Graco Babeuf: um ponto de vista sobre a revolução francesa



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Graco Babeuf: um ponto de vista sobre a revolução francesa
Felipe dos Santos

Sirlane Marques

A historiografia clássica considera a Revolução Francesa o marco da passagem da Idade Moderna para a Contemporânea. Mas por que essa revolução é considerada tão importante? Os pensamentos políticos do nosso tempo estão intimamente ligados aos pensamentos que geraram e foram gerados pela Revolução Francesa. Traços iluministas, como a crença na ciência, estão presentes na mentalidade das sociedades capitalistas ocidentais ainda hoje.

A revolução, ligada às idéias liberais (que tem como principais formuladores os ingleses John Locke e Adam Smith) tende a ser mais valorizada pelos historiadores liberais. Mas há quem defenda que, ainda que ela tenha o seu valor, não foi suficiente para atender às necessidades de toda a população. Entre outros, houve um homem que foi contemporâneo à revolução que pensava assim, esse homem é François Noël Babeuf, sobre quem pretendemos falar nesse texto.

Ele é mais lembrado pela participação na Conjuração dos Iguais, motivo pelo qual, foi condenado à morte pelo Diretório (fase conservadora do governo francês durante a revolução, que ele considerava não tão revolucionária assim). Mas, antes da conjuração, ele já atuava de modo significativo com o objetivo de estender as reivindicações revolucionárias aos mais miseráveis.

É comum que as diversas doutrinas políticas tentem se legitimar através da afirmação de uma tradição, muitos socialistas atribuíram a Babeuf um lugar especial na árvore genealógica do socialismo moderno. De acordo com Marx, um dos principais nomes do comunismo moderno e que deu origem a corrente marxista que obteve e continua obtendo muitos seguidores, Babeuf foi o “primeiro comunista ativista” e a Conjuração dos Iguais, o “primeiro partido comunista”.

Apesar de ser possível analisar sua participação na revolução em vários outros momentos, o momento histórico escolhido para essa análise é a interessante ida de Babeuf a Paris em julho de 1789. Começaremos, então, com um breve relato da vida de Babeuf.


O caminho trilhado por Babeuf

François Noël Babeuf, de autor desconhecido.


François Noël Babeuf, nasceu em novembro de 1760 em Saint-Quentin, uma pequena cidade da Picardia, região ao norte de Paris. A situação econômica de sua família era complicada, aos treze anos já ajudava os pais trabalhando na construção de um canal em sua cidade.

Aos dezessete anos, trabalhava como aprendiz de feudiste, uma espécie de técnico que calculava quanto de imposto cada camponês deveria pagar ao seu senhor. Aprendeu com um amigo o ofício de arpenteur-géomètre, que se dedicava a medir, utilizando instrumentos de relativa precisão, o tamanho de lotes de terra. Essa nova habilidade complementava a antiga, pois o cálculo do imposto pago pelos camponeses era feito de acordo com o tamanho da terra que exploravam.

Com vinte e dois anos, em 1782, se casou com Marie-Anne Victorine Lenglet, ex-dama de quarto da esposa de um nobre para qual Babeuf já havia trabalhado. Posteriormente, através de textos produzidos por ele, defendia um tratamento igualitário para homens e mulheres, onde podemos observar um adiantamento em relação ao pensamento da sua época.

Depois de casar, mudaram-se para Roye, também no norte da França, onde Babeuf abriu um escritório de arpenteur-géomètre. Nesse período, conseguiu um número de clientes que lhe garantiu relativa tranqüilidade financeira.

Em 1785, ele começou a trocar cartas com um nobre, secretário-geral da Academia de Arras, um tipo de associação cultural ligada pelas idéias iluministas, onde se discutiam sobre diversos assuntos. Essas cartas são exemplos de rastros deixados pelo passado e que possibilita que nós, hoje, nos debrucemos sobre uma época com características e valores muito distintos dos nossos.

Nesse caso, as cartas nos ajudam a entender o pensamento de Babeuf. Através delas, ele defende que o homem deve ter como objetivo alcançar a “felicidade geral”, um direito natural do homem, e para isso dizia ser necessário o fim da propriedade privada. O desejo de acabar com a propriedade privada nos indica uma de suas principais influências, o pensador iluminista Jean-Jacques Rousseau.

Em uma das cartas, Babeuf levanta a questão: será que um jeito de se alcançar essa tão desejada “felicidade geral” não é vivendo numa sociedade onde predominasse a “mais perfeita igualdade”? Seu correspondente, fazendo jus a seu título de nobre, não deu muita atenção a essa idéia.

Em uma outra carta, Babeuf fala sobre um autor, diz que gosta de suas idéias, mas lamenta ele não especificar o caminho para se atingir seus objetivos. Esse é um aspecto de grande importância na estratégia revolucionária de Babeuf, sua preocupação em não apenas idealizar sociedades diferentes da existente, mas também criar os meios para atingir tal sociedade.

Aos poucos as cartas vão se tornando menos freqüentes até que não são mais enviadas. Talvez Babeuf tenha percebido que sua intenção de modificar a sociedade de uma maneira mais radical, não tenha soado bem aos ouvidos de seu correspondente. Mas, essas correspondências podem ter servido como uma oportunidade para que as suas idéias fossem organizadas e desenvolvidas. Confrontar suas idéias com alguém que pensava tão diferente pode ter as deixado ainda mais consistentes.

Se houve uma época em que Babeuf desfrutava de uma boa situação financeira, chegou um momento em que essa situação piorou muito. Desde 1786, mais ou menos, os nobres, para quem prestava serviços, deixaram de pagar pelos serviços e ele precisou deixar a casa onde morava e se mudar para uma outra bem menor em um bairro pobre de Roye. Ele estava sentindo na pele a indiferença dos nobres em relação aos menos privilegiados e esse contato deve ter contribuído para aumentar o seu desejo de transformar o modo como a sociedade funcionava.



Babeuf havia escrito um projeto chamado Cadastro Perpétuo, o objetivo era criar um cadastro de todas as terras da França. Isso iria facilitar na cobrança de impostos, uma vez que os proprietários não conseguiriam ocultar com tanta facilidade o tamanho de suas terras para pagar menos impostos. E foi o desejo de publicar esse projeto que fez com que os dois principais objetos do texto, Babeuf e a revolução, se encontrassem.
O caminho trilhado pela Revolução

A Liberdade Guiando o Povo, por Eugène Delacroix, 1890, Museu do Louvre, Paris.


Ao final da década de 1770 a França, que ainda num regime feudal e sob o reinado de Luis XVI, havia sido atingida por uma forte crise econômica. Houve um aumento no preço dos alimentos e uma queda do poder aquisitivo da população, o resultado foi uma crise produtiva e fome para a maioria da população. A coroa precisava arrecadar mais e não podia aumentar os tributos sobre o povo, sua única saída era tributar a nobreza e o clero.

A reforma fiscal seria discutida com a convocação dos Estados Gerais, que era a reunião dos três estamentos: a nobreza, o clero e o povo ou primeiro, segundo e terceiro estado, que contavam com, respectivamente, 300, 300 e 600 representantes aproximadamente. Mesmo possuindo um número maior de representantes, o povo estava em desvantagem, porque os votos eram calculados por estado e os dois primeiros estamentos votavam juntos.

O povo reivindicou por uma votação por cabeça, pelo número de representantes e não por estado, o que julgavam ser mais justo, uma vez que a população francesa era formada em sua maioria por integrantes do terceiro estado (96%). Como essa proposta não foi aceita, o terceiro estado se nomeou Assembléia Nacional, com o objetivo de representar toda a população. Não encontrando alternativa, Luis XVI ordenou que o clero e a nobreza se unissem à Assembléia, que se tornou Constituinte.

Considerada uma das datas mais importantes da revolução pelos historiadores, no dia 14 de julho de 1789 ocorreu a famosa Queda da Bastilha. Nesse episódio o povo de Paris invadiu a Bastilha que havia sido uma prisão, mas que na ocasião da invasão, já não funcionava tanto como tal. O ataque do povo ficou famoso não tanto por uma conquista concreta, mas pela representação da união do povo se insurgindo contra esse símbolo do Antigo Regime.



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