Gastos com saúde no mundo – 2005



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Gilson Carvalho


GASTOS COM SAÚDE NO MUNDO – 2005

Gilson Carvalho1

INTRODUÇÃO
Anualmente a Organização Mundial de Saúde publica seu Anuário Estatístico com dados econômico-financeiros, dados sobre os recursos humanos em saúde e de morbi-mortalidade. Normalmente isto acontece no dia Mundial da Saúde, 7 de abril. Neste ano só se publicaram os dados agora em maio de 2008. Estes dados se referem ao ano de 2005 e contêm informações de 193 com algumas análises por região e por nível de renda dos países.

A íntegra original destes dados se encontra no site da Organização Mundial da Saúde (www.who.int). Estou anexando a este texto um quadro com informações por mim selecionadas referentes ao financiamento da saúde no mundo.


Os comentários que apresento abaixo são de uma análise sumária dos quadros da OMS. Não pretendem nem ser únicos, nem definitivos, nem conclusivos. O quadro anexo está permanente aberto a que qualquer pessoa possa fazer suas análises sobre estes ou quaisquer outros prismas.

ANÁLISE SUMÁRIA


  1. LIMITAÇÃO DAS COMPARAÇÕES.

Todas as comparações claudicam, segundo os latinos. A maneira de agregar valor e diminuir distorções das comparações é a utilização de um combinado de parâmetros e não apenas de um só.


  1. DÓLAR INTERNACIONAL E MONTANTE DO PIB.

Para as comparações financeiras entre países é essencial que se use uma moeda internacional baseada na paridade do poder de compra entre os vários países em comparação. Para isto já está convencionado usar o DÓLAR INTERNACIONAL denominado US$ PPP (paridade do poder de compra) calculado pelo Banco Mundial e usado largamente nos últimos anos.

Exemplo de volume do PIB: Estimativa 2007 FMI – 1º USA com 13,8 tri US$PPP 2º CHINA com 7,0 tri US$PPP.




  1. RIQUEZA MEDIDA PELO PIB PER CAPITA.

O melhor indicador da riqueza de um país não é apenas o montante da riqueza em dólares do PIB em PPP, mas a sua relação com o número de habitantes. É o cálculo de dólar per capita – PC, em PPP.

Exemplo de dólar PC: USA 1º com US$ 45.000 PC (PPP) e a China, segunda economia mundial em volume do PIB, mas que, ao dividir sua riqueza dá apenas US$ 5.300 PC (PPP) e leva a 99 posição em relação ao PIB-PC no rol dos países.




  1. DISTRIBUIÇÃO REAL DA RIQUEZA.

Outra base mais apurada seria analisar a distribuição desta riqueza para ver se há concentração, iniqüidades etc. Usamos em geral esta análise mais complexa, país a país. O valor médio de renda per capita distorce o retrato da realidade e pode esconder a má distribuição de riquezas.

Exemplo: O Brasil, em pesquisa do IPEA em 2005, apresentava uma renda média domiciliar PC de R$330, mas escondia o decil dos mais pobres com apenas R$31 e o decil dos mais ricos com R$1541.




  1. GASTO SAÚDE COMO PERCENTUAL DO PIB.

A medida do gasto em saúde, como percentual do PIB, pode significar o percentual da riqueza nacional como “despesa com saúde”. A importância deste valor deverá ser sempre combinada ao volume do PIB. Países com PIBs altos e que gastam percentual alto do PIB em saúde terão volumes maiores de recursos. Já, países mais pobres, mesmo que utilizem alto percentual do PIB em saúde, não significará mais recursos para a saúde. Outra variável que tem que ser levada em consideração é o tamanho da população. A melhor relação de volume de recursos para a saúde, levando-se em consideração o percentual do PIB é em países ricos de PIB elevado, de % elevado do PIB gasto com saúde com populações menores. Da mesma maneira os piores indicadores serão de países pobres com PIB pobre, percentual baixo destinado à saúde e populações maiores.

Exemplo: 2005 - USA 1º lugar em volume do PIB (US$13,8 tri); 1º lugar em PIB per capita (US$45.000); 1º lugar em % do PIB gasto com saúde (14,2% do PIB);1º lugar em gasto PC com saúde (US$7.500). Em tempo: um sistema de saúde de primeiro mundo, mas, não de primeira qualidade!




  1. RELATIVIDADE DO GASTO SAÚDE PELO % DO PIB.

Para corroborar esta relatividade do % do PIB gasto com saúde podemos tomar outro país para análise.

Exemplo: 2005 – Líbano (13,7%) 2º maior % do PIB gasto em saúde e uma renda PC de apenas US$5.740; Uruguai (12,7%) 3º maior % do PIB gasto com saúde e uma renda PC de apenas US$9.810; Paraguai (10,2%) 12º PIB-SAÚDE com PC-US$4.970; Zimbábue (8,9%) 22º PIB-SAÚDE com PC-US$1.940 .




  1. PERCENTUAL DO PIB GASTO EM SAÚDE EM PAÍSES POBRES.

São 17 os países de maior gasto com saúde em percentual do PIB o equivalente a gastar mais de 10% de seu PIB. Dentre eles 4 têm PC menor de US$10 mil; 1 entre 10 e 20 mil; 2 entre 20 e 30 mil e 6 acima de 30 mil e 4 países sem informação. Se relacionarmos estes países com a mortalidade infantil vamos encontrar nove entre os treze que têm o melhor coeficiente que é o menor que 10/1000 nv e 4 deles com coeficiente maior que 20/1000 nv.


  1. BRASIL E GASTO SAÚDE COMO % DO PIB.

São 35 os países (entre os que informam) que gastam com saúde mais de 8,1% de seu PIB (padrão Brasil). Dentre eles 11 têm PC menor que US$10 mil; 8 entre 10 e 30 mil; 2 entre 20 e 30 mil e 6 acima de 30 mil.


  1. GASTO COM SAÚDE E ALOCAÇÃO PÚBLICA E PRIVADA.

Outra questão é analisar a distribuição destes recursos entre o público e o privado. Vamos ver que existe diferença grande entre os PC utilizados pelos países em relação à população coberta. Se olharmos a distribuição dos recursos estimados de gasto em saúde no Brasil em 2007 podemos mostrar que o sistema privado cuida de cerca de 40 mi de pessoas com um PC de R$1.510 sendo na assistência um PC de R$1.245 que pode ser acrescido de R$265 que é o gasto com medicamentos e com outras despesas extras não cobertas ou mal cobertas pelos planos. De outro lado, o sistema público cuida de todos os problemas públicos e privados em Vigilância Epidemiológica e Sanitária e em regulação, fiscalização e controle do privado. Além disto cuida dos problemas de assistência completa e permanente de 143 milhões. Complementarmente dá assistência (alta complexidade, emergência, cuidados prolongados etc) aos detentores de planos e seguros. A estimativa de 2007 é que o público gaste um PC de R$515 para toda a população brasileira. Este acrescido dos R$265 de recursos privados complementados diretamente pelos cidadãos daria um total de R$780.


  1. GASTO COM SAÚDE E RENDA PER CAPITA.

O gasto com saúde tem ligação direta com a renda per capita da população. Os 25 países com maior renda PC são aqueles que têm maior gasto per capita com saúde.


  1. MORTALIDADE INFANTIL E RENDA PER CAPITA.

Um dos indicadores mais sensíveis à qualidade em saúde é a identificação dos coeficientes de mortalidade infantil. A medida é o número de crianças que morrem antes de completar um ano de vida em relação a cada grupo de mil nascidos vivos. Coeficiente melhor é aquele que mais se aproxima de zero, ainda que seja quase impossível devido às malformações congênitas e aos agravos perinatais. Os países que têm menores coeficientes (abaixo de 10) são aqueles de maior renda. Dos 48 países com mortalidade infantil abaixo de 10/1000 nv temos: 21 com renda PC acima de US$ 30 mil; 11 com PC entre 20 e 30 mil; 10 com PC entre 10 e 20 mil; 2 abaixo de 10 mil. Destes 48 países temos 31 com mortalidade infantil abaixo de 5/1000 nv e todos com renda acima de US$20 mil/PC exceto CUBA com renda PC de US$4.500 .


  1. MORTALIDADE INFANTIL EM PAÍSES ORIUNDOS DO SOCIALISMO REAL.

Dos 12 países com mortalidade infantil abaixo de 10/1000 nv com renda per capita abaixo de 20 mil US (10 entre 10 e 20 mil e 2 abaixo de 10 mil US) 10 países são países da antiga União Soviética e Cuba de orientação socialista e os outros dois são Chile e Malta.


  1. BRASIL, MORTALIDADE INFANTIL E RENDA PER CAPITA.

O Brasil apresenta uma mortalidade infantil de 28/1000 nascidos vivos e está em 112ª colocação. 26 países têm renda PC menos que o Brasil e ostentam mortalidade infantil menor. Dois países, África do Sul e Botsuana, têm renda PC maior que o Brasil e mortalidade infantil também maior.


  1. MORTALIDADE INFANTIL E GASTO SAÚDE PÚBLICO-PRIVADO.

A mortalidade infantil também pode ser comparada entre países com maior ou menor participação do público em relação ao gasto com saúde. Entre os 192 países analisados pela OMS, em seu Anual Report 2008, em 108 países o gasto público com saúde é de mais de 50%. Entre os 192 países 56% (108) têm um sistema com predominância de financiamento público. Dos 48 países que ostentam melhor coeficiente de mortalidade infantil (abaixo de um dígito) 44 países se situam no grupo de predominância de financiamento público em saúde.


  1. MORTALIDADE INFANTIL E GASTO SAÚDE PÚBLICO-PRIVADO.

Em 3 países o gasto público é de mais de 90% e 2 deles com mortalidade infantil (MI) igual ou menor que 5/1000; entre os 7 países com mais de 85% público, 5 têm MI igual ou menor que 5/1000; entre os 19 países com mais de 80% público, 11 têm MI igual ou menor que 6/1000; entre os 58 países com mais de 70% público, 34 (59%) têm MI menor de 8/1000; entre 84 países com mais de 60% público, 41 têm MI menor que 10/1000; entre 108 países com mais de 50% de financiamento público, 44 têm MI menor que 10/1000.


  1. BRASIL E FINANCIAMENTO SAÚDE PÚBLICO-PRIVADO.

O Brasil tem um gasto público decrescente em relação ao privado nos últimos anos. Em 2008 o gasto público representa 44,1% dos gastos totais com saúde. A mortalidade infantil é de 28/1000. Entre os países cujo gasto público com saúde é de menos de 50% apenas contam-se três que apresentam mortalidade infantil menor que 9/1000 nv: USA, Grécia, Chipre e Singapura.


  1. BRASIL, POPULAÇÃO E FINANCIAMENTO SAÚDE.

O Brasil tem a sexta maior população do Mundo só suplantada pela China, Índia, Federação Russa, USA, Indonésia. Dos países com população igual ou maior que o Brasil apenas os USA gastam mais per capita com saúde que o Brasil. Dos países com população maior de 100 milhões apenas USA e Japão gastam mais per capita com saúde que o Brasil e todos têm renda per capita algumas vezes mais que o Brasil. Dos países com população maior que 50 milhões apenas USA, Japão, Alemanha, França, Inglaterra e Itália gastam mais per capita com saúde que o Brasil e todos têm renda per capita algumas vezes maior que o Brasil.


  1. BRASIL E GASTO SAÚDE.

O Brasil, entre gasto público e privado, gastou em 2005 US$755 PPP e está em 58º lugar em relação aos 193 países levantados pela OMS.


  1. EM RELAÇÃO AOS PAÍSES DA OMS, O BRASIL É A 60ª RENDA PER CAPITA; 6º MAIOR EM POPULAÇÃO; 9ª POTÊNCIA ECONÔMICA MUNDIAL; 77ª EM GASTO PÚBLICO PER CAPITA; 45% EM % DO PIB GASTO EM SAÚDE.




1 Gilson Carvalho - Médico Pediatra e de Saúde Pública - carvalhogilson@uol.com.br - O autor adota a política do copyleft podendo este texto ser copiado e divulgado, independente de autorização e desde que sem fins comerciais.






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