Glossário



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GLOSSÁRIO

Darwinismo - é o conjunto de teorias sobre a origem e a evolução dos seres vivos sintetizadas na década de 1940 e que derivaram dos trabalhos dos britânicos Alfred Russel Wallace e Charles Darwin, em especial o livro "A Origem das Espécies", publicado por Darwin em 1859. Seus principais pontos são a idéia da seleção natural, ou seja, a produção aleatória de variabilidade genética numa população aliada à sobrevivência diferencial de certos indivíduos portadores de variações (mutações) favoráveis; o gradualismo na maior parte dessas mudanças; e a idéia de que todos os organismos da Terra descendem de um ancestral comum

Criacionismo - movimento que defende que a narrativa da criação do livro bíblico do Gênese reflete exatamente os eventos que levaram ao surgimento da Terra e do Universo. Rejeita a escala de tempo cosmológica e geológica, argumentando que o Deus bíblico criou o cosmos em poucos dias e que a Terra não tem mais que poucos milhares de anos de idade. Explica as extinções pelo dilúvio da Bíblia.

Design inteligente - afirma ser uma corrente científica, que não segue determinação religiosa. Argumenta que grande parte das estruturas biológicas são complexas demais para terem surgido de acordo com o modelo darwinista de acúmulo gradual de modificações aleatórias. Ao criticar o que considera "buracos" na teoria evolutiva, como o súbito aparecimento de formas de vida espantosamente variadas no Período Cambriano, vê a necessidade de um "designer", um projetista inteligente. Esse ser não é identificado pela corrente.

OS MITOS DA CRIAÇÃO

A EVOLUÇÃO É UMA TEORIA, NÃO UM FATO
O jogo de palavras pode confundir a princípio. Mas todas as idéias científicas são "teorias": a relatividade, o quantum, o Big Bang. O darwinismo, em sua forma atual (após a síntese evolucionista da década de 1940) tem passado em sucessivos testes. Os projetos genoma têm mostrado mais semelhanças no seu DNA à medida que os organismos compartilham um ancestral comum mais recente. Humanos e camundongos, ambos mamíferos, têm muito mais genes em comum que humanos e vermes, por exemplo.

AS EVIDÊNCIAS FÓSSEIS NÃO APÓIAM A EVOLUÇÃO
O registro fóssil é por definição incompleto. A fossilização é um evento raro e depende de uma série de fatores. Apesar disso, o registro tem várias séries de fósseis que mostram claramente a evolução. Para citar apenas dois exemplos, a transição dos pelicossauros (répteis do Período Permiano) para os terápsidos, cinodontes e mamíferos está mais do que documentada, assim como a evolução dos cavalos modernos a partir de um ancestral do tamanho de um gato, o Hyracotherium.

ACEITAR DARWIN SIGNIFICA NEGAR A RELIGIÃO
Apesar de ter banido as explicações sobrenaturais do mundo biológico, a teoria de Darwin não está obrigatoriamente associada com o ateísmo. O biólogo russo Theodosius Dobzhansky, o maior evolucionista do século 20, era cristão praticante. O americano Francis Collins, coordenador do Projeto Genoma Humano, também é religioso, e diz que a batalha entre evolução e criacionismo é "desnecessária".

OS PRÓPRIOS DARWINISTAS DUVIDAM CADA VEZ MAIS DA EVOLUÇÃO
Segundo John Rennie, editor-chefe da revista "Scientific American", nenhuma evidência sugere que o darwinismo esteja perdendo pesquisadores. Não há publicação científica que conteste a evolução. Nos anos 1990, um cientista da Universidade de Washington pesquisou milhares de artigos em revistas científicas em busca de publicações sobre design inteligente ou "ciência da criação". Não achou nenhum. Uma busca feita no início desta década pelos americanos Barbara Forrest (da Universidade da Louisiana) e Lawrence Krauss (da Case Western Reserve) deu o mesmo resultado.

É MATEMATICAMENTE IMPROVÁVEL QUE ESTRUTURAS ALTAMENTE ESPECÍFICAS COMO UMA PROTEÍNA OU UMA CÉLULA APAREÇAM POR ACASO
Dizer que a evolução acontece "por acaso" é uma das leituras erradas mais comuns do darwinismo. A evolução pela seleção natural é um duplo mecanismo: ela só pode funcionar com a geração casual de variações entre os indivíduos e a eliminação nada casual de variações indesejáveis. A seleção natural pode, sim, empurrar a evolução e produzir estruturas "sofisticadas" em pouco tempo. O acaso tem um papel no "pontualismo" -eventos externos, como a queda de um asteróide, que alteram o curso da evolução.

MUTAÇÕES NÃO PRODUZEM NOVOS TRAÇOS E A BIOLOGIA MOLECULAR NÃO APÓIA A EVOLUÇÃO
Muito ao contrário. A biologia molecular confirmou que todos os seres vivos compartilham um só código genético e explicou como a variação pode surgir. Os biólogos moleculares também catalogaram diversas mutações pontuais, nas quais uma única "letra" é trocada na seqüência do DNA, capazes de produzir efeitos complexos. No grupo de genes conhecido como homeobox, essas mutações podem alterar o número de patas de um animal. "Uma única mutação, a bithorax, dá um novo par de asas a uma mosca", diz Paolo Zanotto, da USP.

A política do design

Coordenador de núcleo brasileiro de design inteligente aponta "improbidades científicas" em livro didático de biologia

DA REDAÇÃO



0 design inteligente, ferramenta do criacionismo, é um "movimento filosófico e de ação política" que tem como objetivo influenciar o conteúdo dos livros didáticos em relação às "falhas" e "omissões" cometidas por eles ao ensinar aos estudantes a teoria da evolução pela seleção natural, que sofreria de uma "total insuficiência epistêmica".
As aspas são de Enézio E. de Almeida Filho, um professor do ensino médio que coordena o Núcleo Brasileiro de Design Inteligente. Classificando a teoria de Darwin como "zona de incerteza científica", Almeida Filho fez uma conferência durante o encontro criacionista atacando os livros didáticos de biologia do Brasil. Segundo ele, a abordagem da evolução nos livros não cumpre os pré-requisitos do Ministério da Educação de despertar a consciência crítica nos estudantes do segundo grau.
"Nós não temos exatidão no conhecimento que é passado e não existe objetividade porque existe, sim, uma defesa de uma ideologia. [Isso] é negado, mas é uma ideologia materialista e atéia."
O professor insistiu em classificar os ataques da tese do planejamento inteligente à evolução de Darwin como "um debate entre ciência e ciência". Não explicou por que razão além de "preconceito" do establishment científico o argumento do design tem sistematicamente falhado em cumprir o preceito básico da investigação científica: a validação pelos pares, em forma de publicação em periódicos especializados.
Até hoje, nenhum artigo científico criacionista ou de design inteligente foi aceito para publicação em periódicos de alto impacto e que possuem o sistema de validação pelos pares (conhecido em inglês como "peer review"), como o norte-americano "Science" (www.sciencemag.org) e o britânico "Nature" (www.nature.com). O único caso em que isso aconteceu foi na revista "Proceedings of the Biological Society of Washington", que acolheu um trabalho sobre design inteligente em agosto passado.
O editor do periódico na época em que o artigo foi aceito pertencia a uma sociedade defensora de idéias criacionistas. E a Sociedade Biológica de Washington, que publica a revista, admitiu que o artigo não era apropriado e foi ao prelo sem conhecimento do seu conselho editorial.
Em sua conferência, Almeida Filho se dedicou a atacar as "improbidades científicas" do livro de segundo grau "Fundamentos da Biologia Moderna", de José Mariano Amabis e Gilberto Rodrigues Martho.
Sua principal reclamação é que os autores aceitam sem questionamentos as evidências em favor da teoria darwinista -cujas fraquezas, diz, são freqüentemente discutidas na literatura científica especializada.

Goela abaixo
Um exemplo de suposta "fraqueza" da teoria da evolução que os livros didáticos empurrariam goela abaixo dos estudantes é a chamada explosão cambriana, ocorrida há cerca de 570 milhões de anos, na qual todos os filos existentes de animais já aparecem formados. O mistério para os paleontólogos é como isso aconteceu num intervalo tão curto do tempo geológico, já que os primeiros seres multicelulares do planeta haviam surgido menos de 100 milhões de anos antes -e antes disso, ao que tudo indica, apenas seres unicelulares dominaram o planeta por mais de 2 bilhões de anos.
"Esse aí é o calcanhar-de-aquiles da teoria da evolução, quando ela deixa de lidar nos livros didáticos a respeito da explosão cambriana e o que isso representa para a suficiência científica da teoria", disse Almeida Filho, sustentando que os avanços da paleontogia estão fazendo os darwinistas duvidarem do darwinismo em suas bases fundamentais.
Não é isso o que dizem os paleontólogos. A explosão cambriana é sem dúvida um dos tópicos mais quentes da biologia evolutiva e tem causado arranca-rabos monumentais entre os cientistas. Mas nenhum deles jamais pôs a evolução em questão. "O que nós discutimos de maneira ética os criacionistas manipulam", diz o paleobiólogo Reinaldo José Bertini, da Unesp de Rio Claro.
A explosão cambriana, explica Bertini, foi um aumento em dez vezes no número de espécies animais conhecidas num intervalo pequeno de tempo geológico. Mas há hipóteses para explicá-la. Na época, a Terra acabava de sair de uma glaciação que cobriu a maior parte do planeta. O fim da era do gelo liberou boa parte dos ambientes para os animais, que se diferenciaram para explorar os novos nichos ecológicos. O debate está longe de ser resolvido, mas, na academia, não envolve a invalidação do evolucionismo.
Outro exemplo de "improbidade" apontado no livro de Amabis e Martho é a ilustração da famosa série de embriões de vertebrados desenhada em 1874 pelo alemão Ernst Haeckel para ilustrar o princípio da recapitulação. Essa idéia, segundo a qual durante o desenvolvimento (ontogenia) os animais mostram traços de um ancestral comum ("recapitulam a filogenia", no dizer dos biólogos), foi usada por Darwin como confirmação de sua teoria -e até hoje não foi provada falsa.
Acontece que Haeckel, ao desenhar vários embriões de vertebrados extremamente parecidos como exemplo de recapitulação, cometeu uma série de distorções. Uma delas, admitida por ele mesmo na época, foi fazer um embrião de cachorro passar por embrião humano.
A fraude de Haeckel foi redescoberta por um grupo de pesquisadores britânicos em 1997. Em um estudo na revista "Anatomy and Embryology", eles mostraram que, na verdade, os embriões eram bem menos semelhantes entre si do que faziam supor os desenhos do alemão.
Almeida Filho citou uma reportagem publicada em 1997 na revista "Science" comentando a fraude para desqualificar Haeckel e Darwin -e, no balaio, todo o princípio da recapitulação. "Olha o aspecto ideológico", comentou. "As distorções levaram Darwin e Haeckel à crença de que os vertebrados recapitulam a filogenia durante a ontogenia. Mas os cientistas já estão carecas de saber que isso não é verdade."

Evidência suprimida
O argumento seria forte, se sobrevivesse ao escrutínio. Na mesma revista "Science", alguns meses depois, os autores do estudo original escrevem: "Nosso trabalho tem sido usado num debate televisivo nacional para atacar a teoria da evolução e sugerir que a evolução não pode explicar a embriologia. Nós discordamos fortemente. Os dados embriológicos são totalmente consistentes com a evolução darwinista".
Em uma carta à mesma publicação, o autor principal, Michael Richardson, lamenta: "Estou preocupado em descobrir que posso ter ajudado a criar um mito criacionista". Os adeptos do design não citam nem artigo, nem carta, fazendo exatamente o que criticam nos biólogos evolucionistas: suprimir evidências.
Mais tarde, questionado por alguém na platéia sobre as evidências da evolução trazidas pela biologia molecular, o coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente afirmou que, na verdade, essa disciplina traz "evidências desfavoráveis àquilo que é preconizado como sendo fato da evolução". Mas admitiu: "Não tenho, no momento, uma literatura que eu poderia indicar". (CA)

+ ciência

Conferência em São Paulo expõe o ideário do criacionismo, movimento que diz que a evolução está condenada e quer ver o literalismo bíblico nas escolas

Seleção sobrenatural

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

0 conhecimento revelado e o conhecimento científico têm naturezas e propósitos distintos." Quem ouvisse a frase de Euler Pereira Bahia na quinta-feira retrasada, durante a abertura do 5º Encontro Nacional de Criacionistas, poderia respirar com alívio. Ali estava o reitor de uma instituição criacionista, o Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo), aparentemente se aliando com o que muita gente considera apenas bom senso: ciência e religião são domínios importantes, mas não se misturam.


O alívio, como se verificaria, foi temporário. O que se seguiu à fala do reitor foram quatro dias de ataques à evolução pela seleção natural, a teoria proposta pelos naturalistas britânicos Charles Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1919) em 1858 que explicou como as espécies se originam e que baniu para sempre o sobrenatural da biologia.



Para a geóloga criacionista Elaine Kennedy, as evidências disponíveis não autorizam estabelecer uma idade jovem ou antiga para a Terra



As estocadas foram desferidas principalmente pelos chamados "cientistas da criação", cristãos evangélicos que levam a Bíblia ao pé da letra e que costumam defender o ensino do livro do Gênese nas escolas para explicar o surgimento e a evolução da vida.


Também compareceram ao encontro proponentes do chamado design inteligente, tese que luta para ganhar o rótulo de "científica" ao postular que a imensa complexidade dos seres vivos não pode ser explicada pela seleção natural, mas é produto de um "planejamento".
A conferência foi realizada de 20 a 23 deste mês e acompanhada pela reportagem da Folha. Na programação, palestras de estudiosos membros de instituições adventistas dos EUA e do Brasil, sob títulos sugestivos como "domando os dinossauros" e "estratificação espontânea", além de uma discussão seríssima sobre se havia morte e decomposição no Éden (o conferencista, um americano, ponderava se os caroços de maçã se acumulavam eternamente no chão do Paraíso).
No final, uma excursão geológica e paleontológica, dedicada a mostrar supostas evidências de que a Terra tem menos de 10 mil anos de idade e foi realmente assolada pelo dilúvio.

Sinais nas rochas
A julgar pela conferência da geóloga norte-americana Elaine Kennedy, do Geosciences Research Institute (um instituto de pesquisas criado por adventistas de sétimo dia em Loma Linda, no Estado da Califórnia), as evidências do dilúvio estão em toda parte -até mesmo em inocentes cristais de calcita.
Na palestra, intitulada "Dados e Interpretação: Conhecendo a Diferença", Kennedy argumentou que, em ciência, tudo que não são medições em campo ou laboratório são interpretações do cientista. E que dados podem ser interpretados de várias formas -concluindo, com isso, que as geociências e a Bíblia têm exatamente o mesmo peso na explicação da estrutura da Terra. "Todas as interpretações científicas são subjetivas e enviesadas", afirmou.
Admitindo ela mesma ter lá seu "viés" de interpretação, a geóloga mostrou à platéia um slide do padrão de refração da luz sobre uma fina fatia de calcita. Fatiar rochas e minerais e olhá-los contra a luz é um procedimento bastante usado para descobrir sua composição química.
"Este é o meu favorito, porque você vê nele um arco-íris circular e uma cruz negra", sorriu. "Por meio da tecnologia, você pode ver a mensagem de Deus e a promessa do Dilúvio", declarou a americana, a uma platéia maravilhada.
Kennedy foi mais longe: disse não acreditar no principal lema das ciências geológicas -o presente é a chave para o passado- porque a Bíblia diz que isso é falso e que "as evidências disponíveis não autorizam estabelecer uma idade jovem ou antiga para a Terra".
Admitiu, no entanto, que o "paradigma do dilúvio" não consegue explicar uma coisinha: por que a sucessão de fósseis animais em camadas de rocha diferentes ao longo das eras é tão consistente em todo planeta. "Como é que existem fósseis jurássicos em rochas jurássicas na América do Norte, fósseis jurássicos em rochas jurássicas na América do Sul e fósseis jurássicos em rochas jurássicas na Europa? Eu, como criacionista, não consigo explicar isso."
Numa segunda conferência, sobre dinossauros, colocou como uma "questão pendente" a existência de grandes carnívoros, como o Tyrannosaurus rex, atribuindo seu tamanho exagerado a uma alteração devido aos efeitos do pecado original.

Momento
"O criacionismo não é apenas ciência sem fundamentos, como religião anacrônica", disse o teólogo Eduardo R. da Cruz, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Mas é um anacronismo que está ganhando momento, admite Cruz. No Rio de Janeiro e na Bahia, a explicação bíblica para a criação já é ensinada nas escolas públicas. Uma pesquisa feita pelo Ibope sob encomenda da revista "Época" e publicada em janeiro mostra que 89% dos brasileiros acham que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas.
"Na periferia, o criacionismo corre solto. E não pode ser simplesmente reprimido", afirmou o teólogo. A infiltração se dá por meio das igrejas pentecostais, cuja presença é forte nas zonas mais pobres e que acabam abraçando o literalismo bíblico.
Nem todos os criacionistas, diga-se logo, querem a Bíblia como livro-texto nas aulas de ciências. "A ciência atual não aceita Deus e a criação", diz Márcia Oliveira de Paula, da Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo), organizadora do encontro. "Mas, numa aula de ciência, apresentar uma teoria que tenha apoio divino não funciona." Segundo ela e outros criacionistas brasileiros, o lugar para esse tipo de ensinamento são as aulas de religião. Que não podem ser ministradas em sua forma confessional em escolas públicas no Brasil, um Estado laico.
Nos EUA, país onde o fundamentalismo cristão produziu o "criacionismo científico" nos anos 1960, o quadro é diferente. Batalhas judiciais têm sido travadas nas últimas semanas para estabelecer o ensino das idéias sobre a criação bíblica, levantando, ao mesmo tempo, questões sobre a "credibilidade" do darwinismo. A última delas foi vencida pelos criacionistas no distrito escolar de Dover, no Estado da Pensilvânia. Outra, sobre adesivos em livros didáticos no condado de Cobb, Geórgia, foi perdida por eles.
Cruz afirma que o movimento criacionista ainda pode crescer no Brasil. "A maioria católica nem sabe o que está em jogo", afirma.
Para o físico e colunista da Folha Marcelo Gleiser, da Universidade Dartmouth, em New Hampshire (EUA), os cientistas precisam reconhecer que o criacionismo não pode mais ser ignorado. Até agora, a atitude de biólogos evolucionistas como o paleontólogo americano Stephen Jay Gould (morto em 2002) e o etólogo britânico Richard Dawkins -que eram adversários intelectuais- tem sido simplesmente se recusar a debater com os criacionistas. "Só aparecer no mesmo tablado que eles é emprestar-lhes o respeito que eles desejam", escreveu Dawkins a Jay Gould em 2001. Numa atitude rara, o americano concordou.
"Os cientistas têm de acordar para a importância sociocultural do movimento criacionista", diz Gleiser. "Alegar que o debate dá credibilidade àqueles que não a merecem é uma postura ineficaz e perigosa. Se consideramos o criacionismo como uma doutrina errônea, devemos explicar à sociedade por quê."
O teólogo da PUC dá como exemplo dessa negligência o lançamento no Brasil (em 1997) do livro "A Caixa Preta de Darwin", do americano Michael Behe, da Universidade Leigh, estrela do design inteligente. Na obra, Behe desfia a "complexidade irredutível" das biomoléculas, que só poderia ser resultado de um planejamento inteligente. "O livro foi ignorado. Há uma discussão ali que não pode ser ignorada", afirmou.

Coelho cambriano
Por enquanto, nada muda o fato de que o criacionismo, ao contrário do darwinismo, segue sem confirmação. "Peça a eles um único [fóssil de] coelho no [Período] Cambriano e eu me rendo", diz o virologista Paolo Zanotto, da USP. "Enquanto isso, vamos explicando a vida segundo a evolução." O padre e paleontólogo italiano Giuseppe Leonardi prefere separar as coisas. Questionado uma vez por um jornalista sobre se via conflito entre sua vocação e sua profissão de caçador de fósseis -portanto, evolucionista-, disse que não. E sorriu: "Deus não quer cientistas. Deus quer cristãos."

+ ciência

Bíblia é fonte fidedigna de informação, dizem adventistas

Em busca das origens

MARCIA OLIVEIRA DE PAULA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O criacionismo surgiu nos meios protestantes norte-americanos no século passado e procura explicar a origem do universo, da Terra, da vida e do homem da maneira como descrita no relato contido na Bíblia. Mesmo considerando que essa base comum fundamenta todas as teses criacionistas, há diversidade na interpretação. Os adventistas do sétimo dia fazem uma interpretação literal do relato bíblico e acreditam que ele seja uma fonte fidedigna para o entendimento dos momentos cruciais da história de nossos primórdios, como, por exemplo, a criação da vida na Terra e dos seres humanos.


Um fórum nacional para discussão sobre os temas das origens têm sido os encontros nacionais de criacionistas, promovidos pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) desde 1993, a cada três anos. Neles são discutidas a elaboração de modelos criacionistas que expliquem as origens, bem como relatados os resultados de pesquisas científicas seguindo esses modelos.
São discutidas também as dificuldades que o modelo evolucionista tem em explicar a origem da vida e a macroevolução, incluindo o problema da origem da informação genética e o aumento da complexidade nos seres vivos durante o processo evolutivo. Os palestrantes desses encontros têm sido doutores de universidades brasileiras e do exterior e pesquisadores do Geoscience Research Institute, dos EUA. O público atingido por esses encontros é bastante diversificado, incluindo desde pesquisadores e professores até estudantes universitários e profissionais liberais.
No 3º Encontro, realizado em 1999, foi criado o NEO (Núcleo de Estudo das Origens), que é um grupo interdisciplinar para o estudo do criacionismo. Dos dias 20 a 23 de janeiro de 2005, foi realizado 5º Encontro Nacional de Criacionistas, com o tema "Perspectivas Atuais da Relação entre Ciência e Religião". Durante esse evento, foram tratados temas como a integração entre fé e ciência, pelo dr. Leonard Brand, que também lançou o livro "Fé, Razão e História da Terra", no qual ele procura demonstrar quais são as limitações da pesquisa científica e de que modo a Bíblia, como um livro revelado por Deus, pode auxiliar na busca de explicações sobre as origens. Também foi abordado o design inteligente, que se caracteriza pela busca de evidências de planejamento e atividade inteligente na natureza e como isso se relaciona com o criacionismo.
Durante esse encontro, a questão do ensino do criacionismo foi discutida em uma mesa redonda sobre os desafios de se trabalhar as relações entre ciência e religião na rede adventista de ensino, de forma que se permita ao aluno construir suas competências científicas e manter viva sua experiência religiosa. Os adventistas têm estado envolvidos na produção de livros didáticos de ciências e paradidáticos sobre o criacionismo, para os alunos de suas escolas, embora não estejam envolvidos em qualquer movimento que pretenda tornar o tema obrigatório na escola pública, devido ao caráter leigo desse sistema.

Marcia Oliveira de Paula é coordenadora do Núcleo de Estudo das Origens do Centro Universitário Adventista de São Paulo

Assalto ao coração da biologia

O criacionismo e o design inteligente não têm o status de ciência

JOSÉ MARIANO AMABIS
ESPECIAL PARA A FOLHA

A edição de 25 de janeiro da revista inglesa "New Scientist" veicula uma notícia intitulada "Vitória da evolução na justiça". Ela se refere à proibição judicial de o governo do condado de Cobb, no Estado da Geórgia (EUA), obrigar os livros de biologia a trazer uma tarja com os dizeres: "Evolução é uma teoria, não um fato". A medida foi considerada pela corte como propaganda religiosa, o que é ilegal em escolas que recebem financiamento público.


Esse é apenas um exemplo das contínuas tentativas realizadas por alguns grupos religiosos para solapar o ensino da evolução nas escolas americanas. No Brasil, o movimento criacionista e sua corrente-irmã, o design inteligente, apoiados por políticos oportunistas locais, arvoram-se em incluir suas idéias no currículo escolar de ciências biológicas, em detrimento do ensino da evolução.
Considerar as idéias criacionistas e do chamado design inteligente como teorias científicas e colocá-las em pé de igualdade com o evolucionismo é deturpar o significado dos termos "teoria" e "ciência". No contexto científico, teoria refere-se a uma explicação abrangente e bem consolidada de algum aspecto do mundo natural, que pode incorporar fatos, leis, inferências e hipóteses passíveis de teste. Ciência, por sua vez, pode ser definida como um processo que tenta encontrar explicações para os fenômenos naturais por meio de inferências lógicas baseadas em observações empíricas.
O criacionismo e o design inteligente não têm status de ciência, pois não geram hipóteses que possam ser testadas e não se pautam por inferências lógicas com base em observações empíricas do mundo natural. O criacionismo se baseia em dogmas relatados no livro do Gênesis. O chamado design inteligente se preocupa em encontrar falhas nos testes das hipóteses geradas com base nos princípios darwinistas, sem apresentar teorias próprias ou hipóteses que possam ser submetidas a testes científicos.
Sua principal plataforma é que a ciência ainda não tem explicações definitivas para a origem da vida e para uma reconstituição minuciosa, passo a passo, de como, a partir de organismos simples, surgiram formas mais complexas de vida. Para os defensores da idéia de design inteligente, o que é ainda um mistério hoje continuará misterioso para sempre e melhor do que procurar explicações com base no método científico é invocar forças sobrenaturais.
O evolucionismo, por outro lado, parte do princípio de que não há verdades inquestionáveis e que sempre existe a possibilidade de uma explicação considerada verdadeira estar errada. As idéias atualmente aceitas pela ciência são aquelas que, depois de testadas exaustivamente, não foram refutadas. Mesmo assim, as explicações científicas nunca são consideradas verdades absolutas; elas são aceitas enquanto não existirem motivos para se duvidar de sua veracidade, isto é, enquanto não forem refutadas pelos testes.
A teoria da evolução biológica vem resistindo a todos os testes a que tem sido submetida, sendo a única explicação racional e coerente para o conjunto de fatos sobre a vida em nosso planeta. O evolucionismo é o tema unificador de todos os campos das Ciências Biológicas: como disse o célebre geneticista Theodosius Dobzhansky (1900-1975), "nada faz sentido em biologia a não ser sob a luz da evolução".

José Mariano Amabis é professor do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências USP e autor de livros didáticos

Espécies guerreiras

MARCELO GLEISER
COLUNISTA DA FOLHA

Quando pensamos em guerra, imaginamos logo seres humanos, em geral homens, se matando do modo mais eficaz possível. Não percebemos que animais também guerreiam, principalmente em conflitos entre grupos organizados. É verdade que formigas muitas vezes entram em combate. Mas são os chimpanzés, nossos primos mais próximos, e os lobos, que têm a tendência de se organizar em grupos de machos, em geral aparentados, para defender seu território e matar inimigos.





A violência é produto de sociedades com desequilíbrio de poder. Quando dois grupos se respeitam, raramente entram em conflito



Segundo Richard Wrangham, professor de antropologia biológica da Universidade Harvard, o estudo das atividades guerreiras de chimpanzés e lobos tem muito a dizer sobre as nossas. Grupos vizinhos de chimpanzés defendem seus territórios ativamente, patrulhando fronteiras e, às vezes, invadindo território alheio à procura de comida. Assim que avistam seus inimigos, a gritaria começa. Se um deles cair nas mãos de adversários, será morto ou ferido gravemente. O mesmo ocorre com certas sociedades primitivas, como os danis da Nova Guiné: 28% dos homens são mortos em combate. O resultado é a criação de "zonas de guerra", áreas que delimitam as fronteiras. Essas áreas, por serem perigosas, são também as menos exploradas e, portanto, com maior abundância de comida. No caso de lobos, as zonas de guerra são onde veados e outras presas são encontradas em maior número. Para os chimpanzés, são onde há frutas. A região de desmilitarização entre a Coréia do Norte e a do Sul é onde se encontra o maior número de espécies raras ou em extinção no resto da península.


A teoria da evolução explica as vantagens desse impulso combativo: o grupo que mata com mais eficiência em breve obtém uma vantagem no número de guerreiros. Os inimigos, com sua linha de defesa diminuída, não poderão oferecer resistência a futuros ataques. Acabarão por perder o controle sobre terras e recursos. O grupo vencedor aumenta de tamanho, tornando-se cada vez mais forte. A conclusão sombria desse argumento é que, em situações onde existe uma competição por recursos, é vantajoso matar o maior número possível de inimigos, contanto que a atividade seja feita sem grande risco para os agressores. Como escreveu Wrangham, "quando matar for barato, mate".
Segundo essa pesquisa, devido à distribuição de territórios com recursos desiguais e nem sempre rapidamente renováveis, o processo de seleção natural favoreceu nos cérebros de humanos, chimpanzés e lobos a tendência de usar toda oportunidade disponível para matar seus rivais. Os últimos 5.000 anos de história parecem confirmar essa tendência, mesmo que os humanos, com funções cognitivas mais avançadas, justifiquem suas guerras com argumentos diferentes, como vingança, ritos de iniciação de jovens guerreiros, ou como forma de satisfazer a vontade dos deuses.
Esses resultados não implicam que nossa agressividade seja inevitável, que estamos condenados a nos matar. Eles mostram que a violência é produto de sociedades com um desequilíbrio de poder entre grupos vizinhos. Quando dois grupos se respeitam, raramente entram em conflito mortal. Basta ver o exemplo da Guerra Fria. Infelizmente, temos a tendência de identificar inimigos, criar fronteiras entre grupos e explorar a fraqueza dos vizinhos. Reconhecer nossa natureza é o primeiro passo para mudá-la.

Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "O Fim da Terra e do Céu"
A parte do fogo

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

Não foi à toa que o fogo se tornou símbolo da humanidade, da fábula de Prometeu ao filme "A Guerra do Fogo" (Jean-Jacques Annaud, 1981). Talvez tenha sido a primeira tecnologia, permitindo-lhe domar a paisagem, antes mesmo da agricultura -como ferramenta para caçar e abrir caminhos. O que não se sabia é que ele pode ter mudado a face do planeta inteiro.





A pressão das chamas sobre as florestas começou muito antes que qualquer Prometeu andasse sobre a Terra



Como seria a cobertura de vegetação da Terra se não houvesse fogo? A pergunta foi lançada pelo grupo de William Bond, da Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul). Ela surgiu da constatação de que não há correspondência plena entre vegetação e clima globais (há menos florestas do que seria possível) e da hipótese de que incêndios repetidos poderiam explicar essa discrepância. Em artigo no periódico "New Phytologist", eles concluem que é mesmo uma boa explicação.


Bond recorreu aos computadores. Há muito eles são usados para modelar a paisagem e a geografia globais, mas em sentido abstrato: simular o clima futuro. Uma ferramenta desses programas são os modelos dinâmicos globais de vegetação (MDGV). A vegetação influencia o clima, ao absorver radiação solar, ou ao devolver umidade para o ar. E também é afetada por ele, pois florestas não vicejam onde há poucas chuvas.
Em muitas áreas, como partes das savanas na África e na América do Sul (cerrado brasileiro), há precipitação suficiente para sustentar florestas. Predomina aí, no entanto, uma vegetação mais baixa, resistente ao fogo. Não por acaso, são regiões onde queimadas são freqüentes.
A turma de Bond "desligou" o módulo de fogo do MDGV e pôs o computador para rodar algoritmos. Chegou ao mapa de uma Terra mais verde: o quinhão de matas fechadas salta de 27% para 56%. No Brasil, quase todo o cerrado vira floresta amazônica.
Embora o fogo seja largamente utilizado por agricultores dos dois lados do Atlântico, Bond tem o cuidado de ressalvar que a pressão das chamas sobre as florestas começou há pelo menos 6 milhões de anos, com incêndios naturais causados por raios. Muito antes, portanto, de qualquer Prometeu caminhar sobre a Terra.
A questão agora é saber se o emprego do fogo pode acentuar ainda mais essa tendência. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) investiga justamente isso no oeste de Mato Grosso, com o Experimento Savanização: a possibilidade de que a fronteira agrícola (soja e pecuária) deflagre um processo descontrolado de ressecamento da mata de transição que separa cerrado de floresta na região.
Um alerta sombrio veio de outro estudo, chefiado por Gifford Miller (Universidade do Colorado, EUA). Publicado em janeiro no periódico "Geology", afirma que as queimadas dos primeiros humanos na Austrália, há 60 mil anos, diminuíram as chuvas de monção que penetravam de norte para sul no continente. Como resultado, a savana que havia por ali teria cedido lugar a um imenso deserto.
Para garantir a sobrevivência, nada como o fogo do conhecimento.



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