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GORE VIDAL


UM ROMANCE DA AMÉRICA NOS ANOS VINTE



Tradução de Eliana Sabino

Rocco


1991

UM
William Randolph Hearst baixou lentamente seu corpanzil de urso sobre uma linda cadeira Biedermeier, cheia de liras, pergami­nhos e marcheteria.

— Não conte a ninguém que estou em Washington — ordenou.

Em seguida piscou devagarinho os olhos azul-claros para Blaise Delacroix Sanford. Embora Blaise estivesse com quarenta e um anos e fosse o editor do Washington Tribune, ainda temia seu antigo chefe e mentor, agora grisalho em seus cinqüenta e quatro anos, o jorna­lista mais famoso do mundo, proprietário de "dezenas de jornais e revistas e, curiosissimamente, recente criador da sensação mundial que era um filme seriado chamado Os perigos de Pauline.


  • Claro que não.

Blaise estava sentado na beirada de sua escrivaninha, flexionan­do os músculos da perna. Ao contrário do Chefe, Blaise estava em excelente forma física: cavalgava todos os dias, jogava squash em sua própria quadra, lutava contra a idade.

— Millicent e eu passamos o inverno nos Breakers. Sabe, em Palm Beach.

O rosto do Chefe estava moreno como o de um índio, em razão do sol. Logo atrás da cabeça de Hearst, Blaise tinha, através da janela, uma vista parcial da Rua 14, até que, com um suspiro leve e seco, a cadeira Biedermeier desmoronou sobre si mesma como um. acordeão; Hearst e a cadeira tombaram sobre o espesso tapete persa, e a vista da Rua 14 ficou desobstruída.

Blaise pôs-se de pé num salto.



  • Lamento...

Mas Hearst ignorou serenamente a intromissão da força da gra­vidade em seu raciocínio. Permaneceu no chão, onde estava, segu­rando numa das mãos uma frágil lira de madeira que tinha sido um dos braços da cadeira: o Orfeu do jornalismo popular, pensou Blaise histericamente, perturbado por aquela visão.

— De qualquer maneira, vim escondido a Washington para descobrir se há alguma coisa de concreto nesse negócio do telegrama Zimmermann; se houver, como é que você pretende agir a res­peito? Afinal, é o editor de Washington. Eu sou só de Nova York.

— E de todos os outros lugares. Pessoalmente, acho que é uma fraude... Por que não experimenta outra cadeira?

Hearst pousou sua lira.

— Sabe, quando estive em Salzburgo comprei um monte de mobília Biedermeier e mandei de navio para Nova York, e afinal nunca cheguei a tirar dos caixotes. Agora acho que não vou mesmo. — Tão lentamente como se sentara, majestosamente, Hearst ergueu- se em toda a sua estatura; era pelo menos duas cabeças mais alto que Blaise. — Desculpe ter quebrado esta coisa. Mande-me a conta do estrago.

— Deixe disso, Chefe.



Em seu nervosismo, Blaise chamou Hearst pelo nome pelo qual ele era conhecido por todos os seus empregados, mas nunca por Blaise, seu igual. Enquanto Hearst acomodava-se numa poltrona de couro que parecia uma fortaleza, Blaise pegou o assim chamado "telegrama Zimmermann". Recebera uma cópia de fonte segura na Casa Branca, assim como Hearst, aparentemente. O telegrama fora transmitido secretamente de Londres para o Presidente Wilson no sábado, 24 de fevereiro de 1917, Agora era segunda-feira, e na tarde desse mesmo dia Woodrow Wilson iria discursar numa sessão plenária no Congresso sobre a guerra ou a paz ou a continuação da neutralidade ou fosse o que fosse com as Forças do Centro, especificamente a Alemanha, em sua guerra contra a "Entente Cor­diale", ou França, Inglaterra e Rússia e, ultimamente, Itália. Se au­têntico, o telegrama do ministro do Exterior alemão, Arthur Zimmer­mann, para o embaixador alemão no México, um país havia algum tempo mais ou menos em guerra com os Estados Unidos, acabaria de uma vez por todas com a neutralidade dos Estados Unidos. Blaise suspeitava de que o telegrama fosse obra do Ministério do Exterior britânico. O tom ousado era o tipo de coisa que apenas um país desesperado, perdendo uma guerra, engendraria para assustar os Estados Unidos e fazê-los vir em seu socorro.

  • Meus espiões dizem que o telegrama estava de molho em Londres desde o "mês passado, o que significa que foi escrito lá, se é que não começou primeiro aqui. — Hearst tirou sua cópia de um bolso e leu em sua voz alta e fina: — "Pretendemos começar em 1º de fevereiro uma guerra submarina irrestrita." — Ergueu os olhos. — Bom, esta parte é verdade, os alemães estão realmente nos martelando, afundando todos os navios que encontram entre os Estados Unidos e a Europa. Burrice deles, sabe? A maioria dos americanos não deseja a guerra. Eu não quero a guerra. Sabia que Bernstorff foi amante da Sra. Wilson?

O Chefe tinha o desconcertante hábito de mudar de um assunto a outro sem qualquer ligação perceptível; no entanto, com freqüên­cia havia algum elo misterioso juntando suas divagações desencon­tradas. Blaise realmente ouvira o boato de que o embaixador alemão e a viúva Sra. Galt, como a Sra. Wilson era conhecida um ano antes, tinham sido amantes. Mas Washington não era apenas a "ci­dade das conversas" de Henry James, mas a cidade dos mexericos fantásticos de Hearst.

  • Se foram amantes, tenho certeza de que estava tudo terminado quando ela se casou com o Presidente.

  • Ninguém pode ter certeza a não ser que estivesse no quarto deles, como minha mãe está sempre me dizendo. Que fortuna mamãe possui! E ainda por cima ela é a favor dos ingleses. — Hearst reco­meçou a leitura: "Apesar disto, vamos tentar manter a neutra­lidade dos Estados Unidos. Caso isto não aconteça,, fazemos ao México uma proposta de aliança nos seguintes termos: fazemos juntos a guerra, fazemos juntos a paz, generosa ajuda financeira e de nossa parte a aceitação de que o México reconquiste os territórios perdidos no Texas, no Novo México e no Arizona. — Hearst ergueu os olhos.

  • Pelo menos, quem quer que tenha escrito isto não lhes prometeu minha propriedade na Califórnia.

  • Quem você acha que escreveu, se não foi Zimmermann?

Hearst assumiu uma expressão de seriedade.

— Thomas W. Gregory, o procurador-geral. Foi o que ouvi. Ele está pressionando Wilson cada vez mais a entrar na guerra agora. Felizmente o resto do Gabinete quer que Wilson resista, porque...



  • Hearst olhou para o telegrama, franzindo os olhos — esta parte aqui é o verdadeiro motivo da guerra. Quer dizer, Zimmermann, ou Gregory, ou os ingleses, ou quem quer que tenha escrito, sugere que o Presidente do México procure os japoneses e os faça entrar em guerra conosco. Bem, esta é a grande ameaça!

Blaise rodeou a escrivaninha e sentou-se em sua cadeira. Na parede atrás de si estava pendurado um retrato em tamanho real dele, com sua meia-irmã e co-editora Caroline e seu diretor, Trimble. Blaise sabia, todos sabiam, que sempre que Hearst precisava de uma história sensacional para seus jornais ele invocava o Perigo Amarelo. Embora Blaise fosse neutro no que se referia à expansão japonesa na China, outras pessoas não eram. Em 1º de fevereiro, quando a Alemanha enviara seu ultimato aos Estados Unidos no sentido de que todos os navios que saíssem de portos americanos com des­tino a portos dos Aliados seriam presa fácil para os submarinos alemães, ou "U-boats", como eram popularmente conhecidos, o Ga­binete reunira-se, e embora Gregory, entre outros, estivesse ansioso por uma declaração de guerra, o Presidente, lembrando-se de que aca­bava de ser reeleito como "o homem que nos manteve fora da guerra", queria apenas cortar relações entre os dois países. Ele recebera o apoio inesperado de seus secretários da Guerra e da Marinha; ambos declararam que os Estados Unidos deveriam deixar que a Alemanha se apoderasse da Europa e então, no futuro, toda a raça branca unir-se-ia contra as hostes amarelas, lideradas pelo Japão. Hearst dera grande destaque a essa alternativa. Blaise, não.

Trimble entrou sem bater. Era um sulino idoso, cujos cabelos antes ruivos tinham agora um desagradável tom rosado.



  • Sr. Hearst — falou, com uma reverência.

Hearst inclinou a cabeça, e Trimble disse:

  • Acabamos de receber um relatório sobre o que o Presidente vai dizer ao Congresso...

  • Guerra? — Hearst endireitou-se na cadeira.

— Não, senhor. Mas ele vai pedir neutralidade armada...

  • Estado de alerta... — suspirou Hearst. — Paz sem vitória. Uma liga mundial das nações com o Sr. Wilson na Presidência. Auto­determinação para todos.

— Bom, ele não fala isto tudo neste discurso — fez Trimble, antes de retirar-se.

Blaise repetiu a piada da semana em Washington.

— O Presidente quer declarar guerra confidencialmente, de modo que os bryanistas, que são os pacifistas do partido, não fiquem contra ele.


  • Além de mim. Ainda estou na política, você sabe.

Blaise sabia; todos sabiam. Hearst preparava-se para concorrer novamente ao governo do estado de Nova York, ou à prefeitura da cidade de Nova York, ou à Presidência em 1920. Ainda tinha um número imenso de seguidores, principalmente entre os assim chn mados de dupla nacionalidade: germano-americanos e irlandeses-americanos, inimigos da Inglaterra e de seus aliados.

  • Viu Os perigos de Pauline? — perguntou.

Blaise acomodou-se facilmente à súbita mudança de assunto. A cabeça do Chefe era um prodigioso caleidoscópio que nenhum tipo de consciência protegia. Como uma criança, dizia o que quer que lhe viesse à mente. Não havia um processo de filtragem, exceto quando ele decidia, como fazia com freqüência, ficar enigmatica­mente silencioso.

— Vi vários episódios. Ela é muito bonita, a Srta. Pearl White, e sempre em ação.



  • É por isso que eles são chamados de imagens em movimento. — Hearst mostrava-se professoral. — Ela tem que ficar fugindo do perigo, senão a platéia vai começar a fugir do cinema. Sabe, neste negócio de guerra, sou a favor de ficarmos de fora, tanto quanto você é a favor de entrarmos. Mas vou dizer uma coisa: se o povo realmente quiser a guerra, então vou concordar. Afinal, é o povo que vai ter que lutar nela, não eu. Vou pedir um plebiscito nacional, fazer todo mundo votar, sabe como é? Querem lutar pela Inglaterra e pela França contra seu próprio povo, os alemães e os irlandeses?

Blaise riu.

  • Acho que não vão deixar você colocar a pergunta assim.

Hearst grunhiu.

  • Bom, sabe o que quero dizer. Não existe um apoio de verdade. Sei disso muito bem: tenho oito jornais, da Califórnia a Nova York. Mas claro que é tarde demais. A coisa já foi muito longe. Vamos mesmo entrar na guerra. Então a Inglaterra vai desmoronar. Depois os alemães virão aqui, ou tentarão. Já pensou nas bandeiras?

  • Bandeiras?

Dessa vez o inconsciente do Chefe estava à frente de Blaise.

Hearst extraiu de seu enorme bolso lateral um exemplar do New York American. Na primeira página havia bandeiras em vermelho-branco-azul, assim como várias estrofes do hino nacional.

— Bonito, não é?


  • Muito patriótico.

— A idéia é essa mesma. Estou ficando cansado de ser chamado de pró-Alemanha. De qualquer maneira, estou prestes a começar uma empresa de cinematógrafo, e gostaria que você entrasse comigo.

Blaise adaptou-se a essa nova mudança com admirável sangue-frio, segundo ele próprio achou.

— Mas não entendo nada de filmes.


  • Ninguém entende. Isto é que é maravilhoso. Sabe, enquanto estamos sentados aqui, no mundo inteiro chineses, hindus e patagônios analfabetos estão assistindo à minha Pauline. Entende, para assistir um filme não é necessário falar outra língua, como quando se lê um jornal, porque está tudo ali. Tudo ali, em movimento. É a única coisa internacional que existe. De qualquer maneira, o im­portante é que mamãe, que é quem tem dinheiro, não quer me emprestar, e não pretendo recorrer aos bancos.

Finalmente Hearst surpreendera Blaise. Era verdade que Phoebe Apperson Hearst controlava a grande fortuna em minério do finado pai de Hearst, mas o império pessoal de Hearst era mais que sufi­ciente para financiar uma companhia cinematográfica. Naturalmente Hearst vivia mais luxuosamente do que qualquer pessoa nos Estados Unidos, com cinco milhões por ano, dizia-se, grande parte dos quais era destinada à aquisição de qualquer obra de arte espúria à venda em qualquer lugar.

— Bem, vou pensar nisto — Blaise estava cauteloso.



  • E aquela sua irmã, Caroline?

  • Pergunte a ela.

  • Você não quer me vender o Tribune?

  • Não.

Hearst pôs-se de pá.

  • É o que você sempre diz. Estou de olho no Times daqui. É um jornal horrível, mas este aqui também era até Caroline comprar e consertar.

A súbita onda de inveja de Blaise, ele esperava, não era visível para o outro. Caroline realmente comprara e revigorara o moribundo Tribune, depois, e só depois, permitira que seu meio-irmão com­prasse uma parte. Agora, em conjunto, em harmonia, eram sócios.

Hearst contemplava a Rua 14.

— Quatro — disse. — Não, cinco casas de cinema só nesta rua. Estou de olho num lugar lá no Harlem, um antigo cassino, onde posso montar um estúdio. — Chutou distraidamente os restos da cadeira Biedermeier. — Tenho que ficar em Nova York. Por causa de 1920. Com ou sem guerra, vai ser o grande ano da política. Quem quer que se eleja presidente vai poder... — Hearst deu um tapinha no telegrama Zimmermann que estava sobre a escrivaninha de Blaise. — Acho que é falso.

Blaise assentiu.

— Eu também. É perfeito demais.

Hearst apertou a mão de Blaise.

— Vou voltar para Palm Beach. Vamos ter esta guerra de qualquer jeito, querendo ou não. Lembre-se da minha proposta. Só vou começar no Harlem porque Nova York é a minha base. Mas o lugar certo de se estar de agora em diante é Hollywood. Está por dentro?

— Não — respondeu Blaise. Como um domador, levou o grande urso até a porta. — Mas tenho certeza de que você está.


2
A Duquesa estava atrasada. Enquanto Jesse Smith esperava por ela na ante-sala de Madame Marcia, estudava ou fingia estudar o Almanaque do vermífugo do Dr. Jane, um grosso volume cheio de fantásticos mapas celestes e estranhos desenhos de criaturas ainda mais estranhas, uma das quais, um monstruoso caranguejo, provocou em Jesse ou Jess — "Não se pronuncia o 'e' final, por favor, rapa­zes, isto é só para as senhoras da loja" — angústia e azia, pois em seus repetidos pesadelos freqüentemente figurava um caranguejo gi­gante e devorador, de completa malignidade; e Jess acordava aos soluços, segundo Roxy, nas poucas vezes, durante seu breve casa­mento, em que tinham passado uma noite inteira juntos.

Jess virou rapidamente várias páginas, até chegar a uma neutra balança de dois pratos, mais tranqüilizadora do que a lagosta com o ferrão na cauda ou o ameaçador leão. Não que ele temesse ser devo­rado pelo caranguejo, pela lagosta, pelo leão: asfixia era o seu terror noturno, com a pesada pata do leão tapando-lhe a boca e o nariz.

Jesse inspirou profunda e entrecortadamente. O apartamento de Madame Marcia recendia a galinha cozida e incenso velho, vindo de um prato de bronze de Benares cheio do que parecia fumo de ca­chimbo usado mas que na realidade era o mais recente incenso de sândalo indiano, pelo qual Roxy também tinha uma queda.

A sala de espera de Madame Marcia era separada do "santuário" por uma cortina feita de cordões de contas de cores diferentes para dar um efeito de Mil e uma noites, mas as contas eram tão foscas que o efeito era mais de balas de tostão enfiadas numa linha. No entanto, metade das figuras importantes de Washington D.C., dizia-se, vinham até ali para conhecer o futuro e assim impedir — ou apressar — o destino inexorável. Uma feiticeira em ação, Madame professava "fazer presidentes e dirigir presidentes". Por trás da cas­cata de contas Jess ouvia Madame resmungando consigo mesma em voz sem inflexão, que sugeria os mais elevados reinos espirituais, até que se distinguia a letra de uma recente canção popularizada pelo espetáculo de Ziegfeld follies de 1916, ouvida havia quase um ano em todas as vitrolas do país. Jess olhou sem muito interesse para um espalhafatoso diploma na parede, que declarava a todos que uma certa Mareia Champrey ocupava elevada posição na Igreja Espiritualista.

Madame Mareia tinha sido inspiração de Daugherty.

— Nunca fui lá. Mas dizem que ela é tiro e queda, e é disso que a Duquesa está precisando — dissera ele.

Como todos os políticos, Daugherty falava em código; e Jess, que crescera à sombra das colunas do Tribunal em Washington, Court House, sua cidade natal no Ohio, entendia esse código. Além disso, não havia o que ele não fizesse por Harry M. Daugherty, que tornara-se seu amigo quando ele estava começando, fizera seu tra­balho legal de graça, apresentara-lhe os políticos de Ohio que sempre vinham pedir ajuda a Daugherty na época das eleições — eleições deles, naturalmente. Embora Daugherty tivesse sido presidente do Comitê Estadual Republicano e era agora para sempre parte da história porque indicara William McKinley para governador em 1893, dessa forma lançando o sol, por assim dizer, ao céu da repú­blica, o próprio Daugherty não tinha tido sorte na política; por 77 votos não conseguira ser candidato a governador e agora contentava-se em ser o poder oculto atrás de qualquer trono que conseguisse erguer. Naturalmente o trono mais alto de todos estava vazio no momento, ou, para ser mais preciso, ocupado por um tal Woodrow Wilson, um democrata — um estado de coisas antinatural que seria corrigido em 1920 com a eleição de um Presidente republicano. Mas para isso faltavam três anos, e havia certos preparativos a serem feitos. Madame Marcia era um deles.

— Ela sempre se atrasa assim?

Madame Marcia deslizou para dentro da sala num estranho ân­gulo em relação ao solo. Já fora dançarina, segundo contara a Jess em sua visita anterior, na Companhia de Ópera de Frank Deshon.

"Aos 16 anos , acrescentava, caso alguém fosse contar os anos passados desde que seu nome aparecera em letras bastante miúdas num enorme cartaz cuja data colocava-a como uma artista da remota época de McKinley. A dançarina era agora uma espiritualista e guia astrológica nos dias sombrios de Woodrow Wilson, quando todos os dias, para os republicanos, eram como hoje, fevereiro, com a neve caindo e um vento frio vindo do norte.



  • Não. A Duquesa é a pontualidade em pessoa. — Jess ergueu-se, como sempre fazia, quando uma senhora, qualquer uma, entrava num aposento, qualquer um. — O mau tempo...

— Ah, sim, o mau tempo.

Ao longo dos anos, uma a uma, as vogais com sotaque do Brooklyn de Madame Marcia foram-se fechando gradualmente até que ela passou a soar refinada e profundamente espiritual. Usava um hábito preto e um cordão de pérolas. Apenas a basta cabeleira ruiva destoava, evocando a bailarina da Companhia de Frank Deshon. Jess conhecera-a com Daugherty, que punha a mão no fogo por ela, o que quer que isso significasse. Embora Jess acreditasse ardorosamente em todo tipo de fantasma e assombração, não tinha particular interesse em qualquer mundo espiritual exceto o que havia no armário do vestíbulo de sua casa, onde, atrás de um velho sobre­tudo de inverno e uma pilha de galochas, reinava o horror. Apenas seu motorista George ousava entrar naquele armário, de onde saía são e salvo.



  • O Sr. Micajah vai bem?

Madame Marcia sentou-se numa cadeira de espaldar reto e sorriu, mostrando dentes semelhantes a pérolas, mais autênticos em qualidade do que as pérolas que ela usava. Micajah era o primeiro sobrenome de Daugherty. Madame desencorajava o uso de nomes verdadeiros — "para que eu não seja influenciada quando consulto os astros". Daugherty garantia que ela não tinha a menor idéia da pessoa cujo horóscopo estudava; daí o preço alto. Ela era uma lenda na capital, muito procurada por altos figurões, geralmente através de intermediários, pois suas fisionomias seriam conhecidas de Ma­dame Marcia, graças à fotografia e ao noticiário filmado.

  • Vai, sim. Ele voltou para... — Jess interrompeu-se antes de dizer "para o Ohio". — ... casa. Mas o, hum... amigo está aqui. O marido da Duquesa.

— Um horóscopo interessante, até mesmo significativo.

Madame Marcia recebera apenas a data e a hora do nascimento do marido da Duquesa. Naturalmente ela tinha um catálogo do Congresso em seu santuário e podia, se quisesse, comparar as várias datas de nascimento com aquela em suas mãos, partindo do princípio de que seu proprietário estivesse no Congresso. Mas, como dizia Daugherty, mesmo sabendo de quem era o horóscopo, como podia prever seu futuro sem uma ajuda qualquer, dos astros ou do que fosse? A cidade inteira sabia que ela previra que o atual vice-presidente, Thomas R. Marshall, seria elevado a esse cargo. Sem uma ajuda espiritual esse palpite seria impossivelmente arriscado.

— Nunca vi um inverno tão frio. Pior que qualquer um em Nova York...

— Por que veio para Washington?



  • Foi o destino — declarou Madame Marcia, como se falasse de um amigo velho e querido. — Eu estava ligada à cigana Oliver no parque de diversões de Coney Island. Mais por divertimento. Porém... — a voz de Madame tornou-se baixa e vibrante — ela tinha dons também, além de... esperteza. Dons misteriosos. Entre eles o da profecia. Eu pensava ter um casamento feliz. Com dois filhos lindos. Meu marido, o Dr. Champrey, tinha uma excelente clientela. Era especialista em região lombar inferior e, naturalmente, em todo o aparelho renal. Mas os espíritos falaram com a cigana Oliver e ela falou comigo. Cuidado com o peru, ela me disse um dia. Pensei que estivesse brincando. Achei graça. Que tola fui! Que peru?, perguntei. Conheço perus, e não gosto muito; seco demais, a não ser que se saiba assar, e o destino não quis que eu soubesse. Bem, pois não é que no mês seguinte, era novembro, eu estava preparando o jantar de Ação de Graças para a minha família quando o Dr. Champrey disse: "Vou comprar um peru para nós." Ainda me lembro que senti um estremecimento, um arrepio, como se um fan­tasma segurasse em mim.

Jess estremeceu no aposento abafado. Era tudo para valer, mesmo. Sem sombra de dúvida.

— Respondi: "Horace, você sabe que não gosto muito de peru. Um frango cozido está bom." — Ela suspirou. Jess respirou fundo e sentiu cheiro de galinha cozida e sândalo velho. — "Por que não fazermos uma festança?", ele falou, e saiu. E nunca mais — os olhos de veias vermelhas encararam Jess — voltou.



  • Assassinado?

Jess sempre soubera que ele próprio teria morte violenta. Roxy dizia que ele era doido. Mas Jess tinha certeza; por isso nunca ficava sozinho numa rua deserta, num corredor ou, aliás, numa cama, se pudesse evitar. Quando George não dormia com ele, um dos empregados do armazém fazia esse favor. Em Washington de sempre dividia um quarto com Daugherty, ao lado do quarto da inválida Sra. Daugherty. Em qualquer cidade que estivesse, ficava amigo de policiais. Lia todas as histórias de detetive, para aprender como se sobrevive na selva da cidade, com suas mortes selvagens, seus formi­gueiros humanos, seus becos escuros.

  • Quem é que sabe? Aquele filho da puta... — ela arrema­tou, com súbita melancolia. — De qualquer maneira, tenho a minha vocação. — Apontou para o diploma da Igreja Espiritualista. — Não preciso de homem, felizmente, a não ser quando sinto que conheço um deles de outra encarnação.

Sorriu para Jess, que enrubesceu e tirou os óculos de lentes grossas, de modo que o rosto dela tornou-se um borrão; adorava mulheres mas, com uma coisa e outra — como o seu problema de peso e a diabetes — de que adiantava? Foi o que Roxy disse no terceiro mês de casamento. Na ocasião Jess chorou. Ela foi firme, mas carinhosa. Roxy jamais sairia para comprar um peru sem voltar. Ela saiu foi para o divórcio, e como Jess mesmo naquela época já valia uma pequena fortuna, mais que cem mil dólares, ele podia sustentar os dois em alto estilo. Hoje eram mais amigos do que nunca, ambos fãs de mexericos, ambos capazes de lembrar a data do casa­mento de alguém, de modo que no nascimento do primeiro filho eles podiam — ela sem usar os dedos, ele usando — calcular a data da concepção e sé a criança era ou não abençoada aos olhos do Senhor. Ambos deliciavam-se secretamente com o fato de que o filho da Duquesa com seu primeiro marido tinha nascido seis meses depois do casamento que acabou terminando em divórcio seis anos depois. Roxy compartilhava o prazer de Jess nesse tipo de informação, que era, na opinião de Jess, bênçãos ainda por vir, principalmente se Roxy acabasse em Hollywood como estrela do cinematógrafo, sonho usual deles — para ela.

A Duquesa surgiu na sala,



  • Entrei por minha conta.

A voz era seca e anasalada, e sempre que uma palavra tinha a letra "r" a Duquesa fazia essa pobre letra atravessar seus lábios finos e ressequidos vezes sem conta, como se fosse francesa. Mas era o tipo perfeito de alguém do Meio-Oeste descendente de alemães. Seu nome de nascença era Florence Kling. Tinha a cabeça grande e o corpo pequeno. A Duquesa sofria do que Madame Mareia rotularia de problemas renais, e costumava ter os tornozelos inchados, ao passo que sua costumeira cor amarelada com freqüência ficava cinzenta de doença. Possuía apenas um rim, o que a obrigava a beber grande quantidade de água. Freqüentemente acamada com um saco de água quente mesmo nos mais abafados dias de verão, ela tentava, às vezes em vão, transpirar. Mas hoje os olhinhos azuis brilhavam, e havia até uma sugestão de cor em sua face, pelo efeito do vento norte, ao passo que a ponta do nariz um tanto grosso mostrava-se também rosada — e úmida também. Assoou o nariz num enorme lenço, como uma trombeta, e declarou:

  • Odeio incenso. É tão estrangeiro! E é tão ruim para o ar...

Chacun à son goüt. — Madame Marcia foi simpática. —Deixe-me guardar seus agasalhos.

Enquanto se despia, a Duquesa voltou-se para Jess.

— Fomos convidados para a casa da Sra. Bingham, mas... — A Duquesa ia mencionar o marido pelo nome, mas viu os olhos de Jess, castanhos e míopes, tão diferentes dos seus próprios, pe­quenos, cinzentos e enxergando longe; e se lembrou da regra de omertà. — Mas não quero ir sozinha. Você pode me levar, não pode?


  • Claro, Duquesa.

  • E agora, Madame Marcia. — A Duquesa fez o nome da sacerdotisa soar como o da dona de uma casa de diversões. — Nos últimos dois anos tenho ouvido falar tanto em você, e tenho muito prazer em conhecê-la, embora não possa dizer que acredite muito nisto tudo.

A Duquesa assumiu uma expressão que Jesse estava convencido de que ela achava ser jovial, mas o lábio superior comprido como o de um carneiro e a boca fina produziam um efeito mais para o assustador.

  • Minha cara senhora... — Marcia suspirou e pestanejou. — Somos a matéria de que os sonhos são feitos...

— Detesto Shakespeare. — A Duquesa sempre surpreendia Jess pela quantidade de coisas que conhecia e geralmente detestava. Mas ela tivera uma vida difícil, que provavelmente não ia ficar mais fácil. Conseguia distinguir os avisos de tempestade com mais clareza do que qualquer outra pessoa que ele conhecia, como aqueles animais que conseguiam prever terremotos, o que nunca lhes foi de utilidade alguma. — Uma vez assisti à Companhia de Ópera Frank Deshon — continuou ela, numa virada completa; era também uma grande política quando queria ser. — Foi em Cincinnati. Fui com meu... irmão. Foi antes do seu tempo, é claro...

— Ah, minha cara senhora! — Madame Marcia estava devida­mente fisgada.

— Agora o que faço? Sinto-me como se estivesse no dentista...

Madame Marcia tomou sua cliente pelo braço e guiou-a para o aposento dos fundos.

— Não vai doer, prometo.

— Agora, não fique escutando, Jess. — A Duquesa tocou nas contas da cortina.

— Nunca escuto o que não devo.

— Pois sim! Estas suas orelhas, grandes assim só vi no circo.

Jess resolveu não escutar e ouviu tudo.

— A pessoa — como o marido da Duquesa era chamado — nasceu em 2 de novembro de 1865 às 14:00h no Meio-Oeste dos Estados Unidos. Júpiter... — algo ininteligível, e depois — Signo de Sagitário, na décima hora.

Jess fixou os olhos no carvão em brasa atrás da grade de ferro. Washington era igualzinho a Ohio, aquelas ruas de casas de tijolo nada tinham de cidade grande. Todos diziam que Washington era apenas uma aldeia grande que por acaso estava cheia de pessoas importantes, do tipo que atraía Jess naturalmente, e era atraído por ele.

Ultimamente Jess vinha registrando num livrinho o nome de todas as pessoas importantes que ele conhecia a cada dia. Em Washington seus dedos logo ficaram cansados de somar o total do dia. Mesmo assim ele estava ansioso pela recepção da Sra. Bingham. Viúva e rica, a Sra. Bingham mantinha em sua casa o que Jess a princípio pensava ser um salão de cabeleireiro, até que lhe expli­caram que "salão" eram as reuniões políticas que ela promovia em casa. A Sra. Bingham era também sogra do editor do Washington Tribune, um jornal bastante favorável aos republicanos de Ohio, ao contrário do Washington Post, cujo dono, John R. McLean, um de­mocrata de Ohio, falecera no verão anterior, deixando seu filho Ned para apoiar a Duquesa e seu marido. Ned e a esposa, Evalyn, eram agora seus amigos íntimos; e então maravilhosamente se sentia Jess, que nunca sonhara ser adotado por um casal rico e sofisticado da mais alta sociedade. Evalyn era especialmente deslumbrante, com mais diamantes do que qualquer outra mulher no planeta, entre eles o Diamante Hope, aos olhos de Jess um caco de vidro azulado usado numa corrente comprida que ela levava ao pescoço e tão cheio de mal, dizia-se, quanto o armário do saguão de Jess. Porém, ao con­trário de Jess, Evalyn não tinha medo.

— Sinto envolvimentos extraconjugais que podem trazer sofri­mento — cantarolou a voz rica de Madame Marcia atrás da cortina de contas.

A resposta anasalada da Duquesa veio em tom alto:

—Você deve estar vendo o marido de outra qualquer. Mas tudo bem. Continue.


  • Os astros...

A voz de Madame Mareia baixou para um sussurro e Jess suspirou voluptuosamente pensando em todos os pecados do mundo, boa parte deles carnais. A Duquesa sofria porque o marido era um con­quistador e ela nada podia fazer a não ser fingir que não via, como fazia com sua vizinha Carrie Philips, esposa de James, que, como Jess, comerciava com panos e artigos de armarinho, miudezas e rou­pas infantis.

Carrie era bonita, loura e bem-nascida — diziam que era aparentada com o Fulton dos barcos a vapor. Era em parte alemã, e isso causava muita discussão nos lares de Washington Court House e da vizinha Marion; pior ainda, muita discussão entre Carrie e seu amante, que era obrigado a agradar seus constituintes, tanto pró-Alemanha quanto contra. Nesse assunto Carrie conseguia ser feroz; fora isso, fazia feliz o grande homem, pensou Jess, assoviando bai­xinho consigo mesmo a canção: "Meu Deus, como entra dinheiro!"



  • Tudo isto foi muito interessante. — A voz da Duquesa soava rascante. — Realmente. Dá o que pensar.

Enquanto ela entrava na sala, Jess pensou no que o marido certa vez dissera dela: "Não consegue ver uma banda sem querer ser o maestro." Gostava que as pessoas pensassem que ela era a fonte de energia do marido, mas Jess duvidava disso, mesmo que só pelo fato de que ele gostava que as pessoas achassem que ela o impulsionava. Daugherty os via mais como uma equipe, como um par de bois velhos puxando uma carroça, sendo que ela era quem mais mugia e ele quem mais puxava. Mas graças, porém, à mãe de Jess, a Roxy e à mãe desta, ele sabia mais sobre as mulheres como pessoas do que outro qualquer, e sua opinião era de que a Duquesa era uma feliz escrava de seu marido aparentemente preguiçoso, encantador e sortudo, que era quem dava as cartas.

— Jess, você cuida de tudo? — A Duquesa estava agora con­fortavelmente escondida dentro de seus inúmeros envoltórios. O sor­riso de Madame Marcia era doce e distante.

— Certo, Duquesa. — Jess percebeu que o "d" de "Duquesa" tinha produzido um repentino jato de saliva. Felizmente ninguém ficou encharcado. Ele secou os lábios com a manga esquerda; teria que enxugar o espesso bigode mais tarde, sem ser observado.

— Você me pega na Avenida Wyoming. Cinco em ponto. Use uma roupa alinhada.



  • Sim, senhora.

As duas damas despediram-se em meio a afirmações de mútua simpatia e profunda — da parte de Madame — compaixão.

— Quanto foi o prejuízo? — perguntou Jess, pegando a carteira.

— O prejuízo...! — Madame Mareia contemplou etereamente através da janela o céu escuro — já foi feito. — Então pestanejou, como se acordasse de um sonho. — O Sr. Micajah pagou. Esta se­nhora não é muito forte — acrescentou, e Jess viu que ela queria mais informações. — Tem um problema renal — completou.

Bem no alvo. Jess assentiu, impressionado:



  • Ela tem andado bastante adoentada ultimamente.

— A doença de Bright, eu arriscaria, pois não fiz seu horóscopo. Ele também está adoentado.

— Ele é a própria saúde em pessoa.

Novamente bem no alvo. Jess ficou impressionado pela primeira vez. A saúde instável da pessoa em questão era um dos poucos se­gredos de sua vida pública; particular, também. Quando ele foi para Battle Creek, no Michigan, a cidade pensou que ele estava apenas fugindo da Duquesa e da política, mas na realidade estava tentando baixar sua pressão sangüínea, moderar o ritmo do coração, enxugar seu sistema. Jess fora com ele uma vez e espantara-se com o modo como o rosto marcado ficava quando ele parava de beber, e como ele era frágil, apesar de toda a sua robustez altamente visível, para não dizer notavelmente bela.

— Acho que você devia contar ao Sr. Micajah, que afinal está pagando, o que não contei a ela. — Madame Marcia fechou a cor­tina, escondendo o céu de fevereiro.

— Alguma coisa ruim?


  • Estas coisas são abertas à interpretação. Se eu acertasse sempre, estaria morando num palácio na Avenida Connecticut, como Blaise Sanford. Claro que nossos dons não se estendem a nós. Neste sentido somos todos um pouco como médicos, que nunca cuidam de si próprios.

  • E nunca provam de seus próprios remédios. — Jess raramente ficava livre dos médicos — a asma, a diabetes.

— Nisso eles são espertos. O Sr. Micajah deixou bem claro que se eu encontrasse nos astros aquilo que ele achava que eu ia encontrar, devia informar... a Duquesa, o que fiz. Raramente vi um mapa tão glorioso e tão breve. Entendo por que ele é melancólico e temperamental, e quer aproveitar a vida antes de subir às alturas...

Ela se interrompeu. O coração de Jess estava batendo com força. Então era isso! Daugherty era esperto; e Madame era clarividente?



  • Ele vai ser Presidente?

Madame Marcia assentiu solenemente; depois voltou-se para contemplar-se'prazerosamente num espelho empoeirado.

  • Sim. Com esse mapa astral e aquele leão rampante, ele não pode fracassar. Contei isto a ela. Contei-lhe tudo, a não ser... — Por um instante ela pareceu perder o fio dos pensamentos. Em que estaria pensando? O peru que não houve, ou... ? Deu as costas ao espelho;, aproximou-se de uma mesa onde, em meio a numerosos objetos de arte, uma pequena xícara de porcelana continha palitos de dentes; ela escolheu um e com toda concentração pôs-se a limpar os dentes inferiores. — Não contei a ela o que quero que você conte ao Sr. Micajah. Depois da glória na casa do progresso, o Sol e Marte estão em conjunção na oitava casa do zodíaco. É a casa da morte. Morte súbita.

  • Ele vai morrer?

  • Nós todos morremos. Não. Vejo algo muito mais terrível que uma simples morte. — Madame Marcia abandonou o palito como uma imperatriz soltando o cetro. — O Presidente Harding, pois é claro que sei exatamente de quem se trata, vai ser assassinado.


3
Desde o princípio Caroline Sanford Sanford e Eleanor Roosevelt Roosevelt eram amigas. Para começar havia a ridícula redundân­cia de seus nomes; ambas casaram-se com primos com o mesmo so­brenome; além disso, ambas tinham estudado na Inglaterra com Mlle. Souvestre. Como Caroline, agora com quarenta anos, era sete anos mais velha que Eleanor, não tinham se conhecido nessa escola. Mas ambas tinham sido moldadas — ou até mesmo esculpidas — pela extraordinária Mademoiselle, uma solteirona de maxilar quadrado, intelecto e caráter formidável e livre de qualquer superstição, particularmente a cristã — o que preocupara o tio Theodore de Eleanor, o Presidente. Mas como a irmã predileta de Theodore sobre­vivera impune à mesma escola, ele concluíra que a sobrinha — alta, desajeitada, órfã de mãe e pai — conseguiria adaptar-se no estran­geiro, coisa que ela não conseguia em Tivoli, Nova York, onde mo­rava, perto do rio Hudson, longe da orla do grande mundo — mundo dela, pois não podia convidar seus amigos do vale do Hudson para sua casa por medo de que seu irmão alcoólatra, postado na janela do segundo andar, atirasse neles com seu rifle de caça. Embora ele até então sempre errasse, não se podia ficar eternamente confiando no tremor alcoólico para defender vidas.

Tirar Eleanor de Tivoli, da América, tinha sido uma inspiração. Na verdade, Caroline gostava de atribuir-se algum crédito por ter ajudado a convencer — ou teria sido Blaise, seu meio-irmão? — o então governador Roosevelt a deixar que a sobrinha partisse para o mundo dos livres-pensadores. Dois anos depois, Eleanor voltara para a América mais educada do que qualquer pessoa de sua classe, exceto, talvez, a própria Caroline, mas Caroline tinha sido criada na França, o país para onde seu pai, americano, partira em excêntrico exílio depois da Guerra Civil.

Aos 33 anos, Eleanor falava um excelente francês, assim como um pouco de alemão e italiano. Não sucumbira ao ateísmo aveludado de Mademoiselle; em vez disso, reagira a ele com um renovado vigor protestante e falava, com freqüência e sem afetação, em "ideais", uma palavra raramente ouvida nos lábios de Caroline; mas Caroline, junto com Blaise, era editora do Washington Tribune, um jornal muito influenciado pelo jornalismo sensacionalista "amarelo" de William Randolph Hearst, ao passo que Eleanor era uma nobre matrona, mãe de cinco filhos, dos quais a mais velha estava na Escola das Senhoritas Eastman com Emma, filha de Caroline. Além disso, Eleanor era a esposa tímida, porém decidida, do subsecretário da Marinha, Franklin Delano Roosevelt, um cavalheiro encantador, fazendeiro no vale do Hudson, considerado, na expressão do sena­dor Lodge, "bem-intencionado, porém fraco". Caroline não estava tão certa de quão bem-intencionado era o ambicioso Franklin — ela era imune ao seu encanto agressivo, até mesmo cruel — mas sabia que, por mais que lhe faltasse força moral e intelectual, Eleanor compensava largamente. Um completava o outro. Ambos viam a po­lítica como uma estrada confortável a ser percorrida inteira. Como o primo da Franklin e tio de Eleanor, Theodore, Franklin tinha sido eleito para o Legislativo estadual de Nova York; agora ocupava o mesmo cargo que Theodore utilizara para ganhar as Filipinas para os Estados Unidos e a presidência para si mesmo.

— Qual é o estado de espírito do Presidente Wilson? — Caroline perguntou. — Sobre a Alemanha atual?

— Ele não confia em seus subsecretários. Mas Franklin acha que a guerra está sobre nós. — Ela franziu a testa. — Espero que não, é claro.

— Seu tio, o Rei Theodore, como Henry Adam o chama, clama pela guerra.

— Tio Ted é, às vezes, enfático demais, até mesmo para nós.

Eleanor mostrou os grandes dentes num sorriso tímido e baixou a cabeça, um gesto estranho, como se pedisse desculpas pelo queixo pequeno demais, os dentes superiores grandes demais, que lhe im­pediam a entrada no famoso clube de beleza que eram sua mãe e as duas tias. Mas Caroline achava-a encantadora de aparência, embora um pouco grandalhona. Era alta como um homem. Felizmente Fran­klin era ainda mais alto que ela; ambos magros, de pernas compridas, cheios de energia. Eleanor morava a dois quarteirões da casa de Caroline, e ambas gostavam de caminhar, sempre que havia tempo, em seu bairro, Georgetown, ainda quase todo de negros, mas mos­trando, aqui e ali, casas do século XVIII sendo restauradas por brancos ricos. Caroline comprara duas casas e juntara-as numa só. O resultado era mais que suficiente para uma mulher solteira cuja filha de 14 anos passava q dia todo na escola. Por outro lado, os sete Roosevelt, sem dinheiro, apinhavam-se na Rua 1773 N, numa casinha de tijolos à mostra que pertencia à tia de Eleanor.

Nessa ocasião Eleanor estava na casa de Caroline, sentada diante da lareira da sala de estar, o pescoço rodeado de estolas de pele, estudando a agenda do dia. Parece um general, pensou Caroline: preparada para qualquer eventualidade. Tinha uma secretária social trabalhando em horário integral, além de babás para as crianças; naturalmente ela própria se encarregava da obrigação de toda mulher de político, o cartão de visita, que praticamente todas as manhãs ela saía a distribuir pelas casas de outras esposas de políticos, diplomatas e juízes. Elas, por sua vez, deixavam seus cartões na casa dela. Moradora da cidade durante vinte anos, Caroline era quase aborígine, de modo que jamais deixava seu cartão de visita senão para alguém de mais idade que ela ou uma amiga recém-chegada à cidade.

— Daqui a vinte minutos precisamos estar na casa da Sra. Bingham — anunciou Eleanor.

— Você precisa. Eu vou porque quero.

A risada de Eleanor era alta, e sua pele normalmente de um cinza pálido ficava rosa-claro de repente. Embora Eleanor enrubes­cesse com facilidade, Caroline suspeitava que isso não se devia à timidez, como todos pensavam, mas tratava-se da arma de uma fan­tástica estrategista social para quem ruborizar era uma tática evasiva comparável à do polvo, que espalha uma nuvem de tinta em torno de si e desaparece dentro dela para planejar nova rota.

— Claro, faço isto por causa do Franklin. Temos que ficar com as pessoas certas no Congresso, e todas elas vão lá.

— Mas não esta semana. Todos viajaram. Avisei a ela para não se dar o trabalho, mas ela tem suas obsessões. Agora está correndo atrás de diplomatas que ficam, e pelo pessoal do governo, que nunca sai da cidade como os anteriores costumavam fazer.

— Eles não podem mesmo. Pelo menos agora. Com essa campanha de "Estado de Preparação"... — Eleanor franziu a testa. — Acha que vamos entrar na guerra?

— Foi o que escrevi no meu editorial ontem. Acho, sim.

— Pensei que fosse do seu irmão. Ele anda tão... ansioso para entrarmos...

— Bem, eu agora também estou ansiosa.

Caroline pilhou-se a contemplar um busto de Napoleão, presente de seu antigo mentor no jornalismo, William Randolph Hearst, cujos presentes, como a sua vida, tendiam ao inadequado, mas nem por isso deixavam de ser reveladores.

— Todos os homens jovens estão — Eleanor desabotoou a luva direita; logo estaria distribuindo apertos de mão graciosamente, como o tio, mas com muito menos barulho. — Estou me referindo aos do Governo, como Franklin e Bill Phillips. Eu mesma sou mais... Não conte a ninguém!

Encarou Caroline com ansiedade, e Caroline achou encantadora aquela inocência, pois ninguém em seu juízo perfeito confiaria num jornalista. Mas assentiu carinhosamente, como sempre fazia cada vez que o Presidente Wilson fingia confiar nela; ele não era inocente, é claro; apenas egocêntrico e portanto às vezes obtuso em relação à estratégia. Eleanor continuou:

— Bem, pessoalmente, e cá entre nós, gostei do modo como o Sr. Bryan pediu demissão do cargo de secretário.



  • Paz a qualquer preço?

  • Quase isto, sim. Você não?

  • Quase. Não. — Caroline foi ríspida. — Já é tarde demais, graças ao telegrama de Herr Zimmermann. Até Mlle. Souvestre seria a favor da guerra.

— É verdade. Aquilo foi demais. Tão desanimador! Acho que estou me acostumando com a idéia. Mas quando o Sr. Bryan renun­ciou, achei que ele foi muito corajoso. Não sou pacifista, é claro. Nem posso ser. Franklin ficaria furioso. Ele está ficando igualzinho ao tio Ted: guerra a qualquer preço. Agora, graças ao Sr. Zimmer­mann... — Eleanor olhou melancolicamente para sua agenda.

A princípio, tanto Caroline quanto o anglófilo Blaise pensaram que o telegrama fosse uma invenção dos ingleses; como resultado, vergonhosamente, o Tribune foi um dos últimos jornais a registrar aquele insulto chocante — extremamente chocante — ao povo ame­ricano. No entanto, quando o Presidente pediu permissão ao Con­gresso para armar os navios americanos, o pedido foi destroçado no Senado e o Congresso entrou em recesso no dia 3 de março, deixando sem solução o problema do país.

Em 5 de março o Presidente tomou posse do cargo pela segunda vez, numa cerimônia simples ria Casa Branca, para a qual nem Blaise nem Caroline foram convidados. O fato era que o Presidente era vingativo não apenas nas coisas importantes, o que era necessário, mas também nas pequenas e insignificantes. Para Caroline, essa era uma prova cabal da grandeza dele, pois todas as grandes figuras políticas que ela conhecia apreciavam igualmente uma vingança desinteressada.

Jacques, a metade menor do casal da Martinica, assomou à porta.



  • O carro chegou, madame.

Caroline ergueu-se enquanto Eleanor abotoava perversamente a luva que acabara de desabotoar. O processo teria agora que ser repe­tido quando chegassem à reunião. Havia algo de compulsivo na ener­gia da amiga, que Caroline achava ao mesmo tempo comovente e misterioso. Acontecia que o temível — e para Caroline, se não para o resto do mundo, encantador — tio Theodore tinha imposto padrões de atividade extraordinariamente altos, que iam desde mostrar-se eternamente irrequieto dentro de um aposento até subir e descer alucinadamente o Amazonas para matar qualquer animal ou ave que ousasse colocar-se em seu caminho. Felizmente as mulheres da famí­lia nunca se deixaram levar por isso. Desde sua serena esposa Edith •até a brilhante filha Alice, incluindo as várias irmãs, as damas nunca se esforçavam, ao contrário dos cavalheiros, que não cessavam de fazer imitações pouco convincentes da disposição e da soberba mas­culinidade de Theodore Roosevelt em todas as circunstâncias. Até mesmo Franklin, primo distante, que em nada se parecia com os Roosevelt presidenciais, passara a jogar a cabeça para trás como se seus cachos cada vez menos fartos fossem a juba de um leão, e na­turalmente não deixava de exibir os dentes grandes em imitação daquele que tinha sido o que ele — como todos os outros — queria ser: Presidente. Eleanor, no entanto, rompeu o padrão sexual: de modos serenos e controlados, ela era superativa nos atos. Subia ao mastro de navios, fazia mais visitas do que o necessário, organizava exageradamente a rotina doméstica e estava sempre com pressa, pen­sou Caroline, andando depressa para alcançá-la na porta do carro onde estava postado o motorista irlandês com o rosto ansioso de sobriedade.

— Por que você está sempre com tanta pressa? — Caroline perguntou.

— Porque acho que estou sempre atrasada — respondeu Eleanor.

— Atrasada para quê?



  • Ah... — Ela saltou para o banco traseiro do carro. — Para tudo — disse. O sorriso cheio de dentes era repentino e muito simpático — Para a vida.

Caroline acomodou-se ao lado dela.

  • Isso se resolve sozinho logo, logo. Nós também.

— Então temos que correr para fazer tudo.

Caroline perguntou-se, e não pela primeira vez, se Eleanor gos­tava mesmo do marido. Era um casal que combinava tanto, politica­mente, que apenas uma tensão qualquer poderia explicar o perfec­cionismo de Eleanor e seu pavor irracional de atrasar-se — ou ser deixada para trás?

A Sra. Benedict Tracy Bingham era a maior invenção de Caroline. Na virada do século, quando a jovem Caroline tomara a frente do moribundo Washington Tribune, não havia o que fazer

com o espírito do jornal a não ser baixá-lo — baixá-lo até alcançar o maior número possível de leitores comuns — ou então fechar o jornal. Caroline imitou Hearst. Os crimes tornaram-se sua marca registrada, principalmente quando o cadáver — sempre feminino, sempre lindo — era retirado do canal. Caroline tinha um precon­ceito contra o rio Potomac que seu editor, o Sr. Trimble, honrava sempre que podia. Depois de cadáveres flutuando aos pedaços ao longo do canal paralelo ao rio, os assaltos às casas dos ricos habi­tantes da parte oeste da cidade eram os mais populares, e quando a Sra. Bingham, esposa do "Rei do Leite", como Caroline o apelidou, foi roubada em algumas quinquilharias por um ladrão que conse­guira entrar na casa da Avenida Connecticut, Caroline arbitraria­mente elevou a Sra. Bingham, uma senhora que ela nem conhecia, ao cargo de primeira dama da sociedade de Washington, ampliando a casa até o tamanho do Castelo de Windsor e transformando todas as suas jóias em jóias reais. A Sra. Bingham ficou encantada; passou a cultivar Caroline e forçou o Rei do Leite a anunciar no Tribune.

Em troca, Caroline ajudara a Sra. Bingham a alcançar e a agarrar-se às alturas da sociedade de Washington, um amontoado de al­deias mutuamente exclusivas que tendiam a excluir a maior de todas, o Governo. Acostumada aos salões políticos de Paris, Caroline enco­rajara a Sra. Bingham a especializar-se em membros do poder Legis­lativo, um grupo que nenhum habitante de Washington desejara culti­var. Como Caroline previu, os estadistas ficaram pateticamente gratos por qualquer atenção, e assim, acorrendo en masse ao salão da Sra. Bingham, mostraram ser visitantes de peso suficiente para encher a sala de visitas dela com um interessante sortimento de outros al­deões. Agora viúva, cega, maldosa de língua, a Sra. Bingham chegara lá; tornara-se uma instituição; conseguira, para o espanto de Caro­line, casar sua filha Frederika com Blaise, e assim o sangue leitoso dos Bingham juntou-se ao púrpura dos Sanford e Burr na forma de uma criança obesa. Tenho muito de que prestar contas, pensou Ca­roline entrando com Eleanor na sala onde penas de pavão transfor­mavam em cocares de guerra alguns inocentes jarros chineses, ao passo que gigantescas luminárias Tiffany's iluminavam os piores ân­gulos de todo mundo.

— É Caroline. — Os olhos cegos da Sra. Bingham voltaram-se na direção de Caroline. Parecia mais velha do que era, graças a uma dieta preparada para ela pelo próprio Dr. Kellogg. Ela vivia de trigo moído, de modo que arrotava constantemente por causa da excessiva matéria fibrosa, necessária apenas às vacas de seu finado marido, fonte de sua fortuna e glória. — E a Sra. Roosevelt, Sra. Franklin Roosevelt.

A Sra. Bingham nem mesmo tentou disfarçar a decepção. Poiéin Eleanor, uma Roosevelt do ramo "certo" da família, estava bastante acostumada a ser tomada por alguém do ramo "errado", graças ao marido.

A Sra. Bingham pegou a mão de Eleanor.



  • Todos falam do seu marido. Tão cheio de energia, tão bonito! Onde está ele?

— Ele esteve no Haiti e em São Domingos inspecionando nossos fuzileiros navais.

Eleanor não mentiu, mas sabia como evitar a verdade. Na realidade, quando as relações com a Alemanha foram rompidas, Franklin tinha sido chamado de volta a Washington pelo secretário da Marinha. Na melhor tradição rooseveltiana, ele agora fazia a todo mundo queixas de seu paciente chefe, Josephus Daniels, um simpático sulino proprietário de jornal, que odiava a guerra e o álcool, e por causa disso a Marinha americana lhe fora confiada.

— Bom, ele deve andar muito ocupado. Sou pró-Alemanha, vocês sabem.

Quando não estava espalhando mexericos espantosos, a Sra Bin­gham dedicava-se a defender posições insustentáveis, sem que nin­guém se irritasse com isso a não ser a filha, que, Caroline percebeu, não estava presente.



  • É mesmo? — Eleanor não estava acostumada com a Sra. Bingham.

— É, sim. Beethoven, Mozart, Goethe, Romain Rolland. Estes são os meus ídolos.

  • Rolland é francês — murmurou Caroline.

— Quem disse que ele não era? Eu não.

Eleanor afastou-se. A Sra. Bingham segurou com força o braço de Caroline.

— Precisamos conversar. Agora não, é claro. — A voz rouca tinha um tom conspiratório. — Mas ele está aqui. Com o irmão dela. E é verdade. Custou 75 mil dólares. As cartas agora estão nas mãos dele.

Caroline fez uma mesura para o pai de sua filha. O senador James Burden Day inclinou a cabeça enquanto a esposa, Kitty, sorria vagamente para aquela que era amante de seu marido havia 16 anos.

Caroline tinha certeza de que Kitty não sabia, pois se soubesse have­ria cenas terríveis e ameaças de divórcio ao estilo americano, tão diferente do de Paris, onde, pelo menos nessas questões, as coisas eram melhor planejadas. Naturalmente o marido de Caroline divor­ciara-se dela ao descobrir a identidade do pai da criança. Felizmente não havia problema de ciúmes — apenas de dinheiro; ela era rica, ele não. De qualquer maneira, o primo sabia que ela estava grávida de outro quando se casou com ela por precisar de dinheiro tanto quanto ela precisava de um marido com um bom sobrenome, que também era o dela, Sanford. Depois de algum tempo, separaram-se. Depois de algum tempo,, ele morreu. Depois de algum tempo, Caro­line seguiu sua vida, pois nada mais se pode fazer com o témpo.

Enquanto a Sra. Bingham contava-lhe escândalos esquálidos demais até mesmo para o Tribune publicar, Caroline percebeu que o amante estava engordando, que os cachos antes espessos e dourados eram agora grisalhos e em menor número, que os olhos azuis mos­travam-se menores no rosto enrugado. No entanto ainda faziam amor pelo menos uma vez por semana; e, mais importante, havia sempre muito assunto para conversarem. Ela porém tinha agora quarenta anos, com uma esquadra de navios incendiados atrás de si. Não havia como voltar no tempo, ao passo que o que havia pela frente era menos consolador, quanto mais não fosse porque ela não sabia como ser idosa e duvidava que conseguisse aprender algum dia.

Todos, até mesmo Blaise, aconselhavam-na a casar de novo, como se a pessoa pudesse simplesmente ir a uma festa e escolher um marido. Mas as poucas possibilidades eram sempre casados, como seu primeiro amante fora e ainda era. Com as possibilidades, ela permitira-se inúmeros casos curtos, sem grande entusiasmo. Agora descobria-se atraída por homens com a metade da sua idade, o que teria sido aceitável na França mas não ali, onde ela poderia ser levada à fogueira. Às mulheres não eram permitidas tais licenciosidades na república puritana. Às mulheres não era permitida muita coisa, a não ser que tivessem fortuna própria — a única vantagem dela, da qual raramente se aproveitava.

A Sra. Bingham aceitou a veneração de dois casais de novos congressistas que, quando ouviram o nome de Caroline viram Deus, por assim dizer. Cônscia de que um dono de jornal era a fonte de toda a vida de um político, Caroline encorajava que lhe acendessem velas, murmurassem preces e fizessem confissões sussurradas porque, em resumo, gostava muito do poder.



De repente sentiu menos pena de si mesma, enquanto a Sra. Bingham, uma taça de ponche na mão, contava-lhe, com hálito acre, que um dos "ele" de sua história estava parado do outro lado da sala, um homem gorducho e apagado chamado Randolph Bolling, irmão da segunda Sra. Woodrow Wilson.

  • E é por isso — completou a Sra. Bingham, deliciada com o horror de tudo aquilo — que ele está com ele.

  • Quem está com quem? — Caroline sempre tinha dificuldade em acompanhar os mexericos mais elevados da Sra. Bingham. Agora, já meio caduca, a Sra. Bingham não se dava mais o trabalho de identificar pelo nome aqueles pronomes à deriva que pululavam em tal confusão na superfície de suas narrativas rápidas e sombrias.

  • Ele, o irmão dela. — A Sra. Bingham franziu a testa, irritada. Não apreciava o específico. — Randolph Bolling. Aquele ali. Com cabeça de carneiro. Bem, ele trouxe o outro. O grande espe­culador. Bem ali. O judeu. Bem bonitão, para falar a verdade.

Caroline reconheceu Bernard Baruch, um especulador de Wall Street, de grande estatura e grande fortuna, que ostentava um sota­que sulino tão carregado que fazia Josephus Daniels parecer um ianque de Vermont. Baruch era nova-iorquino de origem sulista. Fi­zera sua fortuna lembrando-se de vender aquelas ações que com­prara antes que elas custassem menos do que ele tinha pago por elas, um talento de que Caroline carecia inteiramente. Uma ou duas vezes ela se sentara ao lado de Baruch à mesa de jantar e divertira-se com a conversa dele, na qual todos os pronomes eram firmemente ligados a um, nome famoso. Como tantos novos-ricos sem tradição — ela percebera que ele só era judeu quando lhe interessava —, Baruch tinha sido atraído por Washington, pela política, pelo Pre­sidente. Dizia-se que ele pessoalmente doara cinqüenta mil dólares a Wilson para a eleição de 1912; dizia-se também que usava suas ligações na Casa Branca para conseguir informações sobre quais ações comprar. Caroline não tinha muita certeza dos fatos — ao contrário da Sra. Bingham, que estava agora à toda velocidade.

  • A Sra. Peck. — Ela pronunciou o nome em tom acusador, preferindo muito mais o pronome "ela". — A antiga amante do Pre­sidente. Ela agora está na Califórnia. Estava ameaçando vender as cartas do Presidente para os jornais antes da eleição, de modo que Randolph Bolling pediu ao Sr. Baruch para ir lá e comprar as cartas por 75 mil dólares, e foi assim que o Presidente pôde casar-se com Edith Bolling Galt, que esta ficando gorda, e o Presidente conseguiu vencer a eleição, por pouco...

Uma mulherzinha de aspecto comum e cabeça grande marchou em direção à Sra. Bingham, seguida por um homem gorducho e usando óculos, que tinha a palma da mão úmida, como Caroline cons­tatou quando a mão dele fechou-se em volta da sua.

  • Sra. Harding!

A Sra. Bingham produziu seu sorriso mais sinistro para a esposa do senador mais jovem de Ohio, Warren Gamaliel Harding, que, de­pois de James Burden Day, era o homem mais bonito do Senado.

A Sra. Harding empurrou seu acompanhante para a frente.

— Este é um velho amigo. De Washington Court House, no con­dado de Fayette. Jesse Smith. Cumprimente a Sra. Bingham, cumpri­mente a Sra. Sanford, Jesse.

Os cumprimentos foram feitos. Então, para puxar assunto, Jesse declarou a Caroline:



  • Sou amigo de Ned McLean. E de Evalyn também. A mulher dele, você sabe. A do diamante.

— Eu não sou. — Caroline foi simpática. — Quero dizer, não sou amiga. — Foi expansiva em sua insinceridade: — Gostaria de ser!

  • Posso dar um jeito — fez Jesse. — A qualquer momento.

— Jesse pode dar,um jeito em qualquer coisa. — Porém o tom

da Sra. Harding parecia hesitante.

— Onde está o senador? — A Sra. Bingham chegou à única questão que lhe interessava; as esposas eram apenas toleradas, nada mais.

— Foi para Palm Beach. Com os McLean. Ele odeia o frio. Eu também. Mas tenho muito quê fazer aqui. Sabe, compramos uma enorme casa na Avenida Wyoming que é dividida em duas. Moramos numa parte e alugamos a outra. Bom, inquilinos são um problema sem fim, não é mesmo?

A Sra. Bingham respondeu:


  • Não tenho idéia.

— Precisa vir visitar-nos depois que nos estabelecermos. A senhora também, Sra. Sanford. Estive na linda casa de seu irmão.

— Quase tão grande quanto a dos McLean — foi a contribuição de Jesse.

— Minha filha acha-a suficientemente grande hoje em dia. — Com seu golpe rápido de costume, a Sra. Bingham lembrou-lhes de que a Sra. Blaise Delacroix Sanford era ninguém menos que sua filha Frederika.

Minha protegida, pensou Caroline, que estava feliz por Blaise ter se casado com alguém que conseguia agüentar seu temperamento difícil, tão parecido com o do pai, apesar de, ao contrário daquele monstro antigamente tão vivo e agora tão morto, Blaise ainda não estar louco. Caroline admirava bastante a força de caráter da cunha­da, principalmente pelo modo como esta tinha, pelo menos social­mente, abandonado a mãe, uma vez tendo saltado para o topo de seu mundo. Nem Blaise nem Frederika apareceram uma vez sequer nos "salões" da Sra. Bingham para o Congresso, nem a Sra. Bingham era convidada para a casa dos Sanford a não ser para uma refeição íntima no seio da família, o último lugar em que a Sra. Bingham desejava estar. A própria Caroline era menos radical que Frederika. Além disso, a Sra. Bingham era invenção sua e não devia ser aban­donada. Tinha também seu valor, quando se conseguia separar suas invenções daquelas verdades escandalosas para as quais ela tinha olho de lince.

A Sra. Harding encarava Caroline. Deixara seu cartão logo que chegara à cidade, no início de 1915; è ficara por isso mesmo.

— Precisa vir nos visitar, Sra. Sanford. Somos gente simples, mas sei que a senhora é amiga de Nick Longworth...



  • E aqui está a Sra. Longworth — anunciou Caroline, salva pela chegada de uma linda criatura toda em azul.

  • Caroline!

As mulheres abraçaram-se.

— Sra. Bingham... — Os frios olhos cinza-azulados de Alice Roosevelt Longworth estreitaram-se de riso reprimido. A Sra. Bin­gham tinha esse efeito sobre ela. — Sra. Harding! — Os olhos de Alice arregalaram-se de súbito; o riso foi cortado pela raiz.

— Eu estava justamente falando do seu Nick e do meu Warren.


  • O "Warren" saiu num rugido em staccato.

— Eles jogam pôquer — Alice anunciou euforicamente. — No apartamento de vocês.

  • É uma casa dividida em duas partes — começou a Sra. Harding, com um brilho de aço em seus olhos também cinza-azulados.

Caroline não estava certa de qual das duas venceria, se houvesse uma guerra. O frenético senso de humor de Alice era uma espada na qual ela própria poderia ferir-se, ao passo que a Sra. Harding

  • qual era mesmo o nome dela? Florence — jamais cederia. Normalmente as duas damas não teriam se encontrado, se não fosse pelo fato de o marido de Alice ser deputado por Ohio, por onde Warren Harding era senador; daí, nenhuma das duas poderia ignorar a outra. Mas até então Alice conquistara mais pontos.

— Preciso visitar seu apartamento. Quero dizer, sua casa — disse esta. Voltou-se para Caroline: — Não vou porque não sou convidada para as partidas de pôquer. Só os rapazes podem ir. Mes­mo sendo uma excelente jogadora. — Voltou-se para a Sra. Harding: — Talvez nós duas devêssemos promover umas noitadas de pôquer para mulheres, Florence. — Alice pronunciou o nome da outra com suficiente espaço em volta dele para acomodar uma mortalha.

— Sou Jesse Smith — disse Jesse Smith, apertando a mão de Alice. — Também sou de Ohio.



  • Que sorte — fez Alice — a sua.

  • Acho que a senhora conhece meus amigos, os McLean. Ela joga pôquer, a Evalyn. E muito bem.

— Ah, meu Deus! — Alice já deixara havia muito de prestar atenção nos imigrantes de Ohio. — Minha prima Eleanor! Ela é como um farol, não é? Tão alta e tão. cheia de luz! Preciso ir implicar com ela.

Alice afastou-se em direção à lareira onde Eleanor estava a escutar polidamente o Sr. Baruch. Era o único casal na sala afinado um com o outro. Çomo todos os gigantes bondosos, eles postavam-se diante da lareira é cumprimentaram Alice.

A Sra. Bingham sabia de tudo.

— O pai dela vai concorrer novamente em 1920. Vai ser indicado. Já fez as pazes com os republicanos ortodoxos.



  • O meu Warren admira muitíssimo o coronel Roosevelt. — Com olhar de caçador a Sra. Harding estudava Alice a distância, a presa que até então lhe escapara. — O coronel precisa de Ohio, se quiser ir a algum lugar, e meu Warren pode influenciar a favor dele.

  • Mas certamente o Sr. Wilson vai concorrer de novo, e vencer de novo.

Enquanto falava, Caroline perguntava-se se devia tentar ter outro filho; ou estaria velha demais? A menopausa ainda não co­meçara; mesmo assim a Dama da Sociedade do Tribune nunca dei­xava de aconselhar as leitoras contra ter um filho com tanta idade e tão depois do primeiro. Não havia um marido, naturalmente, mas hoje em dia uma viúva respeitável podia simplesmente fazer uma longa viagem em volta do mundo e voltar com um filho adotivo e uma história complicada de uma empregada da família na França, em Saint-Cloud-le-Duc, que morrera de parto. O último desejo em relação ao bebê: a América. Adoção. Que mais eu poderia fazer? A cada quatro anos, coincidindo com a eleição presidencial, ela pen­sava em ter um filho, em voltar para a França de vez, em envolver- se, finalmente, num furioso caso de amor. Além disso, qualquer men­ção a Theodore Roosevelt tinha o efeito de fazer com que ela se introvertesse. Embora apreciasse bastante o antigo Presidente apesar — ou por causa? — do seu ruidoso contra-senso, pensar em sua auto-estima tão intensamente retribuída fazia com que a afeição dela fosse voltada não para ele, mas para si própria. Ele despertava nela o instinto de competição. Ela ainda poderia recomeçar. Não tinha perdido sua beleza; ainda poderia encontrar... o quê?

— Acho que vou para a Califórnia — declarou, para espanto geral dos outros e o seu próprio.

Com isso abandonou os outros pelo pai de sua filha, Burden Day, que entrara para o Senado em 1915, no mesmo ano que Warren Harding. Antes disso estivera na Câmara dos Representantes, onde, durante seu primeiro — ou segundo? — mandato, ele a deflorara, pelo que ela estava em débito com ele: caso contrário, poderia ter ficado como Mlle. Souvestre, um vasto jardim abandonado, estéril.


  • Jim— ela murmurou. Ele acabava de deixar o grupo em volta de Alice e Kitty. Kitty: A Esposa Sem Suspeitas. Caroline tinha a tendência a pensar em manchetes, maiúsculas, grifos e negrito muito, muito negro. Podia não ser mais grande coisa como mulher, porém era realmente uma ótima editora. — Ou devo chamá-lo de Burden? — Com a entrada de Jim no Senado, Kitty decretara que ele fosse conhecido por Burden Day, que tinha um belo som presi­dencial, ela achava, embora a Caroline esse nome sugerisse um sol­teirão de Newport, Rhode Island, escravo exuberante da arte da tapeçaria.

  • Pode me chamar do que quiser. Você está linda. Que mais?

— Tenho mesmo outra coisa em mente. A beleza é apenas uma armadilha da natureza. Quero outro filho.

  • Meu?

O sorriso de Burden mostrou-se imaculado, mas a voz baixou para um sussurro. Perto deles, o embaixador austríaco falava de paz com o secretário do Interior, que só se preocupava com petróleo.

  • Seu. É claro. Ainda não virei libertina.

  • Acho que pode-se dar um jeito. — Ele sorriu, lembrando a ela o rapaz que fora quando se conheceram. — É engraçado — ele acrescentou, e ela sorriu largamente, sabendo que quando alguém dizia "é engraçado" era quase certo que a coisa não tinha graça. — Kitty disse quase a mesma coisa no ano passado.

— E você deu um jeito.

  • Dei um jeito. Ela na verdade nunca se recuperou da morte de Jim Júnior.

  • E agora?

— Feliz. Novamente. Como está Emma?

— Nossa filha quer ir para a faculdade. É muito inteligente, não puxou a mim.



  • Nem a mim.

  • Venha visitá-la. Ela gosta de você.

Na realidade, Emma era inteiramente indiferente a seu pai ver­dadeiro, apesar da mística atração inevitável da consangüinidade. Mas Emma era indiferente à maioria das pessoas; era retraída, intro­vertida, neutra. Lia livros de Física como se fossem romances. Sur­preendentemente, a única pessoa de quem gostara era o marido de conveniência de Caroline; naturalmente pensava que John Sanford era seu pai. Como ele estava morto, ficara tudo por isso mesmo. Caroline, no entanto, não deixava de achar estranho — e até mesmo pouco feminino — que Emma nunca tivesse percebido a semelhança física entre ela própria e o velho amigo de sua mãe, James Burden Day. Porém Emma nunca consultava um espelho para ver-se, e sim ao penteado ou ao chapéu.

— Ela fez amizade com a garota dos Roosevelt.

Junto à lareira, Alice falava com a prima Eléanor, cujo sorriso paciente estava começando a parecer-se com o esgar petrificante da Medusa.

— É difícil imaginar um Roosevelt democrata. — Burden exa­minava as primas, semelhantes em aparência, diferentes em caráter.



  • Que acha dele?

Burden deu de ombros.

  • Não joga no meu time. É um pouco encantador demais, eu diria. E é também belicoso demais. Não consegue esperar para nos botar na guerra.

— E você consegue?

— Sou um democrata de Bryan, lembra-se? — Burden esticou os braços, como se os medisse para uma cruz de ouro. — Lá de onde eu venho, a guerra não é muito popular. Os do Leste deviam ir lutar na guerra e nos deixar quietos em casa...

— Para vocês lutarem contra o México?


  • Bom, pelo menos lucraríamos alguma coisa nos saques. Na Europa não há coisa alguma para nós a não ser problemas.

A Sra. Harding passou marchando, Jesse Smith dois passos atrás. Ela cumprimentou Burden; depois agarrou-se ao embaixador russo, Bakhmeteff, cuja esposa era tia de Ned McLean, o amistoso concorrente de Caroline, do Post.

— Agora, ele tem um problema. Estou falando de Warren Harding. — Burden pegou uma taça de champanhe de um garçom que passava. Caroline.tinha dado à Sra. Bingham a idéia de romper a tradição de Washington e servir champanhe além do inevitável chá com bolo. Toda a Washington oficial ficou feliz, a não ser os abstêmios radicais, tais como Josephus Daniels, que chegara ao ponto de banir o vinho do refeitório dos oficiais da Marinha. No momento a Sra. Daniels estava sendo muito falada por ter oferecido um chá onde foram servidos sanduíches de cebola. Ela nunca conseguiria su­perar isso — opinião abalizada da Sra. Bingham. Até em Washington a vulgaridade tinha seus limites.

— Existem tantas pessoas de dupla etnia no Ohio?

Caroline achava fascinante o problema dos germano-americanos e irlandeses-americanos; o governo achava assustador. Se os Estados Unidos entrassem na guerra contra a Alemanha, como reagiriam um milhão de cidadãos americanos de língua alemã?



  • Não mais do que lá em casa, proporcionalmente. Mas Harding tem uma amiga que é um dragão, dizem. Ela ameaçou de­nunciá-lo...

  • Denunciar?

— Denunciar os dois. Vai contar tudo, se ele votar a favor da guerra contra a terra natal dela.

— Isto não é comum. Cherchez le pays.

— Os senadores são conhecidos pelas mulheres que têm. — Burden sorriu. — Na verdade ele é um cara bacana, se não levarmos seus discursos em consideração.

— Isto é o que dizemos de todos vocês. Exceto o senador Lodge. Gostamos dos discursos dele. É ele quem...

A Sra. Bingham aproximou-se, os olhos cegos brilhando de excitação:

— O Sr. Tumulty está aqui. Veio da Casa Branca. Vão convocar todos, senador. O Congresso inteiro.



  • Convocar para quê?

Burden voltara a aparentar sua idade; e Caroline resolveu não ter outro filho... com ele.

  • Sessão extraordinária. Para receber um comunicado do Exe­cutivo a respeito de Graves Questões de Política Interna. Palavras do próprio Sr. Wilson. Tenho certeza de que finalmente é a guerra. Não é excitante?

O coração de Caroline pôs-se a bater com força — de excitação? O rosto de Burden avermelhara-se de repente.

— Tenho certeza de que não é a guerra ainda. Quando vai ser a sessão extraordinária?

— Dezesseis de abril, segundo o Sr. Tumulty.

Burden pareceu aliviado.

— Isso nos dá um mês. Muita coisa pode acontecer.

— Muita coisa está acontecendo — retorquiu Caroline, a jornalista. — O Presidente está muito ocupado equipando aqueles navios que vocês, senadores teimosos, disseram que ele não podia equipar. — Embora a famosa Constituição americana fosse para Ca­roline um mistério total, aquilo lhe parecia errado. — Como é que ele consegue? — perguntou a Burden.



  • Ah, ele pode fazer isso se quiser. Pode chamar de "necessidade militar", como Lincoln fez.

— Lincoln! Guerra! — A Sra. Bingham estava nas nuvens. — Eu ainda não era nascida, é claro — mentiu. — Mas sempre quis viver uma guerra. Estou falando de uma guerra de verdade, não aquela bobagem espanhola.

— Acho que é só isto que todos querem. — Caroline não estava alegre. — Viver numa guerra.

4
James Burden Day subiu os degraus até o pórtico norte da Casa Branca, onde foi recebido por um funcionário que o conduziu ao pequeno elevador elétrico do outro lado do saguão de entrada.

— A Sra. Wilson está esperando no saguão do segundo andar. O Presidente está de cama. Ainda tem a gripe.

Burden impressionou-se com a tranqüilidade da Casa Branca. Não havia sinal de qualquer emergência. Viam-se alguns políticos mostrando os aposentos oficiais a amigos. Naturalmente os escritórios da administração ficavam em outra ala, no lado oeste, e embora nos escritórios os telefones nunca parassem de tocar, não havia, até então, aquela tensão que ele recordava dos tempos de McKinley e da guerra espanhola, para não mencionar a tremenda confusão da era Roosevelt, quando se viam crianças e seus pôneis dentro e fora de casa e o Presidente dava a impressão de estar presidindo simulta­neamente em todos os aposentos com o máximo de ruidosa euforia.

A Casa Branca de Wilson era como o próprio Presidente: erudito, distante e algo amaneirado. O Presidente tinha sido inteiramente devotado à primeira esposa; agora estava inteiramente derretido pela sucessora dela. Era de longe o mais conjugai dos últimos presidentes; tinha também o menor número de amigos. Pouco à vontade com os homens, Wilson preferia a companhia de mulheres, particularmente de suas três filhas, réplicas graciosas de si mesmo, que iam da triste falta de graça da solteirona Margareth, que queria ser cantora, à beleza mortiça de Eleanor, casada com o secretário do Tesouro William G. McAdoo, e às feições eqüinas de Jessie, casada com um certo Francis B. Sayre.

O elevador estacou. Abriu-se a porta envidraçada. Burden encontrou-se no familiar corredor de cima que atravessava o compri­mento do prédio de leste a oeste. Nos velhos tempos, os gabinetes presidenciais ficavam na extremidade leste e os aposentos residen­ciais a oeste, com o Salão Oval como uma espécie de terra de nin­guém bem no centro. Mas a família de Theodore Roosevelt era grande; e ambiciosa, também. Ele acrescentara à mansão a ala executiva, ao mesmo tempo que reformava todo o segundo andar para ele e a família; para os sucessores também, naturalmente.

A esposa do mais desprezado de seus desprezados sucessores postava-se diante do elevador, esperando por Burden. Edith Bolling Galt Wilson era uma mulher corpulenta, de seios fartos, cujo rosto de feições pequenas e regulares refletia o sangue indígena que ela herdara, segundo afirmava, de Pocahontas. O sorriso era realmente encantador.

— Senador Day! Diga-me a verdade completa: o funcionário lá embaixo referiu-se a mim como Sra. Wilson ou como a primeira dama?

— Acho que ele disse "Sra. Wilson".



  • Ah, ótimo! Detesto tanto primeira dama! Parece coisa de revista musical, com Weber e Fields, e eu como Lillie Langtry.

Burden tinha consciência de que ela era a origem de um forte aroma de jasmim que aumentava e diminuía de intensidade em ondas atrás dela enquanto o conduzia ao extremo do saguão, onde uma escrivaninha com dois telefones tinha sido colocada sob uma grande janela semicircular voltada para os escritórios executivos a oeste e o prédio do Departamento da Guerra e da Marinha ao norte. Sentada à escrivaninha estava a secretária social de Edith, Edith Benham, filha de almirante, que substituíra a magnífica Belle Hagner, rainha da Cidade Aborígine e secretária da primeira Sra. Wilson, assim como da Sra. Roosevelt e da Sra. Taft. Insinuava-se que, não tendo sido Edith Bolling Galt incluída em qualquer lista da Sra. Hagner das pessoas convidáveis à Casa Branca, a própria Srta. Hagner não mais seria encontrada lá com suas listas, suas fichas, seus tele­fones, à escrivaninha sob a janela em semicírculo. Kitty não falara de outra coisa durante uma semana; e Burden escutara menos que o normal.

— Espero que a Sra. Day venha ao chá em 12 de abril — foi o cumprimento da Sra. Benham.

Burden respondeu que também esperava que ela viesse.

— Edith é um tesouro — declarou Edith. — Claro, é da Marinha. Estamos cercados pela Marinha. Conhece o almirante Grayson?

Um homenzinho empertigado e de bela aparência, usando um mufti, saía da Suíte Sudoeste.

— Senador... — disse, apertando a mão de Burden.

Outro sulino, Burden observou, achando certa graça no fato de que a Virgínia levara menos de meio século para reconquistar a Casa Branca com Woodrow Wilson, que quando garoto chegara a contem­plar as sagradas feições de Robert E. Lee nos dias de ruína do país de ambos. Agora o Sul retornara em triunfo a seu lar verdadeiro, sua cidade, nação; e o Presidente estava cercado, como devia ser, de virginienses.

— Ele está indo muito bem, senhor. — Grayson falava com Burden mas olhava para Edith. — Apenas não o deixem cansar-se. Ele é forte como um touro, mas vulnerável à tensão. O sistema di­gestivo...



  • ... é o primeiro a registrar os contratempos. — Edith sor­riu, como uma criança, Burden observou; daí o famoso apelido que o Presidente lhe dera, "garotinha", e que tinha provocado muitas

risadas, considerando-se a opulência de formas de Edith, sempre en­feitada, engalanada de orquídeas. — Fiquei horrorizada quando des­cobri qual era o desjejum do Sr. Wilson...

— Dois ovos crus em suco de uva — acorreu Grayson. — Resolveu a dispepsia, tanto quanto possível. De qualquer maneira, deixe que ele conduza a conversa.

Grayson deu outras instruções, para profunda irritação de Burden: era perfeitamente capaz de discutir política a seu próprio modo com quem era, afinal, apenas outro político, não importava quão elevado e cercado de cerimônia. Então Edith conduziu-o ao quarto.

Woodrow Wilson estava recostado em quatro travesseiros; usava um roupão simples, de lã quadriculada, e seu famoso pincenê. Ao lado da cama, numa cadeira, sentava-se seu cunhado Randolph. Entre eles, sobre a colcha, havia uma tábua de Ouija, e ambos tinham uma das mãos no topo do instrumento parecido com uma mesa, que se movimentava, como se por vontade própria, sobre um tabuleiro de madeira em que tinha sido traçado o alfabeto, estacando, sob as ordens do espírito, numa ou noutra letra, que Randolph pron­tamente transcrevia num bloco de anotações. Wilson levou um dedo aos lábios enquanto Burden e Edith sentavam-se perto do leito, um móvel enorme de madeira escura entalhada que Edith trouxera do assim chamado quarto de" Lincoln .no outro extremo do corredor. Na realidade, o "quarto de Lincoln" tinha sido o escritório de Lincoln, e a cama, respeitosamente conhecida como a cama dele, nunca fora usada por ele. Tudo que se podia lembrar era que a Sra. Lincoln comprara-a para um quarto de hóspedes. De qualquer ma­neira, Burden considerava o móvel singularmente horroroso apesar da procedência; o fato era que ele não gostava do que quer que fosse ligado à época da Guerra Civil. Veludo vermelho, estofamento de crina, lampiões a gás eram coisas misturadas com suas próprias lem­branças de ter crescido pobre no Sul da Reconstrução do pós-guerra antes que sua família se transferisse para o oeste.

Enquanto os dois homens usavam a tábua de Ouija, Edith cochichou a Burden.

— Este lugar estava, está, tão mal conservado! É preciso vigiar o trabalho de todos aqui 24 horas por dia, o que a pobre Sra. Wilson, estando doente, não podia fazer, e a Sra. Taft era grã-fina demais para fazer. Agora, é claro, o dinheiro vai todo para o Estado de Preparação, de modo que vamos vivendo mesquinhamente.

Mas viviam mesquinhamente de um modo muito agradável, pensou Burden. A lareira estava acesa, e acima dela uma esplêndida paisagem americana fornecia um certo alívio de todas aquelas répli­cas de políticos obscuros e suas esposas, que davam aos aposentos da Casa Branca uma sensação de meros cenários para uma platéia de fantasmas sombrios e perscrutadores. A janela defronte a Burden emoldurava uma vista invernal das colunas do prédio do Departa­mento da Guerra e da Marinha, onde as luzes já estavam acesas. Sobre uma mesa, debaixo da janela, estava colocada a máquina de escrever Hammond do Presidente. Dizia-se que ele não apenas dati­lografava tão bem quanto qualquer profissional, mas também que escrevia sozinho aqueles discursos elevados e melífluos que tanto tinham encantado o país, inclusive Burden, em geral imune à oratória alheia.

Tanto Edith quanto Burden observavam atentamente o Presidente. Dava-se que ele era altamente observável, Burden" concluiu. Roosevelt estava sempre em movimento, e assim sempre no centro das "atenções; mas nada havia de particularmente interessante no rosto redondo de T. R. ou nos movimentos algo espasmódicos de seu corpo pesado. Por outro lado, Wilson era esguio, tinha a cabeça avultada e era quase bonito. O rosto comprido terminava num queixo saliente; os olhos de um cinzento pálido eram observadores; os ca­belos ralos e grisalhos, cortados curtos; a pele descorada, profunda­mente enrugada. Grayson mantinha-o fisicamente ativo, em parti­cular no campo de golfe, onde Edith com freqüência juntava-se a ele; ela tinha fama de ser melhor jogadora. Aos sessenta anos, o 28º Presidente dos Estados Unidos, reeleito para um segundo mandato cinco meses antes, parecia bastante capaz (no interesse da Virgínia?) de ser eleito para um inédito terceiro mandato em 1920. Esse era o pesadelo do político profissional; e o próprio Burden nada mais era que profissional, como o resto da tribo via-se instalado nesta casa, embora não com um tabuleiro de Ouija. Com leve desânimo contemplava aquele que ainda poderia ser o primeiro Presidente de três mandatos.

Randolph leu a mensagem do mundo dos espíritos: "Use minas para afundar submarinos alemães. Horatio Nelson."

— Como será que Nelson sabe de minas, ou de submarinos?

A voz do Presidente tinha ressonância, e apenas um ouvido apurado como o de Burden poderia detectar a Virgínia debaixo da dicção correta e professoral. Se Wilson não tinha escrito mais livros que seu nêmesis Theodore Roosevelt, tinha escrito livros de mais peso — histórias solenes que eram usadas nas universidades, o que o tornava algo anômalo: o historiador arrancado subitamente de. seu escritório para fazer história para ser escrita por outros. A maioria dos políticos não gostava dele por causa dessa suspeitada — real? — duplicidade. Mas.Burden achava-a curiosa. O Presidente parecia estar sempre observando a si próprio e aos outros como se soubesse que mais cedo ou mais tarde estaria ensinando a si próprio -— e a outros também.

O fato de nunca ter havido um Presidente como Wilson tornava-o ainda mais difícil de ser avaliado. Por exemplo: o historiador profissional, que preferia o sistema parlamentar britânico ao sistema executivo americano, inibia o Presidente em seus deveres? Certa­mente Wilson iniciara seu reino com um teatral gesto parlamenta­rista: em lugar de mandar uma mensagem para ser lida no Congresso, como seus antecessores, ele próprio foi ao Capitólio e leu sua men­sagem, o primeiro Presidente a agir assim desde John Quincy Adams. No Congresso, comportara-se como um primeiro-ministro, exceto que ninguém podia fazer-lhe perguntas naquele local constitucionalmente independente. Gostava também de conversar pessoalmente com membros da imprensa; assim, conseguia aplacar, se não enganar, os editores. Finalmente, como não podia alterar os freios e o equilíbrio da Constituição, ele era obrigado a manter o poder através de um total domínio do Partido Democrata, uma tarefa delicada para alguém que pertencia à minoritária ala do Leste, composta por Tammany Hall,1 Hearst e, coisa, pior, ao passo que a maioria do partido era do Sul ou do Oeste, e por tempo demais apaixonada por William Jennings Bryan.

Burden sabia que tinha sido convocado à Casa Branca porque, com sua entrada para o Senado, ele era agora líder da ala bryanista do partido, que odiava a guerra, a Inglaterra, os ricos e, de modo geral, Woodrow Wilson também. A reeleição de Wilson tinha sido realmente apertada, graças à suspeita de seu próprio partido de que ele queria unir-se aos Aliados na guerra, contra a Alemanha. Apenas o inspirado slogan: "Ele nos manteve fora da guerra" tinha final­mente unido os fiéis. Agora a guerra estava às portas; que fazer?

Wilson indicou a Randolph que retirasse o tabuleiro de Ouija e ele próprio' se retirasse. Edith também obedeceu à indireta. Disse da porta:

— Não se canse.

— Coisa impossível, garotinha, numa cama de doente. — Ela saiu, e Wilson então observou a cama enfeitada, parecida com um carro fúnebre napolitano que Burden vira certa vez na base do Vesúvio. — Embora eu não tenha tanta certeza quanto a esta aqui. — Pegou uma pilha de papéis na mesa-de-cabeceira e colocou-a sobre a colcha. — Esteve com o Sr. Bryan?

Burden sacudiu a cabeça.

— Acho que ele está na Flórida..



  • E o Presidente do Senado?

Wilson encarou Burden pelo canto do olho, um efeito inquietante. Mas o assunto era inquietante. O Presidente do Senado, Champ Clark, era o herdeiro de facto de Bryan. Opusera-se a Wilson em todos os turnos e em 1916 fora um sério candidato à candidatura presidencial. Se não fosse pelas manobras de bryanistas wilsonistas como Burden, Champ Clark poderia agora estar desfrutando um res­friado na cama de Lincoln.

— O Presidente, é sulino. O Sul e o Sudoeste querem a paz a qualquer preço. Pelo menos na Europa.



  • Eu sei. Também sou um deles. Por isso sou orgulhoso demais para lutar. — Wilson citou a si próprio indiretamente. Essa frase irritara todos os partidários da guerra no país, particularmente Theo- dore Roosevelt, apaixonado pela guerra, que não falava mais coisa com coisa. Wilson pegou os papéis. — Ouça o que lhe digo, Sr. Day, fiz tudo que um homem poderia fazer para ficar fora desta coisa terrível. Esperava que a Alemanha fosse suficientemente inte­ligente para não me forçar a tomar uma atitude, para nos permitir continuar como somos: neutros, porém prestativos...

  • Para Inglaterra e França.

O Presidente não tolerava interrupções. Ensinara durante. dema­siados anos, a damas em Bryn Mawr e a cavalheiros em Princeton; e em nenhum desses locais os estudantes tinham sido incentivados a interromper o inspirado — e inspirador — professor.

— Inglaterra e França. Mas há também, havia, o algodão para as Forças do Centro, pela insistência dos senadores de algodão barato, contrários à guerra...



  • Dos quais eu sou um.

— Dos quais você é um. — Embora tivesse sorrido, era claro que Wilson tinha o pensamento no maço de papéis que ela sacudia distraidamente, como se quisesse desalojar sua mensagem. Burden percebeu que dois deles ostentavam selos vermelhos. — É curioso que, se eu for impelido a entrar na guerra, isso dará prazer aos repu­blicanos, nossos inimigos, e desprazer a uma grande parcela do nosso partido.

Burden ainda era um advogado suficientemente hábil para agar­rar uma palavra-chave.



  • Impelido? — repetiu. — Quem o impele?

  • Os acontecimentos.

Wilson olhou distraidamente pela janela, em direção a uma fi­leira de luzes onde seu burocrata secretário de Estado, Robert Lansing, estava, sem dúvida, ocupado com coisas burocráticas, tão diferente de seu predecessor, o Grande Plebeu, que era incapaz de qualquer burocracia; aliás, de qualquer coisa menos mundana que trovoadas jupiterianas em prol da paz.

— Sei que muitos de vocês pensaram que eu estava... hum... fazendo uma barganha durante a última eleição. Que vocês votariam porque eu nos mantive fora da guerra, apesar de tanta provocação. Bem... — Ou ele perdera o fio dos pensamentos ou estava a pre­parar-se para permitir-se o privilégio presidencial de abandonar abruptamente uma linha de argumentação potencialmente perigosa. — Outro dia alguém me perguntou, um antigo colega de Princeton, qual era a pior coisa de ser Presidente. — Wilson olhou diretamente para Burden, o rosto solene mas os olhos brilhantes atrás do pincenê. — Felizmente não me perguntou qual era a melhor coisa. Eu poderia não achar uma resposta. De qualquer maneira, soube respon­der qual era a pior: o dia inteiro as pessoas nos dizem coisas que já sabemos, e temos que agir como se as ouvíssemos pela primeira vez. Agora o senador Gore vem me dizer — obviamente havia uma ligação entre as repetições do óbvio e o senador cego de Oklahoma, cuja oposição à guerra colocara em movimento uma série de mano­bras parlamentares destinadas a trazer à tona as intenções do Presi­dente — que devo minha reeleição inteiramente à ajuda dele na Califórnia — concluiu.

— Mas o senhor realmente deve a sua reeleição à Califórnia.

Na noite da eleição Wilson fora para a cama pensando que seu adversário republicano, Charles Evan Hughes, tinha sido eleito; aliás, o mesmo se dera com o "Presidente" Hughes. No dia seguinte chegaram os números do Extremo Oeste e Wilson foi reeleito por uma estreita margem. Burden sabia que isso poderia não ter acon­tecido se aquele mago da oratória, Gore, não tivesse sido convencido a deixar sua esquiva reclusão na cidade de Oklahoma e ir à Califórnia para subir ao palanque a favor de Wilson. Gore concordara, com a condição de poder garantir que Wilson continuaria a manter a paz, como até então. Na noite da eleição Gore telegrafara a Tumulty a cifra exata pela qual Wilson venceria na Califórnia.

Agora Wilson enfrentava seu próprio histórico de falta de coragem. Em várias ocasiões ele conseguira ser ao mesmo tempo o candidato da guerra e dá paz. Esse tipo de coisa nunca incomodara o público, cuja memória era curta; mas os senadores eram constitu­cionalmente dotados de memória longa e, com freqüência, um eleito­rado caprichoso. Alguns eram obrigados a seguir os preconceitos de seus eleitores pró-Alemanha. Outros viam-se como arquitetos de uma república nova e perfeita, e seu líder era La Follette, de Wisconsin, muito mais perigoso em seu idealismo que qualquer dos bryanistas, afetados pela opinião pública, uma substância altamente volátil, pro­duzida, freqüentemente por capricho, por William Randolph Hearst em seus oito jornais, para não mencionar todos os outros editores — todos, sem exceção, favoráveis à guerra. Até então, Hearst era ainda a voz dos alemães e irlandeses; e seus jornais nas. grandes cidades no Norte voltavam-se desavergonhadamente para a multidão urbana com a qual ele ainda contava para fazer-se Presidente em 1920.

— Eu esperava ser um Presidente reformista. — Wilson soava melancólico. — Havia tanto a fazer aqui mesmo, e fizemos tanto, tão depressa...

Burden concordou sem reservas. O tipo de reformas de que Roosevelt sempre falara com uma paixão tão transcendente, Wilson de fato realizara com uma argumentação suave aliada a. suaves puxões de orelha nos congressistas. Mas, como ele gostava de dizer, qualquer pessoa que conseguisse dominar a faculdade de Princeton e também a associação de alumni acharia fácil lidar com um simples Congresso. Fora o senador Lodge a dizer "Mas ele nunca as dominou. Por isso a política foi a sua única fuga"?

— Que posição eles, quero dizer, você tomaria se eu pedisse a guerra? — Wilson conseguira controlar-se.

— Vai depender das razões. Sempre achei que o senhor perdeu, a oportunidade, se é a guerra que deseja, quando os alemães afundaram o Lusitania e tantas vidas americanas se perderam. Naquele dia o público estava preparado para isso.


  • Porém — Wilson foi frio — eu não estava. Era cedo demais. Não estávamos, não estamos preparados.

— Há duas semanas, quando o senhor mandou o embaixador Bernstorff de volta, o povo estava novamente preparado. — Burden divertia-se com a brincadeira. — Agora vem o negócio do Zimmer­mann... — Embora Burden fosse muito sensível à aversão de Wilson a qualquer tipo de conselho, sabia que tinha sido chamado ao leito de doente do Presidente para dar-lhe uma visão do estado de espírito do, Senado. Mergulhou de cabeça. — Chegou a hora. O senhor não pode esperar muito tempo mais. A imprensa está agindo: a pequena e corajosa Bélgica, as freiras estupradas, as criancinhas devoradas. O boche é o demônio. Se deve haver guerra, preparados ou não, a hora é esta.

Wilson fixou os olhos nos papéis em sua mão; esperou.

Burden prosseguiu.

— Não foi por isso que convocou uma sessão extraordinária? Para nos pedir que declaremos a guerra?

— Se eu fizer isso, quantos se oporiam? E com que argumentos?

As costumeiras imagens poéticas de Wilson, moralistas e confusas, tendiam a evaporar-se diante de um problema político. Ele agora era inteiramente o administrador político contando cabeças.

Burden citou uma dúzia de nomes: os líderes.

— Na verdade, há uma maioria nítida, porém frágil, em ambas as Casas, contra a guerra, e nada vai convencê-la a não ser que o senhor tenha um novo exemplo de barbarismo dos boches.

Wilson tirou o pincenê e esfregou as duas marcas a cada lado do nariz — como impressões vermelhas do polegar.


  • Creio que os alemães são o povo mais estúpido da terra. Eles nos provocam. Afundam nossos navios. Conspiram com o México contra o nosso território. Então, agora, foram até o fim. — Ele ergueu os papéis com selo vermelho. — Hoje três navios nossos foram afun­dados. O City of Memphis, o Illinois, o Vigilancia.

Burden sentiu um arrepio ao ouvir os nomes.

— Tentei... creio que com absoluta sinceridade, mas quem pode conhecer o coração humano, principalmente o seu próprio? Tentei ficar fora desta guerra incrivelmente estúpida e desnecessária, que nos tornou de repente, graças à falência da Inglaterra, a nação

mais rica do planeta. Uma vez armados, nenhum poder poderá nos segurar. Mas, uma vez armados, será que algum dia nos desarmare­mos? Você entende o meu... dilema, ou o que era um dilema até o kaiser me aprontar esta. — O rosto do Presidente parecia ter sido grosseiramente esboçado, com cinzel e martelo, num bloco de granito cinzento.

— Por que o senhor demorou tanto, quando está claro a tantas pessoas que seu coração sempre esteve com a Inglaterra e os Aliados? — Burden perguntou.

Wilson encarou-o como se ele não estivesse ali.

— Eu tinha três anos de idade quando Lincoln foi eleito e a Guerra Civil começou — disse finalmente. — Papai era um clérigo em Staunton, e mais tarde nos mudamos para Augusta, na Geórgia. Eu tinha oito anos quando a guerra terminou e o Sr. Lincoln foi assassinado. Em Augusta a igreja de meu pai foi um... foi usada como hospital para os nossos soldados. Lembro-me de tudo isso. Lembro-me de Jefferson Davis sendo levado prisioneiro pela cidade. Lembro-me de como ele.. . Minha família sofreu muito pouco. Mas o que víamos em volta de nós, a amargura dos que perderam a guerra e a brutalidade dos vencedores... bem, nada disso me esca­pou. Não sou... — interrompeu-se, e um sorriso frio e curto dividiu por um instante o grosseiro rosto de granito — um entusiasta da guerra como o coronel Roosevelt, que tem a mentalidade de uma criança de seis anos e cuja imaginação com certeza não existe. En­tende, posso imaginar o que esta guerra nos fará. Rezo para estar enganado, mas tenho um medo mortal de que uma vez que este povo, que conheço tão bem, seja levado à guerra, ele esqueça que já existiu uma coisa chamada tolerância. Porque para lutar para vencer é preciso ser brutal e impiedoso, e esse espírito de impiedade brutal penetrará em todas as fibras da nossa vida nacional. Vocês, do Con­gresso, ficarão contaminados por ela, e a polícia também, e o cida­dão comum. Todo mundo. Então venceremos, mas o que venceremos? Como ajudaremos o Sul, quero dizer, as Forças do Centro, a voltar de uma época de guerra para uma época de paz? Como ajudaremos a nós mesmos? Nós nos tornaremos aquilo que combatemos! Esta­remos tentando reconstruir uma civilização de época de paz com padrões de época de guerra. Isto é impossível, e, já ,que todos estarão envolvidos, não haverá observadores com poder suficiente para fazer uma paz justa. Isto é o que eu queria que fôssemos: orgulhosos demais para lutar na lama, mas prontos para acorrer, prontos para intermediar, prontos para.. . — A voz estacou.

Houve um silêncio longo. Se o sol ainda não se pusera, há muito desaparecera atrás das nuvens densas e frias; e o quarto estava às escuras, com exceção de uma única lâmpada junto à cama de Wilson e das brasas quase apagadas na lareira. Embora Burden es­tivesse acostumado à eloqüência do Presidente, não era inteiramente imune ao seu poder. Wilson tinha o dom de ir direto ao coração por demais palpitante do problema.

— Vou convocar o Congresso duas semanas mais cedo. Em 12 de abril. Irei... — Colocou- os perigosos documentos na mesa-de- cabeceira. — Que coisa irônica! — Sacudiu a cabeça. — Depois de todo trabalho que tivemos para controlar os grandes negócios, adi­vinhe o que vai acontecer agora? Eles estarão mais firmes na sela do que antes. Pois quem mais poderá nos armar? É o que dirão. Quem mais pode administrar a guerra?

— Quem mais? — Burden tinha tido o mesmo pensamento. Se alguém se beneficiaria com uma guerra americana, seriam os trustes, os cartéis, os especuladores da bolsa. — Vamos voltar à época de Grant.

Wilson assentiu com desânimo.

Então, se a guerra for longa, e nos enfraquecermos, há o verda­deiro inimigo esperando por nós no Oriente: as raças amarelas, lide­radas pelo Japão, prontas para nos dominar pela própria força dos números...

Edith Wilson entrou no quarto e acendeu as luzes, dissipando o ambiente apocalíptico. Ao levantar-se, Burden percebeu algumas obras de arte chinesas arrumadas em mesas e estantes, sem dúvida um lembrete bem a calhar das hordas de terror da Ásia.

— Vieram de casa — explicou Edith, percebendo o interesse de Burden. — Este não é um lugar fácil de tornar aconchegante. — Entregou ao Presidente uma folha de papel. — Do coronel House. Já o decodifiquei para você. — Então sobressaltou-se. — Ora, céus, você não devia ouvir estas coisas — disse a Burden.

— Que o coronel House escreve para o Presidente em código? Eu ficaria surpreso se não o fizesse. Ele está na Europa, não está?

Wilson assentiu. Olhou de relance para a carta e ergueu os olhos para Burden.


  • Bem, ele acha que devíamos reconhecer o novo governo russo. O czar abdicou. Mas a Rússia ainda está na guerra, de modo que...

Ele interrompeu-se e encarou Edith, nitidamente sem enxergá-la, o pensamento longe.

  • Acho que agora precisamos de todos os aliados. — Burden agora hesitava; estava também intrigado com a idéia da esposa de um presidente decodificando documentos altamente secretos do emis­sário não-oficial do Presidente à Europa, coronel House, o texano rico e misterioso.

— Sim. É a minha opinião. Nosso embaixador está muito entusiasmado com essa revolução. Muito parecida com a nossa, segundo ele. Acha que devíamos dar o exemplo e reconhecê-la.

— Henry Adams previu tudo isso há vinte anos. — Burden de súbito recordou a alegria com que Henry Adams falara de guerras, revoluções e a inevitável decadência da civilização.

— Ele ainda está vivo? — Wilson apertou uma campainha.

— E muito. Mas nunca sai de casa, nunca faz visitas. Ainda mora do outro lado da rua, ali. — Burden apontou na direção do Parque Fayette enquanto Brooks, o criado negro de Wilson, entrava no quarto. Então Burden apertou a mão do Presidente. — O senhor terá tudo que quiser no dia 2 de abril.

— Quantos votarão contra?


  • Uns dez, no máximo.

— O senhor me incentiva, senador.

— E o senhor me inspira, Presidente.

— Este era o meu propósito. — Novamente o sorriso frio. — Agora, queria apenas inspirar a mim mesmo.

Com a ajuda de Brooks o Presidente saiu da cama. Edith levou Burden até o elevador.



  • Ele não dorme bem — informou.

  • Nem eu dormiria, numa época como esta.

Uma criada aproximou-se deles com um cesto de nozes.

  • Acabaram de chegar, Srta. Edith. Foi o serviço concreto que trouxe.

— Obrigada, Susan. Leve-as ao Sr. Wilson. — Edith abriu a porta do elevador. — Ainda acontecem coisas engraçadas — co­mentou. — Susan está conosco há vinte anos, mas levávamos uma vida tão tranqüila que ela ainda está em choque por viver aqui. Resolveu que o Serviço Secreto é o "serviço concreto", e não há quem a corrija. — Edith ia acrescentar alguma coisa, mas disse apenas: — Adeus.
5
Armado de crachá e documentos, Blaise Sanford entrou no Ca­pitólio, na parte do Senado. Além do que parecia ser toda a força policial de Washington, havia soldados postados em todas as en­tradas, como se uma invasão fosse iminente, ou seriam eles próprios invasão? Haveria lei marcial? Blaise fez a pergunta a si mesmo.

O próprio Blaise redigira um editorial altamente equilibrado para o Tribune dessa manhã, para tristeza dos redatores, que se mostra­vam abertamente desrespeitosos para com qualquer coisa que ele. ou Caroline escrevesse. O Tribune era essencialmente republicano e pró-Aliados, graças à influência de Blaise, com concessões ocasionais aos democratas graças à antiga amizade de Caroline com James Burden Day. Quando os irmãos discordavam num assunto qualquer, ambas as posições recebiam espaço igual, para consternação daqueles poucos cidadãos de Washington que levavam os editoriais a sério.

Uma chuva fina e quente anunciava a chegada da primavera. Iluminado por baixo, o domo do Capitólio parecia uma lua corcunda e branca, de encontro ao céu negro. Havia um aroma de narcisos e lama no ar, mas o costumeiro cheiro de cavalos estava ausente. Dizia-se que a recente ida de carruagem do Presidente para o Capi­tólio, para seu discurso inaugural, tinha sido a última que um Presi­dente jamais faria: finalmente o mundo era de Henry Ford. Blaise refugiou-se sob o portão de carruagens, onde essa noite nem carros nem carruagens eram permitidos, assegurando assim que todos ficassem igualmente, democraticamente, molhados.

Felizmente o Congresso funcionava no interior, dê modo que nenhuma conspiração do Senado poderia impedir a passagem de César. Agora jornalistas, diplomatas, esposas e crianças convergiam para o Capitólio, onde cada um que era admitido recebia uma pe­quena bandeira americana, presente de um patriota desconhecido, porém bem-organizado.

Na rotunda principal, Blaise foi abordado pelo editor do Atlan­tic Monthly, Ellery Sedgwick.

— Vou tentar entrar para ver o Presidente — disse este. — Ele está no Salão de Mármore. Venha, vamos cumprimentá-lo. Tumulty me fez membro temporário do Serviço Secreto. Foi a única maneira de eu poder entrar.

Blaise consultou o relógio: 8:30h. O discurso estava marcado para as 8:30h. Mas no Congresso nada acontecia ria hora marcada. Os senadores ainda estavam entrando no plenário da Câmara onde, por falta de cadeiras, muitos teriam que ficar de pé.

— Depois vou visitar Henry Adams. Você vai? Um jantar informal. Ele vai.

Sedgwick indicou Henry Cabot Lodge, que estava virado na direção deles. Cabelos brancos, barba branca, rosto branco, o senador Lodge acenou-lhes; as narinas dilatavam-se de excitação. Como o homem de Theodore Roosevelt no Senado, ele era o líder dos parti­dários da guerra.

À porta do Salão de Mármore um homem do Serviço Secreto montava guarda. Quando os dois editores tentaram entrar, ele os impediu.

— A Sra. Wilson acaba de dirigir-se para a galeria, e ele está quase pronto. É melhor ir tomar seu lugar, Sr. Sanford.

Quando Blaise fez menção de obedecer, avistou o Presidente. Wilson estava parado no centro do aposento ornamentado. Estava só, de costas para a porta, olhos baixos. Na mão esquerda segurava as fichas onde seu discurso estava escrito. Blaise achou que o mo­mento era íntimo demais para ser observado mas, assim como Sedg­wick, ficou paralisado quando Wilson atravessou o aposento lenta­mente, como um homem num sonho, até um grande espelho empoei­rado. Então Blaise viu o rosto do Presidente refletido: ele parecia ter-se desmoronado. A boca pendia pateticamente aberta, e a papada derramava-se por sobre o colarinho alto e engomado. Os olhos es­tavam arregalados e fixos, ao passo que os músculos do rosto estavam frouxos. Se isso fosse Paris e o Presidente um vagabundo francês, Blaise poderia identificar a droga que ele andara tomando: ópio. Mas ali era o Capitólio e o Presidente era um puritano. Abrupta­mente Wilson tomou consciência da imagem que Blaise podia ver no espelho. Com ambas as mãos empurrou o queixo para cima, esticou as bochechas, pestanejou; a boca firmou-se. Num instante era nova­mente o esguio, inflexível e carrancudo Woodrow Wilson, cujos olhos claros e frios eram agora atentos como os de um caçador. Devida­mente percebida a metamorfose, Blaise afastou-se, sem querer que o Presidente soubesse ter sido observado.

Nas galerias apinhadas, grandes damas imploravam um lugar, enquanto plenipotenciários ameaçavam guerra, em vão. Felizmente o diretor-executivo do Tribune ocupava o assento de Blaise e cedeu-o a ele. Ao lado dele estava Frederika, parecendo pálida, jovem, con­tida. Junto a ela encontrava-se o colega de Blaise, o dono de jornal Ned McLean, com a esposa Evalyn, ornada de diamantes, cada um mais azarado que o outro, a julgar pelo que a imprensa — a imprensa deles — dizia.

— Blaise, meu velho!

Ned estendeu a mão por cima de Frederika. Blaise apertou-a. Não gostava de ser chamado de "meu velho" — nem de qualquer outra coisa — por Ned, um jovem idiota insuportável, que em se­guida estendeu-lhe uma garrafinha de prata.

— Isto pode ficar muito árido, sabe?

Ned arregalou os olhos comicamente. Parecia um comediante do cinema, pensou Blaise recusando a garrafinha, da qual Evalyn bebeu um longo gole.

— Uma hora ridícula para declarar guerra — comentou ela, enxugando os lábios com a mão coberta pela luva enfeitada em re­levo, em cujos dedos brilhavam diamantes. — Oito e meia, imagine! Bem na hora em que estamos começando a pensar em jantar. Não é mesmo, Frederika?

— Mas nós nunca pensamos nisso. Apenas jantamos. Não é, Blaise?

Blaise assentiu, olhos postos na galeria em frente, onde, de um modo ou de outro, Caroline conseguira colocar-se entre duas das filhas do Presidente. A Sra. Wilson tomava agora o seu lugar com sorrisos simpáticos e acenos aos amigos no pavimento inferior.

— Lá está a viúva Galt.

Como tantas senhoras de Washington, Evalyn gostava de retra­tar os Wilson como um casal amoroso, dado a infindáveis prazeres carnais.' Blaise estava com Evalyn no teatro quando o Presidente apareceu em público com a viúva Galt pela primeira vez; ela usava o que pareciam ser todas as orquídeas da estufa da Casa Branca. Evalyn perguntara:

— O que é que vocês acham que eles vão fazer depois do teatro?

Frederika respondera:

— Ela vai comer as orquídeas e depois vai para a cama.

Abaixo deles, Brandegee, o elegante senador de Connecticut, fez uma mesura profunda aos senhores da imprensa. Brandegee tentara convencer Blaise a concorrer ao Senado por Rhode Island, onde a campanha seria relativamente barata, certamente mais barata do que o custo de manter a casa que Blaise herdara em Newport:



  • Você vai gostar do Senado — dissera o senador. — Apesar de alguns penetras, é o melhor clube do país.

Blaise, porém, não tinha interesse na carreira pública. O poder era outra coisa, naturalmente, e um proprietário de jornal tinha mais poder que a maioria das pessoas — ou a ilusão de poder, que era, talvez, só o que existia. O rosto desfigurado de Wilson no espelho já estava gravado na memória como uma dessas imagens chocantes e jamais esquecidas. Se aquilo era o poder verdadeiro, Blaise estava disposto a passar sem ele. O rosto de Wilson revelara não exata­mente angústia, mas puro terror.

Do salão abaixo Burden acenou para eles. Estava num grupo de senadores democratas, ao fundo.



  • Alguém viu o discurso? — Ned McLean assumiu o que julgava ser a expressão inteligente requerida do editor do Washington Post numa ocasião tão importante.

— Não — fez Blaise.

Ele tentara de tudo — despesa não é problema, como dizia Hearst — para conseguir uma cópia, através de um amigo do estenógrafo do Presidente, Charles L. Gwen. Mas, aparentemente, o próprio Presidente datilografara o discurso na noite de 31 de março até a madrugada de domingo, 1º de abril — Dia dos Bobos. Blaise ainda não conseguia compreender essa ocasião, essa guerra.

Embora Wilson tivesse tido uma reunião com o Gabinete, não lhe mostrou o discurso. E afirmou que ainda estava indeciso quanto a pedir uma declaração de guerra ou dizer simplesmente que, como já existia realmente um estado de guerra, o Congresso devia dar-lhe os meios para combater. Ressalvados alguns detalhes técnicos, o Ga­binete mostrou-se unânime a favor da guerra.

Logo abaixo de Blaise, Josephus Daniels, o pacifista secretário da Marinha, com aparência bastante bélica, tomava seu lugar, com o resto do Gabinete e o Supremo Tribunal. O vice-presidente estava agora em seu trono junto ao do presidente da Casa. Acima de suas cabeças um relógio redondo informava as horas: 8:40h.



  • Ele está atrasado — disse Frederika.

— Você soube que agora há pouco — Ned inclinava-se sobre a grade — alguém deu um soco em Cabot Lodge? Veja aquele olho! Inchadíssimo!

— Quem foi? — Frederika era profundamente interessada nas formas mais primitivas de guerra.



  • Um pacifista — fez Ned.

— Que engraçado! — Evalyn retirou da bolsa um par de bi­nóculos de ópera cravejados de diamantes e focalizou-os em Lodge. — Deve ter sido um peso-pesado...

O presidente da Câmara pôs-se de pé, olhos na porta defronte a seu palanque.



  • O Presidente — anunciou; e acrescentou, quando o salão ficou em silêncio: — dos Estados Unidos.

O Supremo Tribunal levantou-se em primeiro lugar, e em seguida todos o fizeram, no salão e nas galerias. Então Woodrow Wilson, muito ereto, até mesmo rígido, entrou no recinto. Parou por um momento. Na imobilidade geral, o único som era o da chuva tambo­rilando na clarabóia. Então os aplausos irromperam como trovões. Wilson desceu apressado o corredor até a tribuna, indiferente às mãos estendidas. Subiu à tribuna; voltou-se e cumprimentou com um gesto de cabeça o vice-presidente e o presidente da Câmara. Depois sentaram-se todos, e o processo histórico começou.

Wilson ergueu as fichas acima da estante e discursou como se para elas. Mas a voz era firme, e a cadência, como sempre, de uma beleza fora do comum. Blaise não achava que a voz parecesse ame­ricana ou inglesa — a primeira, toda nasalidade, e a segunda, toda balbucio. A voz de Wilson era um agradável equilíbrio entre as duas.

— Senhores do Congresso. — Um breve olhar de polidez por cima das fichas; depois passou a dirigir-se a seu texto com mais intimidade: — Convoquei o Congresso para uma sessão extraordi­nária porque existem decisões muito sérias a serem tomadas ime­diatamente...

Wilson expôs sucintamente o problema. Mas, como ele ensinava História além de agora também fazê-la, era obrigado, na grandiosa tradição daqueles que devem guerrear, a invocar um Princípio Mais Elevado do que meramente raiva, sentimentos feridos ou ataques a pessoas ou propriedades americanas.

— A guerra submarina alemã contra o comércio é uma guerra contra a humanidade — afirmou.

Blaise sentiu-se fraco de repente: os americanos iam lutar, real­mente lutar, na França, o país onde ele tinha nascido e crescido. Estava com 42 anos; devia entrar na guerra pelos dois países.

Tudo parecia, irreal: o salão mal iluminado, a chuva de abril na vidraça, os rostos tensos, para não mencionar as orelhas, muitas delas envoltas por mãos em concha, de estadistas meio surdos ten­tando amplificar a voz da nação que rompia seu longo silêncio — desde quando? Gettysburg? "Última das melhores esperanças da Terra?" Governo do, para e pelo povo. Todos esses conceitos defi­nitivos, perfeitos, únicos, para descrever mera política. As nações eram organismos incorpóreos; daí a extraordinária oportunidade para um orador eloqüente, numa apropriada noite chuvosa de abril, de­nunciar a ambição coletiva, embora incipiente, da tribo. Já que uma oportunidade dessas poderia nunca repetir-se, Blaise sabia o que vinha a seguir; e veio.

— O desafio é dirigido a toda a humanidade. Cada nação tem que decidir por si como vai enfrentá-lo. — Que faria então, pergun­tou-se Blaise quase rindo, o Paraguai? Ou a Costa do Ouro? Ou o Sião? Wilson enfiou com firmeza o primeiro prego no lindo caixão da paz: — A neutralidade armada, pelo que parece, é impraticável. — Mais pregos: — Há uma opção que não podemos fazer, somos incapazes de fazê-la: não escolheremos o caminho da submissão...

Um suspiro profundo percorreu o aposento, e depois algo que soou como um tiro. O Presidente, perplexo, ergueu os olhos, no momento em que o presidente do Supremo Tribunal, um sulino idoso e corpulento, erguia as mãos bem alto e batia palmas, como um sinal de batalha, e as tropas, se é isto que somos, pensou Blaise, bradaram em uníssono — inclusive ele próprio. Ned McLean soltou um grito rebelde e tomou outro gole da garrafa. Os olhos de Evalyn brilhavam como diamantes. No outro extremo do salão, Caroline sentava-se imóvel entre as filhas de Wilson, que aplaudiam. Vai haver muita discussão ainda nas reuniões de pauta do jornal, pensou Blaise.

O rosto de Wilson estava algo menos pálido depois dessa demonstração, e a voz mais forte ao enfiar o último prego:

— Com uma profunda consciência do caráter solene e até mes­mo trágico do passo que estou dando...

Blaise perguntou-se: trágico para quem? Para os mortos, é claro. Mas Wilson estava dizendo que a nação encontrava-se agora sujeita a uma tragédia como nação? Uma massa tão grande de pessoas dife­rentes entre si poderia compartilhar uma coisa tão elevada, terrível

e íntima como uma tragédia? A tragédia era individual, pelo menos assim fora incorretamente ensinado a Blaise. Então ele entendeu: Wilson referia-se a si mesmo: "... o caráter trágico do passo que estou dando". Isso era nobreza, até mesmo loucura. Era verdade que naquele momento Wilson era a personificação de um povo; mas o momento passaria e outros homens vaidosos, alguns até mesmo sen­tados agora nesse aposento, tomariam seu lugar.

— Recomendo ao Congresso declarar o comportamento recente do Governo Imperial Alemão nada menos que um ato de guerra contra o Governo e o povo dos Estados Unidos...

Wilson colocava na Alemanha a culpa da guerra; depois pedia a guerra. Novamente os aplausos foram puxados pelo presidente do Supremo, obviamente bêbado e agora aos prantos. Brados soavam. Alguma coisa começava a romper-se; seria a civilização? Blaise não era entusiasta desse conceito vago, mas essa definição nebulosa não era melhor que homens ladrando como cães, uivando como lobos?

Como se tivesse previsto o tumulto que estava provocando em volta da fogueira tribal, Wilson passou depressa para um terreno ele­vado, sagrado:



  • Estamos no início de uma era na qual será necessário que os mesmos padrões de conduta e de responsabilidade pelo mal co­metido observados pelos cidadãos dos países civilizados sejam obser­vados pelas nações e seus governos.

Frederika, surpreendentemente, cochichou ao ouvido de Blaise em tom irônico:

  • Ele conhece o Sr. Hearst?

Blaise quase soltou uma gargalhada; ela tinha pelo menos rom­pido o feitiço que o pajé estava jogando em seus silvícolas embria­gados pela guerra.

— Ou o coronel Roosevelt — Blaise cochichou de volta, para irritação da agora emocionada Evalyn. Ned dormia.

— ... lutar assim para a definitiva paz mundial e para a libertação de seus povos, inclusive os povos alemães; pelos direitos das nações, grandes e pequenas, e o privilégio dos homens em toda parte de escolherem seu modo de vida e de obediência. O mundo precisa ser tornado seguro para a democracia.

Uma pessoa começou a aplaudir muito alto.

O Presidente já começara a frase seguinte quando interrompeu-se, como se só agora cônscio da importância do que dissera. O aplau­so começou a crescer quando outras pessoas aderiram. Blaise perguntou-se com desânimo: o que é a democracia? E como ela ou qual­quer outra coisa tão indefinível podia ter a certeza da segurança? A escravidão humana era algo tão específico que podia-se realmente fazer do mundo um lugar perigoso para ela florescer; mas a democracia, o que era, afinal? Tammany Hall? As lideranças do Partido Democrata? O dinheiro? Alguma vez já houvera tantos milionários nesse Senado democrático?

Blaise ergueu o olhar para o relógio. Eram agora 9:15h. O Presidente estava discursando havia quase meia hora. A magia estava solta no recinto, vozes ancestrais tinham iniciado seus sussurros, e velhas canções de guerra soavam no tamborilar da chuva: pois esta­remos unidos em torno da nossa bandeira, rapazes, estaremos nova­mente unidos, entoando o brado de guerra da liberdade. O pajé-guerreiro soltava agora seu feitiço definitivo: — É uma coisa terrível levar este povo grandioso e pacífico à guerra, à mais terrível e trágica de todas as guerras, em que a pró­pria civilização parece estar em jogo. Mas o direito é mais precioso que a paz, e lutaremos pelas coisas que sempre trouxemos em nossos corações...

Ah, sim, pensou Blaise. Vamos matar pela paz! Frederika quebrara o feitiço para ele; no entanto, ele reconhecia a sua potência; via-a agir nos silvícolas lá embaixo, que dedicavam ao pajé não apenas a sua confiança como também a sua fúria, a qual, por sua vez, alimentava a fúria do pajé. Assim, magia cria magia.

— ... com o orgulho daqueles que sabem que chegou o dia em que a América terá o privilégio de dar seu sangue...

Ali estava, finalmente, o objetivo da cerimônia: sangue. Estavam agora mergulhando na pré-história, em volta da fogueira. San­gue! E agora, a bênção celeste para a tribo. Ela veio, na última frase: — Com a ajuda de Deus ela não poderá agir diferente. Portanto ali estava: no final o protestante Martinho Lutero. Nunca Blaise sentira-se mais católico.

Wilson ergueu o olhar para as galerias. Seus olhos estavam bri­lhantes e arregalados, e... ele estava nesse momento a sós consigo mesmo ou unido aos caçadores que o cercavam? Blaise não soube a resposta, pois todos ficaram de pé, inclusive ele próprio e o cam­baleante Ned, braços rodeando frouxamente o pescoço de Evalyn.

Blaise debruçou-se para observar o Presidente descer o corredor até a porta. Lodge adiantou-se um passo — o rosto definitivamente, agradavelmente, inchado — para apertar a mão de Wilson e mur-

murar algo que fez o Presidente sorrir. Logo atrás de Lodge sentava-se o grande La Follette, braços cruzados para mostrar que não estava aplaudindo o pajé, e lentamente, ritmadamente, mastigando chicletes.



  • Quem pode acreditar que ontem mesmo a maioria era a favor da paz? — perguntou Blaise a Frederika enquanto abriam caminho no corredor apinhado.

— Você acha que eles sabem mesmo o que estão fazendo? Quero dizer, é bastante divertido... para os homens. E imagino que deve haver dinheiro nisso.

  • Muito dinheiro, acredito, para aqueles que são...

Blaise perguntou-se: são o quê? Afinal, ele era filho e neto de ricos. O fato de não ter vontade de aumentar sua fortuna — ao contrário da circulação do Tribune — não significava que ele era diferente do Sr. Baruch, o especulador nova-iorquino que comprara um lugar importante no Partido Democrata como financiador do próprio Presidente, para lucrar com a troca. Mas o Sr. Baruch não merecia mais censuras por seu singelo desejo de ganhar dinheiro do que todos os membros milionários do Clube do Senado, que só dife­riam dos membros pobres por sua atitude quanto à transitoriedade.

Caroline interceptou-os no corredor pintado, que cheirava a lã úmida e uísque: a garrafinha de Ned McLean não tinha sido a única.

— Prometi ao tio Henry que iria fazer-lhe o relatório. Ele pro­meteu que vai nos dar jantar.

Blaise disse não; Frederika disse sim; de modo que todos em­barcaram no Pierce-Arrow de Caroline.



  • Como foi que você acabou sentada com os Wilson? — Frederika freqüentemente fazia as perguntas de Blaise por ele.

— Estou cultivando o Sr. McAdoo porque ele quer ser Presidente também, e sempre gosto mais das mariposas antes que elas saiam do casulo.

  • Como é que você faz para cultivar alguém como Eleanor McAdoo?

Frederika tinha o velho senso de irrealidade de Washington quando se tratava do teatro federal, que mudava seu programa a cada quatro ou oito anos — às vezes mais depressa, se acontecesse de um ator ser, excitantemente, assassinado.

— Começo sendo extraordinariamente simpática com a irmã feia, Margaret. Isso me dá cartaz com todos da família.



  • Como você é astuta!

O tom de Frederika era amigável. Blaise decepcionava-se cons­tantemente com a falta de atrito entre as cunhadas. Ele esperava mais tragédia entre as duas senhoras Sanford, particularmente numa cidade tão pequena. Mas cada uma ficava em seu terreno; e quando a nobre Frederika Sanford recebia no palácio de Blaise na Avenida Connecticut, Caroline muitas vezes aparecia para sorrir para a velha Washington, o mundo de Frederika, e para os velhos fidalgos repu­blicanos que cortejavam Blaise, que os festejava. A corte de Caroline em Georgetown era menor e mais seleta. Os jantares nunca eram para mais de dez pessoas. Os convidados de Caroline eram famosos por sua conversa; isso significava mais estrangeiros que americanos, e dos americanos, mais habitantes de Nova York do que da velha Washington.

A partida dos Roosevelt da Casa Branca devolvera a cidade à sua tradicional monotonia rural. Embora o Presidente Taft, gordo e de mau gênio, fosse pintado como muito simpático e alegre, graças à incapacidade dos jornalistas de fugir ao lugar-comum, ele e sua presunçosa esposa não tinham sido um grande enredo para o espe­táculo federal. A chegada dos Wilson tinha sido excitante; ela, porém, adoecera, e ele, já uma pessoa distante, transformara-se sim­plesmente em seu cargo. Isso significava que o eloqüente Presidente era proeminente e vitorioso em público, ao passo que em particular o erudito Woodrow Wilson ficava escondido no andar superior da Casa Branca, cuidando da esposa doente e adorado pelas filhas.

Os esforços de Caroline para ingressar na Casa Branca dos Wil­son tinham sido, no máximo, tíbios. Como pessoas, eles não lhe interessavam; mas agora, com esse novo acontecimento, tudo devia ser visto sob uma luz diferente, sombria. A história começava a dar um salto para a frente, ou para trás, ou o que fosse; e Wilson estava montado na fera, como o velho John Hay costumava dizer do pobre McKinley. De repente até Edith Wilson começara a brilhar a meia distância, ao passo que a guerra tinha criado um halo em volta da cabeça eqüina da Srta. Margaret Wilson.

O idoso criado de Henry Adams — tão velho quanto ele? Não, ninguém poderia ser tão velho — conduziu-os ao escritório, que ti­nha sido para Caroline o centro de toda a sua vida em Washington, ao mesmo tempo sala de aula e teatro, onde reinava Henry Adams, pequeno, rosado, calvo e de barbas brancas, neto e bisneto de dois ocupantes da Casa Branca do outro lado da rua. Era ele o historia­dor da velha república e, com seu irmão Brooks, profeta e vidente do império mundial que estava por vir, se é que estava.

O ancião recebeu-os diante de sua lareira modestamente espeta­cular, entalhada num bloco de ônix verde mexicano cravejado de escarlate, acima da qual via-se o desenho que William Blake fizera do louco Nabucodonosor comendo capim, para Adams um lembrete constante do ridículo que costuma ensombrear a grandeza humana. Nos vinte anos em que Caroline conhecia Adams, nem o belo apo­sento com seus móveis pequenos, na escala de Adams, nem seu pro­prietário, tinham mudado muito; apenas, muitos dos ocupantes das poltronas tinham partido, ou por morte, como John e Clara Hay, construtores em conjunto daquele duplo palácio românico no Parque Lafayette, ou por mudança para a Europa, como Lizzie Cameron, amada por Adams, agora em pleno verão de seus dias, cortejando furiosamente os jovens poetas na verdejante primavera dos deles. Para encher sua vida e seus aposentos, Adams contratara uma secre­tária, Aileen Tone, uma dama tão devotada quanto ele à música do século XII, visivelmente representada a um canto da biblioteca por um piano Steinway, o equivalente a uma aliança de casamento para Caroline, que ficava muito feliz ao ver o ancião tão bem cuidado. Como sempre, havia "sobrinhas" presentes. Caroline tinha sido uma sobrinha, em sua época. Agora consolidara-se a amizade, paixão essencial do círculo de Adams.

Adams abraçou Caroline como a uma sobrinha; e fez uma me­sura para Blaise e Frederika. Como os reis, ele não apreciava muito o aperto de mãos.

— Ele conseguiu! Estou atônito. Agora contem-me, como é que ele se saiu?

Adams sentava-se numa poltrona especial, colocada de forma a ter a luz do fogo por trás; mesmo assim seus olhos pestanejavam sem parar, como os de uma coruja ao meio-dia. Caroline incentivou Blaise a descrever o que acontecera no Capitólio; e Blaise, como sempre, foi preciso, até mesmo sensível aos detalhes. Caroline ficou particularmente impressionada, assim como Adams, pela cena diante do espelho.

— Que quer dizer isso? — Caroline fingiu inocência, a qualidade que Adams menos apreciava.

— Ele está comprometido demais. É isto que quer dizer. — Adams estava deliciado. — De qualquer maneira, finalmente acon­teceu.

— O senhor aprova? — Caroline esperava a costumeira negativa engenhosa, típica de Adams; em vez disso, surpreendeu-se com o entusiasmo do ancião.

— Sim! Pela primeira vez na vida estou com a maioria, pelo menos entre as pessoas que conheço, e não ouso pronunciar uma única palavra de crítica. Toda a minha vida desejei um tipo qual­quer de comunidade atlântica,, e agora aí está ela! Vamos combater lado a lado com os ingleses. É bom demais para ser verdade. — Ele sorriu o famoso sorriso brilhante e amargo. — Agora posso pensar na ruína total de nosso velho mundo mais filosoficamente do que jamais julguei possível.

— O senhor vê tudo acabar-se em ruínas?

Caroline pensou: Blaise ainda era bonitão — uma grande concessão, já que, como o de Lizzie Cameron, seu gosto agora começava a voltar-se para a juventude nos homens.



  • Bem, as coisas se acabam. Afinal, não previ isso desde o início? Desde o início dos tempos, é o que me parece agora. E não estava certo? A Revolução Russa, tudo previsto por mim. Bem, Brooks também merece algum crédito. É estranho como nos senti­mos donos de nossas profecias...

— A não ser que estejam erradas — interpôs Caroline.

Então Eleanor Roosevelt e sua secretária social, uma bela lourinha, entraram no aposento, trazendo consigo o frio.

— É culpa de Caroline — Eleanor desculpou-se. — Eu ia dire­tamente para casa do Capitólio, em tal estado, quando ela disse que o senhor poderia receber-nos, e quem quer ficar sozinha neste mo­mento?


  • Onde está o seu marido? Não precisa me dizer. No Departamento da Marinha, ordenando o almirante Dewey a dominar a Irlanda.

— Enterramos o almirante há dois meses.

Caroline achou a secretária de Eleanor extraordinariamente en­cantadora e maravilhou-se com a coragem de Eleanor em empregar alguém tão mais atraente do que ela. A não ser, naturalmente, que Eleanor estivesse apaixonada no sentido souvestriano.



  • Mandem o caixão para a Irlanda.

Adams mostrava-se exuberante, enquanto William servia cham­panhe. No aposento ao lado fora posta a mesa. Eleanor olhou para ela fixamente, quase que nostalgicamente. Gostava de comer, Caroline tinha percebido; no entanto servia a pior comida de Washington.

— Franklin está no Departamento da Marinha, com o Sr. Daniels. Está tudo começando a acontecer. Minha cabeça está girando. Estou feliz por termos o Sr. Wilson morando aqui em frente.

— Ora, criança!

Caroline reconheceu o tom especial, ancestral, da voz de Adams ao profetizar desgraças. Ele prosseguiu:

— Não faz diferença para o curso da história quem mora naquela casa. Nunca fez. A energia, ou a falta dela, é que determina os acontecimentos.

— Não diga isto ao Franklin, por favor — Eleanor mostrou-se inesperadamente firme. — O senhor não devia desencorajar qual­quer pessoa jovem e idealista, que poderia alcançar algo maravilhoso.

Quando Eleanor percebeu ter-se tornado de repente o centro das atenções, a pele prateada tornou-se rosa-escuro — a rosa puri­tana, pensou Caroline, que apreciava tanta nobreza doce e sem senso de humor.

— Acho que ele talvez seja exatamente a pessoa a quem eu deveria dizê-lo. Ah, os fidalgos chegaram. Como os magos. Minha estrela, sem dúvida. Bem-vindos à minha manjedoura, ou manger à la fourchette.

À porta postava-se Sir Cecil Spring Rice, o embaixador britânico, com o senador Henry Cabot Lodge, cujo rosto vermelho e in­chado causou muita alegria a Adams, que gostava de atormentar seu antigo aluno de Harvard. Enquanto Blaise, Frederika e Eleanor dirigiam-se à mesa do bufê, Caroline e a secretária social permaneceram para saudar os fidalgos.

Spring Rice era velho amigo da velha Washington. Tinha sido designado para a embaixada na juventude; ingressara no cerne do círculo de Adams, conhecido como o Cinco de Copas; tornara-se o maior amigo de Theodore Roosevelt, e padrinho do segundo casa­mento do viúvo. Agora, velho e doente, voltava em triunfo como embaixador inglês em Washington. Usava uma barba loura e bri­lhante como a do seu rei; seus olhos não eram muito diferentes dos de seu Presidente. Ele estava, pensava-se com muita insistência, morrendo.

— O senhor venceu. — Spring Rice deu a Adams um exuberante abraço à francesa.

— Sempre venço, Springy. Quem o feriu, Cabot?



  • Um pacifista. Mas o senhor devia...

  • Falar com ele. Conheço todo o jargão mais recente da sua encantadora Praça Scollay. Quem haveria de pensar que Wilson al­gum dia teria coragem?

Spring Rice indicou Lodge.

— Ali está o apoio dele. Com alguma ajuda de Theodore, nossa tarefa está cumprida, isto é, apenas começada. — Pegou uma taça de champanhe na bandeja de William e ergueu-a. — Agora começa tudo.

Aquela parte da sala bebeu solenemente.

— Nossa última sessão de relaxamento. — Lodge sorriu dentro da barba para o embaixador.

Este explicou:


  • Nos dois últimos anos, sempre que eu estava prestes a explo­dir por causa da eterna, indecisão do Sr. Wilson, Cabot deixava que eu fosse ao escritório dele e falasse mal do seu governo até o ataque de raiva passar. Daí chamarmos de sessão de relaxamento.

  • Pobre Springy — fez Adams.

— Agora feliz — retrucou Lodge.

  • Os Aliados vão querer tropas americanas?

Caroline conhecia a resposta que os leitores do Tribune não conheciam e que o Presidente evitara, a não ser pela única referência ao "privilégio" de derramar o sangue americano.

— Com certeza seremos o cofre — afirmou Lodge. — Fornecendo armas. Dinheiro. Comida. Só isso.

Spring Rice sorriu para Caroline.


  • Só isso! — ecoou, e em seguida acrescentou, com a ansiosa indiscrição do diplomata profissional diante da platéia apropriada: — Porém o Sr. Wilson realmente disse algo estranho ao Sr. Tumulty no caminho de volta à Casa Branca...

  • O senhor já está sabendo o que ele disse? — Adams parecia um duende jovial, pestanejando à luz.

— O serviço de informações inglês nunca dorme, ao contrário dos governos ingleses...

  • Que foi que ele disse a Tumulty?

Lodge ficou alerta de repente. Embora fosse compreensível que seu amigo Roosevelt não gostasse do pacífico professor que tomara seu lugar como chefe de Estado, a aversão de Lodge tinha algo de estranho, Caroline sempre pensara, como se um erudito da altaneira Harvard tivesse sido suplantado por um de Princeton, inferior; na realidade, a pior crítica de Lodge a qualquer discurso de Wilson era que, embora apropriado, talvez, para Princeton, não estava à altura dos padrões de Harvard. Naturalmente, Lodge fora o único intelectual na alta política até que Wilson, no espaço de dois anos, saíra de Princeton para o governo de Nova Jersey e daí para a Pre­sidência. Nunca houvera um progresso tão rápido para uma pessoa que não fosse um general. Embora fosse natural que Lodge sentisse ciúmes, por que até esse ponto? Talvez Alice Longworth estivesse certa quando, no enterro da Sra. Lodge no ano anterior, tinha dito: "Cabot vai ficar impiedoso sem a irmã Anne".

— Enquanto o carro passava pela multidão que aplaudia, entre as compridas fileiras de soldados sombrios e molhados, em posição de sentido... — Spring Rice sorriu para Caroline. — Está vendo como dou colorido a meus frios relatórios políticos?

— Como eu — assentiu Caroline. — Mas, talvez, se é que eu posso ser editorial, menos adjetivos, mais verbos.

— Mais luz — foi a contribuição de Adams.

— Que foi que ele disse, afinal? — Lodge era como um terrier idoso, olhos fixos no buraco da toca do rato.

— O Presidente disse: "Ouviu os aplausos?"



  • Vaidade de professor! Não. Não, vaidade de pregador de Maryland! — Lodge descobrira seu pior epíteto.

— Mas ele tinha razão — interpôs Caroline. — Eu estava lá. Parecia uma trovoada, ou...

  • Um dique rompendo-se? — Spring Rice forneceu a imagem jornalística.

— Na realidade, nunca escutei um dique no momento do rom­pimento. — Caroline manteve a fleuma.

— Que foi... Que foi que ele disse? — Lodge mexeu-se como um terrier.



  • Se parar de me interromper, Cabot, eu lhe conto. Ele disse: "A minha mensagem era uma mensagem de morte aos nossos jovens. Como é que eles podem aplaudir isso, pelo amor de Deus?"

  • Covarde! — desferiu Lodge.

Caroline voltou-se para Lodge e sem qualquer parcela de seu eterno, pelo menos lhe parecia, tato, desfechou de volta:

— Isto não fica bem, vindo de alguém velho demais para lutar.

— Caroline... — Adams prendeu-lhe o braço com o seu. — Leve-me para comer. — Mas foi Adams quem levou a trêmula Caroline; o ancião tranqüilizava-a: — Não adianta censurar os entusiastas. Eles são como pequenos motores automáticos. Usam qualquer energia que houver no ar, e hoje há uma grande quantidade.


  • Demasiada para mim. Desculpe-me.

Adams deu-lhe um tapinha no braço; depois voltou-se para seus outros convidados.

A conversa era agora generalizada. Os líderes dos Aliados logo estariam em Washington. Arthur Balfour, secretário do Exterior e chefe de Spring Rice, seria o primeiro a chegar, antes dos franceses, Caroline percebeu, aceitando de — como era mesmo o nome dela? Lucy de alguma coisa — pato frio en gelée da mesa cujo esplendor à luz de velas estava mais para o Faubourg Saint-Germain do que para o Quincy de Adams em Massachusetts. Acontecia que todos os anos, até o início da guerra, Henry Adams estabelecia-se em Paris, onde fazia a corte a Lizzie Cameron, meditava sobre a música do século XII e denegria seu próprio e muito elogiado Mont-Saint-Michel and Chartres, tantas décadas sendo escrito e agora, desde 1913, um livro publicado, que o público não era convidado por seu irritadiço autor a comprar ou ler. No entanto, Caroline nunca poderia ter vivido na América -— ou pelo menos em Washington — sem o sempre sábio, sempre benévolo Henry Adams, tido pelos não "so­brinhos" como sublimemente cáustico e rígido a serviço da verdade.



  • Não gosta do Sr. Lodge?

A voz de Lucy era baixa, com sotaque ligeiramente sulino. Era a popular convidada extra sempre vista nos jantares maiores, mais do que nos menores, na zona oeste de Washington. Quem era ela? Caroline, que não se interessava pelas questões genealógicas que sustentavam a vida social da cidade, tinha, como autodefesa, decorado as infinitas ramificações de quem era parente de quem, evitando a famosa pergunta quando um nome novo era pronunciado: "Então, afinal, quem é ela?" — estabelecendo o lugar da esposa no esquema das coisas. "Saint-Simon sem o rei" era um artigo que ela pretendia escrever para o Tribune até Blaise ironizar, com a maldade sincera de um irmão: "E sem Saint-Simon também."

O rosto pálido de Lucy brilhava à luz da lâmpada. "Cútis de pétala de camélia", uma expressão muito usada pela Dama da So­ciedade do Tribune. Olhos azul-escuros. Eleanor devia adorar Lucy, uma versão linda de si mesma. O que teria — aliás, o que não teria — dito Mlle. Souvestre?

— Conheço o Sr. Lodge há tempo demais para não gostar dele. É uma das coisas inevitáveis daqui. Naturalmente cu preferiu u mulher dele, Nannie. E ela era chamada de Irmã Anne...


  • O Sr. Roosevelt o admira...

— São grandes amigos.

  • Estou falando do seu Sr. Roosevelt.

Os olhos eram lindos, Caroline concluiu. Mlle. Souvestre teria aprovado. E Lucy era também, de alguma forma, uma Carroll de Carrollton, portanto uma católica romana, o que também teria agradado Mademoiselle, que, como a maioria dos ateus franceses, respeitava a igreja. Lucy Mercer. Caroline ficou aliviada ao lem­brar-se. Afinal, se ela não conhecesse melhor que um nativo a sua cidade de adoção, não tinha o direito de publicar um jornal familiar para famílias em sua maioria políticas. O pai de Lucy, major Carroll Mercer, fundara o mais elegante clube campestre da cidade, na aldeia de Chevy Chase, em Maryland, onde o quadro de membros era tão seleto que Woodrow Wilson recusava-se a jogar golfe lá enquanto o jovem Sr. Roosevelt o fizesse.

Aileen Tone juntou-se a eles. Não era em absoluto uma pessoa apagada, como as acompanhantes deveriam ser.

— Não desisto de tentar convencer Lucy a cantar conosco, o Sr. Adams e eu, mas ela não quer.

— Porque você se lembra de mim na juventude. Agora com a idade avançada, sou barítono — disse Lucy. — Você se lembra do meu soprano de adolescência.

— Perfeito para Richard Coeur de Lion. — Aileen voltou-se para Caroline. — Estamos estudando as notações musicais antigas, tentando verificar como soava a música do século XII. Estamos fa­zendo progressos, eu acho, com a canção de prisioneiro de Richard.

Oh, Richard, oh, mon roi, tout le monde t'abandonne — Ca­roline grasnou a balada francesa, tão amada, por razões óbvias, por Marie-Antoinette.

— Século XVIII — informou Aileen. — Linda, é claro...

— Já fui atacado hoje. — O senador Lodge estava ao lado de Caroline. — Mas respondi com um soco poderoso de direita. Agora...

— O senhor vai usar seu soco poderoso de esquerda em mim? — Caroline sorriu com doçura.



  • Não. Sempre reajo à altura. Você me acusa, eu acuso você.

— Ah, meu Deus. — Aileen parecia assustada. — O Sr. Adams não vai gostar.

  • Eu ia apenas responder com um elogio a observação de Caro­line de que sou velho demais para lutar. Ela é esperta demais para não saber por que chamei Wilson de covarde. Deveríamos ter en­trado na guerra na época do Lusitania mas ele temia perder os votos das pessoas de dupla nacionalidade. Porque não existe Partido De­mocrata sem os alemães e os irlandeses.

— Os alemães geralmente votam nos republicanos — começou Caroline.

  • Porém, se ele apoiasse uma guerra contra a Alemanha naquela ocasião, todos votariam contra ele. — O tom de Lodge era suave. — E existem 12 milhões deles entre nós, inclusive os judeus alemães, como Kuhn, Loeb e Warburg, que odeiam a Inglaterra e amam o kaiser, e agora que o nosso bom Sr. Morgan está morto, não há quem consiga mantê-los na linha. O medo que tem deles fez Wilson fingir neutralidade. Mas uma vez conseguidos os votos deles, e também os dos irlandeses, ele agora entra no último ato para re­clamar uma grande vitória, de modo que consiga ser o nosso primeiro presidente com três mandatos.

Caroline apreciava a coerência de estadista de Lodge. Pelo que ela sabia — aliás, pelo que ele também —, ele acreditava no que estava dizendo. Mas o espírito travesso a dominava.

— Vi o senhor apertar-lhe a mão depois do discurso. Que foi que disse a ele?

Lodge foi magnífico:


  • Eu disse... que poderia ser? "Sr. Presidente, o senhor expressou de maneira majestosa' os sentimentos do povo americano."

— "Peque com audácia!" — Caroline lembrou-se dessa frase quando Wilson inesperadamente colocou-se no papel de Martinho Lutero.

Lodge pareceu sobressaltado; e então lembrou-se da referência.

— Só mesmo um católico conhece Martinho Lutero...

— Eu não conheço — fez Lucy, acenando para Eleanor.

— Não é apenas bom protestantismo, é também bom-senso — declarou Caroline.

— Neste caso, então, qual é o pecado? — Lodge soava como se estivesse ensinando catecismo.



  • O orgulho, senador Lodge.

  • Que mais, Sra. Sanford?

— Que mais existe? Que mais provocou a queda de Lúcifer?

  • Lúcifer era o filho da manhã. Wilson é um professorzinho, nada mais.

— Ele é o nosso filho da manhã, Cabot. E com todo orgulho. E pecando corajosamente através desta guerra, que o senhor adora e ele, para seu crédito, não.

— Como é que você sabe que ele não adora, ou que eu sim? — O rosto de Lodge estava pálido, à exceção da face direita, onde o soco do pacifista acertara. — Ele é traiçoeiro. Hipócrita. Corajoso, também, pelo menos como pecador. Sim, talvez esteja certa. Mas se ele não adora, como a senhora diz, esta guerra, deve admitir que ama a si mesmo e sua glória, e talvez não seja diferente de...

— Reconheço, Cabot. O Lúcifer é você! — Caroline estava aturdida de fúria; e de tristeza, também.

— Eu? — Lodge recuou um passo, como se para evitar um segundo soco no mesmo dia. — Lúcifer?

— Curioso — fez Henry Adams, que aparecera num passe de mágica. — Deus nada tem a dizer de inteligente em qualquer parte de O Paraíso perdido, ao passo que todas as palavras de Lúcifer são arrebatadoras, o que o torna bem diferente do nosso querido Cabot,

— Está vendo? — Lodge sorriu para Caroline. — Vou deixar que coloque o Sr. Wilson no grandioso papel satânico. Mas lembre-se, é ele, e não eu, quem sofreu a queda, está caindo...

— Mas Lúcifer levou consigo vários outros anjos. — Milton começava a dançar na cabeça de Caroline.

— Eu lhe juro que Cabot teria permanecido em segurança no Céu, junto ao trono de Deus, como líder da maioria, cantando hosa­nas — disse Henry Adams.

— Isto é porque venho de Boston, onde os Lowell só falam com os Cabot e só eu posso falar com Deus.

Caroline perguntou-se se alguém que ela conhecia na América seria agora morto na guerra que na semana anterior arrebatara, aos cinqüenta anos, seu meio-irmão favorito, o príncipe Napoléon d'Agrigente. Plon estava no quartel-general de seu regimento, numa fá­brica de papel perto do rio Somme. Houve um bombardeio durante a noite. No dia seguinte o corpo dele só foi identificado por causa de uma cigarreira de ouro, amassada, na qual suas iniciais entrelaçavam-se às de uma dama desconhecida de Caroline, como sem dúvida também da viúva dele. Embora Plon não fosse muito mais jovem que o senador Lodge, ele insistira em voltar ao regimento ao qual, para fins ornamentais, fora ligado. Enquanto sorria calorosamente para Cabot Lodge, Caroline desejava, com a maior sinceridade, que ele estivesse no centro gelado do inferno.


DOIS

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