular onde as sacerdotisas do bem pregarão a doutrina da ciência, do dever e da caridade.” (EM TORNO DE..., 1933, p.11), sendo esta última considerada a “mais nobre”, pois:

A caridade – amor que emana de Deus, irradiando sobre nós o seu misterioso influxo, [...] orvalho a mitigar o calor da miséria que, muitas vezes estiola a flor da pureza, é a última palavra no léxico da natureza que traduz todos os sentimentos e virtudes. (EM TORNO DE 1933, p.11).

Para executar tal objetivo, a APPF, que a princípio estaria voltada para suas associadas, recebendo contribuições financeiras das mesmas e promovendo cursos para atender os seus interesses, convida a sociedade paraibana em geral, para também abraçar a causa a que ela se propõe: “À elite mental da Paraíba cabe amparar essa iniciativa para que sua ação beneficente se faça fonte de beleza [...]” (A BRILHANTE FESTA..., 1933, p.1).

Ao publicar os núcleos, a Associação promete que logo que tiver condições combaterá a mendicância e cuidará em oferecer um pouco de instrução às moças pobres como forma de favorecer-lhes “um meio de vida honesto:

A sociedade manterá, logo que as condições financeiras o permitam, uma escola para aquelas que não estando em idade escolar ou trabalhando para a própria manutenção não disponham de bastante tempo [...] e que não tendo uma instrução mais ampla se vê na contingência de procurar emprego sem competência para exercê-lo. (ASSOCIAÇÃO PARAIBANA...,1933, p.8).

Para sintetizar a concepção de educação que a APPF tem sobre educação, há um texto significativo, escrito pela Vice-Presidente da Associação, intitulado Um leve conceito. Vejamos a primeira assertiva do texto: “A educação considerada como um fator natural, tem por fim a acomodação do indivíduo ao meio a que ele vive.” (CUNHA, 1933, p.10) Na continuidade do artigo, a ênfase é dada ao meio moral como fator que conduz o homem à perfeição, por isso a educação deve ajustar à criança ao seu círculo social. A responsabilidade inicial é dos pais que devem estudar os interesses do filho para saber educá-lo. Se essa educação inicial não for acertada, surgirão as falhas de caráter. Significa que os pais não foram bons modelos, já que a imitação seria a primeira forma de aprendizagem. Assim como a família, o educador também deve ser exemplo para a criança e deve ter aguçada a capacidade de identificar as tendências más trazidas de nascença, bem como identificar as qualidades, o talento, os dotes, o caráter rígido. Por outro lado, tanto a família, mas principalmente o educador, deve combater sentimentos como orgulho, ingratidão, hipocrisia e inveja, desvirtuadores do caráter em formação.

A autora coloca a educação como elemento essencial na formação moral de um povo, como condutora à perfeição da humanidade. Conclui, lamentando a desvalorização do educador pelas gerações mais jovens que já não o vêm com respeito nem o tomam como modelo: “É pena ver o descaso e a irreverência com que retribuem os desvelos múltiplos que esses abnegados empregam nessa contínua evangelização.” (CUNHA, 1933, P. 10). Nessa última afirmativa dois aspectos sobressaem: um que continua presente, a questão da desvalorização do educador, e a conseqüente falta de respeito que permeia, muitas vezes, a relação docente-discente. O outro aspecto reflete a supervalorização da educação, presente na totalidade do texto, atribuindo-lhe um caráter quase sagrado, ao aproximá-la da religião, dando uma dimensão de abnegação à profissão do magistério. O conceito de educação que perpassa o texto está muito voltado para o plano ideal; em nenhum momento as questões políticas e econômicas são colocadas como interferentes ou partícipes no processo de formação do homem. Posição esta que se coaduna com os cuidados que a APPF demonstra desde o início de sua fundação ao colocar-se: “[...] inteiramente alheia a qualquer movimento sectarista, conservando cada associada as suas convicções políticas ou religiosas.” (ASSOCIAÇÃO PARAIBANA...,1933, p.8). Todavia, fica estabelecido pelos elogios mútuos, uma relação cordial da Associação com a Igreja Católica , com o governo e com a Imprensa.

Pode-se dizer que a contribuição inicial da APPF foi trazer à tona a discussão de temáticas referentes à mulher, colocando-a a par do que estava sendo discutido no resto do país, promovendo a reflexão sobre a divisão de espaços e papéis sociais atribuídos a homem e mulher, sobre a inferioridade jurídica e os limites á participação política, além de abrir espaço, através do seu núcleo de beneficência, para que outras mulheres ainda mais excluídas, por serem das camadas populares, tivessem acesso às discussões entabuladas na sede da Associação. Ressalte-se que sua constituição era basicamente por mulheres das classes média e alta, mulheres que de certo modo já tinham alguma visibilidade na sociedade paraibana.



5. Considerações finais

Como esta pesquisa está apenas iniciando, a análise ficou centrada nas noticias da fundação da APPF, nos discursos iniciais, na busca por apoio, na preocupação com a educação da mulher. Registra-se a sua semelhança com as demais associações que estavam sendo criadas pelo país, tomando como modelo a FBPF, que colocava no centro das atenções a importância da conquista do direito à educação como fator de elevação da mulher, o direito ao voto, e o incentivo á solidariedade, através da realização de trabalhos beneficentes.

A leitura dos textos remete ao pensamento de Soihet (2000), que considera as atitudes comedidas das mulheres envolvidas nas associações referidas como táticas para conseguir alianças com setores influentes da sociedade, em geral, para a defesa de seus direitos. Isso é verificado nos discursos proferidos. Em relação à Imprensa, as mulheres vão, de modo bastante sutil, questionando algumas posições restritivas em relação aos direitos da mulher. Textos que oscilam entre a aceitação e o questionamento do status quo, revelando algumas vezes contradições entre o desejo de ultrapassar o estágio atual e medo de ferir os padrões vigentes; e em outras vezes revelam uma certa falta de conhecimento do que seja feminismo, movimento feminista. Nada que não se justifique perante os limites inerentes a uma sociedade essencialmente patriarcal. Para finalizar pode-se apontar como avanço e papel significativo da APPF para a educação da mulher paraibana a promoção do debate e da reflexão sobre a condição feminina.

REFERÊNCIAS:


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 A FUNDAÇÃO, NESTA CAPITAL, DE UMA ASSOCIAÇÃO FEMININA. A União, João Pessoa, fev. 1933, p. 8.

AGUIAR, Wellington. João Pessoa o reformador - transcrição das verdadeiras cartas achadas no escritório de João Dantas. João Pessoa: Idéia, 2005.

 ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

AMORIM, Nádia. Mulher solteira: do estigma à construção de uma nova identidade. Maceió: EDUFAL, 1992.

ASSOCIAÇÃO PARAIBANA PELO PROGRESSO FEMININO. A União, João Pessoa, jun.1933, p.1.

ASSOCIAÇÃO PARAIBANA PELO PROGRESSO FEMININO. A União, João Pessoa, mar.1933, p.8.

ASSOCIAÇÃO PARAIBANA PELO PROGRESSO FEMININO. A União, João Pessoa, abr.1933, p.8.

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CUNHA, Olivina Carneiro da. Um leve conceito. A União, João Pessoa, set. 1933, p.10.

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FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930 – historiografia e história.16ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

GURJÃO, Eliete de Queiroz. A Parahyba renovada. In: Estudando a história da Paraíba: uma coletânea de textos didáticos. 2 ed. Campina Grande: Eduep, 2001



JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro, jul. de 1930.

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MACHADO, Juanita B. Pela elevação mental da mulher paraibana. A União, p. 3, jun. 1933.

MARTINS, Ana Luiza. O despertar da República. São Paulo: Contexto, 2001.

MELLO, José Octávio de Arruda. Exposições e debates do II SBCB: João Pessoa, a Paraíba e a Revolução de 30. João Pessoa: Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Paraíba, 1979.

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PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2003.

RODRIGUES, Inês Caminha Lopes. A revolta de Princesa: poder privado x poder instituído. São Paulo: Brasiliense, 1981.

SOIHET, Raquel. A pedagogia do espaço público pelas mulheres e a militância feminista de Bertha Lutz. In: Revista brasileira de educação, Campinas, SP: Autores Associados, n. 15, p. 97-117, set./out./nov./dez. 2000.

SYLVESTRE, Josué. Da revolução de 30 à queda do Estado Novo: fatos e personagens da história de Campina Grande e da Paraíba (1930-1945). Brasília: Senado Federal/Centro Gráfico, 1993. 



CONSTRUÇÃO DA ESCRITA POR CRIANÇAS ORIUNDAS DE UM CONTEXTO SOCIAL ADVERSO

Adriana Francisca Medeiros30

Nazineide Brito31

INTRODUÇÃO


Na sociedade ocidental contemporânea é praticamente impossível não se entrar em contato com a linguagem escrita, mas a quantidade e a qualidade desse contato dependem das condições de vida e das características da comunidade em que as pessoas vivem, ou ainda, da imersão em situações nas quais a escrita se encontra presente de forma significativa (ou não).

Nesse sentido, podemos afirmar que a maioria das crianças, antes mesmo de entrar na escola, já tem acesso à escrita. As crianças da classe média, por exemplo, encontram-se largamente expostas às mais diversificadas fontes de materiais escritos sejam nas suas residências, na escola, no bairro e nos mais diversos lugares nos quais circulam com seus familiares e amigos (FONTANA, 1997; OLIVEIRA, 1993; VYGOTSKY, 1998).

Por outro lado, essa realidade parece não existir para as crianças de famílias de baixa renda, muitas delas vivendo na periferia das cidades. Nesse contexto, as fontes de escrita que são comuns nas comunidades letradas tendem a tornarem-se mais escassas, rareando, assim, as oportunidades de inserção das crianças numa cultura letrada. Em algumas periferias, principalmente nas favelas de pequenas cidades brasileiras, é escassa a presença de jornais, bibliotecas, outdoors, folhetos de supermercados, dentre outros materiais gráficos.

A experiência limitada quanto à inserção nas práticas culturais nas quais a escrita esteja presente tem sido apontada como um dos principais fatores para as dificuldades no aprendizado da escrita dessas crianças. Assim sendo, a idade para se aprender a escrever fica praticamente condicionada não somente às características da criança em si, mas também à existência de condições culturais específicas, de um ambiente letrado e às possibilidades de experiências significativas com o material escrito.

Neste estudo, particularmente32, procuramos focalizar o estudo de uma realidade na qual crianças em fase de alfabetização encontravam-se inseridas num contexto sócio-econômico limitado, cujas experiências com materiais escritos fora da escola nos parecia ser também bastante limitadas. Assim, a pesquisa de cunho qualitativo se voltou para o estudo do processo de apropriação da escrita de crianças que freqüentavam uma escola pública municipal inserida numa comunidade carente de um bairro da periferia da cidade de Caicó, interior do Estado do Rio Grande do Norte.

Participaram da pesquisa cinco crianças moradoras da comunidade Frei Damião33, também conhecida como Favela Frei Damião, matriculadas no 1º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Frei Damião, cujos pais na sua maioria se encontra na condição de analfabetos e apresenta um baixo nível de renda familiar, sendo a maioria catadores de lixo.

Como procedimentos de pesquisa foram realizadas entrevistas gravadas com as famílias (pais ou responsáveis), com as próprias crianças, a diretora da escola e a professora da turma das crianças. Foram realizadas também avaliações dos níveis de escrita das crianças com base na teoria da psicogênese da escrita (FERREIRO e TEBEROSKY, 1986), visitas às casas das crianças, bem como ao local de trabalho dos seus pais e conversas informais com moradores do bairro34.
Sobre o contexto cultural e escolar das crianças

No Bairro Frei Damião, as casas estão dispostas de modo desordenado, não se constituindo propriamente como ruas, uma vez que no meio das casas sobrepõem-se pedras e rochas, dificultando o seu alinhamento (Foto 01). As referidas casas são na maioria de alvenaria, existindo ainda algumas construções de taipa35. Na comunidade, não encontramos posto de saúde, posto policial, e nem coleta de lixo - o lixo produzido é vendido para o sustento da família; inexiste também, na maior parte do bairro, o serviço de abastecimento de água e esgoto. Na própria escola, por não dispor deste serviço, a água é trazida em carros pipas para uma cisterna, e depois conduzida através de bomba para a caixa d’água.



Foto 01 – Bairro Frei Damião. Arquivo da pesquisadora. Caicó/RN, maio/2006.

Na referida comunidade, as fontes de escrita são muito escassas: não encontramos grafados os nomes das ruas, e as casas não são numeradas. Nela também não há supermercados, lanchonetes, bancos, dentre outros estabelecimentos comumente presentes numa comunidade urbanizada. Além do nome da escola, as únicas escritas encontradas no bairro estavam expostas: (1) nas residências onde funcionavam dois bares nos quais se visualizavam anúncios de cerveja; (2) num antigo prédio onde funcionou por poucos dias um posto policial; (3) na frente de uma casa na qual se encontrava uma tímida plaquinha contendo uma propaganda de sorvete; (4) na casa do responsável pela compra do lixo onde se encontra um desenho simbolizando “lixo” seguido da palavra “reciclável”; e, ainda, (5) dois orelhões que trazem pintados o nome TELEMAR.



A Escola Municipal Frei Damião (Foto 2), onde foi realizada essa pesquisa, foi criada pela Lei nº 3865 de 19 de abril de 2001, e está situada na Rua Pedro Araújo, s/n. É um dos poucos serviços sociais oferecidos pelo poder público naquele bairro. Apresenta um quadro de professores com um bom nível de formação: 37% de seus professores são graduados, 36% com especialização na área de educação e apenas 27% têm formação de nível médio.

Foto 2 – Escola Municipal Frei Damião. Arquivo da pesquisadora. Caicó/RN, maio/2006.

No período da pesquisa a clientela da instituição era de 97 (noventa e sete) alunos, sendo 46 (quarenta e seis) no Ensino Fundamental e 51 (cinqüenta e um) na Educação Infantil, atendidos nos horários matutino e vespertino. A organização das turmas seguia o sistema de multisseriação, com exceção das turmas do 5° nível da Educação Infantil e do 3° ano do Ensino Fundamental que funcionavam isoladamente. De acordo, com a supervisora, as crianças atendidas na escola são na maioria oriunda do próprio bairro, e algumas do bairro vizinho.

A turma do 1° e 2° anos, classe que atendeu os alunos objetos desta pesquisa funcionava no turno vespertino, com 14 (catorze) alunos, sendo 5 (cinco) do 1° ano e 9 (nove) do 2° ano, a faixa etária dos alunos do 1 ° ano é de 6 (seis) anos e os dos 2° ano estão com 8 (oito) anos, apenas uma criança está fora desta faixa etária, pois a mesma está a 3 (três) anos no 2º ano.

Descreveremos a seguir os perfis apenas de dois atores (crianças) investigados, os quais nos apresentaram como passíveis de serem vistos como referências para nossas análises. Destacaremos o que concerne aos aspectos pessoais, escolares e familiares. Os nomes que utilizaremos serão fictícios para preservar a identidade das crianças pesquisadas.

Sobre as crianças

Sílvia, filha mais velha de uma família de quatro irmãos, caicoense, na época da pesquisa contava com 6 anos de idade. A mãe de Silvia cursou o Ensino fundamental, tendo abandonado os estudos quando ficou grávida. Afirmou que gostaria de voltar a estudar se na escola do bairro oferecesse o Ensino Médio. Seu esposo cursou a 2º ano do Ensino Fundamental, e ambos trabalham no lixão como catadores de lixo.

A casa de Sílvia é de taipa, apenas com dois cômodos pequenos: uma sala (que serve também de quarto de dormir) e uma cozinha, cujas paredes são bastante frágeis. Não existe porta de um cômodo para o outro; a mobília também é bem simples, na sala têm uma cama antiga com um colchão e um guarda-roupa velho. Apesar da visível pobreza, a família conta com alguns aparelhos bastante populares: um aparelho de som, uma TV e um DVD que se encontravam sobre uma lata de zinco.

Apesar das adversidades vividas (mãe de quatro filhos e tirando o sustento familiar do lixão), a mãe de Sílvia deposita na escola a esperança de dias melhores, como deixa explícito no seu depoimento: “acho a escola coisa boa, porque incentiva muita coisa... ter no futuro uma profissão melhor”. Acrescenta ainda que, na escola, espera que a filha “aprenda a ser educada... a ser cidadã”. Por outro lado, afirmou que não incentivava a menina a fazer leitura em casa,uma vez que na sua casa não existem livros, revistas, jornais ou outro tipo de material impresso, que a filha possa ler ou manusear, apenas seus próprios cadernos da escola. A escrita é usada em situações esporádicas, como por exemplo, na elaboração do rol de compras da família.

Sílvia freqüentou a educação infantil também na Escola Municipal Frei Damião, sendo considerada uma menina quieta, introvertida. Segundo depoimento da professora, na sala de aula demonstra apatia, não faz questionamentos, nem procura conversar com os colegas. Durante a entrevista, ao ser indagada sobre “o que você quer ser quando crescer?”, Sílvia não revelou qualquer expectativa em relação ao futuro, limitando-se a disser: “quero ser adulta quando crescer, não quero trabalhar”. Sobre o que mais gostava na escola, Sílvia destacou seu interesse por escrever; justificando-se, no entanto, por uma razão bem utilitarista: “porque é muito dever para fazer”. No prosseguimento da entrevista, declarou que gostaria de aprender a ler para fazer a letra “enroladinha”. De acordo com essas afirmações, percebemos que a criança compreende a escrita como um objeto estritamente escolar, sem relacioná-la aos usos sociais da mesma. Essa percepção pode estar relacionada à falta de sua inserção em práticas sociais de escrita no seio da comunidade local, ou ainda como resultado de um processo de alfabetização no qual a escrita se apresenta apenas como objeto de conhecimento, desvinculado de seu uso social.

No entanto, de acordo com Ferreiro (2001, p.43), “a escrita não é um produto escolar, mas sim um objeto cultural, resultado do esforço coletivo da humanidade. Como objeto cultural, a escrita cumpre diversas funções sociais e têm meios concretos de existência”. Nessa perspectiva, importante considerar que para uma efetiva aprendizagem da escrita, necessário se faz possibilitar ao aprendiz a vivência dessa escrita enquanto um objeto social, partilhado com outros membros do grupo.

Na ocasião da avaliação escrita, quando foi solicitada a escrever cinco palavras e uma frase, Sílvia procurou em alguns momentos se apoiar em materiais escritos do ambiente, reproduzindo a escrita de algumas letras, sem, no entanto, copiar a palavra por inteiro. Nesse sentido, percebemos sua estratégia não como tentativa de reprodução, de cópia, mas, sim, de criação, ou ainda, re-criação – elaborando novas palavras a partir daquelas a que tinha acesso.



Figura 1 – Atividade de escrita de Sílvia. Arquivo da pesquisadora. Caicó/RN, maio/2006.

Respaldados na teoria da psicogênese da escrita, na qual se apresenta a evolução da escrita espontânea de crianças em fase de alfabetização, as produções de Sílvia nos revelaram o nível de conceptualização que Ferreiro e Teberosky (1986) denominaram pré-silábico II: utilizava diferentes letras para a escrita de uma palavra (critério de variedades de caracteres) e ainda considerava o principio da quantidade mínima, ou seja, escrita de palavras com, no mínimo, três letras.

Como podemos perceber pela Figura 1, Sílvia usa um repertório significativo de letras (escreve palavras diferentes utilizando-se das mesmas letras, porém, em diferentes posições) e numa quantidade de – no mínimo - quatro letras para cada palavra. Exemplos: escreveu AEIR para grafar a palavra boi, URIE para elefante, e RESIE para a palavra formiga. Para a frase o gato bebe leite, escreveu REEITLO, não deixando espaços entre as palavras. Estes dados nos informam que a mesma enfrenta um processo intenso de reflexão sobre o como se escreve, sendo então guiada por suas próprias hipóteses, numa tentativa de adequá-las às informações que recebe do meio.



Henrique, criança com 7 (sete) anos de idade no período da pesquisa, nascido em Caicó, é o filho mais velho de dois irmãos. Seus pais, ambos desempregados, moram no bairro há quatro anos: a mãe, também natural de Caicó, tem 28 anos e concluiu o 1º ano do Ensino Médio; o pai apenas concluiu o 1° grau (ensino fundamental). Durante a entrevista, sua mãe expressou o desejo em continuar seus próprios estudos: “gostaria de continuar estudando, se aqui no bairro tivesse escola”. Ainda de acordo com seus relatos, a mesma procura ajudar o filho nas atividades escolares, e, quando a mesma não pode, o marido assumia a referida missão. Esta informação nos foi confirmada pela própria criança durante a sua entrevista.

A residência de Henrique é próxima à escola, sendo uma construção de alvenaria, com dois cômodos; na sala, há poucas cadeiras, uma estante com alguns livros didáticos e revistas, uma TV e um aparelho de som. Na chegada à sua casa, deparamo-nos com ele folheando algumas revistas; na ocasião, sua mãe disse que é comum o mesmo ficar folheando os impressos escritos.

A vida em preto e branco da favela parece não fazer parte do cotidiano do garoto, pois movido pela energia de sua infância, Henrique relata empolgado suas brincadeiras com os amigos e sua satisfação em estar na escola para brincar e estudar, aprender a ler, escrever e fazer “letra minúscula”; ao contrário da maioria das outras crianças entrevistadas, ele gosta de falar, e explica que seu sonho é ser soldado do batalhão “para poder ganhar dinheiro”. Afirma ainda que não quer ser moto-taxista (antiga profissão de seu pai), pois segundo o mesmo, não ganha muito dinheiro.

Segundo depoimento da mãe, Henrique foi para a escola aos três anos de idade. Da turma do 1º ano na qual se encontra atualmente estudando, é o que apresenta o nível mais avançado de escrita. Respaldados na teoria da psicogênese da escrita, na qual se apresenta a evolução da escrita espontânea de crianças em fase de alfabetização, como se registra abaixo, as produções de Henrique nos revelaram o nível de conceptualização que Ferreiro e Teberosky (1986) denominaram silábico: produção gráfica apresentando uma letra para o som de cada sílaba, registrando assim a percepção da relação letra/som.



Figura 2 – Escrita de Henrique. Arquivo da pesquisadora. Caicó/RN, maio/2006.

Assim, pelo que percebemos de sua produção espontânea, Henrique já ultrapassou a fase na qual preponderam as hipóteses quantitativa e qualitativa da escrita, apresentando agora uma compreensão baseada na sonorização da escrita relacionando o som da fala (no caso, o som da sílaba) com uma letra específica. Exemplos: escreveu IU (duas letras) para grafar a palavra livro (duas sílabas); escreve OIA para grafar a palavra formiga. Importante verificar também que o mesmo já estabelece a relação entre cada letra utilizada e o seu respectivo valor sonoro convencional (som do /o/ com a letra O; som do /i/ com a letra I). Esta hipótese nos mostra que o mesmo está bem próximo da etapa final da evolução da escrita, qual seja a do domínio da hipótese alfabética (quando então se relaciona cada fonema a uma letra/grafema), base do nosso sistema de escrita – o português.

Importante destacar também que Henrique se diferencia dos outros sujeitos pelo nível de conscientização que apresenta, quanto ao valor que atribui à escola, e quanto ao significado que o aprendizado da leitura e da escrita têm para sua vida. Ele demonstra isso claramente quando explica: “quero aprender a ler, escrever, para trabalhar”.

A importância que Henrique atribui ao saber reflete, por um lado, as convicções da mãe e, por outro, suas próprias vivências. Ao contrário da maioria das crianças do bairro, Henrique não nasceu na comunidade, e apesar de sua pouca idade já teve oportunidade, segundo relato do mesmo, de viajar para São Paulo e para uma cidade vizinha chamada Florânia (RN), onde moram alguns dos seus parentes. Estes deslocamentos certamente lhe renderam experiências culturais ricas e diversas, como também o acesso a comunidades mais letradas do que a do seu convívio atual. Acreditamos também que o fato do mesmo receber a atenção dos pais na realização das tarefas escolares representou um aspecto diferencial com relação às demais crianças entrevistadas, no qual constatamos uma quase indiferença dos pais com relação às suas vidas acadêmicas.
Discutindo os dados

Muitos estudiosos que têm se debruçado ao estudo do fracasso escolar, respaldado na teoria de sócio-histórica do psiquismo humano, apresentam o contexto sócio-cultural como um dos fatores importantes para o sucesso da aprendizagem (LEONTIEV, 1997; VYGOTSKY, 1998). No entanto, importante atentarmos para diferentes elementos presentes neste contexto que influenciam direto ou indiretamente esse aprendizado. Entre as muitas contribuições que a teoria histórico-cultural trouxe para o âmbito educacional, a mais significativa, foi o rompimento dos reducionismos que ora delimitava a sala de aula como o único espaço de aprendizagem, ora buscava no indivíduo ou ainda no ambiente familiar e social os determinantes do seu sucesso ou fracasso escolar.

Pelo presente estudo podemos constatar que, apesar das condições adversas do contexto sócio-cultural que as crianças da comunidade Frei Damião estão inseridas, os resultados da avaliação de suas produções escritas apresentaram resultados aceitáveis, ou ainda, compatíveis com seu tempo de experiência escolar (crianças cursando ainda o 1° semestre no 1° ano do ensino fundamental).

Pela análise dos dados recolhidos através das avaliações das escritas das crianças, entrevistas e observações realizadas, podemos inferir que não são as condições sócio-econômicas que de forma mais significativa prejudicam ou não a construção do código escrito pelas crianças, mas sim, àqueles aspectos da vida familiar e social que mais de perto se encontram implicados na relação cotidiana da criança com a linguagem escrita. Assim, a presença ou ausência de significado da função da escrita atribuída por algumas famílias, o acesso ou restrição a materiais escritos e às práticas de letramento na vida das crianças parecem apresentar uma relação mais direta com o seu nível de aprendizado na escola.

Henrique por exemplo, uma das crianças que apresentou melhor desempenho nas produções analisadas, parece ter sido beneficiado com alguns aspectos na sua vida extra-escolar que não encontramos presentes nas histórias das demais crianças, como pro exemplo, a presença de pais alfabetizados que apresentam um nível de consciência elevado com relação à importância do aprender a ler e escrever, e assim, acompanhavam mais de perto suas atividades escolares, as experiências em ambientes culturais diferentes, e ainda a presença de materiais escritos significativos para explorar na sua vida familiar (livros, revistas).

Para Vygotsky (1998, p.110), “o aprendizado das crianças começa muito antes de elas freqüentarem a escola. Qualquer situação de aprendizado com o qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia”. Sob esse ponto de vista, o aprendizado da escrita pode estar determinado pelo grau de mediação36 que uma pessoa tenha recebido, em suas experiências de aprendizagem com a escrita muito antes de sua entrada na escola. E podemos acrescentar, durante a sua permanência na escola, contando-se cm experiências significativas com a escrita num ambiente extra-escolar.

Segundo Ferreiro e Teberosky (2001, p.101), “a tão comentada ‘prontidão’ para a lecto-escrita37 depende muito mais das ocasiões sociais de estar em contato com a escrita do que de qualquer outro fator que seja invocado”. A pesquisa das referidas autoras nos mostra que existe uma nova maneira de considerar os “fracassos” enfrentados pela criança, demonstrando que a aprendizagem da leitura e da escrita inicia-se muitos antes do inicio de sua escolarização, pois a escrita, por ser um objeto de função fundamentalmente social, já faz parte do cotidiano dos educandos.

Nesta perspectiva, um dos possíveis fatores dos problemas de aprendizagem em relação à linguagem escrita das crianças, pode estar relacionado à escassez de experiências significativas prévias com materiais escritos, desinteresse dos pais pelo saber sistematizado, ou, ainda, à falta de envolvimento da família e da comunidade com a cultura escrita. Estas faltas podem influenciar na dificuldade do indivíduo para compreender e estabelecer relações entre os elementos de sua própria cultura e o que a escola apresenta. A mediação de outros indivíduos é essencial para provocar avanços no domínio do sistema gráfico, que na sociedade moderna é culturalmente desenvolvido e compartilhado. Nesta perspectiva, o aprendizado sistematizado da escrita pode depender, principalmente, de condições sociais propícias. Ele pode está subordinado a situações de aprendizagem informal ou espontânea decorrentes do contato (ou não) da criança com pessoas letradas.

Um outro aspecto a considerar nessa discussão, diz respeito à participação da escola na construção desse aprendizado. Pelo presente estudo, podemos constatar também a relevância do trabalho pedagógico da Escola Municipal Frei Damião tem prestado à sua clientela, pois, apesar do acesso restrito a escrita e as condições adversas da comunidade, o nível satisfatório do rendimento das crianças e os depoimentos dos pais e pessoas da comunidade apontam para um compromisso ético e social de sua equipe de professores e técnicos. O envolvimento e o comprometimento desses profissionais com o trabalho pedagógico certamente se apresenta como um dos principais fatores para tamanho êxito. Na sua maioria apresentando uma formação de nível superior, os mesmos se destacam também pela concepção pedagógica com que trabalham, adotando práticas alfabetizadoras inspiradas nas teorias sócio-construtivistas, o que tem favorecido a dinâmica do trabalho desenvolvimento junto às crianças no seu processo de alfabetização.
Concluindo...

Sem a pretensão de esgotar o tema, a breve análise dos estudos sobre a construção da escrita em contextos sociais desfavoráveis aqui desenvolvida aponta para a influência dos aspectos culturais no aprendizado das crianças, porém, destacando-se a importância de se mergulhar em aspectos particulares do mesmo principalmente no que diz respeito ao valor e significado que o saber escolar representa para seu grupo cultural. Importante assim, aprofundarmos na temática, já que o aprendizado da escrita tem sido um dos pontos cruciais do fracasso escolar.

Concluímos, afirmando, que o problema de aprendizagem apresentado na maioria das crianças das camadas populares no nosso país não se encontra relacionado apenas à falta de capacidade para aprender, mas sim a ausência de oportunidades mais amplas para se tornarem verdadeiros aprendizes, seja na escola, seja na sua comunidade.
REFERÊNCIAS:

FERREIRO, Emilia; TEBEROSKI, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas,1986.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre alfabetização. 24 ed. Atual. São Paulo: Cortez, 2001.

FONTANA, Roseli. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual,1997.

LEONTIEV, Alexis. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte Universitário, 1978.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. São Paulo,1993.

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores..São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DA INVISIBILIDADE AO PROTAGONISMO: A EXPERIÊNCIA DO GRUPO DE MULHERES DO PARQUE ELIANE – TERESINA/PI
Ana Célia de Sousa Santos38
Introdução

Este trabalho é resultado de reflexões e experiências desenvolvidas numa prática de pesquisa-ação, tendo como foco a questão de gênero e, do desejo de elevar a nossa contribuição junto aos Movimentos Sociais Populares, no que tange aos estudos que aprofundam o conhecimento das práticas sócio-educativas com mulheres. É fruto, também, do Intercâmbio - Sujeitos e Saberes na mediação de práticas sócio-educativas - auto ativação de comunidade locais, desenvolvido entre a UFPI - Universidade Federal do Piauí/Brasil e a UNIVR – Università Degli Studi Di Verona/Itália, que prevê a criação do Centro de Vivência – “Infância/Mulher/Território”, no Parque Eliane, zona sul de Teresina, cujas atrizes sociais participam do Grupo “Mulheres Perseverantes”. Tem como objeto de estudo analisar como as práticas educativas, em desenvolvimento neste contexto, vem contribuído para a construção de um processo de emancipação e empoderamento nas dimensões humana, político-organizativa, de incorporação da economia solidária e construção de um novo olhar sobre as relações de gênero.

A significação desse trabalho vem se ampliando no âmbito dos estudos acadêmicos, possibilitando um processo de formação de protagonistas dos movimentos sociais, bem como pela contribuição que trará para a desconstrução das relações machistas estabelecidas em nossa sociedade.




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